Cepagro articula implantação de horta comunitária no Ribeirão da Ilha

A técnica de campo e educadora Erika Sagae com a equipe do Posto de Saúde.

Num espaço geralmente associado à doença, o começo de uma horta  estimula a discussão e práticas de saúde e alimentação saudável para a comunidade. Foi o que aconteceu no sábado 7 de abril, quando a equipe do Cepagro/Projeto Misereor em Rede colaborou no mutirão inicial de implantação da horta no Posto de Saúde do Ribeirão da Ilha, ao sul de Florianópolis. Além da forte participação da comunidade – sobretudo mulheres – estiveram presentes também vários servidores da Saúde e representantes do Programa Municipal de Agricultura Urbana, como Epagri, Secretarias de Saúde e Agricultura, Comcap e Floram.

Neste primeiro momento, as e os participantes colheram bambu para levantar os canteiros. “Após a visita à Horta Comunitária do PACUCA, o pessoal gostou muito desse modelo do canteiro elevado, mais adaptado para pessoas idosas, que são maioria no público que vai atuar na horta”, explica Erika Sagae, do Cepagro. No próximo mutirão, serão produzidas as mudas e feitos os plantios.

 

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Começa campanha de financiamento coletivo para o IV Encontro Nacional de Agroecologia

A Articulação Nacional de Agroecologia (ANA) lança nesta terça-feira (10) a campanha de financiamento coletivo para arrecadar recursos para o IV Encontro Nacional de Agroecologia (ENA), que acontecerá em Belo Horizonte (MG), de 31 de maio a 3 de junho.

“Quando a gente fala de agroecologia, estamos falando de tecnologias muito avançadas, e, ao mesmo tempo, do resgate de tradições muito antigas, quando não havia as armas químicas combatendo as pragas, nem a geração de tantas pragas”, explica a atriz Letícia Sabatella, que gravou o vídeo de divulgação da campanha.

Realizado desde 2002, o ENA é o maior encontro de agroecologia de todos os biomas do Brasil. A edição deste ano deve mobilizar cerca de 2 mil representantes, entre agricultores, agricultoras, indígenas, quilombolas, representantes de povos e comunidades tradicionais de todos os estados, contando com a visita de mais de 30 mil pessoas.

Segundo Denis Monteiro, secretário executivo da ANA, já foi arrecadado mais de 60% do orçamento total do encontro com parceiros institucionais, mas ainda são necessários aportes adicionais para garantir a qualidade e a repercussão do evento. “A campanha é uma oportunidade para o cidadão e a cidadã, e também para empresas e pessoas do setor de alimentos e serviços, contribuírem para a realização do encontro, que faz parte de um movimento de transformação da agricultura brasileira”, conta.

Com a mobilização de agricultores ecologistas e outras parcerias, foram definidos os produtos e serviços a serem oferecidos como recompensas aos apoiadores da campanha. As opções vão de sementes crioulas a cursos e palestras relacionadas à agroecologia, passando por alimentos, serviços e contrapartidas de visibilidade de marcas, entre outros benefícios físicos ou virtuais. Novas recompensas serão adicionadas à campanha, que será finalizada dia 15 de maio.

Para contribuir, acesse catarse.me/ivena e conheça as recompensas.

Saiba mais sobre o IV ENA, acesse enagroecologia.org.br.

 

Lutas das mulheres e de Povos e Comunidades Tradicionais dão o tom do Encontro de Donatários da IAF no Brasil

O capricho da bolsa de algodão agroecológico produzida pelas mulheres do Quilombo Gurutuba, no Norte de Minas Gerais, distribuída aos participantes do Encontro de Donatários Brasil da IAF, refletia o cuidado e a atenção com que a equipe do Centro de Agricultura Alternativa do Norte de Minas (CAA-NM) organizou o evento, realizado em Montes Claros de 6 a 10 de março. Com foco na temática de Gênero e fomentando a participação de representantes de Povos e Comunidades Tradicionais – indígenas, quilombolas, extrativistas -, o Encontro reuniu cerca de 60 pessoas de 14 estados do Brasil onde a Fundação Inter-Americana (IAF) apoia projetos de desenvolvimento local. O Cepagro esteve presente no evento trocando experiências e também facilitando uma roda de conversa sobre Sistemas Participativos de Garantia (SPG).

