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Núcleo Litoral Catarinense participa de oficina sobre Comunicação Popular

Além de técnicas de manejo, estratégias de comercialização e boas práticas de pós colheita, um novo assunto entrou na pauta de oficinas do Núcleo Litoral Catarinense da Rede Ecovida de Agroecologia: a Comunicação. Através do convênio com a Universidade de British Columbia e com apoio da IAF, o Cepagro promoveu no último final de semana (1 e 2 de dezembro) uma oficina sobre Comunicação Popular e Agroecologia Visual, com facilitação do fotógrafo e estudante de Agronomia Carlos Pontalti e da jornalista Ana Carolina Dionísio. A atividade aconteceu na linda pousada Encanto Verde, em Santa Rosa de Lima, e contou com a participação de 10 agricultoras e agricultores, educadorxs e jovens de 5 grupos da Rede Ecovida.

Se a ideia da oficina é fortalecer a noção de que todxs podem ser comunicadorxs, a ferramenta de captação de imagens seria também a mais acessível: o celular. Após construírem coletivamente painéis sobre o que representa a comunicação e a agroecologia, o grupo teve uma exposição sobre os principais conceitos de fotografia com Carlos. As demandas do grupo eram diversas, assim como seu envolvimento e desenvoltura com a a câmera do celular, o que estimulou a troca de conhecimento entre todas e todos.

Para praticar os conceitos, a turma fez uma gira pela propriedade, guiada pelo jovem agricultor Luís Henrique Vanderlinde. Ele mostrou o cultivo de amoras orgânicas e os consórcios agroflorestais, falou sobre a extração e beneficiamento de açaí juçara e também sobre o manejo de cabras. Vendo as fotos antigas da propriedade, o grupo ficou impressionado com a regeneração ambiental promovida pela família ali.

Além da teoria e prática em conceitos e técnicas de fotografia, todos e todas aprenderam muito sobre Agroecologia com a família Vanderlinde, proprietária da pousada. O casal Rosângela e Sebastião e seus filhos já passaram pela produção de fumo e, integrando-se à Acolhida na Colônia e à Rede  Ecovida de Agroecologia, hoje são referência em transição agroecológica e produção orgânica. “Nós temos também bastante recurso público investido aqui na propriedade, pois acessamos várias políticas públicas. Então ficamos felizes de receber uma atividade assim”, conta Rosângela.

Com as fotos tiradas durante a oficina, o grupo produziu cards com mensagens sobre a Agroecologia e a agricultura familiar. A ideia é que esse tipo de material fortaleça a divulgação do trabalho dxs participantes, seja pela comercialização ou pela conscientização ambiental.

 

 

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No Dia da Luta contra os Agrotóxicos, sociedade civil diz não ao PL do Veneno em Florianópolis

O vazamento de uma usina de agrotóxicos da companhia norte-americana Union Carbide na cidade de Bophal, na Índia, no dia 3 de dezembro de 1984 ficou marcado como o Dia Mundial da Luta contra os Agrotóxicos. Calcula-se que 3 mil pessoas morreram intoxicadas só neste dia, outras 15 mil nos meses seguintes, além de 300 mil intoxicações. Mais de 30 anos depois, estima-se que 2 a 3 pessoas morram semanalmente ainda em decorrência do desastre.

Em  Florianópolis, o Fórum Catarinense de Combate aos Impactos dos Agrotóxicos e Transgênicos promoveu neste 3 de dezembro o debate e a reflexão sobre nosso modelo de produção de alimentos, entre os venenos e a agroecologia.

Às 10h aconteceu no Largo da Catedral uma roda de conversa sobre CONSUMO AGROECOLÓGICO, com a participação do Assentamento Comuna Amarildo de Souza, LACAF, Cepagro e Revolução dos Baldinhos. Durante as discussões, ficou clara a importância de promover mais conscientização junto a consumidores e consumidoras para que optem por alimentos orgânicos quando possível, além da necessidade de promover a reforma agrária. “Nossa proposta como assentamento sempre foi produzir alimentos saudáveis a um preço justo para a população. “A Agroecologia em escala é possível. Mas é preciso ter Reforma Agrária”, disse o assentado Fábio Ferraz, presente ao evento.

