Arquivo da tag: saberes na prática em rede

Empoderar mulheres e sensibilizar homens: Cepagro vai a El Salvador para conhecer o trabalho em Gênero da organização FUNDESYRAM

Buscando qualificar seu trabalho na temática de Gênero,  o Cepagro participou de mais um belo e potente encontro de mulheres que constroem a Agroecologia: o I CONGRESO MUJER Y AGROECOLOGIA, promovido em El Salvador pela Fundación para el Desarrollo Socioeconómico y Restauración Ambiental (FUNDESYRAM), organização parceira no projeto apoiado pela Inter-American Foundation. O evento aconteceu nos dias 10 e 11 de outubro e reuniu mais de 120 mulheres de 35 organizações de todo país. Cepagro e Rede Ecovida foram representados pela jornalista Ana Carolina Dionísio e pela agricultora Cátia Cristina Rommel, respectivamente. Nos dias após o encontro, as representantes brasileiras tiveram a oportunidade de conhecer mais um pouco do trabalho da FUNDESYRAM na linha de Gênero e Agroecologia.

Mesmo com as fortes chuvas que atingiam o pequeno país centroamericano nos dias anteriores ao Congreso, dificultando a circulação nas áreas rurais, a participação de mulheres no evento superou as expectativas da engenheira agrônoma Flor Quintanilla, coordenadora das ações em Gênero da organização. Ela explica que o objetivo do evento foi exatamente promover a articulação de diferentes organizações de mulheres para que incidam, tenham mais protagonismo na produção e integrem a recém-formada Red Agroecológica de El Salvador, composta por organizações e coletivos das três regiões do país: Oriente, Central e Occidente.

Ao longo dos dois dias foram compartilhadas experiências, além de serem discutidas estratégias e ações para promover o empoderamento feminino, a autonomia financeira e a superação do machismo no trabalho e através da Agroecologia. “É nestes espaços que conseguimos nos encontrar e nos reconhecer, e assim vemos que estamos na mesma luta”, afirma Flor.

Num país em que, de acordo com a Organização Mundial de Saúde, metade das mulheres já sofreram violência física ou psicológica na vida, trabalhar pelo seu empoderamento não é tarefa fácil.  É com muita paciência e bom humor que a Fundesyram apoia associações e coletivos de mulheres, facilitando oficinas e capacitações em liderança, empreendedorismo, técnicas agroecológicas e artesanato.  Além disso, colaboram todos os anos na organização da Feria de Logros (Feira de Realizações), onde as participantes das atividades apresentam seus produtos. Todo este trabalho caminha junto com programas do governo salvadorenho, como o Ciudad Mujer, que possui postos de atendimento em todo país para atenção integral às mulheres, nas linhas de Saúde Sexual e Reprodutiva; Atenção à Violência de Gênero; Autonomia Econômica; Gestão Territorial e do Conhecimento e Atenção Infantil.

“Me senti muito bem e confortável aqui. Percebemos como a Fundesyram se interessa pelo bem comum, e tudo que foi discutido aqui vai em concordância com o enfoque do nosso trabalho em Segurança Alimentar e Nutricional”, conta a agricultora Sandra Hernández, que participou do Congreso. Ela produz hortaliças e mel na sua parcela no município de Morazán, já próximo da fronteira com Honduras. Ela participa da Asociación de Municípios del Norte de Morazán e integra a Red Agroecológica de El Salvador junto com outras 350 famílias só na região oriental do país.

E como aumentar a participação das mulheres nos processos produtivos e também decisórios das organizações? Embora seja consensual que a superação das limitações impostas pelo patriarcado é o primeiro passo, as estratégias para promover essa superação são múltiplas. No Congreso foram sugeridas a realização de campanhas de conscientização dos direitos das mulheres, trabalhos em escolas e também nos lares e organização de grupos de incidência política nas prefeituras. Dar visibilidade nas redes sociais ao trabalho desenvolvido por mulheres e formar grupos de poupança e empréstimo comunitários para elas também foram elencadas.

“Mas também precisamos incluir os homens nos trabalhos domésticos, não só as mulheres nas organizações”, pondera Fátima Landaverde, técnica na área de Gestão Ambiental e Territorial da Associación Colectiva de Mujeres por el Desarollo Local, também presente no evento. “É importante que os homens desenvolvam o olhar de que nas organizações as mulheres são capazes de assumir trabalhos além de secretaria e cuidados, por exemplo. É importante que eles estejam dispostos a ceder nos cargos de direção para eleger mulheres”, completa Fátima.  A Colectiva tem enfoque feminista: “Nossa organização trabalha com formação de mulheres em insumos e comercialização agroecológicos, enfatizando o papel da mulher na Agroecologia”, explica. Sobre o Congreso, ela sugere que se incorpore às discussões também a luta pela defesa dos territórios e das águas empreendida por mulheres.

“Nossa luta é pelo equilíbrio”, afirma Rosa Areval, da ADECIME (Asociación de Mujeres Empreendedoras). De volta ao Congreso, ela defende que “É preciso envolver-se no movimento feminista para que as mulheres possam avançar, mesmo que pouco a pouco. Dar visibilidade ao nosso trabalho e impulsar leis a favor das mulheres”, afirma ela.

É no sentido de envolver também aos homens  na luta pela equidade de gêneros que a FUNDESYRAM promove atividades com grupos de novas masculinidades (nuevas masculinidades). Formando Comitês de Vínculos Solidários em conjunto com associações comunitárias, a Fundesyram realiza rodas de conversa para que eles possam refletir sobre o ciclo da violência contra as mulheres e a paternidade responsável, entender valores e preconceitos impostos pelo machismo que são nocivos para eles e suas famílias e compreender que não há problemas em um homem expressar seus sentimentos e emoções. Melhorias nas relações familiares e compartilhamento de tarefas domésticas são algumas das mudanças relatadas pelos participantes, que também têm a responsabilidade de multiplicar as discussões em suas comunidades. 

