NOVAS REPRESENTAÇÕES DO COMSEAS TOMAM POSSE PARA O BIÊNIO 2021-2023

Em eleição realizada no dia 24 de março, o Cepagro manteve sua representação no Conselho Municipal de Segurança Alimentar e Nutricional Sustentável de Florianópolis (COMSEAS). A titular da cadeira, antes ocupada pelo Diretor-Presidente do Cepagro Eduardo Rocha, passa a ser a Engenheira Agrônoma Gisa Garcia, que dividirá a representação com a educadora do campo Giselle Miotto como suplente.

WhatsApp Image 2021-03-24 at 15.15.30 (1)A eleição foi realizada de forma virtual num Fórum Eletivo da Sociedade Civil. Em breve, serão eleitas a Presidência e a mesa diretiva do Conselho. No total, foram escolhidas 8 organizações da sociedade civil. Estão entre elas a Rede Com a Rua, o Conselho Regional de Nutricionistas da Décima Região, SESC Mesa Brasil, o Grupo Ilha Meiembipe da Rede Ecovida de Agroecologia, Associação dos Remanescentes do Quilombo Vidal Martins, Colônia de Pescadores Z11 e Movimento População de Rua, além do Cepagro.

O Cepagro tem representação no COMSEAS de Florianópolis desde a primeira gestão do Conselho, iniciada em 2014. Ao longo desses anos, foi possível levar para as discussões do Conselho as pautas da Agroecologia, da Agricultura Urbana e do Direito Humano à Alimentação Adequada e Saudável, bem como demandas colocadas por populações periféricas e povos e comunidades tradicionais, públicos com os quais a organização atua. Para Gisa Garcia, “é muito importante que não só continuemos realizando o controle social, mas que continuemos pautando a Agroecologia no processo de construção e consolidação de políticas públicas de Segurança Alimentar e Nutricional”.

Eduardo Rocha, que esteve ocupando a mesa diretiva do Conselho como 2ª secretário, lembra que em  2020, o COMSEAS teve participação importante na aprovação da lei da venda direta dos pescados que garantiu aos pescadores artesanais de Florianópolis a possibilidade de comercializar diretamente aos restaurantes. Outra frente importante foi a articulação do conselho na aprovação de duas propostas da agricultura familiar para o Programa Aquisição de Alimentos (PAA), urgente no contexto da pandemia

05O Restaurante Popular, tema que já vinha sendo discutido pelo Conselho em gestões anteriores, também ganhou força no ano passado com a campanha “Restaurante Popular em Florianópolis, já!”, lançada em conjunto com organizações e coletivos que debatem o tema da Segurança Alimentar e Nutricional (SAN) na capital catarinense. Como resultado da pressão popular, em dezembro a Câmara de Vereadores aprovou a inclusão de R$ 1 milhão na Lei Orçamentária Anual de 2021 para a instalação deste equipamento público de SAN. Para os próximos dois anos, este tema certamente continuará na lista de  prioridades do Comseas. 

Gisa Garcia afirma que “nesse momento de pandemia, é evidente a crescente insegurança alimentar da população e o Restaurante Popular, como um equipamento público de SAN, pode garantir o direito de todos e todas a uma alimentação adequada e saudável”. E complementa: “é importante acrescentar que o Restaurante Popular não deverá só realizar o atendimento de forma emergencial, mas permanente, através da garantia do acesso a uma alimentação saudável, de baixo custo a toda a população, especialmente àquela de menor renda. E talvez o maior desafio seja transformar esse espaço num ambiente de promoção da saúde, objetivando a melhoria da qualidade de vida de todas e todos aqueles moradores de rua, trabalhadores e cidadãos do município de Florianópolis”.

Participação popular e democracia

Com a extinção do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional em 2019, os Conselhos municipais, assim como os estaduais, ganharam ainda mais relevância. Eles são a principal instância de controle social da política municipal de SAN. Cabe aos Conselhos municipais realizar certas articulações junto ao Poder Público municipal – seja ele executivo, legislativo ou judiciário -, bem como deliberar e formular diretrizes para a elaboração de um plano municipal de SAN e fazer o chamamento para as conferências municipais de SAN. “E mais do que isso, o COMSEAS foi uma conquista histórica, de uma luta histórica, para o retorno da democracia no Brasil”, recorda Eduardo Rocha.

