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Cepagro inicia ciclo de rodas de conversa sobre segurança alimentar no CRAS Continente II

Fome: condição que voltou a assombrar quase 20 milhões de pessoas no Brasil no final do ano passado. Num cenário de desmonte de políticas públicas que assegurem esse direito básico à população – o direito à alimentação adequada – o que as comunidades mais periféricas e vulneráveis podem fazer para combater a fome? E o que esperam e precisam que o Estado faça para combater a fome de alimentos e também de direitos? Foi com perguntas assim que iniciou-se o ciclo de formações cidadãs da iniciativa Ação Solidária COVID 19, com sua primeira roda de conversa realizada no dia 24 de agosto, no CRAS CONTINENTE II, Capoeiras.

O primeiro encontro teve como tema “FOME, MISÉRIA E ALIMENTAÇÃO – O QUE É FOME PRA VOCÊ?”. Facilitada por uma equipe multidisciplinar resultante da parceria entre Cepagro e o projeto TearSan (Teia de Articulação pelo Fortalecimento da Segurança Alimentar e Nutricional), da UFSC, a roda de conversa teve a presença de lideranças comunitárias dos territórios da Chico Mendes, Vila Aparecida e Capoeiras, além de representantes de cozinhas comunitárias e da ASA Florianópolis (Ação Social Arquidiocesana). A metodologia utilizada foi batizada de CIRCULAR: seu centro foi a roda de conversa, rodeada por varais com impressões dos/as participantes sobre o tema da FOME. “Estes varais ficam instalados nas cozinhas comunitárias e a comunidade interage por uma semana nestes materiais, com auxílio da ‘caixa de sementes'”, explica Isadora Escosteguy, facilitadora da equipe técnica do Cepagro.

Após os encontros serão compartilhados vídeos interativos que compõem a discussão do tema, cuja personagem principal é Marina, moradora do território em que se desenvolvem as atividades. “Essa metodologia está baseada na problematização de Paulo Freire, em que o ponto de partida é a realidade vivida nas comunidades”, explica a professora da TearSAN Neila Maria Viçosa Machado. Paralelamente, a dinâmica da #facilitaçãográfica ia criando um registro escrito e ilustrado das falas.

“A fome sempre esteve presente na comunidade e existe um apoio entre as pessoas para que a fome não seja agravada”, disse a jornalista Gloria Irulegui, moradora da Vila Aparecida, noção reforçada por Cíntia Cruz, liderança da Revolução dos Baldinhos, na Chico Mendes: “As comunidades não passaram e nunca vão passar por um isolamento social durante uma pandemia, pois as relações que as mantêm vivas são de proximidade entre os/as membros”, afirma.

A importância da articulação dentro e entre comunidades para combater a fome emergiu na roda de conversa, mas sem esquecer do papel do Estado e das políticas públicas de romper o ciclo de fome e miséria em que cada vez mais pessoas têm vivido. Neste sentido, é fundamental discutir a diferença entre assistencialismo e políticas públicas, de acordo com Eduardo Rocha, do Cepagro: “Enquanto o assistencialismo não emancipa, as políticas públicas que asseguram DIREITOS estão se esvaindo neste momento político que estamos. Sendo assim os espaços comunitários de apoio, como as cozinhas e o restaurante popular, são fundamentais. As organizações como a ASA e o CEPAGRO também se fazem necessárias e realizam seu trabalho nesse sentido”, afirma.

As formações cidadãs continuam nos próximos meses, trabalhando temas como fome, miséria e pandemia; fome, miséria e políticas públicas e direitos sociais. “No último encontro realizaremos a construção coletiva do mapa da comunidade identificando o acesso a direitos, tanto como a promoção e violação de SAN nos territórios”, completa Isadora. Esta ação complementa a distribuição de alimentos às cozinhas do ciclo inicial do Ação Solidária Covid 19. E é proporcionando esses espaços de diálogo e reflexão que vão se fortalecendo sujeitos/as “reivindicando direitos, reivindicando políticas públicas estruturantes que combatam as desigualdades sociais e econômicas e que assegurem a vida com qualidade de todos e para todos, todas e todes”, nas palavras da professora Neila.

Um ano de desafios e realizações: Cepagro publica Relatório de Atividades 2020

Com muita alegria compartilhamos nosso Relatório de Atividades 2020, que traz um panorama do nosso trabalho no ano que passou. Em 2020, os encontros e atividades presenciais coletivas, que tão bem definem a forma de atuar do Cepagro, tiveram de ser revistos e adaptados. A soma das crises sanitária, econômica e política decorrentes da pandemia da Covid-19 reorientaram o olhar da organização para demandas urgentes, como o combate à fome.

Desta forma, em 2020 o Cepagro realizou 9 projetos, atuando diretamente com 30 famílias agricultoras, 88 famílias indígenas e sensibilizando pelo menos outras 5 mil pessoas. Desenvolvemos ações em 14 municípios, 4 escolas, 3 aldeias indígenas, 1 Centro de Referência em Assistência Social e 6 cozinhas comunitárias. Articulamos a distribuição de 4,6 toneladas de alimentos agroecológicos para cozinhas comunitárias, que geraram cerca de 26.700 refeições para pessoas em situação de rua e vulnerabilidade social.

Tudo isso graças ao apoio e confiança de nossos financiadores, parceiros e de todo o público que acompanha e acredita em nosso trabalho de promoção da Agroecologia no campo e na cidade. Confira a versão completa do RELATÓRIO 2020 neste link.

Ação Solidária COVID 19 fecha ciclo de entregas com 10 toneladas de alimentos distribuídas

Entre outubro de 2020 e março de 2021, quase toda quarta-feira às 7h30 da manhã a engenheira agrônoma Isadora Escosteguy estava na sede do Cepagro, no campus Itacorubi da Universidade Federal de Santa Catarina. Sem atividades presenciais por conta da pandemia, o escritório da organização se transformou numa central de abastecimento agroecológico. Por ali passaram as 10 toneladas de alimentos adquiridos ao longo de 6 meses de 14 famílias agricultoras e do Circuito de Comercialização da Rede Ecovida de Agroecologia, de 2 cooperativas do Movimento dos/as Trabalhadores/as Rurais Sem Terra, além da aldeia equipe-cepagro-indo-entregar-alimentos-acao-covid-19guarani Tekoá Vy’á. Isadora pesava, contava e distribuía as mais de 20 variedades de alimentos de acordo com as demandas de 6 cozinhas comunitárias de Florianópolis. Isso tudo com outros companheiros e companheiras da organização, como o técnico agrícola Charles Lamb, a educadora do campo Erika Sagae, a jornalista Clara Comandolli, o administrador de empresas Eduardo Rocha e o engenheiro Rafael Beghini. A picape Cepagro era carregada com os pedidos e perto das 11h Isadora saía com o/a colega da semana para a rota de distribuição, passando pelo Centro, Bairro Monte Cristo, Vila Aparecida, Ribeirão da Ilha e Rio Vermelho.

