Cepagro volta a El Salvador para debater Políticas Públicas e fortalecer articulações agroecológicas

A convite da Fundación para el Desarrollo Socioeconómico y Restauración Ambiental (FUNDESYRAM) – organização parceira do Cepagro no projeto apoiado pela IAF -, nosso coordenador de desenvolvimento rural, Charles Lamb, esteve em El Salvador entre os dias 13 e 18 de maio, participando do Fórum “POLÍTICAS PÚBLICAS PARA EL FOMENTO DE LA AGROECOLOGÍA EN EL SALVADOR” e conhecendo o trabalho de fomento à Agroecologia no país centroamericano. “Foram dias de diálogo muito aberto sobre as iniciativas e contextos atuais no Brasil e de El Salvador relacionados à organização de base e promoção da agroecologia. Há muitas semelhanças e compartilhamento de saberes, conhecimentos técnicos e metodológicos”, afirma Charles.

O Fórum “POLÍTICAS PÚBLICAS PARA EL FOMENTO DE LA AGROECOLOGÍA EN EL SALVADOR” foi realizado no dia 16 de maio na capital, San Salvador, com o objetivo de  “elaborar propostas de políticas públicas nacionais e locais que apóiem a promoção da agroecologia para a produção e consumo de alimentos saudáveis em El Salvador”, visando à criação de um documento a ser apresentado ao Presidente recém-eleito do país, que tomará posse dia 1 de junho. O evento reuniu mais de 200 pessoas de todo o país, representando diferentes movimentos e organizações de base, além da cooperação internacional, representações da União Europeia, representantes públicos de municípios e academia. De acordo com Charles Lamb, foram reafirmadas “convicções de que a agroecologia realmente promove não somente o desenvolvimento das comunidades, mas é um elemento determinante para as questões relacionadas aos efeitos do clima, principalmente nos países que têm na agricultura a sua principal fonte de renda e manutenção de populações no campo”, de acordo com Charles. “Além dos painéis que trataram de temática relacionadas, à tarde se distribuiu o público presente em diferentes mesas, gerando através dessas um documento a ser apresentado ao governo federal de El Salvador, iniciativa única e respaldada por um coletivo convicto de suas proposições”, completa.

A Fundesyram é uma das principais articuladoras de uma Rede de Agroecologia em El Salvador, que reúne mais de 50 organizações do ocidente ao oriente do país. “A articulação da Rede é uma das estratégias mais concretas e acertadas para a promoção da segurança alimentar e nutricional, além da geração de renda e preservação ambiental para as famílias agricultoras. As iniciativas promovem do desenvolvimento local e regional, gerando possibilidades concretas das pessoas permanecerem em suas comunidades com qualidade de Vida”, conta o membro da equipe Cepagro.

Durante a visita à parte ocidental de El Salvador, Charles conheceu a Escola de Campo de Agricultores no município de Apaneca, a 1400 metros de altitude. Relata que ali “foi possível conhecer e dialogar com agricultoras e agricultores, representantes da Horizont 3000, e com a equipe técnica responsável por diferentes projetos executados nas regiões de atuação de Fundesyram. Chamou atenção a questão das Biofábricas existentes, uma estratégia muito avançada de oportunizar insumos de baixo custo a nível comunitário (Biofortificadores e bokashi), gerando economia e disseminação de manejos sustentáveis dos cafezais, cultura muito presente nesta região. A certificação participativa via SPG, compras públicas, câmbios climáticos, redes colaborativas, e cooperação, também foram debatidas com o grupo presente.”

Na parte Oriental, ele conheceu a Associação Intermunicipal de Desenvolvimento do Norte de Morazán, que vem colocando prioridade no desenvolvimento territorial desta região através de um consórcio de municípios, se mantendo há mais de 12 anos demandando aos governantes políticas que sejam efetivas. Ali, a Fundesyram promove a agroecologia junto a uma Escola-fundação, que até 2018 ainda trabalhava com insumos químicos procedentes de grandes multinacionais. Charles observa que “A partir do acompanhamento da Fundesyram e de outras parcerias locais, foi possível incorporar práticas agroecológicas ao conteúdo escolar e, através de grupos de estudos, implementar ações concretas de cultivos, manejos, compostagem e outros que somente reforçam a importância das hortas pedagógicas como alimentadoras do desenvolvimento local”.

