Encontro #EngenhoéPatrimônio reúne famílias engenheiras de cinco municípios catarinenses

Famílias engenheiras de farinha de Florianópolis, Garopaba, Imbituba, Angelina e Bombinhas estiveram reunidas na capital catarinense, nos dias 14 e 15 de abril, para o Encontro #EngenhoéPatrimônio. O evento selou um processo de dois anos do qual várias famílias engenheiras participaram junto à Rede Catarinense de Engenhos de Farinha e que prevê registrar os Engenhos de Farinha como Patrimônio Cultural.

Através do Projeto Pondo de Cultura 2.0: articulação em rede, apoiado pela Secretaria de Estado de Turismo, Esporte e Cultura (SOL), foram realizadas oficinas de Educação Patrimonial facilitadas pela educadora Giselle Miotto e pela Mestra em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade Manuela Braganholo. Como fruto das oficinas, foi elaborado o Inventário Participativo dos Engenhos de Farinha do Litoral Catarinense, que apresenta os bens culturais relacionados aos engenhos e a identificação das comunidades com eles. Além disso, a Rede também contou com apoio do edital Elisabete Anderle de Estímulo à Cultura para promover atividades que geraram o livro Comida de Engenho e do Mapa Cultural dos Engenhos de Farinha de SC, lançados durante o Encontro.

O evento iniciou no domingo, no caloroso Engenho do Beto Andrade, em Santo Antônio de Lisboa. Em meio a forno, prensa, cocho e tipitis, as famílias se aconchegaram para assistir ao documentário #EngenhoéPatrimônio, produzido pelo Cepagro a partir de depoimentos coletados durante as oficinas de Educação Patrimonial. A tarde seguiu animada pelo giro do boi e cheiro da farinha torrando no forno.

José Roberto de Andrade, o Beto, herdou a tradição farinheira dos bisavós e pretende repassar esses saberes para as próximas gerações. “Não podemos deixar essa cultura morrer. Um lugar sem tradição é um lugar morto e nós não queremos que esse lugar nosso seja morto, têm muitas histórias bonitas para contar”, diz Beto. No fim do dia, com o forno ainda quente após a torra da farinha, foi a hora de fazer beiju. 

A programação de segunda-feira foi aberta ao público e começou com uma roda de conversa sobre o Patrimônio Cultural dos Engenhos, no Hotel SESC Cacupé. Participaram as famílias e equipe da Rede, além do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), na presença da educadora Carla Cruz, e da professora Caroline Celle Waltrick, da E.E.B Maria Rita Flor, de Bombinhas. Estiveram presentes também representantes da Epagri, SESC, Núcleo de Estudos Açorianos, da Fundação Catarinense de Cultura, da Fundação Municipal de Cultura Franklin Cascaes e da Fundação Municipal de Cultura de Bombinhas .

Carla Cruz iniciou sua fala frisando a importância da participação social e demonstrou como as oficinas e encontros realizados pela Rede/Cepagro possibilitaram o fortalecimento de laços entre as famílias e admiradores da cultura do engenho. Ela acredita que esses laços fortalecidos são mais eficazes na hora de pressionar o poder público. Cultura é identificação, segundo Carla, e patrimônio é vida: “O que o estado chama de patrimônio, nós chamamos de vida. Iniciativas como essa são como água e terra fértil que vão germinando novas sementes”.

A também educadora Caroline Waltrick, professora da Escola de Educação Básica Maria Rita Flor, de Bombinhas, provou que as sementes da cultura do engenho já germinaram. Ela esteve presente na primeira oficina de Educação Patrimonial da Rede em Bombinhas e trabalhou o tema com seus alunos. A partir de visitas aos engenhos e conversas com mestres e mestras, os (as) estudantes contribuíram com o levantamento de bens culturais para o inventário. Carol contou que os jovens se empolgaram com a atividade e se envolveram a ponto de aprender a fazer receitas como o beiju. Alguns deles estiveram presentes no Encontro e demonstraram total apoio a preservação dessa cultura, ressaltando sua importância inclusiva para quem não é catarinense.

O debate enriqueceu com as contribuições do público, como a sugestão da guia de turismo Claudete Medeiros, de se trabalhar o turismo de base comunitária com os engenhos, como uma alternativa econômica para as comunidades. Marlene Borges, da Associação Comunitária Rural de Imbituba, também se pronunciou ao lembrar que a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) apontou que a mandioca é um alimento com “grande potencial” e pode se transformar no principal cultivo do século 21 se for realizado um modelo de produção sustentável.

