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Encontro do Núcleo Litoral Catarinense celebra a Agroecologia com participações latino-americanas

“Porque a gente precisa festejar, celebrar, se ver, ser visto. Precisa recarregar as baterias pelo menos uma vez por ano”. Perguntada sobre o que faz valer a pena construir o Encontro do Núcleo Litoral anualmente, a agricultora Tânea Mara Follmann, de Águas Mornas, ressalta o diferencial festivo e de trocas do evento: “Quando você estiver na sua propriedade e der um desânimo, você vai lembrar da turma no Encontro e vai achar força e alegria pra continuar. O encontro é isso: trocas, vivências e compartilhar de força pra gente seguir em Rede. É o retrato da Rede Ecovida”. Como parte da coordenação do Núcleo Litoral Catarinense, Tânea participa de pelo menos 20 reuniões da Rede por ano. Junto com as visitas de verificação e o manejo de toda a documentação das 73 famílias e mais 10 agroindústrias certificadas no Núcleo, não são poucos os compromissos relacionados ao Sistema Participativo de Garantia que ela assume. O Encontro do Núcleo Litoral é um respiro festivo em meio a tantas agendas de trabalho.

Realizado nos dias 22 e 23 de setembro na Comunidade Fazenda de Dentro, em Biguaçu, o Encontro deste ano foi encabeçado pelo Grupo Flor do Fruto, que reúne agricultores/as deste município e também de Santo Amaro da Imperatriz. “Fiquei com medo quando era dar o pontapé inicial e dizer que a gente faria. Mas, depois a gente vê como é gratificante, pois é uma troca de conhecimento empírico. Ver as pessoas interagindo, com tanta alegria, é muito gratificante”, conta o agricultor Pedro Luis Nau, do Grupo Flor do Fruto. Cerca de 130 pessoas participaram do Encontro neste ano, que teve convidados/as muito especiais: além do grupo de consumidores/as do projeto Misereor em Rede, vieram também representantes de 17 organizações brasileiras e latino-americanas que participavam da Vivência em SPG promovida pelo Cepagro naqueles dias. A diferença de idioma não foi um problema, frente à receptividade e acolhimento da turma do Núcleo.

Dois participantes da Vivência integraram a mesa de abertura do Encontro, junto com a agricultora Catarina Gelsleuchter, de Angelina: Romeu Leite, do Fórum Brasileiro de SPGs e Rosa Murillo Naranjo, do Movimento de Economia Social e Solidária do Equador (MESSE).Catarina Gelsleuchter: “No Sistema Participativo a gente se enxerga”, afirma a agricultora, ressaltando o caráter de envolvimento humano do SPGRomeu Leite, do Fórum Brasileiro de SPG: “O que o governo não entendeu é que a certificação participativa é mais do que só certificação. É gente visitando gente, o mais experiente acolhendo o menos experiente. O processo que a gente chama de SPG é muito mais rico do que o certificado”.

Rosa Murillo Naranjo, do MESSE (Equador), falou sobre o hiato entre a legislação de certificação de orgânicos e as práticas dos grupos de agroecologia no seu país. Também abordou a luta e as atividades de incidência política do MESSE pela conservação de sementes crioulas e contra os transgênicos.

O Encontro começou, entretanto, com a apresentação dos grupos da Rede.

Após uma animada noite cultural no sábado, durante o domingo foram realizadas as oficinas.

Boas Práticas de Pós-Colheita, com a agricultora Rosa Silva Tomás, de Paulo Lopes

 

 

 

 

 

Criação de galinhas soltas, com Romeu Leite

Plantas Medicinais, com Lourdes Lopes Souza
Jardim das brincadeiras, com Henrique Martini Romano

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Minhocários, com Igor

Através de um grande esforço logístico do Grupo anfitrião e da generosidade dos/as agricultores/as do Núcleo, grande parte da alimentação oferecida no Encontro foi agroecológica.