“Passei a entender que um homem não precisa passar por cima de uma mulher, pois todos e todas temos as mesmas capacidades”, conta o jovem Marciel López, um dos participantes do Círculo no município de Tabuca, onde a FUNDESYRAM também atua. “E não precisa ser uma mulher para lavar a toupa, varrer a casa ou fazer tortilha. Os homens também têm que fazer isso”, completa ele.

“E as crianças podem brincar com o que quiserem”, acrescenta O agricultor Jorge Hernandez Ramos. Desnaturalizar o ciúme foi outro aprendizado dele nas atividades do Círculo, o que trouxe mais harmonia em suas relações familiares. “Precisamos avançar mais nas comunidades, para que as crianças se sintam cada vez mais protegidas”, afirma Jorge.

A partir das experiências de mulheres e de homens, percebe-se como a AUTO-ORGANIZAÇÃO é fundamental nestes processos. A agricultora Maria Lucrécia Argueta, da Fundação Segundo Monte, de Morazán, concorda: “Que se organizem! Já começamos a unir as mulheres, temos um discurso comum, temos muitos desafios e precisamos nos unir pelo meio ambiente”, afirma ela. Na sua parcela, Maria Lucrécia cultiva frutas, desenvolve técnicas de conservação da água e produz xampus naturais. Saiu de casa às 2h da manhã para chegar a tempo do início do Congreso, mais uma amostra da garra e disposição das mulheres salvadorenhas.

Anúncios

Vivência em SPGs reúne organizações latino-americanas em Florianópolis

Confiança. Considerada um dos princípios fundamentais dos Sistemas Participativos de Garantia, a confiança foi mencionada diversas vezes durante a Vivência em Sistemas Participativos de Garantia (SPGs) que o Cepagro promoveu de 21 a 26 de setembro em Florianópolis, com apoio da Inter-American Foundation. Participaram 17 organizações de 5 estados brasileiros (BA, SP, PR, RS, MG) e oito países latino-americanos (Bolívia, Colômbia, El Salvador, Equador, Guatemala, México, Paraguay e Peru) todas apoiados pela IAF. Com uma programação dinâmica e variada, a Vivência teve o objetivo de compartilhar experiências diversas em certificação participativa e SPG, estimulando a troca de conhecimentos sobre estratégias de produção, articulação de famílias e comercialização no âmbito da Agroecologia.

Basicamente, os SPGs partem do princípio que os/as próprios/as agricultores/as, organizados/as em grupos, podem realizar a certificação de sua produção para garantir sua qualidade orgânica. O Brasil é referência na construção de SPGs e na sua regulamentação, cujo marco é a Lei 10.831, de 2003, que equipara os SPGs às certificações por auditoria. Neste sentido, a Rede Ecovida teve atuação fundamental nesta construção. A caminhada para a consolidação de um SPG, contudo, passa por diversos estágios: da pesquisa sobre as possibilidades ao reconhecimento na legislação, passando pela organização de grupos de agricultores/as. As organizações participantes da Vivência encontram-se em distintos estágios deste caminho, e aí residiu a riqueza do intercâmbio. Reconhecer-se nesta caminhada foi uma das primeiras atividades da Vivência.

No caso de organizações como APA-TO (Tocantins) e IPHAE (Bolívia), que ainda estão levantando informações sobre SPGs, uma das questões a serem regulamentadas é quanto à certificação de alimentos oriundos do extrativismo, como o babaçu, o açaí e o cupuaçu, foco dos grupos com elas trabalham. Outras, como a SERRACIMA (SP) e o Centro de Agricultura Alternativa do Norte de Minas (CAA/NM – MG), discutem se serão só uma organização de apoio à certificação ou se já se formalizam como uma OPAC (Organismo Participativa de Avaliação da Conformidade). Já o Movimento da Economia Social e Solidária do Ecuador (MESSE), não aceitou a forma como o governo local tentou impor a regulamentação do SPG e decidiram manter a certificação por eles mesmos, no contato direto e confiança entre agricultores/as e consumidores/as: “Não nos interessa que o Estado nos reconheça”, afirma Rosa Murillo Naranjo,  do MESSE. CETAP e CEPAGRO, como participantes da Rede Ecovida, já integram um SPG consolidado, que inclusive serviu de inspiração para Paraguay e México implementarem seus próprios sistemas. No México, contudo, ainda não há legislação específica para certificação participativa.

Para as organizações que ainda estão construindo um SPG, os desafios são múltiplos: dificuldade para certificar alimentos do extrativismo, falta de legislação específica ou que não contempla suas realidades locais, comercialização. No caso dos SPGs já consolidados, como o da Rede Ecovida, “o desafio é trabalhar a Agroecologia para além do SPG”, como disse Albenir Concolatto, representante do CETAP (RS) na Vivência. No caso da Rede Povos da Mata, da Bahia, os obstáculos são: obter recursos para manter equipe técnica e as grandes distâncias entre diferentes biomas das propriedades certificadas, contou Sidilon Mendes.

Feito esse diagnóstico no primeiro dia sobre o desenvolvimento e desafios dos SPGs, a turma partiu no sábado e domingo (22 e 23 de setembro) para conhecer duas feiras agroecológicas: a do Campeche, abastecida pelo agricultor Gilmar Cognacco; e a VIVA CIDADE, no Centro, com agricultores/as do Grupo Flor do Fruto, de Biguaçu.