Anúncios

Florianópolis recebe Seminário Internacional sobre Redes de Produção e Consumo de Alimentos Agroecológicos

Nas últimas décadas, várias iniciativas de abastecimento alimentar têm surgido e ampliado o consumo de alimentos saudáveis. No entanto, ainda é escassa a compreensão aprofundada do funcionamento das redes de produção-consumo. Pensando nisso, Cepagro, o Laboratório de Comercialização da Agricultura Familiar (LACAF/UFSC) e Movimento Slow Food construíram o Seminário Internacional Alimentos Agroecológicos e Redes de Produção-Consumo, que acontecerá nos dias 27 e 28 de maio, no Campus Trindade da UFSC e está com inscrições abertas .

Com o objetivo de compreender e fortalecer redes de produção-consumo de alimentos agroecológicos, a programação conta com palestras e mesas de debate onde pesquisadores/as, nutricionistas, cozinheiros/as e agricultores/as colocam em discussão a Agroecologia e o papel dos/as consumidores/as. As instituições organizadoras do seminário têm atuado há anos em parceria com a Rede Ecovida de Agroecologia e compreendem que investir na organização do consumo de alimentos agroecológicos é uma forma de melhorar os processos de abastecimento desses alimentos.

Francesca FornoA abertura do evento será na segunda-feira, 27 de maio, às 19h, no Auditório Pós-Graduação Centro de Ciências da Saúde (CCS/UFSC) com uma palestra sobre redes agroalimentares e consumo crítico com Francesca Forno, professora da Universidade de Trento (Itália) e Rafael Rioja, do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (IDEC). Após a palestra haverá um café-feira com produtos da Agricultura Familiar Agroecológica.

Na terça-feira, as atividades começam às 8h30, no Fórum do Centro de Ciências Jurídicas (CCJ/UFSC), com a palestra de Oscar José Rover, do LACAF/UFSC, que irá responder ao questionamento: O que são alimentos agroecológicos? Em seguida, às 9h, o evento segue para a sala de debates I onde o tema central será o Acesso aos alimentos agroecológicos e orgânicos, e o papel dos consumidores. Os convidados para tratar do tema são Sidilon Mendes (Cooperativa dos Consumidores de Produtos Ecológicos Três Cachoeiras – COOPET), Fabiano Gregório (Slow Food) e Eduardo da Rocha (CEPAGRO/COMSEAS), com mediação da professora Suellen Secchi Martinelli (Departamento de Nutrição/UFSC).

Valentina BiancoÀs 11h, após um café com alimentos dos agricultores agroecológicos e das Fortalezas Slow Food, a programação segue com outro debate, dessa vez sobre as Estratégias para a valorização de produtos da Agricultura Familiar Agroecológica. Na mesa estarão a diretora da Slow Food Internacional para o Brasil, Valentina Bianco, o agricultor Anderson Romão, do Grupo Flor do Fruto/Rede Ecovida de Agroecologia e Fabio Santos Teixeira Mendes, do Instituto Chão, associação que trabalha sob os princípios da economia solidária, comércio justo e consumo consciente.

A tarde será dividida em dois momentos, começando no Auditório da Pós-Graduação do CCS, com a palestra de Dayana Miranda, do Programa de Pós-graduação em meio ambiente e desenvolvimento da UFPR, que irá apresentar o mapa da Rede de Cidadania Agroalimentar (RCA) da Grande Florianópolis. Um dos objetivos do Seminário é justamente consolidar a RCA de Florianópolis, que é construída com atores sociais ligados à produção, abastecimento e consumo de alimentos agroecológicos.

No segundo momento, os participantes se organizarão em três grupos de trabalho paralelos sobre os temas: I) Legitimação e Formalização de Mercados Agroecológicos; II) Articulação entre restaurantes e grupos de agricultores; e III) Organização de grupos de consumidores. O Seminário encerra com uma assembleia final de encaminhamentos, às 16h30.

As inscrições são gratuitas e devem ser feitas no site do evento (www.seminarioproducaoconsumo.ufsc.br) até o dia 27 de maio. Confira a programação e compareça!