A tradicional Feira de Saberes e Sabores ganhou novos aromas e sabores, com a participação da Alternativa a Pequena Agricultura do Tocantins (APA-TO) e da Associação Outro Olhar, de Guarapuava (PR), que integravam a Vivência em SPG. João Palmeira, da APA-TO, trouxe o COCO BABAÇU e seus subprodutos, gerando interesse e curiosidade em muita gente. Enquanto Sandra Konig, da Outro Olhar, apresentou óleos essenciais produzidos em aldeias guarani do Paraná.

No encerramento do Encontro, Tânea trouxe alguns encaminhamentos para o Núcleo. Em novembro haverá uma visita ao Centro de Referência em Agroecologia do Paraná, com 2 representantes de cada grupo. Além disso, haverá capacitações sobre preenchimento da documentação até final de outubro. E, o mais esperado: a escolha do próximo grupo que receberá o Encontro do ano que vem. Com bastante espontaneidade, o Grupo de Agroecologia Costa Esmeralda (GACE), que reúne famílias de Porto Belo, Itapema e Tijucas, se dispôs a receber o Encontro do Núcleo 2019. Já estamos a espera!

Veja abaixo mais algumas fotos do Encontro:

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Vivência em SPGs reúne organizações latino-americanas em Florianópolis

Confiança. Considerada um dos princípios fundamentais dos Sistemas Participativos de Garantia, a confiança foi mencionada diversas vezes durante a Vivência em Sistemas Participativos de Garantia (SPGs) que o Cepagro promoveu de 21 a 26 de setembro em Florianópolis, com apoio da Inter-American Foundation. Participaram 17 organizações de 5 estados brasileiros (BA, SP, PR, RS, MG) e oito países latino-americanos (Bolívia, Colômbia, El Salvador, Equador, Guatemala, México, Paraguay e Peru) todas apoiados pela IAF. Com uma programação dinâmica e variada, a Vivência teve o objetivo de compartilhar experiências diversas em certificação participativa e SPG, estimulando a troca de conhecimentos sobre estratégias de produção, articulação de famílias e comercialização no âmbito da Agroecologia.

Basicamente, os SPGs partem do princípio que os/as próprios/as agricultores/as, organizados/as em grupos, podem realizar a certificação de sua produção para garantir sua qualidade orgânica. O Brasil é referência na construção de SPGs e na sua regulamentação, cujo marco é a Lei 10.831, de 2003, que equipara os SPGs às certificações por auditoria. Neste sentido, a Rede Ecovida teve atuação fundamental nesta construção. A caminhada para a consolidação de um SPG, contudo, passa por diversos estágios: da pesquisa sobre as possibilidades ao reconhecimento na legislação, passando pela organização de grupos de agricultores/as. As organizações participantes da Vivência encontram-se em distintos estágios deste caminho, e aí residiu a riqueza do intercâmbio. Reconhecer-se nesta caminhada foi uma das primeiras atividades da Vivência.

No caso de organizações como APA-TO (Tocantins) e IPHAE (Bolívia), que ainda estão levantando informações sobre SPGs, uma das questões a serem regulamentadas é quanto à certificação de alimentos oriundos do extrativismo, como o babaçu, o açaí e o cupuaçu, foco dos grupos com elas trabalham. Outras, como a SERRACIMA (SP) e o Centro de Agricultura Alternativa do Norte de Minas (CAA/NM – MG), discutem se serão só uma organização de apoio à certificação ou se já se formalizam como uma OPAC (Organismo Participativa de Avaliação da Conformidade). Já o Movimento da Economia Social e Solidária do Ecuador (MESSE), não aceitou a forma como o governo local tentou impor a regulamentação do SPG e decidiram manter a certificação por eles mesmos, no contato direto e confiança entre agricultores/as e consumidores/as: “Não nos interessa que o Estado nos reconheça”, afirma Rosa Murillo Naranjo,  do MESSE. CETAP e CEPAGRO, como participantes da Rede Ecovida, já integram um SPG consolidado, que inclusive serviu de inspiração para Paraguay e México implementarem seus próprios sistemas. No México, contudo, ainda não há legislação específica para certificação participativa.