WhatsApp Image 2020-10-09 at 19.54.42Essa era apenas uma parte da lida da Ação Solidária COVID 19, iniciativa de articulação entre campo e cidade para distribuição de alimentos junto a cozinhas comunitárias. Nos outros dias da semana, Isadora e Charles estavam em contato com as famílias agricultoras e cooperativas para organizar a entrega dos alimentos no Cepagro, pensar a produção para os próximos períodos, coletar as demandas das cozinhas. “Através do trabalho em rede, a AÇÃO SOLIDÁRIA COVID 19 coloca no debate o direito à alimentação adequada e saudável e a Segurança Alimentar das comunidades periféricas em Florianópolis. A ação aproxima o campo e a cidade por meio da promoção da agroecologia nos territórios. Acreditamos que o alimento de verdade é uma ferramenta transformadora para enfrentar momentos de crise, não só sanitária, mas também socio-cultural, ambiental e econômica”, afirma Isadora. 

WhatsApp Image 2020-11-30 at 17.09.23 (1)A iniciativa contou com apoio da Inter-American Foundation, sendo incluída no projeto LA 188, que o Cepagro desenvolve desde 2016, como uma ação emergencial para mitigação dos impactos da pandemia.  “Quando emergiu essa problemática da fome na pandemia, de imediato começamos a pensar estratégia de abastecer estruturas coletivas que estivessem distribuindo alimentos a família em situação de vulnerabilidade. E assim desenvolvemos, com parceiros institucionais, a Ação Solidária COVID 19”, explica Charles Lamb, articulador do projeto. “Por isso foi muito importante nosso histórico de articulação com famílias agricultoras da região e também no meio urbano, com diferentes coletivos que se organizaram”, completa.

Cozinhas comunitárias: espaços de resistência pelo alimento

IMG_3250Quando geridas por governos estaduais ou municipais, as cozinhas comunitárias são consideradas equipamentos públicos de Segurança Alimentar e Nutricional, assim como os bancos de alimentos e os restaurantes populares. Infelizmente, em Florianópolis, não temos nenhuma Cozinha Comunitária sob responsabilidade do Estado. O que temos é uma rede de cozinhas comunitárias solidárias – formadas por grupos de pessoas engajadas nos bairros da cidade – que se fortaleceram durante a pandemia, quando a fome ganhou proporções alarmantes.

Com diferentes dinâmicas e estruturas, elas têm levado alimento de qualidade para pessoas em situação de vulnerabilidade social. Sem recursos do poder público, elas vivem de doações e da boa vontade de seus voluntários/as tornando-se espaços de encontro, inclusão social e fortalecimento de vínculos comunitários.

122912893_1122454044840489_4374407563270142912_oUma das cozinhas que recebeu alimentos semanalmente é a Cozinha Mãe, que atua desde 2018 no bairro Monte Cristo. “Esse ano a gente viu aumento muito brusco do desemprego, da ausência do poder público, nenhuma cesta foi entregue na comunidade. Essa parceria com o Cepagro foi fundamental pra ter alimento de qualidade nesse momento tão delicado da pandemia. A Cozinha foi um ponto forte para trabalhar a fome na comunidade”, conta Cíntia Cruz, coordenadora da cozinha e presidente da associação 106455923_1645396385636523_6880441035056903941_nRevolução dos Baldinhos. “A cozinha comunitária tem esse poder de interceder, sensibilizar, cultivar e fortalecer as relações. A nossa atuação tem um poder muito grande de transformar de fato essas realidades, porque diante do abandono do poder público, essas ações estão conseguindo chegar diretamente em quem precisa. Fortalecer um espaço desses é fortalecer a base, porque a gente tem uma relação direta com as famílias da comunidade”, completa. 

IMG_3327Do outro lado da BR 1010, na Vila Aparecida, outra cozinha comunitária foi atendida pela Ação Solidária COVID 19. Inaugurada em junho de 2020, o dia 27 de junho, a cozinha comunitária do Centro de Integração Social Santa Dulce dos Pobres  tem o propósito de preparar e distribuir pelo menos 150 marmitas semanalmente aos moradores da comunidade da Vila Aparecida e da Maloca. A iniciativa tem o apoio e envolvimento de lideranças comunitárias, organizações da sociedade civil e voluntários, além da Ação Social Arquidiocesana. “são pessoas da comunidade que preparam os alimentos e distribuem para famílias da comunidade”, explica o  técnico de Projetos Sociais da ASA,  Luciano Leite da Silva Filho.

IMG_3356A Cozinha Solidária Ribeirão da Ilha foi outra iniciativa voluntária para atuar frente ao crescimento da fome na pandemia, distribuindo marmitas no Centro de Florianópolis e também em São José, sobretudo para população em situação de rua. Inicialmente atuando com doações de pessoas físicas, a equipe da cozinha viu uma oportunidade de fortalecer o trabalho com o aporte dos alimentos da Ação Solidária COVID 19. “Esses alimentos, além de maravilhosos por serem orgânicos na maioria das vezes, vieram num momento que as doações diminuíram muito. Foram muito importantes”, avalia Shira Maciel, culinarista e voluntária do projeto.

Segurança alimentar para além da cesta básica

WhatsApp Image 2021-02-11 at 17.32.02No percurso da Ação Solidária COVID 19, ficou evidente a diferencial de promover segurança alimentar pela Agroecologia, indo além da distribuição de cestas básicas. Isso porque, junto com os alimentos, chegam reflexões sobre segurança alimentar e o papel do estado na sua promoção. “O movimento agroecológico tem a oportunidade de falar de falta de comida, de dificuldade de abastecimento, de precariedade do duduabastecimento por parte do governo, mas trazendo junto o alimento saudável, adequado e socialmente justo. A Agroecologia tem essa potência: trazer o alimento e o abastecimento para a centralidade do combate a fome com qualidade alimentar, justiça social. Bem diferente de combater a fome somente com cestas básicas”, afirma Eduardo Rocha, diretor-presidente do Cepagro e que também atuou na equipe do projeto. 

Mesmo sabendo dos nossos limites enquanto organização da sociedade civil, e que o enfrentamento à fome passa fundamentalmente pela adoção de uma postura do Estado brasileiro de priorizar a segurança alimentar da população, fomentando e mantendo políticas públicas para que as pessoas voltem a ter pelo menos três refeições ao dia, acreditamos que essas micro iniciativas servem de exemplo de como a Agroecologia enquanto modo de produção e abastecimento é o melhor caminho para promover a segurança alimentar nas comunidades.

Fortalecendo a Segurança Alimentar também nas comunidades guarani

Assim como nas comunidades urbanas, no contexto rural e de povos e comunidades tradicionais a promoção da Segurança Alimentar preconizada pela AÇÃO SOLIDÁRIA COVID 19 vai além da distribuição de cestas básicas. No caso da aldeia guarani Tekoá Vy’á, em Major Gercino, o projeto envolve o estímulo à produção de alimentos agroecológicos que servem tanto às famílias da comunidade quanto das periferias urbanas, aonde chegam através da AÇÃO SOLIDÁRIA COVID 19. 