 

Novas representações do COMSEAS tomam posse para o biênio 2019-2021

Ontem, 16 de maio, foi realizada a posse das novas representações governamentais e da sociedade civil do Conselho Municipal de Segurança Alimentar e Nutricional Sustentável (COMSEAS). Estiveram presentes na cerimônia a Secretária Municipal de Assistência Social, Maria Claudia Goulart; o Vereador Marquito; Cíntia Mendonça, representando o Fórum Municipal de Políticas Públicas e André Farias, representando o Conselho Estadual de Segurança Alimentar e Nutricional, além de profissionais da Segurança Alimentar e Nutricional e a comunidade de Florianópolis. Foi um momento simbólico diante do desmantelamento e extinção da participação social no controle, gestão e governança das políticas públicas.

A composição do COMSEAS é de 2/3 para sociedade civil e o grande desafio para o próximo biênio (2019-2021) é o fortalecimento das entidades que compõem o COMSEAS e suas Comissões Permanentes para que a sociedade possa reconhecer nessa instância de participação social um local de construção de demandas para a Câmara Intersecretarial de Segurança Alimentar e Nutricional. Algumas pautas serão prioritárias para esta gestão, como a implementação do Restaurante Popular, a construção de uma política municipal de abastecimento, o fomento da produção de alimentos de base agroecológica e a dotação orçamentária para os programas de Segurança Alimentar e Nutricional existentes no município de Florianópolis.

A fome em Florianópolis é crescente, segundo dados da Secretaria Municipal de Assistência Social, 6.000 famílias recebem o Bolsa Família na capital catarinense, o que corresponde a quase 30.000 pessoas recebendo de R$ 77,00 a R$ 140,00. Esse dado é um forte indicador de Insegurança Alimentar e Nutricional. Ao mesmo tempo, Florianópolis possui um tecido social que permitirá ao COMSEAS desenvolver suas ações e o objetivo de consolidar a Política Municipal de Segurança Alimentar e Nutricional. Esta construção é de todos e todas que têm o Direito Humano à Alimentação Adequada assegurado na Constituição Federal e que ainda estão distantes do acesso a esse alimento adequado e em quantidades suficientes.

Fotos: Bianca Taranti

Crianças do terceiro ano implantam Horta Pedagógica na Escola Januária Teixeira da Rocha

Sexta-feira, 3 de maio, foi mais um dia de atividades agroecológicas na Escola de Educação Básica Januária Teixeira da Rocha, no Campeche. Junto com a Agrônoma do Cepagro Karina Smania de Lorenzi e o presidente da Associação de Moradores do Campeche (Amocam) Alencar Deck Vigano, as crianças do terceiro ano construíram uma horta agroecológica. Essa foi a terceira oficina de quatro que serão realizadas na escola em parceria com a Amocam e o Cepagro, através do projeto Misereor em Rede.

Antes de seguir para a prática, Karina explicou em sala de aula a lógica de uma horta agroecológica, como o solo que vai acolher as mudinhas deve ser preparado e o porquê de misturar diferentes tipos de plantas em um mesmo espaço. Como a composteira da escola ainda precisa de tempo para gerar composto, a horta foi iniciada com o composto doado pela obra do novo aeroporto de Florianópolis, através do núcleo de meio ambiente da Racional Engenharia.

Além da oficina com hortaliças, a turma do terceiro ano também fez uma roça de mandioca, prática que foi de encontro ao que estão estudando em sala de aula. A professora Ellen Regina Damasceno Batista contou que está começando a trabalhar sobre a cultura de Santa Catarina e com a prática vai aproveitar para abordar a cultura da mandioca.

É sempre nesse formato que Karina planeja suas atividades na escola: conversa com as professoras e traz para a horta os aprendizados que estão sendo trabalhados em sala de aula. No dia 30 de abril, já havia sido realizada uma primeira oficina de horta pedagógica com a turma do primeiro ano. Na ocasião a professora Maria Inês Evaristo estava trabalhando as estações do ano e pediu para  incluir na oficina plantas que pudessem auxiliar em doenças respiratórios. Assim, a prática envolveu as plantas de outono e vários chás que ajudam nas doenças respiratórias.

