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Cepagro participa na articulação de rede agroalimentar com LACAF-UFSC e Slow Food

Durante o Encontro de Construção de Mercados realizado na última 5ª feira (28 de junho) no Centro de Ciências Agrárias da UFSC, o Cepagro esteve presente para colaborar na construção de uma rede agroalimentar que articula ações e atores sociais em torno da produção, comercialização e abastecimento de alimentos bons, limpos e justos na Grande Florianópolis. A atividade integra o Projeto Alimentos Bons, Limpos e Justos, coordenado pelo Laboratório de Comercialização da Agricultura Familiar da UFSC em parceria com o Movimento Slow Food, com apoio da Secretaria Especial da Agricultura Familiar e Desenvolvimento Agrário (SEAD/UFSC) e é uma continuação do Seminário realizado em abril deste ano que teve o mesmo foco: construção social de mercados. Do Cepagro, participaram Erika Sagae e Eduardo Rocha, técnicos do projeto Consumidorxs e Agricultorxs em Rede (apoiado pela Misereor) e integrantes da Rede Semear Floripa de Agricultura Urbana e do Conselho Municipal de Segurança Alimentar e Nutricional e Sustentável de Florianópolis, respectivamente. O técnico da Epagri de Major Gercino Remy Simao e a presidente do Sindicato de Trabalhadores Rurais do município Marlene Fuck também compareceram, assim como a assessora Letícia Barbosa, do gabinete do vereador Marquito (PSol), além de estudantes e militantes do Movimento Slow Food.

A rede busca atender uma demanda de articular produtores e consumidores de alimentos, assim como organizações e entidades de apoio. “A gente percebe que de um lado o produtor não tem relação mais direta com consumidor, que por sua vez não percebe a dificuldade que é pro alimento chegar à cidade”, explica Erika Sagae. Apesar de ainda estar em construção, já tem alguns princípios norteadores, como:

  • Mercados solidários, circuitos curtos, valorização dos produtos da socioagrobiodiversidade e dos produtos locais;
  • valorização da produção artesanal e extrativistas;
  • valorização dos alimentos bons, limpos e justos
  • mapear atores que poderiam se integrar à rede.

As Fortalezas e Comunidades do Alimento Slow Food marcaram presença na mesa do café preparado por Fabiano Gregório, da Aliança de Cozinheiros Slow Food.  Receitas dos Engenhos de Farinha, suco de butiá do Litoral Catarinense e queijo colonial da Comunidade do Diamante, junto com frutas orgânicas e pão de fermentação natural, deixaram o encontro mais saboroso.

Como próximos passos, as entidades participantes do encontro – principalmente Cepagro, LACAF e Slow Food – irão colaborar no mapeamento de atores públicos e ações que podem ser desenvolvidas no contexto da rede. “A ideia é identificar o que as organizações já fazem e quais os potenciais de trabalho conjunto e quais pautas devem ser priorizadas”, explica Eduardo Rocha, do Cepagro. Uma dessas ações já vem sendo desenvolvida no âmbito do projeto Consumidorxs e Agricultorxs em Rede, realizado pelo Cepagro e outras três organizações do Sul do Brasil e que tem o objetivo de desenvolver processos de formação e articulação entre os vários elos da cadeia de consumo de alimentos agroecológicos. O gabinete do vereador Marquito também vem desenvolvendo um mapeamento de iniciativas de comercialização de alimentos agroecológicos em Florianópolis, visando à publicação dessas informações numa plataforma virtual e interativa.

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Bons, limpos, justos e informais: desafios e oportunidades de comercialização de alimentos agroecológicos são debatidos em Florianópolis

O Seminário de Construção de Mercados para Alimentos Bons, Limpos e Justos na Região Sul do Brasil aconteceu nos dias 17 e 18 de abril, em Florianópolis, reunindo 60 pessoas para discutir estratégias de mercado para a agricultura familiar e suas articulações com o Movimento Slow Food. 

 

“É como se a gente estivesse vendendo drogas”. A comparação feita pelo produtor de queijos coloniais Valdir Magri, de Seara (SC, foto acima) remete às restrições sanitárias à produção e comercialização de queijos coloniais e artesanais, que colocam a atividade à beira da ilegalidade. “Não podemos vender nossos queijos nas feiras, nada que esteja sem rótulo. Querem aplicar para nós as mesmas regras que valem para as grandes indústrias”, afirma Valdir.