A partir das 16h, na Câmara de Vereadores, foi realizada uma palestra com o Dr. Pablo Moritz, haverá uma palestra com o médico Pablo Moritz, do Centro de Informação e Assistência Toxicológica de Santa Catarina (CIATox/SC) e a solenidade de entrega do Dossiê da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) – um amplo estudo científico que trata dos impactos dos agrotóxicos na Saúde – para os representantes do Legislativo Municipal.

Segundo o Dossiê Abrasco, no Brasil – que pelo décimo ano consecutivo lidera o ranking de maior consumidor de agrotóxicos no planeta – 64% dos alimentos estão contaminados por agrotóxicos, foram registradas 34.147 notificações de intoxicação por agrotóxicos de 2007 a 2014, houve 288% de aumento do uso de agrotóxicos entre 2000 a 2012. Apenas em 2014, o faturamento da indústria de agrotóxicos no Brasil foi de U$12 bilhões.

As mobilizações terminaram às 17h, em frente à Catedral, com uma aula pública de Rogério Dias, da Associação Brasileira de Agroecologia, sobre os retrocessos que o Projeto de Lei 6299/02, conhecido como o “PL do Veneno”, representa. Durante o evento, Rogério Dias chamou a atenção para que a sociedade civil pressione o Legislativo pela aprovação em Comissão Especial de outro projeto de Lei, o 6670/16, que institui a Política Nacional de Redução de Agrotóxicos (PNARA).  Enquanto o PL do Veneno já foi aprovado em Comissão Especial e agora segue para votação na Câmara dos Deputados, a PNARA ainda não foi avaliada pela mesma Comissão Especial. “Não podemos deixar que o PL do Veneno siga para a votação em Plenário sem que a PNARA vá também. Ela representa o contraponto à flexibilização do uso de agrotóxicos que o PL 6299 quer instituir”, afirma Rogério.

*ATUALIZAÇÃO: a PNARA foi aprovada em Comissão Especial no dia 4 de dezembro, seguindo agora para votação em Plenário. 

 

CEPAGRO E NÚCLEO LITORAL CATARINENSE VISITAM O CENTRO PARANAENSE DE REFERÊNCIA EM AGROECOLOGIA

A visita ao Centro Paranaense de Referência em Agroecologia aconteceu nos dias 26 e 27 de novembro, reunindo agricultores e agricultoras de diversos grupos da Rede Ecovida de Agroecologia, além da agrônoma Aline de Assis, da equipe técnica do Cepagro. O grupo pôde conhecer e conversar sobre comercialização, cestas agroecológicas, produção animal agroecológica, plantas medicinais e preparados homeopáticos, além de visitar a Casa da Semente Crioula.

Há algum tempo a coordenação do Núcleo Litoral Catarinense da Rede Ecovida vinha discutindo maneiras de se tornar mais rede de Agroecologia e menos rede de certificação. Segundo Cátia Cristina Rommel, do Grupo Germinação (Anitápolis e Santa Rosa de Lima), o objetivo das capacitações era que os agricultores pudessem trabalhar mais a Agroecologia e passar menos tempo se fiscalizando e se punindo, ir para além da certificação. A visita ao CPRA, que se localiza na cidade de Pinhais, próxima a Curitiba, contemplou o desejo do grupo, pois incluiu diversos temas que vinham sendo discutidos nas reuniões.

A capacitação começou com uma discussão sobre formas mais democráticas e contra hegemônicas de comercialização, e que assegurem também menos fragilidade para os agricultores em meio às oscilações de mercado. Depois viram as questões de manejo animal agroecológico, rotação de pastagem, uso de fitoterápicos e outras formas de controle de parasitas. Além de conhecer várias espécies de abelhas nativas.

O CPRA, como eles mesmo falam, possui o privilégio de trabalhar exclusivamente a Agroecologia, o que é raro. O Centro é uma autarquia do estado e em um mesmo espaço consegue concentrar várias abordagens. Durante a capacitação, os agricultores do Núcleo aprenderam ainda sobre construção de estufas usando bambu, plantas medicinais aromáticas e abordagens das Cromatografias de Pfeiffer, uma forma de análise de solo que o próprio agricultor pode fazer.