Sendo uma instância democrática, o COMSEAS deve tornar-se cada vez mais plural. Nesse sentido, um movimento chave da sua última gestão foi garantir uma reserva de vagas tanto para a população em situação de rua, público prioritário na política de SAN, quanto para povos e comunidades tradicionais. Dessa forma, foi feita uma recondução automática de representantes da Associação dos Remanescentes do Quilombo Vidal Martins. Além disso, a gestão 2019/2021 mobilizou e garantiu a participação desses importantes segmentos da sociedade de Florianópolis no processo eleitoral do conselho. Esta preocupação e articulação interna culminou na eleição de representações de pescadores/as artesanais, organizados na Colônia de Pescadores Z11 e da população em situação de rua, organizados no Movimento População de Rua, antes ausentes no Conselho.

Ação Solidária COVID 19 conecta comunidades tradicionais e urbanas pelo alimento

A iniciativa de articulação entre comunidades para aquisição e distribuição de alimentos orgânicos a cozinhas comunitárias de Florianópolis completou 5 meses em fevereiro. Mais de 1,1 tonelada de alimentos chegaram às cozinhas, que serviram 6.580 refeições a pessoas em situação de vulnerabilidade social e de rua.

Clique aqui para ver mais uma edição do Boletim AÇÃO SOLIDÁRIA COVID 19, em que destacamos a participação da comunidade guarani da Tekoá Vy’á no projeto.

Os guaranis forneceram para a AÇÃO SOLIDÁRIA COVID 19 cerca de 200 kg de batata doce, 150 kg de banana e 260 kg de feijão – tudo produzido sem agrotóxicos. Mudas e sementes conservadas pela agricultura familiar e movimentos sociais frutificaram no solo guarani, provendo alimentos de qualidade às periferias urbanas. O projeto também distribuiu o arroz do MST para as famílias guarani, fortalecendo sua base alimentar com um produto orgânico da reforma agrária.

Rótulo do suco de uva da CooperMajor simboliza conquista da agricultura familiar

Foto: Di20 Design

Quando compramos um suco, uma geleia ou um molho no supermercado, o que olhamos no rótulo? Talvez as informações nutricionais, a quantidade de calorias, os ingredientes… No caso de alimentos orgânicos, o rótulo traz estampada a garantia da produção sem veneno. Mas para quem produz esses alimentos, sobretudo nas agroindústrias familiares, um rótulo traz muito mais do que informações. No caso da CooperMajor, cooperativa de famílias agricultoras de Major Gercino, a conquista do rótulo para os sucos de uva produzidos na agroindústria representa anos de trabalho e formação coletivos. 

“Esse é mais um passo importante pra gente poder comercializar nossos produtos”, conta o agricultor Ernande Stolarczk, do Conselho Fiscal da CooperMajor. Ele é uma das 8 famílias que produzem suco de uva na agroindústria da cooperativa, inaugurada em 2018 – são 3 famílias com produção orgânica e outras 5 no modelo convencional – que tem uma capacidade de processamento de 1.500 litros de suco por dia.   

“Essa iniciativa agrega renda e principalmente coloca possibilidades de comercialização com a prefeituras via alimentação escolar e supermercados. Esse era um objetivo ao qual as famílias vinham se dedicando ao longo de 05 anos e que não era possível por conta de algumas inconformidades, agora resolvidas”, afirma Charles Lamb, técnico do Cepagro que fez a articulação entre a Coopermajor e a Nectalimentos, que realizou uma consultoria para adequação da agroindústria e registro do suco junto ao Ministério da Agricultura. Os 15.000 litros de suco orgânico da safra 2020/2021 produzidos por 3 famílias agricultoras agroecológicas da CooperMajor – de Ernande, dos seus pais Aluísio e Salete Stolarczk e de Eduardo e Larissa May – agora já podem ir para as prateleiras comerciais e também entrar em compras públicas. Anteriormente, o produto só podia ser comercializado diretamente – em casa, em feiras ou por cestas.  