Depois da roda de conversa, o vereador Marcos José de Abreu, o Marquito (PSOL) fez uma fala sobre a questão territorial em Florianópolis. Marquito disse que segundo o censo agropecuário do IBGE de 2017, existem em Florianópolis 212 estabelecimentos rurais. Apesar disso, apenas duas regiões da ilha são consideradas áreas rurais. A cobrança de impostos sobre áreas rurais e urbanas é diferente e seu mandato está elaborando um decreto que regulamenta o pedido de isenção de impostos para áreas que na prática são rurais. 

Nas oficinas da Rede já havia sido identificado que um dos fatores que comprometem a manutenção da cultura farinheira é o fato de não haver aspectos legais que garantam a terra para o plantio, de acordo com o Plano Diretor de alguns municípios, como é o caso de Florianópolis e Garopaba. Sem terra não tem roça, sem roça não tem mandioca e sem mandioca não tem farinha.

Ao final da tarde, a turma seguiu para o Engenho do SESC Cacupé para o lançamento do livro Comida de Engenho que traz receitas tradicionais de engenhos de farinha, além de histórias das famílias que abriram suas casas e compartilharam seus saberes durante as Oficinas Gastronômicas.  O livro pode ser adquirido mediante contribuição espontânea entrando em contato pelo e-mail comunicacao@cepagro.org.br. O dinheiro vai para o caixa da Rede Catarinense de Engenhos de Farinha.

O encontro ainda terminou com um delicioso café regado a beiju, bijajica e bolo de mandioca, feito pelo cozinheiro Fabiano Gregório, do Movimento Slow Food.

 

 

Anúncios

Pais aprendem sobre conscientização ambiental na Escola Januaria Teixeira da Rocha

Quem disse que sábado não é dia de ir para a escola?

No último sábado (6 de abril), pais, alunos e professores se reuniram para uma manhã de atividades e de conscientização ambiental na Escola de Educação Básica Januaria Teixeira da Rocha, no Campeche. Junto com a Agrônoma do Cepagro Karina Smania de Lorenzi, as crianças ensinaram os pais a construir uma composteira e a separar os resíduos orgânicos. A ação aconteceu na Festa da Família e foi uma parceria entre a escola, a Associação de Moradores do Campeche (Amocam) e o Cepagro.

A Festa da Família é uma atividade que acontece anualmente e a ideia de incluir uma oficina de compostagem na programação teve como objetivo mostrar aos pais o que está acontecendo na escola e propor à eles a mudança de hábito, já que agora seus filhos e filhas aprendem em sala de aula e na prática o processo de compostagem. No sábado, o aprendizado dos pais também foi teórico e prático.

Primeiro, Karina fez uma conversa com todos os presentes sobre a importância da gestão de resíduos. Depois partiram para a construção de uma composteira onde os próprios alunos mostraram o passo-a-passo. Por fim, fizeram a manutenção da composteira da escola, que recebe os resíduos gerados na cozinha e que, a partir de agora, também receberá semanalmente os resíduos trazidos por pais e alunos. Ao longo da manhã, também foram feitas oficinas de dança circular, de bolha de sabão e bingo.

Para o presidente da Amocam  Alencar Deck Vigano, esse trabalho com educação ambiental na escola é uma vitória para a associação de moradores. Ele conta que tudo começou quando foi procurado pelo diretor da escola que precisava de uma ajuda na manutenção da composteira. Deck entrou em contato com o Cepagro, que através do Misereor em Rede propôs um projeto mais amplo, incluindo na rotina escolar o aprendizado de três práticas: Compostagem, Horta Pedagógica e Educação Alimentar e Nutricional, ao longo de todo o ano letivo.

Sobre a atividade, Deck conta que foi surpreendente e animador ver o número de famílias e o grande interesse de alunos e professoras. Disse que esse projeto vai para além da sala de aula: “Todo esse trabalho que a gente está fazendo dentro da escola faz com que essas famílias, influenciadas pelas crianças, mudem seus hábitos”.

Para a professora Ellen Regina Damasceno, a atividade “foi Show! Muitos pais comentaram positivamente sobre a oficina. Está sendo um projeto muito bom, pois trata de um tema relevante na atual conjuntura nacional e mundial, onde temos que ter o compromisso de cuidar do Planeta Terra, nas variadas frentes, como aprender a reciclar, reutilizar e reaproveitar os resíduos e usar a compostagem para adubar nossa horta, por exemplo, para termos uma alimentação mais saudável, com menos agrotóxicos”, diz.