Para as organizações que ainda estão construindo um SPG, os desafios são múltiplos: dificuldade para certificar alimentos do extrativismo, falta de legislação específica ou que não contempla suas realidades locais, comercialização. No caso dos SPGs já consolidados, como o da Rede Ecovida, “o desafio é trabalhar a Agroecologia para além do SPG”, como disse Albenir Concolatto, representante do CETAP (RS) na Vivência. No caso da Rede Povos da Mata, da Bahia, os obstáculos são: obter recursos para manter equipe técnica e as grandes distâncias entre diferentes biomas das propriedades certificadas, contou Sidilon Mendes.

Feito esse diagnóstico no primeiro dia sobre o desenvolvimento e desafios dos SPGs, a turma partiu no sábado e domingo (22 e 23 de setembro) para conhecer duas feiras agroecológicas: a do Campeche, abastecida pelo agricultor Gilmar Cognacco; e a VIVA CIDADE, no Centro, com agricultores/as do Grupo Flor do Fruto, de Biguaçu.

Após um almoço no Mercado Público de Florianópolis, a turma seguiu para o 12º Encontro do Núcleo Litoral Catarinense da Rede Ecovida de Agroecologia. Realizado na comunidade Fazenda de Dentro, em Biguaçu, o Encontro reuniu cerca de 150 pessoas, com ricas trocas de experiências, saberes e sementes. Dois participantes da Vivência – Romeu Leite, do Fórum Brasileiro de SPG, e Rosa Murillo Naranjo, do MESSE – compartilharam a mesa de abertura do Encontro com a agricultora Catarina Francisco Gelsleuchter.

Na sequência do Encontro, os/as participantes da Vivência conversaram com a professora Hanna Wittman sobre a pesquisa de Indicadores em Agroecologia. A atividade teve o intuito de sensibilizar e fazer um levantamento junto às organizações sobre que tipos de dados já vêm sendo pesquisados por elas com seus grupos de ação e quais tipos de indicadores – Econômicos, Sociais e Ambientais – elas consideram mais importantes.

Na segunda-feira, 24 de setembro, a programação continuou no Centro de Ciências Agrárias da UFSC, com destaque para o debate Certificação Orgânica Participativa: conexões latino-americanas, com a participação de Virgínia Lira, coordenadora de Agroecologia do Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento, Laércio Meirelles, do Fórum Latino-americano de SPG e Romeu Leite, coordenador do Fórum Brasileiro de SPG, além de representantes dos SPGs Tijtoca Nemiliztli (México); Paraguay Orgânico e Rede Ecovida de Agroecologia. Veja a matéria sobre o evento aqui.

Ainda buscando conhecer experiências agroecológicas, na terça-feira, 25 de setembro, o grupo visitou duas propriedades no bairro Ratones, um dos que mais mesclam o urbano ao rural na Ilha de Santa Catarina. O Sítio Flor de Ouro e o Espaço Pergalê.

No Flor de Ouro, o destaque foi o sistema agroflorestal implementado ali, suas técnicas de manejo e a convivência com as abelhas nativas sem ferrão. Além disso, o Flor de Ouro é um exemplo de comercialização de alimentos agroecológicos em conexão direta com os/as consumidores/as. Eles entregam cestas agroecológicas no esquema CSA – Comunidade que Sustenta a Agricultura e abriram mão da certificação. De acordo com o agricultor Daniel Cavalari, que trabalha no sítio, a confiança dos/as consumidores/as é tanta que não sentiram mais a necessidade de ter a certificação. Além disso, quem quiser pode visitar o sítio para verificar a qualidade orgânica dos alimentos. As cestas levam de 13 a 15 itens e custam R$ 55.