No caso do terceiro ano “a professora estava trabalhando com a cultura açoriana então a gente resolveu fazer além da oficina de hortaliças, flores e temperos, uma roça de mandioca para explicar um pouco do contexto de Florianópolis”, conta Karina. Segundo a Agrônoma, “ciências, história, matemática e demais disciplinas podem utilizar a horta como a parte prática dos estudos”.

O diretor da Escola Januária Teixeira da Rocha, Abrão Iuskow, contou que entre uma oficina e outra, as turmas da Januária ainda puderam fazer uma visita à Horta Comunitária do Parque Cultural do Campeche, o Pacuca. Lá elas viram como funciona a compostagem em maior escala e conheceram outras iniciativas de Agroecologia e Educação Ambiental.

A próxima oficina prevista para acontecer deverá abordar, além de alguma disciplina, a alimentação saudável, que é um dos três eixos de trabalho do Cepagro com Hortas Pedagógicas, junto com Compostagem e a Horta Agroecológica.

Mais de 4 mil lideranças indígenas demarcam território em Brasília durante o ATL 2019

Entre os dias 24 e 26 de abril, Brasília esteve pintada de jenipapo e urucum com a presença de mais de 4 mil lideranças de povos e organizações indígenas de todo o país, durante o Acampamento Terra Livre (ATL), maior assembleia indígena do Brasil, que acontece há 15 anos. Durante os três dias de acampamento, 305 povos originários tiveram suas demandas discutidas em plenárias e transmitidas ao poder público através de reuniões com representantes do governo.

O que reivindicam os povos originários?

As principais demandas do 15º ATL foram a anulação do dispositivo da Medida Provisória 870/19, que tira a Fundação Nacional do Índio (Funai) da estrutura do Ministério da Justiça, vinculando o órgão ao Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos e que coloca a demarcação de terras sob responsabilidade do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA).

Outra exigência foi a manutenção da Secretaria de Saúde Indígena, rejeitando a proposta de municipalização desse subsistema. Além da invalidação pelo Supremo Tribunal Federal (STF), da tese do Marco Temporal, que garante o direito ao território apenas se a área a ser demarcada estivesse ocupada pelos indígenas em outubro de 1988, o que dificulta o acesso às terras, já que a expulsão dos povos originários de seus territórios foi e ainda é recorrente no Brasil.

Com essas exigências em mente, nem o anúncio do Ministro da Justiça Sérgio Moro, autorizando o uso da Força Nacional de Segurança Pública na Praça dos Três Poderes, nem a longa jornada até a capital, que para alguns levou quatro dias de ônibus, impediram a chegada das delegações. “Resistimos ao Brasil império, à ditadura, que deixou mais de 11 mil indígenas mortos, e estamos aqui pra dizer que vamos resistir também ao fascismo. Saímos em marcha de todo os cantos do Brasil para mostrar que não vamos recuar”, declarou Sonia Guajajara, presidente da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), na Plenária de Abertura do Encontro.

Após a abertura, na noite do dia 24, as delegações seguiram em marcha até o STF acompanhadas de algumas lideranças políticas como Marina Silva e a deputada Joênia Wapichana, primeira mulher indígena eleita para a Câmara dos Deputados. Joênia lembrou da importância de defender também os conselhos de participação social, como o Conselho Nacional de Política Indigenista (CNPI) e o Conselho de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea), ameaçados de extinção pelo atual governo.

A deputada criticou a atitude do governo: “fazer a extinção de um colegiado é dar uma mensagem que você não quer ninguém fiscalizando suas políticas, que não aceita a opinião da própria sociedade para dizer onde vão ser implementada as políticas públicas. Esses conselhos têm o objetivo justamente de aprimorar essas políticas e colocar na mesa de discussão a situação da população e especificamente dos povos indígenas”.

No dia seguinte logo pela manhã, as delegações seguiram para a frente do Congresso, onde estava sendo realizada uma audiência pública na Câmara dos Deputados sobre O papel dos povos indígenas na proteção do meio ambiente e desenvolvimento sustentável e as consequências da MP 870/19. Na ocasião, Alessandra Munduruku e outras lideranças denunciaram ao presidente da Câmara Rodrigo Maia a violação dos seus direitos através da exploração pelo agronegócio, mineração, madeireiras e especulação imobiliária, que ocorrem em todas as regiões do país, muitas vezes de maneira ilegal.