E o trabalho continua, no dia 23 de abril acontecerá a construção da horta na escola e alguns pais já se colocaram à disposição para contribuir. Deck reforça a importância de os professores, pais e alunos assumirem o projeto como deles também, para que o trabalho não se perca. Para a Amocam “foi o projeto do ano” segundo o presidente, pois há muito carinho e dedicação envolvidos no processo.

Ele lembrou que nessa semana foi sancionada a Lei da Compostagem para reciclagem de resíduos sólidos orgânicos que institui “a obrigatoriedade da destinação ambientalmente adequada de Resíduos sólidos orgânicos por meio dos processos de reciclagem e compostagem”, projeto proposto pelo Vereador Marquito (PSOL).

As crianças, os pais e professoras da Escola de Educação Básica Januaria Teixeira da Rocha já estão se preparando e reeducando seus hábitos para essa nova realidade.

Fotos: Ana Luiza Albanás Couto de Moura

Rede Semear inicia o ano conhecendo experiência do SESC Cacupé em Agricultura Urbana

Representantes de associações de bairro, coletivos de agricultura urbana, de organizações não governamentais, do poder público municipal, estadual e federal, além de acadêmicos e curiosos por conhecer a Rede estiveram presentes na primeira reunião da Rede Semear Floripa de Agricultura Urbana em 2019. O encontro aconteceu no Hotel SESC Cacupé, na tarde da última quarta-feira, 10 de abril, e discutiu principalmente as perspectivas para a atuação da Rede em 2019.

O encontro iniciou com uma apresentação da experiência em Agricultura Urbana realizada pelo SESC Cacupé, que conta com um pátio de compostagem, uma horta e um viveiro. Ali os resíduos orgânicos gerados no restaurante são transformados em adubo para a horta, que possui fim didático. No espaço, está sendo desenvolvido ainda experimentos com aquecimento de água a partir energia gerada nas leiras de compostagem, além de trabalho com agrofloresta e abelhas nativas.

Depois da ambientação, o grupo seguiu para o Engenho de Farinha do SESC, onde a enfermeira da Vigilância em Saúde da Secretaria Municipal de Saúde e gestora do Programa Municipal de Agricultura Urbana Francisca Daussy e a Vice-Presidenta do Cepagro Erika Sagae fizeram uma apresentação da Rede Semear para aqueles que estavam na reunião pela primeira vez. Francisca lembrou que desde o início, a Rede tem como foco articular os diversos setores que debatem agricultura urbana para que juntos pautem políticas públicas no tema.

A Rede Semear é aberta e permite a participação de pessoas e instituições. Ela é composta por diferentes setores da prefeitura municipal, desde a saúde até a educação e assistência social. Na reunião desta terça-feira, estiveram presentes representantes do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Secretaria de Saúde, Fundação Municipal do Meio Ambiente (Floram), Laboratório de Educação do Campo e Estudos da Reforma Agrária (LECERA), Epagri, Sloow Food, Quinta das Plantas, Departamento de Alimentação Escolar da Prefeitura Municipal de Florianópolis, SESC, Conselho Comunitário da Costa de Dentro, Pousada Rosemary Dream e gabinete do Vereador Marquito.

Além de conversar sobre as perspectivas para 2019, a Rede também fez um balanço do IV Encontro Municipal de Agricultura Urbana de Florianópolis, que aconteceu em novembro do ano passado. Mais uma vez o encontro se mostrou um espaço de discussão muito positivo para a AU na capital e para o fortalecimento da Rede Semear e resultou na construção coletiva da Carta Política do IV Encontro, que ainda será divulgada ao público.

Falou-se sobre os avanços da Rede no último ano, como a criação do Programa Municipal de Agricultura Urbana (Decreto 17.688/2017) e a aprovação da Política Municipal de Agroecologia e Produção Orgânica de Florianópolis (PL 10.392/2018), projeto de lei elaborado junto ao mandato do vereador Marcos José de Abreu, o Marquito. Outras conquistas são a presença de hortas em 35 centros de saúde e o aumento do número de hortas comunitárias pelos bairros de Florianópolis.

Essas hortas que vão surgindo demandam estrutura e assistência do poder público e é nesse sentido que caminham os desafios da Rede Semear para a Agricultura Urbana. Eugênio Luiz Gonçalves, membro do Conselho Comunitário da Costa de Dentro e do Conselho de Saneamento Básico, esteve presente na reunião. Ele falou de algumas dificuldades enfrentadas pela Horta Comunitária do bairro e sobre a necessidade de apoio institucional na distribuição dos alimentos colhidos para entidades carentes, apoio na realização de uma feira local e formação para os agricultores urbanos, ações que fortaleceriam o trabalho local.

