“Horta Agroecológica” foi o tema da Oficina Saber na Prática na Tapera

A participação das crianças marcou com energia a oficina de Hortas na Tapera, no Sul da Ilha

O ciclo de oficinas Saber na Prática chegou ao Sul da Ilha neste ano com o tema “Hortas Agroecológicas”. O curso foi realizado no Conselho Regional de Assistência Social – CRAS da Tapera no dia 6 de maio.  Estiveram presentes cerca de 35 pessoas, que observaram atentamente as instruções dos engenheirxs agrônomxs Karina Smania de Lorenzi e Ícaro Pereira, da equipe técnica do Cepagro.

texto e foto – Nando Lisbôa

Na oficina foram trabalhados diversos aspectos da montagem de um canteiro agroecológico: como colocar a terra, que tipo de húmus deve ser usado e outras orientações técnica.  A Associação Comercial e Industrial de Florianópolis (ACIF) auxilia a iniciativa do Cepagro  através do Programa de Apoio a Projetos.

Os agronomxs recebem atenção e curiosidade pelo tema da oficina: Hortas Agroecológicas

“Mas se plantar uma moeda de um real aí,  vai nascer árvore de dinheiro?”. A pergunta foi respondida com risadas de toda a plateia. “Vai sim!”, disse Nina, 12 anos, que veio acompanhada do avô e do irmão. Foi nessa clima descontraído e amigável, com a participação de homens e mulheres, jovens e adultos da comunidade local, que aconteceu a oficina. As crianças deram um toque a mais no clima alto astral.

A oficina foi iniciada com apresentação dxs participantxs uns aos outros, e logo todos estavam integrados trocando ideias, conhecimentos  e informações sobre experiências anteriores à oficina.   Após as apresentações, Karina e Ícaro explicaram o passo a passo:

1 – Montagem dos canteiros: os canteiros mandalas são preparados com muita palha. “Pode deixar 20cm  de palha” diz Karina ajeitando junto com os alunos o mato seco espalhado. “Se à gente colocar muito pouco , em 15 dias esse canteiro vai ficar baixinho demais, tem que colocar bastante palha pra ele se sustentar no solo” explica Ícaro.

2 – Preparação com composto: “Agora já temos o canteiro, agora a gente vai preparar os berços que são as covinhas para as mudas de planta” explicam os palestrantxs. Nessa etapa, são abertos buracos na palha, que não podem ser muito rasos nem estreitos, para ficarem cheios de nutrientes. “A  planta vai se alimentar dos nutrientes, por isso tem que ter bastante adubo, isso explica buracos grandes para caber bastante”, esclarece Ícaro.

O canteiro com buracos largos preenchidos com o adubo,  para o crescimento das mudas.

3 – O tipo de composto: o composto utilizado na oficina é resultante da decomposição de resíduos orgânicos, folhas e palha. Mas, “se pode usar esterco de curral, galinha e até de cavalo”, diz Ícaro. Ao mencionar “esterco de cavalo”, logo surge a dúvida:

Mas esterco de cavalo não é muito ácido?

Desde que seja bem curtido não tem problema. Dá para usar também, responde Ícaro. 

 4 – O plantio: as mudas são transplantadas para o canteiro. “Nunca plante com saquinho, senão ela fica pequenininha e não vai crescer”, ressaltam os facilitadores. Esse foi o momento em que mais se trocou informações, os conhecimentos dos agronomxs e todo domínio de tecnologia que possuem foram repassados aos participantes. Mas também houve o caminho inverso, quando o conhecimento popular veio à tona, ensinando técnicas e práticas intuitivas sob domínio dos nativos da ilha.

5 – Regue a vida: o quinto passo é simples, colocar água!

6- Calçamento: Coloque se possível tijolos em volta, isso ajuda a sustentar os canteiros.

Colocar tijolos em volta ajuda a firmar os canteiros

“Os canteiros também podem ser usados como ornamentais”, disse Ícaro Pereira, que se referia ao uso dos canteiros na jardinagem, com espécies ornamentais, como flores. Se olhar a galeria abaixo não há como negar que fica lindo!

