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I Encontro de Mulheres da Rede Ecovida reafirma: Sem Feminismo, não há Agroecologia

O que significa trazer um olhar de gênero para o trabalho em Agroecologia? O que significa dizer que Sem Feminismo, não há Agroecologia? Como levar esses debates para os grupos de agricultoras? Como fortalecer a participação e o protagonismo das mulheres na Rede Ecovida de Agroecologia?
Essas foram algumas das questões discutidas durante o I Encontro de Mulheres da Rede Ecovida de Agroecologia, realizado entre os dias 19 e 21 de setembro em Erechim (RS). Promovido com apoio da Embrapa Pelotas e do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), o Encontro reuniu companheiras de 12 núcleos dos três estados do Sul do Brasil, que discutiram conceitos, analisaram a conjuntura atual e pautaram encaminhamentos para a Rede Ecovida de Agroecologia, que, segundo as mulheres, deve colocar-se novamente como movimento de resistência.

No primeiro dia do Encontro, as mulheres trouxeram relatos sobre a discussão de gênero e o protagonismo feminino em seus núcleos. A diversidade de situações relatadas foi grande: da existência de grupos de agroecologia majoritariamente femininos a outros em que as mulheres praticamente não participam; da violência física e psicológica a agricultoras e coordenadoras de núcleos à paridade de gênero nas coordenações. Mesmo neste quadro tão diverso, foi consensual que é preciso estimular e garantir a participação das mulheres em todos os espaços de decisão da Rede Ecovida, dos grupos ao Encontro Ampliado, fortalecendo a discussão sobre gênero e envolvendo os companheiros homens neste debate também. Só assim será possível promover relações sociais mais justas e livres de qualquer tipo de violência, pressuposto básico da Agroecologia.

As participantes construíram um Rio da Vida das Mulheres da Rede Ecovida, fazendo um resgate histórico de suas trajetórias pessoais e também de coletivos feministas no movimento agroecológico. Durante a dinâmica, ficou claro como as lutas empreendidas por mulheres desde as décadas de 1980 ao início dos anos 2000 resultaram num crescimento da discussão sobre gênero e feminismo na Agroecologia após 2005 – 2010. Conquistas históricas como a da documentação e da aposentadoria para trabalhadoras rurais, empreendidas há mais de 30 anos, foram seguidas pelo crescente acesso feminino ao ensino técnico e superior, além da formação de setoriais de mulheres e de gênero dentro de movimentos como o MST e a criação de políticas públicas como ATER Mulheres e a priorização da atuação de técnicas mulheres no ATER Agroecologia, que contribuíram para que as demandas das mulheres ganhassem espaço e visibilidade.

Buscando promover relações de gênero mais justas no âmbito da Rede Ecovida, as mulheres traçaram encaminhamentos que serão apresentados no próximo Encontro Ampliado, que será realizado entre os dias 15 e 17 de novembro de 2019, em Anchieta, Oeste de Santa Catarina.

O que é “Sem Feminismo, não há Agroecologia” para as mulheres da Rede Ecovida?
Construindo coletivamente a compreensão de que os papéis e padrões de comportamento relacionados ao gênero na nossa sociedade – que definem o que é “coisa de mulher” ou “coisa de homem” – são na verdade construções sociais e históricas, e que o(s) Feminismo(s) busca(m) romper com esses padrões e pautar relações mais igualitárias,  as mulheres da Rede Ecovida debateram o lema que vem sendo cada vez mais ouvido no movimento agroecológico: Sem Feminismo, não há Agroecologia.

Para a tecnóloga em Agroecologia Andressa Aparecida Martins, da equipe técnica do CETAP, o Feminismo está no tripé básico de princípios da Agroecologia. “A Agroecologia deve ser economicamente viável, ambientalmente sustentável e socialmente justa. Sem o Feminismo, não tem como ser socialmente justa”, afirma.

Para a agricultora e técnóloga em Agroecologia Daniela Calza, do Paraná, “Sem Feminismo não há Agroecologia porque não é possível a produção de alimentos saudáveis com respeito à natureza, ao bem estar animal, mas com relações doentes. A Agroecologia contempla questões sociais, culturais. Se a gente tem a exploração de um ser humano por outro, não é Agroecologia”. Daniela integra a Cooperativa de Produção Agropecuária Vitória (COPAVI), de Paranacity, que já vem pautando a participação igualitária de mulheres . “A cooperação e a Agroecologia proporcionam independência e autonomia das mulheres, tanto na questão financeira quanto no poder de decisão”, completa Daniela.

Maria Paula Perucci, de Santa Catarina, acredita que Sem Feminismo, não há Agroecologia porque “uma rede de Agroecologia é também um movimento social que propõe novo modelo de sociedade. Só vamos chegar a essa nova sociedade quando terminarmos com a sobrecarga das mulheres pelo trabalho doméstico, vencermos as barreiras de violência doméstica e ocuparmos todos os lugares. E nosso lugar é onde a gente quiser. Por isso, feminismo e agroecologia andam juntos”.

A agricultora Jane Matos é a primeira mulher a ocupar a coordenação de seu Núcleo, o Serra, do Rio Grande do Sul, que tem mais de 300 famílias. “Temos feito esse movimento das mulheres participarem de todas as assembleias e momentos de decisão do nosso Núcleo. Tínhamos poucas mulheres participando, mas estamos buscando fortalecer e cativar mais companheiras. Quando eu chego numa propriedade, sempre pergunto: ‘onde está sua senhora?’, para que as mulheres participem também das visitas”. Ela conta que aprendeu sobre Feminismo e Agroecologia na prática, com sua avó. “Ela praticava a Agroecologia e tinha uma ideia de direitos igualitários com os homens. Era a prática da vida dela. E é  esse querer que eu tenho, que o Feminismo e a Agroecologia estejam juntos”. Para Jane, “nós mulheres precisamos ocupar nossos lugares, sem ter esse preconceito que queremos ocupar o lugar dos homens. Queremos caminhar junto, lado a lado”, completa.