As ferramentas existem e as ações em Agricultura Urbana estão acontecendo, mas a falta de recurso dificulta o trabalho. Para planejar as ações práticas para o ano de 2019, a Rede Semear voltará a se reunir no final de abril.  Antes de encerrar a reunião, Erika Sagae lembrou do IV Encontro Latinoamericano de Agricultura Urbana e Periurbana – ELAUP, que acontecerá em Florianópolis entre os dias 6 e 8 de novembro. 

O Encontro é um espaço acadêmico para professores, pesquisadores e gestores públicos e de projetos na América Latina e no Caribe apresentarem suas pesquisas, as experiências em andamento e discutirem os aportes teóricos e metodológicos provenientes das ciências sociais, econômicas e ambientais. A participação dos agricultores urbanos neste encontro é muito importante, por isso haverá isenção de taxa de inscrição para estes.

A tarde terminou com um café e troca de mudas e sementes.

 

Rede de Engenhos lança publicações e reafirma: #EngenhoÉPatrimônio

Divulgação Engenho É Patrimônio 15 abril 2019

A Rede Catarinense de Engenhos de Farinha e o Cepagro têm o prazer de convidar a todos e todas que se interessam por patrimônio cultural, cultura popular e gastronomia para o encontro #EngenhoÉPatrimônio, que acontece no dia 15 de abril (2ª feira), das 9h às 16h, no Hotel SESC Cacupé. Na programação, haverá uma roda de conversa sobre o Patrimônio Cultural dos Engenhos com a participação das famílias e equipe da Rede, além do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). Também serão lançados o livro Comida de Engenho e que traz receitas tradicionais de engenhos de farinha; além do Mapa Cultural dos Engenhos de Farinha de SC, ambas publicações apoiadas pelo Edital Elisabete Anderle de Estímulo à Cultura de 2017. Destaque para a apresentação do mini-doc #EngenhoÉPatrimônio, produzido pelo Cepagro, e do Inventário Cultural dos Engenhos de Farinha de Santa Catarina, que traz um panorama sobre os bens culturais relacionados aos engenhos e sua importância para as comunidades. O Inventário foi construído de forma participativa com as comunidades, que integraram oficinas de educação patrimonial promovidas pela Rede em Bombinhas, Florianópolis, Imbituba e Garopaba. A iniciativa teve apoio da Secretaria de Estado de Turismo, Esporte e Cultura.

O evento é gratuito, as inscrições podem ser feitas pelo email engenhosdefarinha@cepagro.org.br ou no telefone  (48) 99172-3841 (com Karina).

A Rede Catarinense de Engenhos de Farinha reúne famílias que mantêm ou trabalham em engenhos, junto com agentes públicos, pesquisadores/as, cozinheiros/as, educadores/as e ativistas pela preservação de seu patrimônio agroalimentar e cultural. Para saber mais, siga nossa página no Facebook: www.facebook.com/RedeCatarinensedeEngenhosDeFarinha

 PROGRAMAÇÃO #EngenhoÉPatrimônio

9h – 11h Auditório
Hotel Sesc Cacupé
ABERTURA
Mesa redonda: #EngenhoÉPatrimônio: educação patrimonial nos engenhos de farinha catarinenses – IPHAN, Cepagro, representante dos engenhos
11h – 11h30 Apresentação do mini-doc #EngenhoÉPatrimônio
12h – 13h30 Restaurante Sesc Cacupé Almoço
13h30 – 14h Engenho do SESC CACUPÉ Apresentação do Inventário Cultural dos Engenhos de Farinha de SC
14h – 14h30 Engenhos no território catarinense e lançamento do Mapa Cultural dos Engenhos de Farinha de SC (possibilidade participação vereador Marquito)

Estudantes da Escola Januária, no Campeche, participam de primeira oficina de compostagem

Resíduos orgânicos, compostagem e destinação correta do lixo são conceitos que a partir de agora os alunos da Escola de Educação Básica Januária Teixeira da Rocha, no Campeche, conhecem bem.  Na última quarta-feira, 27 de março, as turmas do 1º ao 5º ano participaram da primeira oficina de Compostagem, assessorados pela Engenheira Agrônoma Karina Smania de Lorenzi, da equipe do Cepagro.

A ação, que iniciou em fevereiro com uma formação para os professores e funcionários, é uma parceria entre a escola e a Associação de Moradores do Campeche (Amocam) e está inserida na meta de oficinas do Cepagro para a Educação Alimentar e Nutricional através do projeto Misereor em Rede. O objetivo é trabalhar com as turmas três eixos centrais: Compostagem, Horta Pedagógica e Educação Alimentar e Nutricional, ao longo de todo o ano letivo.