Acompanhe o blog e a fanpage do Cepagro para saber mais sobre as próximas oficinas e atividades. Para mais informações sobre o projeto, escreva para sabernapratica.cepagro@gmail.com.

 

Encontro de Donatários da IAF reúne organizações de 14 países latino-americanos

Entre Encontros da Rede Ecovida e de Donatários, o grupo esteve reunido por quase uma semana, trocando experiências e aprendendo mutuamente

“Químico es veneno, acaba con la vida! La única salida es laAgroecología!”. O idioma não foi problema para que a plateia do 10º Encontro da Rede Ecovida de Agroecologia entoasse essas palavras de ordem junto com a delegação latino-americana que enchia o palco na Plenária Final do evento. Presenteando a Rede Ecovida com a colorida bandeira da wiphala e sementes de quinoa e noni, mais de 50 compañeras e compañeros de 14 países latino-americanos marcaram sua presença no evento, que foi uma preparação para o 3º Encontro de Donatários da Fundação Inter-Americana (IAF), realizado entre 24 e 26 de abril em Passo Fundo (RS).  Organizado pelo CETAP com apoio do Cepagro, o Encontro de Donatários reuniu representantes de 41 organizações apoiadas pela IAF na Argentina, Bolívia, Brasil, Colômbia, costa Rica, Equador, el Salvador, Guatemala, Honduras, México, Nicarágua, Paraguai, Peru e República Dominicana. Comercialização, SPG, Gênero, Juventude e Sementes foram alguns dos temas trabalhados em oficinas e visitas de campo. Além do amplo intercâmbio de experiências, demandas e interesses entre as organizações, o Encontro marcou também a continuidade da articulação do Convênio entre Cepagro e IAF que mobilizará uma rede de Agroecologia na América Latina.

Na Plenária Final do 10º EARE, a delegação latino-americana propôs a realização de uma oficina sobre Agroecologia na América Latina no próximo Encontro da Rede.

O intercâmbio dos donatários e donatárias começou durante o Encontro Ampliado da Rede Ecovida, em Erexim, com apresentações e atividades para o reconhecimento mútuo dxs participantes. Com a facilitação dxs agrônomxs Eliziana Vieira de Araújo e Rogério Súniga Rosa, o grupo compartilhou suas expectativas e contribuições para o Encontro enquanto localizavam-se no mapa da América Latina. “Amistad” – “amizade”, em castelhano – foi um dos aportes mais mencionados.

Mauricio Tinari, do Gran Chaco argentino
Beatriz Choque, da ECOTOP, Bolívia
Representantes do FUNDESYRAM, de El Salvador.
Buscando a Nicarágua no mapa
Representantes do MESSE, do Equador

 

 

 

 

Com uma exposição de banners sobre os trabalhos das organizações, as possibilidades de intercâmbios começaram a ser desenhadas. Divididos em grupos, os participantes liam os materiais e indicavam com quais organizações tinham interesse em trocar experiências e aprendizados. Rodas de chimarrão ao final de cada tarde também serviram como espaços de articulação e (re)conhecimento mútuo.

Através de uma parceria com a Universidade de Passo Fundo, uma equipe de tradutores e tradutoras fez a ponte linguística para que xs latino-americanxs pudem participar das oficinas e seminários do Encontro Ampliado da Rede Ecovida.

A temática dos Sistemas Participativos de Garantia (SPG) na Rede Ecovida foi uma das mais apontadas pelxs participantes como sendo de seu interesse. David Flores, do Grupo Guia, de Honduras, é um deles: “Um aspecto desconhecido é o caso do Sistema Participativo de Garantia, que nós queremos implementar no meu país esse sistema”, disse. A semente de um SPG a partir do Encontro Ampliado da Rede Ecovida já brotou em outros países, como aconteceu com o Centro Campesino, do México. Inspirada pela experiência da Rede Ecovida que eles conheceram durante o Encontro Ampliado de 2012, realizado em Florianópolis (SC), a organização fundou a associação Tijtoca Nemiliztli, que hoje implementa um  SPG no estado de Tlaxcala, a 100km da Cidade do México.