O CSA continuou na pauta de discussões do grupo durante a visita ao Espaço Pergalê, da agricultora e chef de cozinha Sônia Jendiroba. Margareth McQuade, representante do CSA Campeche, conversou com a turma da Vivência sobre os princípios e funcionamento dessa lógica de comercialização em que, ao invés de “consumidores/as” existem “co-agricultores/as”. “O CSA me encantou pela sua filosofia: os agricultores fazem o que gostam e nós apoiamos eles”, contou Margareth. Isso porque o CSA funciona numa lógica de planilha aberta, em que todos os custos de produção e logística dos alimentos são compartilhados entre agricultores/as e co-agricultores/as. Como observou João Palmeira, da APA-TO, é ir da “cultura do preço para a do apreço”.

A proprietária do espaço Pergalê, Sônia Jendiroba, também comercializa cestas agroecológicas com legumes e verduras que ela cultiva em seu sítio. Sônia, entretanto, faz questão de manter a certificação pela Rede Ecovida e inclusive enviar periodicamente via whatsapp seu certificado para quem compra dela. A turma da vivência pode conhecer ali sua horta agroecológica com cerca de meio hectare e até ajudou um pouco na capina.

Na despedida do grupo, no dia 26 de setembro, foram recuperados os pontos que mais lhes chamou a atenão. A relação entre agricultores/as e consumidores/as foi um deles. “Apesar de ser um intercâmbio de SPG, vimos experiências também de produção, comercialização e participamos do Encontro do Núcleo da Rede Ecovida, nos sentimos muito acolhidos”, observa Clara Esther Martínez, da organização colombiana CORAMBIENTE. Sandra Konig, da Associação Outro Olhar, de Guarapuava (PR), disse que “saiu convencida que o SPG vai muito além da certificação, e que sempre precisa estar de acordo com diferentes contextos, especialmente considerando povos originários”. Na bagagem de volta à casa, além de muitas experiências e aprendizados, os/as participantes certamente levam saudades da praia do Campeche, que estava a poucos minutos de caminhada da pousada onde foi realizado o evento, a Tulipane.

Mais de 50 pessoas, entre colaboradores/as diretos e indiretos, estiveram envolvidos/as na organização da Vivência, entre equipe técnica do Cepagro e da Pousada, agricultores/as que forneceram os alimentos agroecológicos para as refeições e tradutores/as.

 

 

 

 

 

 

 

Cepagro promove debate sobre Sistemas Participativos de Garantia

Representantes de Redes de Agroecologia de 8 países latino-americanos e de 5 estados brasileiros  estiveram presentes no debate sobre Certificação Orgânica Participativa: Conexões Latino-Americanas, que aconteceu na tarde da última segunda-feira, 24, no Centro de Ciências Agrárias da UFSC. O evento promovido pelo Cepagro faz parte da programação da Vivência em SPG do projeto Saberes na Prática em Rede, que aconteceu entre 21 e 26 de setembro, com o apoio da Inter-American Foundation, visando ao intercâmbio de experiências em certificação participativa na América Latina.

O debate foi dividido em dois momentos, tratando inicialmente da conjuntura brasileira em Sistemas Participativos de Garantia e em seguida foram apresentadas iniciativas bem sucedidas existentes no México, Paraguai e Brasil. Os palestrantes convidados para a primeira parte foram Virgínia Lira, coordenadora de Agroecologia do Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento, Laércio Meirelles, do Fórum Latino-americano de SPG e Romeu Leite, coordenador do Fórum Brasileiro de SPG.

Virgínia abriu o debate apresentando alguns dados sobre a produção de orgânicos no Brasil atualmente. Porta voz da Agroecologia dentro do Ministério da Agricultura, ela afirmou que, apesar da crise em que nos encontramos, a produção de orgânicos no país não para de crescer, e com isso os Sistemas Participativos de Garantia também avançam.

Em sua fala, Virgínia enalteceu as relações humanas estabelecidas dentro dos SPGs, uma relação que permite a troca de experiências, conhecimentos e a melhoria na produção de orgânicos, uma vez que as dúvidas dos agricultores podem ser sanadas em um diálogo direto e próximo. Nos SPGs, a identidade cultural dos agricultores é respeitada e levada em conta na hora de pensar nos processos da certificação, uma lógica longe de ser atendida pela certificação por auditoria.