Após um almoço no Mercado Público de Florianópolis, a turma seguiu para o 12º Encontro do Núcleo Litoral Catarinense da Rede Ecovida de Agroecologia. Realizado na comunidade Fazenda de Dentro, em Biguaçu, o Encontro reuniu cerca de 150 pessoas, com ricas trocas de experiências, saberes e sementes. Dois participantes da Vivência – Romeu Leite, do Fórum Brasileiro de SPG, e Rosa Murillo Naranjo, do MESSE – compartilharam a mesa de abertura do Encontro com a agricultora Catarina Francisco Gelsleuchter.

Na sequência do Encontro, os/as participantes da Vivência conversaram com a professora Hanna Wittman sobre a pesquisa de Indicadores em Agroecologia. A atividade teve o intuito de sensibilizar e fazer um levantamento junto às organizações sobre que tipos de dados já vêm sendo pesquisados por elas com seus grupos de ação e quais tipos de indicadores – Econômicos, Sociais e Ambientais – elas consideram mais importantes.

Na segunda-feira, 24 de setembro, a programação continuou no Centro de Ciências Agrárias da UFSC, com destaque para o debate Certificação Orgânica Participativa: conexões latino-americanas, com a participação de Virgínia Lira, coordenadora de Agroecologia do Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento, Laércio Meirelles, do Fórum Latino-americano de SPG e Romeu Leite, coordenador do Fórum Brasileiro de SPG, além de representantes dos SPGs Tijtoca Nemiliztli (México); Paraguay Orgânico e Rede Ecovida de Agroecologia. Veja a matéria sobre o evento aqui.

Ainda buscando conhecer experiências agroecológicas, na terça-feira, 25 de setembro, o grupo visitou duas propriedades no bairro Ratones, um dos que mais mesclam o urbano ao rural na Ilha de Santa Catarina. O Sítio Flor de Ouro e o Espaço Pergalê.

No Flor de Ouro, o destaque foi o sistema agroflorestal implementado ali, suas técnicas de manejo e a convivência com as abelhas nativas sem ferrão. Além disso, o Flor de Ouro é um exemplo de comercialização de alimentos agroecológicos em conexão direta com os/as consumidores/as. Eles entregam cestas agroecológicas no esquema CSA – Comunidade que Sustenta a Agricultura e abriram mão da certificação. De acordo com o agricultor Daniel Cavalari, que trabalha no sítio, a confiança dos/as consumidores/as é tanta que não sentiram mais a necessidade de ter a certificação. Além disso, quem quiser pode visitar o sítio para verificar a qualidade orgânica dos alimentos. As cestas levam de 13 a 15 itens e custam R$ 55.

O CSA continuou na pauta de discussões do grupo durante a visita ao Espaço Pergalê, da agricultora e chef de cozinha Sônia Jendiroba. Margareth McQuade, representante do CSA Campeche, conversou com a turma da Vivência sobre os princípios e funcionamento dessa lógica de comercialização em que, ao invés de “consumidores/as” existem “co-agricultores/as”. “O CSA me encantou pela sua filosofia: os agricultores fazem o que gostam e nós apoiamos eles”, contou Margareth. Isso porque o CSA funciona numa lógica de planilha aberta, em que todos os custos de produção e logística dos alimentos são compartilhados entre agricultores/as e co-agricultores/as. Como observou João Palmeira, da APA-TO, é ir da “cultura do preço para a do apreço”.

A proprietária do espaço Pergalê, Sônia Jendiroba, também comercializa cestas agroecológicas com legumes e verduras que ela cultiva em seu sítio. Sônia, entretanto, faz questão de manter a certificação pela Rede Ecovida e inclusive enviar periodicamente via whatsapp seu certificado para quem compra dela. A turma da vivência pode conhecer ali sua horta agroecológica com cerca de meio hectare e até ajudou um pouco na capina.

Na despedida do grupo, no dia 26 de setembro, foram recuperados os pontos que mais lhes chamou a atenão. A relação entre agricultores/as e consumidores/as foi um deles. “Apesar de ser um intercâmbio de SPG, vimos experiências também de produção, comercialização e participamos do Encontro do Núcleo da Rede Ecovida, nos sentimos muito acolhidos”, observa Clara Esther Martínez, da organização colombiana CORAMBIENTE. Sandra Konig, da Associação Outro Olhar, de Guarapuava (PR), disse que “saiu convencida que o SPG vai muito além da certificação, e que sempre precisa estar de acordo com diferentes contextos, especialmente considerando povos originários”. Na bagagem de volta à casa, além de muitas experiências e aprendizados, os/as participantes certamente levam saudades da praia do Campeche, que estava a poucos minutos de caminhada da pousada onde foi realizado o evento, a Tulipane.

Mais de 50 pessoas, entre colaboradores/as diretos e indiretos, estiveram envolvidos/as na organização da Vivência, entre equipe técnica do Cepagro e da Pousada, agricultores/as que forneceram os alimentos agroecológicos para as refeições e tradutores/as.

 

 

 

 

 

 

 

Cepagro promove debate sobre Sistemas Participativos de Garantia

Representantes de Redes de Agroecologia de 8 países latino-americanos e de 5 estados brasileiros  estiveram presentes no debate sobre Certificação Orgânica Participativa: Conexões Latino-Americanas, que aconteceu na tarde da última segunda-feira, 24, no Centro de Ciências Agrárias da UFSC. O evento promovido pelo Cepagro faz parte da programação da Vivência em SPG do projeto Saberes na Prática em Rede, que aconteceu entre 21 e 26 de setembro, com o apoio da Inter-American Foundation, visando ao intercâmbio de experiências em certificação participativa na América Latina.

