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Rede Povos da Mata fortalece a Agroecologia na Bahia

Consolidada em 2016, a Rede Povos da Mata reúne hoje 700 famílias agricultoras de 4 regiões da Bahia. Nos dias 12 e 13 de julho foi realizado o II Encontro da Rede, em Irecê, no sertão baiano. O Cepagro esteve lá e conta um pouco do que rolou.

Paula Ferreira na abertura do Encontro

“Irecê tem a maior Feira Orgânica certificada da Bahia. Não somos mais pequenos agricultores de fundo de quintal. Produzimos toneladas de alimentos! Queremos assumir o compromisso de fornecer para a alimentação escolar na região. Temos produção pra isso”. Contrariando o senso comum que associa a agricultura familiar – sobretudo a agroecológica – com algo “pequeno” ou “sem escala”, a agricultora Paula da Silva Ferreira defendeu que Agroecologia é sim uma opção para alimentar a população com qualidade e quantidade. Paula é coordenadora de um dos núcleos da Rede de Agroecologia Povos da Mata e falou durante a abertura do II Encontro da Rede, realizado em Irecê, no sertão baiano, nos dias 12 e 13 de julho. Credenciada em 2016 como um organismo participativo de certificação orgânica, a Rede Povos da Mata está presente hoje em 28 municípios baianos do Litoral, Sertão, Chapada Diamantina e Recôncavo Baiano, envolvendo 700 famílias agricultoras, sendo 300 delas certificadas, além de 6 agroindústrias. “Nosso compromisso nos próximos 2 anos é continuar colaborando e qualificar o que já temos. Não temos meta de criar mais tantos grupos ou núcleos”, afirma Tatiane Botelho, que foi presidente da Rede até este Encontro, quando nova diretoria foi empossada.

O Encontro reuniu mais de 450 pessoas ao longo dos dois dias de atividades, que tiveram o objetivo de discutir as perspectivas da Rede para o fortalecimento da produção agroecológica de alimentos de base ecológica, assim como o consumo consciente de alimentos saudáveis. Neste sentido, tanto Paula Ferreira quanto Tatiane Botelho, que estava presidente da Rede Povos da Mata, aproveitaram a presença de representantes do Ministério da Agricultura e do Governo baiano na  abertura do Encontro  para apresentar perspectivas e demandas para fortalecer a produção e ampliar o acesso a alimentos agroecológicos. Consolidar o fornecimento de alimentos orgânicos para a alimentação escolar e prover infra-estrutura para as feiras orgânicas da região, como barracas e veículos, foram algumas das necessidades elencadas no evento. As coordenadoras da Rede também ressaltaram a importância de parcerias, como a do SEBRAE e da BAHIATER (a empresa pública de assistência técnica e extensão rural) tanto no apoio do evento quanto para o trabalho das famílias.

Feira Agroecológica e análise de conjuntura abrem o Encontro
Nada como uma Feira Agroecológica para iniciar um Encontro de Agroecologia. E no da Rede Povos da Mata não foi diferente: dezenas de famílias dos 4 núcleos da Rede trouxeram alimentos, cosméticos naturais e artesanatos para comercializar, mostrando a riqueza e a diversidade da produção agroecológica.O grupo de Agroecologia Pé de Serra reúne 17 famílias da região de Uibaí, no sertão baiano. Elas produzem hortaliças, legumes e frutas orgânicas e compareceram na Feira do Encontro da Rede Povos da Mata.


Além de conhecer a força da produção agroecológica na caatinga , no Encontro foi possível provar o chocolate orgânico produzido pelas famílias do Assentamento Terra Vista, município de Arataca, onde trabalham 55 famílias. Uma delas é a do jovem agricultor Daniel de Lima Santos.


A Rede Povos da Mata abrange também a comunidade pataxó do Sul da Bahia. Durante o encontro, as mulheres pataxó da região de Porto Seguro trouxeram seus artesanatos e também o mel orgânico que está em processo de certificação pela Rede.

Na palestra de abertura, Rogério Dias, da Associação Brasileira de Agroecologia, trouxe uma análise de conjuntura da Agroecologia no Brasil e as perspectivas de resistência da produção agroecológica de alimentos. Para Rogério, “a mudança de governo acelerou o desmonte de políticas públicas para Agroecologia que já vinha acontecendo desde o golpe de 2016”. Uma delas é própria Política Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica, instituída em 2012. Rogério avalia que “A PNAPO acabou, mas ainda precisamos confirmar quando sair o Plano Plurianual pra Agricultura. Mas não temos nenhuma garantia que haverá recursos para fomento da Agroecologia”.