A coincidência da data com a Semana da Mulher – em que pautas como violência e igualdade de gênero vêm mais à tona – ressaltou a importância de projetos que promovem a inclusão e o protagonismo de mulheres na parte produtiva, no associativismo, na organização social e na comercialização, como afirma David Ivan Fleischer, representante da IAF no Brasil: “Frente aos crescentes índices de violência contra a mulher e à estagnação dos indicadores de exclusão social delas no Brasil, a gente tem buscado aumentar o número desses projetos para promover mais igualdade entre homens e mulheres”.

A Marcha das Mulheres de Montes Claros entrou na programação do Encontro.

Mais do que apresentar e conhecer experiências, o Encontro também dedicou parte de sua programação à análise de conjuntura e ao debate teórico com enfoque de Gênero. A abertura do evento, por exemplo, foi dedicada à análise do atual contexto sociopolitico do Brasil e seus impactos nas organizações sociais e na participação feminina a partir da análise ou da trajetória de cinco mulheres: Marilene Alves de Souza (CAA), Cláudia Luz (professora da UNIMONTES), Brígida Salgado (da COOPERBIO), Maria de Lourdes Gomes de Lima (CENEP-PB) e Tereza Felipe da Costa, do Movimento Nacional de Catadores de Materiais Recicláveis.

Com diferentes linguagens e baseadas em suas experiências de vida únicas, todas abordaram o tema do atual desmonte de políticas públicas em curso no Brasil, ressaltando a importância da retomar a mobilização social e a participação política da sociedade organizada.

Leninha, do CAA-NM, demonstrou como as organizações da sociedade civil cresceram durante os governos de centro-esquerda com recursos governamentais, através de chamadas e editais públicos. Com a diminuição dessas fontes de financiamento e a saída de muitas cooperações internacionais do país, as organizações têm-se voltado para estratégias em níveis municipais e estaduais, além de estabelecer alianças entre países latino-americanos. “Além disso, não podemos perder a indignação nem a autonomia”, completa.

“Vamos ter que começar tudo de novo, encontrar novas formas de luta para que as próximas gerações possam viver num país democrático”, disse Maria de Lourdes, formada em História e que lutou por décadas pelos direitos políticos de mulheres em sindicatos e outras organizações na Paraíba. Aos 83 anos, Tereza Felipe da Costa faz outro chamado importante: que a juventude se empodere da política. “Não podemos deixar o país nas mãos da 3ª idade”, completou a líder comunitária da Zona Leste de São Paulo.

Tereza Felipe da Costa: “Que golpe é esse? Todos somos responsáveis por ele. Podemos escolher lutar contra. As únicas coisas que não pude escolher na vida foram: nascer mullher, negra e no Brasil.”

Do debate e da troca de experiências para a prática, o segundo dia do Encontro foi dedicado a visitas de campo: nas agroindústrias de processamento de polpas de frutas e de buriti da Cooperativa Grande Sertão e à Área de Experimentação e Formação em Agroecologia do CCA-NM. Fundada em 2003 através de articulação do CAA-NM com um coletivo que se organizava desde 1994, a Cooperativa de Agricultores Familiares e Agroextrativistas Grande teve apoio da IAF para trabalhar o beneficiamento e processamento de frutas nativas. Em 2012, com financiamento do BNDES – o primeiro para empreendimento de agricultura familiar no Brasil – a Cooperativa fundou a planta de processamento de óleos vegetais, cujo carro-chefe é o de buriti. “Inicialmente o financiamento era para produção de biodiesel. Mas então pensamos: por que nao produzir óleo para um alimento diferenciado, ao invés de biodiesel?”, conta José Fábio Soares, agricultor e um dos diretores da Cooperativa.

Atualmente, a cadeia produtiva do buriti articulada pela Cooperativa Grande Sertão envolve cerca de 600 famílias de 10 municípios do Norte de Minas. As famílias cooperadas receberam capacitação para beneficiamento do fruto e fornecem a raspa – matéria-prima para extração do óleo – para a Cooperativa. A empresa de cosméticos Natura é um dos principais parceiros comerciais da Cooperativa. Do buriti, tudo se aproveita: a casca vira ração para os animais e da torta da raspa produz-se farinha.