A engenheira florestal e agricultora Meri Diana Strauss Foesch afirma que “o feminismo busca a igualdade, e hoje buscamos que as mulheres participem em seus núcleos e na rede. As mulheres têm muito conhecimento a buscar e compartilhar. Precisamos defender o feminismo para criar uma sociedade mais igualitária, para ter desenvolvimento sustentável, para assegurar direitos como saúde, educação, agricultura ecológica, com tecnologias ecológicas e com a participação de todas e todos”.

Aghata Cristie Rewa Charnobay é técnica de extensão do Laboratório de Mecanização Agrícola da Universidade Estadual de Ponta Grossa e veio ao Encontro para conhecer o trabalho da Rede Ecovida e de suas mulheres. “Quero colaborar para as mulheres se empoderarem mais nesse mundão”, conta. “Sem Feminismo, não há Agroecologia porque a Agroecologia vem como mudança de sociedade, movimento e também ciência. É a gente entender e estudar o todo, sem excluir relações. E a mulher é grande parte dessas relações. E falamos muito de transformação. Pra mudar o mundo, precisamos mudar nós mesmo. Debater o Feminismo na Agroecologia é importante para mudar as mulheres, os homens e consequentemente o todo”.

A tecnóloga em Agroecologia e assentada da Reforma Agrária Rosângela de Fátima Rodrigues avalia que “hoje vivemos no sistema capitalista, que abriga o agronegócio. Nesses sistemas as mulheres somos exploradas, humilhadas e ofendidas, verbalmente e fisicamente. Se não tiver o Feminismo, se não lutarmos por nossos direitos, por igualdade, não tem Agroecologia. Porque a Agroecologia trabalha com a vida, com respeito, diversidade, cuidado do meio ambiente, o cuidado com o outro. Pra mim não há Agroecologia, sem o Feminismo. E esses são os nossos espaços, de voz e de vez, se sermos escutadas e valorizadas enquanto mulheres”.

 

 

 

 

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Encontro do Núcleo Litoral Catarinense renova princípios da Rede Ecovida de Agroecologia

“A alma da Rede Ecovida de Agroecologia são seus princípios, não a certificação”. A fala da agricultora Claudete Ponath, de Piçarras (SC), enfatiza que, muito além de emitir certificados de orgânico, a  Rede Ecovida existe porque há confiança, participação, transparência e organização de base entre famílias. Esses e outros princípios foram retomados e renovados durante o 13º Encontro do Núcleo Litoral Catarinense da Rede Ecovida de Agroecologia, realizado em Porto Belo no último final de semana, dias 24 e 25 de agosto de 2019. Mais de 130 pessoas participaram do Encontro, trocando conhecimentos, sementes e muita disposição para seguir trabalhando por uma agricultura limpa e amiga da Natureza.

A conversa sobre os princípios da Rede emerge num contexto em que, a partir do Fórum Brasileiro de Sistemas Participativos de Garantia, torna-se necessário incluir equidade de gênero e geração entre os princípios dos SPGs no país. “Isso significa que precisamos falar sobre Gênero e Geração no nosso Núcleo. Por termos uma coordenação com bastante mulheres ao longo de vários anos, pode parecer que não é preciso falar sobre isso. Mas não é verdade”, avalia Claudete, escolhida também como nova coordenadora do Núcleo, entrando no lugar da agricultora Tânea Mara Follmann, de Águas Mornas.

Troca de conhecimentos nas palestras e oficinas do Encontro
Além de momentos de celebração, os Encontros de Núcleo são espaços de troca e construção de conhecimentos.

A primeira palestra do Encontro foi no sábado 24, com o coordenador da Casa da Semente de Mandirituba (PR), Hans Rinklin. Após abordar o contexto de erosão genética em que vivemos atualmente, perdendo cerca de 10 variedades de sementes TODOS OS DIAS, além do controles de 66% da produção mundial de sementes por apenas 3 multinacionais, Hans apresentou o trabalho da Casa de Sementes e dos grupos de guardiões como uma alternativa para conservar a biodiversidade. “Sem semente, não há possibilidade de vida humana”, disse.

A Casa de Sementes existe desde 2011, articulando grupos de agricultores/as dispostos/as a conservar e multiplicar variedades de sementes crioulas e nativas. Mais do que um banco de armazenamento, a Casa promove também atividades de capacitação e acompanhamento de análises de sementes. Através de uma parceria com a Rede Sementes da Agroecologia, apoia a construção das Festas das Sementes no Paraná, além de realizar incidência política. Fechando a conversa, Hans afirmou: “A conservação das sementes e da agrobiodiversidade não é tarefa só dos/as agricultores/as. É de toda a sociedade, do campo e da cidade”.

Na sequência, os grupos do Núcleo Litoral fizeram sua apresentação.

Tecnologias sustentáveis de produção de hortaliças foi o tema da palestra do agrônomo Euclides Schallenberger, da Epagri de Itajaí.  Ao longo de uma hora com muitas informações, Schallenberger falou sobre propiciar boas condições ambientais para as plantas crescerem saudáveis, além de técnicas de manejo integrado, controle biológico e controle químico para doenças e “pragas” nos cultivos. “Não basta só não usar veneno. Para ter sucesso no cultivo orgânico, é preciso manter a planta em condições ótimas, criando também condições ruins para insetos e bactérias”, disse o agrônomo. Ao final de sua apresentação, Schallenberger falou sobre a nova proposta do ICMS Verde, prorrogada para entrar em vigor só no final de dezembro deste ano e que taxará com ICMS de 17% os agrotóxicos mais perigosos, reduzindo esta alíquota até 0%, no caso de produtos biológicos, permitidos na produção orgânica. “Isso mantém nosso custo de produção baixo, se comparado com o convencional”, disse.

As oficinas, no domingo de manhã, trataram de temas como: preparados biodinâmicos, adubos verdes, plantas alimentícias não convencionais (PANCs), comercialização e organização de consumidores/as e planejamento de produção e gênero.

