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Organizações latinoamericanas discutem certificação orgânica em Encontro no Paraguai

Realizado entre os dias 4 e 6 de setembro em Atyra, no Paraguay, o 2º Encuentro Regional de SPG trouxe representantes de organizações do Brasil, México, Peru, El Salvador, Bolívia, Uruguay e do país anfitrião para debater os desafios e oportunidades para a certificação participativa de alimentos orgânicos. Cerca de 40 pessoas participaram do evento, promovido pela Asociación de Produtores Orgánicos do Paraguay (APRO), com apoio da Inter-American Foundation (IAF). Além de apresentações de experiências e debates, os/as participantes fizeram também uma visita à propriedade do agricultor-agrônomo Genaro Ferreira Piris, da APRO, para conhecer a área de produção de verduras orgânicas e experimentos com adubação verde.

 

E o que é um SPG?
É um sistema em que a verificação da qualidade de alimentos orgânicos é feita por agricultores/as, técnicos/as de organizações como o Cepagro, consumidores/as e acadêmicos/as, com a parceria ou não do Poder Público. Ao invés de contratar uma empresa para certificar a produção, os/as produtores/as no Sistema Participativo certificam a eles/as mesmos/as, sempre de acordo com a legislação de cada país.  A Rede Ecovida de Agroecologia é uma das principais referências no mundo de Sistemas Participativos de Garantia, tanto pela quantidade de famílias envolvidas quanto por ter conquistado a equivalência com a certificação por auditoria. Por isso, a Rede Ecovida inpirou a criação de SPGs em outros países latino-americanos, sendo que algumas dessas organizações estiveram no evento no Paraguay.

Do México ao Uruguay, SPGs são adaptados às realidades locais.

De acordo com Genaro Ferreira Piris, da APRO, “no Paraguai o SPG é uma ferramenta para acessar mercados”, pois permite que a produção orgânica seja certificada a um custo menor, aumentando as chances de comercialização com valor agregado. Ele conta que “o que sabemos de SPG, aprendemos com o Brasil”, tendo participado em vários encontros da Rede Ecovida de Agroecologia. No Paraguay, a certificação participativa é realizada pela APRO em parceria com o  Servicio Nacional de Calidad y Sanidad Vegetal y de Semillas (SENAVE), do Ministério da Agricultura local. A APRO reúne 257 famílias agricultoras, sendo que 57 têm certificação e 20 estão em processo de transição.

Durante o Encontro, a APRO celebrou a inauguração de uma nova sede, com espaço de comercialização, banco de sementes e fornecimento de bioinsumos para agricultura.   

 

Identidade, empoderamento, autonomia, credibilidade e aprendizagem. É isso que o SPG representa como processo no âmbito da Rede Ecovida de Agroecologia, de acordo com José Marfil, um dos representantes da Rede no evento, junto com o coordenador rural do Cepagro, Charles Lamb. Além desses princípios, Marfil lembrou também que o SPG caracteriza-se pela responsabilidade compartilhada: “cada um do grupo responde pelo outro”, afirma. Trouxe a experiência do Circuito de Comercialização da Rede Ecovida, que faz circular alimentos orgânicos entre os três estados do Sul, além de São Paulo, Minas Gerais e Bahia, envolvendo mais de 2000 famílias agricultoras. “É uma proposta diferente de mercado, que busca promover também soberania e segurança alimentar”. Para o agricultor, antes de olhar para exportações, a agricultura familiar orgânica deve garantir a segurança alimentar no mercado interno.

Analía Cartelle, da Red de Agroecología do Uruguay, explicou que lá o SPG é uma “ferramenta agroecológica: promoção, integração, construção de saberes”, além do selo para comercialização com baixo custo. Ali, a certificação custa US$ 32 / hectare certificado mais US$ 5 ao mês. No Uruguay, o SPG da Red de Agroecología foi reconhecido legalmente em 2005. E, em 2019, justo durante o evento, a Red comemorou a aprovação da Política Nacional de Agroecologia no legislativo uruguaio, que contou com forte atuação do coletivo em sua construção.

Franklin Fernandez (dir.), da Associação de Organizações de Produtores Ecológicos da Bolívia, afirma que para eles o SPG é uma ferramenta de promoção da Agroecologia baseada na confiança. “Ao produzir um alimento limpo, velamos não só pelo bem estar de nossas famílias, mas de toda população”, pontua Fernandez. Fundada em 1991, a AOPEB reúne 85 associações de famílias agricultoras bolivianas, somando quase 70 mil produtores.

A associação Tijtoca Nemiliztli, do México, é parceira do Cepagro no projeto Saberes na Prática em Rede, apoiado pela IAF. Representada por Fernando George Pluma no evento, a Tijtoca foi fundada em 2015, inspirada na Rede Ecovida. Funciona baseada no tripé produtores/as – acadêmicos/as – consumidores/as. Um dos diferenciais do SPG mexicano é que já começou com o princípio de equidade de gênero e geração.

José Jesus Cordoba apresentou a experiência inicial de SPG realizada em El Salvador pela FUNDESYRAM, organização também parceira do Cepagro. Em El Salvador, a estruturação do SPG está em sua fase inicial, baseada em um município, Nahuilzalco. Mas a Fundesyram já articula uma Rede Nacional de agroecologia no país, que será o canal de expansão do SPG.

Organizações camponesas participam do encontro

A Asociación Agroecológica Oñoiru (compañeros, em Guarani) reúne 56 famílias que produzem erva-mate agroecológica em 21 propriedades certificadas na região de Itapúa, no sul do Paraguay. Enraizada na Organización de Mujeres Campesinas e Indígenas Conamuri, a Asociación Oñoiru foi formada em 2001 para fazer frente ao avanço do cultivo de soja transgênica sobre terras camponesas. Com apoios de cooperação internacional e muita organização coletiva para o trabalho comunitário, a Oñoiru estruturou uma cadeia de produção e beneficiamento de erva-mate agroecológica, que em 2019 chegou a 12 mil kg. “Buscamos resgatar técnicas tradicionais para manter a qualidade, como deixar a erva descansando por 14 meses em caixas de madeira”, explica o técnico em Agroecologia Pedro Vega Chávez, um dos representantes da Oñoiru no 2º Encuentro Regional de SPG.

Pedro e Célia Motta, também da Oñoiru, contam que a associação trabalha com sistemas agroecológicos diversificados e mantém um banco de sementes nativas. Formados na Escola Latino Americana de Agroecologia, no Paraná, os jovens trazem suas impressões sobre o Encontro, que trouxe representações do México, Brasil, Uruguay, El Salvador e Bolívia. “Foi ótimo ver tanta gente que fala de Agroecologia em vários países. Vemos que temos um objetivo em comum, assim como problemas, como o comércio. E o SPG pode ser uma ferramenta para facilitar a comercialização”, conta Célia. “Com as visitas de campo pudemos ver teoria e prática unidas. Ficou claro que a Agroecologia é o caminho para conservar a biodiversidade e a autonomia do campesinato”, avalia Pedro.

Ismael Saucedo é da Organización Campesina Regional de Concepción (OCRC), movimento que reúne mais de 700 família agricultoras no norte do Paraguay. Articulada com Paraguay Orgânico, a OCRC trabalha na produção de grãos e hortaliças orgânicas. “Mas buscamos trabalhar na propriedade integralmente, não olhando só a produção”, explica Ismael, que se formou técnico em Agroecologia na Venezuela. A Organización tem 15 propriedades entrando no SPG, avaliado pelas famílias como uma estratégia para melhorar a comercialização, habilitando-as a entrar em compras públicas, por exemplo. A OCRC já atua em feiras, tendo 20 mulheres feirantes no seu coletivo comercializando 2 vezes por semana. “O Encontro serviu para enriquecer e fortalecer o que já estamos encaminhando. Nossa maior meta continua sendo defender a soberania camponesa e seus territórios”, afirma Ismael.