Em seguida, o grupo seguiu para a Associação Brasileira de Amparo a Infância (ABAI), em Mandirituba/PR, instituição que trabalha com crianças a partir da ecologia e usando sementes crioulas como forma de autonomia. Além disso eles abrigam a Casa da Semente Crioula, onde fazem um trabalho de resgate de sementes com as crianças. Lá os agricultores puderam trocar e adquirir sementes agroecológicas, o que é muito difícil de conseguir, segundo Cátia. Por fim, aprenderam como selecionar variedades de milho e visitaram o senhor Dantas, um dos guardiões de sementes que possui uma grande diversidade.

Cátia Cristina contou que a Casa da Semente Crioula é uma experiência que também envolve a Rede Ecovida de Agroecologia, porque algumas das sementes utilizadas pelos produtores associados vêm de lá. A agricultora disse ainda que essa capacitação era um sonho e que depois de meses de articulação, foi muito gratificante ter feito a viagem, “Olhar de fora o nosso lugar é sempre enriquecedor, é como cruzar uma fronteira e olhar para o teu país, é sempre uma percepção diferente quando se olha de fora. Está todo mundo voltando pra casa com muito entusiasmo e muita inspiração”.

A agricultora Cristina Alves, do Grupo Associada (Nova Trento e Major Gercino), se sentiu engajada a também se tornar uma guardiã, tentar plantar essas sementes crioulas, conseguir novas a partir do plantio e repassá-las. “Foi um conhecimento maravilhoso saber que existem pessoas que são esses guardiões e que protegem essas sementes e que têm a capacidade de estar passando para outras pessoas e de cuidar desse tesouro com muito carinho”, disse Cristina. A sensação ao final da viagem foi de quero mais.

SOBERANIA, SEGURANÇA ALIMENTAR E AGROBIODIVERSIDADE SÃO DEBATIDAS NA GRANDE FLORIANÓPOLIS

Avaliar e propor melhorias para políticas públicas de Alimentação e Agricultura são os objetivos do Seminário Estadual Segurança Alimentar e Nutricional: Programa de Aquisição de Alimentos e Programa Agrobiodiversidade, que acontece entre os dias 4 e 6 de dezembro em São José. Promovido pelo Conselho Estadual de Segurança Alimentar e Nutricional (CONSEA) e pela Câmara Intersecretarial de Segurança Alimentar e Nutricional (CAISAN) o evento reúne consumidores/as, agricultores/as e Poder Público para discutir principalmente três programas governamentais: o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), o Programa Terra Boa (também chamado Troca-Troca) e o Programa Estadual de Agrobiodiversidade, recentemente elaborado pelo CONSEA/CAISAN. Comercialização e abastecimento de alimentos orgânicos, sementes transgênicas e crioulas são alguns dos temas a serem tratados na programação, que acontece no Golden Hotel, no bairro Serraria. Os debates e mesas redondas são abertas ao público em geral.

Criado em 2003, o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) é uma ação do Governo Federal para colaborar com o enfrentamento da fome e da pobreza no Brasil e hoje representa um importante canal de escoamento da produção da agricultura familiar.

Já o Programa Terra Boa acontece no âmbito estadual e tem finalidade “Subvencionar a aquisição de calcário e sementes de milho, a fim de aumentar a produção, reduzindo a dependência de importação”. O Programa faz parte do Plano Estadual de Segurança Alimentar e Nutricional de Santa Catarina (PESAN). Entretanto, constatou-se que, dentre as variedades de milho distribuídas aos agricultores, grande parte são transgênicas. Durante o Seminário, serão avaliadas possibilidades de ampliar e diversificar as sementes do Programa, promovendo a agrobiodiversidade em Santa Catarina.

Buscando manter e fomentar a utilização de espécies da agrobiodiversidade pelos agricultores familiares, povos e comunidades tradicionais, povos indígenas e quilombolas, o CONSEA e a CAISAN elaboraram o Programa Estadual de Agrobiodiversidade, que também será discutido durante o Seminário. “A conservação da agrobiodiversidade tem como finalidade promovera Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (SSAN), constituindo-se em um componente essencial para o desenvolvimento sustentável”, afirma o texto do programa.