Dentre os donatários e donatárias brasileirxs, a Rede Ecovida também é um exemplo. “Nós estamos articulando uma Rede Tocantinense de Agroecologia, uma rede horizontal, que envolva os agricultores . Então, conhecer como funciona a Rede Ecovida foi fundamental”, explicou Selma Yuki Ishii, da APA-TO. Para que a estrutura e dinâmicas de funcionamento da Rede ficassem claras, o agrônomo Laércio Meirelles, um dos seus fundadores, realizou duas apresentações sobre a Rede Ecovida: uma durante o Encontro Ampliado, outra no Encontro de Donatários.

Já reunido em Passo Fundo, o grupo iniciou as atividades montando um relicário , reunindo símbolos e recordações dos seus países e organizações. A esses tesouros, foram adicionados mais sonhos e expectativas, juntamente com uma colheita dos aprendizados do Encontro da Rede Ecovida.

“O mais importante para nós é criar essa rede de interesses com  objetivos comuns pela agroecologia”, afirmou David Ivan Fleischer, representante da IAF no Brasil, durante a abertura do Encontro.

David Fleischer e Jeremy Coon, da IAF, falam sobre os objetivos do Encontro de Donatários.
Apresentação dos representantes da IAF que participaram do Encontro.
Parte da equipe do CETAP que organizou o Encontro de Donatários.

Mas a atividade principal do primeiro dia do Encontro de Donatários foi as visitas a campo para conhecer cinco experiências em agroecologia apoiadas pelo CETAP. O ponto de comercialização de produtos agroecológicos da Associação Sagra Italiana, no município de São Domingos do Sul (a 85km de Passo Fundo), foi a primeira parada de um dos grupos.

Também foram visitadas pequenas propriedades agroecológicas em que destacam-se o protagonismo das mulheres e da juventude. Uma delas foi a de Odete Mezomo e seus filhos André e Gabriela Favretto, em São Domingos do Sul. Com uma produção diversificada, a família entrega alimentos para escolas e também participa de duas feiras. “Quando meus pais entraram nesse tipo de produção, veio a vontade de ficar. Não ia querer trabalhar com veneno”, conta Gabriela. Além da transição agroecológica, outro desafio enfrentado pela agricultora de 30 anos foi o machismo. “Quando o nosso grupo pediu para eu dirigir o caminhão para a Feira, eu mesma resisti, porque achei que eu não ia conseguir dirigir o caminhão. Isso é machismo! Porque a sociedade nos coloca papéis. Pois, dirigir um caminhão é ‘coisa de homem e não é coisa de mulher’. Então eu duvidei que eu ia conseguir fazer. Mesmo assim fui, por insistência do grupo, e consegui fazer!”, conta.

Ali perto, na propriedade da família de Maristela Ferro, a participação das mulheres e dos jovens na produção, comercialização e tomada de decisões também é significativa, assim como na da família de Ademir Cé, outra experiência visitada.

A rodada de visitas terminou com jantares nas comunidades. Dois dos grupos foram recebidos no Salão da Comunidade 6 de Maio, em São Domingos do Sul. Muitos moradores vieram recepcionar os visitantes latino-americanxs. Além da bela macarronada com galinha caipira e vinho colonial, a noite teve muita música em português, italiano e espanhol.

As visitas a campo foram apontadas como um dos pontos altos da programação do Encontro por vários participantes , como Rosa Murillo, do MESSE (Equador): “A visita com as famílias e o tema de transformação, que aqui é constante no sentido de valorizar a diversificação da produção, foi muito interessante. Como vocês lidam com as capacidades humanas, de troca, de partilha. A experiencia da Ecovida é maravilhosa pelo modo que se vai articulando as coisas e envolvendo as pessoas”, disse.

A troca entre as organizações também foi potencializada nas oficinas e apresentações do Encontro, trabalhando com temas como  Comercialização, SPG, Gênero, Juventude e Sementes.