Dionício Irala está desde 1997 na OCRC. Em sua propriedade de 6 hectares, cultiva melão, melancia, milho, gergelim, mandioca, frutas, tomates, verduras, legumes e cria animais. “É uma propriedade completa”, conta o agricultor. “Com as verduras que sobram da feira, alimento as galinhas. Do esterco delas, produzo adubo. Uso também adubos verdes. Minha esposa comercializa nossos alimentos na feira”, completa.

Como considerações finais do encontro, verificou-se que a discussão mútua sobre SPGs pode contribuir para construir equivalências de legislação entre países, facilitando o comércio externo de alimentos orgânicos. Entretanto, os/as participantes percebem que prioritariamente é necessário fortalecer o mercado interno desses alimentos, democratizando a segurança e a soberania alimentares na América Latina.

 

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Curso de Gestão Comunitária de Resíduos Orgânicos reafirma: não há compostagem sem colaboração

Realizado de 27 a 30 de agosto, o IV Curso de Gestão Comunitária de Resíduos Orgânicos e Agricultura Urbana reuniu mais de 40 pessoas, entre lideranças comunitárias, gestores públicos, estudantes, empreendedores e educadores vindos de diversas cidades de Santa Catarina e de outras regiões, além de representações de El Salvador e Uruguai. Promovido pelo Cepagro, o Curso contou com patrocínio da Fundação Inter-Americana (IAF) e da Engie, além do apoio da Comcap, do Centro de Ciências Agrárias da UFSC e do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA).

De forma lúdica, didática e bastante participativa, o grupo pôde aprender sobre o método UFSC de compostagem na teoria e na prática, conhecer as estratégias de gestão comunitária dos resíduos orgânicos, visitar experiências locais de compostagem comunitária e empreendedora e ainda discutir sobre a compostagem a nível municipal durante o seminário Desafios e Oportunidades para a Compostagem em Florianópolis, evento que foi aberto ao público.

Empatia, respeito e vontade de aprender foram algumas das expectativas trazidas pelos/as participantes na dinâmica de abertura do Curso, na manhã da terça-feira. A tarde, o professor do Departamento de Engenharia Rural da Universidade Federal de Santa Catarina, Rick Miller, referência no Método UFSC de compostagem, assumiu o microfone e tirou as dúvidas do público. Ele mostrou como a gestão descentralizada dos resíduos orgânicos é uma solução eficiente e econômica. Segundo dados apresentados pelo professor, Florianópolis gasta hoje cerca de R$150,00 para transportar uma tonelada de resíduos sólidos até o aterro sanitário, sendo a média mensal de 17,5 mil toneladas. Os dados oficiais do município apontam que 30% desse montante é resíduo orgânico.

Em 2019, o Curso de Gestão Comunitária de Resíduos Orgânicos trouxe uma novidade: a facilitação gráfica, com a bióloga-artista Raíssa Theberge.

Sendo assim, as bombonas utilizadas para coletar e transportar os restos de alimentos até um pátio descentralizado, modelo utilizado na gestão comunitária, são uma “inovação tecnológica”, disse Rick. Além de ter um custo muito menor, a compostagem ainda gera um produto final capaz de gerar renda. Rick trouxe ainda informações mais técnicas sobre a compostagem e sobre o funcionamento da leira que para ele é como um “bicho ofegante” que come, respira, sua e faz xixi.

Em seguida, a turma foi para o pátio do Jardim Botânico construir coletivamente uma leira de chão com as orientações do agrônomo do Cepagro Júlio Maestri. Os/as participantes também aprenderam a montar o sistema fechado de compostagem em caixa d’água, dessa vez orientados por Jessé Rodrigues Fermino e Valéria Maria da Silva, de Sorocaba e Camila Batista, de Taubaté. Os três são beneficiários do Minha Casa, Minha Vida e no ano passado receberam a reaplicação da Tecnologia Social em Gestão Comunitária de Resíduos Orgânicos e Agricultura Urbana pelo Cepagro e Revolução dos Baldinhos através de projeto da Fundação Banco do Brasil.

Jessé é síndico do Condomínio Buriti, um dos 160 do Conjunto Habitacional Carandá. Hoje seu condomínio é o único com gestão comunitária dos resíduos orgânicos e o maior desafios é a conscientização, conta Jessé: “O nosso grande desafio hoje é a educação, educar o povo ali dentro a separar o reciclável, o lixo daquilo que é aproveitado”. Mas aos poucos os moradores vão aderindo ao projeto: “O nosso objetivo é chegar em todos os condomínio do Carandá. Bater de porta em porta, levar as pessoas para conhecer a nossa compostagem, levar o nosso produto pra eles e falar: ó isso aqui saiu do seu alimento, que ia poluir no aterro e agora não vai mais”, explica Jessé.

Em Taubaté, no residencial Sérgio Lucchiari, os moradores optaram por receber a gestão dos resíduos como tecnologia social, porque a situação do lixo no local estava precária, como conta Camila. Hoje oito famílias levam seus baldinhos para compostar e em troca recebem composto e biofertilizante, o restante Camila comercializa. “Estamos procurando outras soluções para os resíduos para chegar ao lixo zero”, conta ela, que é mãe de 6 filhos e leva a garotada para compostar também. “Até as crianças dos vizinhos acabam indo lá e ajudam na composteira. Isso é bom porque já faz a parte da educação também”.

Na quarta-feira, os participantes deram um rolê pela Comunidade Chico Mendes, onde a tecnologia social da gestão comunitária dos resíduos nasceu a partir da experiência da Revolução dos Baldinhos. Cíntia Aldaci da Cruz e Karolina Karla, lideranças da comunidade. contaram a história do projeto, que iniciou por conta de um problema sanitário que gerou um surto de leptospirose e hoje conta com a uma cozinha comunitária onde acontecem capacitações, cine debates e outros eventos. “Muitos que fizeram o curso anos atrás saíram das estatísticas de violência”, contou Cíntia e ressaltou que para a compostagem comunitária acontecer, “a articulação é uma arma poderosa”.

A Revolução serviu de referência para muita gente, entre elas Samuel Barros, que veio do Rio de Janeiro representando o Centro de Integração na Serra da Misericórdia (CEM), organização da qual é vice-coordenador e que trabalha o tema da agricultura urbana e Agroecologia com jovens moradores da Penha, na Zona Norte do Rio. Sobre a visita, Samuel conta: “Fiquei muito animado porque era algo que queria fazer na favela e eu fiquei muito feliz de ver com meus olhos… deu esperança. Uma dúvida que a gente tinha era como chegar nas pessoas e aqui vimos acontecendo”.

Samuel veio junto com Lucas Fernando dos Santos, também do Rio de Janeiro e que atua em outra organização da Serra da Misericórdia, a Verdejar Socioambiental. Por lá, eles se inspiraram na Revolução para tentar diminuir a incidência do lixo “porque o saneamento básico e a coleta de resíduos é um problema no Rio de Janeiro”, disse Lucas. A Verdejar realiza trabalhos envolvendo a juventude através da comunicação com a intenção de mostrar que tem agricultura acontecendo na cidade. “Tem muito potencial nos jovens, mas a cidade não vê. É a mesma coisa com o lixo”, conta Lucas.