Rogério, entretanto, lembra que “o Brasil não é só o Governo Federal. Os estados também têm Planos Plurianuais de Agricultura”. O agrônomo ressalta que a pressão da sociedade e a atuação das redes agroecológicas são fundamentais para resistir ao desmonte de políticas públicas para agricultura familiar, agroecologia e segurança alimentar. E reforça que “neste momento, temos que incomodar. Podemos incomodar sozinho, como um bicho de pé faz. Mas, se formos um bando de formigas lava-pés, incomodamos mais ainda”.

O tema do outro painel da tarde era Os impactos dos agrotóxicos na saúde humana, mas a nutricionista Valéria Cristina Paschoal preferiu abordar os benefícios dos alimentos orgânicos. A partir de revisão bibliográfica de artigos científicos, Valéria afirma que as plantas manejadas agroecologicamente crescem mais resistentes,  essa resistência é repassada aos alimentos, aumentando a imunidade de quem os consome. Neste sentido, os alimentos da caatinga são os que trazem mais benefícios, pois crescem num ambiente extremamente adverso. Para manter essa produção, Valéria reafirma a importância da valorização da agricultura familiar: “Não existem pessoas mais cultas que os/as agricultores/as. Porque a agricultura é uma das primeiras formas de cultura que o ser humano desenvolveu”, disse.

Comida de verdade, no sertão e na cidade
Caracterizado pelo clima seco da caatinga, Irecê está num território de 20 municípios que abrange aproximadamente 44 mil famílias agricultoras. Em meio aos monocultivos de feijão com uso pesado de agrotóxicos e adubos químicos, cerca de 130 famílias cultivam a Agroecologia, articuladas na Rede Povos da Mata.

Uma dessas famílias é a de Lindomar Lins, do município de São Gabriel. Lindomar sempre trabalhou na roça, e até 2011 cultivava somente pepino e beterraba em sua propriedade, utilizando adubos químicos e agrotóxicos. Através da sensibilização e assistência técnica da empresa pública de extensão rural, Lindomar iniciou sua transição agroecológica. Com o estabelecimento da Rede Povos da Mata na região a partir de 2016, Lindomar pôde certificar sua produção como orgânica. Hoje, ele produz de 40 a 45 variedades de alimentos numa área de apenas 1,5 hectare, que tem tanto uma horta diversificada quanto um Sistema Agroflorestal. A observação do ciclo natural dos cultivos somada ao uso racional da irrigação com cobertura de solo e à produção própria de adubos e insumos orgânicos colabora para as colheitas de Lindomar, que faz 3 feiras orgânicas por semana na região. “É só entender a Natureza e trabalhar com ela que dá tudo certo”, afirma o agricultor. Os/as participantes do Encontro visitaram a propriedade de Lindomar durante uma oficina de Certificação Participativa realizada no evento. 

O trabalho de promoção da Agroecologia na região iniciou em 2011, muito pela atuação do agrônomo Edvaldo Reinaldo Filho, da empresa pública de extensão rural, a Bahiater. Além de práticas e insumos agroecológicos, ele orienta as famílias sobre o uso racional da água, já que ali os cultivos são irrigados, dependendo de poços artesanais. “Quando trabalhamos a cobertura do solo com palhadas, restos de culturas e estercos estamos utilizando tecnologias de convivência com o semiárido, além de aproveitar os insumos da própria unidade produtiva. Desta forma, há uma redução de perdas de umidade do solo, reduzindo a evaporação, além de melhorar a temperatura do solo, proporcionando melhor desenvolvimento das plantas”, explica Reinaldo. “O manejo ecológico do solo é fundamental para evitar erosão e compactação do solo, proporcionando uma melhor absorção da água de chuva e de irrigação e a permanência da biota do solo”, completa.

Através da participação na Comissão de Produção Orgânica da Bahia, Reinaldo conheceu a Rede Povos da Mata e convidou representantes para virem conhecer as famílias agricultoras do Sertão. O contato com a Rede Povos da Mata potencializou a organização dos/as agricultores/as agroecológicos de Irecê, que formaram o Núcleo Raízes do Sertão. “Depois da primeira reunião, já saíram 4 ou 5 grupos de famílias”. No âmbito da Rede, as famílias puderam não só certificar sua produção, como abrir novos canais de comercialização – tanto é que do sertão elas enviam alimentos orgânicos para a merenda escolar de Ilhéus, no Sul da Bahia. Além disso, o Raízes do Sertão promove outras 10 feiras agroecológicas na região, sendo que a de Irecê é a maior com certificação do estado, como lembrou Paula Ferreira na abertura.

