Da semente aos resíduos: curso de consumidores conscientes encerra ciclo com formação sobre compostagem

Para tornar-se um consumidor responsável, tão importante quanto ter consciência do que se consome, é saber fazer a destinação correta dos resíduos. Foi pensando nisso que o 4º e último módulo do curso ‘Consumo consciente, responsável e agroecologia’ teve como tema a compostagem e a gestão comunitária dos resíduos. Organizada pelo Cepagro, a formação aconteceu entre os dias 28 e 29 de setembro e contou com a participação de cerca de 50 agricultores e consumidores do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.

Num curso voltado para a compostagem e o consumo consciente, é fundamental conhecer experiências práticas que abordam esses temas. Assim, o curso apoiado pela Misereor em Rede iniciou sua programação no sábado de manhã com a visita à duas iniciativas no bairro Campeche: a Destino Certo para Resíduos Orgânicos e a Horta Comunitária e Pedagógica do PACUCA. 

Num terreno com cerca de 1.000 m² numa das esquinas mais movimentadas do bairro – Avenida Campeche com a Rua Pau de Canela – Eduardo Elias, idealizador da Destino Certo, mantém um pátio de compostagem que recebe resíduos orgânicos dos restaurantes e pousadas locais. Eduardo faz a coleta semanal do resíduo orgânico de restaurantes, lojas de produtos naturais, escolas e condomínios do bairro, em dias alternados, trazendo entre 2 e 2,5 toneladas de restos de comida para compostar no pátio. O composto produzido vai para a horta anexa ao pátio, onde ele produz verduras e legumes orgânicos, que voltam para os restaurantes. 

Eduardo também comercializa o composto, fechando um ciclo de produção – consumo – produção de alimentos na cidade – ou, como ele chama, sintropia urbana. “Na lógica da sintropia urbana, nós fechamos os ciclos localmente”, explica Eduardo, que reforça que um dos objetivos da Destino Certo é também gerar consciência ecológica sobre nossos resíduos e estimular a reflexão sobre nossos padrões de consumo. “Queremos construir a noção de que resíduo orgânico é recurso, não é lixo”, afirma. 

Dali, o grupo seguiu para a Horta Comunitária e Pedagógica do PACUCA, instalada em 2015 através de uma intensa luta política e jurídica da comunidade por mais áreas verdes e de convivência no bairro. Numa área altamente visada pela especulação imobiliária, a Horta do PACUCA recebe e composta os resíduos orgânicos de cerca de 200 famílias do bairro, compostando em torno de 100 toneladas de resíduos ao ano, calcula o coordenador da Horta, Ataíde Silva. “A Horta marca a presença da comunidade na cidade, agregando o fator da produção de alimentos”, disse. 

Verduras e legumes do PACUCA chegam a escolas e asilos da comunidade, além de bairros periféricos da Grande Florianópolis, como Brejaru, Monte Cristo e a Ocupação Marielle Franco. A Horta também tem canteiros de plantas medicinais, que frequentemente são compartilhadas com usuários/as do Centro de Saúde do Campeche, que fica ali próximo.

Depois das visitas, o coletivo aprofundou os conhecimentos no tema com a oficina de compostagem facilitada pelo engenheiro agrônomo do Cepagro, Júlio Maestri. Júlio iniciou a oficina contando um pouco sobre a compostagem ao redor do mundo e ao longo da história. De forma sempre lúdica e participativa, ele explicou os processos da compostagem e seus diferentes modelos e dimensões, do âmbito doméstico ao municipal. Com as dúvidas sanadas, os/as cursistas partiram para a prática e juntos/as construíram uma composteira.

E como onde há consumo consciente, há alimentação agroecológica, o sábado terminou com um jantar feito com alimentos locais de agricultores/as agroecológicos/as e orgânicos/as da Rede Ecovida. Teve suco orgânico de Major Gercino, legumes de Leoberto Leal e Biguaçu, queijo, mel e receitas de engenho de Angelina. Além disso, integrantes do próprio grupo trouxeram feijão da serra, arroz do sul além da kombucha feita pelas consumidoras do litoral. Ou seja, na alimentação ofertada durante os dias de formação, consumidores/as e produtores/as estiveram realmente em rede.

E essa é a proposta do curso, que faz parte do projeto ‘Promoção da articulação entre o campo e a cidade em dinâmicas locais e regionais de abastecimento, conjugado com incidência política em soberania e segurança alimentar’ apoiado pela Misereor em Rede. A fim de formar consumidores conscientes e aproximá-los dos agricultores, o curso foi dividido em quatro módulos, planejados pelas organizações que compõem o projeto: AS-PTA, com sede em Palmeira (PR), Vianei, de Lajes (SC), CETAP, de Passo Fundo (RS) e Cepagro, com sede em Florianópolis (SC). 

De maio de 2018 até agora, os cursistas receberam formações sobre o tema das sementes crioulas, de sistemas agroflorestais e extrativismo, passaram pelo abastecimento e comercialização e agora encerram com a destinação dos resíduos orgânicos. Assim, no domingo a programação se voltou para a avaliação do curso. Os grupos presentes compartilharam suas reflexões sobre os aprendizados adquiridos até aqui e sobre os próximos passos para a manutenção dos coletivos formados. Todos eles indicaram que, independente de projetos, enquanto consumidores conscientes, continuarão fazendo formações , encontros e trocas entre si.

Na avaliação de Erika Sagae, que ao lado de Eduardo Rocha representa o Cepagro no projeto da Misereor, além dos aprendizados no sentido do consumo responsável, o curso foi importante enquanto um processo de formação para atuar na incidência política. Com o andamento do curso, a consumidora de Florianópolis Irene Shimomura, por exemplo, passou a fazer parte do Grupo Ilha Meiembipe, da Rede Ecovida. Por conta da sua participação no grupo, hoje, ela é também conselheira no Conselho de Segurança Alimentar e Nutricional de Santa Catarina. Além da Irene, o Ilha Meiembipe também ganhou representação de agricultores no Consea, “o que foi importante porque trouxe a produção primária para dentro do Conselho e para a construção da política municipal de segurança alimentar e nutricional”, conta Eduardo Rocha.

Na avaliação, o grupo do Centro Vianei trouxe principalmente a importância da autoformação e o envolvimento com outros temas. O grupo conta com pessoas de diversas áreas e isso também contribuiu para a formação de cada um. A professora Kauane Pionoski, de São João do Triunfo, faz parte do grupo formado pela AS-PTA e reforçou uma avaliação feita por ela ainda no primeiro módulo ao dizer que se há racismo, homofobia, misoginia e outras práticas de discriminação, não é Agroecologia. Também ficou como avaliação a importância de levar tudo o que gira em torno da Agroecologia à outros grupos e espaços.