Da Comunidade Chico Mendes, os participantes seguiram para o sul da Ilha de Santa Catarina, para conhecer o empreendimento social Destino Certo para Resíduos Orgânicos e a Horta Comunitária do PACUCA. Num terreno com cerca de 1.000 m² numa das esquinas mais movimentadas do bairro – Avenida Campeche com a Rua Pau de Canela -, Eduardo Elias, idealizador da Destino Certo, mantém um pátio de compostagem e uma pequena agrofloresta. “Que leira linda!”, foram os primeiros comentários do grupo ao entrar no espaço.

A Destino Certo funciona assim: Eduardo faz a coleta semanal do resíduo orgânico de restaurantes, lojas de produtos naturais, escolas e condomínios do bairro, em dias alternados, trazendo entre 2 e 2,5 toneladas de restos de comida para compostar no pátio. O composto produzido vai para a horta anexa ao pátio, onde ele produz verduras e legumes orgânicos, que voltam para os restaurantes. Eduardo também comercializa o composto. Ele cobra R$ 0,30 por quilo de resíduo coletado e compostado e vende o composto a R$ 1 (bruto) ou R$ 2 (peneirado). “Com o serviço de coleta e compostagem, eu arrecado cerca de R$ 4.500. Mas esse valor só cobre os custos de aluguel, combustível e mão de obra. O lucro do empreendimento vem mesmo da venda do composto e de verduras, que nem é tão alto assim. Mas isso é mais do que um simples negócio: é uma iniciativa para diminuir nosso impacto ambiental e criar consciência ecológica”, explica Eduardo, que calcula que em três anos de atuação empresarial já reciclou mais de 300 toneladas de resíduo orgânico. “Isso sem contar o volume de palhada e serragem”, completa. “Esse empreendimento se baseia na consciência de que resto de comida não é lixo, mas um recurso”, avalia Eduardo.

A vivência de Eduardo com compostagem em maior escala começou na Horta Comunitária e Pedagógica do PACUCA, próxima parada das visitas do grupo na quarta-feira. Instalada em 2015 com muita luta e resistência da comunidade do Campeche em uma área altamente visada pela especulação imobiliária, a Horta do PACUCA recebe e composta os resíduos orgânicos de cerca de 200 famílias do bairro, compostando em torno de 100 toneladas de resíduos ao ano, calcula o coordenador da Horta, Ataíde Silva. “Aqui somos uma equipe de 30 voluntários e uns 5 loucos”, aponta Ataíde. Junto com Ubiratan Matos (Bira), eles falaram sobre o histórico da Horta e seus projetos futuros.

“A Horta surge da luta por mais áreas verdes e de lazer em Floripa, agregando também a finalidade da produção de alimentos”, disse Ataíde. A produção de verduras e legumes do PACUCA é distribuída para escolas e asilos da comunidade, além de bairros periférios da Grande Florianópolis, como Brejaru, Monte Cristo e a Ocupação Marielle Franco. Para os próximos anos, Ataíde e Bira contam que pretendem instalar estruturas para geração de energia e captação de água da chuva.

E a turma também colocou as mãos na terra, plantando árvores frutíferas e nativas no terreno. “Isso sim é participação da sociedade civil. Quem sabe daqui a alguns anos vocês poderão desfrutar da sombra das árvores que vocês plantaram”, disse Bira.

No dia 29, a programação começou com uma conversa sobre a agricultura urbana pelo mundo, com Joaquim Moura, que também é do Rio e trabalha com agricultura urbana há mais de 40 anos. Além de seu trabalho como tradutor da revista de Agricultura Urbana (Urban Agriculture Magazine), Joaquim atua com educação e compostagem em escolas na região de Visconde de Mauá, localizada na Serra da Mantiqueira, onde vive desde 2001. Joaquim ressaltou a importância de trazer a educação para suas atividades com a juventude.

Ainda durante a manhã, os participantes se dividiram em grupos para elaborar planos de gestão comunitária de resíduos orgânicos a partir de diferentes contextos. O primeiro grupo discutiu a compostagem a nível municipal tendo como exemplo a capital catarinense. Foram levantadas as dificuldades e potencialidades para uma possível gestão municipal de todo o resíduo orgânico do município.

Dois outros grupos realizaram o planejamento da gestão comunitária nas comunidades da Vargem Grande, no norte da ilha e na Frei Damião, em Palhoça. Ao longo do exercício, muitas cabeças pensando juntas contribuíram para que os projetos dessas comunidades ganhassem força. As representantes das comunidades, Sandra e Mônica, puderam mapear parceiros, bolar estratégias de mobilização e perceberam que a gestão comunitária dos resíduos não se faz sozinha, é preciso colaboração.

Um quarto grupo, formado pelos beneficiários do Minha Casa, Minha Vida discutiu os desafios para onde a gestão comunitária já acontece. Uma das dificuldades nesses espaços ainda é a viabilidade financeira  e o pagamento dos moradores que se envolvem com o trabalho da compostagem, além de envolver mais famílias no processo. 

Na tarde da quinta-feira, o Jardim Botânico foi aberto ao público externo para o seminário Desafios e oportunidades  da Compostagem em Florianópolis. No evento foram apresentadas experiências com a gestão de resíduos no âmbito comunitário, doméstico, empreendedor e municipal. 

No nível doméstico, médico do SUS Renato Figueiredo – que sugeriu a compostagem como solução para o problema dos ratos na Comunidade Chico Mendes dando origem à Revolução dos Baldinhos – explicou como é feita a compostagem com minhocário, deu dicas e tirou dúvidas do público presente. Ele falou sobre o Programa Minhoca na Cabeça, desenvolvido pela Prefeitura de Florianópolis e que distribuiu quase 300 minhocários para a população, desviando desde 2017 quase 10 toneladas de resíduos orgânicos dos aterros sanitários.

Eduardo, do Destino Certo, falou um pouco sobre a sua experiência empreendedora com a compostagem. Hoje, ele recolhe o resíduo de 200 famílias e afirma: “o foco principal é a consciência ecológica. Mostrar para as pessoas que o resto de alimento não é lixo”, por esse motivo a parte pedagógica é importante, a informação tem que chegar até as pessoas.

Com Florianópolis ganhando projeção nacional ao aprovar a primeira Lei de Compostagem no país, o Vereador Marcos José de Abreu (Marquito), do PSOL, concorda ao dizer que a lei é um processo de construção pedagógica. Ele é autor da Lei Municipal 10.501, a chamada “Lei da Compostagem”, que prevê a obrigatoriedade gradativa da gestão dos resíduos orgânicos no município de Florianópolis com a meta de atingir 100% da gestão até 2030. Marquito colocou como uma das metas ao longo dessa caminhada a garantia de remuneração para aqueles/as que realizam serviços ambientais como a compostagem, já que estão desviando um volume importante dos aterros sanitários, gerando economia para os cofres públicos.

Um dos desafios para implementar a Lei é medir o custo que esse serviço tem, pois não é simples calcular aspectos como a redução do impacto ambiental que a gestão descentralizada promove. Além disso, é preciso construir mecanismos para mediar a relação entre estado e as iniciativas comunitárias que realizam a compostagem, tudo isso num contexto de intenso conflito de interesses, já que o transporte e aterramento de resíduos figura entre as três principais contas do município. “Hoje Florianópolis gasta cerca de R$ 37 milhões para transportar e aterrar resíduos orgânicos, que poderiam ser compostados localmente. Com esse dinheiro daria pra construir 12 postos de saúde, por exemplo”, aponta Marquito.