Para legalização da agroindústria e obtenção do rótulo do suco com registro no Ministério da Agricultura, as famílias da CooperMajor tiveram que fazer reformas na estrutura física da fábrica, passar por capacitações em boas práticas de fabricação e atravessar um longo caminho de trâmites burocráticos. “Na prática a gente faz tudo certo, mas no papel é complicado”, explica Ernande sobre os desafios burocráticos para legalização do suco. “Nessa parte a Rossana nos deu bastante ajuda, na legalização junto ao MAPA, elaboração do rótulo… E continua, sempre sanando dúvidas”, completa, referindo-se à assessoria da engenheira agrônoma Rossana Podestá, da Nectalimentos, contratada através do projeto LA-188, que o Cepagro executa com apoio da IAF.

Rossana iniciou o trabalho com uma visita à agroindústria ainda em 2017, sugerindo então adequações na estrutura física para que as instalações estivem de acordo com as exigências do Ministério da Agricultura. Também colaborou na elaboração do Manual de Boas Práticas, das fichas técnicas e no desenvolvimento de procedimentos operacionais padrão, todos requisitos de órgãos fiscalizadores. “Todas as famílias tinham noção da qualidade do produto, mas não do quão importante era observar todos os procedimentos corretamente. Mas foram muito receptivos e toparam a ideia do curso de boas práticas de produção de alimentos”. O curso foi realizado em outubro de 2018, contando com a presença de 20 famílias integrantes da cooperativa. Na sequência, mais adequações de documentação para o registro do suco no Ministério da Agricultura. 

Todo esse processo ganhou cara nova com o rótulo desenhado pela Di_20 Design, empresa especializada em embalagens e renovação de marcas. “Desenvolvemos uma ilustração em base à região e à casa original onde são produzidos os sucos – nos vales de Major Gercino -, valorizando a origem artesanal do produto e gerando maior confiança para o público-alvo”, explica a agência na apresentação da nova marca.

Paralelamente à assessoria de Rossana, em 2019 a estudante de Engenharia de Alimentos Alice Nied realizou seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) analisando as características físco-químicas dos sucos produzidos pela CooperMajor, atestando mais uma vez sua qualidade e adequação aos parâmetros do Ministério da Agricultura. Para 2021, Charles Lamb explica os próximos passos da assessoria: “Continuaremos com o  acompanhamento da produção dos sucos, análises de qualidade dos produtos, manutenção de documentos como fichas técnicas e manuais, cursos e treinamentos, além de apoio na manutenção do site QRCODE presente no rótulo”, afirma. 

Cepagro fortalece práticas agroecológicas em aldeias Guarani do Litoral Catarinense

O mês de fevereiro marca o fim do Ara Pyau, período do ano que representa tempo novo na cosmovisão Guarani. Iniciado em setembro, junto com a primavera, o Ara Pyau orienta todo o calendário agrícola Guarani, do preparo do solo à colheita, em especial das variedades de milho que além de alimento, são também um bem sagrado imprescindível nas cerimônias de batismo Guarani, realizadas justamente neste período.

Estes são alguns dos conhecimentos que a equipe Cepagro pôde adquirir ao longo do último ano, a partir da relação de confiança que se estabeleceu com as aldeias Yguá Porã, Yynn Moroti Wherá e Tekoa Vy’a, localizadas na Grande Florianópolis. Através dos projetos “Terra, Comunicação e Artesanato sustentáveis: iniciativas para o fortalecimento das Tekoa Guarani”, apoiado pelo Instituto das Irmãs da Santa Cruz eCulturas de cobertura da próxima geração, com o apoio da Conservation Food & Health Foundation, foi possível fortalecer a produção de alimentos nas três aldeias e assim promover a soberania e segurança alimentar e nutricional e a diversificação alimentar das famílias Guarani, especialmente afetadas pela pandemia.

Desde março, foram entregues sementes de pelo menos 10 variedades de hortaliças, ramas de mandioca provenientes de agricultores da Rede Ecovida de Agroecologia e mudas de espécies tradicionais, como o sagrado pety, fumo tradicional Guarani. As equipes dos projetos também participaram de mutirões, distribuiu sementes de adubos verdes e deu orientações sobre a utilização desta técnica agroecológica para o preparo e conservação do solo, buscando assim reduzir a necessidade de fertilizantes químicos (principalmente da uréia).

Para Adailton Karay Moreira, professor de cultura na escola indígena da aldeia Yynn Moroti Wherá, em Biguaçú, os aprendizados sobre como melhorar a saúde do solo através da adubação verde foram importantes pois vão ser repassados na prática para seus alunos e alunas, já que a roça da comunidade também é um espaço pedagógico. Ali as crianças aprendem a preparar a terra, conhecem as sementes e qual o mês certo para o plantio de cada uma delas. Dessa forma Adailton ensina também sobre a importância de cultivar as sementes tradicionais.

