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Cepagro participa de Feira de Sementes Crioulas no Paraná

Realizada nos dias 31 de agosto e 1 de setembro em São João do Triunfo (PR), a 16ª Feira Regional das Sementes Crioulas e da Agrobiodiversidade recebeu mais de 4 mil visitantes para conhecer as 120 bancas de guardiões e guardiãs de sementes, além de artesanato e alimentos agroecológicos. A maioria dos grupos expondo sementes eram do Paraná, mas marcaram presença também Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Paraíba e Mato Grosso do Sul. O Cepagro participou através do projeto apoiado pela Misereor, levando um grupo de consumidores/as, produtores/as, feirantes e agricultore/as urbanos/as para intercambiar experiências e saberes sobre a riqueza da agrobiodiversidade representada pelas sementes. “Foi uma experiência riquíssima aproximar consumidorxs desse universo das sementes, pra entendermos o que significa proteger sementes crioulas e disseminar seu cultivo no processo produtivo, fazendo frente à indústria da alimentação e agronegócio. É importante pra gente entender a diversidade e variedade de sementes que tem e como estamos à mercê de indústria de alimentos que padroniza o acesso, os sabores e a relação que temos com alimento”, avalia Eduardo Daniel da Rocha, da equipe Cepagro/Misereor.

“Nunca tinha vindo numa feira com uma variedade de sementes tão grande. Com tantas experiências, pessoas preocupadas com não agrotóxicos e com a saúde, com alimento mais saudável”, conta a consumidora-produtora Isamara Thomas de Quadros, da Enseada do Brito, que estava na delegação de Floripa mobilizada pelo Cepagro. Outro estreante em Feiras de Sementes Crioulas era o agricultor Juliano Alexandre dos Santos, de Águas Mornas: “Antes de vir pra cá, pensei: ‘se eu conseguir um milho crioulo, já fico satisfeito”. Mas foi muito mais do que isso”, conta. Juliano é agricultor orgânico e já vem buscando sementes e mudas orgânicas para qualificar sua produção, que ele comercializa em feiras na Grande Florianópolis. Ele também cria animais para o consumo da família e “não ficava tranquilo de dar milho transgênico pra eles”, afirma. Além das inúmeras variedades de milho, ele trouxe da Feira sementes de hortaliças crioulas que ele nem sabia que existia, alimentos processados para revender na sua feira, material didático sobre manejo de sementes crioulas… “Quase enchi o bagageiro inteiro da van”, brinca o agricultor. “E claro, o conhecimento: em cada stand, com cada guardião a gente adquire uma bagagem riquíssima”, completa.

Somente no acervo da AS-PTA, organizadora da Feira, são 256 variedades crioulas de milho, feijão, adubos verdes, hortaliças, arroz, café, amendoim, mostarda e outros grãos. E as Feiras são o grande momento de troca e circulação dessas variedades, além do enriquecimento dos bancos locais. “A maioria das entidades não têm muitas pessoas na equipe, dependemos de financiamento. Então nas Feiras conseguimos catalogar com cada agricultor/a o que está sendo exposto, toda a diversidade de alimentos cultivados pela agricultura familiar”, conta André Emílio Jantara, da AS-PTA Palmeira, organizadora do evento. André conta que a ideia das Feiras regionais surgiu com um grupo de mulheres no ano 2000. “Elas sentaram numa comunidade e cada uma levou as sementes que tinham para fazer a troca entre elas. Só ali já tinha mais de 100 variedades de sementes. Daí surgiu a ideia das Feiras Municipais, depois as Feiras Regionais e assim foi aumentando o número de guardiões de sementes”.

Autonomia das grandes empresas e adaptação às práticas de cultivo agroecológicas que diminuem o custo de produção são algumas das vantagens do uso das sementes crioulas apontadas por agricultores e agricultoras. “Tem um custo mais acessível, porque além de eu não precisar comprar a semente, ela também aceita adubo orgânico, esterco de galinha e os resíduos orgânicos que eu uso pra adubar”, afirma a agricultora e guardiã de sementes Maria Vanderléia Barbosa, da comunidade Rio Baio, de São João do Triunfo. Ela participa da COAFTRIL (Cooperativa Mista Triunfense de Agricultores e Agricultoras Familiares) e veio para a Feira com diversas variedades de milho, feijão, gila, mostarda. “É uma tradição, né. É uma coisa boa, pura, saudável, sem veneno. O sabor é outro. Então a gente não quer perder”, afirma a agricultora.