Genaro Ferreira apresenta a experiência da APRO (Paraguay) em SPG
Apresentação do Centro de Agricultura Alternativa do Norte de Minas, com Neucy Fagundes
David Monchon e Victor Hugo Morales falam sobre o SPG da Tijtoca Nemiliztli, de Tlxacala (México)
Protagonismo feminino é destaque no trabalho da Alternativa para Pequena Agricultura do Tocantis (APA-TO), apresentada por Selma Yuki. Ishii durante a Oficina de Gênero
Oficina sobre Sementes

A metodologia do encontro estimulou os e as participantes a realizar e apresentar sínteses das discussões já durante o Encontro.

O Encontro de Donatários coincidiu com o encerramento das comemorações pelos 30 anos do CETAP, Uma grande celebração no dia 25 de abril, com a entrega de homenagens a figuras históricas da entidade, painel de discussão sobre o papel das organizações da sociedade civil e degustação das delícias produzidas pelos grupos de agroecologia assessorados pelo CETAP deu um toque mais do que festivo à programação do Encontro.

Equipe CETAP comemora os 30 anos da organização.
O representante da IAF para o Brasil, David Ivan Fleischer, fala sobre a parceria entre a fundação e o CETAP

Depois de quase uma semana de vivências, a avaliação dos e das participantes sobre os Encontros – da Rede Ecovida e de Donatários – enfatizou o fortalecimento mútuo através do compartilhamento de informações, demandas e desafios. “Apesar de ter coisas parecidas entre as organizações, há também diferenças e aí está o verdadeiro aprendizado. Podemos estreitar as relações com outras organizações e partilhar o que nós sabemos e o que nós fazemos com as outras organizações”, disse David Flores, do Grupo Guia (Honduras). Ele faz coro com a fala de Roberto Sandoval Rodriguez, do Fundesyram (El Salvador), durante a Plenária Final do Encontro da Rede Ecovida: “Nestes dias como delegação aprendemos muito. Que os problemas e estratégias para superá-los são similares na américa latina. Que os países que representamos não estamos sós, pois temos vocês. Que é mais importante o grupo, e não o indivíduo. Que nos sentimos uma rede latino-americana de agroecologia graças a vocês”.

Selma Yuki, da APA-TO, identificou desafios às entidades que trabalham com agroecologia: “Pouco apoio governamental na realidade dos países que tem interesse de resolver os problemas na agroecologia. O apoio é dado por instituições como a IAF, que aportam os recursos, e isso limita o campo de atuação e a potencialidade de a gente disseminar mais isso como política, e de desenvolvimento como país. Eu vejo a agroecologia como uma matriz tecnológica que poderia ser a base de um desenvolvimento de um país, e, isso passa desapercebido. De qualquer forma, as instituições que apoiam a agroecologia estão atuando nesse sentido, fortalecendo a agroecologia e disseminando conhecimento. Isso é formidável e espero que a gente consiga, através de uma Rede a nível de América Latina, inserir políticas públicas para que a gente consiga realmente transformar a agroecologia”.

Além dos desafios, as organizações também listam suas fortalezas a serem compartilhadas com outras. “Um ponto forte que podemos compartilhar é o processo de produção agroecológica com enfoque em prioridades em segurança alimentar para consumo próprio. Porque sabemos que há grupos que produz comida sã para outros comerem, sem consumir a própria comida que produz”, avalia David Flores, do Grupo Guia, que trabalha com o fornecimento de cestas agroecológicas com excedentes da produção de pequenos agricultores e agricultoras  como estratégia que conjuga produção agroecológica diversificada, segurança e soberania alimentar e circuitos curtos de comercialização.

Representantes do MESSE, do Equador

Articulando cerca de 200 organizações, associações e cooperativas equatorianas, o Movimiento de Economía Social y Solidaria del Ecuador (MESSE) também esteve representado no Encontro. Rosa Murillo, uma de suas integrantes, conta que o coletivo poderia compartilhar suas experiências sobre “o aspecto administrativo e organizacional e a comercialização articulada com a campanha de consumo responsável , porque incluímos aí os consumidores nesse processo. Trabalhamos com comunicação alternativa em visitas do Movimento, além da troca de saberes das práticas da Economia Solidária”.