A sanção da Lei n° 17.486, de 16/01/18, que regulamenta a produção e comercialização de queijos artesanais de leite cru, representa um avanço na flexibilização da fiscalização para esses produtos, sendo conseguida com intensa mobilização dos produtores, mas que ainda precisa ser dialogada com a Vigilância Sanitária. Outro passo importante foi a criação a Fortaleza do Queijo Colonial de Leite Cru de Seara, programa do Movimento Slow Food que buscar visibilizar, defender e fortalecer a cadeia produtiva de alimentos tradicionais que correm risco de extinção – seja por fatores ambientais ou por questões de legislação.

Assim como o queijo de leite cru, a farinha de mandioca artesanal e alimentos oriundos do extrativismo – como o pinhão e o butiá – enfrentam os desafios da informalidade e das restrições sanitárias para sua produção e comercialização. Encontrar alternativas e articular oportunidades de superar esses obstáculos foram alguns dos objetivos do Seminário de Construção de Mercados para Alimentos Bons, Limpos e Justos na Região Sul do Brasil, realizado nos dias 17 e 18 de abril em Florianópolis.

O evento faz parte do Projeto Alimentos Bons, Limpos e Justos, resultado da parceria entre Secretaria Especial da Agricultura Familiar, Movimento Slow Food e Universidade Federal de Santa Catarina, através do Laboratório de Comercialização da Agricultura Familiar (LACAF). O Cepagro participou através do Projeto Misereor em Rede, voltado para a articulação de consumidores. “Nosso objetivo é continuar fortalecendo essas articulações, a partir da troca de experiências, visando à participação ativa de consumidorxs na Rede Ecovida”, afirma Erika Sagae, da equipe do Cepagro/Misereor em Rede.

“A ideia é debater e trazer encaminhamentos sobre como esses grupos podem dialogar com a demanda, de forma direta e tendo acesso a mercados diversificados”, explica Valentina Bianco, representante do Slow Food Internacional. “As Fortalezas Slow Food fazem parte desse processo, desse caminho, pois fomentam a articulação em torno do alimento, promovendo sua qualificação e procurando sua regularização ou incidindo na mudança de leis inapropriadas para as produções artesanais, aumentando seu potencial de mercado”, completa.

Cerca de 60 pessoas participaram do Seminário, entre agricultores e agricultoras, consumidorxs, equipes técnicas de secretarias e empresas de extensão rural, estudantes, cozinheirxs e comerciantes dos três estados do Sul. Quatro Fortalezas Slow Food de Santa Catarina estiveram representadas: Queijo Colonial de Leite Cru de Seara, Engenhos de Farinha, Pinhão e Butiá, além da Comunidade do Alimento do Queijo Colonial do Diamante. Agricultores e agricultoras, extrativistas e produtores das fortalezas tiveram a oportunidade de compartilhar diretamente com o público as dificuldades e estratégias para seguir com suas atividades.

A informalidade dos mercados, restrições sanitárias e ambientais e a desvalorização do caráter artesanal e extrativista dos alimentos foram alguns dos principais desafios apontados.

A cadeia produtiva do pinhão envolve centenas de famílias extrativistas na região da Serra Catarinense. “Mas o principal mercado é a beira de estrada e quem colhe é o agregado”, explica Alexandre Prada, da equipe técnica do projeto. A cooperativa ECOSERRA é um dos pontos de apoio da cadeia, que também tem que lidar com questões como o manejo das araucárias, extremamente restrito pela legislação ambiental. A falta de pesquisa sobre logística e conservação do pinhão também dificulta sua comercialização mais formal, de acordo com Carolina Couto Waltrich, da equipe técnica do Centro Vianei de Educação Popular, que assessora famílias extrativistas.

Questões parecidas são enfrentadas pelas famílias da Fortaleza do Butiá, localizada entre os municípios de Garopaba, Imbituba, Laguna, Jaguaruna e Pescaria Brava, no litoral sul de Santa Catarina. A falta de valorização da polpa nos mercados também é uma dificuldade: “Não tem como comparar o preço de uma polpa dessas com uma coca-cola ou suco industrializado. Isso é um alimento que tem história e preservação ambiental embutidos”, explica Antônio Augusto dos Santos, da Fortaleza do Butiá.