Ao final da avaliação coletiva, os participantes receberam os certificados juntamente com um pacote de composto orgânico e uma muda de araucária. Os/as consumidores/as e agricultores/as se despediram com a certeza de um próximo encontro marcado para outubro, como um compromisso entre os grupos para além das instituições. Também ficou definida a participação de quatro cursistas no Encontro Ampliado da Rede Ecovida, em novembro. Eles/as farão uma oficina sobre consumo consciente.

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Cepagro promove campanha de financiamento coletivo para publicar livro sobre Hortas Escolares

O Guia de Atividades Educando com a Horta reúne a experiência de mais de 10 anos do Cepagro com Hortas Pedagógicas. A publicação traz nossa metodologia que une o calendário agrícola ao escolar, além de um conjunto de atividades para cultivar a educação ambiental e alimentar nas escolas. As atividades estão organizadas em três eixos: compostagem, horta agroecológica e alimentação saudável. Com o Guia de Atividades Educando com a Horta, educadores e educadoras descobrirão como trabalhar diversas disciplinas no espaço da horta, que constitui um laboratório vivo de aprendizados.

Para imprimir e distribuir o Guia, o Cepagro lançou uma campanha de financiamento coletivo. A campanha funciona como uma pré-venda do livro: a partir de R$ 50 é possível adquirir um exemplar e recebê-lo pelo Correio. Com o recurso arrecadado, será feita a impressão e envio dos Guias pelo correio. O material já está escrito, diagramado e lindamente ilustrado.  As colaborações podem ser feitas com cartão de crédito ou boleto pelo link https://benfeitoria.com/guiaeducandocomahorta.

A campanha pretende arrecadar pelo menos R$ 15 mil até o dia 22 de novembro. Se não atingirmos esse valor, devolveremos todas as colaborações. Se levantarmos R$ 20 mil, conseguiremos imprimir E enviar os livros pelo correio sem precisar pagar o frete por outras fontes. Com uma arrecadação de R$ 27 mil, nós poderemos imprimir e enviar os livros, pagar as taxas financeiras da campanha e remunerar a equipe que o produziu – que até agora trabalhou voluntariamente. 

A colaboração de todas e todos que têm um compromisso com uma educação transformadora e voltada para a sustentabilidade é fundamental, tanto financeiramente quanto na divulgação. Este material será importante para estimular e fortalecer o trabalho com hortas e a Educação Ambiental em escolas de todo Brasil. Esperamos a visita de todas e todos em https://benfeitoria.com/guiaeducandocomahorta.

No mesmo dia da Conferência Municipal de Segurança Alimentar de Florianópolis, deputados federais extinguem CONSEA nacional

O dia 24 de setembro ficou marcado por movimentos opostos nos âmbitos dos Conselhos de Segurança Alimentar e Nutricional. Enquanto em Florianópolis acontecia a Conferência Municipal de Segurança Alimentar e Nutricional, em Brasília a Câmara de Deputados aprovava o veto do presidente Bolsonaro à emenda que reativava o CONSEA Nacional. “Essa notícia reforça ainda mais a importância de mantermos o Conselho Municipal de SAN ativo e atuante”, avalia Eduardo Rocha, diretor presidente do Cepagro e atual secretário do COMSEAS-Florianópolis.

O desmonte do CONSEA Nacional
Responsável pela construção, regulamentação e controle de políticas públicas de combate à fome no Brasil, o Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional foi extinto pelo presidente Bolsonaro logo em seu primeiro dia de governo, com a Medida Provisória 870, de 1º de janeiro de 2019.

Como resposta, a sociedade civil organizada promoveu banquetes em praças públicas de pelo menos 40 cidades brasileiras no dia 27 de fevereiro, os chamados BANQUETAÇOS. Entre fevereiro e maio deste ano, a MP 870 tramitou entre Câmara dos Deputados e Senado.

No dia 31 de maio, o Senado aprovou a emenda que à Medida Provisória que reativava o conselho. O texto passou então para sanção presidencial e Bolsonaro vetou a recriação do CONSEA em junho. Seguindo a Constituição, deputados e senadores teriam ainda o prazo de 30 dias em cada uma das casas para manter ou derrubar este veto. No dia 24 de setembro, contudo, a Câmara aprovou o veto presidencial, por 299 votos a favor e 162 contra, extinguindo definitivamente o Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional.

“O encaminhamento agora é, como apontado pelo Fórum Brasileiro de Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (FBSSAN), é que os estados continuem com suas conferências municipais e estaduais, pra fortalecer políticas de SAN e não deixar que se desmantele definitivamente o Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional”, afirma Rita de Cássia Maraschin, última presidenta do CONSEA de Santa Catarina. Em 2019 já foram realizadas no estado 20 conferências municipais e regionais de SAN, eventos preparatórios para a Conferência Estadual, que será realizada nos dias 2 e 3 de dezembro.

“O próximo passo também é fortalecer, no ano que vem, a construção da Conferencia Nacional, Popular, Aberta e Democrática de Segurança alimentar e Nutricional, que será possivelmente no Maranhão. A Conferência Popular não é uma atividade e sim um processo de aprendizado e troca coletiva que já começou e acontece a cada ação que realizamos desde já onde estivermos”, completa Rita. E, como sempre foi característico de movimentos populares, manter as ações de rua. Há a possibilidade de um Banquetaço pela educação no dia 15 de outubro, na UFSC, além de ações pelo Dia Mundial da Alimentação, em 16 de outubro.

Em Florianópolis, Conselho de Segurança Alimentar segue fortalecido
Enquanto isso, na capital catarinense mais de 70 pessoas participaram da Conferência Municipal de Segurança Alimentar e Nutricional, realizada no mesmo 24 de setembro no Centro de Educação Continuada da Prefeitura Municipal de Florianópolis. De acordo com Eduardo Rocha, foram escolhidos/as delegados e delegadas para a Conferência Estadual e desenhadas 45 propostas a serem levadas para a Conferência Estadual, dentro dos eixos:

– Vozes, direitos e fome: avanços e obstáculos para a conquista de alimentação adequada e saudável e da soberania alimentar;
– Dinâmicas em curso, escolhas estratégicas e alcances da política pública;
– Fortalecimento do Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional;
– Avaliação entre as propostas da 4ª Conferência Municipal de Segurança Alimentar e o panorama atual do Política Municipal de Segurança Alimentar: avanços, desafios e prioridades.

