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Cepagro cultiva parceria com a comunidade Guarani Mbya, em Major Gercino

A cerca de 100 km de Florianópolis, a Aldeia Tekoá V’yá (Aldeia Feliz) é agora mais um ponto de parada do Cepagro. Há pouco mais de três meses, a comunidade Guarani Mbya, de Major Gercino, vem cultivando relações com o Cepagro, a partir de uma apresentação do técnico da Epagri, Remy Simão, que mediou o contato entre o Cacique Artur Benites e Charles Lamb, técnico da equipe do rural do Cepagro.

As lideranças da aldeia já vinham se mostrando interessadas pela produção orgânica e agroecológica ao comparecerem em reuniões com agricultores da região ligados à Rede Ecovida de Agroecologia. Depois de algumas conversas, o Cepagro identificou que a horta coletiva era uma demanda da comunidade e a primeira ação dentro da aldeia resultou em um mutirão para implementá-la.

Seguindo a tradição do calendário agrícola Guarani, a atividade aconteceu no dia 9 de agosto, mês que representa o início para um novo ciclo de plantio das hortaliças, amendoins e, principalmente, do milho. De lá pra cá a horta já serviu para alimentar a comunidade, que conta com 28 famílias e cerca de 120 moradores. O espaço também envolveu atividades da escola com a crianças que, de tempos em tempos, se juntam para cuidar dos canteiros.

Questionado sobre as plantas medicinais cultivadas na horta, o líder espiritual e Cacique Artur Benites conta que “na verdade, toda a verdura que está ali é um remédio para todos os problemas que existem no corpo. Às vezes o problema é nos ossos, às vezes no sangue, no pulmão, coração, visão e para isso tudo a horta serve. Pra quem não sabe, pensa que é só para comer. Mas não, tudo o que é de comer é remédio: pepino, salsa, cebola, alho. Eu tô comendo salada, então estou cada vez mais forte”, conta a liderança que pretende seguir o passo dos avós e passar dos 100 anos de idade.

Além de garantir alimentos para a comunidade, a horta agroecológica já rendeu novas ações. Charles Lamb conta que a partir dela “começou a se construir uma relação de maior integração e identificação de outras demandas que a comunidade tinha, como a participação em feiras para comercializar o artesanato e a melhoria no plantio de grãos”. Em sua rede, o Cepagro conseguiu então sementes de milho crioulo dos próprios agricultores da Rede Ecovida da região, como  Antonio Gilmar Cognacco, de Leoberto Leal, que produziu sementes que serão cultivadas na Tekoá V’yá.

Além do mutirão, houve uma viagem até a Reserva Indígena Coxilha da Cruz, no Rio Grande do Sul, para buscar sementes do milho Avati, variedade tradicional Guarani. E a participação de moradores da comunidade na feira festiva do CCA, na Universidade Federal de Santa Catarina.

A ações realizadas até agora na Aldeia Tekoá V’yá têm tido suporte provenientes do projeto Saberes na Prática em Rede (Inter-American Foundation), e Ministério Público do Trabalho, via TACs (Termo de Ajustamento de Conduta), este último, possibilitará tanto a compra de equipamentos e ferramentas para a lavoura, como a melhoria dos insumos para fortalecer a produção de alimentos para a comunidade. “Essa é uma característica bem interessante da comunidade, que tem como prioridade produzir alimentos agroecológicos, alimentos sem veneno para atender as mais de 100 pessoas que hoje residem na Tekoa V’yá”, conta o técnico Charles Lamb.

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Envolvimento e integração comunitários: Horta do Ribeirão da Ilha já dá seus primeiros frutos

A semente da Horta Comunitária do Centro de Saúde do Ribeirão da Ilha, região sul de Florianópolis, já estava plantada há alguns anos. “Alguns funcionários traziam mudinhas e foram plantando. Com envolvimento do Cepagro, da Epagri, além da participação de servidores e da comunidade nas oficinas de alimentação saudável e compostagem, a vontade foi crescendo”, conta a dentista Carla Antoni Luchi, coordenadora do CS. No último sábado,  7 de julho, foi o momento de ver os primeiros brotos daquela semente: após alguns mutirões e oficinas, a Horta do Centro de Saúde do Ribeirão da Ilha foi finalizada. Cerca de 20 pessoas, entre moradores/as, comissão municipal de Agricultura Urbana (FLORAM, COMCAP e Secretarias da Saúde e Agricultura), equipe do Centro de Saúde e do Cepagro, participaram da atividade, em que os canteiros foram montados e preenchidos com palhada e composto e as primeiras mudas de verduras e ervas medicinais foram plantadas. Mesmo antes da primeira colheita, a Horta já rendeu frutos importantes como o envolvimento e a integração comunitários.