Pra quem precisava relaxar e se cuidar um pouco, a Oficina Cuidar de Si foi o espaço certo para isso.

 

Trocas e intercâmbios durante o Encontro

Ao longo de todo o evento, a Feira de Saberes e Sabores era o espaço de trocas e conversas em meio à produção agroecológica do Núcleo Litoral Catarinense.

Assim como em anos anteriores, em 2019 o Encontro do Núcleo teve participações externas. Uma delas é dos companheiros da organização Fundesyram, de El Salvador, José Jesús Cordoba e Juan Antônio Ruiz, que vieram a Santa Catarina participar de diversas atividades conjuntas com o Cepagro. Além de trazer um pouco da experiência em Agroecologia do seu país natal, eles compartilharam também sementes, afinal “nosotros los agricultores agroecológicos somos todos hermanos”, disse José Jesus. A Fundesyram é parceira do Cepagro no projeto apoiado pela IAF.

Também participaram neste Encontro a turma da Rede Plantar para a Vida, de Sergipe, que está sendo assessorada por membros do Núcleo Litoral para compor seu SPG. O agricultor e estudante de Agronomia Elvis Valentim Lisboa era um dos membros da comitiva e conta que se sentiu em casa durante o Encontro. “Vimos que temos muita coisa parecida com os/as agricultores/as daqui”, disse. Elvis relata que a Rede surge a partir de uma articulação entre grupos de agricultores que fazem feira na região do município de Lagartos: “como grupo, temos mais impacto na comunidade”, afirma. Durante o Encontro, algo que o marcou bastante foi a diversidade: de pessoas, de interesses, de cultivos e de culturas. Leva para Sergipe os aprendizados que teve durante a oficina de Planejamento de Produção, com a equipe do LACAF.

A técnica do Sebrae Luciana Oliveira Gonçalves acompanha a Rede sergipana e conta que por lá os/as agricultores/as seguem os mesmos princípios da Ecovida. Desde 2017 a rede adotou o SPG e em dois anos Luciana já percebeu “a transformação social que causa na vida das pessoas e a melhora da autoestima. Com o processo participativo eles passaram a se relacionar de outra maneira, mais coletiva, fazem mutirões, se ajudam”. 

E é claro que nos encontros do Núcleo não pode faltar um banquete agroecológico. Em meio à diversidade de alimentos preparados pelo Grupo de Agroecologia Costa Esmeralda, que recebeu o evento, apenas três itens não eram agroecológicos.

Plenária do Encontro aborda princípios da Rede Ecovida
A demanda pela inclusão da equidade de gênero e geração estimulou a discussão sobre os princípios gerais da Rede Ecovida durante o Encontro do Núcleo. Representantes de vários grupos falaram sobre cada um dos 9 princípios da Rede: descentralização, confiança, processo pedagógico, formações de redes, participação, olhar externo, organização de base, transparência e adequação à unidade familiar. Atualmente, as questões de gênero e geração foram incluídas somente no Manual de Procedimentos da Rede, num capítulo que trata sobre violações de direitos humanos. Estas infrações podem implicar a perda do certificado e exclusão da Rede – ou seja, diz respeito principalmente à certificação, mas, como disse Claudete: o que move a Rede são seus princípios, eles são a alma da Rede. Neste sentido, continua a demanda por mais discussão dentro desta temática para que seja abarcada também como princípio agroecológico praticado na Rede.

Também foi apresentada a nova equipe de coordenação, com Claudete Ponath na coordenação e Ernande Stolarczk, de Major Gercino, como vice. E o próximo Encontro de Núcleo já tem local: Garopaba.

Porto Belo recebe Encontro da Rede Ecovida de Agroecologia

O Encontro do Núcleo Litoral Catarinense da Rede Ecovida acontece anualmente, reunindo famílias agricultoras que se dedicam à produção sustentável de alimentos orgânicos
Cerca de 150 pessoas, a maioria agricultores e agricultoras orgânicos de Santa Catarina, são esperadas neste final de semana no 13º ENCONTRO DO NÚCLEO LITORAL CATARINENSE DA REDE ECOVIDA DE AGROECOLOGIA, que acontece no Salão da Igreja Nossa Senhora Aparecida, comunidade Sertão de Santa Luzia, em Porto Belo. Na programação, haverá palestras, oficinas e a tradicional Feira de Saberes, Sabores e Sementes, representando a riqueza da agricultura agroecológica de Santa Catarina. O evento, organizado pelo Grupo de Agroecologia Costa Esmeraldas (GACE), começa no sábado, 24 de agosto, às 15h e termina no domingo, 25 de agosto, às 16h. No domingo a programação será aberta ao público.
A mesa de abertura do Encontro, no sábado às 18h, será sobre TECNOLOGIAS EM PRODUÇÃO SUSTENTÁVEL DE HORTALIÇAS, com a participação do agrônomo Euclides Schallenberger, da EPAGRI. No domingo o destaque é para as oficinas, abordando temas como: planejamento de produção, organização de grupos de consumidores e adubos. Durante todo o evento acontece a FEIRA DE SABERES SABORES, com alimentos e artesanato da agricultura familiar agroecológica catarinense. Um delicioso café e almoço agroecológicos serão servidos, a R$ 25 por pessoa. A organização pede confirmação da presença pelo telefone (47) 99720-6930.
O último encontro foi em Biguaçu

O Núcleo Litoral Catarinense da Rede Ecovida reúne cerca de 150 famílias de agricultores e agricultoras de 30 municípios catarinenses. Os Encontros  de Núcleo são realizados anualmente. Já a Rede Ecovida está presente nos três estados do Sul brasileiro, reunindo mais de 4 mil famílias de agricultores e agricultoras agroecológicos.

Celebrado em 25 de julho, Dia Internacional da Agricultura Familiar homenageia quem alimenta o mundo

O Dia Internacional da Agricultura Familiar foi instituído em 2014 pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO). A data lembra da importância dos agricultores e das agricultoras para a alimentação mundial. De acordo com a FAO, entre 70 e 80% dos alimentos consumidos no mundo são produzidos por agricultores e agricultoras familiares e camponeses .