VEJA A PROGRAMAÇÃO DO SEMINÁRIO

 

Grupo de Florianópolis participa de curso de Consumidores e Agroecologia, em Lages

Nos dias 24 e 25 de novembro, grupos de consumidores de Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul estiveram reunidos em Lages para participar do 2º Módulo do Curso Consumidores e Agroecologia, promovido pelo Projeto Misereor em Rede. O Cepagro acompanhou o grupo de Florianópolis, que conta com 10 cursistas, entre consumidores e agricultores.

O módulo foi dividido em dois momentos, um teórico e outro com atividades a campo. Os participantes iniciaram o primeiro dia de curso compartilhando os relatos do “Tempo Comunidade”, período entre os módulos em que os grupos realizam dinâmicas entre si para colocar os aprendizados em prática. Erika Sagae, da equipe técnica do Projeto, conta que em Florianópolis o grupo optou por realizar mutirões e oficinas, “Em todas as atividades realizadas houve a participação quase que total dos cursistas, isso demonstra uma coesão do grupo que está cada vez mais integrando, se interagindo e fortalecendo relações”, disse.

Em seguida, os consumidores receberam uma formação sobre os Fundamentos da Agroecologia e Sistemas Agroflorestais e Políticas Públicas, facilitadas pelo agrônomo e educador Natal João Magnanti e pela técnica de campo Carolina couto waltrich,  do Centro Vianei de Educação Popular, de uma forma bastante participativa e construtiva. O dia encerrou com atividades culturais e uma feirinha solidária, gerando uma interação com os grupos de artesãos locais.

No segundo dia, os cursistas fizeram uma saída de campo e puderam conhecer de perto tipos de sistemas agroflorestais existentes. A experiência de agricultura sintrópica, na Propriedade Sol de Gaia, e a Propriedade Rio Bonito, que trabalha com sementes crioulas. Dois momentos muito ricos onde consumidores compreenderam também as dificuldades existentes no escoamento da produção e nos diferentes canais de comercialização.

O curso conta com quatro módulos e, até que o próximo aconteça, os grupos locais voltam a se reunir no tempo comunidade. Segundo Erika Sagae, o grupo de Florianópolis possui uma característica interessante que é ter em sua formação tanto consumidores quanto agricultores. Essa interação está fomentando a criação de duas novas células de consumo.

Comunicação Popular e Agroecologia Visual viram temas de oficinas no Cepagro

Capacitar jovens do campo e da cidade para produzir fotos e vídeos sobre suas vivências agroecológicas, construindo a noção de que todas e todos são comunicadorxs: esta é a ideia do ciclo de oficinas de Comunicação Popular e Agroecologia Visual que o Cepagro está promovendo desde final de outubro. Através de um convênio com a University of British Columbia (Canadá) e com apoio da Inter-American Foundation, acontecem 3 oficinas sobre fotografia e audiovisual, com viés da Comunicação Popular, utilizando os equipamentos disponíveis, por mais simples que sejam. Como objetivo maior, está trazer mais visibilidade para práticas e experiências agroecológicas em contextos diversos: da universidade a escolas do movimento sem-terra, passando pela agricultura familiar de Santa Catarina.

A primeira oficina foi realizada nos dias 27 e 28 de outubro, no Centro de Ciências Agrárias da UFSC. Participaram estudantes de graduação e pós-graduação do CCA, além de técnicas do Cepagro. Durante a oficina do sábado (27/10), o fotógrafo Carlos Pontalti, que também é estudante de Agronomia, trabalhou conceitos básicos como luz, enquadramento e tipos de planos, além das possibilidades e limites dos equipamentos: das câmeras artesanais aos smartphones. No domingo, a sequência foi com o jornalista Fernando Lisbôa, que retomou os conceitos da fotografia agregando componentes específicos do audiovisual, como a captação de som e os tipos de planos para imagens em movimento.

Como prática, os/as participantes gravaram e começaram a editar projetos em audiovisual sobre temas de seu interesse. A dupla Andressa Ferreira e Aline de Assis, por exemplo, escolheu gravar um tutorial sobre compostagem doméstica. Já o trio Gisa Garcia, Karina de Lorenzi e Vinícius Cauê escolheram montar um mini-doc com entrevistas e imagens da Agroecologia no CCA.