“Para mim é bem importante ter algumas plantações de alimentos tradicionais, porque é bem mais saudável estar colhendo e comendo daquilo que plantou na própria terra. Se tu for pensar, todos os alimentos que vêm do supermercado que vêm em lata ou em conserva não é muito bom consumir direto, porque isso pode fazer mal ao longo do tempo. Por isso, para mim é importante estar cultivando alimentos”.

Na aldeia Tekoa Vy’a, em Major Gercino, a oficina de adubação verde envolveu a criançada e foi organizada em parceria com as lideranças e professores da Nhemboeá Vy’a (escola da comunidade). Junto com esta atividade, realizada no último dia 25 de fevereiro, a equipe do Cepagro também auxiliou na preparação das áreas que logo receberão as sementes de hortaliças, do avaxi ete’i (milho Guarani) e ainda o milho crioulo comum. Estes plantios devem acontecer antes da chegada do Ara Yma, período que vai de março a setembro e, ao contrário do Ara Pyau, corresponde ao tempo velho, período de recolhimento.

Segundo Letícia Filipini, engenheira agrônoma e técnica do Cepagro no projeto Culturas de cobertura da próxima geração, “os adubos verdes de inverno são uma ótima estratégia para as aldeias já que nesse período [do Ara Yma] não se cultiva outras culturas”. Novas atividades estão previstas para acontecer nas três aldeias parceiras ao longo dos próximos meses, “com Adubação verde vamos iniciar um processo de restauração do solo, aumentando a fertilidade e consequentemente garantindo uma melhor produção dos cultivos que destinam para a alimentação da comunidade”, aponta Letícia.

A aldeia Tekoá Vy’a também foi parceira na Ação Solidária Covid-19, desenvolvida pelo Cepagro com o apoio da Fundação Interamericana (IAF). A ação busca promover segurança alimentar e nutricional e fortalecer a Agroecologia através da compra de alimentos agroecológicos e da agricultura familiar e entrega desses alimentos a 6 cozinhas comunitárias de Florianópolis. Através desta parceria, foi feito o planejamento de produção com o Cacique Artur Benites para a produção e comercialização de feijão preto e batata doce. Além da produção abastecer a própria comunidade diversificando a alimentação das famílias Guarani, uma quantia de aproximadamente 200kg de batata doce, 150kg de banana e 260 kg de feijão foram comercializados para a Ação, levando alimento e saúde a famílias em situação de vulnerabilidade social de Florianópolis.

Fortalecimento comunitário

Além das ações ligadas à agricultura, o projeto Terra, Comunicação e Artesanato também possibilitou atender outras demandas das comunidades Guarani, como o fortalecimento do artesanato, com a entrega de insumos como miçangas, teares, formões e argila e com apoio à comercialização. 

Através deste projeto, também foi realizada uma oficina de comunicação no formato de videoaulas preparadas pelo Coletivo Mídia Índia. A atividade aconteceu na aldeia Yynn Moroti Wherá em parceria com os professores Daniel Kuaray e Celita Antunes, que facilitaram a formação para os jovens da aldeia. O propósito da atividade foi levar um pouco do conhecimento do coletivo que é referência nacional no movimento indígena para que a rede de comunicadores indígenas se amplie e possa cada vez mais comunicar a diversidade e riqueza cultural dos povos originários do Brasil, assim como suas realidades e lutas por direitos.

Por fim, nos últimos meses, o coordenador do projeto, Charles Lamb (Bagé) também esteve ao lado das lideranças acompanhando de perto os trâmites e burocracias necessárias para a regularização da Associação da comunidade, passo imprescindível para garantir mais autonomia no acesso a recursos indenizatórios e editais voltados para povos indígenas.

“Em tempos pandêmicos vimos o quão importante é a interação social, seja ela presencial, ou da maneira possível remotamente por telefone, mensagens e vídeos. Assim como as ações diretas do projeto. O artesanato, principal atividade para geração de renda, permaneceu ativo com a ajuda de insumos e de comercialização. Promovemos a segurança alimentar através do fortalecimento das práticas tradicionais de agricultura, fornecendo insumos e estimulando o aumento da produção para comercialização do excedente. O fortalecimento social, através da associação, foi fundamental para a organização e acesso a editais e recursos para a viabilização de demandas estruturais e de saúde. Além disto, foi o tempo de estreitar relações e parcerias para auxiliar órgãos indigenistas nas demandas crescentes destas comunidades”, avalia Renata Lucas, da equipe técnica do projeto.