Comitê Gestor do projeto “Saberes na Prática em Rede”.

O Convênio firmado em setembro de 2016 entre Cepagro e IAF buscará acolher algumas dessas demandas de intercâmbios. Até 2019, o projeto Saberes na Prática em Rede promoverá a cooperação do Cepagro com a IAF e outras 5 organizações latino-americanas – CETAP (Brasil), Fundesyram (El Salvador), MINKA (Peru), APRO (Paraguay) e Centro Campesino (México) – para articular uma rede de colaboração em torno da agroecologia, promovendo a troca de experiências e o compartilhar de conhecimentos entre organizações latino-americanas. Nos próximos 2 anos e meio serão realizados seminários e oficinas de intercâmbio no Brasil e em outros países da América Latina, cujas temáticas e locais serão decididas participativamente pelo Comitê Gestor.

Veja abaixo o álbum completo de fotos do III Encontro de Donatários da IAF.

 

“Plantas Medicinais” são o próximo tema das Oficinas Saber na Prática

Com suporte do Programa de Apoio a Projetos da Associação Comercial e Industrial de Florianópolis (ACIF), o ciclo de Oficinas Saber na Prática continua suas atividades no próximo sábado, 20 de maio, com o tema “Plantas Medicinais”. Com facilitação do Mestre Alésio dos Passos Santos, a oficina acontece na Horta Comunitária do Pacuca, no Campeche, a partir das 9h da manhã. As inscrições são gratuitas e feitas somente pelo email sabernapratica.cepagro@gmail.com.

Cepagro e Slow Food intercambiam experiências em Educação Alimentar e Nutricional

Foi buscando uma solução para o desafio de criar uma receita vegetariana com ingredientes brasileiros durante o Terra Madre 2016 – o maior encontro do Movimento Slow Food, que acontece a cada dois anos em Turim, na Itália – que a cozinheira Adriana Vernacci, de São Paulo, criou um molho pesto de cambuci (fruto nativo da Mata Atlântica) com a castanha do barú, espécie típica do Cerrado brasileiro. Banhando uma bela massa artesanal e salpicada com queijo de leite cru curtido no vinho, a receita de Adriana repetiu em Florianópolis o sucesso de Turim, trazendo um sabor especial para o Encontro do Grupo de Trabalho de Educação do Slow Food, realizado de 29 de abril a 3 de maio em Florianópolis e em que a equipe técnica do Cepagro participou no primeiro dia.

texto e foto – Carú Dionísio

Baru e Cambuci: estrelas gastronômicas do Encontro

Os engenheirxs agrônomxs Gisa Garcia Barreto, Júlio César Maestri e Karina Smania de Lorenzi foram convidadxs a compartilhar com os slow-educadorxs um pouco do trabalho do Cepagro em Educação Alimentar e Nutricional e também Educação Ambiental, que envolve as Hortas Pedagógicas, a Compostagem e também a atuação em instâncias de incidência política, como o Conselho de Alimentação Escolar (CAE). O Encontro faz parte do Projeto Caracol, iniciativa do Slow Food com apoio da Misereor para trabalhar junto a 5 comunidades do alimento – engenhos de farinha, pescadores artesanais, quilombolas, assentados e agricultores do semiárido – com oficinas e sistematização de metodologias para aplicar políticas públicas de Educação Alimentar e Nutricional (EAN). Como explicou a historiadora e pesquisadora do IPHAN Gabriella Pieroni, que integra o Movimento Slow Food: “O GT de Educação do Slow Food é formado por pessoas que trabalham com alimentação em várias perspectivas e se encontraram pela educação. Nossa ideia com o projeto Caracol é compor um mosaico de metodologias de educação alimentar”.

Encontro foi realizado no Sítio Flor de Ouro, em Ratones.