Ainda num ambiente educacional, mas desta vez em parceria com o Movimento de Trabalhadores Rurais Sem Terra, a segunda oficina aconteceu na Escola 25 de Maio, no Assentamento Vitória da Conquista, em Fraiburgo. Durante os dias 8 e 9 de novembro, a turma de 15 estudantes de Ensino Médio (também da Escola 30 de Outubro, de Lebon Régis) e do Curso Técnico em Agroecologia produziu várias fotos retratando o dia-a-dia da Escola e suas práticas agroecológicas. Também gravaram e editaram 3 vídeos sobre sustentabilidade, cultura e protagonismo feminino na agricultura familiar, utilizando os próprios celulares. As temáticas foram escolhidas e construídas por elxs a partir de perguntas como: O que é Agroecologia pra ti? O que queremos comunicar?

As fotos produzidas pelxs jovens viraram cards com lemas que valorizam diversos aspectos das escolas do MST, como a cultura, a educação e a agroecologia. “Queremos mostrar que somos muito mais do que resistência, temos também arte e cultura”, afirma a professora Sandra Formagini, que trabalha na escola de Lebon Régis e participou da oficina. O diretor da escola, Agnaldo Cordeiro, considera que “sair da rotina e ampliar a dimensão da comunicação atrelada ao debate político é muito pedagógico e importante”. Além disso, ele compreende que a Comunicação é fundamental para a  “formação de filhos de camponeses sobre uma proposta para o campo voltada à Agroecologia, com reconhecimento e valorização dessas práticas”.

A próxima e última oficina do ciclo será em Santa Rosa de Lima, no início de dezembro. Participarão agricultores e agricultoras do Núcleo Litoral Catarinense.

 

 

 

Agricultores e consumidores discutem impacto dos agrotóxicos em Major Gercino

As constantes menções ao Outubro Rosa que vemos neste mês alertam para a prevenção de dois tipos de câncer que atingem as mulheres: o de mama e o de colo de útero. Ambos têm como principais causas a exposição a produtos químicos que alteram os hormônios, entre eles, os agrotóxicos. Foi com o intuito de discutir o impacto desses químicos que entidades dos setores de Saúde e Agricultura de Major Gercino, em parceria com o Cepagro, organizaram o I Seminário sobre Alimentação, Saúde e Meio Ambiente: Caminhos da Produção ao Consumo, que ocorreu ao longo da última quarta-feira, 24 de outubro, no Centro de Convivência Municipal Lourival dos Santos.

Após um café de recepção, preparado com produtos dos agricultores locais certificados pela Rede Ecovida, o evento iniciou com uma solenidade de abertura onde estiveram presentes representantes das organizações que promoveram a atividade, uma parceria entre a Prefeitura Municipal de Major Gercino, Epagri, Sindicato dos Trabalhadores Rurais, Coopermajor e Cepagro.

A atividade foi dividida em dois momentos: primeiro para discutir segurança alimentar e o impacto dos agrotóxicos na saúde das pessoas e na parte da tarde discutiu-se a produção orgânica de alimentos onde agricultores locais puderam falar sobre suas experiências. Além de agricultores e consumidores de Major Gercino e cidades vizinhas, o evento contou com a presença dos alunos do 9º ano da Escola Prof. Tercílio Bastos que fizeram uma apresentação teatral alertando sobre o perigo do uso de agrotóxicos.

O primeiro a palestrar foi Pablo Moritz, médico do Centro de Informação e Assistência Toxicológica de Santa Catarina (Ciatox-SC). Ele chamou atenção para a participação dos agrotóxicos na causa de alguns tipos de câncer, entre eles o de mama:  “a exposição a produtos químicos que alteram hormônios é uma das principais causas. Produtos químicos que alteram os hormônios são vários, estão presentes nos plásticos, nos cosméticos, nos alimentos contaminados com conservantes, mas os agrotóxicos entram como um dos principais”.