O debate foi dividido em dois momentos, tratando inicialmente da conjuntura brasileira em Sistemas Participativos de Garantia e em seguida foram apresentadas iniciativas bem sucedidas existentes no México, Paraguai e Brasil. Os palestrantes convidados para a primeira parte foram Virgínia Lira, coordenadora de Agroecologia do Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento, Laércio Meirelles, do Fórum Latino-americano de SPG e Romeu Leite, coordenador do Fórum Brasileiro de SPG.

Virgínia abriu o debate apresentando alguns dados sobre a produção de orgânicos no Brasil atualmente. Porta voz da Agroecologia dentro do Ministério da Agricultura, ela afirmou que, apesar da crise em que nos encontramos, a produção de orgânicos no país não para de crescer, e com isso os Sistemas Participativos de Garantia também avançam.

Em sua fala, Virgínia enalteceu as relações humanas estabelecidas dentro dos SPGs, uma relação que permite a troca de experiências, conhecimentos e a melhoria na produção de orgânicos, uma vez que as dúvidas dos agricultores podem ser sanadas em um diálogo direto e próximo. Nos SPGs, a identidade cultural dos agricultores é respeitada e levada em conta na hora de pensar nos processos da certificação, uma lógica longe de ser atendida pela certificação por auditoria.

Virgínia propôs como desafio a simplificação dos formulários de certificação e deixou como perspectiva para um futuro próximo a aproximação entre Brasil e Chile, após a assinatura do memorando de intenções, que na prática deverá permitir a circulação de certos produtos orgânicos entre os dois países com o mesmo selo de garantia. Atualmente, se um produtor orgânico brasileiro quer comercializar seu produto no Chile, ele precisa contratar uma certificadora que esteja credenciada lá para que o seu produto seja reconhecido pelas normas chilenas, e vice e versa. A futura equivalência dos selos promete abrir portas e baratear os custos da importação para os produtores orgânicos.

Em seguida, Laércio Meirelles assumiu o microfone e contou a história da Certificação Participativa no Brasil, desde a década de 1980. Ele lembrou que os SPGs surgiram pelo desejo de desburocratizar, baratear e dar autonomia aos agricultores, mas infelizmente o reconhecimento da certificação participativa por parte do Estado tem distanciado os SPGs desse objetivo, por burocratizar demais o processo. Segundo Laércio, “a Agroecologia e o Estado não são filhos do mesmo pai e mãe. A Agroecologia é um filho anarquista”, e essa distância dificulta a relação entre ambos. Para ele é preciso haver mais legitimidade social e equilíbrio entre busca por regulamentação e fiscalização.

Romeu LeiteRomeu Leite, do Fórum Brasileiro de SPG e que também é produtor orgânico, retomou no debate o desequilíbrio entre o Estado e as iniciativas de certificação participativa. Na lógica do Estado, através do Ministério da Agricultura, as inconformidades na produção de orgânicos precisam ser punidas, por exemplo, enquanto nos SPGs, essas falhas procuram ser resolvidas com educação e orientação, num diálogo aberto entre produtores e certificadores. “O SPG é um processo social que não tem como objetivo simplesmente gerar um selo de credibilidade orgânica, mas é um processo educativo, de construção coletiva do conhecimento em que agricultores, consumidores e técnicos, todos juntos, vão trocar experiências e construir juntos o conhecimento agroecológico”, conta.

Por fim, ressaltou uma característica única dos SPGs: a possibilidade de adaptação do processo de certificação de acordo com cada realidade local. Um exemplo disso é o que vem acontecendo com as comunidades indígenas do Xingu, primeiro SPG indígena do país. Nesse processo inédito, a formação e os formulários dos agricultores tem um formato muito mais visual, por meio de desenhos que demonstram o plano de manejo e a produção de cada unidade. Um formato que funciona muito melhor para aquela realidade cultural. Segundo Romeu, essa possibilidade de adaptação é importante porque para o perfil do agricultor familiar o excesso de burocracia só atrapalha o avanço dos SPGs. 

Sabendo disso, o coordenador do Fórum Brasileiro de SPG afirmou que a entidade tem discutido a simplificação da documentação para o credenciamento dos agricultores orgânicos, a fim de democratizar ainda mais esse sistema.

Na segunda parte do evento, o público pôde conhecer três SPGs que existem na América Latina. A Tijtoca Nemiliztli, do México, representada pelo agricultor Fernando George Pluma; a Paraguay Orgánico, apresentada pela Daniela Solís e a Rede Ecovida de Agroecologia, representada pela agricultora Tânea Mara Follmann.

Fernando George PlumaFernando e Daniela explicaram o funcionamento das suas redes de SPG e apresentaram o Daniela Solíspanorama da certificação participativa e da produção de orgânicos nos seus países, seus avanços e desafios a serem enfrentados. Com a fala de encerramento, Tânea Mara Follmann, coordenadora do Núcleo Litoral Catarinense da Rede Ecovida,  explicou o funcionamento do processo de certificação na Rede e detalhou o passo a passo para a entrada de

Tânea Mara Follmann

Tânea lembrou também da importância da relação entre os agricultores e grupos da região e ressaltou que antes de ser uma rede de certificação, a Ecovida é uma rede de Agroecologia. Ela concorda que o principal desafio dos SPGs hoje é a questão da documentação necessária para a certificação que por vezes acaba sendo muito extensa. “É cada vez maior a necessidade de comprovar o que você faz e convencer as pessoas de que o que você faz é bom e está dentro de normas. Isso tem estado cada vez mais presente e causa um desgaste em todo o processo, porque é como se te colocassem em dúvida a todo momento”.