FUNAI: entre os Ministérios da Justiça e da Agricultura

E foi na audiência que surgiram os primeiros anúncios do ATL 2019: Rodrigo Maia e o Presidente do Senado, Davi Alcolumbre, reconheceram que há um erro na transferência da Funai para o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos e da demarcação de terras para o MAPA e se comprometeram em devolver ambas responsabilidades para a pasta da Justiça.

Lindomar Terena, da coordenação executiva da Apib, explica que a transferência da Funai e da demarcação de terra para o MAPA “inviabiliza todo o andamento da demarcação de terras indígenas porque as pessoas que estão a frente do MAPA  são historicamente declaradas anti-indígenas”. Eloy Terena, assessor jurídico da Apib, lembra que a MP  “ainda vai continuar a tramitar nessas duas casas, mas ter um posicionamento dos dois presidentes para nós é muito importante, é a forma do movimento indígena fazer também incidência no parlamento brasileiro”, disse Eloy.

Encontro de Mulheres Indígenas

Ainda na quinta-feira, aconteceu o 1º Encontro de Mulheres Indígenas do Brasil, com o principal objetivo de construir coletivamente a 1ª Marcha de Mulheres Indígenas prevista para acontecer em agosto de 2019, em Brasília, integrando e diversificando ainda mais a potente agenda de defesa dos direitos das mulheres brasileiras: a Marcha das Margaridas.

“Território: nosso corpo, nosso espírito” será o tema da Marcha. No encontro, as mulheres se dividiram por regiões para definir quais suas principais demandas. A luta pela proteção dos territórios e do meio ambiente, a valorização da saúde e educação indígena e o combate à violência de gênero foram algumas das bandeiras levantadas na Plenária.

A antropóloga Kaingang Joziléia Daniza Jagso contou que as parentas indígenas já vinham conversando com outros movimentos de mulheres afim de conhecer outras formas de se organizar. À partir de uma articulação principalmente da Apib, na figura da presidenta Sonia Guajajara, veio o convite para participar da Marcha das Margaridas. Joziléia lembra: “nós somos mulheres da terra, então somar junto com esse movimento de mulheres que fazem a luta pela terra também é um casamento. E casa muito bem”. Para ela, a Marcha será um momento para essas mulheres comungarem os mesmos anseios e objetivos de vida, o de ocupar os territórios com dignidade e respeito”.

Plenária da Juventude e Comunicadores Indígenas

Na mesma noite, jovens e comunicadores indígenas também realizaram uma plenária para discutir suas questões. Erisvan Guajajara,  um dos responsáveis pela página Mídia Índia, contou que é preciso ter cada vez mais participação da juventude indígena nas organizações: “A gente traz para o movimento a força das novas ideias e a juventude como um todo vem mostrar para os nossos caciques que a gente não quer passar por cima deles, mas andar junto, porque eles são nossa biblioteca de saberes”, contou.

Erisvan é comunicador e conta que hoje, “a comunicação para nós é a gente poder contar a nossa história como ela realmente deve ser contada. É mostrar que nós, povos indígenas, podemos ser protagonistas da nossa própria história”.

Bia Pankararu, comunicadora do povo Pankararu no sertão de Pernambuco, contou como a comunicação entrou na sua vida por necessidade. Na noite de posse do novo governo, uma escola e um centro de saúde foram incendiados dentro da área do seu povo, “ficamos uma semana sem trabalhar com medo”, contou Bia. “Me tornei comunicadora por necessidade, a  gente conta a nossa história, somos protagonistas da nossa história. Ter consciência de pertencimento torna a política de base mais forte”, continuou Bia ao explicar que, a partir de financiamento coletivo, sua comunidade conseguiu o valor suficiente para reconstruir a escola que foi queimada.

Eles também reforçaram a importância da participação da juventude em Redes como a Rede de Juventude Indígena (REJUIND), criada em 2009 com objetivo de ser uma ferramenta para apoio e fortalecimento das juventudes indígenas, utilizando as novas tecnologias de informação e comunicação, ampliando ações que envolvem os desafios, mas também oportunidades de empoderamento político.