WhatsApp Image 2021-02-10 at 17.27.53Cultivada desde 2018, a parceria entre o Cepagro e a comunidade guarani trouxe aportes como mudas e sementes para agricultura, materiais para artesanato, participação das famílias em feiras para comercialização de seus produtos, além da promoção de práticas de conservação do solo.

A chegada da pandemia impactou a comunidade guarani, já que não era mais possível sair da aldeia para vender artesanato, uma das principais fontes de renda das famílias. Nesse momento, a produção de alimentos iniciada no ano anterior aliviou um pouco os efeitos dessas restrições, pois serviu para abastecer as famílias da aldeia e também serem comercializados, gerando renda.

Os guaranis forneceram para a AÇÃO SOLIDÁRIA COVID 19 cerca de 200 kg de batata doce, 150 kg de banana e 260 kg de feijão – tudo produzido sem agrotóxicos. Mudas e sementes conservadas pela agricultura familiar e movimentos sociais frutificaram no solo guarani, provendo alimentos de qualidade às periferias urbanas. O projeto também distribuiu o arroz do MST para as famílias guarani, fortalecendo sua base alimentar com um produto orgânico da reforma agrária.

Agricultura Familiar: cultivando a Segurança Alimentar da população 

WhatsApp Image 2020-11-30 at 17.20.01Responsável pela produção de 70% dos alimentos consumidos pelos/as brasileiros/as, durante a pandemia a agricultura familiar reforçou seu compromisso com a segurança alimentar. No âmbito da Ação Solidária COVID não foi diferente: para abastecer as cozinhas comunitárias, o CEPAGRO contatou grupos e cooperativas de agricultores/as familiares,  conectando campo e cidade com comida de verdade.

Dentre as iniciativas fornecedoras de alimentos estão a Rede Ecovida de Agroecologia, que reúne mais de 4 mil famílias agricultoras do Sul do Brasil. Para a Ação Solidária COVID, recebemos alimentos de 14 famílias da Rede. Além disso, compramos arroz orgânico da Cooperativa de Produção Agropecuária Nova Santa Rita (COOPAN-RS), ligada ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), maior produtor de arroz agroecológico da América Latina. Grande parte do feijão distribuído veio da CooperConstestado, de Fraiburgo (SC), também ligada ao MST.

bárbaraValorizar quem produz comida de verdade para a população, sobretudo num contexto de pandemia, também é promover a Agroecologia. E seguimos na luta para que essa valorização seja retomada em políticas públicas de apoio à agricultura familiar, às cozinhas comunitárias, aso equipamentos públicos de segurança alimentar. Do Assentamento Comuna Amarildo de Souza, um dos fornecedores de alimentos para a Ação Solidária, vem o indicativo desse caminho: “É necessário se organizar para se inserir nas tomadas de decisões políticas que favoreçam a Agroecologia e não o agronegócio. Nós somos beneficiados hoje pela nossa luta e podemos nos alimentar e também oferecer alimentos de qualidade para nossos consumidores e para projetos como da Ação Solidária”, afirma a agricultora e agrônoma Bárbara Ventura, assentada da Comuna. 

WhatsApp Image 2021-03-22 at 16.45.52 (1)Para favorecer essa discussão, a sequência da Ação Solidária COVID 19 será com formações cidadãs com as equipes das cozinhas, abordando temas como fortalecimento institucional, segurança e soberania alimentar e direito humano à alimentação adequada.

NOVAS REPRESENTAÇÕES DO COMSEAS TOMAM POSSE PARA O BIÊNIO 2021-2023

Em eleição realizada no dia 24 de março, o Cepagro manteve sua representação no Conselho Municipal de Segurança Alimentar e Nutricional Sustentável de Florianópolis (COMSEAS). A titular da cadeira, antes ocupada pelo Diretor-Presidente do Cepagro Eduardo Rocha, passa a ser a Engenheira Agrônoma Gisa Garcia, que dividirá a representação com a educadora do campo Giselle Miotto como suplente.

WhatsApp Image 2021-03-24 at 15.15.30 (1)A eleição foi realizada de forma virtual num Fórum Eletivo da Sociedade Civil. Em breve, serão eleitas a Presidência e a mesa diretiva do Conselho. No total, foram escolhidas 8 organizações da sociedade civil. Estão entre elas a Rede Com a Rua, o Conselho Regional de Nutricionistas da Décima Região, SESC Mesa Brasil, o Grupo Ilha Meiembipe da Rede Ecovida de Agroecologia, Associação dos Remanescentes do Quilombo Vidal Martins, Colônia de Pescadores Z11 e Movimento População de Rua, além do Cepagro.

O Cepagro tem representação no COMSEAS de Florianópolis desde a primeira gestão do Conselho, iniciada em 2014. Ao longo desses anos, foi possível levar para as discussões do Conselho as pautas da Agroecologia, da Agricultura Urbana e do Direito Humano à Alimentação Adequada e Saudável, bem como demandas colocadas por populações periféricas e povos e comunidades tradicionais, públicos com os quais a organização atua. Para Gisa Garcia, “é muito importante que não só continuemos realizando o controle social, mas que continuemos pautando a Agroecologia no processo de construção e consolidação de políticas públicas de Segurança Alimentar e Nutricional”.

Eduardo Rocha, que esteve ocupando a mesa diretiva do Conselho como 2ª secretário, lembra que em  2020, o COMSEAS teve participação importante na aprovação da lei da venda direta dos pescados que garantiu aos pescadores artesanais de Florianópolis a possibilidade de comercializar diretamente aos restaurantes. Outra frente importante foi a articulação do conselho na aprovação de duas propostas da agricultura familiar para o Programa Aquisição de Alimentos (PAA), urgente no contexto da pandemia

05O Restaurante Popular, tema que já vinha sendo discutido pelo Conselho em gestões anteriores, também ganhou força no ano passado com a campanha “Restaurante Popular em Florianópolis, já!”, lançada em conjunto com organizações e coletivos que debatem o tema da Segurança Alimentar e Nutricional (SAN) na capital catarinense. Como resultado da pressão popular, em dezembro a Câmara de Vereadores aprovou a inclusão de R$ 1 milhão na Lei Orçamentária Anual de 2021 para a instalação deste equipamento público de SAN. Para os próximos dois anos, este tema certamente continuará na lista de  prioridades do Comseas. 

Gisa Garcia afirma que “nesse momento de pandemia, é evidente a crescente insegurança alimentar da população e o Restaurante Popular, como um equipamento público de SAN, pode garantir o direito de todos e todas a uma alimentação adequada e saudável”. E complementa: “é importante acrescentar que o Restaurante Popular não deverá só realizar o atendimento de forma emergencial, mas permanente, através da garantia do acesso a uma alimentação saudável, de baixo custo a toda a população, especialmente àquela de menor renda. E talvez o maior desafio seja transformar esse espaço num ambiente de promoção da saúde, objetivando a melhoria da qualidade de vida de todas e todos aqueles moradores de rua, trabalhadores e cidadãos do município de Florianópolis”.