Por outro lado, Tânea conta que com as reuniões de grupos, de núcleos e os encontros anuais promovidos pela Rede, os frutos do SPG ultrapassam a certificação: “existem experiências que são trocadas ali onde se aprende muito entre agricultores. O SPG promove uma visibilidade e aproxima os agricultores das pessoas que consomem e gera um movimento muito legal que é, com certeza, uma conquista para os agricultores”. 

A agrônoma Cassiele Lusa Mendes Bley, que atua na Epagri de Antônio Carlos, veio ao debate e conta que conhecer melhor os processos de certificação da Rede Ecovida foi essencial. Atualmente no município é feita somente a certificação por auditoria, mas existe a vontade de criar um grupo de SPG, principalmente depois das últimas mudanças na legislação sobre certificação orgânica, “agora está muito mais rígida principalmente para o pequeno produtor, então eles vem buscar essas informações e a gente tem que ter uma outra alternativa, algo melhor para oferecer”, conta Cassiele.

O Secretário de Agricultura e Meio Ambiente de Antônio Carlos, Osvaldino Gesser, também participou do debate e ressalta a importância de promover a agricultura ecológica através das dinâmicas de SPG junto aos trabalhadores rurais do município. “Temos uma preocupação com a saúde dos nossos agricultores e agricultoras, além do cuidado com o meio-ambiente”, afirma o Secretário, que relata que casos de câncer de pele e depressão têm se tornado cada vez mais comuns em Antônio Carlos.

 

Lutas das mulheres e de Povos e Comunidades Tradicionais dão o tom do Encontro de Donatários da IAF no Brasil

O capricho da bolsa de algodão agroecológico produzida pelas mulheres do Quilombo Gurutuba, no Norte de Minas Gerais, distribuída aos participantes do Encontro de Donatários Brasil da IAF, refletia o cuidado e a atenção com que a equipe do Centro de Agricultura Alternativa do Norte de Minas (CAA-NM) organizou o evento, realizado em Montes Claros de 6 a 10 de março. Com foco na temática de Gênero e fomentando a participação de representantes de Povos e Comunidades Tradicionais – indígenas, quilombolas, extrativistas -, o Encontro reuniu cerca de 60 pessoas de 14 estados do Brasil onde a Fundação Inter-Americana (IAF) apoia projetos de desenvolvimento local. O Cepagro esteve presente no evento trocando experiências e também facilitando uma roda de conversa sobre Sistemas Participativos de Garantia (SPG).

A coincidência da data com a Semana da Mulher – em que pautas como violência e igualdade de gênero vêm mais à tona – ressaltou a importância de projetos que promovem a inclusão e o protagonismo de mulheres na parte produtiva, no associativismo, na organização social e na comercialização, como afirma David Ivan Fleischer, representante da IAF no Brasil: “Frente aos crescentes índices de violência contra a mulher e à estagnação dos indicadores de exclusão social delas no Brasil, a gente tem buscado aumentar o número desses projetos para promover mais igualdade entre homens e mulheres”.

A Marcha das Mulheres de Montes Claros entrou na programação do Encontro.

Mais do que apresentar e conhecer experiências, o Encontro também dedicou parte de sua programação à análise de conjuntura e ao debate teórico com enfoque de Gênero. A abertura do evento, por exemplo, foi dedicada à análise do atual contexto sociopolitico do Brasil e seus impactos nas organizações sociais e na participação feminina a partir da análise ou da trajetória de cinco mulheres: Marilene Alves de Souza (CAA), Cláudia Luz (professora da UNIMONTES), Brígida Salgado (da COOPERBIO), Maria de Lourdes Gomes de Lima (CENEP-PB) e Tereza Felipe da Costa, do Movimento Nacional de Catadores de Materiais Recicláveis.

Com diferentes linguagens e baseadas em suas experiências de vida únicas, todas abordaram o tema do atual desmonte de políticas públicas em curso no Brasil, ressaltando a importância da retomar a mobilização social e a participação política da sociedade organizada.

Leninha, do CAA-NM, demonstrou como as organizações da sociedade civil cresceram durante os governos de centro-esquerda com recursos governamentais, através de chamadas e editais públicos. Com a diminuição dessas fontes de financiamento e a saída de muitas cooperações internacionais do país, as organizações têm-se voltado para estratégias em níveis municipais e estaduais, além de estabelecer alianças entre países latino-americanos. “Além disso, não podemos perder a indignação nem a autonomia”, completa.

“Vamos ter que começar tudo de novo, encontrar novas formas de luta para que as próximas gerações possam viver num país democrático”, disse Maria de Lourdes, formada em História e que lutou por décadas pelos direitos políticos de mulheres em sindicatos e outras organizações na Paraíba. Aos 83 anos, Tereza Felipe da Costa faz outro chamado importante: que a juventude se empodere da política. “Não podemos deixar o país nas mãos da 3ª idade”, completou a líder comunitária da Zona Leste de São Paulo.

Tereza Felipe da Costa: “Que golpe é esse? Todos somos responsáveis por ele. Podemos escolher lutar contra. As únicas coisas que não pude escolher na vida foram: nascer mullher, negra e no Brasil.”