O Cepagro esteve presente nesta atividade através do projeto Misereor em Rede, que subsidiou a vinda do engenheiro ambiental Pedro Ocampos Palermo para facilitar uma oficina de montagem de espiral de ervas. Também participaram membros do curso de Agroecologia e consumidorxs do projeto. “À medida que íamos fazendo a horta, também discutíamos segurança alimentar e nutricional, consumo, sustentabilidade”, explica Erika Sagae, vice-diretora do Cepagro e que também é da equipe do projeto. De acordo com Erika, a temática das hortas comunitárias num projeto com foco em dinâmicas de consumo de alimentos agroecológicos vem no sentido do “estímulo à produção para autoconsumo, promovendo também uma conscientização com as pessoas sobre rever de onde vem seu alimento, seja plantando ou comprando de produtorxs agroecológicxs”.

A assistente social Raquel Solange de Souza é uma das participantes do Projeto Misereor em Rede e também vem participando da Horta Comunitária do Ribeirão. “Moro aqui na comunidade há anos e nunca tinha visto as pessoas tão felizes e incentivadas em prol de um único objetivo”, afirma. Para ela, os frutos da horta incluem, além de uma alimentação mais saudável, “que a comunidade possa interagir, plantar, trocar conhecimentos na hora do plantio e repassá-los, propiciar boas experiências na vida das pessoas”. O envolvimento da comunidade é fundamental para a continuidade da Horta: “o pessoal estava ali pra plantar mas já planejando outro encontro, como seria a manutenção da horta ao longo da semana, quem iria regar, colocar casca de ovo pra espantar insetos”, conta.

Raquel destaca também a importância das plantas medicinais na horta. Carla, da coordenação do CS, concorda: “Nossa ideia é incentivar o consumo de plantas medicinais pra ter mais saúde com uso menor de medicamentos”. Ela também notou o compromisso da comunidade com a horta como um dos seus primeiros resultados positivos. “E este é um espaço público, que é da comunidade. Agora, esperamos que cada vez mais pessoas possam se envolver e participar, pra que possamos ver isso retornar em saúde pra nossa comunidade”, afirma.

Erika ressalta o apoio do SESC Santa Catarina e da COMCAP à Horta, com a doação de composto e cepilho, além do empresariado local, com alguns materiais. Maricultores do Ribeirão da Ilha também aportaram com cascas de ostras, que ajudaram na elevação dos canteiros e possivelmente disponibilizarão calcário para a terra.

 

 

Oficina de horta agroecológica no CRAS Capoeiras mobiliza comunidade

Na manhã desta quinta-feira, 14 de junho, o Cepagro realizou uma oficina de horta agroecológica no Centro de Referência em Assistência Social (CRAS) do bairro Capoeiras, em Florianópolis. A oficina foi uma ação do projeto Misereor em Rede, que trabalha a segurança alimentar e nutricional voltada para os consumidores, e foi facilitada pelos agrônomos Karina Smania de Lorenzi e Ícaro Pereira, da equipe de Agricultura Urbana do Cepagro.

A atividade se dividiu em três momentos: apresentação, reconhecimento do entorno e montagem da horta. Na roda de apresentação, os facilitadores explicaram um pouco sobre a dinâmica de uma horta, como o melhor posicionamento em relação ao sol e quais os nutrientes necessários para que as plantas se desenvolvam.

Em seguida, as/os 18 participantes caminharam em torno do CRAS prestando atenção nas plantas que crescem no terreno e coletando mudas para montar a horta. A psicóloga do CRAS Capoeiras, Alvira Bossy, ficou surpresa com a quantidade de Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANCs) que crescem no terreno. “Eu ia pedir pra roçar tudo achando que era capim”, conta. Ela também pensou em jogar fora tocos de madeira e galhos que, no fim, foram usados para montar a horta em espiral.

Depois do reconhecimento das plantas que crescem no terreno e de trocas de receitas, foi a vez de colocar a mão na terra. Com tocos de madeira e tijolos usados, a horta foi tomando forma. O cepilho e a terra adubada vieram logo em seguida, como alimento para as mudas. Entre flores, hortaliças e temperos, a horta ganhou forma, cor e cheiro.