Participação popular e democracia

Com a extinção do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional em 2019, os Conselhos municipais, assim como os estaduais, ganharam ainda mais relevância. Eles são a principal instância de controle social da política municipal de SAN. Cabe aos Conselhos municipais realizar certas articulações junto ao Poder Público municipal – seja ele executivo, legislativo ou judiciário -, bem como deliberar e formular diretrizes para a elaboração de um plano municipal de SAN e fazer o chamamento para as conferências municipais de SAN. “E mais do que isso, o COMSEAS foi uma conquista histórica, de uma luta histórica, para o retorno da democracia no Brasil”, recorda Eduardo Rocha.

Sendo uma instância democrática, o COMSEAS deve tornar-se cada vez mais plural. Nesse sentido, um movimento chave da sua última gestão foi garantir uma reserva de vagas tanto para a população em situação de rua, público prioritário na política de SAN, quanto para povos e comunidades tradicionais. Dessa forma, foi feita uma recondução automática de representantes da Associação dos Remanescentes do Quilombo Vidal Martins. Além disso, a gestão 2019/2021 mobilizou e garantiu a participação desses importantes segmentos da sociedade de Florianópolis no processo eleitoral do conselho. Esta preocupação e articulação interna culminou na eleição de representações de pescadores/as artesanais, organizados na Colônia de Pescadores Z11 e da população em situação de rua, organizados no Movimento População de Rua, antes ausentes no Conselho.

AÇÃO SOLIDÁRIA COVID 19: Segurança alimentar para além da cesta básica

Uma tonelada de alimentos saudáveis distribuídos a cinco cozinhas comunitárias de Florianópolis, gerando mais de 8 mil refeições para pessoas em situação de rua e vulnerabilidade socioeconômica. Esse é o balanço de mais um mês da Ação Solidária COVID 19, iniciativa do Cepagro com apoio da Fundação Inter-Americana (IAF) para articular campo e cidade e fazer comida de verdade chegar aonde precisa. Veja aqui a versão completa do Boletim Ação Solidária COVID 19.

Um diferencial de iniciativas como a AÇÃO SOLIDÁRIA COVID 19 é o foco em aproximar campo e cidade para fazer circular alimentos saudáveis e socialmente justos. É ir além da distribuição de cestas básicas (que também são importantes). É, por exemplo, articular organizações camponesas com comunidades periféricas, potencializando tanto o trabalho dos movimentos sociais da agricultura familiar quanto o tecido social das periferias onde atuam cozinhas comunitárias, organizações da igreja e equipamentos públicos como o CRAS.

Junto com os alimentos, chegam reflexões sobre segurança alimentar e o papel do estado na sua promoção. E assim vai sendo fortalecida a articulação em torno do direito humano à
alimentação adequada, fundamental para a mobilização da sociedade civil na defesa e reivindicação por políticas públicas. Porque combater a fome é combater a miséria e a pobreza, não só com produção e distribuição de alimentos, mas também com educação, direito à moradia, trabalho e renda.

 

Ação solidária COVID distribuiu mais de 1 tonelada de alimentos em dezembro

A Ação Solidária COVID 19, iniciativa de distribuição de alimentos agroecológicos que o Cepagro vem desenvolvendo com apoio da Fundação Inter-Americana (IAF), distribuiu 1,4 tonelada de comida para 5 cozinhas comunitárias em dezembro. Juntas, essas cozinhas serviram mais de 10 mil refeições para pessoas em situação de rua e vulnerabilidade socioeconômica. Saiba mais sobre na edição de dezembro do Boletim Ação Solidária COVID 19.

Cadê o PAA: alimentos se perdem na lavoura enquanto populações vulneráveis passam fome

Oito meses de pandemia se passaram e até o momento, as três modalidades do Programa Aquisição de Alimentos (PAA) que deveriam ser operacionalizadas de forma emergencial em Santa Catarina seguem inconclusas. Por diferentes motivos, nenhum dos programas teve recurso liberado, o que vem gerando preocupação e incerteza para agricultores familiares e agravando a fome de famílias em vulnerabilidade social. O Conselho Estadual de Segurança Alimentar e Nutricional de Santa Catarina (Consea/SC), assim como o Conselho Municipal de Segurança Alimentar e Nutricional Sustentável de Florianópolis (Comseas) pedem agilidade dos órgãos públicos responsáveis.

Ainda em maio, a Secretaria de Estado da Agricultura, da Pesca e do Desenvolvimento Rural (SAR) anunciou que destinaria R$ 2 milhões para o primeiro PAA anunciado no Estado no contexto da pandemia. Aprovado pelo Conselho Estadual de Desenvolvimento Rural (Cederural), o recurso deveria vir do Fundo de Desenvolvimento Rural (FDR) e seria repassado aos municípios para fortalecer a agricultura familiar, além de atender populações  em situação de insegurança alimentar e nutricional. No entanto, até o momento o recurso não foi liberado por falta de previsão orçamentária, segundo a Controladoria-Geral do Estado (CGE).

O Consea/SC, órgão responsável pelo controle social das políticas de Segurança Alimentar e Nutricional (SAN), informa que o recurso poderá não estar disponível até o final de 2020. Preocupados com esta situação, os conselheiros e conselheiras estão construindo uma minuta de decreto para exigir previsão legal para o repasse do recurso previsto aos municípios.

Alimentos se perdendo na lavoura

Outra modalidade do PAA anunciada aos catarinenses ainda em junho deste ano foi feita pelo Ministério da Cidadania. Nesta modalidade, o recurso é repassado à Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) e então às cooperativas da Agricultura Familiar que tiverem propostas selecionadas pela Conab e aceitas em conselhos de controle social – seja da assistência social, de SAN ou de desenvolvimento rural. Por fazer o controle social das propostas aprovadas, cabe aos Comseas monitorar a operação de entrega do PAA nos municípios, ou seja, mediar o diálogo entre as cooperativas, as unidades recebedoras e a Conab.

Em Florianópolis, o Comseas articulou a elaboração de propostas das cooperativas da agricultura familiar para atender as unidades recebedoras selecionadas em diálogo com o Mesa Brasil Sesc. Uma das propostas foi da Cooperativa Ecológica de Agricultores, Artesãos e Consumidores da Região Serrana (Ecoserra), de Lages. Apesar de ter sua proposta aprovada, estar com toda a documentação em conformidade e ter aberto uma conta bancária para receber o repasse – exigências desta modalidade – a Ecoserra não recebeu nem um centavo até o momento. 