O desenvolvimento destas e outras atividades junto às aldeias Guarani foi possível graças ao apoio do Instituto das Irmãs da Santa Cruz (IISC), da Conservation, Food & Health Foundation, da Fundação Interamericana (IAF) e da parceria com a Secretaria Especial de Saúde Indígena (SESAI), Funai e outras organizações e coletivos que contribuíram em ações pontuais e emergenciais.

AÇÃO SOLIDÁRIA COVID 19: Segurança alimentar para além da cesta básica

Uma tonelada de alimentos saudáveis distribuídos a cinco cozinhas comunitárias de Florianópolis, gerando mais de 8 mil refeições para pessoas em situação de rua e vulnerabilidade socioeconômica. Esse é o balanço de mais um mês da Ação Solidária COVID 19, iniciativa do Cepagro com apoio da Fundação Inter-Americana (IAF) para articular campo e cidade e fazer comida de verdade chegar aonde precisa. Veja aqui a versão completa do Boletim Ação Solidária COVID 19.

Um diferencial de iniciativas como a AÇÃO SOLIDÁRIA COVID 19 é o foco em aproximar campo e cidade para fazer circular alimentos saudáveis e socialmente justos. É ir além da distribuição de cestas básicas (que também são importantes). É, por exemplo, articular organizações camponesas com comunidades periféricas, potencializando tanto o trabalho dos movimentos sociais da agricultura familiar quanto o tecido social das periferias onde atuam cozinhas comunitárias, organizações da igreja e equipamentos públicos como o CRAS.

Junto com os alimentos, chegam reflexões sobre segurança alimentar e o papel do estado na sua promoção. E assim vai sendo fortalecida a articulação em torno do direito humano à
alimentação adequada, fundamental para a mobilização da sociedade civil na defesa e reivindicação por políticas públicas. Porque combater a fome é combater a miséria e a pobreza, não só com produção e distribuição de alimentos, mas também com educação, direito à moradia, trabalho e renda.

 

Ação solidária COVID distribuiu mais de 1 tonelada de alimentos em dezembro

A Ação Solidária COVID 19, iniciativa de distribuição de alimentos agroecológicos que o Cepagro vem desenvolvendo com apoio da Fundação Inter-Americana (IAF), distribuiu 1,4 tonelada de comida para 5 cozinhas comunitárias em dezembro. Juntas, essas cozinhas serviram mais de 10 mil refeições para pessoas em situação de rua e vulnerabilidade socioeconômica. Saiba mais sobre na edição de dezembro do Boletim Ação Solidária COVID 19.

Projeto de cooperação internacional inicia construção de indicadores da Agroecologia na América Latina 

A aceleração da crise climática global ameaça cada vez mais a segurança alimentar e nutricional das populações do campo e da cidade. Nesse contexto, a Agroecologia ganha importância por combinar produção de alimentos saudáveis com a conservação dos recursos naturais e a justiça social. Embora já esteja comprovado que os sistemas agroecológicos são mais resilientes às mudanças climáticas, há ainda uma carência de indicadores que relacionem o seu potencial econômico, social e ambiental.

Foi buscando preencher esta lacuna que um conjunto de organizações latinoamericanas deram início ao projeto “Agroecologia na América Latina: construindo caminhos”, uma iniciativa piloto regional que tem como estratégia coletar e sistematizar evidências científicas para o desenvolvimento de Indicadores da Agroecologia, com o objetivo de contribuir com a transição agroecológica e subsidiar a construção de políticas públicas que promovam o avanço da Agroecologia.

Foto mostra representantes das 8 organizações participantes do projeto
Comitê Gestor do projeto ‘Indicadores da Agroecologia: construindo caminhos’ reunido em El Salvador, janeiro de 2020

O projeto é desenvolvido através de cooperação internacional entre o Cepagro, a Universidade da Colúmbia Britânica (UBC) – através da professora e pesquisadora canadense Hannah Wittman – e seis organizações que promovem a Agroecologia na América Latina: Centro Campesino, A.C. e Tijtoca Nemiliztli, A.C. (México), Fundesyram (El Salvador), Movimiento de Economía Social y Solidaria del Ecuador – meSSe (Equador), APRO (Paraguay), Movimento Mecenas da Vida – MMV (Bahia) e Centro de Tecnologias Alternativas Populares – CETAP (Rio Grande do Sul). O projeto tem o apoio da Fundação Interamericana (IAF).