O curso encerrou na sexta-feira, 30, com a apresentação dos planos de gestão discutido nos grupos. Ainda rolou um momento cultural com música, poesia e muitos abraços no Sarau Composto por Nós.

 

Encontro do Núcleo Litoral Catarinense renova princípios da Rede Ecovida de Agroecologia

“A alma da Rede Ecovida de Agroecologia são seus princípios, não a certificação”. A fala da agricultora Claudete Ponath, de Piçarras (SC), enfatiza que, muito além de emitir certificados de orgânico, a  Rede Ecovida existe porque há confiança, participação, transparência e organização de base entre famílias. Esses e outros princípios foram retomados e renovados durante o 13º Encontro do Núcleo Litoral Catarinense da Rede Ecovida de Agroecologia, realizado em Porto Belo no último final de semana, dias 24 e 25 de agosto de 2019. Mais de 130 pessoas participaram do Encontro, trocando conhecimentos, sementes e muita disposição para seguir trabalhando por uma agricultura limpa e amiga da Natureza.

A conversa sobre os princípios da Rede emerge num contexto em que, a partir do Fórum Brasileiro de Sistemas Participativos de Garantia, torna-se necessário incluir equidade de gênero e geração entre os princípios dos SPGs no país. “Isso significa que precisamos falar sobre Gênero e Geração no nosso Núcleo. Por termos uma coordenação com bastante mulheres ao longo de vários anos, pode parecer que não é preciso falar sobre isso. Mas não é verdade”, avalia Claudete, escolhida também como nova coordenadora do Núcleo, entrando no lugar da agricultora Tânea Mara Follmann, de Águas Mornas.

Troca de conhecimentos nas palestras e oficinas do Encontro
Além de momentos de celebração, os Encontros de Núcleo são espaços de troca e construção de conhecimentos.

A primeira palestra do Encontro foi no sábado 24, com o coordenador da Casa da Semente de Mandirituba (PR), Hans Rinklin. Após abordar o contexto de erosão genética em que vivemos atualmente, perdendo cerca de 10 variedades de sementes TODOS OS DIAS, além do controles de 66% da produção mundial de sementes por apenas 3 multinacionais, Hans apresentou o trabalho da Casa de Sementes e dos grupos de guardiões como uma alternativa para conservar a biodiversidade. “Sem semente, não há possibilidade de vida humana”, disse.

A Casa de Sementes existe desde 2011, articulando grupos de agricultores/as dispostos/as a conservar e multiplicar variedades de sementes crioulas e nativas. Mais do que um banco de armazenamento, a Casa promove também atividades de capacitação e acompanhamento de análises de sementes. Através de uma parceria com a Rede Sementes da Agroecologia, apoia a construção das Festas das Sementes no Paraná, além de realizar incidência política. Fechando a conversa, Hans afirmou: “A conservação das sementes e da agrobiodiversidade não é tarefa só dos/as agricultores/as. É de toda a sociedade, do campo e da cidade”.

Na sequência, os grupos do Núcleo Litoral fizeram sua apresentação.

Tecnologias sustentáveis de produção de hortaliças foi o tema da palestra do agrônomo Euclides Schallenberger, da Epagri de Itajaí.  Ao longo de uma hora com muitas informações, Schallenberger falou sobre propiciar boas condições ambientais para as plantas crescerem saudáveis, além de técnicas de manejo integrado, controle biológico e controle químico para doenças e “pragas” nos cultivos. “Não basta só não usar veneno. Para ter sucesso no cultivo orgânico, é preciso manter a planta em condições ótimas, criando também condições ruins para insetos e bactérias”, disse o agrônomo. Ao final de sua apresentação, Schallenberger falou sobre a nova proposta do ICMS Verde, prorrogada para entrar em vigor só no final de dezembro deste ano e que taxará com ICMS de 17% os agrotóxicos mais perigosos, reduzindo esta alíquota até 0%, no caso de produtos biológicos, permitidos na produção orgânica. “Isso mantém nosso custo de produção baixo, se comparado com o convencional”, disse.

As oficinas, no domingo de manhã, trataram de temas como: preparados biodinâmicos, adubos verdes, plantas alimentícias não convencionais (PANCs), comercialização e organização de consumidores/as e planejamento de produção e gênero.

Pra quem precisava relaxar e se cuidar um pouco, a Oficina Cuidar de Si foi o espaço certo para isso.

 

Trocas e intercâmbios durante o Encontro

Ao longo de todo o evento, a Feira de Saberes e Sabores era o espaço de trocas e conversas em meio à produção agroecológica do Núcleo Litoral Catarinense.

Assim como em anos anteriores, em 2019 o Encontro do Núcleo teve participações externas. Uma delas é dos companheiros da organização Fundesyram, de El Salvador, José Jesús Cordoba e Juan Antônio Ruiz, que vieram a Santa Catarina participar de diversas atividades conjuntas com o Cepagro. Além de trazer um pouco da experiência em Agroecologia do seu país natal, eles compartilharam também sementes, afinal “nosotros los agricultores agroecológicos somos todos hermanos”, disse José Jesus. A Fundesyram é parceira do Cepagro no projeto apoiado pela IAF.

Também participaram neste Encontro a turma da Rede Plantar para a Vida, de Sergipe, que está sendo assessorada por membros do Núcleo Litoral para compor seu SPG. O agricultor e estudante de Agronomia Elvis Valentim Lisboa era um dos membros da comitiva e conta que se sentiu em casa durante o Encontro. “Vimos que temos muita coisa parecida com os/as agricultores/as daqui”, disse. Elvis relata que a Rede surge a partir de uma articulação entre grupos de agricultores que fazem feira na região do município de Lagartos: “como grupo, temos mais impacto na comunidade”, afirma. Durante o Encontro, algo que o marcou bastante foi a diversidade: de pessoas, de interesses, de cultivos e de culturas. Leva para Sergipe os aprendizados que teve durante a oficina de Planejamento de Produção, com a equipe do LACAF.

A técnica do Sebrae Luciana Oliveira Gonçalves acompanha a Rede sergipana e conta que por lá os/as agricultores/as seguem os mesmos princípios da Ecovida. Desde 2017 a rede adotou o SPG e em dois anos Luciana já percebeu “a transformação social que causa na vida das pessoas e a melhora da autoestima. Com o processo participativo eles passaram a se relacionar de outra maneira, mais coletiva, fazem mutirões, se ajudam”. 

E é claro que nos encontros do Núcleo não pode faltar um banquete agroecológico. Em meio à diversidade de alimentos preparados pelo Grupo de Agroecologia Costa Esmeralda, que recebeu o evento, apenas três itens não eram agroecológicos.

Plenária do Encontro aborda princípios da Rede Ecovida
A demanda pela inclusão da equidade de gênero e geração estimulou a discussão sobre os princípios gerais da Rede Ecovida durante o Encontro do Núcleo. Representantes de vários grupos falaram sobre cada um dos 9 princípios da Rede: descentralização, confiança, processo pedagógico, formações de redes, participação, olhar externo, organização de base, transparência e adequação à unidade familiar. Atualmente, as questões de gênero e geração foram incluídas somente no Manual de Procedimentos da Rede, num capítulo que trata sobre violações de direitos humanos. Estas infrações podem implicar a perda do certificado e exclusão da Rede – ou seja, diz respeito principalmente à certificação, mas, como disse Claudete: o que move a Rede são seus princípios, eles são a alma da Rede. Neste sentido, continua a demanda por mais discussão dentro desta temática para que seja abarcada também como princípio agroecológico praticado na Rede.