Em Santa Catarina, de acordo com a Síntese Anual da Agricultura publicada pela EPAGRI, o estado ainda caracteriza-se pelo predomínio de pequenas propriedades rurais.  Dos 183.065 estabelecimentos agropecuários do estado, 88,8% tem menos de 50 hectares, sendo que 37% destes estabelecimentos possuem menos de 10 hectares. Dentre os/as trabalhadores/as catarinenses que se identificam como agricultores/as, 84% são familiares.

Mas o que é agricultura familiar?
A categoria “agricultor/a familiar” é regulamentada pela lei 11.326, de 2006, que instituiu a Política Nacional de Agricultura Familiar e Empreendimentos Familiares Rurais, ainda durante o governo Lula. No texto, considera-se agricultor/a familiar quem:
– tem uma área de até 4 (quatro) módulos fiscais [em Santa Catarina isso corresponde a ate´80 hectares de terra]
– utiliza predominantemente mão-de-obra da própria família;
– tem renda familiar predominantemente originada de atividades econômicas vinculadas ao próprio estabelecimento ou empreendimento;
– dirige seu estabelecimento ou empreendimento com sua família.

Enquanto em cadeias produtivas agroindustriais, como frango, suínos e fumo, a agricultura familiar é responsável por grande parte da produção, no cultivo de alimentos orgânicos as famílias que trabalham no campo também têm destaque. No Cadastro Nacional de Produtores Orgânicos do Ministério da Agricultura – que contabiliza todas as famílias que passam por algum processo de certificação da produção – Santa Catarina tem 1.275 unidades de produção orgânica cadastradas, figurando entre os cinco maiores produtores de orgânicos do país. O documento também aponta que o número de agricultores/as catarinenses que se dedicam ao cultivo orgânico aumentou 12,9% entre 2017 e 2018, com o município de Santa Rosa de Lima, nas encostas da Serra Geral, reunindo o maior número de produtores/as.

Em 2017, Leonilda compartilhou sua experiência de vida e trabalho no Seminário “Mulheres e Agroecologia”

Uma das famílias é a da agricultora Leonilda Boeing Baumann. Antes conhecida como “a mulher do professor”, apesar de ter crescido e sempre trabalhado na roça, Leonilda Boeing Baumann agora maneja com seu filho uma propriedade com certificação agroecológica em Santa Rosa de Lima (SC), onde produzem verduras, temperos e chás, mel, geleias e mantêm também a Pousada Vitória. A partir do contato com o projeto Acolhida na Colonia de agroturismo, Leonilda resgatou sua autoestima de ser agricultora. E, com a inserção na Rede Ecovida de Agroecologia, afirma: “Hoje, se tu tem um alimento limpo na tua propriedade pra servir pra tua família, aí está o teu remédio”. 

O filho de Leonilda, Jackson, estudou Agronomia e voltou para trabalhar na propriedade em Santa Rosa de Lima. Participa de feiras e também de atividades da Rede Ecovida de Agroecologia.

E o que mais dizem as/os agricultoras/es sobre a agricultura familiar?

“Eu costumo dizer pro meu esposo que eu nasci pra isso. Nasci pra ser agricultora e produtora orgânica. Porque cada semente que eu planto na terra é com muito amor. Tanto amor, que eu até tenho dificuldade de tirar os alimentos da terra depois”. A agricultora Thaís Teixeira da Rosa, de Porto Seguro (BA), participa há dois anos da Rede de Agroecologia Povos da Mata, que reúne outras 700 famílias agricultoras da Bahia. Neste tempo, ela aprendeu e vem praticando diversas técnicas de manejo agroecológicas, que, combinadas com os saberes tradicionais repassados por suas ancestrais, garante o sucesso de suas colheitas e a diversidade na banca das duas feiras que ela realiza semanalmente. Com o trabalho na agricultura, Thaís e seu companheiro garantem o sustento da família de seis filhos. “Não é fácil”, afirma ela, mas seu amor pela terra não a deixa desistir: “Se não dá certo, eu vou lá e tento de novo”, conta. “Se você trata bem o solo, ele sorri pra você. A terra é como uma filha”, completa.

“A gente sabe que agricultura familiar é pra gente plantar e ter alimentos de saúde pras crianças e escolas. Se possível, orgânico. Porque o convencional anda muito complicado, causando muita doença. Eu acho que as escolas deveriam tudo pegar alimento orgânico. Porque as crianças comerem alimento convencional é muito complicado”. O agricultor Orlando Ribeiro Melo vive e trabalha em Bocaina do Sul, na Serra Catarinense. Participa da Rede Ecovida há 10 anos, quando iniciou sua transição do cultivo convencional para a Agroecologia. “Agroecologia é ter mais saúde para o povo, com alimentos saudáveis e de qualidade”, afirma ele.

E a agricultura familiar caminha com os povos e comunidades tradicionais. Quem dá o recado é Walter dos Santos, liderança quilombola e agricultor do Maranhão. “A gente tem que valorizar o quilombola e a agricultura familiar porque são parceiros que andam juntos. Porque se nós não produzimos, nós não conseguimos nos alimentar e se nós produzimos juntos: tá aí a agricultura familiar. Eu acredito que uma só andorinha não faz verão, mas o povo junto muda a realidade do Brasil.”

Superando um passado de fome e analfabetismo, com apoio de entidades da igreja católica e acessando políticas públicas como o Bolsa Família, o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e o Programa Nacional de Alimentação Escolar, a comunidade quilombola Piqui da Rampa, onde Walter nasceu e cresceu, hoje se sustenta com o que é produzido ali e sabe o valor dos alimentos. “O Bolsa Família fez com que a gente pudesse trabalhar de barriga cheia e aumentou nossa capacidade de conhecimento. E nós só soubemos o quanto valia um kilo de abóbora ou de feijão quando a CONAB chegou aqui e entramos no PAA”, conta. Com três refeições ao dia e alfabetização, a comunidade alcançou autonomia e conquistou espaços institucionais, como o Conselho Estadual de Segurança Alimentar e Nutricional, onde Walter ocupa um assento, e a universidade pública, com várixs jovens da comunidade tendo acesso. Dois são filhxs de Walter: Valdenice, que está cursando o Mestrado em Ciências da Saúde na Universidade Federal do Maranhão, e Waldey, estudando Agronomia também na UFMA.