Assim como as queijarias coloniais, os engenhos de farinha artesanais sofrem com as exigências sanitárias – artefatos em inox, azulejos nas paredes, banheiros e vestiários – para continuarem suas atividades sem perder a tradicionalidade. A agricultora Catarina Gelsleuchter tem um engenho em Angelina movido a roda d’água, onde continua produzindo farinha e outros derivados da mandioca. A comercialização desses alimentos, entretanto, continua sendo informal, já que o engenho não se adapta ao modelo imposto pela legislação sanitária. Além disso, é difícil competir com o preço da farinha industrializada. Para Catarina, a criação de um selo especial para produtos artesanais e tradicionais pode ser uma alternativa para certificá-los e garantir seu preço justo.

Alternativas de mercado pautadas pela lógica do consumo consciente representam um canal importante para a comercialização de alimentos bons, limpos e justos. Algumas dessas experiências participaram do Seminário, como a Coopet, cooperativa de consumidores que existe há 20 anos em Torres (RS). A cooperativa é formada por 100 famílias de sócios-consumidores, que pagam R$ 35 por mês e compram alimentos agroecológicos a preço de custo. A taxa de R$ 35 serve para cobrir os custos de manutenção da sede da cooperativa.

A articulação e organização entre consumidorxs para comercialização de alimentos agroecológicos diminui a presença de atravessadores na cadeia comercial, garantindo melhor preço para agricultorxs e mais envolvimento por quem consome, além de mudanças nos hábitos alimentares. Uma dessas iniciativas é a da Comunidade que Sustenta a Agricultura, surgida na Alemanha nos anos 1920 e chegada a Florianópolis em 2016. A ideia é que haja uma planilha aberta de custos de produção, que são compartilhados entre consumidores e produtores. Na iniciativa apresentada durante o Seminário, um casal de agricultores de Águas Mornas produz e entrega semanalmente 22 cestas agroecológicas (a capacidade de produção deles é para até 40 cestas). O planejamento de produção é feito de acordo com a sazonalidade dos alimentos, a gestão administrativa e financeira do empreendimento é toda compartilhada e cada membro paga uma cota mensal para compartilhar os custos de produção, que vão de R$ 130 a R$ 200 por mês (dependendo dos alimentos comprados).

Também iniciada em 2016, a Célula de Consumo Responsável da UFSC é um arranjo de venda direta de alimentos orgânicos que resulta de uma articulação do Laboratório de Comercialização da Agricultura Familiar. “Nasce a partir da necessidade de agricultorxs de acessarem mercados mais justos e de consumidorxs terem acesso a melhores alimentos”, explica Isadora Escosteguy, mestranda em Agroecossistemas e membra da Célula. Dois grupos de agricultores da Rede Ecovida de Agroecologia fornecem alimentos para a célula, que já distribui semanalmente 100 cestas. As cestas variam entre R$ 29 (com 4,5kg de alimentos) e R$ 53 (com 13 itens, 9 kg de alimentos).

De acordo com Erika Sagae, da equipe Cepagro/Misereor em Rede, essas articulações de consumidores organizados é essencial para desatar os nós de logística enfrentados pela agricultura familiar agroecológica. “No Seminário ficou claro novamente que é importante ter aproximação entre consumidor e produtor, além de conscientização de consumidores a partir de espaços como feiras e oficinas”, afirma. Avançar na comunicação visual dos alimentos da Fortaleza foi outra demanda posta no Seminário. Como encaminhamento, Cepagro, LACAF e Slow Food vão analisar as demandas elencadas durante o evento para seguir criando estratégias em rede pra aproximação de consumidorxs e produtorxs.

 

 

Conferência constrói propostas para Segurança Alimentar e Nutricional em Florianópolis

por Fernando Angeoletto / Cepagro (texto e fotos)