Também foi apresentada a nova equipe de coordenação, com Claudete Ponath na coordenação e Ernande Stolarczk, de Major Gercino, como vice. E o próximo Encontro de Núcleo já tem local: Garopaba.

Do doméstico ao empresarial e municipal: Seminário em Florianópolis discute oportunidades para Compostagem

O Seminário Desafios e Oportunidades para a Compostagem em Florianópolis é parte da programação do 4º Curso de Gestão Comunitária de Resíduos Orgânicos e Agricultura Urbana realizado pelo Cepagro ao longo desta semana. 

Florianópolis é referência nacional quando se fala em compostagem, uma técnica eficiente e de baixo custo para reciclar resíduos orgânicos, como cascas de alimentos e sobras de comida. Do projeto Revolução dos Baldinhos à primeira Lei de Compostagem do Brasil, sancionada em abril deste ano, a capital catarinense tem experiências em diversos contextos: doméstico, escolar, empresarial e institucional. Algumas delas serão apresentadas e discutidas no Seminário Desafios e Oportunidades para a Compostagem em Florianópolis, que acontece nesta 5ª feira, 29 de agosto, às 14h, no Jardim Botânico de Florianópolis.

Uma das experiências apresentadas no Seminário é a do Núcleo de Educação Infantil da Armação, onde o Cepagro assessorou a implantação de uma composteira e uma horta. Os resíduos da preparação das refeições são transformados em adubo, que vai para a horta, de onde saem temperos e verduras para a alimentação das crianças, fechando um ciclo virtuoso do alimento. A mesma lógica, só que em escala maior, marca a iniciativa empresarial Destino Certo, que também estará presente no Seminário. A Destino Certo recolhe e faz a compostagem dos resíduos orgânicos de restaurantes do Campeche. Com o adubo resultante do processo, são cultivadas verduras orgânicas que retornam para os restaurantes.

Também participarão do Seminário moradoras e moradores de empreendimentos do programa Minha Casa, Minha Vida de Foz do Iguaçu (PR), Sorocaba (SP) e Taubaté (SP), onde o Cepagro fez a implantação de pátios de compostagem para atender às famílias dos residenciais. Essas atividades foram realizadas junto com a Revolução dos Baldinhos, com apoio da Fundação Banco do Brasil.

E, para falar sobre a inédita Lei da Compostagem, estará o vereador Marcos José de Abreu, o Marquito (PSOL), autor da proposta da Lei. Ele vai mediar a discussão sobre as possibilidades e desafios para expandir a reciclagem de resíduos orgânicos em Florianópolis que a nova legislação representa. De acordo com o Ministério do Meio Ambiente, os resíduos orgânicos representam metade dos resíduos sólidos urbanos gerados no Brasil e, segundo dados da Comcap/Prefeitura Municipal, Florianópolis gera uma média de 17,5 mil toneladas de resíduos sólidos por mês. Esse montante é enviado para o aterro sanitário em Biguaçu pelo valor aproximado de R$ 150,00 a tonelada, ou seja, mais de R$ 2 milhões por mês. Em Florianópolis, além de reduzir o impacto ambiental, o tratamento de todo o resíduo orgânico representaria uma economia de aproximadamente R$ 1 milhão de reais por mês.

Semente da horta comunitária começa a germinar em CRAS na Palhoça

Na última quarta-feira, 21 de agosto, Eduardo Rocha e Henrique Martini Romano, da equipe do Cepagro, facilitaram uma roda de conversa sobre direito à alimentação no Centro de Referência em Assistência Social (CRAS) do bairro Jardim Eldorado, na Palhoça. A atividade aconteceu a convite da assistente social Jucênia Judite de Souza e compôs o Projeto de Horta Comunitária CRAS Jardim Eldorado, que tem como objetivo realizar oficinas sobre diversos temas, além, é claro, de implantar uma horta comunitária no local.

Após uma roda de apresentações, Eduardo Rocha perguntou ao grupo presente: o que é comida de verdade? Entre as respostas surgiram as palavras agricultura, hortaliças, grãos, chás e ervas medicinais, além de saúde, memória e em resumo: alimentos que vêm da agricultura familiar.

O alimento se tornou mercadoria e comer, um ato político. “Quando a gente escolhe o alimento que quer comer, quando escolhemos entre a feira ou o supermercado, a gente está escolhendo entre a agricultura familiar e o agronegócio”, disse Eduardo. Neste momento Seu João Carlos, morador do bairro Jardim Eldorado complementou: “Boicote também é ato político!”.

Mas nem sempre temos opção. Através de programas e políticas públicas, o governo também escolhe o alimento que vai estar em nossas mesas, lembrou Eduardo ao afirmar que hoje há uma política assistencialista para o agronegócio e as grandes indústrias e cada vez menos incentivo para os/as agricultores/as familiares: “bilhões de reais são destinados anualmente pelo Governo Federal ao agronegócio”, disse. É comum ouvir pessoas do setor afirmando que o Estado é muito assistencialista e que não se deve dar o peixe mas ensinar a pescar, “mas se for fazer uma análise crua, o Estado também é bem assistencialista com o agronegócio, é só pegar o Plano Safra e ver o quanto ele assiste financeiramente o agronegócio, com o orçamento do Estado que vem do nosso bolso”, complementou. Não é à toa que o refrigerante é muitas vezes mais barato que o suco natural. Também não é por acaso que o Brasil é um dos países que mais consome agrotóxicos no mundo.

A batalha é grande contra o “agro pop e agro tech”, lembrou Jucênia. Assim, escolher fazer uma horta comunitária no CRAS também é um ato político. E a ideia veio de um usuário que frequentava o grupo de Benefício de Prestação Continuada (BPC), voltado para pessoas em situação de vulnerabilidade. A assistente social Jucênia, a psicóloga Flávia Caner Dias e a estagiária e graduanda em serviço social, Fernanda Rafaela Moreira abraçaram a ideia e estão colocando em prática o projeto. 

Fernanda, que fará o seu Trabalho de Conclusão de Curso sobre o tema da horta na assistência social explica que “a ideia principal da horta é trabalhar os vínculos familiares e comunitários, além da complementação alimentar”. Jucênia também vê grande potencial na horta: “O CRAS é um espaço que trabalha com pessoas em situação de vulnerabilidade, então a questão da alimentação entra nisso. E a horta também é um complemento pedagógico porque as mudas, a horta e a alimentação mexem com as lembranças”, conta.

Em seguida, Henrique propôs uma dinâmica onde os presentes discutiram em grupos quais as habilidades, valores e conhecimentos necessários para se fazer uma horta. Foi consenso que para uma horta comunitária acontecer é preciso haver respeito, colaboração, coletividade, cuidado, alegria e amor.

Além da roda de conversa facilitada pelo Cepagro nesta semana, os/as usuários/as também receberam uma oficina de minhocário no dia 14 de agosto, com Luis e Osmar, mais conhecidos como Sr. Minhoca e Sr. Jacaré, funcionários do Horto de Palhoça.