Logo pela manhã, depois de uma explicação teórica em sala de aula, as crianças foram para a parte externa da escola colocar em prática o conteúdo trabalhado na primeira parte da aula. Elas mesmas montaram uma composteira que de agora em diante vai receber parte dos resíduos gerados na cantina da unidade. As turmas da tarde também tiveram a aula dividida entre teoria e prática, desta vez tudo em sala de aula.

Para a professora Silvia Leticia de Sá Teixeira Cardoso, “essa aula inicial do projeto foi muito interessante porque além de ter a aula teórica, onde foram abordados os conceitos de lixo orgânico, inorgânico, compostagem, destino correto para cada tipo de lixo, as crianças puderam também vivenciar na prática como funciona todo o processo de compostagem, por meio da oficina que a Karina realizou com eles. O que torna todo esse conhecimento muito mais significativo”.

Ainda como parte da programação do primeiro bimestre, que será inteiro focado no tema da gestão dos resíduos sólidos e compostagem, haverá um mutirão para a implantação de uma composteira e que vai envolver alunos, pais e professores. A atividade será no dia 6 de abril, sábado, quando a escola promove a festa da família.

CEPAGRO ACOMPANHA GRUPO DE CONSUMIDORES EM FORMAÇÃO SOBRE CONSUMO CONSCIENTE

Foto: Comunicação CETAPNo último final de semana, 23 e 24 de março, grupos de consumidores de Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul se reuniram na sede do Centro de Tecnologias Alternativas Populares (CETAP), em Passo Fundo-RS, para o 3º Módulo do Curso de Formação Consumidores e Agroecologia, promovido pelo Projeto Misereor em Rede.

Foto: Comunicação CETAPEste primeiro módulo de 2019 teve como objetivo apresentar experiências de abastecimento e comercialização de alimentos ecológicos, buscando ressaltar a importância do público consumidor para o incentivo a um ambiente alimentar mais adequado saudável e sustentável. O Cepagro participou da formação acompanhando o grupo de consumidores de Florianópolis e representantes do Laboratório de Comercialização da Agricultura Familiar (Lacaf) e do grupo Ilha Meiembipe da Rede Ecovida de Agroecologia. 

Foto: Comunicação CETAPAo longo dos dois dias, os aproximadamente 60 cursistas tiveram momentos de rodas de conversa, palestras e debates que trataram, entre outras coisas, das estratégias de comercialização de alimentos orgânicos e agroecológicos e da legislação desses alimentos. O grupo também fez uma visita à Feira Ecológica de Passo Fundo, onde puderam conversar com feirantes e com a coordenação da Coonalter, cooperativa responsável pela organização das cinco feiras ecológicas da cidade.

Entre os palestrantes estava Mário Gusson e Lauro Foschiera, que apresentaram algumas experiências realizadas pelo CETAP. Ambos são figuras históricas da Rede que participaram do processo de fortalecimento da Agroecologia no sul do Brasil. Para Erika Sagae, Vice-Presidenta do Cepagro, foi muito importante para os jovens produtores e consumidores que estão chegando no processo da Agroecologia poder ouvir eles falando, “é bem importante porque é a história viva”.

No domingo, a representante da coordenação da Rede Ecovida de Agroecologia Juliana Carvalho, fez um apresentação falando um pouco da Rede e da participação dos consumidores. Erika Sagae também frisou a importância de uma conversa direta com alguém da coordenação da Rede: “Para a gente foi um ponto muito importante, porque nesse processo todo desse projeto a gente quer, ao final, constituir um grupo de consumidores na Rede Ecovida, ou reestruturar um GT que já existiu na Rede. Esse caminho a gente está trilhando de forma bem orgânica, com processos participativos dos consumidores nos grupos, inseridos nos Núcleos”, diz.

A própria Rede Ecovida vem pensando nisso e está trazendo um outro elemento que seria não o consumidor, mas o coprodutor. Este ainda é um debate inicial mas que segue na linha de que todo produtor é também um consumidor e de que todo consumidor pode se inserir na rede como um coprodutor.