A centralidade do alimento nas discussões globais é um dos reflexos para as projeções que apontam, para 2050,  o nascimento do décimo bilionésimo habitante do Planeta Terra. Diante dos desafios de garantir o direito universal ao alimento a este expressivo contingente, ofertando-lhes comida de verdade e cumprindo as agendas de minimizar os impactos ao ambiente, diversos debates e iniciativas são realizados em escala mundial – da ecogastronomia ao ressurgimento de mercados locais, passando pelo enfrentamento aos alimentos transgênicos e a formulação de políticas públicas, ainda que tímidas, para a ampliação das práticas agroecológicas em territórios de agricultura familiar.
Embora com atraso, já que somos a única capital brasileira ainda não aderida ao SISAN, na última semana Florianópolis realizou um importante passo como articuladora local desta política pública, construída há mais de uma década, que insere a temática da Segurança Alimentar e Nutricional (SAN) em um processo intersetorial e dialogado com a sociedade civil. Através da III Conferência Municipal, o município utilizou o recém-criado COMSEAS (Conselho Municipal de Segurança Alimentar e Nutricional Sustentável) para realizar um diálogo ampliado  e a construção de propostas, alinhadas em 3 eixos temáticos, que serão encaminhados ao Executivo local.

O recém-criado COMSEAS empenhou-se na organização da Conferência
O recém-criado COMSEAS empenhou-se na organização da Conferência

Como palestrante convidado a discutir o tema central da Conferência – “Comida de Verdade no Campo e na Cidade, por Direitos e Soberania Alimentar” – o Mestre em Agroecossistemas e presidente do CONSEA/SC Marcos José de Abreu esclarece que a conceituação de SAN, e seu conseqüente entendimento sobre segurança, deve estar menos relacionado a aspectos sanitaristas e mais preocupado com a garantia ao Direito Humano à Alimentação Adequada (DHAA). “Nesta vida pós-moderna, onde a demanda por equipamentos como restaurantes e lanchonetes para se alimentar torna-se um a necessidade crescente, muitas vezes o simples fatos de ter alimentos frescos e poder cozinhar em casa já configura esta ‘Comida de Verdade’”, ilustra.

O presidente do CONSEA/SC defende que o conceito de segurança deve estar atrelado ao DHAA
O presidente do CONSEA/SC defende que o conceito de segurança deve estar atrelado ao DHAA

Em que pese ainda o aspecto da segurança do alimento, Marcos enfatiza que o verdadeiro vilão é o agrotóxico, e que poderíamos ter uma lei para banir seu uso em todo o município. Considera ainda fundamental a discussão de SAN na perspectiva de um território bem peculiar, dadas as dimensões e restrições de circulação da parte insular, onde concentra-se mais de 90% do município de Florianópolis. “A gestão de resíduos orgânicos faz parte deste olhar intersetorial. Não podemos seguir jogando fertilidade no lixo, para depois mandar tudo a um aterro com alto custo econômico e ambiental”, defende ele, relacionando a prática da compostagem ao potencial para amplificar a agricultura urbana e o acesso a alimentos frescos. Espelhando-se em exemplos locais de reconhecida eficiência, como a Revolução dos Baldinhos, este discurso já transcende o que seria um horizonte longínquo e incorporou-se ao propósito de gestores locais, conforme defendeu recentemente o presidente da COMCAP, Marius Bagnatti, em ampla reportagem sobre o tema publicada no Jornal Notícias do Dia.

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A Comida de Verdade servida no evento, composta por matérias primas locais e agroecológicas, fluiu com o toque do chef Fabiano Gregório e ativistas locais do movimento Slow Food

Ao concluir suas rodadas de discussões e formulação de propostas, que serão disponibilizadas em breve, a III Conferência Municipal homologou também as candidaturas de delegados à V Conferência Estadual de SAN, que acontecerá em agosto.

 

 

Engenhos de Farinha: a expressão do Patrimônio Agroalimentar no litoral catarinense

Resultado de uma fusão de saberes e técnicas guaranis e açorianas, os Engenhos Artesanais de farinha de mandioca de Santa Catarina vêm enfrentando desafios para manter sua identidade e modos de fazer tradicionais transmitidos através das gerações em mais de dois séculos de história. De restrições sanitárias para a produção aos impactos da urbanização acelerada em algumas regiões do estado, várias são as pressões sofridas por este complexo agrícola e cultural. Ainda assim, os engenhos continuam rodando, seja como núcleos de educação patrimonial ou como unidades produtivas.

Articulados em rede e apoiados pelo Ponto de Cultura Engenhos de Farinha, estes espaços vêm sendo reavivados com práticas agroecológicas, vivências culturais e turismo de base comunitária. Um exemplo é o processo de certificação participativa da Rede Ecovida, do qual alguns “engenheiros” fazem parte, que além de assegurar a qualidade orgânica dos alimentos produzidos nas propriedades, fortalece e mobiliza o coletivo de agricultores familiares. Outra estratégia é a realização de atividades educativas nos engenhos, que sensibiliza as novas gerações para a importância da preservação dos saberes e sabores dos engenhos.