Os materiais para a horta já estão em mãos e a vontade de fazer acontecer é grande.  Durante a roda de conversa ficou decidido que o próximo passo será organizar um mutirão para delimitar o espaço da horta e tirar a ideia do papel. Paulo Freire disse certa vez que  “O mundo não é, o mundo está sendo” e como bem lembrou Henrique Romano, “O CRAS não é, o CRAS está sendo”.

Porto Belo recebe Encontro da Rede Ecovida de Agroecologia

O Encontro do Núcleo Litoral Catarinense da Rede Ecovida acontece anualmente, reunindo famílias agricultoras que se dedicam à produção sustentável de alimentos orgânicos
Cerca de 150 pessoas, a maioria agricultores e agricultoras orgânicos de Santa Catarina, são esperadas neste final de semana no 13º ENCONTRO DO NÚCLEO LITORAL CATARINENSE DA REDE ECOVIDA DE AGROECOLOGIA, que acontece no Salão da Igreja Nossa Senhora Aparecida, comunidade Sertão de Santa Luzia, em Porto Belo. Na programação, haverá palestras, oficinas e a tradicional Feira de Saberes, Sabores e Sementes, representando a riqueza da agricultura agroecológica de Santa Catarina. O evento, organizado pelo Grupo de Agroecologia Costa Esmeraldas (GACE), começa no sábado, 24 de agosto, às 15h e termina no domingo, 25 de agosto, às 16h. No domingo a programação será aberta ao público.
A mesa de abertura do Encontro, no sábado às 18h, será sobre TECNOLOGIAS EM PRODUÇÃO SUSTENTÁVEL DE HORTALIÇAS, com a participação do agrônomo Euclides Schallenberger, da EPAGRI. No domingo o destaque é para as oficinas, abordando temas como: planejamento de produção, organização de grupos de consumidores e adubos. Durante todo o evento acontece a FEIRA DE SABERES SABORES, com alimentos e artesanato da agricultura familiar agroecológica catarinense. Um delicioso café e almoço agroecológicos serão servidos, a R$ 25 por pessoa. A organização pede confirmação da presença pelo telefone (47) 99720-6930.
O último encontro foi em Biguaçu

O Núcleo Litoral Catarinense da Rede Ecovida reúne cerca de 150 famílias de agricultores e agricultoras de 30 municípios catarinenses. Os Encontros  de Núcleo são realizados anualmente. Já a Rede Ecovida está presente nos três estados do Sul brasileiro, reunindo mais de 4 mil famílias de agricultores e agricultoras agroecológicos.

Mulheres indígenas e Margaridas colorem Brasília com suas lutas

A capital federal ficou pintada de vermelho e lilás entre os dias 9 e 14  de agosto, durante a 1ª Marcha das Mulheres Indígenas e a 6ª Marcha das Margaridas, que reuniram mais de 100 mil pessoas.
texto e foto: Carú Dionísio

Maria da Luz de Oliveira (esq.) viajou mais de 40 horas de ônibus para marchar com as Margaridas

“Eu vim aqui pra reunião, pra caminhada”. A quebradeira de coco Maria da Luz de Oliveira saiu no domingo, 10 de agosto, de Curvelândia, distrito de Imperatriz, no Maranhão e chegou a Brasília na terça feira, dia 13. Mais de 40 horas de viagem de ônibus para participar da maior ação de mulheres da América Latina, a Marcha das Margaridas. No dia seguinte, 14 de agosto, Maria da Luz juntou-se a mais 100 mil trabalhadoras rurais, urbanas, das florestas, das águas e marchou pela Esplanada dos Ministério até o Congresso Nacional, gritando, cantando e batucando as lutas e anseios dela e de todas as suas companheiras:  terra, água, agroecologia, soberania alimentar, educação do campo, aposentadoria e uma vida livre de violências.

Na sua sexta edição, a Marcha das Margaridas aconteceu logo após outra marcante ação de mulheres em Brasília: a 1ª Marcha de Mulheres Indígenas, no dia 13 de agosto, com o lema “Território: nosso corpo, nosso espírito” com o objetivo de dar visibilidade as ações delas, fortalecendo seus protagonismos e capacidades na defesa e garantia de seus direitos. A Marcha foi precedida pelo Fórum Nacional das Mulheres Indígenas, realizado entre os dias 9 e 12 de agosto. Durante seis dias, cerca de 2 mil guerreiras de 113 povos originários do Brasil e da América Latina estiveram acampadas na capital, discutindo questões levantadas durante o Acampamento Terra Livre, ocorrido em abril de 2019.

Território: nosso corpo, nosso espírito

“Quando Bolsonaro disse que não ia ter mais um centímetro de terra demarcada, ele declarou guerra aos povos indígenas. E as mulheres indígenas não aguentam mais a sua mãe ser explorada. E é por isso que nós marchamos, porque a terra é mãe de todas nós. é isso que viemos fazer em Brasília: marcar o nosso passo pra marcar o nosso território”. A fala de Sônia Guajajara na Câmara dos Deputados aconteceu após a 1ª Marcha das Mulheres Indígenas, no dia 13 de agosto, que terminou no Congresso Nacional. A conexão entre territórios e corpos das mulheres presente na fala de Sônia foi também a tônica principal da Marcha e do Fórum Nacional de Mulheres Indígenas, realizado entre os dias 9 e 12 de agosto.

O território é a pauta comum possível para a diversidade de 113 povos indígenas presentes no Fórum Nacional e na Marcha de Mulheres Indígenas. Durante o Fórum foram discutidas  questões como “Quais Direitos das mulheres indígenas estão sendo retirados?”, “O que significa pra você perder o território?”.

A vinculação entre os corpos e os territórios das mulheres indígenas é também o lema da campanha “Nossos Corpos, Nossos Territórios”,  lançada na noite do dia 10. “Nossos corpos e nossas comunidades são territórios que defenderemos dos fundamentalismos religiosos e econômicos, das botas militares e do sistema patriarcal e colonialista que nos explora, nos expropria e nos violenta”, afirma o Manifesto da Campanha, que envolve não só Brasil, como outros países da América Latina e do Caribe. Inara Mara do Nascimento, do povo Sateré Mawé, anunciou a campanha com o indicativo de fortalecer a data de 5 de setembro, Dia Internacional da Mulher Indígena, como um marco para “denunciar as violências contra as mulheres indígenas na perspectiva do corpo-território”.

Além da defesa dos territórios e dos corpos das mulheres, outra pauta importante da Marcha é a saúde indígena, que abarca questões como a qualidade dos serviços e a alimentação, além da ameaça de deixar essas atribuições a cargo dos municípios, o que implicaria na sua precarização. No dia 11 de agosto, além de visitas a parlamentares e uma audiência no STF sobre o Sistema de Atenção à Saúde Indígena (SASI/SUS), as indígenas ocuparam a Secretaria de Saúde Indígena (SESAI), protestando contra o desmonte e a municipalização da saúde indígena e reivindicando a saída da secretária Sônia Nobre, que, de acordo com as mulheres, não as representa.

“Trazemos nossa força como mulheres pra dizer que não vamos nos calar frente a esse governo autoritário e fascistas que vem tentando retirar direitos já conquistados”, disse Nyg Kaingang, do Paraná. “A saúde indígena tem que estar pautada pelo nosso modo de pensar a saúde, nossos conhecimentos tradicionais, nossa medicina tradicional, pela função das mulheres de trabalhar no contexto da cura dos povos. Com a proposta do governo de municipalização da saúde, a gente não consegue ter autonomia pra fazer a nossa política de saúde, de acordo com nosso modo de ver o que é saúde”, completa.