Na sexta-feira, 26, o dia começou com uma Marcha até a Esplanada dos Ministérios, quando representantes da Apib foram cobrar dos ministros algum comprometimento com suas demandas. O Ministro da Justiça Sérgio Moro se recusou a atender a presidenta da Apib Sonia Guajajara.

Saúde Indígena

No Ministério da Saúde, o Ministro Luiz Henrique Mandetta também não compareceu à reunião com as lideranças. Desde que assumiu, ele acirrou ainda mais o desmonte para os povos originários quando anunciou mudanças no atendimento à saúde indígena, objetivando a municipalização, o que  traria como consequência o desmonte da Política Nacional de Atenção à Saúde dos Povos Indígenas (PNASPI), levando a extinção do subsistema de saúde indígena.

Para Lindomar Terena, municípios no país inteiro estão de olho na saúde indígena, “mas eles não estão de olho em entender como implementar a saúde indígena, eles estão de olho é no montante de recurso que tem na saúde indígena que chega na casa do 1 bilhão e 700 milhões de reais. A gente entende que se a saúde indígena for encaminhada para os municípios, os municípios com absoluta certeza não empregarão 100% desse recurso”, afirmou o coordenador da Apib.

Apesar da ausência do ministro, a nova Secretária de Saúde Indígena Silvia Nobre Waiãpi afirmou que não haverá municipalização e que a Conferência Nacional de Saúde vai acontecer e com participação de lideranças indígenas nos grupos de trabalho.

Ao final dos três dias de manifestações políticas e culturais que tomaram conta da capital brasileira durante o 15º Acampamento Terra Livre, ainda houve tempo para mais um anúncio: o lançamento do relatório Cumplicidade na destruição: como os consumidores e financiadores do norte permitem o ataque do governo Bolsonaro à Amazônia brasileira.  O documento trata-se de um relatório elaborado pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) visando fundamentar a Campanha do Boicote, que desde 2015 tem pedido embargo econômico aos produtos do agronegócio brasileiro que são produzidos em cima de terras indígenas. O assessor jurídico da Apib Eloy Terena explica que o relatório foi produzido a partir de um mapeamento de 56 empresas brasileiras que foram multadas por crimes ambientais na Amazônia desde 2017, assim chegou-se nas empresas do norte do mundo que fazem negócio com os empreendimentos daqui.

Segundo Eloy, o documento é direcionado aos consumidores do norte global, que envolve Estados Unidos e Europa. “Nós queremos que esses consumidores tenham a consciência de que o produto que eles estão consumindo não tenha sangue indígena. Então, o relatório foi lançado aqui no ATL e nós vamos continuar nossa campanha internacional pela Europa e Estados Unidos pedindo boicote aos produtos do agronegócio que são produzidos em áreas de conflito e, portanto, têm o sangue dos povos indígenas”, disse o advogado.

Ao entardecer da sexta-feira, a aprovação do Documento Final do XV Acampamento Terra Livre marcou o encerramento do Encontro. No documento estão listadas 13 reivindicações dos povos originários para as instâncias dos três poderes do Estado brasileiro. Entre elas estão a demarcação de todos os territórios indígenas, alterações na MP 870/19, manutenção do Subsistema de Saúde Indígena do SUS, efetivação da Política de Educação Escolar Indígena Diferenciada e restituição do Conselho Nacional de Política Indigenista.

Texto e fotos: Clara Comandolli – Comunicação Cepagro

Cepagro fortalece atuação no rural com nova parceria

Com apoio do Instituto Irmãs da Santa Cruz, as ações do Cepagro nas comunidades rurais de Major Gercino, Nova Trento e Leoberto Leal vai ganhar novo impulso em 2019. Entre março e dezembro deste ano, o projeto Iniciativas socioambientais e educativas em comunidades rurais: ampliando os conhecimentos, fortalecendo as relações e garantindo sustentabilidade irá desenvolver ações junto a 40 famílias agricultoras (principalmente as que se dedicam ao cultivo do tabaco) e também na Escola de Educação Básica Tercílio Bastos, na comunidade do  Pinheiral (zona rural de Major Gercino). As primeiras visitas a campo já começaram: no último dia 23, a equipe técnica do projeto visitou a Escola para planejar atividades e também colaborou na colheita e despolpa de açaí numa das propriedades atendidas.