O quarto e último módulo do Curso que será realizado em Florianópolis, ainda sem data definida, terá como tema a Compostagem. O curso é uma das ações do Projeto Consumidorxs e Agricultorxs em Rede, que busca contribuir para a mudança nos hábitos de produção e consumo, garantindo a segurança e soberania alimentar e nutricional da população, visando a promoção da agroecologia. O projeto é financiado pela Misereor, e executado em conjunto por quatro entidades que atuam na região sul do Brasil: Cetap (Centro de Tecnologias Alternativas Populares), no Rio Grande do Sul, AS-PTA (Assessoria em Serviços e Projetos em Agricultura Alternativa, Agricultura Familiar e Agroecologia), no Paraná e Cepagro (Centro de Estudos e Promoção da Agricultura de Grupo) e Vianei (Associação Vianei de Cooperação e Intercâmbio no Trabalho, Educação, Cultura e Saúde) em Santa Catarina.

Seminário em Florianópolis traz denúncias e anúncios sobre agrotóxicos no Brasil

Na última segunda e terça-feira, 25 e 26 de março, aconteceu no Ministério Público do Estado de Santa Catarina (MPSC) o Seminário Sobre Agrotóxicos nos Alimentos, na Água e na Saúde. O evento, organizado pelo Fórum Catarinense de Combate aos Impactos dos Agrotóxicos e Transgênicos (FCCIAT), foi dividido em quatro painéis: Agrotóxicos e Saúde, Agrotóxicos e Água, Regulação e Comércio de Agrotóxicos e Agrotóxicos e Alimentos. Ao final do último dia, foi realizada uma Plenária conjunta do FCCIAT com os Fóruns Gaúcho e Paranaense de Combate aos Impactos dos Agrotóxicos.

Agrotóxicos e Saúde

O tom do primeiro painel do Seminário foi de denúncia do começo ao fim. O debate contou com a presença da Dra. Sílvia Brandalise, pediatra referência nacional e internacional no tratamento do câncer infantil, do Dr. Jackson Rogerio Barbosa, professor e pesquisador da Universidade Federal do Mato Grosso e do Dr. Pablo Moritz, médico Pneumologista do Centro de Informação e Assistência Toxicológica de Santa Catarina (CIATox-SC).

O Dr. Pablo Moritz abriu o debate com a informação de que a tolerância mínima de toxicidade dos agrotóxicos caiu por terra. Ele mostrou que pesquisas tornam cada vez mais evidente a gravidade da contaminação por substâncias químicas na saúde da população. A lista de doenças causadas direta ou indiretamente pelo uso de agrotóxicos e pesticidas é imensa e vai desde distúrbios psiquiátricos e neurológicos até efeitos de mutação genética. Entre essas doenças está o câncer.

Referência no assunto, a Dra. Sílvia Brandalise apresentou dados alarmantes do aumento da incidência de câncer e de má formação congênita em crianças de 0 a 14 anos. A pediatra afirma que a exposição aos venenos usados nas plantações está relacionada com a leucemia e tumores no cérebro e que o consumo excessivo de alimentos contaminados também representam fatores de risco. Como ela mesma lembrou, esses dados mostram que a contaminação por agrotóxico atinge à todos, sobretudo aqueles sem poder de escolha e que a tendência é aumentar.

Em 2012, a exposição anual aos agrotóxicos era de 5,2 litros por pessoa. Cinco anos depois, se constatou que a palavra ‘exposição’ era muito branda e passou-se a considerar o consumo de agrotóxicos, que em 2017 saltou para 7,3 litros anuais por pessoa. Os dados apresentados pelo Dr. Jackson Rogerio Barbosa mostram a liderança do Brasil no consumo de agrotóxicos, onde diversas substâncias já proibidas na União Europeia ainda são utilizadas em grande escala.

Jackson e Pablo chamaram atenção para o ciclo vicioso desse modelo de negócio: quanto mais veneno se usa nas lavouras, mais resistentes se tornam as pragas e mais veneno é necessário. Quem ganha com isso? O agronegócio é o grande beneficiado, demonstra Jackson: “Esses que estão ricos e milionários não estão no Brasil, estão fora daqui. Aqui nós estamos morrendo e o nosso ambiente, nossos ecossistemas e nossa vida está sendo destruída para alguns, pouquíssimos, ficarem multibilionários no mundo”.

Agrotóxicos e Água

Ainda na terça-feira, as pesquisadoras Prof. Dra. Sonia Hess, da Universidade Federal de Santa Catarina e a Dra. Larissa Bombardi (USP), autora do atlas “Geografia do uso de agrotóxicos no Brasil“, chocaram o público com mais dados alarmantes, dessa vez com relação a água que consumimos, que pode ser considerada também o nosso principal alimento.