A agricultora Thais Teixeira da Rosa veio de Porto Seguro, a 900km dali, para o Encontro e ficou encantada com a força da produção no sertão. A visita à propriedade de Lindomar agregou ainda mais conhecimentos para a agricultora, que também já observa os benefícios da cobertura do solo e ficou muito interessada nos insumos usados em Irecê. “Meu desafio ainda é a produção da cebola, mas vou insistir e experimentar, até encontrar o jeito certo”, afirma a agricultora. Ela já comercializava alimentos na feira, mas não tinha certificação. “Quando a gente ia vender, falava que era orgânico. E o consumidor falava: prova. Então o selo veio pra isso, pra provar pro consumidor. E também oferecemos as visitas”. Apesar de não usar agrotóxicos, Thaís ainda utilizava adubos químicos na produção. “Mas quando a Adriana [ técnica da Secretaria de Agricultura ] veio aqui pra fazer a transição, eu não tive dúvida. Porque quero que meus netos comam saudável e tenha ganhado isso de mim. Que eles digam: minha vó plantava orgânico!”, conta a agricultora. Como parte de sua transição, ela passou a produzir seus próprios adubos: “Lá em casa sou eu que adubo. Eu faço compostagem, faço meu biofertilizante. Eu que adubo”, afirma a agricultora, batendo no peito. E Thaís quer mais: “Eu ainda peco porque não fiz uma análise de solo. Também tenho vontade de levar meus produtos num laboratório, pra ver que tá livre de tudo. Mas ainda não tenho recursos pra isso. Mas quero fazer um banner, quero mais! Cada vez mais diversidade. Porque pra mim não adianta comprar o alface comigo e o resto dos alimentos virem do mercado, envenenados”.

Representantes de organizações de Alagoas, Rio Grande do Norte, Minas Gerais e Maranhão também participaram do evento, através do apoio da Inter-American Foundation. Walter dos Santos, da comunidade quilombola Piqui da Rampa, no Maranhão, veio através da Caritas Maranhão, apoiada pela IAF. Ele conta que “vejo que aqui a turma sofre uma pressão tão grande, que busca o conhecimento. Fiquei muito feliz com a oportunidade de vir aqui e trocar esses conhecimentos, quero levar de volta pra minha comunidade”. A agricultora e guardiã de sementes Ana Maria da Silva Gomes, do Rio Grande do Norte, foi mobilizada pela Comissão Pastoral da Terra e garante que “vou levar uma carrada de sabedoria de volta para as minhas companheiras do assentamento”.

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Inscrições abertas para o 4º Curso de Gestão Comunitária de Resíduos Orgânicos e Agricultura Urbana

Recentemente, Florianópolis aprovou a primeira Lei da Compostagem do Brasil, que proíbe o município de incinerar ou destinar os resíduos sólidos orgânicos a aterros sanitários. Sancionada no dia 8 de abril, a lei está em processo de regulamentação e em breve o município terá de se adaptar à nova realidade. É nesse contexto que o Cepagro realiza o 4º Curso de Gestão Comunitária de Resíduos Orgânicos e Agricultura Urbana, que acontece entre os dias 27 e 30 de agosto e está com as pré-inscrições abertas.

O objetivo do curso é disseminar a compostagem como uma forma de tratamento descentralizado dos resíduos orgânicos, através da gestão comunitária, e assim reduzir o volume enviado a aterros sanitários. De acordo com o Ministério do Meio Ambiente, os resíduos orgânicos representam metade dos resíduos sólidos urbanos gerados no Brasil e, segundo dados da Comcap/Prefeitura Municipal, Florianópolis gera uma média de 17,5 mil toneladas de resíduos sólidos por mês. Esse montante é enviado para o aterro sanitário em Biguaçu pelo valor aproximado de R$ 150,00 a tonelada, ou seja, mais de R$ 2 milhões por mês. Em Florianópolis, além de reduzir o impacto ambiental, o tratamento de todo o resíduo orgânico representaria uma economia de aproximadamente R$ 1 milhão de reais por mês.  

O Curso é gratuito e voltado para lideranças comunitárias, educadores/as e gestores/as públicos/as de todo Brasil. Os participantes irão aprender a compostagem na teoria e na prática, além de construir coletivamente planos de gestão de resíduos para suas comunidades. Na programação está prevista ainda a realização do Seminário Desafios e oportunidades na implantação da Lei da Compostagem em Florianópolis e duas visitas a experiências de gestão comunitária de resíduos, a Revolução dos Baldinhos, no Monte Cristo, e a Horta Comunitária e Pedagógica do Pacuca, no Campeche.