Convidado pelas funcionárias do CRAS, Policarpo Neto, morador do bairro Capoeiras, se interessou pela oficina e trouxe algumas mudas para contribuir com a horta. Ele tem horta em casa onde cultiva e se alimenta de hortaliças orgânicas. Com a oficina aprendeu algumas técnicas que não conhecia, “eu estou tendo problemas com borboletas na minha horta, agora eu aprendi como fazer para espantar”, conta.

Os Centros de Referência em Assistência Social possuem alguns eixos de atuação e um deles é o de fortalecimento de vínculos. Para a psicóloga do CRAS Capoeiras, Lilian Budag Becker, a horta dentro do CRAS tem justamente a função de fortalecer os vínculos de convivência, não só do centro com a comunidade, mas entre os próprios moradores. Para o Diretor Presidente do Cepagro, Eduardo Rocha, ter uma horta nesse ambiente é benéfico porque não trabalha somente a questão alimentar, mas a interação entre as pessoas. “A conversa ao redor da horta não é somente sobre o plantar, mas sobre tudo o que envolve o alimento, como memórias de infância, por exemplo”.

Mais hortas serão construídas no local: “a ideia é que seja uma oficina permanente onde grupos de moradores e de outras instituições possam colaborar com a manutenção da horta”, explica Lilian. A psicóloga contou ainda que, às vezes, as pessoas vêem o espaço público como um local abandonado, e a horta traz a ideia de que os cidadãos também podem contribuir com o cuidado e manutenção desses espaços.

Por fim, a vice-presidenta do Cepagro, Erika Segae, agradeceu a participação dos presentes e a parceria com a Comcap e o Sesc que contribuíram com materiais para a oficina.

Cepagro trabalha em rede com formação de consumidoras e consumidores

No final de semana de 19 e 20 de maio, o Cepagro participou da primeira etapa do Curso de Formação Consumo Consciente e Responsável e Agroecologia , realizada em Palmeira (PR) pela AS-PTA. A atividade faz parte do projeto Consumidorxs e Agricultorxs em Rede, apoiado pela Misereor e que articula Cepagro, AS-PTA e também CETAP (RS) e Centro Vianei de Educação Popular (SC).  

texto: AS-PTA
fotos: Margareth MacQuade

O curso foi realizado na comunidade Witmarsum, em Palmeira (PR), e reuniu cerca de 60 pessoas, entre jovens consumidores, agricultores e assessores técnicos.

No primeiro dia o evento, as primeiras atividades realizadas foram focadas no debate sobre a Agrobiodiversidade, em especial no uso e na conservação das sementes crioulas. Nesse momento, foram tratados temas como o resgate das sementes crioulas, avaliação do uso em sistemas agroecológicos, multiplicação, armazenamento, importância feiras de sementes e o risco da contaminação por transgênicos, principalmente no caso do milho. Trabalho que a AS-PTA vem animando junto ao Grupo Coletivo e a Rede Sementes da Agroecologia na Região Centro Sul do Paraná e Planalto Norte Catarinense.

O debate foi bastante rico, com muitos depoimentos dos participantes sobre o tema, almoço e café agroecológicos e ainda a participação da Banda Mãe Terra de Mandirituba, que compõe músicas voltadas a agroecologia, contribuindo para o enriquecimento do encontro e animação dos participantes.

 

 

No segundo dia, o grupo pode vivenciar uma atividade prática na propriedade da família de Cleonice e Silvio Sluzars, na comunidade de Paiol do Fundo. A família Sluzars pratica agroecologia há mais de 20 anos, produzindo alimentos saudáveis, em especial as hortaliças. Em sua apresentação contaram sobre a trajetória de mudança no sistema produtivo, passando a produzir diversas espécies de hortaliças e a multiplicar próprias sementes. Mas o depoimento o principal foi a mudança de qualidade de vida que tiveram após deixarem de produzir no sistema convencional. Hoje a família vive a partir da comercialização direta de seus produtos a consumidores, principalmente da entrega de “sacolas agroecológicas”, das feiras agroecológicas e da entrega de alimentos em mercados locais e restaurantes. Para encerrar a visita os participantes puderam saborear o almoço agroecológico oferecido pela família com todos os alimentos produzidos na propriedade, mostrando que existem várias formas de produzir sem agredir a natureza, favorecer a saúde e consumir alimentos saudáveis agroecológicos.