Na sequência, Júlio e Karina falaram sobre a metodologia de Hortas Pedagógicas criada pela equipe técnica do Cepagro que atuou no Programa Educando com a Horta Escolar e a Gastronomia (PEHEG) de 2010 a 2014. “Nessa dinâmica de trabalho, as hortas foram estratégias para melhorar os hábitos de consumo dxs educandxs e também pensar o ciclo do alimento”, explicou Júlio. Karina ressaltou que as hortas nas escolas tinham caráter pedagógico, não necessariamente produtivo, ainda que uma das atividades era colher temperos e verduras ali para que fossem preparados pelas cozinheiras.

A engenheira agrônoma Gisa Garcia Barreto fala sobre o panorama da Alimentação Escolar no Brasil.

O trabalho de sensibilização junto à comunidade escolar, a parceria com as cozinheiras das escolas, a criação de um calendário agrícola conjugado com o ano letivo, a mobilização da escola para implementação da compostagem e o trabalho coletivo para montagem e manutenção da hortas, sempre com um toque lúdico, foram temas abordados por Karina e Júlio. “Assim, a escola torna-se um núcleo para disseminar a temática ambiental para as comunidades”, completou Júlio.

Júlio Maestri e Karina de Lorenzi apresentam a metodologia de Hortas Pedagógicas do Cepagro.

A pausa do almoço foi o momento de intercambiar saberes ecogastronômicos ao redor do fogão de lenha, com a equipe Cepagro pondo literalmente a mão na massa na preparação da massa com pesto de cambuci e castanha barú. A combinação entre Mata Atlântica e Cerrado foi apreciadíssima.

Dentro da metodologia da Hortas Pedagógicas do Cepagro, a Compostagem tem um papel central, pois instiga a reflexão sobre o ciclo do alimento e também sobre a gestão de resíduos nas escolas e comunidades. Para abordá-la em diversos contextos, a TV Composteira é uma das ferramentas mais utilizadas pela equipe técnica do Cepagro. “Além de explicar a técnica, é importante ter uma maneira lúdica e pedagogicamente eficiente de ensiná-la, estimulando a participação e o envolvimento”, explicou Júlio Maestri, enquanto apresentava o passo a passo da compostagem, mesclando informações técnicas com a participação de personagens feitos de garrafa PET e muitos risos e descontração da plateia.

Na sequência, xs integrantes do GT Educação Slow Food apresentaram seus princípios e motivações de trabalho. Conceitos como econutrição e ecogastronomia, centrados na valorização da biodiversidade local para criação de receitas e práticas alimentares, emergiram na conversa, reforçando mais um ponto de diálogo do Movimento com a agroecologia.

Uma das bandeiras do Slow Food é o “direito ao prazer”, com a alimentação representando uma experiência que vai muito além do paladar e abrange outros sentidos, como visão, olfato e tato. É nesta lógica que são feitas as Oficinas do Gosto, percursos sensoriais em que xs participantes tentam adivinhar, com os olhos vendados e através do toque, do cheiro ou do sabor, quais alimentos estão sendo apresentados. O ambiente agroflorestal do Sítio Flor de outro foi o cenário perfeito para os integrantes do GT Educação colocarem esta metodologia em prática durante o Encontro.

Para fechar a programação, as cozinheiras Adriana Vernacci e Cláudia Mattos falaram sobre a Arca do Gosto – projeto do Slow Food que tem o objetivo de documentar produtos gastronômicos especiais em risco de desaparecimento – e fizeram uma breve apresentação sobre os usos múltiplos da banana, reforçando o aproveitamento integral da planta e da fruta.

Veja abaixo o álbum completo de fotos do Encontro Cepagro e GT Educação Slow Food.