No caso das frutas nativas, 200 famílias de 26 municípios do Norte de Minas fornecem as colheitas de seus quintais para a Cooperativa Grande Sertão. Nas 8 agroindústrias da Cooperativa são processadas cerca de 250 toneladas de frutas por ano, resultando em 17 sabores de polpas agroecológicas, cujo principal mercado é o Programa Nacional de Alimentação Escolar. A lógica das famílias cooperadas, entretanto, é priorizar a Segurança Alimentar: “Primeiro encher nossas barrigas, depois vender o excedente”, explica Aparecido Alves de Souza, da diretoria da cooperativa. A organização de uma OPAC para certificação das frutas nativas e das polpas é um dos próximos passos da Cooperativa e do CAA.

Na AEFA – que “não é do CAA, é dos agricultores e agricultoras”, como explicou Neucy Fagundes, da equipe técnica da organização – são cultivadas e estudadas mais de 600 espécies de plantas medicinais, além de 16 variedades de milho crioulo (estudo feito em parceria com a EMBRAPA, EMATER e UFMG). A unidade conta também com uma planta de beneficiamento de polpa de frutas e com um banco de sementes crioulas, guardando variedades de feijão, milho, sorgo, amendoim, girassol e favas. “Temos muito cuidado para saber de onde vem as sementes, para evitar contaminações”, explica Antônia Antunes da Silva Reis, secretária-executiva do CAA e moradora do  Quilombo Gurutuba. Além do risco de contaminação por transgênicos, outro desafio enfrentado para preservação das sementes são as mudanças climáticas: nos últimos 5 anos, as alteraçoes no regime das chuvas “faz o agricultor perder o tempo das sementes”, conta Antônia.

Outro momento intenso de trocas de experiências foi na oficina com o mestre de plantas medicinais Honório Dourado, que também integra a diretoria do CAA.

A participação de um grupo de jovens Xakriabá trouxe uma energia especial para a visita. Além de compartilharem seus cantos e danças, as/os jovens fizeram também uma roda de conversa com as/os participantes do Encontro, contando sobre sua luta em defesa de seu território e modos de vida. A população Xakriabá soma cerca de 11 mil pessoas no Norte de Minas Gerais.

 

As jovens lideranças Xakriabá compartilharam toda sua força e energia para seguir na luta pela defesa de seus territórios e modos de vida.

Coisas de mulher, coisas de homem: conversas e oficinas

Com a proposta de introduzir a discussão conceitual sobre relações de gênero, a professora do Curso de História da UNIMONTES Cláudia Maia foi convidada para facilitar uma oficina sobre o tema. Através de dinâmicas e uma apresentação dialogada, a professora construiu com as/os participantes o entendimento de que ser “mulher” ou “homem” – e os comportamentos e características atribuídos a esses sujeitos – é muito mais uma construção cultural e social do que condições naturais. Além disso, ela também explicou a importância de se considerar variáveis como classe social e etnia junto com a de gênero – se as mulheres são discriminadas, por exemplo, as brancas ainda são menos do que as negras. Quanto aos projetos voltados a mulheres, ela chama atenção para relações de poder baseadas no gênero que ainda atribuem o trabalho doméstico às responsabilidade femininas – logo, é preciso transformar essas relações também para não gerar mais sobrecarga para as mulheres. “Trabalhar na perspectiva de Gênero não significa só incluir mulheres em outras dinâmicas produtivas, mas transformar relações de poder”, explica a professora.

Neste sentido, iniciativas como a Campanha pela Divisão Justa do Trabalho colaboram para superar o desafio de conciliar a participação social e a geração de renda entre mulheres com outros afazeres historicamente considerados “femininos”. Essa foi uma das considerações das oficinas sobre ORGANIZAÇÃO SOCIAL COM ENFOQUE DE GÊNERO, uma das temáticas trabalhadas durante o encontro. As outras foram: Mobilização da Juventude e Produção e Comercialização.

 

Cepagro media troca de experiências sobre SPG

Fechando o Encontro, Charles Lamb e Erika Sagae, da equipe técnica do Cepagro, facilitaram uma oficina sobre Sistemas Participativos de Garantia (SPG). Após uma exposição inicial sobre o histórico dos SPGs e as dinâmicas de funcionamento da Rede Ecovida de Agroecologia, foi aberto um espaço para que participantes de diferentes redes de certificação apresentassem um pouco de sua experiência. Gilmar Batista de Souza, da Cooperafloresta; Tânea Mara Follmann, do Núcleo Litoral Catarinense e Paula Cristina dos Santos dos Núcleos Alto Uruguai e Planalto RS da Rede Ecovida de Agroecologia, e Tiago Tombini da Silveira, da Rede Povos da Mata, falaram sobre os desafios e aprendizados de seus grupos nas dinâmicas do SPG, como a certificação de produtos do extrativismo, a lida burocrática e o fortalecimento dos mecanismos de controle social (reuniões e encontros).