Essa atividade é uma ação do Projeto Consumidores e Agricultores em Rede, numa parceria AS-PTA Agricultura Familiar e Agroecologia, Centro Vianei de Educação Popular de Lajes- SC, Centro de Tecnologias Alternativa Populares de Paso Fundo-RS (CETAP) e Centro de Estudo e Promoção de Agricultura de Grupo de Florianópolis-SC (CEPAGRO) e tem o apoio da Misereor. O Curso de Formação terá mais três etapas a serem realizadas até o final de 2019. Em outubro o Centro Vianei sediará a próxima etapa.

 

Semana do Alimento Orgânico movimenta feiras do Núcleo Litoral Catarinense da Rede Ecovida

Nos dias 25 e 26 de maio (6ª e sábado), feiras orgânicas em Florianópolis, Garopaba e Imbituba têm programação especial.

Celebrando 4 anos de atuação pela alimentação saudável e apoio à agricultura familiar agroecológica, a FEIRA ORGÂNICA CCA terá a presença de vários grupos de Agroecologia da Rede Ecovida, trazendo alimentos, experiências e sementes para trocar com o público. Haverá também um saboroso CAFÉ AGROECOLÓGICO (traga sua caneca!), além do sorteio de uma cesta de alimentos orgânicos.

Neste mesmo dia também haverá EDIÇÃO ESPECIAL DA FEIRA ORGÂNICA DE GAROPABA, pra quem está mais ao sul do litoral! Roda de conversa com agricultor@s agroecológic@s, degustação de alimentos e distribuição de materiais vão rechear a programação da feira, que acontece das 8h ao meio-dia ao lado da Rodoviária de Garopaba.

E no sábado, dia 26 de maio, é a vez de IMBITUBA celebrar o Alimento Orgânico e Agroecológico, na feira ORGÂNICOS IMBITUBA, que acontece na Av. 3 de Outubro, no centro da cidade. Nesta manhã agroecológica haverá também conversa com  agricultor@s agroecológic@s, degustação de alimentos e distribuição de materiais.

Cepagro participa na articulação de PAA na Grande Florianópolis

Na última quarta-feira, 9 de maio, Erika Sagae e Eduardo Rocha, da diretoria do Cepagro, participaram da reunião para fechar a proposta que a Cooperativa Sabor da Terra, de Biguaçu, apresentará à Companhia Nacional de Abastecimento (CONAB) para conformar um Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) que irá abastecer os equipamentos da rede sócio assistencial e de segurança alimentar e nutricional de Florianópolis. “Foram acertados detalhes como a quantidade de alimentos que serão ofertados, a tabela de preços que a CONAB pratica na modalidade Compra com Doação Simultânea, entre outros”, explica Eduardo Rocha, diretor-presidente do Cepagro e também presidente do Conselho Municipal de Segurança Alimentar e Nutricional (COMSEAS/FPOLIS). A Cooperativa Sabor da Terra reúne 25 famílias de agricultores e agricultoras, sendo 9 agroecológicas.

O PAA é um dos principais programas de fortalecimento de mercados para agricultura familiar e de ampliação de acesso a alimentos saudáveis para a população em situação de Insegurança Alimentar e Nutricional. Em Florianópolis, o último contrato de PAA finalizou em 2011. Para esta proposta, em que o Cepagro e o COMSEAS participaram ativamente na construção, a demanda chegou ao CONSEA (Conselho Estadual de Segurana Alimentar e Nutricional) pela população em situação de rua. A proposta foi aprovada em Plenária Extraordinária do Conselho Municipal de Assistência Social – CMAS, que participará no controle social junto com o COMSEAS. A participação do Cepagro atende também aos objetivos do projeto Misereor em Rede.

Além da discussão sobre a proposta, que também foi apresentado o projeto de pesquisa Políticas Públicas, Mercados Institucionais e Agricultura Urbana e Periurbana, do LABRURAL/UFSC, que conta com apoio da Capes. De acordo com Erika Sagae, doutoranda ligada ao projeto, estão previstas entrevistas e a realização de mapeamentos de agricultorxs urbanos e periurbanos em 5 municipios da Grande Florianópolis. “Com a pesquisa, poderemos levantar dados de produção, área e capacidade de produção de agricultores periurbanos pra entrar em mercados institucionais”, explica Erika.