O agricultor e estudante Mateus Gelinski, de 19 anos, avalia que “Além da independência das grandes produtoras de semente transgênicas, temos mais variabilidade e melhor custo benefício”. Mateus também acrescenta que “O jovem tem papel fundamental na preservação das sementes, porque é ele que vai manter as futuras gerações. Tem variedades que meu pai planta há mais de 30 anos, se a gente não seguir com isso, elas vão se acabar”, completa. André Jantara concorda: o envolvimento da juventude no trabalho de resgate, conservação e multiplicação de sementes é primordial. “O foco está nas escolas, com a juventude, com aqueles que estão na propriedade com os pais ainda. Esses são nossos guardiões mirins”, afirma.

Na programação da Feira, além da grande troca de sementes, aconteceram também oficinas e o I Seminário de Consumo Consciente e Alimentação Saudável, com o professor Rubens Nodari (UFSC) e o engenheiro Manuel Delafoulhouze, do Centro Paranaense de Referência em Agroecologia (CPRA). Delafoulhouze trouxe reflexões sobre a dinâmica de distribuição centralizada de alimentos e seu impacto negativo na qualidade da nossa alimentação. Buscando fazer um contraponto, o CPRA media grupos de Comunidades que Sustentam a Agricultura (CSA), proposta de comercialização que compartilha custos e responsabilidades da produção entre agricultorxs e consumidorxs, aproximando esses elos da cadeia. Só na Grande Curitiba, o CSA articula entre 40 a 50 grupos de consumidorxs, que recebem alimentos de mais de 1000 famílias de agricultorxs.

Abordando inicialmente os já conhecidos reveses dos monocultivos – sobretudo transgênicos – no Brasil e no mundo (aumento da contaminação por agrotóxicos, diminuição da população de insetos polinizadores e maior vulnerabilidade agrícola), Nodari ressaltou a contribuição que o público urbano pode ter para resgatar a dignidade dos agricultores e agricultoras: consumindo alimentos agroecológicos. Para Nodari, se considerarmos a qualidade superior desses alimentos, veremos que não são tão caros como se diz. Além disso, a diversidade de cultivos postulada pela Agroecologia é a melhor barreira contra pragas.

A agricultora Angelice Dias Barbosa conhece na prática a diferença dos alimentos agroecológicos. Tendo trabalhado como confeiteira e salgadeira durante vários anos, Angelice passou a trabalhar na agricultura agroecológica em 2016, quando conheceu seu companheiro, Celson José Chagas. Vivendo e trabalhando no Assentamento Contestado, na Lapa (PR), Angelice conta que “eu achava que conhecia sabor, mas era sabor artificial. Hoje é o sabor natural. Tenho tomate com sabor de verdade. Brócolis e alface antes era borracha, hoje é algo suculento, sem veneno. Hoje eu posso usar numa receita o morango orgânico do companheiro que é nosso vizinho e planta. Conheci trigo orgânico, saí do veneno. Hoje me orgulho disso”.

O companheiro de Angelice, Celson, tem mais experiência no trabalho com sementes crioulas. Ele conta que, junto com os Núcleos Maria Rosa da Anunciação e Maurício Burmester da Rede Ecovida de Agroecologia, o Assentamento Contestado vem fomentando esse trabalho para “ter mais sustentabilidade e soberania na questão da semente. A gente participa também da Casa da Semente e vem tentando resgatar o conhecimento sobre as sementes crioulas de hortaliças”, afirma. “A ideia é vender de agricultor para agricultor. Temos 10 famílias produzindo sementes no Assentamento, além de outras 20 em Palmeira. Fazemos também o melhoramento genético dessas sementes”, completa. “Hoje não dá pra falar em Agroecologia sem falar de semente. Primeiro para seu consumo, depois na comunidade do entorno e, se possível, para outros agricultores da região”.

Uma participação mais do que especial na Feira foi do povo Guarani-Kaiowá junto com assentados da Reforma Agrária que vieram na delegação do Mato Grosso do Sul, articulados pela Universidade Federal do Mato Grosso do Sul. “Começamos a plantar semente que não era nossa e fomos perdendo nossos alimentos. Mas estamos resgatando e agora até os fazendeiros procuram nossas sementes. Pra nós isso é uma grande soberania. Pois isso é vida, alimento saudável. Hoje temos DAP e vendemos  mandioca, batata doce, abacate e moranga nas escolas da reserva indígena”, conta Edite Martins Guarani, da Aldeia Jaguaperu, localizada na Terra Indígena de Dourados.

Na cultura Guarani-Kaiowá, o manejo dessas sementes é especial, pois conta com tecnologias espirituais, como conta Anastácio Peralta, também da TI Dourados: “A semente pra nós tem alma, tem vida. Hoje quem manda é o trator, o veneno. Isso mata o ser humano, a natureza, os microrganismos. Mas nós trabalhamos com tecnologias espirituais. O solo é batizado, a semente também. Fazemos reza para chamar a chuva. Como a planta tem vida e alma, temos que rezar pra ela sempre ir e voltar”.