Revolução dos Baldinhos chega a Taubaté (SP)

Seguindo na reaplicação da Tecnologia Social de Gestão Comunitária de Resíduos Orgânicos e Agricultura Urbana pela Fundação Banco do Brasil, a Revolução dos Baldinhos chegou a Taubaté, no interior de São Paulo. No final de fevereiro foi a vez do residencial Sérgio Lucchiari, empreendimento do Programa Minha Casa, Minha Vida receber a capacitação  com a coordenadora da Revolução Karolina Karla e o engenheiro agrônomo Júlio Maestri, da equipe técnica do Cepagro. 

Através da articulação da Associação Veracidade, cerca de 20 famílias aprenderam sobre compostagem, hortas residenciais e a importância da sensibilização e mobilização comunitárias para o sucesso da tecnologia social. Também houve reuniões com o Poder Público local para discutir as possibilidades de expandir a compostagem para outros contextos na cidade.

 

ECOFEST Trujillo fortalece articulação latinoamericana pela Agroecologia

A marinera trujillana, bailado típico do norte do Peru, embelzou a abertura do ECOFEST. Foto: Cecília Saito (Comunicação – MINKA)

Realizado de 2 a 4 de fevereiro em Trujillo, no norte do Perú, o Festival Agroecológico Internacional ECOFEST foi promovido pela MINKA – organização parceira do Cepagro no Projeto SABERES NA PRÁTICA EM REDE – e reuniu mais de 200 pessoas, entre agricultoras e agricultores, estudantes, educadores, técnicos de campo, nutricionistas e donos de restaurantes. Além do Cepagro, foram convidadas também CETAP (Brasil), o Centro Campesino A. C. e Tijtoca Nemiliztli (México), Asociación de Productores Orgánicos (APRO – Paraguay) e  Fundesyram (El Salvador), todas participantes do projeto, que é apoiado pela IAF. “O grande objetivo do ECOFEST foi promover os produtos agroecológicos, para que as pessoas os conheçam. Tivemos bastante cobertura da imprensa, e certamente nossas demandas chegaram por aí às autoridades”, disse William Siapo, coordenador de projetos da MINKA. “Em Trujillo, com MINKA, cada vez mais produtores têm essa visão da agroecologia e estão trabalhando com outros para melhorar a qualidade de seus solos, água, ar, produzindo alimentos que fazem bem para suas próprias famílias e daqueles que os consomem”, explica Miriam Brandão, representante da IAF no Peru.

Charles Lamb, do CEPAGRO, na abertura do ECOFEST, junto com representantes do FUNDESYRAM, IAF e CENTRO CAMPESINO. Foto: Cecília Saito (Comunicação – MINKA)

Além de trazer mais visibilidade para a Agroecologia, o evento debateu questões como a certificação de alimentos agroecológicos, comercialização, as relações entre gastronomia e saúde e também abriu espaço para a Rede Ecovida de Agroecologia. O Cepagro esteve presente em todas as mesas, da abertura ao encerramento do evento.  Trazendo um panorama sobre a Agroecologia na América Latina, Charles Lamb, coordenador do projeto SABERES NA PRÁTICA EM REDE, ressaltou que a Agroecologia é mais do que um modo de produção de alimentos limpos, mas é um sistema de promoção da vida, em contraposição aos impactos socioambientais negativos da agricultura chamada convencional. Trouxe também dados da FAO que apontam a Agroecologia como alternativa de desenvolvimento sustentável e primordial para a segurança alimentar na América Latina.