Bons, limpos, justos e informais: desafios e oportunidades de comercialização de alimentos agroecológicos são debatidos em Florianópolis

O Seminário de Construção de Mercados para Alimentos Bons, Limpos e Justos na Região Sul do Brasil aconteceu nos dias 17 e 18 de abril, em Florianópolis, reunindo 60 pessoas para discutir estratégias de mercado para a agricultura familiar e suas articulações com o Movimento Slow Food. 

 

“É como se a gente estivesse vendendo drogas”. A comparação feita pelo produtor de queijos coloniais Valdir Magri, de Seara (SC, foto acima) remete às restrições sanitárias à produção e comercialização de queijos coloniais e artesanais, que colocam a atividade à beira da ilegalidade. “Não podemos vender nossos queijos nas feiras, nada que esteja sem rótulo. Querem aplicar para nós as mesmas regras que valem para as grandes indústrias”, afirma Valdir.

A sanção da Lei n° 17.486, de 16/01/18, que regulamenta a produção e comercialização de queijos artesanais de leite cru, representa um avanço na flexibilização da fiscalização para esses produtos, sendo conseguida com intensa mobilização dos produtores, mas que ainda precisa ser dialogada com a Vigilância Sanitária. Outro passo importante foi a criação a Fortaleza do Queijo Colonial de Leite Cru de Seara, programa do Movimento Slow Food que buscar visibilizar, defender e fortalecer a cadeia produtiva de alimentos tradicionais que correm risco de extinção – seja por fatores ambientais ou por questões de legislação.

Assim como o queijo de leite cru, a farinha de mandioca artesanal e alimentos oriundos do extrativismo – como o pinhão e o butiá – enfrentam os desafios da informalidade e das restrições sanitárias para sua produção e comercialização. Encontrar alternativas e articular oportunidades de superar esses obstáculos foram alguns dos objetivos do Seminário de Construção de Mercados para Alimentos Bons, Limpos e Justos na Região Sul do Brasil, realizado nos dias 17 e 18 de abril em Florianópolis.

O evento faz parte do Projeto Alimentos Bons, Limpos e Justos, resultado da parceria entre Secretaria Especial da Agricultura Familiar, Movimento Slow Food e Universidade Federal de Santa Catarina, através do Laboratório de Comercialização da Agricultura Familiar (LACAF). O Cepagro participou através do Projeto Misereor em Rede, voltado para a articulação de consumidores. “Nosso objetivo é continuar fortalecendo essas articulações, a partir da troca de experiências, visando à participação ativa de consumidorxs na Rede Ecovida”, afirma Erika Sagae, da equipe do Cepagro/Misereor em Rede.

“A ideia é debater e trazer encaminhamentos sobre como esses grupos podem dialogar com a demanda, de forma direta e tendo acesso a mercados diversificados”, explica Valentina Bianco, representante do Slow Food Internacional. “As Fortalezas Slow Food fazem parte desse processo, desse caminho, pois fomentam a articulação em torno do alimento, promovendo sua qualificação e procurando sua regularização ou incidindo na mudança de leis inapropriadas para as produções artesanais, aumentando seu potencial de mercado”, completa.

Cerca de 60 pessoas participaram do Seminário, entre agricultores e agricultoras, consumidorxs, equipes técnicas de secretarias e empresas de extensão rural, estudantes, cozinheirxs e comerciantes dos três estados do Sul. Quatro Fortalezas Slow Food de Santa Catarina estiveram representadas: Queijo Colonial de Leite Cru de Seara, Engenhos de Farinha, Pinhão e Butiá, além da Comunidade do Alimento do Queijo Colonial do Diamante. Agricultores e agricultoras, extrativistas e produtores das fortalezas tiveram a oportunidade de compartilhar diretamente com o público as dificuldades e estratégias para seguir com suas atividades.

A informalidade dos mercados, restrições sanitárias e ambientais e a desvalorização do caráter artesanal e extrativista dos alimentos foram alguns dos principais desafios apontados.

A cadeia produtiva do pinhão envolve centenas de famílias extrativistas na região da Serra Catarinense. “Mas o principal mercado é a beira de estrada e quem colhe é o agregado”, explica Alexandre Prada, da equipe técnica do projeto. A cooperativa ECOSERRA é um dos pontos de apoio da cadeia, que também tem que lidar com questões como o manejo das araucárias, extremamente restrito pela legislação ambiental. A falta de pesquisa sobre logística e conservação do pinhão também dificulta sua comercialização mais formal, de acordo com Carolina Couto Waltrich, da equipe técnica do Centro Vianei de Educação Popular, que assessora famílias extrativistas.