As indígenas permaneceram na SESAI durante todo o dia. Paralelamente, uma comissão elegida por elas dialogava com a Defensoria Pública da União para tentar marcar uma reunião com o Ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, com a presença de 68 representantes dos povos e regiões presentes. Ao final da tarde, Célia Xakriabá, liderança indígena de Minas Gerais, trouxe o resultado da negociação: o Ministro receberia apenas 10 representantes, e somente se o prédio fosse desocupado. Após uma rápida plenária no quarto andar da secretaria, de onde os/as funcionários já tinham ido embora, elas resolveram sair do prédio, mas continuariam na entrada até que o Ministro comparecesse à reunião.

“Isso não significa que estamos arredando de nossa resistência, mas sim sendo estratégicas para conseguir negociar essa agenda com o Ministro. Nossa inspiração é a flecha, que para avançar, precisa chegar um pouco pra trás”, disse Célia. Perto das 18h30, as mulheres foram finalmente recebidas pelo Ministro e pela Secretária de Saúde Indígena. De acordo com o site Mídia Ninja, “O Ministro tentou abordar os pontos tratados pelas mulheres, e mostrou-se surpreso e concordante com a necessidade da melhoria de diálogo. Além disso, informou estar apurando eventuais fraudes nos órgãos públicos responsáveis pelo setor”. Paralelamente, representantes das mulheres indígenas tiveram também uma audiência com a ministra do STF Carmen Lúcia, para quem entregaram um Manifesto.

Entre os reclamos das indígenas estão atrasos no repasse de verbas, a falta de serviços especializados para as populações originárias, além da qualidade da alimentação e dos medicamentos que chegam às aldeias. Denunciam no Manifesto as mudanças no sistema de saúde trazidas pela MP 890, editada no início de agosto, que mostra “uma total ausência das instâncias de controle social do SUS, […] sem representação do Conselho Nacional de Saúde (CNS), muito menos dos povos indígenas. No entanto é garantida a participação de entidades privadas”, conforme o manifesto.

Luisa Canuto, liderança do povo Tabajara (Ceará), ressalta que não é possível falar de saúde indígena sem abordar a demarcação de terras: “Municipalizar a saúde indígena significa acabar com o atendimento que chega as aldeias, que é apenas uma migalha. Essa é nossa preocupação. Perder esses direitos que é fruto de luta, da resistência de um povo. E o principal é a demarcação de nossas terras. Porque a forma como a saúde tá chegando em nossas terras é uma forma de exterminar nosso povo. A alimentação que chega, o tipo de medicamentos… As próprias políticas públicas que precisamos pra garantir nossa existência, muitas delas não conseguimos construir porque dependemos da terra para implementá-las”.

Após esses dias de debates e ações, chegava o momento da 1ª Marcha das Mulheres Indígenas, que pintou de vermelho a Esplanada dos Ministérios. Vermelho de urucum, vermelho de luta, de resistência ao genocídio do povo indígena que marca a história brasileira. Mais de 2 mil mulheres indígenas marcharam na capital federal, cantando seus torés mesclados a denúncias. Em frente à Biblioteca Nacional de Brasília, Célia Xakriabá falou sobre a necessidade de descolonizar o conhecimento, valorizando também os conhecimentos dos povos indígenas, desconstruindo a noção de que apenas o saber acadêmico e científico é válido: “O que vão fazer quando o capitalismo acabar com as florestas? Nossa floresta viva tem mais conhecimento do que o papel morto”. Passando pelo Ministério do Meio Ambiente, uma liderança do povo Canindé clamou justiça pelas florestas e rios que estão se acabando pela ganância capitalista.

Ariadma Terena veio de Aquidauana, no Mato Grosso do Sul, para representar a população indígena de seu estado. “Nosso estado é todo agronegócio. E em Aquidauana há humilhações recorrentes por parte da Prefeitura. Viemos pra mostrar nossa força e que estamos resistindo. Porque o governo vai passar, mas nós vamos permanecer. Porque onde tiver sangue indígena, vai ter luta, vai ter guerra”.

Chegando ao Congresso Nacional, uma delegação de 100 mulheres indígenas entrou na Sessão Solene que acontecia desde a manhã em homenagem à 6ª Marcha das Margaridas, marcando a união das frentes de resistência feminina e feministas.

“É melhor morrer na luta do que morrer de fome”: as Margaridas seguem em marcha
Realizada a cada quatro anos na capital federal, a Marcha é fruto da articulação entre mais de 4 mil sindicatos de trabalhadoras/es rurais ligados à Confederação Nacional de Trabalhadoras/es na Agricultura (CONTAG). Representantes de todos os estados brasileiros e de mais 27 países compuseram a Marcha, construída ao longo de meses de formação política com as mulheres, com plenárias, oficinas e seminários em todos estados do Brasil. Deste processo foi construída uma plataforma política com 10 eixos de luta por um Brasil soberano e feminista com democracia, justiça, igualdade e livre de violências.

A inspiração da Marcha é o legado de Margarida Maria Alves, paraibana sindicalista e liderança das trabalhadoras rurais que foi assassinada em 12 de agosto de 1983, a mando de latifundiários. “É melhor morrer na luta do que morrer de fome”, “Da luta eu não fujo” e “Medo nós tem, mas não usa” são algumas das insígnias da agricultora que transcendeu como semente e hoje floresce com mais força a cada Marcha.

A agricultora Vera Lúcia Pessoa Francelino mora em Juarez Távora,  na Paraíba, e é uma das guardiãs do legado de Margarida Maria Alves. “Margarida Maria Alves foi a fundadora do sindicato de trabalhadores/as rurais de Juarez Távora. Hoje eu represento a luta da militância feminista e sou presidente da Associação de Mulheres Feministas de Juarez Távora. Minha mãe foi a primeira mulher a enfrentar os latifundiários em 1976, orientada por Margarida. ela venceu na luta e aí eu comecei na militância. Pela Associação, nós temos grupos de mulheres e fazemos o resgate da histórias das trabalhadoras rurais”, conta Vera Lúcia.

Assim como as indígenas evocam sua ligação entre corpo e território, na mística de abertura da Marcha das Margaridas, no dia 13 de agosto, as mulheres conectaram as guerreiras a elementos da natureza: fogo, água e terra. A força de Gaia que alimenta a luta das decididas veio estampada em estandarte com dizeres como “Nosso fogo é a chama da Revolução”, “Mulheres são como as águas: crescem quando se juntam”, “Semear a Terra para o Bem Viver” e “Semear o Sonho é transformação, é desafio bom”, junto com velas, terra e águas de cheiro com ervas medicinais, embaladas pela batucada feminista do Fórum de Mulheres de Pernambuco.

Foto: César Ramos/CONTAG

Na solenidade de abertura, a Secretária de Mulheres da CONTAG, Mazé Moraes, fez uma fala emocionada, recuperando sua trajetória de jovem trabalhadora rural sindicalizada aos 16 anos e reafirmando o compromisso das Margaridas com o projeto de um Brasil democrático, popular, feminista, antirracista e soberano. “O projeto de Brasil pelo qual lutamos é feminista e agroecológico, e que se coloca contra ao sistema capitalista, sexista, racista, que reproduz profundas desigualdades no Brasil e no mundo e tem se aprofundado na atual conjuntura diante de um governo da extrema direita que se apoia num modelo econômico neoliberal e de valores conservadores”, afirmou. Participaram também na abertura a governadora do Rio Grande do Norte, Fátima Bezerra (PT); as deputadas federais Erika Kokay (PT-DF), Talíria Petrone (PSOL/RJ) e Sônia Guajajara, coordenadora da Associação de Povos Indígenas do Brasil. Ao final, todas reafirmaram: SEGUIREMOS EM MARCHA, ATÉ QUE TODAS SEJAMOS LIVRES!