O objetivo do projeto é promover a Agroecologia como alternativa sustentável de produção agropecuária e também de organização comunitária e conservação ambiental. Uma das estratégias será o estabelecimento de áreas de cultivo diversificados com práticas de manejo e conservação de solos, como a adubação verde. A disseminação das práticas de manejo agroecológicas será principalmente por oficinas e visitas a experiências exitosas. Além disso, a agregação das famílias às dinâmicas de grupo da Rede Ecovida de Agroecologia será outro método de sensibilização e capacitação para a transição agroecológica.

Acompanhe aqui no site as próximas notícias do projeto!

Cepagro apresenta compostagem no Festival Global de Inovação Social

Reunir pessoas, organizações e empresas que buscam transformar realidades: esse foi o objetivo do Festival Global de Inovação Social, que aconteceu no domingo passado, 14 de abril. O Cepagro participou do evento apresentando a compostagem, com um stand de tira-dúvidas e uma oficina.  O Festival foi promovido pela Impact Hub Floripa, uma comunidade de empreendedores/as que trabalham coletiva e colaborativamente para desenvolver ações inovadoras de impacto social.

A proposta do Cepagro de apresentar a compostagem aos/às participantes se encaixou com os objetivos do evento, que buscou diminuir sua pegada ecológica. Enquanto no stand vieram várias pessoas que não tinham muito conhecimento do processo de compostagem, na oficina pipocaram perguntas de quem já havia iniciado algum processo de compostagem ou tinha interesse no assunto.

“A forma como lidamos com os resíduos orgânicos os torna vilões. Vilões do cheiro ruim ou da sujeira”, disse o agrônomo Júlio César Maestri, da equipe Cepagro que facilitou a oficina. A separação da fração orgânica na fonte é o primeiro passo para transformar o problema dos resíduos em solução. “E a compostagem nada mais é que criar uma casa para as bactérias que vão transformar o resíduo em adubo”, explicou Júlio.

O que pode ir ou não na composteira, qual a diferença entre composteira e minhocário e os diferentes modelos de compostagem foram algumas das questões mais discutidas durante a oficina. Os 60 minutos de duração foram curtos para tirar todas as dúvidas e ainda fazer a prática de montagem da leira de compostagem, mas serviram para despertar o interesse dos/as participantes.

Uma delas foi a bióloga Renata Correia, moradora do Rio Vermelho. “Já tentei fazer minhocário e não deu certo. Ainda estou enterrando meus resíduos orgânicos. A oficina serviu para solucionar dúvidas e me deu suporte para iniciar a compostagem”, diz Renata. “Quero implantar uma agrofloresta no meu terreno”, completa.

O Festival reuniu cerca de 1.400 pessoas. A abertura contou com a participação da jornalista e vlogueira Jout Jout, que abriu sua fala chamando atenção para o privilégio – principalmente de pessoas brancas e de classe média – de ficar distraído/a da situação política. “Alguns têm o privilégio de conseguir se distrair e não prestar atenção na política, porque não vai mudar muito a sua vida”, disse. Contrastando com a maioria branca da platéia, no palco de abertura do evento estavam mais mulheres negras para falar sobre iniciativas práticas de enfrentamento ao racismo, transformação digital e discussão sobre privilégios da branquitude.

Uma foi a produtora cultural Vitorí Barreiros, CEO da start-up Expressionismo Preto, que criou um robô chamado Dandara para identificar e denunciar práticas de racismo em redes sociais, começando pelo Twitter. Luana Génot (falando na foto), diretora do Instituto Identidades do Brasil, falou sobre a campanha Sim à Igualdade Racial, que tem o objetivo de reduzir a desigualdade racial no mercado de trabalho brasileiro. Ela falou também sobre “ocupar espaços com mulheres e mães”, fazendo consonância com Talita Matos, gerente de comunidade do Impact Hub Floripa, que ressaltou a diferença em eventos e organizações com grande participação feminina.