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Mapa de visitação dos Engenhos – Clique para ampliar

Complementando este desenhar de soluções criativas para a preservação deste patrimônio agroalimentar, o turismo de base comunitária vem se consolidando como uma ferramenta importante para a manutenção da sustentabilidade dos engenhos. Mais do que o simples consumo de paisagens, produtos e serviços, a atividade apresenta-se como uma oportunidade para visitantes e visitados compartilharem vivências culturais e gastronômicas. Visitar um engenho é saborear as histórias de iguarias como o beijú, a bijajica e o cuscus, as técnicas e tradições, ritos e rituais que circulam junto com as engrenagens. É compreender a importância do trabalho destes agricultores familiares para a segurança alimentar da população, contribuindo para o fortalecimento desta rede e preservação desta (agri)cultura. E ainda desfrutar de cenários diversos, que vão das belas praias da costa catarinense e sua tradição açoriana aos vales do interior, onde a influência germânica e italiana é mais presente.

Atenção: Para visitar os Engenhos, é fundamental fazer agendamento (vide contatos no mapa acima).

 

 

Com a presença de 130 países, maior evento de ecogastronomia do mundo começa nesta semana

A Rede Catarina une-se hoje à delegação brasileira do Slow Food para embarcar à Itália rumo ao Salone del Gusto / Terra Madre, o maior evento de ecogastronomia do mundo. Nesta edição, o evento é alusivo ao ano internacional da Agricultura Familiar e com foco na Arca do Gosto, um catálogo com produtos da sociobiodiversidade de todos os continentes que, embora com potencial produtivo e comercial, correm risco de extinção.

O Cepagro participa com 3 representantes, com estande e articulações do Convivium Engenhos de Farinha, assentos nas conferências de Agricultura Urbana e Certificação Participativa e produção de pautas sobre as matérias-primas e personagens da Arca do Gosto para publicações nacionais. Uma realizadora audiovisual irá documentar em vídeo a participação da Rede Catarina no evento, que acontece de 23 a 27 de outubro em Turim com a presença de mais de 1.000 expositores de 130 países. Do território catarinense, compõem o leque da feira a farinha polvilhada, a bijajica, o pinhão, o butiá e as vieiras nativas de Porto Belo. Chefs do Convivium Mata Atlântica apresentarão ao público os produtos, em receitas feitas na hora acompanhadas de alguns processados inéditos, como a cerveja de pinhão e o doce-de-corte de butiá.

De salmão a cuscus paulista temperados com rap, Disco Xepa esbanjou bons pratos e muita solidariedade

texto e fotos: Fernando Angeoletto

É preciso ressignificar a Xepa. Tirar dela qualquer conotação ruim. A Xepa só é xepa porque ignoramos seu valor, pois é sempre mais fácil mandar o que sobra pra longe, pra virar problema em lixão.

cartaz-disco-xepa-baldinhos_webEngana-se quem imagina que, ao levantar alimentos descartados pelo mercado às alturas de um verdadeiro banquete, os ativistas que realizam a Disco Xepa estejam “apenas” enchendo barrigas. Entre cores e cheiros e sabores de uma mesa posta por dezenas de mãos solidárias, multiplica-se o recado de que desperdiçar comida é dar as costas para a fome, jogar a água (escassa) pelo ralo, aumentar a demanda por energia com colossais projetos que cada vez mais dizimam povos e florestas . Ou alguém ainda dúvida que é a alimentação uma das mais impactantes atividades humanas, num mundo onde a população se multiplica exponencialmente e cada vez mais se agrupa em cidades, cimentando o solo que é base da vida?

A Disco Xepa é o nome abrasileirado da “Schnippel Disco”, ou Disco Sopa, concebida na Alemanha. Em diversas partes do mundo, o evento é organizado pela Rede Jovem Slow Food, trazendo o gás e a força da moçada em situar o alimento em sua amplitude de significados, do mais prosaico agricultor orgânico ao mais complexo fluxo da matéria entre o campo e a mesa, gerando perdas e problemas. No ano passado, a ideia aportou no Brasil, e em 2014 mais de 20 Discos Xepas foram realizadas em território nacional.