Do debate e da troca de experiências para a prática, o segundo dia do Encontro foi dedicado a visitas de campo: nas agroindústrias de processamento de polpas de frutas e de buriti da Cooperativa Grande Sertão e à Área de Experimentação e Formação em Agroecologia do CCA-NM. Fundada em 2003 através de articulação do CAA-NM com um coletivo que se organizava desde 1994, a Cooperativa de Agricultores Familiares e Agroextrativistas Grande teve apoio da IAF para trabalhar o beneficiamento e processamento de frutas nativas. Em 2012, com financiamento do BNDES – o primeiro para empreendimento de agricultura familiar no Brasil – a Cooperativa fundou a planta de processamento de óleos vegetais, cujo carro-chefe é o de buriti. “Inicialmente o financiamento era para produção de biodiesel. Mas então pensamos: por que nao produzir óleo para um alimento diferenciado, ao invés de biodiesel?”, conta José Fábio Soares, agricultor e um dos diretores da Cooperativa.

Atualmente, a cadeia produtiva do buriti articulada pela Cooperativa Grande Sertão envolve cerca de 600 famílias de 10 municípios do Norte de Minas. As famílias cooperadas receberam capacitação para beneficiamento do fruto e fornecem a raspa – matéria-prima para extração do óleo – para a Cooperativa. A empresa de cosméticos Natura é um dos principais parceiros comerciais da Cooperativa. Do buriti, tudo se aproveita: a casca vira ração para os animais e da torta da raspa produz-se farinha.

No caso das frutas nativas, 200 famílias de 26 municípios do Norte de Minas fornecem as colheitas de seus quintais para a Cooperativa Grande Sertão. Nas 8 agroindústrias da Cooperativa são processadas cerca de 250 toneladas de frutas por ano, resultando em 17 sabores de polpas agroecológicas, cujo principal mercado é o Programa Nacional de Alimentação Escolar. A lógica das famílias cooperadas, entretanto, é priorizar a Segurança Alimentar: “Primeiro encher nossas barrigas, depois vender o excedente”, explica Aparecido Alves de Souza, da diretoria da cooperativa. A organização de uma OPAC para certificação das frutas nativas e das polpas é um dos próximos passos da Cooperativa e do CAA.

Na AEFA – que “não é do CAA, é dos agricultores e agricultoras”, como explicou Neucy Fagundes, da equipe técnica da organização – são cultivadas e estudadas mais de 600 espécies de plantas medicinais, além de 16 variedades de milho crioulo (estudo feito em parceria com a EMBRAPA, EMATER e UFMG). A unidade conta também com uma planta de beneficiamento de polpa de frutas e com um banco de sementes crioulas, guardando variedades de feijão, milho, sorgo, amendoim, girassol e favas. “Temos muito cuidado para saber de onde vem as sementes, para evitar contaminações”, explica Antônia Antunes da Silva Reis, secretária-executiva do CAA e moradora do  Quilombo Gurutuba. Além do risco de contaminação por transgênicos, outro desafio enfrentado para preservação das sementes são as mudanças climáticas: nos últimos 5 anos, as alteraçoes no regime das chuvas “faz o agricultor perder o tempo das sementes”, conta Antônia.

Outro momento intenso de trocas de experiências foi na oficina com o mestre de plantas medicinais Honório Dourado, que também integra a diretoria do CAA.

A participação de um grupo de jovens Xakriabá trouxe uma energia especial para a visita. Além de compartilharem seus cantos e danças, as/os jovens fizeram também uma roda de conversa com as/os participantes do Encontro, contando sobre sua luta em defesa de seu território e modos de vida. A população Xakriabá soma cerca de 11 mil pessoas no Norte de Minas Gerais.

 

As jovens lideranças Xakriabá compartilharam toda sua força e energia para seguir na luta pela defesa de seus territórios e modos de vida.

Coisas de mulher, coisas de homem: conversas e oficinas

Com a proposta de introduzir a discussão conceitual sobre relações de gênero, a professora do Curso de História da UNIMONTES Cláudia Maia foi convidada para facilitar uma oficina sobre o tema. Através de dinâmicas e uma apresentação dialogada, a professora construiu com as/os participantes o entendimento de que ser “mulher” ou “homem” – e os comportamentos e características atribuídos a esses sujeitos – é muito mais uma construção cultural e social do que condições naturais. Além disso, ela também explicou a importância de se considerar variáveis como classe social e etnia junto com a de gênero – se as mulheres são discriminadas, por exemplo, as brancas ainda são menos do que as negras. Quanto aos projetos voltados a mulheres, ela chama atenção para relações de poder baseadas no gênero que ainda atribuem o trabalho doméstico às responsabilidade femininas – logo, é preciso transformar essas relações também para não gerar mais sobrecarga para as mulheres. “Trabalhar na perspectiva de Gênero não significa só incluir mulheres em outras dinâmicas produtivas, mas transformar relações de poder”, explica a professora.

Neste sentido, iniciativas como a Campanha pela Divisão Justa do Trabalho colaboram para superar o desafio de conciliar a participação social e a geração de renda entre mulheres com outros afazeres historicamente considerados “femininos”. Essa foi uma das considerações das oficinas sobre ORGANIZAÇÃO SOCIAL COM ENFOQUE DE GÊNERO, uma das temáticas trabalhadas durante o encontro. As outras foram: Mobilização da Juventude e Produção e Comercialização.

 

Cepagro media troca de experiências sobre SPG

Fechando o Encontro, Charles Lamb e Erika Sagae, da equipe técnica do Cepagro, facilitaram uma oficina sobre Sistemas Participativos de Garantia (SPG). Após uma exposição inicial sobre o histórico dos SPGs e as dinâmicas de funcionamento da Rede Ecovida de Agroecologia, foi aberto um espaço para que participantes de diferentes redes de certificação apresentassem um pouco de sua experiência. Gilmar Batista de Souza, da Cooperafloresta; Tânea Mara Follmann, do Núcleo Litoral Catarinense e Paula Cristina dos Santos dos Núcleos Alto Uruguai e Planalto RS da Rede Ecovida de Agroecologia, e Tiago Tombini da Silveira, da Rede Povos da Mata, falaram sobre os desafios e aprendizados de seus grupos nas dinâmicas do SPG, como a certificação de produtos do extrativismo, a lida burocrática e o fortalecimento dos mecanismos de controle social (reuniões e encontros).