 

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Feira de Sementes reúne 3 mil pessoas no Paraná

Cerca de 3 mil pessoas, entre agricultores e agricultoras, estudantes, técnicos/as e ativistas da Agroecologia participaram da 15ª Feira Regional de Sementes Crioulas e da Agrobiodiversidade e 1ª Festa dos Guardiões de Sementes, realizada nos dias 11 e 12 de agosto no município de Teixeira Soares, no Paraná. O Cepagro esteve presente através de uma articulação do Projeto Misereor em Rede, com um grupo formado pela educadora Maria Dênis Schneider, da diretoria e equipe técnica da organização, junto com Letícia Barbosa e David Soares, membros de coletivos de Agricultura Urbana de Florianópolis, além da estudante de agronomia Camila Tavares.
 De acordo com Maria Dênis, “A Feira teve grande presença e participação de agricultoras e agricultores que são as guardiãs e guardiões das sementes da vida”. Ela conta que na tarde do dia 11 as escolas do município de Teixeira Soares visitaram a Feira. “Os estudantes questionaram muito sobre cada semente e levaram algumas pra casa pra suas famílias plantarem”, relata Maria Dênis.
O Cepagro levou sementes de girassol, arroz cateto, milho cunha, feijão rosa, feijão guandu e soja orgânica, oriundas do grupo Semente Puras da Comunidade Luz Figueira, no interior de Minas Gerais. Dênis conclui que “Foram 2 dias muito intensos de grandes aprendizados com as guardiãs e os guardiões de sementes. Em cada troca de sementes, em cada diálogo, éramos brindadas com muitos ensinamentos de cuidados para com a terra e com as sementes”.
com informações e fotos de Maria Dênis Schneider
Veja mais fotos do encontro abaixo e na fanpage do Coletivo Triunfo.

Cepagro participa de evento de sementes crioulas no Uruguai

A 5ª Fiesta Nacional de La Semilla Criolla y la Agricultura Familiar, promovida pela Red Nacional de Semillas Nativas y Criollas e a Comisión Nacional de Fomento Rural do Uruguai, aconteceu no Valle Edén, próximo à cidade de Tacuarembó, entre os dias 12 a 14 de abril. A convite da organização e com apoio do Curso de Agronomia da UFSC, os engenheiros agrônomos Júlio Maestri e Javier Bartaburu e os estudantes de agronomia Renato Trivella e Nicolas Zaslavsky, do Cepagro, participaram do evento, onde avaliaram a possibilidade de concretizar parcerias para potencializar o trabalho da instituição em áreas diversas, como produção e sementes orgânicas, hortas escolares e gestão de resíduos urbanos e rurais.

Da esquerda para direita: Renato, Nicolás, Javier e Julio, representantes do Cepagro na 5ª Fiesta de la Semilla Criolla
Da esquerda para direita: Renato, Nicolas, Javier e Júlio, representantes do Cepagro/UFSC na 5ª Fiesta de la Semilla Criolla

A Red Nacional de Semillas Nativas y Criollas é parte do programa de Resgate e Revalorização de Sementes Crioulas e Soberania Alimentar, desenvolvido pelas organizações REDES – Amigos de la Tierra e Asociación de Productores Orgánicos del Uruguay (APODU) (atualmente desarticulada), Centro Regional Sur (CRS) da Facultad de Agronomía da Universidad de la República – Uruguay e a Fundación Pereira, da Argentina. A rede existe desde 2004 e nucleia hoje 140 propriedades familiares organizadas em 21 Grupos Locais, envolvendo mais de 200 produtores e produtoras em 12 departamentos.

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A Rede Nacional de Sementes Crioulas do Uruguai existe desde 2004 e hoje reúne mais de 200 produtores e produtoras.

A equipe do Cepagro realizou um intenso trabalho durante os três dias do evento. Além de colaborar na organização do evento e participar de palestras e oficinas, os técnicos estabeleceram bases para futuras parcerias com a Faculdade de Agronomia do Uruguai e o seu Programa de Hortas Escolares, com a cooperativa de produção de sementes Bionatur e com o movimento de descendentes de Charrúas do Uruguai, entre outros. Também montaram um stand para divulgação das atividades do Cepagro na Feira de Troca de Sementes, onde houve um rico intercâmbio com agricultores, técnicos e demais participantes do evento, bem como a realização de entrevistas com figuras importantes da Red Nacional de Semillas Nativas y Criollas.

Stand do Cepagro na Feira de Troca de Sementes
Stand do Cepagro na Feira de Troca de Sementes