O curso será ministrado pela equipe técnica do Cepagro, com participação de palestrantes convidados, como o professor Rick Miller, Doutor em Ecologia Agrícola pela Universidade da Califórnia e professor do Departamento de Engenharia Rural da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Rick Miller é referência no Método UFSC de compostagem, que representa uma solução ambientalmente adequada e de baixo custo para o tratamento de resíduos orgânicos.

As pré-inscrições estão abertas através do formulário: bit.ly/curso_compostagem_cepagro e podem ser feitas até o dia 26 de julho. A depender do número de inscritos será feita uma seleção privilegiando o público alvo: lideranças comunitárias, educadores/as e gestores/as públicos/as. Para mais informações, escreva para compostagem@cepagro.org.br.

Serviço

O que: 4º Curso de Gestão Comunitária de Resíduos Orgânicos e Agricultura Urbana

Quando: 27 a 30 de agosto de 2019

Onde: Jardim Botânico, rodovia Admar Gonzaga – 742, Itacorubi, Florianópolis – SC

Contato: compostagem@cepagro.org.br.

 

Rede de Compostagem encerra ciclo de formações e fortalece práticas pedagógicas em agricultura urbana

“A educação não transforma o mundo. Educação muda as pessoas. As pessoas transformam o mundo”. A frase de Paulo Freire resume bem o que foi a Formação Livre de Compostagem e Agricultura Urbana para Educadores/as, realizada no último final de semana, 13 e 14 de julho, na comunidade Chico Mendes. A atividade aconteceu na sede da Revolução dos Baldinhos e foi facilitada pelo trio de educadores populares Júlio Maestri, do Cepagro, Karolina Karla, da Comunidade Chico Mendes e Cíntia da Cruz, da Revolução dos Baldinhos.

A atividade foi mais uma ação da Rede Municipal de Gestão Comunitária dos Resíduos e Agricultura Urbana de Florianópolis e encerrou um ciclo de seis formações que tiveram a gerência do Instituto Çarakura em parceria com a Revolução dos Baldinhos e mandato agroecológico do vereador Marcos José de Abreu (Marquito). O objetivo dessa última formação foi gerar forças coletivas para práticas pedagógicas envolvendo compostagem e agricultura urbana. Além de educadores/as, também participaram lideranças comunitárias, estudantes e agricultores/as urbanos/as. 

O primeiro dia de atividades começou com uma apresentação da Revolução dos Baldinhos e em seguida o grupo pôde conhecer o pátio de compostagem da comunidade, que recebe em média 8 toneladas de resíduos por mês. Ali, Karol e Cíntia mostraram a estrutura e a manutenção das leiras. “O problema é tão sério e a receita é tão simples”, resume Cíntia. A agente comunitária falou sobre como a gestão dos resíduos pode ser usada para falar sobre outros temas, como as políticas públicas que nem sempre chegam em determinadas comunidades.

Em seguida, os participantes retornaram para a sede da Revolução, onde Júlio Maestri falou sobre a metodologia do Cepagro no trabalho com hortas pedagógicas, que alia o calendário agrícola com o calendário escolar abordando três temas centrais: compostagem, horta agroecológica e alimentação saudável. A metodologia do Cepagro vem sendo desenvolvida há quase 10 anos. Entre 2010 e 2013, com o Programa Educando com a Horta Escolar e a Gastronomia, o Cepagro chegou a trabalhar em 83 escola da rede municipal de Florianópolis. 

Foto: Maiara Bersch / Instituto Çarakura

Além de apresentar as diversas possibilidades e metodologias unindo a horta e a compostagem no ambiente escolar, Júlio trouxe também um panorama do lixo em Florianópolis. Segundo dados da Comcap/Prefeitura Municipal, Florianópolis gera uma média de 17,5 mil toneladas de resíduos por mês.  Transportar esse montante até o aterro em Biguaçu custa cerca de R$ 150 reais por tonelada, ou seja, mais de R$ 2 milhões por mês. O Ministério do Meio Ambiente afirma que os resíduos orgânicos representam metade dos resíduos sólidos urbanos gerados no Brasil. Portanto, se todo o resíduo orgânico da capital catarinense fosse tratado localmente, a economia seria próxima a R$ 1 milhão por mês.

A tarde, o vereador Marcos José de Abreu (Marquito) fez uma fala sobre a Rede Municipal de Gestão Comunitária dos Resíduos e Agricultura Urbana de Florianópolis, que nasceu de forma coletiva a partir de uma indicação do seu mandato para Edital de Subvenção Social da Prefeitura de Florianópolis. Sob a gerência do Instituto Çarakura, em parceria com a Revolução dos Baldinhos, as formações livres da Rede contemplaram lideranças comunitárias das comunidades do Morro do Mocotó, Morro do Quilombo, Morro da Mariquinha e Morro da Queimada, além de uma formação na Moradia Estudantil da UFSC. 