ECOFEST Trujillo fortalece articulação latinoamericana pela Agroecologia

A marinera trujillana, bailado típico do norte do Peru, embelzou a abertura do ECOFEST. Foto: Cecília Saito (Comunicação – MINKA)

Realizado de 2 a 4 de fevereiro em Trujillo, no norte do Perú, o Festival Agroecológico Internacional ECOFEST foi promovido pela MINKA – organização parceira do Cepagro no Projeto SABERES NA PRÁTICA EM REDE – e reuniu mais de 200 pessoas, entre agricultoras e agricultores, estudantes, educadores, técnicos de campo, nutricionistas e donos de restaurantes. Além do Cepagro, foram convidadas também CETAP (Brasil), o Centro Campesino A. C. e Tijtoca Nemiliztli (México), Asociación de Productores Orgánicos (APRO – Paraguay) e  Fundesyram (El Salvador), todas participantes do projeto, que é apoiado pela IAF. “O grande objetivo do ECOFEST foi promover os produtos agroecológicos, para que as pessoas os conheçam. Tivemos bastante cobertura da imprensa, e certamente nossas demandas chegaram por aí às autoridades”, disse William Siapo, coordenador de projetos da MINKA. “Em Trujillo, com MINKA, cada vez mais produtores têm essa visão da agroecologia e estão trabalhando com outros para melhorar a qualidade de seus solos, água, ar, produzindo alimentos que fazem bem para suas próprias famílias e daqueles que os consomem”, explica Miriam Brandão, representante da IAF no Peru.

Charles Lamb, do CEPAGRO, na abertura do ECOFEST, junto com representantes do FUNDESYRAM, IAF e CENTRO CAMPESINO. Foto: Cecília Saito (Comunicação – MINKA)

Além de trazer mais visibilidade para a Agroecologia, o evento debateu questões como a certificação de alimentos agroecológicos, comercialização, as relações entre gastronomia e saúde e também abriu espaço para a Rede Ecovida de Agroecologia. O Cepagro esteve presente em todas as mesas, da abertura ao encerramento do evento.  Trazendo um panorama sobre a Agroecologia na América Latina, Charles Lamb, coordenador do projeto SABERES NA PRÁTICA EM REDE, ressaltou que a Agroecologia é mais do que um modo de produção de alimentos limpos, mas é um sistema de promoção da vida, em contraposição aos impactos socioambientais negativos da agricultura chamada convencional. Trouxe também dados da FAO que apontam a Agroecologia como alternativa de desenvolvimento sustentável e primordial para a segurança alimentar na América Latina.

No segundo dia, a vice-presidente do Cepagro, Erika Sagae, abriu o painel sobre “Comercialização de Produtos Agroecológicos”, enfatizando a diversificação de estratégias como primordial para a comercialização na Agroecologia. Circuitos curtos, mercados institucionais e feiras foram alguns dos exemplos citados. A nutricionista Cintia Gris, da equipe técnica do CETAP, também participou do debate, trazendo exemplos de grupos de consumidores e feiras agroecológicas articuladas pela organização. “As feiras são mais do que espaços de comercialização, ali também acontecem ricas trocas de experiências e receitas”, disse. Para Victor Hugo Morales, do Centro Campesino de Desarollo Sostenible (México), o envolvimento de consumidores é fundamental para a valorização dos alimentos agroecológicos, que quase sempre têm um preço diferenciado. “As pessoas ainda veem só o preço, e não o valor”, avalia William Siapo, da MINKA. Para Genaro Ferreira Piris, da Asociación de Productores Orgânicos do Paraguay, é importante associar agroindústrias às produção de alimentos agroecológicos, para se ter um aproveitamento integral das colheitas. Durante o painel, a articulação de pequenas células de consumidores foi uma das estratégias apontadas para criar mais conscientização sobre os alimentos agroecológicos, sua valorização, além de envolver consumidores/as no movimento agroecológico. Fechando a programação do dia, as/os participantes conheceram a BioFeira Punto Verde de Huanchaco, articulada pela Minka Verde, e um dos pontos de comercialização da Frutas Selectas, que recebe a produção de diversas famílias de agricultores agroecológicos assessoradas pela MINKA.

Visita à Red de Productores Campiña de la Merced.

A organização MINKA – palavra quechua para falar de “trabalho coletivo” –  presta assessoria em produção agroecológica e articula a comercialização de cerca de 130 famílias de agricultores e agricultoras na região do Valle de Santa Catalina, próximo a Trujillo.

Insumos produzidos pela Red de Productores Campiña de la Merced

Na visitas de campo, as/os participantes do ECOFEST puderam conhecer algumas dessas experiências, tanto em estruturas de produção agroecológica quanto pontos de comercialização. A primeira parada foi na Red de Productores Campiña de la Merced, que produz insumos orgânicos como bokashi líquido e calda bordalesa. Os insumos são fornecidos para produtores de frutas orgânicas, por sua vez comercializadas através do projeto Minka Verde, apoiado pela Inter-American Foundation.