O projeto tem o formato de uma pesquisa-ação, onde a coleta de dados será realizada de forma participativa com famílias agricultoras e organizações de apoio. Esta coleta será facilitada pelo LiteFarm, uma ferramenta digital de gestão agrícola desenvolvida por uma equipe de cientistas, agricultores-colaboradores, designers, desenvolvedores e estudantes da UBC. Além de dinamizar a coleta de dados das propriedades agroecológicas, o aplicativo visa auxiliar famílias agricultoras no acompanhamento e gestão de suas áreas produtivas. Como se trata de um projeto piloto, a efetividade desta ferramenta ainda está sendo testada e aprimorada.

Construção coletiva e pedagógica

Cada uma das organizações está trabalhando em parceria com pelo menos 15 famílias que possuem mais de três anos de experiência em produção agroecológica. Neste primeiro trimestre, em meio às dificuldades enfrentadas pela pandemia, as organizações iniciaram o diálogo com as famílias participantes para explicar melhor sobre o projeto, seus objetivos e benefícios.

Encontro entre agricultores da Rede Povos da Mata e técnicos do Movimento Mecenas da Vida

No Sul da Bahia, região nordeste do Brasil, o Movimento Mecenas da Vida irá trabalhar com famílias vinculadas à Rede de Agroecologia Povos da Mata. Entre as 15 unidades produtivas selecionadas há produção de frutíferas, folhosas, temperos e raízes, mas predominam as famílias que cultivam o cacau, principal cultura agrícola da região. Segundo Luiz Fernando Vieira Pozza, da diretoria do MMV, com esse projeto a instituição almeja “o fortalecimento das práticas sustentáveis e agroecológicas exercidas pelos agricultores da rede Povos da Mata. As  trocas,  aprendizagens e a cooperação fraterna com as instituições parceiras também são almejadas pelo MMV”, afirma.

Já no sul do Brasil, a iniciativa envolverá famílias agricultoras da Rede Ecovida de Agroecologia. Giovani Gonçalves, Coordenador técnico do Centro de Tecnologias Alternativas Populares (CETAP) espera que o projeto e o uso da ferramenta LiteFarm possam fornecer informações relevantes para fortalecer a transição agroecológica e subsidiar ações da organização nesse sentido, bem como “auxiliar as famílias na geração de dados que sirvam para os processos de certificação participativa”.

Nesses primeiros meses, as técnicas e técnicos extensionistas das organizações estiveram centrados em se familiarizar com a ferramenta LiteFarm, através de capacitações virtuais realizadas com desenvolvedores da UBC. Nestas capacitações as organizações contribuíram com sugestões para o aprimoramento da ferramenta, para que ela seja acessível aos agricultores/as e compatível com diferentes sistemas agroecológicos. Um desafio que se apresentou até o momento foi o acesso limitado à internet nas comunidades rurais, o que dificulta o uso do aplicativo à campo e exige metodologias adaptadas para a coleta de dados.

Rosa Murillo em visita às famílias participantes do projeto na Serra norte do Equador

Rosa Murillo, agricultora e dinamizadora do Movimento de Economia Social e Solidária do Equador (meSSe), acredita que o projeto piloto, ao capacitar a equipe de dinamizadores do meSSe para o uso da ferramenta e para a análise da informação sob critérios técnicos econômicos, ambientais e sociais, “permitirá a médio e longo prazo fazer incidência interna e externa para o fortalecimento da agricultura familiar camponesa agroecológica, apoiando com mais precisão as atividades onde as famílias têm mais fragilidades”.

“Internamente o movimento pode fazer uso desta expertise para difundir o trabalho das famílias e as práticas desenvolvidas em suas propriedades a fim de ampliar seu raio de ação para novas famílias a nível territorial”. “A nível externo, permitirá incidir nas políticas públicas locais para conseguir o apoio do Estado às dinâmicas territoriais baseadas numa produção sustentável, estas podem conseguir uma assistência técnica à produção agroecológica, transformação de produtos, acesso a mercado, entre outros”, complementa Rosa.