Na foto, cultivo de hortaliçasNa proposta apresentada, a cooperativa previu principalmente o fornecimento de alimentos orgânicos in natura, produzidos por aproximadamente 60 famílias agricultoras, que seriam entregues em sete municípios – Florianópolis, Biguaçu, Palhoça, São José, Cerro Negro, Lages e Blumenau. Mas a entrega depende do planejamento de produção, que precisa ser antecipada dependendo do cultivo. O administrador da Ecoserra, Marciano Coelho Correa conta que a demora na confirmação do repasse já tem afetado o planejamento de produção e consequente entrega dos alimentos no programa: “A gente está com os pés e as mãos amarrados. Enquanto não sair isso aí, não dá pra mandar os agricultores plantarem, porque, se plantar, chega 60 dias depois, vai saber se já tá aprovado”, explica o motivo da preocupação.

Além do risco de não ter certos alimentos para entregar quando o recurso for liberado, preocupa também os produtos que já estão se perdendo na lavoura. Como os agricultores contavam com o fornecimento ao PAA, que deveria ter iniciado em caráter emergencial, “já foi perdido repolho, alface, abóbora italiana, pepino, entre outras culturas. Então foi perdido um monte na lavoura e agora seguramos, porque tem que ter uma programação”, conta Marciano.

Enquanto o alimento se perde e os agricultores arcam com o prejuízo, creches, asilos, centros de ensino e associações deixam de receber alimentos saudáveis para complementar a alimentação de crianças, idosos e famílias em situação de vulnerabilidade social. A distribuição dos alimentos do PAA da Conab em Florianópolis, São José, Palhoça e Biguaçu serão realizados pelo Mesa Brasil SESC, rede nacional de bancos de alimentos contra a fome e o desperdício.

O Mesa Brasil SESC recebe doações e organiza a logística e distribuição de alimentos para pessoas em situação de vulnerabilidade social e nutricional assistidas por entidades sociais cadastradas. A nutricionista na unidade São José, Jéssica Muller explica que a preocupação na demora do repasse vem, por um lado, pelas instituições recebedoras, “porque a gente está em um período onde a gente está tendo uma menor doação desde o início da pandemia, embora esteja ainda recebendo. […] Mas a gente sabe que a busca por alimentos aumentou nesse período”. Por outro lado está a preocupação com as cooperativas “que demandam de um planejamento para poder fazer a entrega desses alimentos”, explica Jéssica.

Tanto o Comseas, quanto o SESC Mesa Brasil e a cooperativa estão em diálogo constante com a Conab, mas até o momento não está claro porque o dinheiro ainda não foi liberado.

Quem tem fome tem pressa

Uma terceira modalidade ainda em andamento é o PAA Termo de Adesão Compra com Doação Simultânea do Ministério da Cidadania. Anunciado em julho, o recurso de R$ 4,56 milhões será repassado diretamente do Ministério da Cidadania a famílias agricultoras catarinenses com propostas aprovadas. As inscrições encerraram no dia 9 de novembro e agora, as aproximadamente 800 propostas inscritas estão sendo analisadas e cadastradas no Sistema do Programa de Aquisição de Alimentos (SISPAA). Segundo o Diretor-Presidente do Cepagro e conselheiro do Comseas, Eduardo Rocha, o problema neste caso é a morosidade, o excesso de burocracias e falta de estrutura e efetivo do governo estadual para operacionalização dessa modalidade do PAA. 

“Enquanto Comseas, a gente entende a necessidade de se cumprir todos os princípios da administração pública e os processos que devem ser respeitados com relação à tomada de preço, licitação, elaboração de contratos. Mas a gente vive uma pandemia, tem uma população que está com dificuldade de abastecimento alimentar e que está vivendo uma insegurança alimentar severa em vários municípios. É uma condição em que o Estado, seja na esfera municipal, estadual ou da União, tem que ser um pouco mais célere e olhar para o conjunto da sociedade que está dependendo desses programas de abastecimento e de Segurança Alimentar e Nutricional”, ressalta Eduardo Rocha.

O que se cobra nesse momento é agilidade e menos burocracias para amenizar um problema que é gravíssimo. E isso não é impossível: “a gente vê processos durante a pandemia de compra de equipamentos e processos de licitação muito mais rápidos e avançados em algumas frentes de trabalho e em outras, como é o caso do abastecimento alimentar, um pouco mais morosos. Isso deixa o Comseas, todo o controle social e as cooperativas muito preocupados”, conta Eduardo.

Estiagem agrava situação da Agricultura Familiar no Estado

Foto de plantação em solo secoOutro acontecimento que está afetando o abastecimento alimentar e gerando prejuízo a agricultores familiares, especialmente do oeste e meio oeste catarinense é a estiagem que se prolonga desde junho de 2019. Já são dezenas de municípios em estado de emergência nos três estados do sul, sem que se tenha certeza sobre o aumento no volume de chuvas para este ano.

Famílias agricultoras que já semearam os cultivos de verão terão que refazer o plantio devido a pouca umidade no solo. Segundo documento elaborado por movimentos e organizações da Agricultura Familiar para reivindicar ações dos governos estadual e federal, nos casos em que os cultivos já germinaram, “mesmo que chova nos próximos dias, as plantas não vão mais se recuperar a ponto de produzir grãos ou servir de alimento aos animais”, o que torna os danos irreversíveis. Falta água até para consumo humano.

Três resoluções foram publicadas no Diário Oficial da União visando combater os efeitos da estiagem na região sul, mas elas se restringem aos municípios que decretaram estado de emergência e/ou calamidade pública, deixando de fora municípios e famílias afetadas em diferentes medidas. Em documento endereçado ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), organizações e movimentos camponeses, entre eles o Movimento de Mulheres Camponesas (MMC), MST e Federação dos Trabalhadores na Agricultura Familiar (FETRAF) reivindicam algumas medidas emergenciais. 

Entre as exigências estão: o fornecimento de água através de caminhões pipa nos municípios atingidos pela estiagem, a criação de programa de irrigação para a agricultura familiar associado a um programa de recuperação e preservação de nascentes e segurança hídrica, renegociação de contratos, estoques e dívidas, disponibilização de crédito e do Cartão Emergência Rural no valor de um salário mínimo por família rural, conforme Lei da Agricultura Familiar nº 11.326/2006. Além da inclusão das organizações da agricultura familiar e camponesa no GT de Crise sobre a estiagem em Santa Catarina, participação que o Consea/SC também vai requerer.

Movimentos sociais apresentam propostas para a promoção da Segurança Alimentar e Nutricional à candidatos catarinenses

O Brasil se encontra em sua pior situação alimentar dos últimos 15 anos¹. É nesse contexto em que as eleições municipais acontecem, chamando a atenção para a importância dos poderes executivo e legislativo locais no combate à fome e na garantia do direito humano à alimentação adequada e saudável. Por isso, organizações e movimentos sociais de Santa Catarina estão cobrando de candidatos e candidatas o compromisso com a Agricultura Familiar e a Agroecologia para a garantia da segurança alimentar e nutricional (SAN).

Aprovação de leis, implementação de programas municipais e fortalecimento de políticas públicas já existentes são ações possíveis de serem feitas à nível local, por prefeitos e vereadores, que podem resolver ou amenizar a atual crise alimentar. Mas nada disso será possível sem a ampliação da democracia e da participação popular na elaboração e execução de políticas sociais.