 

 

 

 

 

Agroecologia transcende fronteiras pelo bem viver durante o 10º Encontro Ampliado da Rede Ecovida

Reunindo cerca de 1.500 pessoas, o 10º Encontro Ampliado da Rede Ecovida de Agroecologia aconteceu em Erexim (RS) entre os dias 21 e 23 de abril, com a organização encampada pelo Núcleo de Agroecologia do Alto Uruguai. Com o lema “Cuidado, Cultura e Bem Viver: Construindo Caminhos”, as atividades e discussões do 10º EARE firmaram a concepção de Agroecologia para muito além da produção orgânica, representando também uma alternativa para ter mais qualidade de vida no campo e na cidade, com segurança e soberania alimentar e respeito às diversidades de gênero e de gerações. O próximo Encontro Ampliado da Rede será no Oeste de Santa Catarina, entre 2019 e 2020.

texto e foto – Carú Dionísio

Delegação do Núcleo Litoral Catarinense que foi ao 10º Encontro Ampliado da Rede Ecovida

“Uma vez na Bahia uma camponesa me disse assim: ‘Agroecologia é chamar a terra de meu bem’. Porque o que o agronegócio faz é estupro! É pornografia! Mas o que a gente faz é agro-erótico.”. Sob os aplausos de uma plateia de quase mil pessoas, a Pastora Nancy Pereira, da Comissão Pastoral da Terra, prossegue na comparação: “A agroecologia não pode ter pressa, não pode entrar sem pedir licença, tem que acariciar, tem que esperar. É uma relação dessa outra metodologia, desse outro modo, que é o modo do cuidado.

Pastora Nancy Pereira e o agro-erotismo agroecológico

Quando você ama, você cuida! Quando você deseja, você cuida! E fazer agroecologia é se envolver nessa relação erótica com a vida, com a comida, com o sol , com a água”. Proferida durante o Painel de Abertura do 10º Encontro Ampliado da Rede Ecovida de Agroecologia, as provocativas comparações da Pastora evocavam o lema do evento neste ano: “Cuidado, Cultura e Bem Viver: Construindo Caminhos”.

Realizado entre os dias 21 e 23 de abril em Erexim, no Rio Grande do Sul, o 10º EARE reuniu cerca de 1.500 pessoas, entre agricultores e agricultoras, equipes técnicas de organizações, estudantes, consumidores e consumidoras que acreditam e trabalham pela Agroecologia não só como opção produtiva, mas como um caminho para o bem viver. “Quando a gente discute agroecologia, a Rede Ecovida busca isso de forma bem mais ampla do que simplesmente a produção orgânica. É um conjunto de ações, pensando principalmente no espaço e na qualidade de vida”, afirma Edson Klein, da equipe técnica do CETAP, que juntamente com o CAPA e o Núcleo de Agroecologia do Alto Uruguai, encampou a organização do Encontro em 2017. O agricultor Aires Niedzielski, da coordenação da Rede Ecovida, vai além:O nosso sonho, a nossa luta é mostrar que a Agroecologia é a salvação do nosso planeta”.

Fazendo jus a esta ampla concepção da Agroecologia, que abarca também segurança e soberania alimentar dos povos, questões trabalhistas, sociais, de gênero e de gerações, a programação do Encontro contou com uma variada programação de 30 oficinas, que aconteceram na primeira tarde do evento. Foram trabalhados temas técnicos, políticos, sociais e gastro-etílicos: de insumos a sementes crioulas, passando por discussões sobre os impactos da Reforma da Previdência para agricultores e agricultoras ou crédito para agricultora ecológica, além do compartilhamento de receitas e sabores de frutas nativas, cervejas orgânicas e plantas alimentícias não-convencionais (PANCs).

Oficina “Cuidar de Si”, com Maria Dênis Schneider, da equipe técnica do Cepagro

A equipe técnica do Cepagro facilitou quatro oficinas durante o Encontro: “Compostagem e Gestão Comunitária de Resíduos Orgânicos”, com Júlio César Maestri; “Cuidar de Si: Respiração, Automassagem e Relaxamento” e “Feira Orgânica CCA”, com Maria Dênis Schneider e “Consumidores e Agricultores Construindo Alternativas de Abastecimento”, com Erika Sagae e equipe do Projeto Misereor em Rede.

Oficina de compostagem, com Júlio César Maestri

 

 

 

 

Oficina “Consumidores e Agricultores Construindo Alternativas de Abastecimento”, com Erika Sagae e equipe do Projeto Misereor em Rede.