Histórico de atuação em rede

As organizações latinoamericanas envolvidas neste projeto piloto já vinham atuando em uma rede de colaboração formada em torno da agroecologia desde 2016, através do projeto Saberes na Prática em Rede, coordenado pelo Cepagro com o apoio da Fundação Interamericana (IAF). As experiências e aprendizados vivenciados coletivamente em encontros presenciais e virtuais ao longo desses anos, despertaram não apenas a necessidade de seguir promovendo a agroecologia, mas também de medir os avanços que ela vem proporcionando em suas múltiplas dimensões.

Visualizando essa necessidade, as organizações identificaram conjuntamente uma série de indicadores relevantes nos âmbitos social, econômico e ambiental. Para citar alguns, estão o acesso à terra, água e sementes agroecológicas, a participação em agroindústrias e cooperativas, canais de comercialização, autoconsumo e dependência de insumos externos, por exemplo. Nesta primeira fase do projeto, serão então definidos entre 3 a 5 indicadores por eixo – social, econômico e ambiental – de forma participativa.

Para Erika Sagae, Vice-Presidenta do Cepagro e coordenadora do Projeto Agroecologia na América Latina: construindo caminhos, “a utilização do aplicativo, somada a construção de indicadores a partir da parceria com a UBC vai trazer elementos importantes, tanto para a efetivação de políticas públicas em Agroecologia a partir de dados que a gente possa estar apresentando para os governos locais, como também para essa troca de conhecimentos entre os países.”

Reunião com técnicos do Centro Campesino e Rede Tijtoca para discutir o andamento do projeto no México

Além de estreitar as relações entre os países e organizações latinoamericanas no campo da Agroecologia, o projeto fortalece também o trabalho de agricultores e agricultoras ecológicos. Para Victor Hugo Morales Hernandez, do Centro Campesino A.C. em Tlaxcala, no México, os agricultores(as) familiares serão beneficiados pois “terão disponíveis informações e dados que lhes permitam defender o seu trabalho para conseguir posicionar os seus produtos no mercado, sensibilizando a sociedade para reconhecer que não é justo que concorram com os modelos de agricultura moderna nem com os custos de comercialização”. Aponta ainda que “é um grande avanço para as organizações e produtores agroecologistas contar com ferramentas  que permitam compartilhar os resultados em diferentes contextos e assim apoiar a consolidação de movimentos e políticas”.

Portanto, com esta iniciativa piloto, espera-se melhorar o intercâmbio de experiências e conhecimentos sobre práticas agroecológicas locais, fortalecendo a Agroecologia na base e ao mesmo tempo vislumbrar um horizonte onde ela seja política e socialmente assumida como uma abordagem para o enfrentamento às crises emergentes.

Cepagro vai a Paraty qualificar a compostagem em fazenda turística

Entre os dias 9 e 10 de dezembro, o Cepagro esteve em Paraty, no Rio de Janeiro, realizando uma assessoria em compostagem na Fazenda Bananal, uma estância turística voltada à conservação, educação e pesquisa ambientais. Cravada entre Parques Nacionais e Áreas de Preservação Ambiental, a Fazenda Bananal cuida de sua história e também do meio ambiente. Os casarões do século 17 foram restaurados e cerca de 70% da área total da propriedade, que tem 180 hectares, é mantida como Mata Atlântica. Horta agroecológica, sistemas agroflorestais, melipolinários e educação ambiental são algumas das atividades desenvolvidas na Fazenda. A compostagem fecha o ciclo dos alimentos na Fazenda, mas precisava de alguns ajustes.

Foi aí que entrou o engenheiro agrônomo Júlio Maestri, da equipe técnica do Cepagro. “Nossa participação consistiu em conhecer o modelo que já faziam de compostagem; contribuir na formação da equipe, retomando alguns princípios da técnica e sugerindo aprimoramentos”, afirma Júlio. Qualificando a compostagem, inclusive esteticamente, será possível apresentá-la como um dos eixos de atividades da Fazenda, avalia Júlio.