“As propostas vão subsidiar o Conselho Municipial de SAN para elaboração do Plano Municipal de SAN”, afirma Eduardo. Para manter o tecido social de mobilização construído na Conferência, os/as participantes foram convidados/as a assistir às próximas plenárias do COMSEAS como observadores/as.

I Encontro de Mulheres da Rede Ecovida reafirma: Sem Feminismo, não há Agroecologia

O que significa trazer um olhar de gênero para o trabalho em Agroecologia? O que significa dizer que Sem Feminismo, não há Agroecologia? Como levar esses debates para os grupos de agricultoras? Como fortalecer a participação e o protagonismo das mulheres na Rede Ecovida de Agroecologia?
Essas foram algumas das questões discutidas durante o I Encontro de Mulheres da Rede Ecovida de Agroecologia, realizado entre os dias 19 e 21 de setembro em Erechim (RS). Promovido com apoio da Embrapa Pelotas e do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), o Encontro reuniu companheiras de 12 núcleos dos três estados do Sul do Brasil, que discutiram conceitos, analisaram a conjuntura atual e pautaram encaminhamentos para a Rede Ecovida de Agroecologia, que, segundo as mulheres, deve colocar-se novamente como movimento de resistência.

No primeiro dia do Encontro, as mulheres trouxeram relatos sobre a discussão de gênero e o protagonismo feminino em seus núcleos. A diversidade de situações relatadas foi grande: da existência de grupos de agroecologia majoritariamente femininos a outros em que as mulheres praticamente não participam; da violência física e psicológica a agricultoras e coordenadoras de núcleos à paridade de gênero nas coordenações. Mesmo neste quadro tão diverso, foi consensual que é preciso estimular e garantir a participação das mulheres em todos os espaços de decisão da Rede Ecovida, dos grupos ao Encontro Ampliado, fortalecendo a discussão sobre gênero e envolvendo os companheiros homens neste debate também. Só assim será possível promover relações sociais mais justas e livres de qualquer tipo de violência, pressuposto básico da Agroecologia.

As participantes construíram um Rio da Vida das Mulheres da Rede Ecovida, fazendo um resgate histórico de suas trajetórias pessoais e também de coletivos feministas no movimento agroecológico. Durante a dinâmica, ficou claro como as lutas empreendidas por mulheres desde as décadas de 1980 ao início dos anos 2000 resultaram num crescimento da discussão sobre gênero e feminismo na Agroecologia após 2005 – 2010. Conquistas históricas como a da documentação e da aposentadoria para trabalhadoras rurais, empreendidas há mais de 30 anos, foram seguidas pelo crescente acesso feminino ao ensino técnico e superior, além da formação de setoriais de mulheres e de gênero dentro de movimentos como o MST e a criação de políticas públicas como ATER Mulheres e a priorização da atuação de técnicas mulheres no ATER Agroecologia, que contribuíram para que as demandas das mulheres ganhassem espaço e visibilidade.

Buscando promover relações de gênero mais justas no âmbito da Rede Ecovida, as mulheres traçaram encaminhamentos que serão apresentados no próximo Encontro Ampliado, que será realizado entre os dias 15 e 17 de novembro de 2019, em Anchieta, Oeste de Santa Catarina.

O que é “Sem Feminismo, não há Agroecologia” para as mulheres da Rede Ecovida?
Construindo coletivamente a compreensão de que os papéis e padrões de comportamento relacionados ao gênero na nossa sociedade – que definem o que é “coisa de mulher” ou “coisa de homem” – são na verdade construções sociais e históricas, e que o(s) Feminismo(s) busca(m) romper com esses padrões e pautar relações mais igualitárias,  as mulheres da Rede Ecovida debateram o lema que vem sendo cada vez mais ouvido no movimento agroecológico: Sem Feminismo, não há Agroecologia.

Para a tecnóloga em Agroecologia Andressa Aparecida Martins, da equipe técnica do CETAP, o Feminismo está no tripé básico de princípios da Agroecologia. “A Agroecologia deve ser economicamente viável, ambientalmente sustentável e socialmente justa. Sem o Feminismo, não tem como ser socialmente justa”, afirma.

Para a agricultora e técnóloga em Agroecologia Daniela Calza, do Paraná, “Sem Feminismo não há Agroecologia porque não é possível a produção de alimentos saudáveis com respeito à natureza, ao bem estar animal, mas com relações doentes. A Agroecologia contempla questões sociais, culturais. Se a gente tem a exploração de um ser humano por outro, não é Agroecologia”. Daniela integra a Cooperativa de Produção Agropecuária Vitória (COPAVI), de Paranacity, que já vem pautando a participação igualitária de mulheres . “A cooperação e a Agroecologia proporcionam independência e autonomia das mulheres, tanto na questão financeira quanto no poder de decisão”, completa Daniela.

Maria Paula Perucci, de Santa Catarina, acredita que Sem Feminismo, não há Agroecologia porque “uma rede de Agroecologia é também um movimento social que propõe novo modelo de sociedade. Só vamos chegar a essa nova sociedade quando terminarmos com a sobrecarga das mulheres pelo trabalho doméstico, vencermos as barreiras de violência doméstica e ocuparmos todos os lugares. E nosso lugar é onde a gente quiser. Por isso, feminismo e agroecologia andam juntos”.

A agricultora Jane Matos é a primeira mulher a ocupar a coordenação de seu Núcleo, o Serra, do Rio Grande do Sul, que tem mais de 300 famílias. “Temos feito esse movimento das mulheres participarem de todas as assembleias e momentos de decisão do nosso Núcleo. Tínhamos poucas mulheres participando, mas estamos buscando fortalecer e cativar mais companheiras. Quando eu chego numa propriedade, sempre pergunto: ‘onde está sua senhora?’, para que as mulheres participem também das visitas”. Ela conta que aprendeu sobre Feminismo e Agroecologia na prática, com sua avó. “Ela praticava a Agroecologia e tinha uma ideia de direitos igualitários com os homens. Era a prática da vida dela. E é  esse querer que eu tenho, que o Feminismo e a Agroecologia estejam juntos”. Para Jane, “nós mulheres precisamos ocupar nossos lugares, sem ter esse preconceito que queremos ocupar o lugar dos homens. Queremos caminhar junto, lado a lado”, completa.