Virgínia propôs como desafio a simplificação dos formulários de certificação e deixou como perspectiva para um futuro próximo a aproximação entre Brasil e Chile, após a assinatura do memorando de intenções, que na prática deverá permitir a circulação de certos produtos orgânicos entre os dois países com o mesmo selo de garantia. Atualmente, se um produtor orgânico brasileiro quer comercializar seu produto no Chile, ele precisa contratar uma certificadora que esteja credenciada lá para que o seu produto seja reconhecido pelas normas chilenas, e vice e versa. A futura equivalência dos selos promete abrir portas e baratear os custos da importação para os produtores orgânicos.

Em seguida, Laércio Meirelles assumiu o microfone e contou a história da Certificação Participativa no Brasil, desde a década de 1980. Ele lembrou que os SPGs surgiram pelo desejo de desburocratizar, baratear e dar autonomia aos agricultores, mas infelizmente o reconhecimento da certificação participativa por parte do Estado tem distanciado os SPGs desse objetivo, por burocratizar demais o processo. Segundo Laércio, “a Agroecologia e o Estado não são filhos do mesmo pai e mãe. A Agroecologia é um filho anarquista”, e essa distância dificulta a relação entre ambos. Para ele é preciso haver mais legitimidade social e equilíbrio entre busca por regulamentação e fiscalização.

Romeu LeiteRomeu Leite, do Fórum Brasileiro de SPG e que também é produtor orgânico, retomou no debate o desequilíbrio entre o Estado e as iniciativas de certificação participativa. Na lógica do Estado, através do Ministério da Agricultura, as inconformidades na produção de orgânicos precisam ser punidas, por exemplo, enquanto nos SPGs, essas falhas procuram ser resolvidas com educação e orientação, num diálogo aberto entre produtores e certificadores. “O SPG é um processo social que não tem como objetivo simplesmente gerar um selo de credibilidade orgânica, mas é um processo educativo, de construção coletiva do conhecimento em que agricultores, consumidores e técnicos, todos juntos, vão trocar experiências e construir juntos o conhecimento agroecológico”, conta.

Por fim, ressaltou uma característica única dos SPGs: a possibilidade de adaptação do processo de certificação de acordo com cada realidade local. Um exemplo disso é o que vem acontecendo com as comunidades indígenas do Xingu, primeiro SPG indígena do país. Nesse processo inédito, a formação e os formulários dos agricultores tem um formato muito mais visual, por meio de desenhos que demonstram o plano de manejo e a produção de cada unidade. Um formato que funciona muito melhor para aquela realidade cultural. Segundo Romeu, essa possibilidade de adaptação é importante porque para o perfil do agricultor familiar o excesso de burocracia só atrapalha o avanço dos SPGs. 

Sabendo disso, o coordenador do Fórum Brasileiro de SPG afirmou que a entidade tem discutido a simplificação da documentação para o credenciamento dos agricultores orgânicos, a fim de democratizar ainda mais esse sistema.

Na segunda parte do evento, o público pôde conhecer três SPGs que existem na América Latina. A Tijtoca Nemiliztli, do México, representada pelo agricultor Fernando George Pluma; a Paraguay Orgánico, apresentada pela Daniela Solís e a Rede Ecovida de Agroecologia, representada pela agricultora Tânea Mara Follmann.

Fernando George PlumaFernando e Daniela explicaram o funcionamento das suas redes de SPG e apresentaram o Daniela Solíspanorama da certificação participativa e da produção de orgânicos nos seus países, seus avanços e desafios a serem enfrentados. Com a fala de encerramento, Tânea Mara Follmann, coordenadora do Núcleo Litoral Catarinense da Rede Ecovida,  explicou o funcionamento do processo de certificação na Rede e detalhou o passo a passo para a entrada de

Tânea Mara Follmann

Tânea lembrou também da importância da relação entre os agricultores e grupos da região e ressaltou que antes de ser uma rede de certificação, a Ecovida é uma rede de Agroecologia. Ela concorda que o principal desafio dos SPGs hoje é a questão da documentação necessária para a certificação que por vezes acaba sendo muito extensa. “É cada vez maior a necessidade de comprovar o que você faz e convencer as pessoas de que o que você faz é bom e está dentro de normas. Isso tem estado cada vez mais presente e causa um desgaste em todo o processo, porque é como se te colocassem em dúvida a todo momento”.