“Nasci e me criei na roça. Agricultura Familiar pra mim é trabalhar a terra com carinho, produzir alimentos saudáveis pra nossa população. A gente sabe que 70% dos nossos alimentos vêm da agricultura familiar. Pra mim é tudo isso: produzir alimentos saudáveis com respeito ao meio ambiente”, afirma Lindomar Lins, agricultor do município de São Gabriel, no sertão baiano.

Ele sempre trabalhou na agricultura, e até 2011 cultivava somente pepino e beterraba em sua propriedade, utilizando adubos químicos e agrotóxicos. Através da sensibilização e assistência técnica da empresa pública de assistência técnica, Lindomar iniciou sua transição agroecológica. Com o estabelecimento da Rede Povos da Mata na região a partir de 2016, Lindomar pôde certificar sua produção como orgânica. Hoje, ele produz de 40 a 45 variedades de alimentos numa área de apenas 1,5 hectare, que tem tanto uma horta diversificada quanto um Sistema Agroflorestal. A observação do ciclo natural dos cultivos somada ao uso racional da irrigação com cobertura de solo e à produção própria de adubos e insumos orgânicos colabora para as colheitas de Lindomar, que faz 3 feiras orgânicas por semana na região. “É só entender a Natureza e trabalhar com ela que dá tudo certo”, afirma o agricultor. 

Para Carmem Munarini, agricultora e membra do Movimento de Mulheres Camponesas, “ser agricultora familiar é trabalhar junto com minha família lá na roça, lá no interior. É se organizar e ter direito também a mandar. Não deixar só os filhos e o marido mandarem, mas ter o direito também de participar nas decisões da família e nas decisões do trabalho da agricultura familiar”.

 

Rede Povos da Mata fortalece a Agroecologia na Bahia

Consolidada em 2016, a Rede Povos da Mata reúne hoje 700 famílias agricultoras de 4 regiões da Bahia. Nos dias 12 e 13 de julho foi realizado o II Encontro da Rede, em Irecê, no sertão baiano. O Cepagro esteve lá e conta um pouco do que rolou.

Paula Ferreira na abertura do Encontro

“Irecê tem a maior Feira Orgânica certificada da Bahia. Não somos mais pequenos agricultores de fundo de quintal. Produzimos toneladas de alimentos! Queremos assumir o compromisso de fornecer para a alimentação escolar na região. Temos produção pra isso”. Contrariando o senso comum que associa a agricultura familiar – sobretudo a agroecológica – com algo “pequeno” ou “sem escala”, a agricultora Paula da Silva Ferreira defendeu que Agroecologia é sim uma opção para alimentar a população com qualidade e quantidade. Paula é coordenadora de um dos núcleos da Rede de Agroecologia Povos da Mata e falou durante a abertura do II Encontro da Rede, realizado em Irecê, no sertão baiano, nos dias 12 e 13 de julho. Credenciada em 2016 como um organismo participativo de certificação orgânica, a Rede Povos da Mata está presente hoje em 28 municípios baianos do Litoral, Sertão, Chapada Diamantina e Recôncavo Baiano, envolvendo 700 famílias agricultoras, sendo 300 delas certificadas, além de 6 agroindústrias. “Nosso compromisso nos próximos 2 anos é continuar colaborando e qualificar o que já temos. Não temos meta de criar mais tantos grupos ou núcleos”, afirma Tatiane Botelho, que foi presidente da Rede até este Encontro, quando nova diretoria foi empossada.

O Encontro reuniu mais de 450 pessoas ao longo dos dois dias de atividades, que tiveram o objetivo de discutir as perspectivas da Rede para o fortalecimento da produção agroecológica de alimentos de base ecológica, assim como o consumo consciente de alimentos saudáveis. Neste sentido, tanto Paula Ferreira quanto Tatiane Botelho, que estava presidente da Rede Povos da Mata, aproveitaram a presença de representantes do Ministério da Agricultura e do Governo baiano na  abertura do Encontro  para apresentar perspectivas e demandas para fortalecer a produção e ampliar o acesso a alimentos agroecológicos. Consolidar o fornecimento de alimentos orgânicos para a alimentação escolar e prover infra-estrutura para as feiras orgânicas da região, como barracas e veículos, foram algumas das necessidades elencadas no evento. As coordenadoras da Rede também ressaltaram a importância de parcerias, como a do SEBRAE e da BAHIATER (a empresa pública de assistência técnica e extensão rural) tanto no apoio do evento quanto para o trabalho das famílias.

Feira Agroecológica e análise de conjuntura abrem o Encontro
Nada como uma Feira Agroecológica para iniciar um Encontro de Agroecologia. E no da Rede Povos da Mata não foi diferente: dezenas de famílias dos 4 núcleos da Rede trouxeram alimentos, cosméticos naturais e artesanatos para comercializar, mostrando a riqueza e a diversidade da produção agroecológica.O grupo de Agroecologia Pé de Serra reúne 17 famílias da região de Uibaí, no sertão baiano. Elas produzem hortaliças, legumes e frutas orgânicas e compareceram na Feira do Encontro da Rede Povos da Mata.


Além de conhecer a força da produção agroecológica na caatinga , no Encontro foi possível provar o chocolate orgânico produzido pelas famílias do Assentamento Terra Vista, município de Arataca, onde trabalham 55 famílias. Uma delas é a do jovem agricultor Daniel de Lima Santos.


A Rede Povos da Mata abrange também a comunidade pataxó do Sul da Bahia. Durante o encontro, as mulheres pataxó da região de Porto Seguro trouxeram seus artesanatos e também o mel orgânico que está em processo de certificação pela Rede.