Uma das agricultoras mais interessadas na visita era Ferlinda Isabel Sánchez Córdoba (em pé, foto ao lado), que veio da província de Cajamarca, a 300km de Trujillo, para participar do evento. Ela também é assessorada pela MINKA “para tudo que seja cultivos alternativos, ecológicos. Nas capacitações, aprendemos a usar insumos naturais e também sobre irrigação”, explica Ferlinda, que além de criar animais, cultiva trigo, milho, batatas, grãos e árvores frutíferas, tudo numa propriedade de 3 hectares. Demonstrando muita identidade agroecológica, Ferlinda se denomina “todista”: “porque eu semeio de tudo. Assim, se não me vai bem em alguma safra, tenho de onde tirar minha renda por outro lado. E minha alimentação está assegurada”, afirma a agricultora. “Antes eu trabalhava para outras pessoas, na colheita do milho, por exemplo. Agora, na Agroecologia, eu tenho trabalho na minha própria casa. Não preciso mais trabalhar para os outros”, completa.

Na segunda visita, o público conheceu a produção de morangos e verduras orgânicos na região de Menocucho, próximo a Trujillo. A Asociación de Freseros de Menocucho reúne 12 famílias e comercializa cerca de 400kg de morangos por semana, também articulada pela Minka Verde. O agricultor José Luiz Chavez (foto ao lado) conta que “Minka nos ajuda a ter um mercado estável”. Sobre a produção agroecológica, ele afirma que “ao combater insetos e outros bichinhos, só aumenta a necessidade de uso de mais inseticidas. Na agricultura orgânica, o próprio ecossistema se equilibra. A natureza trabalha junto com o agricultor”. O processo de transição, contudo, não é fácil: José Luiz explica que só depois da 3ª safra é o ecossistema atingiu um equilíbrio razoável para ter uma boa produção. Na propriedade da família de José Luiz também são produzidas mudas de tomate, alface e outras verduras.

 

 

 

 

 

Certificação gera grande interesse no público
Com uma apresentação inicial de Claudete Ponath, agricultora do Núcleo Litoral Catarinense da Rede Ecovida de Agroecologia, a Certificação de Alimentos Orgânicos – especialmente no Sistema Participativo – foi debatida no primeiro dia de programação ECOFEST. Claudete trouxe um histórico da certificação no Brasil, enfocando nos princípios do sistema participativo (como participação e confiança) e falou também sobre a dinâmica do SPG da Rede Ecovida de Agroecologia, enfatizando os mercados locais e a mobilização social. Dentre os desafios apontados ao longo da discussão, a contaminação das propriedades agroecológicas por resíduos de agrotóxicos foi um dos principais. Participaram no debate Genaro Ferreira Piris, da Asociación de Produtores Orgánicos de Paraguay; Fernando George Pluma, da Tijtoca Nemiliztli A. C. – TNAC “Sembramos Vida” (México) e Salvador Sanchez da Asociación Regional de Produtores Ecológico de La Libertad (ARPELL). Tanto APRO quanto TIJTOCA inspiraram-se na Rede Ecovida de Agroecologia para desenvolverem seus SPGs. “Buscamos esta construção para atender à demanda de uma certificação que estivesse ao alcance dos pequenos agricultores”, disse Genaro.

Educação agroecológica e Políticas Públicas para Agroecologia: demandas do ECOFEST TRUJILLO

Durante o evento, a ausência de representantes do Poder Público foi sentida e apontada em diversos momentos. Ao mesmo tempo, foram apresentadas experiências que demonstram a importância de políticas públicas para o desenvolvimento da agricultura familiar, agroecológica e de pequena escala, como é o caso do Brasil. Neste sentido, reforça-se a demanda pela construção de políticas públicas de apoio à produção e comercialização de alimentos orgânicos e agroecológicos. Também convidou-se o público a contribuir na construção do Consejo Regional de Produtores Orgânicos de a Libertad junto à Gerência Regional de Agricultura, assim como a pressionar as autoridades para que efetivem a doação de um espaço para o Centro Educativo de Agricultura Orgânica. A partir da experiência brasileira, percebemos a importância da participação da sociedade civil em espaços de controle social, como os conselhos, para incidir na construção de políticas públicas.

A demanda por uma perspectiva agroecológica na Educação – tanto de agricultores para a adoção de práticas de manejo agroecológicas como de consumidores/as para priorização de uma alimentação saudável – foi apontada em vários painéis. Como estratégias, foram citadas a implantação de hortas escolares e comunitárias, além do trabalho direto com consumidores/as através de campanhas e também em feiras, assim como a instalação de “puntos verdes” de alimentos saudáveis nas escolas.

 

Cepagro participa de Festival Agroecológico no Peru

De 2 a 4 de fevereiro, membros da equipe Cepagro participam do ECOFEST TRUJILLO, festival agroecológico internacional promovido pela organização MINKA PERÚ, parceira no Projeto Saberes na Prática em Rede. O evento reúne em Trujillo, no norte peruano, representantes de organizações e especialistas em Agroecologia e Alimentação Saudável do Brasil, México, Paraguay, El Salvador, Colômbia e Equador, além dos anfitriões e membros da IAF, que apoia a maioria das organizações presentes.

Na abertura do evento, na próxima sexta (2 de fevereiro), o coordenador de Desenvolvimento Rural Sustentável do Cepagro, Charles Lamb, abordará o tema AGROECOLOGIA NA AMÉRICA LATINA. No sábado, 3 de fevereiro, a vice-presidenta do Cepagro, Erika Sagae, falará sobre COMERCIALIZAÇÃO DE ALIMENTOS AGROECOLÓGICOS. Estarão presentes nas mesas as organizações: Centro Campesino de Desarollo Sostenible (México), APROFUNDESYRAM e CETAP,  parcerias do Cepagro no projeto SABERES NA PRÁTICA EM REDE.

Acompanhe a cobertura no blog e na fanpage do Cepagro.