A hora é agora: Juventudes promovem festival

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Mazé Moraes (esq.), Secretária de Mulheres da CONTAG e Mônica Bufon (dir.), Secretária de Juventudes.

“Lançar o Festival das Juventudes durante a Marcha das Margaridas reforça nosso compromisso com a participação das juventudes e a sucessão rural”. Após a solenidade política de abertura, Mazé Moraes falou também no lançamento do 4º Festival da Juventude Rural da CONTAG, que será realizado entre os dias 28 e 30 de abril de 2020, em Brasília. Com o objetivo de reunir 5 mil jovens na capital federal, o Festival representa a maior ação de massa da juventude rural brasileira. Seu anúncio deu-se com Maracatu e a música de Thaísa Bruna, da Secretaria de Jovens da CONTAG/ES.

De acordo com a Secretária de Juventudes da CONTAG Mônica Bufon, o Festival terá caráter formativo e reivindicatório. “Nosso grande desafio é a saída dos jovens do campo, sobretudo as mulheres jovens. Sendo que o campo tem sim oportunidade de vida digna com soberania alimentar”, disse Mônica.

“A história nos desafia”: feministas anunciam encontro nacional
As latas e tambores da Batucada Feminista soaram novamente para o lançamento do 1º Encontro Feminista do Brasil, que será em 2020, no Recife. O Encontro acontece num contexto em que a mobilização das mulheres mostra-se como uma força imprescindível na resistência aos inúmeros retrocessos da conjuntura sociopolítica e ambiental brasileira. Gestado por uma ampla articulação de movimentos, entidades e partidos do campo político da esquerda, o Encontro terá como sede a capital de Pernambuco, “território capaz de inspirar articulação feminista”, segundo o Manifesto das realizadoras.

A noite terminou com apresentações culturais, com destaque para a atriz e cantora Letícia Sabatella, que emocionou a plateia cantando Lamento Sertanejo, de Dominguinhos, seguido de A lua girou (Milton Nascimento), Assum Preto (Luiz Gonzaga), Cio da Terra (Milton) e Volver a los 17 (Violeta Parra). O set feminino e feminista ficou por conta de Não há guarda chuva , da cantora paraibana Cátia de França e o poema Ilha, da escritora pernambuca Ezter Liu. “Temos que nos somar à luta das mulheres indígenas e das Margaridas. A gente sabe o quanto essas pessoas têm a nos ensinar enquanto país”. ”, afirmou Letícia.

Por que marcham as Margaridas?
“O nosso lema – Margaridas na Luta por um Brasil com Soberania Popular, Democracia, Justiça, Igualdade e Livre de Violência – é mais do que um lema. É um modelo de Brasil, de desenvolvimento de sociedade que nós margaridas defendemos”, disse Mazé Moraes, Secretária de Mulheres da CONTAG durante a Sessão Solene em homenagem às Margaridas na Câmara dos Deputados, no dia 13. “O caráter de nossa marcha é resistência. É de luta e denúncia, mas também de proposição”, completa. As propostas das Margaridas estão reunidas em 10 eixos políticos, cujo primeiro e prioritário é Terra, Água e Agroecologia, que encabeçou a Marcha.

Como disse Beth Cardoso, do GT Mulheres da Articulação Nacional de Agroecologia durante a oficina de Soberania Alimentar e Agroecologia realizada na tarde do dia 13, antes da mística, “historicamente às mulheres foram delegadas as tarefas do cuidado, da alimentação. Por isso, muitas vezes são as mulheres que impulsionam a transição agroecológica nas propriedades”. E é no sentido de valorizar e dar visibilidade à participação feminina nesses processos de transição que reforça-se o lema SEM FEMINISMO, NÃO HÁ AGROECOLOGIA.

A agricultora e assentada da Reforma Agrária Maria Erivânia dos Santos, de Águas Mornas, integra o Núcleo Litoral Catarinense da Rede Ecovida de Agroecologia e viajou 30 horas de ônibus para chegar à Marcha. “O que me trouxe aqui foi a vontade de lutar por um Brasil melhor e ver como as mulheres são unidas no Brasil”.

“Nós marchamos contra o agronegócio”, afirma a quebradeira de côco Rozeny Batista Alexandre, de Axixá, no Tocantins. Ela conta que no seu território, a região do Bico do Papagaio, “o agronegócio está derrubando nossas palmeiras. Daqui a pouco não vamos mais ter como sobreviver, sem ter côco pra catar”. Ela afirma que veio também marchar contra a Reforma da Previdência. “A gente já leva nossos filhos com 5 anos pra quebrar coco com a gente. Se tivermos que trabalhar até os 60 anos, não vamos dar conta de trabalhar”, pontua.

A jovem Patrícia Klock é filha de uma família fumicultora de Ibirama (SC) e hoje estuda Ciências Sociais na UFSC e integra o Movimento de Mulheres Camponesas. “Uma das coisas que me traz é principalmente a minha história. Tenho duas irmãs, e em casa as relações sempre foram muito marcadas pelo machismo. Não só familiar, mas da comunidade e da sociedade que não reconhecem as mulheres como agricultoras e capazes de tomar as decisões nas propriedades. Estou aqui pra lutar contra essas injustiças e por agroecologia e respeito às mulheres”.

“Meu objetivo aqui é lutar pelos direitos de todas as mulheres, principalmente nessa Reforma da Previdência, que está retirando muitos direitos das mulheres. Dizer que não aceitamos que retirem nenhum direito nosso”, afirma Azelepônia Carneiro Rodrigues, presidente do Sindicato de Trabalhadoras/es Rurais de Itapipoca, no Ceará.

Vanusa Cardoso, quilombola do território de Abacatal, no Pará, veio à Marcha para  denunciar a violação de direitos que está ocorrendo em seu estado. “O governo do Pará e o Governo Federal estão entregando o estado para o capital internacional. E nós não vamos admitir que nossos territórios sejam entregues ao capital internacional. Não ao agronegócio, aos empreendimentos e ao capital que está acabando com nosso país!”, brada a liderança quilombola.

A trabalhadora rural Ana Luiza Lobato viajou quase 2 mil km de Palmeirândia, no Maranhão, até Brasília. “O que me trouxe é a luta pelos direitos das mulheres trabalhadoras rurais, mais políticas públicas, menos violência, e o direito à terra, à vida e à saúde”, afirma.

 

Francisdalva Cardoso, também do Quilombo do Abacatal, no Pará, afirma que “A gente veio pra defender nosso território. Sabemos que se não tiver a natureza, não tem como sobreviver. Como a gente vive em comunhão com a natureza há 309 anos, que é a idade do meu quilombo, a gente veio pedir respeito e direitos de titulação e liberdade de vida. Porque funciona viver em harmonia com a natureza. A gente é prova viva disso. Então que o congresso e governantes aprendam com os Povos e Comunidades Tradicionais a proteger e defender o que é nosso, pra que a gente tenha por muito tempo e não se acabe”, diz.

Enquanto muitas Margaridas ainda estão na estrada voltando para suas casas, fica o chamado de Mazé Moraes no Congresso:  “Nós mulheres seremos rebeldia, continuaremos na luta. E da luta não sairemos!”.