A engenheira florestal e agricultora Meri Diana Strauss Foesch afirma que “o feminismo busca a igualdade, e hoje buscamos que as mulheres participem em seus núcleos e na rede. As mulheres têm muito conhecimento a buscar e compartilhar. Precisamos defender o feminismo para criar uma sociedade mais igualitária, para ter desenvolvimento sustentável, para assegurar direitos como saúde, educação, agricultura ecológica, com tecnologias ecológicas e com a participação de todas e todos”.

Aghata Cristie Rewa Charnobay é técnica de extensão do Laboratório de Mecanização Agrícola da Universidade Estadual de Ponta Grossa e veio ao Encontro para conhecer o trabalho da Rede Ecovida e de suas mulheres. “Quero colaborar para as mulheres se empoderarem mais nesse mundão”, conta. “Sem Feminismo, não há Agroecologia porque a Agroecologia vem como mudança de sociedade, movimento e também ciência. É a gente entender e estudar o todo, sem excluir relações. E a mulher é grande parte dessas relações. E falamos muito de transformação. Pra mudar o mundo, precisamos mudar nós mesmo. Debater o Feminismo na Agroecologia é importante para mudar as mulheres, os homens e consequentemente o todo”.

A tecnóloga em Agroecologia e assentada da Reforma Agrária Rosângela de Fátima Rodrigues avalia que “hoje vivemos no sistema capitalista, que abriga o agronegócio. Nesses sistemas as mulheres somos exploradas, humilhadas e ofendidas, verbalmente e fisicamente. Se não tiver o Feminismo, se não lutarmos por nossos direitos, por igualdade, não tem Agroecologia. Porque a Agroecologia trabalha com a vida, com respeito, diversidade, cuidado do meio ambiente, o cuidado com o outro. Pra mim não há Agroecologia, sem o Feminismo. E esses são os nossos espaços, de voz e de vez, se sermos escutadas e valorizadas enquanto mulheres”.

 

 

 

 

Organizações latinoamericanas discutem certificação orgânica em Encontro no Paraguai

Realizado entre os dias 4 e 6 de setembro em Atyra, no Paraguay, o 2º Encuentro Regional de SPG trouxe representantes de organizações do Brasil, México, Peru, El Salvador, Bolívia, Uruguay e do país anfitrião para debater os desafios e oportunidades para a certificação participativa de alimentos orgânicos. Cerca de 40 pessoas participaram do evento, promovido pela Asociación de Produtores Orgánicos do Paraguay (APRO), com apoio da Inter-American Foundation (IAF). Além de apresentações de experiências e debates, os/as participantes fizeram também uma visita à propriedade do agricultor-agrônomo Genaro Ferreira Piris, da APRO, para conhecer a área de produção de verduras orgânicas e experimentos com adubação verde.

 

E o que é um SPG?
É um sistema em que a verificação da qualidade de alimentos orgânicos é feita por agricultores/as, técnicos/as de organizações como o Cepagro, consumidores/as e acadêmicos/as, com a parceria ou não do Poder Público. Ao invés de contratar uma empresa para certificar a produção, os/as produtores/as no Sistema Participativo certificam a eles/as mesmos/as, sempre de acordo com a legislação de cada país.  A Rede Ecovida de Agroecologia é uma das principais referências no mundo de Sistemas Participativos de Garantia, tanto pela quantidade de famílias envolvidas quanto por ter conquistado a equivalência com a certificação por auditoria. Por isso, a Rede Ecovida inpirou a criação de SPGs em outros países latino-americanos, sendo que algumas dessas organizações estiveram no evento no Paraguay.

Do México ao Uruguay, SPGs são adaptados às realidades locais.

De acordo com Genaro Ferreira Piris, da APRO, “no Paraguai o SPG é uma ferramenta para acessar mercados”, pois permite que a produção orgânica seja certificada a um custo menor, aumentando as chances de comercialização com valor agregado. Ele conta que “o que sabemos de SPG, aprendemos com o Brasil”, tendo participado em vários encontros da Rede Ecovida de Agroecologia. No Paraguay, a certificação participativa é realizada pela APRO em parceria com o  Servicio Nacional de Calidad y Sanidad Vegetal y de Semillas (SENAVE), do Ministério da Agricultura local. A APRO reúne 257 famílias agricultoras, sendo que 57 têm certificação e 20 estão em processo de transição.

Durante o Encontro, a APRO celebrou a inauguração de uma nova sede, com espaço de comercialização, banco de sementes e fornecimento de bioinsumos para agricultura.   

 

Identidade, empoderamento, autonomia, credibilidade e aprendizagem. É isso que o SPG representa como processo no âmbito da Rede Ecovida de Agroecologia, de acordo com José Marfil, um dos representantes da Rede no evento, junto com o coordenador rural do Cepagro, Charles Lamb. Além desses princípios, Marfil lembrou também que o SPG caracteriza-se pela responsabilidade compartilhada: “cada um do grupo responde pelo outro”, afirma. Trouxe a experiência do Circuito de Comercialização da Rede Ecovida, que faz circular alimentos orgânicos entre os três estados do Sul, além de São Paulo, Minas Gerais e Bahia, envolvendo mais de 2000 famílias agricultoras. “É uma proposta diferente de mercado, que busca promover também soberania e segurança alimentar”. Para o agricultor, antes de olhar para exportações, a agricultura familiar orgânica deve garantir a segurança alimentar no mercado interno.

Analía Cartelle, da Red de Agroecología do Uruguay, explicou que lá o SPG é uma “ferramenta agroecológica: promoção, integração, construção de saberes”, além do selo para comercialização com baixo custo. Ali, a certificação custa US$ 32 / hectare certificado mais US$ 5 ao mês. No Uruguay, o SPG da Red de Agroecología foi reconhecido legalmente em 2005. E, em 2019, justo durante o evento, a Red comemorou a aprovação da Política Nacional de Agroecologia no legislativo uruguaio, que contou com forte atuação do coletivo em sua construção.

Franklin Fernandez (dir.), da Associação de Organizações de Produtores Ecológicos da Bolívia, afirma que para eles o SPG é uma ferramenta de promoção da Agroecologia baseada na confiança. “Ao produzir um alimento limpo, velamos não só pelo bem estar de nossas famílias, mas de toda população”, pontua Fernandez. Fundada em 1991, a AOPEB reúne 85 associações de famílias agricultoras bolivianas, somando quase 70 mil produtores.