“A gente avalia a atuação da Rede como super positiva”, disse Marquito e lembrou que no conjunto de ações da Rede foi aprovada a Lei da Compostagem em Florianópolis, que dispõe sobre a obrigatoriedade da reciclagem de resíduos sólidos orgânicos no município. O primeiro dia de formação terminou com o percurso sensorial, uma atividade do Slow Food Mata Atlântica que estimula a despadronização do paladar. Através dos sentidos, os participantes puderam conhecer diferentes sabores e texturas de uma diversidade imensa de alimentos.

Foto: Maiara Bersch / Instituto Çarakura

No domingo, a formação começou com uma atividade em teia, que teve como finalidade mostrar o poder de interdisciplinaridade da horta pedagógica. Com essa dinâmica, Júlio Maestri demonstrou como a horta é um espaço de convergência  de saberes. Ele defende que a educação escolar deve se aproximar mais da realidade das comunidades e conta que no caso da Revolução a escola teve um papel fundamental na sensibilização das famílias.

Foto: Maiara Bersch / Instituto Çarakura

Em seguida, o coletivo seguiu para a Escola América Dutra Machado onde foi realizada uma prática de plantio em canteiro elevado com técnicas compartilhadas pelos próprios participantes, como a adubação verde e a relação entre espécies. Durante a tarde, a agente comunitária Karol deu uma oficina de mini composteira. 

Por fim, a formação terminou com um momento de planejamento comunitário. Como o público não era somente de professores/as, os participantes se dividiram em grupos e coletivamente decidiram fazer um plano de educação ambiental para uma escola e para três comunidades de Florianópolis. Aurora Liuzzi, do Instituto Çarakura, conta que as formações sempre têm esse momento de planejamento, onde os participantes pensam a técnica de compostagem pode ser integrada da melhor forma no cotidiano daquela realidade.

As formações que vêm sendo realizadas pela Rede desde janeiro resultaram na implantação da gestão comunitária dos resíduos em três lugares: na Moradia Estudantil, no Morro do Quilombo e no Morro do Mocotó, cada uma com um método diferente. 

“No Mocotó a gente viu a galera se colocando mesmo pra mudar sua realidade diante da necessidade”, contou Cíntia. Lá, a identificação com o projeto foi grande e a formação envolveu 80 pessoas. Além de uma horta na creche, a atividade resultou na implantação de duas leiras de compostagem que vêm recebendo os resíduos orgânicos da creche da comunidade. Paulo Rogério Gomes Antunes, morador do Mocotó, conta que a gestão comunitária de resíduos serve para “mudar a realidade e reeducar as crianças da comunidade. Tirar essa imagem do crime e da rua que a comunidade tem”.

Mas apesar da vontade dos moradores, algumas questões dificultam o processo. Segundo Cíntia, a dificuldade maior hoje é a falta de apoio, principalmente com material estruturante, como a poda e serragem, porque nem sempre o poder público dá o apoio necessário.

E o projeto das Formações Livres tem o intuito de englobar essas questões também, conta Aurora Liuzzi: “tem a parte técnica da compostagem que dá um destino para o resíduo orgânico. Mas tem o porta a porta nas famílias e toda essa sensibilização também que dá resultados que saem só do ambiental e entram no âmbito social. Que é você chegar numa família para falar do resíduo e se deparar com uma situação social ali acontecendo e ter que dar conta disso também, se colocar à disposição”. 

Karol e Cíntia viveram isso ao longo dos 10 anos de Revolução dos Baldinhos, fazendo mobilização e sensibilização diariamente na comunidade Chico Mendes. “A gente acredita que outro ser pode transformar a realidade dele assim como a gente está transformando a nossa. A gente vai se comunicando e trazendo essa interação comunitária, trazendo essa certeza de que o poder está na mão do povo e somos dignos de transformar cada um a sua realidade”, disse Cinta da Cruz. 

Oficina #AgroecologiaVisual reúne agricultores/as e consumidores/as em Lages

A diversidade e animação do grupo de agricultores/as, comerciantes, estudantes e consumidores/as de alimentos agroecológicos que se reuniu em Lages no último sábado para mais uma oficina #AgroecologiaVisual ajudou a espantar o frio da Serra Catarinense durante a atividade. Recebido na Chácara Raio de Sol – onde três jovens formados no Curso Técnico em Agroecologia do IFSC dedicam-se à produção agroecológica – o grupo recebeu uma capacitação básica em audiovisual, facilitada pelo jornalista Fernando Lisboa, e conversou também sobre a importância da comunicação para promover a alimentação saudável e sustentabilidade. A atividade é resultado de uma parceria entre Cepagro e Centro Vianei de Educação Popular – através do Projeto Misereor em Rede – e teve apoio da Universidade de British Columbia e da Inter-American Foundation.