Por outro lado, Tânea conta que com as reuniões de grupos, de núcleos e os encontros anuais promovidos pela Rede, os frutos do SPG ultrapassam a certificação: “existem experiências que são trocadas ali onde se aprende muito entre agricultores. O SPG promove uma visibilidade e aproxima os agricultores das pessoas que consomem e gera um movimento muito legal que é, com certeza, uma conquista para os agricultores”. 

A agrônoma Cassiele Lusa Mendes Bley, que atua na Epagri de Antônio Carlos, veio ao debate e conta que conhecer melhor os processos de certificação da Rede Ecovida foi essencial. Atualmente no município é feita somente a certificação por auditoria, mas existe a vontade de criar um grupo de SPG, principalmente depois das últimas mudanças na legislação sobre certificação orgânica, “agora está muito mais rígida principalmente para o pequeno produtor, então eles vem buscar essas informações e a gente tem que ter uma outra alternativa, algo melhor para oferecer”, conta Cassiele.

O Secretário de Agricultura e Meio Ambiente de Antônio Carlos, Osvaldino Gesser, também participou do debate e ressalta a importância de promover a agricultura ecológica através das dinâmicas de SPG junto aos trabalhadores rurais do município. “Temos uma preocupação com a saúde dos nossos agricultores e agricultoras, além do cuidado com o meio-ambiente”, afirma o Secretário, que relata que casos de câncer de pele e depressão têm se tornado cada vez mais comuns em Antônio Carlos.

 

Biguaçu recebe o 12º Encontro do Núcleo Litoral Catarinense da Rede Ecovida

A comunidade Fazenda de Dentro, em Biguaçu, será a casa do 12º Encontro do Núcleo Litoral Catarinense da Rede Ecovida de Agroecologia, que acontece nos dias 22 e 23 de setembro. A expectativa é que cerca de 200 pessoas participem do Encontro, que reunirá agricultoras e agricultores de  cerca de 30 municípios, distribuídos em 11 grupos. Palestras, oficinas e a tradicional Feira de Saberes, Sabores e Sementes integram a programação, que neste ano será restrita a convidadxs.

O Núcleo Litoral Catarinense da Rede Ecovida reúne cerca de 150 famílias de agricultores e agricultoras de 30 municípios catarinenses. Os Encontros são realizados anualmente e neste ano terão uma participação especial: uma delegação de 17 organizações brasileiras e de outros países da América Latina (México, Paraguay, Peru, Colômbia, Equador, Guatemala e El Salvador) que participam de um intercâmbio sobre certificação de alimentos orgânicos promovido pelo Cepagro, promovendo uma rica troca de experiências.

 

 

Cepagro recebe delegação latino-americana para debater Sistemas Participativos de Garantia (SPG)

Representantes de organizações do México, Paraguay, Perú, Bolívia, Guatemala, Equador, El Salvador e Colômbia e de mais 6 estados brasileiros estarão em Florianópolis para participar da I Vivência em Sistemas Participativos de Garantia que o Cepagro promove de 21 a 26 de setembro. A atividade tem o objetivo de compartilhar experiências diversas em certificação participativa e SPG, estimulando a troca de conhecimentos sobre estratégias de produção, articulação de famílias e comercialização entre organizações brasileiras e de outros países latino-americanos. A Vivência faz parte do projeto Saberes na Prática em Rede, que tem apoio da Inter-American Foundation.

Basicamente, a certificação participativa num SPG é realizada pelos/as próprios/as agricultores/as. No Brasil, ela tem a mesma legitimidade que a certificação realizada por empresas de auditoria. Um dos principais SPGs brasileiros é o da Rede Ecovida de Agroecologia, que reúne mais de 4 mil famílias de agricultores agroecológicos do Sul do Brasil e inspirou outros sistemas no Brasil e na América Latina.