Na palestra de abertura, Rogério Dias, da Associação Brasileira de Agroecologia, trouxe uma análise de conjuntura da Agroecologia no Brasil e as perspectivas de resistência da produção agroecológica de alimentos. Para Rogério, “a mudança de governo acelerou o desmonte de políticas públicas para Agroecologia que já vinha acontecendo desde o golpe de 2016”. Uma delas é própria Política Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica, instituída em 2012. Rogério avalia que “A PNAPO acabou, mas ainda precisamos confirmar quando sair o Plano Plurianual pra Agricultura. Mas não temos nenhuma garantia que haverá recursos para fomento da Agroecologia”.

Rogério, entretanto, lembra que “o Brasil não é só o Governo Federal. Os estados também têm Planos Plurianuais de Agricultura”. O agrônomo ressalta que a pressão da sociedade e a atuação das redes agroecológicas são fundamentais para resistir ao desmonte de políticas públicas para agricultura familiar, agroecologia e segurança alimentar. E reforça que “neste momento, temos que incomodar. Podemos incomodar sozinho, como um bicho de pé faz. Mas, se formos um bando de formigas lava-pés, incomodamos mais ainda”.

O tema do outro painel da tarde era Os impactos dos agrotóxicos na saúde humana, mas a nutricionista Valéria Cristina Paschoal preferiu abordar os benefícios dos alimentos orgânicos. A partir de revisão bibliográfica de artigos científicos, Valéria afirma que as plantas manejadas agroecologicamente crescem mais resistentes,  essa resistência é repassada aos alimentos, aumentando a imunidade de quem os consome. Neste sentido, os alimentos da caatinga são os que trazem mais benefícios, pois crescem num ambiente extremamente adverso. Para manter essa produção, Valéria reafirma a importância da valorização da agricultura familiar: “Não existem pessoas mais cultas que os/as agricultores/as. Porque a agricultura é uma das primeiras formas de cultura que o ser humano desenvolveu”, disse.

Comida de verdade, no sertão e na cidade
Caracterizado pelo clima seco da caatinga, Irecê está num território de 20 municípios que abrange aproximadamente 44 mil famílias agricultoras. Em meio aos monocultivos de feijão com uso pesado de agrotóxicos e adubos químicos, cerca de 130 famílias cultivam a Agroecologia, articuladas na Rede Povos da Mata.

Uma dessas famílias é a de Lindomar Lins, do município de São Gabriel. Lindomar sempre trabalhou na roça, e até 2011 cultivava somente pepino e beterraba em sua propriedade, utilizando adubos químicos e agrotóxicos. Através da sensibilização e assistência técnica da empresa pública de extensão rural, Lindomar iniciou sua transição agroecológica. Com o estabelecimento da Rede Povos da Mata na região a partir de 2016, Lindomar pôde certificar sua produção como orgânica. Hoje, ele produz de 40 a 45 variedades de alimentos numa área de apenas 1,5 hectare, que tem tanto uma horta diversificada quanto um Sistema Agroflorestal. A observação do ciclo natural dos cultivos somada ao uso racional da irrigação com cobertura de solo e à produção própria de adubos e insumos orgânicos colabora para as colheitas de Lindomar, que faz 3 feiras orgânicas por semana na região. “É só entender a Natureza e trabalhar com ela que dá tudo certo”, afirma o agricultor. Os/as participantes do Encontro visitaram a propriedade de Lindomar durante uma oficina de Certificação Participativa realizada no evento. 

O trabalho de promoção da Agroecologia na região iniciou em 2011, muito pela atuação do agrônomo Edvaldo Reinaldo Filho, da empresa pública de extensão rural, a Bahiater. Além de práticas e insumos agroecológicos, ele orienta as famílias sobre o uso racional da água, já que ali os cultivos são irrigados, dependendo de poços artesanais. “Quando trabalhamos a cobertura do solo com palhadas, restos de culturas e estercos estamos utilizando tecnologias de convivência com o semiárido, além de aproveitar os insumos da própria unidade produtiva. Desta forma, há uma redução de perdas de umidade do solo, reduzindo a evaporação, além de melhorar a temperatura do solo, proporcionando melhor desenvolvimento das plantas”, explica Reinaldo. “O manejo ecológico do solo é fundamental para evitar erosão e compactação do solo, proporcionando uma melhor absorção da água de chuva e de irrigação e a permanência da biota do solo”, completa.

Através da participação na Comissão de Produção Orgânica da Bahia, Reinaldo conheceu a Rede Povos da Mata e convidou representantes para virem conhecer as famílias agricultoras do Sertão. O contato com a Rede Povos da Mata potencializou a organização dos/as agricultores/as agroecológicos de Irecê, que formaram o Núcleo Raízes do Sertão. “Depois da primeira reunião, já saíram 4 ou 5 grupos de famílias”. No âmbito da Rede, as famílias puderam não só certificar sua produção, como abrir novos canais de comercialização – tanto é que do sertão elas enviam alimentos orgânicos para a merenda escolar de Ilhéus, no Sul da Bahia. Além disso, o Raízes do Sertão promove outras 10 feiras agroecológicas na região, sendo que a de Irecê é a maior com certificação do estado, como lembrou Paula Ferreira na abertura.