Foto dos participantes do Webinar Agroecologia e SAN nas eleições de Santa CatarinaÉ isso o que as cartas compromissos publicadas pelo Conselho Estadual de Segurança Alimentar e Nutricional de Santa Catarina (Consea/SC), Fórum Catarinense de Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (FCSSAN), Núcleo Santa Catarina da Aliança Pela Alimentação Adequada e Saudável e Articulação Nacional de Agroecologia (ANA) nos mostram. As cartas foram apresentadas a eleitores e candidatos/as durante o webinar Agroecologia e SAN nas eleições de Santa Catarina, realizado no dia 30 de outubro. 

Durante o evento, também foi apresentada a pesquisa inédita realizada pela ANA envolvendo uma rede de entidades, organizações e movimentos populares que mapeou políticas públicas e programas municipais que dialogam com a Agroecologia em todo o território nacional. Em pouco mais de dois meses, foram identificadas mais de 700 iniciativas, sendo 81 em municípios catarinenses.

Imagem com um celular mostrando o mapa interativo "municípios agroecológicos e políticas de futuro"A pesquisa resultou na criação do mapa interativo “Municípios agroecológicos e políticas de futuro”, um banco de dados digital onde as iniciativas podem ser filtradas por tema e/ou por estado, servindo de subsídios aos candidatos e candidatas que se dispuserem a assumir a agenda agroecológica e de SAN. E servindo de subsídio também aos mandatos atuais, a espaços de participação social e ao desenvolvimento de pesquisas acadêmicas e extensão universitária.

Para o agroecólogo Laércio Meirelles, que integra o Núcleo Executivo da ANA e foi o articulador da pesquisa na região Sul, a expressão e o alcance desse levantamento foi surpreendente, tanto pelo alcance, quanto pela expressão dos números levantados. “Foi muito importante saber que mais de 500 municípios brasileiros têm políticas públicas de apoio à agroecologia. […] Hoje eu considero que nós já temos uma maturidade no que diz respeito à informação e a experiência prática. E agora eu vou acrescentar que nós também já temos maturidade no que diz respeito a políticas públicas de apoio à Agroecologia no Brasil.”

Imagem mostra o mapa do Brasil com o número de candidatos comprometidos com a Agroecologia em cada região.Para amadurecermos ainda mais, além do mapa interativo, a ANA condensou a pesquisa em uma carta-compromisso com 36 propostas organizadas em 13 campos temáticos. Até o momento, a carta foi assinada por 864 candidatos e candidatas.

Sem participação social não há democracia

Assim como esta, as cartas do Consea/SC, Aliança e FCSSAN reúnem sobretudo propostas baseadas em iniciativas já existentes no Brasil que se mostraram eficientes no combate à fome e na melhoria da qualidade de vida de populações rurais e urbanas, mas que em muitos casos foram descontinuadas. Exemplo disso é o Programa Aquisição de Alimentos (PAA) e Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), que nasceram a partir do diálogo entre governo federal e setores da sociedade civil e que ajudaram a tirar o Brasil do mapa da fome em 2014. 

Desde então os programas vêm sofrendo cortes atrás de cortes e foram especialmente enfraquecidos a partir do desmonte dos Ministérios do Desenvolvimento Agrário e Desenvolvimento Social, durante o atual governo. Se em 2020 o Brasil volta ao Mapa da Fome, é sem dúvida por influência do enfraquecimento de políticas como estas. Bem como pelo distanciamento entre o governo e a população, com a extinção de grupos de trabalho, comitês e conselhos consultivos e de controle social, como o Consea e a Comissão Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica (Cnapo).

Eduardo Rocha, Diretor-Presidente do Cepagro e conselheiro do Consea/SC, ressalta que em períodos de crise, em especial de crise alimentar, os movimentos sociais foram fundamentais para mitigar os efeitos do desemprego e da fome. “As iniciativas dos territórios têm que ser percebidas e dialogadas com o poder público, seja do executivo ou do legislativo. Inovações, novos arranjos de economia, produção e abastecimento alimentar estão sendo criados para dar conta da fome da população e os espaços de participação social são um importante canal de comunicação com o poder público”, aponta Eduardo.

Respostas integradas para problemas estruturais

Outro aspectos que as cartas compromisso evidenciam, é que para que a soberania e segurança alimentar nutricional seja garantida com plenitude a toda a população, é preciso efetivar políticas estruturantes e intersetoriais. “Para se garantir a SAN, também se precisa garantir acesso a moradia, a água, a educação, ao abastecimento. A população precisa acessar o alimento limpo, justo e adequado, o alimento agroecológico. E isso, dentro do nosso Estado brasileiro, por muito tempo ainda vai se dar por meio de políticas públicas. Não por acesso ao mercado, não pelo acesso ao poder aquisitivo, mas por meio de políticas públicas”, afirmou Eduardo Rocha, durante o webinar.

Entre as propostas apresentadas na carta do Consea/SC estão: o incentivo à diversificação produtiva e agricultura sustentável e o desestímulo às práticas de produção danosas à saúde e ao meio ambiente; a implantação, manutenção e qualificação de bancos de sementes crioulas nos municípios; a manutenção e qualificação dos Equipamentos Públicos de SAN, como Restaurantes Populares, Cozinhas Comunitárias, Bancos de Alimentos e Centrais de Abastecimento da Agricultura Familiar, entre outras.

Já a carta da Aliança Pela Alimentação Adequada e Saudável foi elaborada a partir de quatro temas prioritários: (1) proteção e apoio à amamentação e à alimentação complementar saudável, (2) desestímulo ao consumo de alimentos não saudáveis, (3) incentivo à produção e comercialização local de alimentos adequados e saudáveis, priorizando a agricultura familiar e agroecológica e (4) a proteção do meio ambiente e garantia da água como direito humano e bem comum.

Elaboradas coletivamente à nível nacional, as propostas da Aliança “visam resolver o duplo desafio de fortalecer estratégias que tiveram sucesso em retirar o Brasil do Mapa da Fome pela primeira vez em 2014 e frear o crescimento do sobrepeso e da obesidade no país”, como explica Gisa Garcia, Diretora Administrativa do Cepagro e uma das articuladoras do núcleo da Aliança em Santa Catarina.

Além de transformar a realidade alimentar no âmbito local e contribuir com uma vida mais digna e saudável a população, a efetivação dessas propostas nos municípios poderá abrir caminho para respostas políticas a nível estadual e mesmo nacional. E o primeiro passo para planejar políticas de futuro que respondam às crises emergentes é ouvir o que o Movimento Agroecológico e popular tem a propor e a ensinar a partir de experiências concretas e bem sucedidas.