A programação da Vivência terá momentos abertos ao público, como o debate Certificação Participativa Orgânica: conexões latino-americanas, que acontece na 2ª feira, 24 de setembro, das 14h às 18h no Centro de Ciências Agrárias da UFSC. Na mesa de discussões, estão representantes do Ministério da Agricultura, dos Fóruns Brasileiro e Latinoamericano de SPGs, além de organizações do Paraguay, México e também da Rede Ecovida de Agroecologia. A participação no debate é aberta e gratuita. Para inscrições, clique aqui.

 

Projeto Misereor em Rede segue articulando agricultorxs e consumidorxs

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Visita ao Sítio Saraquá, em Águas Mornas (SC)

Se “comer é um ato político”, faz parte desta ação política a escolha consciente dos nossos alimentos. Buscando conscientizar e sensibilizar o público urbano para o consumo de alimentos agroecológicos, o Projeto Misereor em Rede vem promovendo a aproximação entre as duas pontas – consumidorxs e agricultorxs – das cadeias de comercialização agroecológica. Através de visitas a campo, consumidorxs conhecem propriedades agroecológicas e conversam com agricultorxs, passando a entender mais sobre a sazonalidade dos alimentos, os desafios de produção e logística e a importância de buscar produtorxs que estejam mais próximxs às suas residências. Neste mês, o projeto articulou essas vivências em Florianópolis e Águas Mornas.

WhatsApp Image 2018-08-20 at 19.14.28No sábado passado, 18 de agosto, um grupo de consumidores se reuniu com agricultores do Sítio Florbela (localizado no Sertão do Ribeirão), buscando mobilizar um grupo para receber cestas de alimentos agroecológicos no Sul da Ilha.  “Refletimos sobre como essa proximidade entre  produtorxs e consumidorxs é positiva do ponto de vista do frescor do alimento também”, avalia Erika Sagae, da equipe do projeto. No domingo, já no Sítio Florbela, a reunião do grupo Ilha Meiembipe da Rede Ecovida de Agroecologia teve a participação de consumidorxs mobilizadxs pelo projeto. Além de fortalecer o debate sobre a participação de consumidorxs na Rede Ecovida, a atividade serviu também para o grupo perceber demandas e oportunidades de divulgação de sua produção.

No outro sábado, 25 de agosto, a equipe Cepagro/Misereor em Rede levou um grupo de consumidores e consumidoras para conhecer o Sítio Saraquá, em Águas Mornas. A propriedade é certificada pela Rede Ecovida de Agroecologia e cultivada pelos agricultores Tânea Mara e Vítor Follmann, do grupo Harmonia da Terra. Eles fornecem semanalmente alimentos agroecológicos para grupos de Comunidades que Sustentam a Agricultura (CSA), uma proposta de comercialização que compartilha custos e responsabilidades da produção entre agricultorxs e consumidorxs.

A ideia da Comunidade que Sustenta a Agricultura, surgida na Alemanha nos anos 1920 e chegada a Florianópolis em 2016, é que haja uma planilha aberta de custos de produção, que são compartilhados entre consumidores e produtores. O planejamento de produção é feito de acordo com a sazonalidade dos alimentos, a gestão administrativa e financeira do empreendimento é toda compartilhada e cada membro paga uma cota mensal dos custos de produção, que vão de R$ 130 a R$ 200 por mês (dependendo dos alimentos comprados). Custos de mão de obra, transporte, logística e até um fundo para emergências são divididos entre todxs. Tânea e Vítor, do Sítio Saraquá, entregam semanalmente 32 cestas agroecológicas (a capacidade de produção deles é para até 40 cestas).