O agricultor Orlando Ribeiro de Melo (de chapéu) foi entrevistado durante a oficina

A discussão inicial foi sobre o que a Agroecologia representa visualmente para cada um. Saúde, sustentabilidade, amor, consciência e a centralidade do alimento foram algumas das ideias trazidas. “Agroecologia é ter mais saúde para o povo, com alimentos saudáveis e de qualidade”, disse o agricultor Orlando Ribeiro Melo,  de Bocaina do Sul, que é da Rede Ecovida há 10 anos e veio participar da atividade.

Jorel apresenta o sistema de compostagem para o grupo

“Agroecologia é mais do que cultivar sem veneno. É estabelecer um sistema natural”, disse a técnica em Agroecologia e agricultora Luana Silva, que trabalha na Chácara Raio de Sol. E foi numa caminhada para conhecer os sistemas naturais estabelecidos por Luana e seus companheiros de trabalho Jorel Oliveira e Bruna Dal Pizzol que os/as participantes da oficina puderam colocar em prática os ensinamentos sobre captação de imagens e áudio passados por Fernando. Após o giro, o grupo editou o material, produzindo vídeos de 1 minuto.

O grupo conheceu o Sistema Agroflorestal cultivados pelos/as jovens, assim como as áreas de compostagem e horta coberta, em que eles praticam consórcio de plantas e uso de  espécies repelentes. “Antes a gente fazia só foto, colocava um filtro do Instagram e pronto. Agora vimos que podemos fazer vídeo explicativo das nossas técnicas. Isso é muito bom e nos ajuda a atingir  nosso objetivo: distribuir alimentos agroecológicos para toda Lages a preço justo”, avaliou Jorel sobre a oficina.

Cleivia (abaixada) registrou cada detalhe do giro a campo.

Cleivia Nunes tem um empório de produtos naturais em Lages e também participou da oficina. Ela já tinha se dado conta do potencial das redes sociais e das ferramentas de comunicação para seu negócio. “Tento postar duas vezes por dia. E já percebi que, o que a gente posta, sai. Ainda temos dificuldade com comunicação visual, mas hoje pudemos aprender um pouco mais”.

Larissa Albino: a experiência da maternidade aumentou seu interesse pela alimentação saudável

Na outra ponta da cadeia circular de produção de consumo de alimentos agroecológicos, a professora Larissa Albino veio para a oficina sem um objetivo claro, mas claramente com muita vontade de expandir e conscientizar mais pessoas sobre alimentação saudável. “Quando tive que começar a dar comida para meu filho, me dei conta da importância da alimentação saudável”, conta Larissa, que através de sua conta do Instagram – que já tem mais de 2,4 mil seguidores – dá dicas de alimentação para bebês e adultos. Durante e depois da oficina, ela já foi gravando stories para compartilhar experiências e aprendizados.

Até mesmo quem já trabalha com Comunicação participou da atividade. É o caso do estudante de jornalismo Dionathan Sousa, que faz estágio no Centro de Ciências Agroveterinárias da Udesc. “Eu já trabalho com edição de vídeo, mas sempre no computador. Nunca tinha editado no celular. É mais uma ferramenta”, disse.

Fotos de Bruna Fagundes Mertins, feitas durante a oficina

Na oficina, o grupo pode conhecer também os produtos da Você + Consciente, ou @vcmaisconsciente no instagram, iniciativa da coprodutora Bruna Fagundes Mertins, que participa do projeto Misereor em Rede. Ela desenvolveu o empreendimento por uma vontade de ter um consumo mais consciente e sustentável.

O ciclo de oficinas continua neste mês, com atividades na Tekoá Vy’a, em Major Gercino, e no Assentamento Comuna Amarildo de Souza, em Águas Mornas.

 

CCA de Portas Abertas traz a comunidade para dentro da universidade

Sábado, 29 de junho, foi dia de balbúrdia no Centro de Ciências Agrárias da Universidade Federal de Santa Catarina. Cerca de 600 pessoas passaram pelo centro de ensino no bairro Itacorubi, em Florianópolis, para prestigiar a primeira edição do CCA de Portas Abertas. Além de oficinas, minicursos, mostras científicas e visitação, o evento trouxe para a universidade uma feira agroecológica com produtos de famílias da Rede Ecovida, assentados da Reforma Agrária e da Comunidade Guarani Mbya de Major Gercino.