Philipe, o "Tocha"
Philipe, o “Tocha”

Aqui, a Disco Xepa Revolução dos Baldinhos teve o apoio institucional do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (CONSEA/SC), questionando o mito propagado pela indústria de agroquímicos de que “é preciso produzir mais”, já que, segundo a própria FAO, 30% de todo alimento produzido no planeta é desperdiçado.

Dentre tantas cabeças e mãos jovens empenhadas em preparar, a partir de sobras, o banquete contabilizado para 1.000 pessoas, destaca-se o Tocha. Philipe Belletini é o nome deste jovem gastrônomo, cuja perfil profissional tem vínculo estreito com a agricultura familiar que é uma de suas raízes.  Foi ele o principal articulador de toda a logística, das matérias-primas à organização do voluntariado, responsável pelo sucesso do evento.

DSC_1966Entram aí muito empenho e amor, e também humildade, que o rapaz tem de sobra. Humildade que é em essência o húmus – eis aí outro elemento abundante nesta Disco Xepa, realizada em plena Comunidade Chico Mendes, que tem provado ao mundo o valor de transformar “lixo” no mais rico composto orgânico. Dentre as oficinas que aconteceram no evento – de temperos à base de ervas, produção de sabão com óleo usado e clube de trocas – a de Agricultura Urbana compartilhou o know how da Revolução dos Baldinhos com os convidados.

DSC_2073As matérias-primas do banquete, preparado por mais de 15 voluntários (chefs, nutricionistas, estudantes e membros da própria comunidade), foram viabilizadas pela parceria com o Instituto Nutrir, que funciona na Ceasa da Grande Florianópolis redesenhando o caminho das sobras, ao direcioná-las a organizações filantrópicas e famílias carentes. Para preparar o menu, os chefs tiveram também carcaças de salmão, resultado da “febre” dos restaurantes de sushi que só usam os filés, além de cabeças de outros peixes e camarões, doados por peixarias e restaurantes. Quem articulou a Xepa marinha foi a chef Bel Hagemann, proprietária do Boteco Zé Mané, que segue à risca o conceito Slow Food em seu restaurante – boa parte do cardápio é estrelada por ingredientes tradicionais do território, como o berbigão, o pinhão, a farinha polvilhada e o butiá.

DSC_2115O resultado, do almoço ao café da tarde, foi: xuxu com caldo de camarão, “mocozadinho” de purê de batata com cobertura de salmão desfiado, cuscus paulista, tortas de legumes, purê da terra (com vários tipos de batatas), purê de abóbora, diversos tipos de salada, sucos verde, de goiaba e de mamão e geleia de maçã. A hora da bóia iniciou-se com a montagem de uma enorme mesa em plena rua, que com a surpresa de uma pancada de chuva em poucos minutos foi trasladada para dentro do galpão, sem no entanto abaixar a moral de anfitriões e visitantes.

Komay MC
Komay MC

Durante as oficinas, enormes “pula-pula” infláveis e mesas de jogos fizeram a festa da criançada. Os brinquedos foram oferecidos pela Ação Comunitária do SESC/SC. Já o ambiente “Disco” desta Xepa esteve na responsa do Komay MC, autor do famoso Rap dos Baldinhos, em que a temática ambiental eternizou-se na música de rua de Floripa.  Além de lançar seu recente Cd “Me chamam de Boss”, Komay trouxe vários manos pro palco. Prova de que aqui não só a Xepa, mas também a cultura, são bens compartilhados.

Veja também: Disco Xepa na RIC/Record

Dia Mundial da Alimentação é marcado por eventos do CONSEA

Marcos José de Abreu, coordenador urbano do Cepagro e presidente do CONSEA/SC (Conselho de Segurança Alimentar e Nutricional de SC), participou ao vivo do Programa Bom Dia SC na RBS pra falar sobre o encontro realizado em seguida alusivo ao Dia Mundial da Alimentação. O evento foi aberto ao público e organizado também pela CAISAN/SC (Câmara Insterministerial de Segurança Alimentar e Nutricional de SC) e o CRN10 (Conselho Regional de Nutricionistas Décima Região).

Em sua fala enfatizou também a Disco Xepa, uma interação entre os chefs Slow Food e a Agricultura Urbana para conscientização sobre o desperdício de alimentos que acontece no próximo sábado (18/10). Clique na imagem para ver o vídeo.

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