A associação Tijtoca Nemiliztli, do México, é parceira do Cepagro no projeto Saberes na Prática em Rede, apoiado pela IAF. Representada por Fernando George Pluma no evento, a Tijtoca foi fundada em 2015, inspirada na Rede Ecovida. Funciona baseada no tripé produtores/as – acadêmicos/as – consumidores/as. Um dos diferenciais do SPG mexicano é que já começou com o princípio de equidade de gênero e geração.

José Jesus Cordoba apresentou a experiência inicial de SPG realizada em El Salvador pela FUNDESYRAM, organização também parceira do Cepagro. Em El Salvador, a estruturação do SPG está em sua fase inicial, baseada em um município, Nahuilzalco. Mas a Fundesyram já articula uma Rede Nacional de agroecologia no país, que será o canal de expansão do SPG.

Organizações camponesas participam do encontro

A Asociación Agroecológica Oñoiru (compañeros, em Guarani) reúne 56 famílias que produzem erva-mate agroecológica em 21 propriedades certificadas na região de Itapúa, no sul do Paraguay. Enraizada na Organización de Mujeres Campesinas e Indígenas Conamuri, a Asociación Oñoiru foi formada em 2001 para fazer frente ao avanço do cultivo de soja transgênica sobre terras camponesas. Com apoios de cooperação internacional e muita organização coletiva para o trabalho comunitário, a Oñoiru estruturou uma cadeia de produção e beneficiamento de erva-mate agroecológica, que em 2019 chegou a 12 mil kg. “Buscamos resgatar técnicas tradicionais para manter a qualidade, como deixar a erva descansando por 14 meses em caixas de madeira”, explica o técnico em Agroecologia Pedro Vega Chávez, um dos representantes da Oñoiru no 2º Encuentro Regional de SPG.

Pedro e Célia Motta, também da Oñoiru, contam que a associação trabalha com sistemas agroecológicos diversificados e mantém um banco de sementes nativas. Formados na Escola Latino Americana de Agroecologia, no Paraná, os jovens trazem suas impressões sobre o Encontro, que trouxe representações do México, Brasil, Uruguay, El Salvador e Bolívia. “Foi ótimo ver tanta gente que fala de Agroecologia em vários países. Vemos que temos um objetivo em comum, assim como problemas, como o comércio. E o SPG pode ser uma ferramenta para facilitar a comercialização”, conta Célia. “Com as visitas de campo pudemos ver teoria e prática unidas. Ficou claro que a Agroecologia é o caminho para conservar a biodiversidade e a autonomia do campesinato”, avalia Pedro.

Ismael Saucedo é da Organización Campesina Regional de Concepción (OCRC), movimento que reúne mais de 700 família agricultoras no norte do Paraguay. Articulada com Paraguay Orgânico, a OCRC trabalha na produção de grãos e hortaliças orgânicas. “Mas buscamos trabalhar na propriedade integralmente, não olhando só a produção”, explica Ismael, que se formou técnico em Agroecologia na Venezuela. A Organización tem 15 propriedades entrando no SPG, avaliado pelas famílias como uma estratégia para melhorar a comercialização, habilitando-as a entrar em compras públicas, por exemplo. A OCRC já atua em feiras, tendo 20 mulheres feirantes no seu coletivo comercializando 2 vezes por semana. “O Encontro serviu para enriquecer e fortalecer o que já estamos encaminhando. Nossa maior meta continua sendo defender a soberania camponesa e seus territórios”, afirma Ismael.

Dionício Irala está desde 1997 na OCRC. Em sua propriedade de 6 hectares, cultiva melão, melancia, milho, gergelim, mandioca, frutas, tomates, verduras, legumes e cria animais. “É uma propriedade completa”, conta o agricultor. “Com as verduras que sobram da feira, alimento as galinhas. Do esterco delas, produzo adubo. Uso também adubos verdes. Minha esposa comercializa nossos alimentos na feira”, completa.

Como considerações finais do encontro, verificou-se que a discussão mútua sobre SPGs pode contribuir para construir equivalências de legislação entre países, facilitando o comércio externo de alimentos orgânicos. Entretanto, os/as participantes percebem que prioritariamente é necessário fortalecer o mercado interno desses alimentos, democratizando a segurança e a soberania alimentares na América Latina.

 

Curso de Gestão Comunitária de Resíduos Orgânicos reafirma: não há compostagem sem colaboração

Realizado de 27 a 30 de agosto, o IV Curso de Gestão Comunitária de Resíduos Orgânicos e Agricultura Urbana reuniu mais de 40 pessoas, entre lideranças comunitárias, gestores públicos, estudantes, empreendedores e educadores vindos de diversas cidades de Santa Catarina e de outras regiões, além de representações de El Salvador e Uruguai. Promovido pelo Cepagro, o Curso contou com patrocínio da Fundação Inter-Americana (IAF) e da Engie, além do apoio da Comcap, do Centro de Ciências Agrárias da UFSC e do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA).

De forma lúdica, didática e bastante participativa, o grupo pôde aprender sobre o método UFSC de compostagem na teoria e na prática, conhecer as estratégias de gestão comunitária dos resíduos orgânicos, visitar experiências locais de compostagem comunitária e empreendedora e ainda discutir sobre a compostagem a nível municipal durante o seminário Desafios e Oportunidades para a Compostagem em Florianópolis, evento que foi aberto ao público.

Empatia, respeito e vontade de aprender foram algumas das expectativas trazidas pelos/as participantes na dinâmica de abertura do Curso, na manhã da terça-feira. A tarde, o professor do Departamento de Engenharia Rural da Universidade Federal de Santa Catarina, Rick Miller, referência no Método UFSC de compostagem, assumiu o microfone e tirou as dúvidas do público. Ele mostrou como a gestão descentralizada dos resíduos orgânicos é uma solução eficiente e econômica. Segundo dados apresentados pelo professor, Florianópolis gasta hoje cerca de R$150,00 para transportar uma tonelada de resíduos sólidos até o aterro sanitário, sendo a média mensal de 17,5 mil toneladas. Os dados oficiais do município apontam que 30% desse montante é resíduo orgânico.

Em 2019, o Curso de Gestão Comunitária de Resíduos Orgânicos trouxe uma novidade: a facilitação gráfica, com a bióloga-artista Raíssa Theberge.

Sendo assim, as bombonas utilizadas para coletar e transportar os restos de alimentos até um pátio descentralizado, modelo utilizado na gestão comunitária, são uma “inovação tecnológica”, disse Rick. Além de ter um custo muito menor, a compostagem ainda gera um produto final capaz de gerar renda. Rick trouxe ainda informações mais técnicas sobre a compostagem e sobre o funcionamento da leira que para ele é como um “bicho ofegante” que come, respira, sua e faz xixi.