A agricultora Thais Teixeira da Rosa veio de Porto Seguro, a 900km dali, para o Encontro e ficou encantada com a força da produção no sertão. A visita à propriedade de Lindomar agregou ainda mais conhecimentos para a agricultora, que também já observa os benefícios da cobertura do solo e ficou muito interessada nos insumos usados em Irecê. “Meu desafio ainda é a produção da cebola, mas vou insistir e experimentar, até encontrar o jeito certo”, afirma a agricultora. Ela já comercializava alimentos na feira, mas não tinha certificação. “Quando a gente ia vender, falava que era orgânico. E o consumidor falava: prova. Então o selo veio pra isso, pra provar pro consumidor. E também oferecemos as visitas”. Apesar de não usar agrotóxicos, Thaís ainda utilizava adubos químicos na produção. “Mas quando a Adriana [ técnica da Secretaria de Agricultura ] veio aqui pra fazer a transição, eu não tive dúvida. Porque quero que meus netos comam saudável e tenha ganhado isso de mim. Que eles digam: minha vó plantava orgânico!”, conta a agricultora. Como parte de sua transição, ela passou a produzir seus próprios adubos: “Lá em casa sou eu que adubo. Eu faço compostagem, faço meu biofertilizante. Eu que adubo”, afirma a agricultora, batendo no peito. E Thaís quer mais: “Eu ainda peco porque não fiz uma análise de solo. Também tenho vontade de levar meus produtos num laboratório, pra ver que tá livre de tudo. Mas ainda não tenho recursos pra isso. Mas quero fazer um banner, quero mais! Cada vez mais diversidade. Porque pra mim não adianta comprar o alface comigo e o resto dos alimentos virem do mercado, envenenados”.

Representantes de organizações de Alagoas, Rio Grande do Norte, Minas Gerais e Maranhão também participaram do evento, através do apoio da Inter-American Foundation. Walter dos Santos, da comunidade quilombola Piqui da Rampa, no Maranhão, veio através da Caritas Maranhão, apoiada pela IAF. Ele conta que “vejo que aqui a turma sofre uma pressão tão grande, que busca o conhecimento. Fiquei muito feliz com a oportunidade de vir aqui e trocar esses conhecimentos, quero levar de volta pra minha comunidade”. A agricultora e guardiã de sementes Ana Maria da Silva Gomes, do Rio Grande do Norte, foi mobilizada pela Comissão Pastoral da Terra e garante que “vou levar uma carrada de sabedoria de volta para as minhas companheiras do assentamento”.

Núcleo Litoral Catarinense entrega certificados e faz planejamento para o segundo semestre

“Para nós, a certificação por auditoria estava fora de cogitação. Não só pelo custo, mas porque o sistema participativo é também estar junto. Isso é fundamental neste momento político”. Em 2017, a professora Tatianne de Faria Vieira deixou o emprego no Instituto Federal de Goiás para instalar uma micro-padaria artesanal em Santo Amaro da Imperatriz. Quase  dois anos depois, ela espera ansiosamente receber o primeiro certificado para sua agroindústria, o que atesta a qualidade do local para beneficiamento de alimentos orgânicos. Mas mais do que o documento de certificação, o importante para Tatianne é estar dentro do Sistema Participativo: “Vocês são minha referência”, disse ela para as famílias que participaram da última reunião do Núcleo Litoral Catarinense da Rede Ecovida de Agroecologia, realizada no Engenho da Família Gelsleuchter, em Angelina, na quinta passada, dia 13 de junho. Além da entrega de 56 certificados de produção orgânica, durante a reunião também foram tratados assuntos como o Encontro do Núcleo Litoral Catarinense, repasses do Fórum Brasileiro de SPGs e da Plenária catarinense da Rede Ecovida e ainda a agenda de capacitações do Núcleo para o segundo semestre do ano.

A entrega dos certificados 2019-2020 acontece num contexto de informatização do sistema de emissão de certificados da Rede Ecovida. Para que toda a documentação das mais de 100 famílias do Núcleo fosse organizada e digitalizada, foi mobilizada uma equipe de 10 representantes de vários grupos, como informou e agradeceu a coordenadora Tânea Mara Follmann. “Os problemas que tivemos na emissão de certificados foram por falhas no preenchimento da documentação, não por inconformidades”, afirma a agricultora. Com o sistema informatizado, qualquer problema na documentação trava o processo de emissão do certificado. Dos grupos e famílias que estavam com tudo ok, só sorrisos; quem teve problemas terá que esperar mais um pouco até a situação estar regularizada no sistema central da OPAC.

Encontro do Núcleo Litoral Catarinense será em Porto Belo
O grupo Costa Esmeralda, que promove nos dias 24 e 25 de agosto o Encontro do Núcleo Litoral Catarinense, fez alguns informes sobre a organização.  “Nossa ideia é ter alimentação 100% orgânica”, disse Flávia Mundstock, da equipe de organização. Para isso, a colaboração das famílias agricultoras do Núcleo será fundamental, doando e fornecendo alimentos. Para as oficinas estão listados temas como: preparados biodinâmicos, plantas alimentícias não convencionais (PANCs), reaproveitamento integral de alimentos, plantas medicinais, processamento, integração agricultores/as e consumidores/as e gênero. Haverá atividades especiais para as crianças, o famoso Encontrinho, além do espaço Cuidar de Si, com diversas práticas terapêuticas.

Fórum Brasileiro de SPGs: equidade e violência de gênero passam a integrar princípios dos sistemas participativos
A temática de gênero emergiu na discussão sobre o Encontro do Núcleo a partir dos informes feitos pela agricultora Claudete Ponath sobre o encontro do Fórum Brasileiro de SPGs, realizado em Valinhos (SP) nos dias 1 a 3 de maio, reunindo 54 representantes de 26 Sistemas Participativos de Garantia do Brasil. A Carta de Valinhos, documento final do encontro, traz que “O Fórum recomenda fortemente que os manuais de procedimentos dos SPGs e OCSs explicitem que a violência de gênero não será tolerada e implica na suspensão do certificado do responsável”. Neste sentido, a proposta de manter a discussão de gênero viva nos encontros da Rede é para “Ver o que pode estar velado. Não tolerar a violência de gênero parece algo óbvio, mas não é. Tanto é, que não falamos muito. Precisamos trazer esse tema mais para as reuniões”, disse Claudete. Outros pontos abordados no encontro e disponíveis na carta foram notas técnicas e instruções normativas sobre a certificação orgânica que ainda precisam ser discutidas com o coletivo dos SPGs, além do encaminhamento de manter as Comissões Estaduais de Produção Orgânica (CPOrgs) funcionando, apesar do decreto presidencial 9759, de 11 de abril de 2019, que extingue diversos conselhos e comissões.