Além disso, o médico mostrou que é longa a lista de doenças causadas pelo uso de venenos, que para ele poderiam ser chamados de “biocidas”: obesidade, diabetes, infertilidade, alzheimer, impotência e autismo são alguns dos males que afetam produtores e consumidores. Ele afirmou que essa forma de produzir e consumir alimentos, carregados de substâncias químicas nocivas à saúde e ao meio ambiente, não é sustentável e ressaltou a importância da precaução: “para prevenir essas doenças temos que mudar a forma de produzir alimentos, temos que mudar nossos hábitos”. Mas a responsabilidade de mudar a maneira de produzir é também do consumidor, “todos nós estamos gerando esse mercado, a demanda reflete na oferta”, enfatizou Dr. Pablo, frisando ainda a importância desses espaços de discussão que informam e mobilizam a população.

Em seguida, Marcos Marcelino, Secretário da Saúde e Saneamento de Major Gercino, mostrou como os problemas apresentados por Pablo são uma realidade na cidade. Pacientes de 20 anos de idade usando medicamentos para dormir e para depressão, gestantes que não podem amamentar e aumento de casos de diabetes e Alzheimer são situações enfrentadas atualmente. Marcos lembrou que o Brasil é um dos únicos países que possui um sistema público e gratuito de saúde, mas no ritmo que está, não haverá dinheiro suficiente para lidar com o problema de saúde pública.

O almoço agroecológico preparado com produtos orgânicos e locais encerrou a primeira parte o Seminário, que retornou com a apresentação de Tânea Mara Follmann, coordenadora do Núcleo Litoral Catarinense da Rede Ecovida de Agroecologia. A agricultora lembrou que não devemos culpar simplesmente os agricultores que ainda utilizam agrotóxico, porque quando essa tecnologia surgiu foram muitas as promessas feitas para os produtores. No entanto, ressaltou a importância de discutir e compartilhar experiências, para que aqueles que ainda não saíram do convencional, possam conhecer os benefícios da produção orgânica em diversos sentidos. Em seguida abriu o microfone para que os agricultores e consumidores presentes compartilhassem suas experiências.

Eduardo May, produtor orgânico há cerca de 9 anos, foi um dos primeiros a fazer o seu relato. Ele contou que sua produção de gengibre hoje é a mesma de quando produzia no modo convencional, só que a saúde dele e da família mudou para melhor. Antigamente o veneno que ele utilizava afetava até mesmo a transpiração, sentia cheiro de veneno. Por fim, agradeceu ao Cepagro que auxiliou no processo de transição e contou que “não é fácil sair do convencional porque tem produtos que tem o valor agregado. Mas quando você trabalha com orgânico, você tem dinheiro pra tudo, com um valor maior e qualidade a mais também”, contou Eduardo.

Raquel Solange de Souza, agricultora urbana de Florianópolis também contou sua experiência com os orgânicos, que até agora tem valido muito a pena. Para ela, uma dificuldade presente é para escoar a produção. Tânea Mara lembrou que a merenda escolar é normalmente um espaço onde os produtores orgânicos têm prioridade. Infelizmente, no caso de Major Gercino, as escolas municipais não são abastecidas com alimentos orgânicos. Mas essa é uma realidade que pode mudar: ao longo da tarde os agricultores retiraram alguns encaminhamentos, entre eles de encontrar a melhor forma de coletivamente abastecer a rede pública de ensino.

Outro encaminhamento que surgiu foi a necessidade de ampliar o debate sobre o tema entre os jovens do município. Charles Lamb, Coordenador de Desenvolvimento Rural do Cepagro, que participou na organização do evento, contou que um dos propósito do encontro também foi de “juntar a educação no sentido de sensibilizar jovens que ainda estão no meio rural ou que estão no núcleo urbano no município de Major Gercino pras questões da agricultura, da valorização do seu espaço e principalmente vislumbrando potenciais que o município oferece, tanto na produção vegetal, como na pecuária e até potencial turístico pouquíssimo explorado no município”.

Por fim, o prefeito Valmor Pedro Kammers agradeceu pela iniciativa e oportunidade de discutir o tema no município.  Estiveram presentes também o vice-prefeito Moacir Batisti e o Secretário da Agricultura e Meio Ambiente, Valdecir Marchi.