Além de diminuir a presença de atravessadores, a articulação entre consumidores e produtores fortalece também o compromisso de quem compra com a produção.  Durante a visita ao Sítio Saraquá, o grupo da cidade pode conversar sobre estes e outros temas com os agricultores. “Os consumidores também fizeram várias perguntas também sobre certificação participativa, como funciona, quais são as dificuldades. Foi um momento bem interessante de intercâmbio e aproximação entre consumidores e produtor, importante pra entendermos os desafios que os agricultores têm pra levar alimento até a cidade”, avalia Erika Sagae. Na caminhada pelo Sítio, o grupo pôde ver a Agroecologia sendo cultivada na prática, com muita diversidade de alimentos e técnicas de manejo agrícola sustentáveis.

 

Oficinas enriquecem reunião do Núcleo Litoral Catarinense

A última quinta-feira, 16 de agosto, foi um dia de aprendizados durante a reunião da Comissão de Verificação do Núcleo Litoral Catarinense da Rede Ecovida. Entre velhos conhecidos e caras novas, representantes dos grupos de Agroecologia que compõem o Núcleo estiveram presentes na Associação de Desenvolvimento da Microbacia do Rio Dúna, em Paulo Lopes, para discutir demandas sobre certificação e capacitação dos grupos, além de atividades futuras. Os agricultores e consumidores presentes participaram ainda de três oficinas com foco na fertilização do solo, sendo uma delas facilitada pelo Cepagro. 

Segundo Cátia Cristina Rommel, agricultora e secretária da coordenação do Núcleo, as reuniões mensais costumavam ficar centradas nas questões burocráticas e mais diretas que envolvem a certificação coletiva. Com o tempo, foi surgindo a demanda de trazer mais Agroecologia para os encontros, afinal, trocar conhecimentos e aprendizados sobre as práticas agroecológicas nunca é demais. Como o debate sobre o solo tinha vindo à tona em reuniões anteriores, surgiu a ideia de trazer oficinas com essa temática.

A primeira mini-oficina foi facilitada pelo agricultor Pedro Henrique Eger, do grupo Harmonia da Terra, de Rancho Queimado. Pedro explicou passo a passo como capturar e preparar os Microorganismos Eficazes (ME), seres que auxiliam no equilíbrio da vida do solo e no controle de doenças de folhagens. Ainda pela manhã, Ika Porã, de Garopaba, fez uma apresentação sobre a criação de minhocas e falou sobre os benefícios desses animais tanto na fertilização do solo quanto no uso para a alimentação de outras criações.

A tarde foi dedicada à oficina de Compostagem, ofertada pelo engenheiro agrônomo da equipe técnica do Cepagro, Júlio César Maestri. A oficina começou com a preparação da TV Composteira, ferramenta didática onde é possível ver o modelo de compostagem do método UFSC camada por camada. Em seguida, todos seguiram para o pátio da associação, onde as dúvidas restantes foram sanadas com a montagem da composteira no chão, com palhada.

Júlio alertou para a importância de reaproveitar os resíduos orgânicos: “Florianópolis gasta mais de R$ 2 milhões de reais por mês para enterrar o lixo produzido na capital”. Todo o resíduo é levado para o aterro de Biguaçu, sendo que praticamente 50% deste volume é de resíduos orgânicos que poderiam ser compostados. “A maior parte do resíduo orgânico é formada por água, ou seja, Florianópolis gasta um dinheirão para transportar água até o aterro”, explica o agrônomo.

Na reunião, os agricultores também discutiram a programação do Encontro do Núcleo Litoral Catarinense, que acontecerá nos dias 22 e 23 de setembro na Fazenda de Dentro, em Biguaçu. O evento acontece anualmente e a programação conta com oficinas, palestras e noite cultural, atividades pensadas de acordo com o interesse dos grupos locais. Luciano Zanghelini, do Grupo Flor do Fruto, está envolvido com a organização do evento e conta que muito provavelmente haverá uma oficina sobre o uso de bambu, já que esse tema tem surgido como uma demanda entre os agricultores. Já as palestras devem trazer temáticas mais gerais, entre técnicas e práticas agroecológicas, afim de contemplar um número maior de participantes.