Outros momentos importantes de formação dos Encontros Ampliados são os seminários, que nesta 10ª edição aconteceram no segundo dia, 22 de abril. “Os seminários discutem temas relacionados ao trabalho da Rede Ecovida e sua dinâmica. É a partir desses seminários que a gente consegue tirar diretrizes de funcionamento da Rede para o próximo período”, explica Edson Klein. Mulheres, Juventude, Comercialização, Assistência Técnica e Extensão Rural, Sementes, Certificação e Mudanças Climáticas foram as temáticas discutidas.

A participação de uma delegação com cerca de 50 membros de organizações de 14 países latino-americanos foi novamente um dos destaques do 10º Encontro Ampliado, assim como na edição de 2015, em Marechal Cândido Rondon (PR). Apoiadas pela Fundação Inter-Americana (IAF), as organizações integraram o 10º EARE como uma preparação para o Encontro de Donatários da Fundação que aconteceu na sequência, em Passo Fundo. “Nestes dias como delegação aprendemos muito. Que os problemas e estratégias para superá-los são similares na américa latina. Que os países que representamos não estamos sós, pois temos vocês. Que é mais importante o grupo, e não o indivíduo. Que nos sentimos uma rede latino-americana de agroecologia graças a vocês”, afirmou durante a Plenária do Encontro Roberto Sandoval Rodriguez, da organização FUNDESYRAM, de El Salvador. “Queremos voltar com essa energia pros nossos lugares e internacionalizar esse processo. Porque a Rede Ecovida pode ser uma rede que vai quebrar as fronteiras criadas pelos estados. A Rede Ecovida é uma rede que pode construir entre os povos”, disse Aymara Victoria Llanque Zonta, da organização boliviana IPHAE.

Delegação Latino-Americana na Plenária Final do Encontro

A delegação do Núcleo Litoral Catarinense também compareceu em peso, com quase 80 pessoas. Produtores de cogumelos orgânicos em São João Batista (SC) e membros do grupo Associada, o casal Cristina Alves e Emerson Casas Salvador participavam pela primeira vez de um Encontro Ampliado. “A gente entrou na rede em busca da certificação , mas descobrimos que a Rede é mais que isso. Na rede a gente fez vários contatos. Hoje valeria entrar na Rede mesmo que não houvesse certificação”, afirma Emerson. A troca de experiências e saberes durante o Encontro também chamou a atenção deles, assim como a dinâmica de funcionamento da Rede Ecovida: “Eu achei bem interessante porque a Rede não é só um nome, ela funciona em Rede mesmo. Não é uma hierarquia, as decisões são horizontais. E os problemas resolvidos pontualmente”, avalia Cristina. A estudante de Biologia da UFSC Eduarda Silva também estava na caravana e contou que “Foi muito bonito ver o quanto o trabalho coletivo é real e pode acontecer quando se tem um propósito verdadeiro. Foi muito gratificante ter essa vivência com agricultores, trocando informações, experiências e sementes”.

A delegação do Núcleo Litoral Catarinense incluiu estudantes, consumidorxs, equipe técnica do Cepagro e da Revolução dos Baldinhos.

Uma das inovações do 10º Encontro Ampliado foi a parceria entre Rede Ecovida e o Movimento Slow Food para prover a alimentação durante o evento. Foram 7.500 refeições preparadas com sete toneladas de alimentos orgânicos por uma equipe de 38 cozinheiras, cozinheiros e estudantes de Gastronomia dos três estados do Sul do Brasil. “Foi um grande desafio reunir e ligar os Núcleos da Rede Ecovida para conseguir os alimentos. E agora estamos aqui, cozinhando pra quem são os protagonistas dessa agricultura linda e limpa, que são os agricultores e agricultoras”, afirma o cozinheiro Israel Dedéa, do Movimento Slow Food.

 

 

 

 

 

 

 

A riqueza e o colorido da produção Agroecológica também podiam ser conferidos na Feira de Saberes e Sabores.