No segundo dia, a vice-presidente do Cepagro, Erika Sagae, abriu o painel sobre “Comercialização de Produtos Agroecológicos”, enfatizando a diversificação de estratégias como primordial para a comercialização na Agroecologia. Circuitos curtos, mercados institucionais e feiras foram alguns dos exemplos citados. A nutricionista Cintia Gris, da equipe técnica do CETAP, também participou do debate, trazendo exemplos de grupos de consumidores e feiras agroecológicas articuladas pela organização. “As feiras são mais do que espaços de comercialização, ali também acontecem ricas trocas de experiências e receitas”, disse. Para Victor Hugo Morales, do Centro Campesino de Desarollo Sostenible (México), o envolvimento de consumidores é fundamental para a valorização dos alimentos agroecológicos, que quase sempre têm um preço diferenciado. “As pessoas ainda veem só o preço, e não o valor”, avalia William Siapo, da MINKA. Para Genaro Ferreira Piris, da Asociación de Productores Orgânicos do Paraguay, é importante associar agroindústrias às produção de alimentos agroecológicos, para se ter um aproveitamento integral das colheitas. Durante o painel, a articulação de pequenas células de consumidores foi uma das estratégias apontadas para criar mais conscientização sobre os alimentos agroecológicos, sua valorização, além de envolver consumidores/as no movimento agroecológico. Fechando a programação do dia, as/os participantes conheceram a BioFeira Punto Verde de Huanchaco, articulada pela Minka Verde, e um dos pontos de comercialização da Frutas Selectas, que recebe a produção de diversas famílias de agricultores agroecológicos assessoradas pela MINKA.

Visita à Red de Productores Campiña de la Merced.

A organização MINKA – palavra quechua para falar de “trabalho coletivo” –  presta assessoria em produção agroecológica e articula a comercialização de cerca de 130 famílias de agricultores e agricultoras na região do Valle de Santa Catalina, próximo a Trujillo.

Insumos produzidos pela Red de Productores Campiña de la Merced

Na visitas de campo, as/os participantes do ECOFEST puderam conhecer algumas dessas experiências, tanto em estruturas de produção agroecológica quanto pontos de comercialização. A primeira parada foi na Red de Productores Campiña de la Merced, que produz insumos orgânicos como bokashi líquido e calda bordalesa. Os insumos são fornecidos para produtores de frutas orgânicas, por sua vez comercializadas através do projeto Minka Verde, apoiado pela Inter-American Foundation.

Uma das agricultoras mais interessadas na visita era Ferlinda Isabel Sánchez Córdoba (em pé, foto ao lado), que veio da província de Cajamarca, a 300km de Trujillo, para participar do evento. Ela também é assessorada pela MINKA “para tudo que seja cultivos alternativos, ecológicos. Nas capacitações, aprendemos a usar insumos naturais e também sobre irrigação”, explica Ferlinda, que além de criar animais, cultiva trigo, milho, batatas, grãos e árvores frutíferas, tudo numa propriedade de 3 hectares. Demonstrando muita identidade agroecológica, Ferlinda se denomina “todista”: “porque eu semeio de tudo. Assim, se não me vai bem em alguma safra, tenho de onde tirar minha renda por outro lado. E minha alimentação está assegurada”, afirma a agricultora. “Antes eu trabalhava para outras pessoas, na colheita do milho, por exemplo. Agora, na Agroecologia, eu tenho trabalho na minha própria casa. Não preciso mais trabalhar para os outros”, completa.

Na segunda visita, o público conheceu a produção de morangos e verduras orgânicos na região de Menocucho, próximo a Trujillo. A Asociación de Freseros de Menocucho reúne 12 famílias e comercializa cerca de 400kg de morangos por semana, também articulada pela Minka Verde. O agricultor José Luiz Chavez (foto ao lado) conta que “Minka nos ajuda a ter um mercado estável”. Sobre a produção agroecológica, ele afirma que “ao combater insetos e outros bichinhos, só aumenta a necessidade de uso de mais inseticidas. Na agricultura orgânica, o próprio ecossistema se equilibra. A natureza trabalha junto com o agricultor”. O processo de transição, contudo, não é fácil: José Luiz explica que só depois da 3ª safra é o ecossistema atingiu um equilíbrio razoável para ter uma boa produção. Na propriedade da família de José Luiz também são produzidas mudas de tomate, alface e outras verduras.