Questões parecidas são enfrentadas pelas famílias da Fortaleza do Butiá, localizada entre os municípios de Garopaba, Imbituba, Laguna, Jaguaruna e Pescaria Brava, no litoral sul de Santa Catarina. A falta de valorização da polpa nos mercados também é uma dificuldade: “Não tem como comparar o preço de uma polpa dessas com uma coca-cola ou suco industrializado. Isso é um alimento que tem história e preservação ambiental embutidos”, explica Antônio Augusto dos Santos, da Fortaleza do Butiá.

Assim como as queijarias coloniais, os engenhos de farinha artesanais sofrem com as exigências sanitárias – artefatos em inox, azulejos nas paredes, banheiros e vestiários – para continuarem suas atividades sem perder a tradicionalidade. A agricultora Catarina Gelsleuchter tem um engenho em Angelina movido a roda d’água, onde continua produzindo farinha e outros derivados da mandioca. A comercialização desses alimentos, entretanto, continua sendo informal, já que o engenho não se adapta ao modelo imposto pela legislação sanitária. Além disso, é difícil competir com o preço da farinha industrializada. Para Catarina, a criação de um selo especial para produtos artesanais e tradicionais pode ser uma alternativa para certificá-los e garantir seu preço justo.

Alternativas de mercado pautadas pela lógica do consumo consciente representam um canal importante para a comercialização de alimentos bons, limpos e justos. Algumas dessas experiências participaram do Seminário, como a Coopet, cooperativa de consumidores que existe há 20 anos em Torres (RS). A cooperativa é formada por 100 famílias de sócios-consumidores, que pagam R$ 35 por mês e compram alimentos agroecológicos a preço de custo. A taxa de R$ 35 serve para cobrir os custos de manutenção da sede da cooperativa.

A articulação e organização entre consumidorxs para comercialização de alimentos agroecológicos diminui a presença de atravessadores na cadeia comercial, garantindo melhor preço para agricultorxs e mais envolvimento por quem consome, além de mudanças nos hábitos alimentares. Uma dessas iniciativas é a da Comunidade que Sustenta a Agricultura, surgida na Alemanha nos anos 1920 e chegada a Florianópolis em 2016. A ideia é que haja uma planilha aberta de custos de produção, que são compartilhados entre consumidores e produtores. Na iniciativa apresentada durante o Seminário, um casal de agricultores de Águas Mornas produz e entrega semanalmente 22 cestas agroecológicas (a capacidade de produção deles é para até 40 cestas). O planejamento de produção é feito de acordo com a sazonalidade dos alimentos, a gestão administrativa e financeira do empreendimento é toda compartilhada e cada membro paga uma cota mensal para compartilhar os custos de produção, que vão de R$ 130 a R$ 200 por mês (dependendo dos alimentos comprados).

Também iniciada em 2016, a Célula de Consumo Responsável da UFSC é um arranjo de venda direta de alimentos orgânicos que resulta de uma articulação do Laboratório de Comercialização da Agricultura Familiar. “Nasce a partir da necessidade de agricultorxs de acessarem mercados mais justos e de consumidorxs terem acesso a melhores alimentos”, explica Isadora Escosteguy, mestranda em Agroecossistemas e membra da Célula. Dois grupos de agricultores da Rede Ecovida de Agroecologia fornecem alimentos para a célula, que já distribui semanalmente 100 cestas. As cestas variam entre R$ 29 (com 4,5kg de alimentos) e R$ 53 (com 13 itens, 9 kg de alimentos).

De acordo com Erika Sagae, da equipe Cepagro/Misereor em Rede, essas articulações de consumidores organizados é essencial para desatar os nós de logística enfrentados pela agricultura familiar agroecológica. “No Seminário ficou claro novamente que é importante ter aproximação entre consumidor e produtor, além de conscientização de consumidores a partir de espaços como feiras e oficinas”, afirma. Avançar na comunicação visual dos alimentos da Fortaleza foi outra demanda posta no Seminário. Como encaminhamento, Cepagro, LACAF e Slow Food vão analisar as demandas elencadas durante o evento para seguir criando estratégias em rede pra aproximação de consumidorxs e produtorxs.