“Esse é o tipo de balbúrdia que nós temos que fazer, é a melhor forma de mostrar o que é feito dentro da universidade”, disse o pró-reitor de extensão da UFSC, Rogério Cid Bastos, durante a abertura do evento. Esse foi o objetivo do CCA de Portas Abertas: trazer a comunidade para dentro da universidade e apresentar as pesquisas, projetos e experiências que são realizadas. 

Durante a abertura também estavam o diretor do CCA, Walter Quadros Seiffert, o vereador egresso do curso de Agronomia, Marcos José de Abreu “Marquito”, além da professora do departamento de Zootecnia, Procássia Maria Lacerda Barbosa e a servidora da direção do CCA, Aline Cardozo Pereira que estavam na comissão organizadora. Todos eles/as frisaram a importância de dar continuidade ao evento, que tem a proposta de acontecer uma vez por semestre.

Foram mais de 40 atividades, entre elas contação de histórias, curso de comportamento e bem-estar de cães, oficina de hortas em pequenos espaços para crianças, visitas guiadas à Horta Orgânica do CCA, atividades culturais e uma oficina de compostagem organizada pelo Cepagro. Para as atividades do curso de Ciência e Tecnologia de Alimentos faltou mãos e tempo para dar conta da presença de tantas crianças interessadas.

“O que mais chamou a atenção foi a quantidade de famílias. Vieram muitas famílias com crianças, foi lindo. Tinha crianças que nunca tinham entrado no CCA e adultos que achavam que era um parque. Cumpriu mesmo o objetivo de abrir o CCA para o pessoal conhecer, e conhecer até os cursos”, comemora Aline Cardozo Pereira. Ela conta que, apesar das incertezas para esta primeira edição, o evento foi organizado com muita união. Houve o envolvimento de servidores, da direção do centro, de professores e o apoio do Cepagro na organização da feira, estrutura e divulgação do evento.

Mara Virginia Galvan, que é técnica em enfermagem e cursa Nutrição na UFSC, fez questão de comparecer com o filho ao evento. Ela aproveitou a oficina de compostagem para introduzir o tema a ele: “Me interessa bastante esse tema de fazer a compostagem e de nutrir o próprio alimento, porque hoje em dia a gente come mas não sabe se o alimento que tu come tem realmente os nutriente necessários. Eu achei a oficina superinteressante e bem informativa”.

Muitos voltaram para casa com mudas de flores nas mãos. Os/as alunos/as das disciplinas de paisagismo e floricultura do curso de Agronomia decidiram distribuir para a comunidade as mudas produzidas ao longo do semestre. Para o professor destas disciplinas, Enio Luiz Pedrotti, a intenção foi “mostrar para a comunidade como a universidade pode trabalhar de uma forma bem organizada e em contato com a comunidade, ao contrário do que tenta dizer o nosso governo de que a universidade é uma balbúrdia e que ninguém faz nada na universidade. A gente está mostrando o pouquinho que a gente sabe fazer e a gente sabe fazer muito mais coisas”, disse Enio.

O CCA de Portas Abertas foi uma oportunidade tanto para a comunidade externa se aproximar do espaço universitário, quanto para os estudantes reafirmarem o conhecimento que estão produzindo. Ao lado dos agricultores agroecológicos, os graduandos em Agronomia, Gustavo Abad e Teresa Marcon, estavam presentes na feira agroecológica comercializando pela primeira vez os alimentos cultivados na Fazenda Experimental da Ressacada através do projeto de Sistema Agroflorestal, do Laboratório de Ecologia Aplicada (LEAp)

Gustavo e Teresa falaram da importância do contato entre consumidor e agricultor na feira e do evento abrir as portas para as experiências universitárias. “Esse espaço é bem importante porque é aqui que a gente vai mostrar pras pessoas como a gente pode produzir de uma forma diferente”, disse Teresa Marcon.

O evento, por fim, ganhou menção honrosa no Conselho Universitário da UFSC (CUn). Na avaliação da professora Procássia Maria Lacerda Barbosa, o primeiro CCA de Portas Abertas foi além das expectativas: “o que mais me impressionou foi o número de público realmente interessado em absorver algum conhecimento, ou seja, a Universidade sempre vai passar isso para a sociedade, “O lugar onde se gera o conhecimento”. O desejo para as próximas edições é que haja ainda mais envolvimento da comunidade universitária do CCA.