 

 

 

 

 

Certificação gera grande interesse no público
Com uma apresentação inicial de Claudete Ponath, agricultora do Núcleo Litoral Catarinense da Rede Ecovida de Agroecologia, a Certificação de Alimentos Orgânicos – especialmente no Sistema Participativo – foi debatida no primeiro dia de programação ECOFEST. Claudete trouxe um histórico da certificação no Brasil, enfocando nos princípios do sistema participativo (como participação e confiança) e falou também sobre a dinâmica do SPG da Rede Ecovida de Agroecologia, enfatizando os mercados locais e a mobilização social. Dentre os desafios apontados ao longo da discussão, a contaminação das propriedades agroecológicas por resíduos de agrotóxicos foi um dos principais. Participaram no debate Genaro Ferreira Piris, da Asociación de Produtores Orgánicos de Paraguay; Fernando George Pluma, da Tijtoca Nemiliztli A. C. – TNAC “Sembramos Vida” (México) e Salvador Sanchez da Asociación Regional de Produtores Ecológico de La Libertad (ARPELL). Tanto APRO quanto TIJTOCA inspiraram-se na Rede Ecovida de Agroecologia para desenvolverem seus SPGs. “Buscamos esta construção para atender à demanda de uma certificação que estivesse ao alcance dos pequenos agricultores”, disse Genaro.

Educação agroecológica e Políticas Públicas para Agroecologia: demandas do ECOFEST TRUJILLO

Durante o evento, a ausência de representantes do Poder Público foi sentida e apontada em diversos momentos. Ao mesmo tempo, foram apresentadas experiências que demonstram a importância de políticas públicas para o desenvolvimento da agricultura familiar, agroecológica e de pequena escala, como é o caso do Brasil. Neste sentido, reforça-se a demanda pela construção de políticas públicas de apoio à produção e comercialização de alimentos orgânicos e agroecológicos. Também convidou-se o público a contribuir na construção do Consejo Regional de Produtores Orgânicos de a Libertad junto à Gerência Regional de Agricultura, assim como a pressionar as autoridades para que efetivem a doação de um espaço para o Centro Educativo de Agricultura Orgânica. A partir da experiência brasileira, percebemos a importância da participação da sociedade civil em espaços de controle social, como os conselhos, para incidir na construção de políticas públicas.

A demanda por uma perspectiva agroecológica na Educação – tanto de agricultores para a adoção de práticas de manejo agroecológicas como de consumidores/as para priorização de uma alimentação saudável – foi apontada em vários painéis. Como estratégias, foram citadas a implantação de hortas escolares e comunitárias, além do trabalho direto com consumidores/as através de campanhas e também em feiras, assim como a instalação de “puntos verdes” de alimentos saudáveis nas escolas.

 

Chapecó recebe Encontro Regional de Agroecologia do Sul

Nos dias 13 e 14 de março de 2018, em Chapecó (SC), acontece o Encontro Regional de Agroecologia do Sul (ERA/Sul). O Encontro tem o objetivo de fortalecer as redes de agroecologia existentes na Região Sul do Brasil, dando visibilidade às experiências coletivas de fortalecimento da agroecologia na região. São esperadas cerca de 100 pessoas para o Encontro, entre lideranças de movimentos e entidades que compõem a Articulação Nacional de Agroecologia (ANA), agricultoras e agricultores agroecológicos, técnicas/os, ativistas, consumidoras/es e apoiadoras/es do movimento agroecológico. As atividades acontecem no Centro de Formação Maria Rosa (Rua Sete de Setembro, 2070d – Pres. Médici) e servem de preparação para o IV Encontro Nacional de Agroecologia, que será realizado em Belo Horizonte (MG) de 31 de maio a 3 de junho deste ano.

Num cenário de crescentes ameaças a direitos adquiridos e garantias democráticas, a programação do ERA/Sul dialoga com Encontro Nacional de Agroecologia, cuja temática nesta edição é Agroecologia e Democracia unindo Campo e Cidade. Na Plenária de Abertura, o ERA/Sul traz Maria Emília Pacheco, primeira mulher a presidir o Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea) e hoje integrante do Fórum Brasileiro de Soberania, Segurança Alimentar e Nutricional (FBSSAN), para discutir o tema Sem Democracia não há Agroecologia, juntamente com representantes da Rede Ecovida de Agroecologia e do Movimento de Mulheres Camponesas. A mesa acontece a partir das 17h30.

Nas próximas atividades, as organizações irão construir sua participação no IV Encontro Nacional de Agroecologia. Cerca de 2 mil pessoas de todo Brasil são esperadas para o ENA em Belo Horizonte, sendo 70% de agricultores(as) familiares, camponeses(as), povos indígenas, comunidades quilombolas, pescadores(as), outros povos e comunidades tradicionais, assentados(as) da reforma agrária e coletivos da agricultura urbana; 50% de mulheres e 30% de jovens diretamente envolvidas na construção da agroecologia em contraposição ao projeto dominante imposto por grupos do capital financeiro, industrial e agrário.