Conheça as cartas compromisso da:

Aliança Pela Alimentação Adequada e Saudável

Conselho Estadual de Segurança Alimentar e Nutricional

Fórum Catarinense de Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional

Articulação Nacional de Agroecologia

Carta da Conferência Nacional Popular por Direitos, Democracia, Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional

 

¹ Pesquisa de Orçamentos Familiares 2017 – 2018: https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv101749.pdf

Cepagro inicia Ação Solidária para fortalecer Redes de Segurança Alimentar e Nutricional

Neste Dia Mundial da Alimentação, 16 de outubro, o Cepagro celebra o início de uma Ação Solidária que tem como objetivo fortalecer as Redes de Segurança Alimentar e Nutricional através da aquisição e doação de alimentos agroecológicos e da agricultura familiar a cozinhas comunitárias parceiras de Florianópolis. 

Desde o início da pandemia, diversas iniciativas de abastecimento alimentar surgiram ou se fortaleceram em Florianópolis. Entre elas estão as cozinhas comunitárias que estão tendo um papel muito importante em garantir alimentação para famílias que passaram a conviver com a fome. Buscando fortalecer e potencializar este trabalho nas comunidades e levar comida de verdade a quem precisa, o Cepagro iniciou esta semana a Ação Solidária Covid-19.

A ação tem o apoio da Fundação Interamericana (IAF) e é realizada em parceria com seis cozinhas comunitárias de Florianópolis: a Cozinha Dona Ilda, na Vila Aparecida, bairro Coqueiros, Cozinha Mãe, na Comunidade Chico Mendes, bairro Monte Cristo, Cozinha Hare Krishna, no Centro de Florianópolis, Cozinha Casa do Migrante, no bairro Capoeiras, Cozinha do Rio Vermelho e Cozinha Solidária Ribeirão da Ilha. Juntas estas cozinhas tem distribuído mensalmente mais de 7 mil refeições.

Entrega na Cozinha Solidária Ribeirão da Ilha

Assim, a Ação Solidária Covid-19 do Cepagro fortalece um trabalho em Rede e além de promover segurança alimentar e nutricional nas comunidades urbanas, também tem como objetivo gerar renda local no meio rural e promover a Agroecologia. Os alimentos entregues em Florianópolis estão sendo adquiridos de 5 famílias agricultoras do Núcleo Litoral Catarinense da Rede Ecovida, além do Assentamento Comuna Amarildo, cooperativas do Movimento Rural dos Trabalhadores Sem Terra (MST) e da agricultura familiar regional. Futuramente, também entrarão para esta lista famílias indígenas de aldeias Guarani da Grande Florianópolis.

A Ação está prevista para acontecer em ciclos de entregas semanais e os alimentos são adquiridos e entregues às cozinhas conforme suas demandas mensais. Também de acordo com a sazonalidade e a produção das famílias agricultoras. 

Trabalho em rede

Preparação de refeições na Cozinha Mãe, Comunidade Chico Mendes.

Cada uma das cozinhas possui uma dinâmica própria quanto aos dias e formatos de distribuição. A Cozinha Dona Ilda, por exemplo, tem como público alvo as famílias das crianças da Comunidade Vila Aparecida que participavam de uma escolinha de futebol, projeto social. A cozinha é gerida pela Ação Social Arquidiocesana (ASA) em parceria com o projeto Vivendo e Aprendendo, coletivo local da Vila Aparecida. As refeições são distribuídas especialmente aos sábados à noite em locais abertos e arejados da Comunidade.

Luciano Leite da Silva Filho, Coordenador do Centro de Integração Social Santa Dulce dos Pobres e que tem participado na gestão da cozinha, conta que as duas organizações eram parceiras em outros projetos sociais na comunidade e com a pandemia surgiu a demanda por alimento. Mas esse trabalho da cozinha, iniciado em junho, já ultrapassou a questão da segurança alimentar.

Início da produção na Padaria Comunitária Dona Zezé, Vila Aparecida

“Através de Cozinha Comunitária a gente vem pensando também o espaço do próprio território. Então através da cozinha comunitária foram surgindo outros projetos. A horta comunitária, que a gente está idealizando, a padaria comunitária que a gente fez uma fornada de teste ontem e amanhã vai começar a produção e a comercialização. E surgiram outros projetos como o ateliê de costura formado por mulheres da comunidade”, explica Luciano.

O pontapé inicial para a instalação da cozinha teve o apoio da Rede Com a Rua e Cozinha Solidária Ribeirão da Ilha. Luciano conta que a maior parte dos alimentos vem da doação de pessoas físicas, mas que há uma rede de apoio entre as cozinhas comunitárias em Florianópolis. Quando uma delas recebe alimentos a mais, repassa para outras e assim o trabalho acontece.

A Cozinha Solidária Ribeirão da Ilha chega a distribuir em média 2.900 marmitas ao mês, com refeições entregues de segunda a sexta, três vezes por semana na Praça XV (Centro) e duas vezes em São José. Para Shira Maciel, culinarista e voluntária, “a importância desse trabalho é trazer dignidade para a população carente. O alimento saudável é um direito de todos e com isso lutamos também pela necessidade do Restaurante Popular”.

Muito além do alimento

Alimento de quem produz para quem consome.

Uma questão importante da Ação Solidária Covid-19 é promover a aproximação do campo e cidade na prática, um dos preceitos da Agroecologia, abastecendo com alimento limpo, livre de agrotóxicos, com história a quem precisa. Para a Mestra em Agroecossistemas e técnica do Cepagro, Isadora Leite Escosteguy, um dos desafios desta ação é o redesenho do sistema agroalimentar, rompendo as lógicas dominantes da centralização, dos ultraprocessados e circuitos longos e promovendo logísticas mais eficientes de abastecimento agroalimentar. Se torna assim uma estratégia de venda direta a partir de uma demanda garantida, onde o Cepagro é um articulador entre as famílias agricultoras, futuramente indígenas e os coletivos das cozinhas comunitárias. 

“Acredito que o alimento é uma ferramenta política transformadora para atravessar momentos de crise – sanitária, ambiental, econômica, social. Nesses tempos, a pressão pela efetivação de políticas públicas para o abastecimento e garantia de SAN é extremamente necessária, mas em paralelo, estas ações solidárias de ONGs e coletivos em torno do alimento de verdade é crucial para potencializar a transformação que queremos”, comenta Isadora.

E além de fortalecer as Redes de Segurança Alimentar e Nutricional e atender demandas urgentes, esta ação também tem como propósito promover a formação cidadã e o debate acerca do Direito Humano à Alimentação Adequada e Saudável.

Sociedade civil de Florianópolis pede instalação de Restaurante Popular para combater a fome

Se não bastasse a pandemia de Covid-19 que agride a saúde da população brasileira desde o início do ano, outra situação alarmante tem se evidenciado no Brasil e na capital catarinense: a presença da fome e da miséria na vida de muitas famílias. Nove milhões de brasileiros deixaram de comer por falta de dinheiro durante a pandemia, segundo levantamento feito pelo Ibope e Unicef. Buscando responder à essa situação, o Conselho Municipal de Segurança Alimentar e Nutricional Sustentável (Comseas), junto de organizações, pessoas e movimentos sociais de Florianópolis têm exigido a instalação de um Restaurante Popular no município.