De acordo com Larissa Bombardi, o Brasil é extremamente permissivo quando se fala em limites de resíduos permitidos na água. No caso do herbicida Diuron, por exemplo, a legislação brasileira considera “seguro” uma quantidade até 900 vezes maior de resíduos dessa substancia na água do que é tolerado na União Europeia. Se considerarmos o glifosato, o agrotóxico mais utilizado no Brasil, esse limite chega a 5 mil vezes mais: se na Europa fosse permitido ter 1 grama desse princípio ativo em 1.000 litros de água, por exemplo, no Brasil estaria OK ter 5 kilos.

“Talvez seja porque devido à mistura de raças nós brasileiros somos mais fortes, né”, ironiza a professora Sônia Hess, que também trouxe dados alarmantes sobre a contaminação da água por esgoto e também agrotóxicos em Santa Catarina. Enquanto menos de 30% dos municípios catarinenses fazem coleta de esgoto – e ainda nem todos esses fazem o tratamento -, Sônia constatou que em 22 cidades a água está contaminada com pelo menos 7 princípios ativos – todos proibidos na União Europeia. A professora baseou-se num levantamento do Ministério Público que analisou amostras de água em 90 municípios catarinenses, e ressalta que esses dados vieram de uma única coleta. “Se for feita uma análise sistemática, veremos que o índice de contaminação é bem maior”, explica. “Estamos cozinhando e tomando banho de veneno porque permitimos o uso”, alerta. Para Sonia, “o Brasil é a maior lixeira química do mundo” e “não temos soberania quando permitimos que lixo dos outros seja depositado aqui”, criticando a comercialização de agrotóxicos aqui que são proibidos em outros países do mundo. Ela sugere a diminuição do consumo de carne e derivado de animais como uma ação prática que pode ser adotada pela sociedade para desestimular a poluição e o consumo exagerado de água.

Isso porque o elevado consumo de agrotóxicos no Brasil está diretamente relacionado ao nosso modelo agroexportador de commodities agrícolas e minerais. O Brasil consome 20% dos agrotóxicos utilizados no planeta, sendo que três culturas respondem por 72% desse montante: soja, milho e cana. “A gente se insere na economia mundializada de forma subalterna, exportando produtos com baixo valor agregado”, afirma Larissa Mies Bombardi, autora do atlas “Geografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil”.

Larissa aponta que entre 2007 e 2014, o Brasil registrou uma média de 25 mil intoxicações por agrotóxicos ao ano. Entretanto, considerando que para cada caso registrado outros 50 não são notificados – de acordo com a Organização Mundial de Saúde – esse índice pode chegar a 1.250.000 intoxicações. Destes, cerca de 20% envolvem crianças e adolescentes até 19 anos. E são nas áreas com culturas como soja, cana, milho, algodão e eucalipto que existem mais intoxicações por agrotóxicos: “Uma parte das intoxicações está relacionado ao modelo agrícola que não privilegia a segurança e soberania alimentar, mas atender a demanda de um mercado internacional de commodities”, completa. 

Considerando a proporção populacional, Santa Catarina tem um dos maiores índices de intoxicação por agrotóxicos no Brasil. O estado também desponta em casos de tentativas de suicídio com essas substâncias. 

“No Brasil, a agricultura deixou de ser sinônimo de produção de alimentos”, afirma Larissa Bombardi. Hoje, o Brasil importa feijão enquanto a monocultura de soja corresponde a 3 portugais e ½, sendo que essa produção absorve aproximadamente 52% do total de agrotóxicos comercializados no país. Outros 10% do agrotóxico comercializado vão para o milho (mais de 90% transformado em ração animal) e 10% também para as plantações de cana-de-açúcar, utilizada na produção de etanol. Ou seja, todo esse veneno agrícola absorvido pela terra e que vai parar nos rios e na água que consumimos, é destinado à exportação e não para alimentar a população.

Fiscalização e Regulação de Agrotóxicos

Este painel teve a participação de representantes das Secretarias de Agricultura do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina, abordando as principais ações de controle e fiscalização sobre falsificação, contrabando, comercialização e uso de agrotóxicos nestes estados.

No Rio Grande do Sul, estado onde são consumidos 23 litros de agrotóxicos por habitante, Rafael Friedrich, do Departamento de Defesa Agrícola, afirma que “até a população urbana está exposta à deriva dos agrotóxicos que não atingem o alvo”. Ele relatou casos de contaminação por agrotóxicos em áreas urbanas de Bagé, Santana do Livramento e Dom Pedrito, no sul do estado, muitas vezes a grandes distâncias das áreas pulverizadas. Além disso, o Rio Grande do Sul também vem registrando grande mortandade de abelhas, cuja relação com o uso de agrotóxicos também está comprovada. A Secretaria de Agricultura realiza o acompanhamento destes casos, mas certamente tem essa atividade comprometida pela falta de profissionais para atender a todo estado, de acordo com Friedrich.