Horta escolar rural ganha cara nova com práticas agroecológicas

Compostagem, plantas companheiras e sazonalidade foram temas trabalhados com os/as estudantes da escola Tercílio Bastos, de Major Gercino, na última sexta-feira, 28 de junho. Mais uma vez o técnico de campo Henrique Martini Romano esteve na comunidade do Pinheiral, onde o Cepagro vem realizando atividades de educação ambiental através do projeto Iniciativas socioambientais e educativas em comunidades rurais, apoiado pelo Instituto das Irmãs da Santa Cruz. 

A escola já possui uma horta com 36 canteiros e, durante o último encontro, Henrique perguntou às turmas que plantas elas gostariam de semear ali, além das que já vinham cultivando com as atividades do programa Mais Educação. Respeitando o calendário agrícola, Henrique selecionou algumas espécies da lista e planejou o plantio junto com os/as alunos/as. É dessa forma, com base na educação popular, que o Cepagro trabalha a educação agroecológica: “A gente dá bastante voz para os estudantes, propõe e escuta o que eles querem fazer”, conta Henrique.

A proposta de Henrique para as turmas dos sexto, sétimo e oitavo anos foi pensar os canteiros sob um dos princípios da Agroecologia: o consórcio de plantas, característica que auxilia no controle de pragas sem o uso de veneno. A ideia foi mostrar para eles/as que “a horta é um ecossistema, e que lá existem muitas relações e interações ecológicas entre as plantas, os animais e entre o meio físico, como o solo que tem ali”, disse Henrique. Em cada canteiro, plantas companheiras foram semeadas lado a lado em diferentes desenhos, pensados pelos/as próprios/as estudantes. 

Além de colorir e diversificar os canteiros com alimentos, temperos e flores, os/as alunos/as também aprenderam como funciona uma minhocasa. Com parte do composto doado pelo Hotel SESC Cacupé de Florianópolis, a turma do sexto ano montou uma composteira para entender como os restos de alimento são transformados em adubo para a horta. Eles/as também se divertiram tirando fotos das atividades.

O professor Izair Knaul, que leciona ciências, acompanhou as turmas durante a prática e contou que as atividades na horta colaboram muito com os aprendizados em sala de aula. O oitavo ano, por exemplo, estuda o corpo humano e a alimentação saudável e nutrição são  temas que aliam o conteúdo programado na disciplina com as práticas na horta.

Muitos aprendizados podem ser obtidos fazendo a relação com as disciplinas, mas para Henrique esse não é o principal objetivo da horta. “O objetivo maior com eles é criar um espaço de vida e de trabalho coletivo onde eles vão se relacionar de uma forma diferente do que eles se relacionam dentro da sala. A horta cria uma relação diferente entre eles e a terra, sutilmente a gente vai criando uma relação de mais amor e respeito com a natureza. Essa é a principal contribuição que a horta escolar tem para a educação e para a sociedade”, conta Henrique.

As atividades da horta pedagógica na Escola Tercílio Bastos seguirão até o final do ano letivo trabalhando 3 eixos centrais: gestão de resíduos, horta agroecológica e alimentação saudável, sempre buscando aliar o calendário agrícola com o calendário escolar.

Centro de Ciências Agrárias da UFSC traz atividades gratuitas para a comunidade

Oficinas, apresentações culturais, atividades recreativas e uma Feira Agroecológica são algumas das atrações que acontecem neste sábado, 29 de junho, no Centro de Ciências Agrárias da UFSC, que abre suas portas para a comunidade das 9h às 16h, na primeira edição do projeto de extensão CCA de Portas Abertas. Além de conhecer mais sobre o que é desenvolvido e pesquisado no campus Itacorubi da UFSC, moradores e moradoras do entorno poderão também participar de diversas atividades gratuitas. “Queremos demonstrar as ações do nosso centro que têm impacto social, aproximando a comunidade”, explica a servidora Aline Pereira, da comissão organizadora.

O evento começa com uma apresentação de violino e um pocket show com Rodrigo Piva, durante a manhã. O Cepagro, ONG que atua na promoção da Agroecologia, também está construindo esse dia e vai oferecer uma oficina de compostagem das 10h às 12h. Além disso, durante o dia haverá uma Feira Agroecológica com alimentos e produtos da agricultura familiar e artesanato guarani.

A programação também traz atividades voltadas para as crianças, degustação de alimentos, oficina de massinhas e pirâmide alimentar, apresentação do projeto Lontra, Cidade das Abelhas, distribuição de mudas, somando cerca de 45 atividades. Confira a programação completa: bit.ly/CCAdePortasAbertas.

SERVIÇO

O quê: CCA de Portas Abertas
Quando: sábado, 29 de junho, das 9h às 16h
Onde: Centro de Ciências Agrárias da UFSC – Rod. Admar Gonzaga, 1346 – Itacorubi