Foto: Tiago Amorim

Os restaurantes populares visam assegurar a entrega de refeições saudáveis, de qualidade e a preços acessíveis – ou gratuitas em alguns casos – prioritariamente para populações em vulnerabilidade social, sejam trabalhadores/as informais ou trabalhadores/as precarizados, desempregados/as, imigrantes e refugiados, entre outros. Apesar de ganhar importância neste momento crítico, a luta pelo restaurante popular em Florianópolis não é novidade, bem como a presença da fome, que não se deve somente à pandemia. 

A última Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) divulgada recentemente pelo IBGE apontou que entre os anos de 2017 e 2018, pelo menos 10,3 milhões de pessoas já estavam em situação de insegurança alimentar e nutricional no Brasil, valores superiores aos de 2004. Ou seja, os avanços que o país vinha tendo no combate à fome até 2013, regrediram o equivalente a 15 anos em 5.

Em Florianópolis, segundo dados do Cadastro Único da Assistência Social e do Bolsa Família de fevereiro de 2020, aproximadamente 16.680 pessoas estão em situação de vulnerabilidade social. Com o crescimento do desemprego e da informalidade, nos últimos meses houve um aumento dos pedidos de acesso a programas como o Bolsa Família, sem que a Secretaria Municipal de Assistência Social tenha capacidade de dar conta de tamanha demanda.

A sociedade civil organizada tem respondido à essa situação através de organizações não governamentais e campanhas de solidariedade. A Rede Com a Rua, por exemplo, tem oferecido alimentação para a população de rua. As comunidades periféricas da capital também se organizaram dando origem a pelo menos cinco cozinhas comunitárias, que têm garantido as únicas refeições diárias de muitas famílias carentes. Mas esses tipos de iniciativas também não dão conta do problema sozinhas.

Para André Shafer, líder do Movimento da População de Rua, apesar de as marmitas serem importantes, é preciso ir além. Para ele, mais do que garantir comida de verdade, a instalação de um Restaurante Popular representaria “um espaço digno, legítimo, onde a população pode sentar nas cadeiras, onde ela pode ter direito a uma comida de verdade, com qualidade, sabendo da própria procedência”. Ele ainda lembra que esta não é uma luta de agora e que quando se fala em alimentação de verdade se fala também em saúde. “Esse equipamento contempla essa nossa luta, comer é um ato político, comer é um direito básico e que não é cumprido”, protesta André Shafer.

Foto: Tiago Amorim

Para que este direito seja garantido de fato e atinja a população como um todo, é preciso que o poder público municipal coloque em prática o que prevê a Política Municipal de Segurança Alimentar e Nutricional, implementada em 2013. Esta Política Municipal está inserida no Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (SISAN), que assim como outros sistemas nacionais – Sistema Único de Saúde (SUS), Sistema Único de Assistência Social (SUAS) – deve possuir uma estrutura para colocar em prática suas políticas públicas. Fazem parte dessa estrutura os bancos de alimentos, as cozinhas comunitárias públicas, as feiras livres e os RESTAURANTES POPULARES.

Capitais como Salvador, Belo Horizonte, São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília possuem Restaurantes Populares. Em Santa Catarina, as únicas cidades que possuem são Joinville e Chapecó. Mas nem sempre foi assim, Florianópolis possuía um Restaurante Popular, instalado em dezembro de 2004 e fechado anos depois. No entanto, na época da sua implementação, ainda não havia uma Política Nacional de SAN e nem o SISAN, que hoje definem diretrizes para os Restaurantes Populares. 

Segundo Eduardo Rocha, conselheiro do Comseas e Diretor-Presidente do Cepagro, “essa atual proposta de Restaurante Popular difere muito daquele que se tinha no início dos anos 2000, porque era um restaurante terceirizado, gerido pela iniciativa privada. Pela Vonpar, que na época era uma empresa que fazia a distribuição dos refrigerantes e das bebidas da Coca-Cola. Então dentro desse restaurante havia máquinas que serviam todos os refrigerantes da linha da Coca-Cola. Era uma propaganda de um sistema alimentar hegemônico, hoje comprovado como um sistema nocivo para o planeta, tanto na perspectiva social, quanto econômica, ambiental e dos direitos humanos”.

Foto: Tiago Amorim

Além disso, o alimento vinha de uma forma descolada do debate em torno da alimentação adequada e saudável. Hoje, como aponta Eduardo, “o Restaurante Popular é amparado por uma política pública que estipula diretrizes e regulamentações para a sua implementação, é preciso que ele seja mais do que uma estrutura de distribuição de produtos alimentícios”. Além de garantir alimentação adequada e saudável, que tem como referência o Guia Alimentar Para a População Brasileira , outra diretriz é que ele seja um espaço de referência para a comunidade. Ou seja, um ambiente de encontro para debater sobre questões do bairro e da própria cidade, bem como um espaço de formação cidadã, onde pode-se conversar sobre educação alimentar, alimento como direito e sobre o modo de produção deste alimento.

O Restaurante Popular deve promover também o desenvolvimento da agricultura familiar por meio dos programas de abastecimento, como o Programa Aquisição de Alimentos (PAA) e priorizar a compra de alimentos frescos, em especial os alimentos orgânicos e agroecológicos produzidos localmente. 

Por fim, apesar de possuir um público prioritário – população mais vulnerável socialmente – ele deve ser universal, servir tanto para o trabalhador, trabalhadora e profissionais liberais, quanto para desempregados/as que vão até a região central procurar emprego e não têm onde se alimentar.

Foto: Tiago Amorim

Pensando em todas essas questões, há pelo menos quatro meses, cerca de 40 representantes de organizações da sociedade civil, dentre elas o Cepagro, vem conversando com os órgãos competentes e com a prefeitura por meio do Conselho Municipal de Segurança Alimentar e Nutricional Sustentável (Comseas) para que Florianópolis entre para a lista de capitais com Restaurante Popular. Um pequeno avanço foi conquistado desde então, com a inclusão de R$ 1 milhão no orçamento da Assistência Social na Lei Orçamentária Anual para 2021 para a implementação do Restaurante Popular. 

No entanto, ainda não é nada garantido. Enquanto a LOA não for aprovada de maneira a constar esse recurso, não se pode assegurar nada. E foi por isso que o Comseas e as organizações parceiras nesta luta lançaram a Campanha pelo Restaurante Popular em Florianópolis e a petição online pela sua inclusão na LOA 2021.

Além de abraçar as diretrizes da Política Nacional de SAN mencionadas acima, a campanha pede que o Restaurante Popular tenha gestão pública, sem a participação de empresas privadas que visam o lucro ao invés da garantia do direito, garanta o atendimento de no mínimo mil pessoas por refeição e que forneça duas refeições diárias: almoço e jantar e, se possível, café da manhã.

Você pode somar nesta campanha assinando a petição: http://bit.ly/rpemfloripa e também compartilhando as publicações sobre o Restaurante Popular nas suas redes sociais. Procure por #RestaurantePopularEmFloripaJá e junte-se a esta causa.