O Secretário Adjunto de Agricultura de Santa Catarina, Ricardo Miotto, trouxe dados sobre a comercialização de agrotóxicos em Santa Catarina, mostrando como a questão do receituário agronômico ainda é problemática no estado. Santa Catarina é o 9º consumidor de agrotóxicos no país, comercializando cerca de 25 mil toneladas de veneno por ano,  e uma das principais infrações identificadas pela Secrataria/CIDASC é a prescrição de agrotóxicos em desacordo com a legislação. “É preciso ter um trabalho forte com os agricultores, mas também com quem autoriza o uso”, avalia Miotto. De acordo com ele, o receituário agronômico é um documento importante para o controle de uso de agrotóxicos, mas vem sendo tratado com descaso por profissionais que o assinam e também pelos estabelecimentos de comercialização.

Agrotóxicos e Alimentos

Na terça-feira, 26, os alimentos foram o foco do debate. A mesa composta por Dra. Elisabetta Recine, professora e pesquisadora da Universidade Federal de Brasília, Dr. Renato Zanella, professor e pesquisador da Universidade Federal de Santa Maria e a Dra. Ana Paula Bortoletto Martins, nutricionista e líder do programa de alimentação saudável no Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec).

Sindemia Global foi a expressão destacada pelas pesquisadoras durante o debate. O termo trata da relação entre três pandemias: mudanças climáticas, desnutrição e obesidade. Ou seja, um Sistema Alimentar que prioriza o uso de agrotóxicos, resulta na contaminação do solo, água e ar, provocando as mudanças climáticas. O uso do veneno agrícola também diminui a qualidade nutricional dos alimentos, provocando a má-nutrição. Por fim, a grande quantidade de alimentos destinados a produção de ultraprocessados resulta em altos índices de obesidade.

Pensando nisso, Elisabetta Recine diz que não é efetivo tratar dos Sistemas Alimentares de forma fragmentada: “Quando fragmentamos a compreensão, fragmentamos também os problemas, os culpados e as soluções”, afirma. Ela já foi presidenta do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea) e sugere que as políticas públicas para alimentação sejam construídas de forma coletiva.

A pesquisadora ainda chamou atenção para a mudança de narrativa e de formas de consumo. Segundo ela, a afirmação de que só é possível alimentar essa e as gerações futuras com o uso de agrotóxicos é falsa e é nosso papel também dar visibilidade às práticas que fogem do modelo hegemônico.

A Dra. Ana Paula, do Idec, concorda com Elisabetta e defende o fortalecimento das agendas agroecológicas e de produção orgânica. Ela frisou a importância do acesso à informação confiável e a Educação Alimentar e Nutricional como formas de contrapor o discurso hegemônico do agronegócio e de disputar a narrativa. Ela menciona o Guia Alimentar para a População Brasileira, material educativo e confiável produzido pelo Ministério da Saúde em 2014 e que está disponível gratuitamente online para consulta.

Ao final dos dois dias de seminário, a constatação de que a saída é coletiva foi unanimidade entre os palestrantes. Cabe a todos e todas da sociedade civil contribuir com a mudança: não consumir produtos contaminados, se alimentar de orgânicos, estimular o uso de pouco ou nenhum veneno agrícola comprando de agricultores familiares agroecológicos e cobrar um posicionamento dos governantes são algumas atitudes que nós enquanto consumidores podemos adotar.

Outra solução apontada pela procuradora do Ministério Público do Paraná e membra do Fórum Paranaense contra os Agrotóxicos, Margaret Matos de Carvalho, é a construção de legislações municipais e estaduais pra controle e redução dos agrotóxicos. “Nesta conjuntura complicada em que vivemos, a resistência está nos municípios”, afirma Margaret. Através da realização de audiências públicas no interior do estado e da atuação do Fórum Paranaense de Combate aos Agrotóxicos, foram construídas no Paraná projetos de lei municipais e estaduais para:
– proibir a pulverização aérea de veneno
– inserção de alimentos orgânicos na merenda escolar
– obrigatoriedade de barreiras verdes para áreas pulverizadas com agrotóxicos
– acabar com a isenção fiscal para agrotóxicos
A organização Terra de Direitos publicou uma cartilha com orientações para propor leis de controle e redução de agrotóxicos, que pode ser consultada aqui.