Em seguida, a turma foi para o pátio do Jardim Botânico construir coletivamente uma leira de chão com as orientações do agrônomo do Cepagro Júlio Maestri. Os/as participantes também aprenderam a montar o sistema fechado de compostagem em caixa d’água, dessa vez orientados por Jessé Rodrigues Fermino e Valéria Maria da Silva, de Sorocaba e Camila Batista, de Taubaté. Os três são beneficiários do Minha Casa, Minha Vida e no ano passado receberam a reaplicação da Tecnologia Social em Gestão Comunitária de Resíduos Orgânicos e Agricultura Urbana pelo Cepagro e Revolução dos Baldinhos através de projeto da Fundação Banco do Brasil.

Jessé é síndico do Condomínio Buriti, um dos 160 do Conjunto Habitacional Carandá. Hoje seu condomínio é o único com gestão comunitária dos resíduos orgânicos e o maior desafios é a conscientização, conta Jessé: “O nosso grande desafio hoje é a educação, educar o povo ali dentro a separar o reciclável, o lixo daquilo que é aproveitado”. Mas aos poucos os moradores vão aderindo ao projeto: “O nosso objetivo é chegar em todos os condomínio do Carandá. Bater de porta em porta, levar as pessoas para conhecer a nossa compostagem, levar o nosso produto pra eles e falar: ó isso aqui saiu do seu alimento, que ia poluir no aterro e agora não vai mais”, explica Jessé.

Em Taubaté, no residencial Sérgio Lucchiari, os moradores optaram por receber a gestão dos resíduos como tecnologia social, porque a situação do lixo no local estava precária, como conta Camila. Hoje oito famílias levam seus baldinhos para compostar e em troca recebem composto e biofertilizante, o restante Camila comercializa. “Estamos procurando outras soluções para os resíduos para chegar ao lixo zero”, conta ela, que é mãe de 6 filhos e leva a garotada para compostar também. “Até as crianças dos vizinhos acabam indo lá e ajudam na composteira. Isso é bom porque já faz a parte da educação também”.

Na quarta-feira, os participantes deram um rolê pela Comunidade Chico Mendes, onde a tecnologia social da gestão comunitária dos resíduos nasceu a partir da experiência da Revolução dos Baldinhos. Cíntia Aldaci da Cruz e Karolina Karla, lideranças da comunidade. contaram a história do projeto, que iniciou por conta de um problema sanitário que gerou um surto de leptospirose e hoje conta com a uma cozinha comunitária onde acontecem capacitações, cine debates e outros eventos. “Muitos que fizeram o curso anos atrás saíram das estatísticas de violência”, contou Cíntia e ressaltou que para a compostagem comunitária acontecer, “a articulação é uma arma poderosa”.

A Revolução serviu de referência para muita gente, entre elas Samuel Barros, que veio do Rio de Janeiro representando o Centro de Integração na Serra da Misericórdia (CEM), organização da qual é vice-coordenador e que trabalha o tema da agricultura urbana e Agroecologia com jovens moradores da Penha, na Zona Norte do Rio. Sobre a visita, Samuel conta: “Fiquei muito animado porque era algo que queria fazer na favela e eu fiquei muito feliz de ver com meus olhos… deu esperança. Uma dúvida que a gente tinha era como chegar nas pessoas e aqui vimos acontecendo”.

Samuel veio junto com Lucas Fernando dos Santos, também do Rio de Janeiro e que atua em outra organização da Serra da Misericórdia, a Verdejar Socioambiental. Por lá, eles se inspiraram na Revolução para tentar diminuir a incidência do lixo “porque o saneamento básico e a coleta de resíduos é um problema no Rio de Janeiro”, disse Lucas. A Verdejar realiza trabalhos envolvendo a juventude através da comunicação com a intenção de mostrar que tem agricultura acontecendo na cidade. “Tem muito potencial nos jovens, mas a cidade não vê. É a mesma coisa com o lixo”, conta Lucas.

Da Comunidade Chico Mendes, os participantes seguiram para o sul da Ilha de Santa Catarina, para conhecer o empreendimento social Destino Certo para Resíduos Orgânicos e a Horta Comunitária do PACUCA. Num terreno com cerca de 1.000 m² numa das esquinas mais movimentadas do bairro – Avenida Campeche com a Rua Pau de Canela -, Eduardo Elias, idealizador da Destino Certo, mantém um pátio de compostagem e uma pequena agrofloresta. “Que leira linda!”, foram os primeiros comentários do grupo ao entrar no espaço.

A Destino Certo funciona assim: Eduardo faz a coleta semanal do resíduo orgânico de restaurantes, lojas de produtos naturais, escolas e condomínios do bairro, em dias alternados, trazendo entre 2 e 2,5 toneladas de restos de comida para compostar no pátio. O composto produzido vai para a horta anexa ao pátio, onde ele produz verduras e legumes orgânicos, que voltam para os restaurantes. Eduardo também comercializa o composto. Ele cobra R$ 0,30 por quilo de resíduo coletado e compostado e vende o composto a R$ 1 (bruto) ou R$ 2 (peneirado). “Com o serviço de coleta e compostagem, eu arrecado cerca de R$ 4.500. Mas esse valor só cobre os custos de aluguel, combustível e mão de obra. O lucro do empreendimento vem mesmo da venda do composto e de verduras, que nem é tão alto assim. Mas isso é mais do que um simples negócio: é uma iniciativa para diminuir nosso impacto ambiental e criar consciência ecológica”, explica Eduardo, que calcula que em três anos de atuação empresarial já reciclou mais de 300 toneladas de resíduo orgânico. “Isso sem contar o volume de palhada e serragem”, completa. “Esse empreendimento se baseia na consciência de que resto de comida não é lixo, mas um recurso”, avalia Eduardo.

A vivência de Eduardo com compostagem em maior escala começou na Horta Comunitária e Pedagógica do PACUCA, próxima parada das visitas do grupo na quarta-feira. Instalada em 2015 com muita luta e resistência da comunidade do Campeche em uma área altamente visada pela especulação imobiliária, a Horta do PACUCA recebe e composta os resíduos orgânicos de cerca de 200 famílias do bairro, compostando em torno de 100 toneladas de resíduos ao ano, calcula o coordenador da Horta, Ataíde Silva. “Aqui somos uma equipe de 30 voluntários e uns 5 loucos”, aponta Ataíde. Junto com Ubiratan Matos (Bira), eles falaram sobre o histórico da Horta e seus projetos futuros.