“Para Fazenda Bananal, assim como todos os empreendimentos  que pertencem ao Grupo Biophilia, o turismo é utilizado como uma ferramenta para inspirar pessoas e fortalecer o elo ser humano e natureza”, afirma Nadja Oliveira, coordenadora de Projetos Sustentáveis do Grupo. A Fazenda conta com um restaurante e recebe resíduos orgânicos também de uma pousada de Paraty, pertencente ao mesmo grupo, totalizando cerca de 3 toneladas ao mês. A compostagem já era feita no modelo de leiras estáticas, com a separação dos resíduos na fonte e utilizando bombonas. Mas alguns ajustes eram necessários. Para isso, Júlio trabalhou durante dois dias com as equipes de manutenção e gerência da Fazenda, sugerindo e realizando aprimoramentos no processo, no intuito de visibilizar a compostagem como componente nas ações agroecológicas disseminadas na Fazenda.

“Nossa infraestrutura é focada na redução de impactos ambientais. Buscamos trabalhar com tecnologias ecoeficientes, como por exemplo:  energia solar, captação de água da chuva, equipamentos com baixo consumo energético, gestão eficiente de resíduos”, afirma Nadja. A compostagem vem somar neste processo. “A transformação que buscamos no meio ambiente e na sociedade só será possível através da mobilização de diversos agentes. Por este motivo acreditamos na conservação integrada, onde através de parcerias, desenvolvemos projetos relacionados à valorização e recuperação do biodiversidade bioma Mata Atlântica, em que estamos inseridos”, completa. 

Gestão de Resíduos e Compostagem movimentam o 2º semestre do projeto “Educando e Transformando com a Horta em São José”

Aprender a separar os resíduos, entender que cascas de frutas e sobras de comida podem ser transformadas em adubo, compreender o ciclo do alimento. Esses foram alguns dos passos dados pelo projeto Educando e Transformando com a Horta, apoiado pelo Instituto MRV, durante o segundo semestre de 2020. As atividades foram realizadas com estudantes da Escola Santa Terezinha e Escola do Mar, ambas da Rede Municipal de São José, de forma não presencial, através de vídeo-aulas e materiais impressos. Mesmo com a pandemia, foi possível promover a educação agroecológica através do projeto.

“Antes de iniciarmos a prática de compostagem, fizemos um longo caminho ao aprender a separar os resíduos, estudamos a importância da separação e a destinação correta de cada resíduos, e as implicações que a geração de lixo acarreta na nossa sociedade”, conta a agrônoma Karina Smania de Lorenzi, responsável pelas atividades. “Já na segunda etapa, as aulas  trataram de ensinar sobre o ciclo da compostagem, sua importância, onde fazer, tipos de compostagem e seu funcionamento, para no final, realizar um passo a passo da montagem de uma composteira”, completa.

Mesmo a distância, as crianças aplicaram esses conhecimentos na prática, construindo uma mini-composteira em garrafa PET – o plástico transparente da garrafa possibilita ver o processo de decomposição dos alimentos. A agrônoma deixou insumos como palha e serragem disponíveis nas escolas. As crianças levaram os materiais pra casa, montaram a composteira e ainda fizeram os registros, compartilhando fotos e vídeos. “Depois de realizada a montagem foi feita uma aula virtual ao vivo, no qual os alunos puderam tirar suas dúvidas”, conta Karina.

E a mini-composteira fez sucesso com os/as estudantes. “O que eu mais gostei foi fazer a composteira e ver como funcionou. E como conseguia acompanhar a decomposição da matéria orgânica”, conta João Miguel Broch Freire, do 5º ano. “Achei legal. Aprendi que com simples objetos podemos fazer uma composteira e ter adubo para colocar nas plantas, ajudando o meio ambiente de uma forma ecológica”, completa. 

O estudante Vitor Moraes, também do 5º ano, já conhecia a compostagem de casa. “Aqui na minha casa e do meu avô Batista a gente sempre recicla o lixo. Meu vô sempre fez a compostagem, que ele bota na horta dele”, relata, mostrando ainda mais entusiasmo por montar sua própria composteira. E lembra que “Se todo mundo cuidasse do seu lixo, o mundo seria bem melhor”.  

Como aconteceu em 2020, para 2021 as atividades terão que ser repensadas em virtude da pandemia. Enquanto isso, as videoaulas estão sendo publicadas no canal do Cepagro no Youtube, para que outras escolas e educadores possam utilizá-las: https://bit.ly/transformandocomahorta“. 

CEPAGRO