Núcleo Litoral Catarinense terá mais duas capacitações neste ano
Enquanto no primeiro semestre os grupos estavam intensamente envolvidos nas visitas e dinâmicas da certificação, a partir de agosto as reuniões do Núcleo terão caráter mais formativo. Para depois do Encontro do Núcleo em Porto Belo nods dias 24 e 25 de agosto, ficaram agendadas capacitações sobre:
– o Circuito de Comercialização da Rede Ecovida, que será na propriedade da família Cognacco, em Leoberto Leal, em outubro;
– mudas orgânicas, com uma visita a um centro produtor em Blumenau.

Fechando a atividade, uma rodada pela bela propriedade da família Gelsleuchter, visitando as áreas de cultivo e aproveitando para trocar informações e saberes sobre a produção agroecológica.

Veja mais fotos da reunião!

 

 

Doutoranda dos EUA apresenta resultados de pesquisa para famílias agricultoras

Ervilhaca e aveia, duas culturas comuns em adubação verde.

Como a adubação verde e os consórcios de hortaliças podem melhorar a produtividade dos cultivos e a qualidade dos alimentos? Essa pergunta motivou a doutoranda Anne Elise Stratton, da Universidade de Michigan (EUA), a vir para Santa Catarina desenvolver a pesquisa de campo do seu doutorado. “Minha tese é de que a diversificação de cultivos e a adubação verde têm potencial de reduzir custos e aumentar a produtividade, contribuindo para a autossuficiência das famílias agricultoras”, explica Anne Elise. Desenvolvida em parceria com o Cepagro, a pesquisa Cultivos em consórcio, adubação verde e a qualidade do solo e das hortaliças produzidas já trouxe alguns resultados, que foram apresentados na última terça, 4 de junho, em Angelina.

O engenho da família Gelsleuchter (da Rede Ecovida de Agroecologia) recebeu a atividade, que reuniu 10 agricultoras e agricultores de Angelina, Major Gercino e Leoberto Leal. Anne Elise apresentou um panorama da pesquisa, que envolveu 15 propriedades em seis municípios: Angelina, Águas Mornas, Leoberto Leal, Major Gercino, Nova Trento e Santa Rosa de Lima. Em todas foram implantadas parcelas experimentais de consórcio de cultivos, quando dois ou três espécies são cultivadas no mesmo espaço simultaneamente. Além disso, em sete das 15 propriedades foram feitos experimentos com adubação verde  – cultivos feitos para fornecer cobertura e nutrientes para o solo, não para serem colhidos.

Visitando a parcela experimental de adubação verde

O consórcio experimentado por Anne nas propriedades foi de ervilha e pepino. Os resultados foram variados: em alguns casos, houve diferença na produção, em outros não, indicando que é preciso aprofundar as análises. No caso da adubação verde, os resultados foram diferentes, principalmente para o pepino: quanto mais tempo de cobertura de solo, melhor o rendimento do pepino. Já a ervilha, de acordo com Anne Elise, “fixa seu próprio nitrogênio no solo e não precisa de tantos nutrientes, por isso o benefício não é tão evidente”.

Dione Eger (centro) falando sobre o uso da adubação verde em sua propriedade

As famílias agricultoras já vêm observando as vantagens da adubação verde há tempos. Uma delas é o casal Dione e Zenaide Eger, que cultiva fumo na sua propriedade em Major Gercino. “Lá tem muita erosão, então temos que usar cobertura de solo. Usamos aveia preta como adubação de inverno, pois é a cultura mais adaptada à nossa região”, explica Dione, que já facilitou uma oficina sobre o assunto em 2015. Sobre a pesquisa, Zenaide avalia que “é fundamental para nós. Pois assim entendemos o porquê das coisas. Se ficamos só com a nossa observação, precisamos esperar um ano até colher a nova safra pra saber se o que a gente tentou vai dar certo ou não”.

Gabriela e Amauri Batisti mudaram da fumicultura para a agroecologia.

Na outra ponta da transição agroecológica está o casal Gabriela e Amauri Batisti, também de Major Gercino. Eles também cultivavam fumo e resolveram investir na agroecologia para trabalhar com mais saúde. “Depois que paramos com o fumo, chegamos a trabalhar fora durante dois anos. Mas aí fizemos as contas e vimos que seria melhor os dois ficarem trabalhando na roça”, conta Gabriela. Hoje eles produzem banana, açaí, aipim, batata salsa, batata doce e hortaliças num sistema agroflorestal, com cultivos tanto em meio à floresta nativa quanto junto com eucaliptos. “Antes a gente plantava uma coisa só em cada lugar. Depois que ela chegou, começamos a plantar tudo junto. E ainda quero experimentar plantar aveia no meio das bananeiras”, afirma a agricultora. Ela e o companheiro comercializam sua produção na alimentação escolar de Major Gercino e São João Batista, além de fornecerem 40 a 45 cestas de alimentos semanalmente. “No futuro, queremos montar uma agroindústria para beneficiamento de aipim”, completa.

O agricultor Gilmar Cognacco também plantava fumo e hoje está na agroecologia, participando da pesquisa. Aproveitou a atividade para colher um pouco de couve para as feiras de Brusque e Florianópolis.

Além das conexões acadêmicas entre a UFSC e a Universidade de Michigan, essas diferentes caminhadas na transição para uma agricultura mais sustentável foram um atrativo para Anne Elise desenvolver sua pesquisa de campo no Brasil. “Vocês são um exemplo dessa transição sustentável na agricultura, com conservação de solos e diversificação”, disse ela às famílias. “Acredito que essa pesquisa será um reforço para a noção da Agroecologia como ciência, além de reunir informações e dados sobre práticas como a adubação verde”, completa Anne Elise.

A pesquisa continua até 2020. Um novo ciclo de adubação verde será plantado em agosto, para ser incorporado e aí receber mudas de hortaliças. Nessas próximas fases, será importante o apoio que o Cepagro vem recebendo do Instituto das Irmãs da Santa Cruz para compra de insumos e logística da equipe de campo.