“A Horta surge da luta por mais áreas verdes e de lazer em Floripa, agregando também a finalidade da produção de alimentos”, disse Ataíde. A produção de verduras e legumes do PACUCA é distribuída para escolas e asilos da comunidade, além de bairros periférios da Grande Florianópolis, como Brejaru, Monte Cristo e a Ocupação Marielle Franco. Para os próximos anos, Ataíde e Bira contam que pretendem instalar estruturas para geração de energia e captação de água da chuva.

E a turma também colocou as mãos na terra, plantando árvores frutíferas e nativas no terreno. “Isso sim é participação da sociedade civil. Quem sabe daqui a alguns anos vocês poderão desfrutar da sombra das árvores que vocês plantaram”, disse Bira.

No dia 29, a programação começou com uma conversa sobre a agricultura urbana pelo mundo, com Joaquim Moura, que também é do Rio e trabalha com agricultura urbana há mais de 40 anos. Além de seu trabalho como tradutor da revista de Agricultura Urbana (Urban Agriculture Magazine), Joaquim atua com educação e compostagem em escolas na região de Visconde de Mauá, localizada na Serra da Mantiqueira, onde vive desde 2001. Joaquim ressaltou a importância de trazer a educação para suas atividades com a juventude.

Ainda durante a manhã, os participantes se dividiram em grupos para elaborar planos de gestão comunitária de resíduos orgânicos a partir de diferentes contextos. O primeiro grupo discutiu a compostagem a nível municipal tendo como exemplo a capital catarinense. Foram levantadas as dificuldades e potencialidades para uma possível gestão municipal de todo o resíduo orgânico do município.

Dois outros grupos realizaram o planejamento da gestão comunitária nas comunidades da Vargem Grande, no norte da ilha e na Frei Damião, em Palhoça. Ao longo do exercício, muitas cabeças pensando juntas contribuíram para que os projetos dessas comunidades ganhassem força. As representantes das comunidades, Sandra e Mônica, puderam mapear parceiros, bolar estratégias de mobilização e perceberam que a gestão comunitária dos resíduos não se faz sozinha, é preciso colaboração.

Um quarto grupo, formado pelos beneficiários do Minha Casa, Minha Vida discutiu os desafios para onde a gestão comunitária já acontece. Uma das dificuldades nesses espaços ainda é a viabilidade financeira  e o pagamento dos moradores que se envolvem com o trabalho da compostagem, além de envolver mais famílias no processo. 

Na tarde da quinta-feira, o Jardim Botânico foi aberto ao público externo para o seminário Desafios e oportunidades  da Compostagem em Florianópolis. No evento foram apresentadas experiências com a gestão de resíduos no âmbito comunitário, doméstico, empreendedor e municipal. 

No nível doméstico, médico do SUS Renato Figueiredo – que sugeriu a compostagem como solução para o problema dos ratos na Comunidade Chico Mendes dando origem à Revolução dos Baldinhos – explicou como é feita a compostagem com minhocário, deu dicas e tirou dúvidas do público presente. Ele falou sobre o Programa Minhoca na Cabeça, desenvolvido pela Prefeitura de Florianópolis e que distribuiu quase 300 minhocários para a população, desviando desde 2017 quase 10 toneladas de resíduos orgânicos dos aterros sanitários.

Eduardo, do Destino Certo, falou um pouco sobre a sua experiência empreendedora com a compostagem. Hoje, ele recolhe o resíduo de 200 famílias e afirma: “o foco principal é a consciência ecológica. Mostrar para as pessoas que o resto de alimento não é lixo”, por esse motivo a parte pedagógica é importante, a informação tem que chegar até as pessoas.

Com Florianópolis ganhando projeção nacional ao aprovar a primeira Lei de Compostagem no país, o Vereador Marcos José de Abreu (Marquito), do PSOL, concorda ao dizer que a lei é um processo de construção pedagógica. Ele é autor da Lei Municipal 10.501, a chamada “Lei da Compostagem”, que prevê a obrigatoriedade gradativa da gestão dos resíduos orgânicos no município de Florianópolis com a meta de atingir 100% da gestão até 2030. Marquito colocou como uma das metas ao longo dessa caminhada a garantia de remuneração para aqueles/as que realizam serviços ambientais como a compostagem, já que estão desviando um volume importante dos aterros sanitários, gerando economia para os cofres públicos.

Um dos desafios para implementar a Lei é medir o custo que esse serviço tem, pois não é simples calcular aspectos como a redução do impacto ambiental que a gestão descentralizada promove. Além disso, é preciso construir mecanismos para mediar a relação entre estado e as iniciativas comunitárias que realizam a compostagem, tudo isso num contexto de intenso conflito de interesses, já que o transporte e aterramento de resíduos figura entre as três principais contas do município. “Hoje Florianópolis gasta cerca de R$ 37 milhões para transportar e aterrar resíduos orgânicos, que poderiam ser compostados localmente. Com esse dinheiro daria pra construir 12 postos de saúde, por exemplo”, aponta Marquito.

O curso encerrou na sexta-feira, 30, com a apresentação dos planos de gestão discutido nos grupos. Ainda rolou um momento cultural com música, poesia e muitos abraços no Sarau Composto por Nós.

 

Encontro do Núcleo Litoral Catarinense renova princípios da Rede Ecovida de Agroecologia

“A alma da Rede Ecovida de Agroecologia são seus princípios, não a certificação”. A fala da agricultora Claudete Ponath, de Piçarras (SC), enfatiza que, muito além de emitir certificados de orgânico, a  Rede Ecovida existe porque há confiança, participação, transparência e organização de base entre famílias. Esses e outros princípios foram retomados e renovados durante o 13º Encontro do Núcleo Litoral Catarinense da Rede Ecovida de Agroecologia, realizado em Porto Belo no último final de semana, dias 24 e 25 de agosto de 2019. Mais de 130 pessoas participaram do Encontro, trocando conhecimentos, sementes e muita disposição para seguir trabalhando por uma agricultura limpa e amiga da Natureza.

A conversa sobre os princípios da Rede emerge num contexto em que, a partir do Fórum Brasileiro de Sistemas Participativos de Garantia, torna-se necessário incluir equidade de gênero e geração entre os princípios dos SPGs no país. “Isso significa que precisamos falar sobre Gênero e Geração no nosso Núcleo. Por termos uma coordenação com bastante mulheres ao longo de vários anos, pode parecer que não é preciso falar sobre isso. Mas não é verdade”, avalia Claudete, escolhida também como nova coordenadora do Núcleo, entrando no lugar da agricultora Tânea Mara Follmann, de Águas Mornas.

Troca de conhecimentos nas palestras e oficinas do Encontro
Além de momentos de celebração, os Encontros de Núcleo são espaços de troca e construção de conhecimentos.

A primeira palestra do Encontro foi no sábado 24, com o coordenador da Casa da Semente de Mandirituba (PR), Hans Rinklin. Após abordar o contexto de erosão genética em que vivemos atualmente, perdendo cerca de 10 variedades de sementes TODOS OS DIAS, além do controles de 66% da produção mundial de sementes por apenas 3 multinacionais, Hans apresentou o trabalho da Casa de Sementes e dos grupos de guardiões como uma alternativa para conservar a biodiversidade. “Sem semente, não há possibilidade de vida humana”, disse.

A Casa de Sementes existe desde 2011, articulando grupos de agricultores/as dispostos/as a conservar e multiplicar variedades de sementes crioulas e nativas. Mais do que um banco de armazenamento, a Casa promove também atividades de capacitação e acompanhamento de análises de sementes. Através de uma parceria com a Rede Sementes da Agroecologia, apoia a construção das Festas das Sementes no Paraná, além de realizar incidência política. Fechando a conversa, Hans afirmou: “A conservação das sementes e da agrobiodiversidade não é tarefa só dos/as agricultores/as. É de toda a sociedade, do campo e da cidade”.

Na sequência, os grupos do Núcleo Litoral fizeram sua apresentação.

Tecnologias sustentáveis de produção de hortaliças foi o tema da palestra do agrônomo Euclides Schallenberger, da Epagri de Itajaí.  Ao longo de uma hora com muitas informações, Schallenberger falou sobre propiciar boas condições ambientais para as plantas crescerem saudáveis, além de técnicas de manejo integrado, controle biológico e controle químico para doenças e “pragas” nos cultivos. “Não basta só não usar veneno. Para ter sucesso no cultivo orgânico, é preciso manter a planta em condições ótimas, criando também condições ruins para insetos e bactérias”, disse o agrônomo. Ao final de sua apresentação, Schallenberger falou sobre a nova proposta do ICMS Verde, prorrogada para entrar em vigor só no final de dezembro deste ano e que taxará com ICMS de 17% os agrotóxicos mais perigosos, reduzindo esta alíquota até 0%, no caso de produtos biológicos, permitidos na produção orgânica. “Isso mantém nosso custo de produção baixo, se comparado com o convencional”, disse.

As oficinas, no domingo de manhã, trataram de temas como: preparados biodinâmicos, adubos verdes, plantas alimentícias não convencionais (PANCs), comercialização e organização de consumidores/as e planejamento de produção e gênero.

Pra quem precisava relaxar e se cuidar um pouco, a Oficina Cuidar de Si foi o espaço certo para isso.

 

Trocas e intercâmbios durante o Encontro

Ao longo de todo o evento, a Feira de Saberes e Sabores era o espaço de trocas e conversas em meio à produção agroecológica do Núcleo Litoral Catarinense.

Assim como em anos anteriores, em 2019 o Encontro do Núcleo teve participações externas. Uma delas é dos companheiros da organização Fundesyram, de El Salvador, José Jesús Cordoba e Juan Antônio Ruiz, que vieram a Santa Catarina participar de diversas atividades conjuntas com o Cepagro. Além de trazer um pouco da experiência em Agroecologia do seu país natal, eles compartilharam também sementes, afinal “nosotros los agricultores agroecológicos somos todos hermanos”, disse José Jesus. A Fundesyram é parceira do Cepagro no projeto apoiado pela IAF.

Também participaram neste Encontro a turma da Rede Plantar para a Vida, de Sergipe, que está sendo assessorada por membros do Núcleo Litoral para compor seu SPG. O agricultor e estudante de Agronomia Elvis Valentim Lisboa era um dos membros da comitiva e conta que se sentiu em casa durante o Encontro. “Vimos que temos muita coisa parecida com os/as agricultores/as daqui”, disse. Elvis relata que a Rede surge a partir de uma articulação entre grupos de agricultores que fazem feira na região do município de Lagartos: “como grupo, temos mais impacto na comunidade”, afirma. Durante o Encontro, algo que o marcou bastante foi a diversidade: de pessoas, de interesses, de cultivos e de culturas. Leva para Sergipe os aprendizados que teve durante a oficina de Planejamento de Produção, com a equipe do LACAF.

A técnica do Sebrae Luciana Oliveira Gonçalves acompanha a Rede sergipana e conta que por lá os/as agricultores/as seguem os mesmos princípios da Ecovida. Desde 2017 a rede adotou o SPG e em dois anos Luciana já percebeu “a transformação social que causa na vida das pessoas e a melhora da autoestima. Com o processo participativo eles passaram a se relacionar de outra maneira, mais coletiva, fazem mutirões, se ajudam”. 

E é claro que nos encontros do Núcleo não pode faltar um banquete agroecológico. Em meio à diversidade de alimentos preparados pelo Grupo de Agroecologia Costa Esmeralda, que recebeu o evento, apenas três itens não eram agroecológicos.

Plenária do Encontro aborda princípios da Rede Ecovida
A demanda pela inclusão da equidade de gênero e geração estimulou a discussão sobre os princípios gerais da Rede Ecovida durante o Encontro do Núcleo. Representantes de vários grupos falaram sobre cada um dos 9 princípios da Rede: descentralização, confiança, processo pedagógico, formações de redes, participação, olhar externo, organização de base, transparência e adequação à unidade familiar. Atualmente, as questões de gênero e geração foram incluídas somente no Manual de Procedimentos da Rede, num capítulo que trata sobre violações de direitos humanos. Estas infrações podem implicar a perda do certificado e exclusão da Rede – ou seja, diz respeito principalmente à certificação, mas, como disse Claudete: o que move a Rede são seus princípios, eles são a alma da Rede. Neste sentido, continua a demanda por mais discussão dentro desta temática para que seja abarcada também como princípio agroecológico praticado na Rede.

Também foi apresentada a nova equipe de coordenação, com Claudete Ponath na coordenação e Ernande Stolarczk, de Major Gercino, como vice. E o próximo Encontro de Núcleo já tem local: Garopaba.