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Núcleo Litoral Catarinense fecha 2019 reforçando compromissos de participação e responsabilidade compartilhadas

Como o nome já diz, a certificação participativa pressupõe participação. E a última reunião do Núcleo Litoral Catarinense de 2019, realizada no dia 10 de dezembro, reforçou o compromisso da Rede Ecovida com  princípios como participação, responsabilidade compartilhada, confiança e transparência. Princípios que vão muito além da credibilidade de um selo nos alimentos, mas que fundamentam a prática agroecológica das mais de 90 famílias que compõem o Núcleo.

Durante o Encontro, que teve representantes dos 11 grupos do Núcleo e aconteceu no Gaia Village, em Garopaba (SC), foram discutidas questões sobre o Sistema Participativo de Garantia a partir de experiências dos próprios grupos. Procedimentos e práticas foram conversados, buscando sempre o equilíbrio entre a autonomia entre os grupos (formados pelas famílias de alguns municípios) e a responsabilidade compartilhada entre todos no âmbito do Núcleo. Isso porque, no Sistema Participativo, todas as decisões e verificações são feitas em conjunto, pelas próprias famílias. É a confiança entre todas, que todas estão seguindo os procedimentos do SPG, que mantém a Rede firme e forte.

Para delinear melhor as discussões, o Núcleo vem formando Grupos de Trabalho temáticos, que trouxeram informes para a reunião.

O GT de Comercialização falou sobre o processo de articulação com o Circuito da Rede Ecovida e como está sempre com o olhar atento para a rastreabilidade dos alimentos e o compromisso com os princípios da Rede.

O GT Sementes e Mudas informou que quer levantar o potencial de produção desses insumos no núcleo, além de organizar compras coletivas de sementes orgânicas. O uso de sementes e mudas orgânicas na produção agroecológica ainda não é uma exigência efetiva do Ministério da Agricultura, mas a Rede Ecovida já vem buscando isso para garantir a qualidade dos alimentos desde o início. Pelo Cepagro, a parceria com a Universidade de Michigan no projeto Culturas de cobertura da próxima geração, que tem o apoio da Conservation, Food & Health Foundation, vem sendo estimulada a produção de sementes de adubos verdes entre as famílias do Núcleo, o que poderia incentivar a adoção dessa prática, já que o custo das sementes nas agropecuárias muitas vezes é um obstáculo. Além disso, a ideia do projeto é que as/os agricultoras/es sejam fontes de conhecimento sobre o tema e não somente de sementes.

O GT Extrativismo disse que pretende abordar temas como boas práticas de manejo de espécies como açaí juçara, butiá e pinhão, além de dialogar com o Poder Público para regulamentar essas atividades.

E durante a reunião foi formado o GT Gênero do Núcleo, com a missão de trabalhar a temática no âmbito dos grupos para a construção de relações de gênero justas e equilibradas. Para fomentar e colorir essas reflexões, a bandeira com o lema QUANDO UMA MULHER AVANÇA, NENHUM HOMEM RETROCEDE, construída pelas mulheres para o Encontro Ampliado rodará entre os grupos. O primeiro a levá-la foi o grupo Paulo Lopes.

Ainda no âmbito de pesquisas no contexto do Núcleo, o Cepagro apresentou durante a reunião a proposta de trabalho para levantamento de dados para construção de Indicadores de Agroecologia junto às famílias do Litoral Catarinense. A proposta tem apoio da IAF e conta com a parceria da Universidade de British Columbia (Canadá), que está desenvolvendo um aplicativo para uso em campo que colaborará para a sistematização de dados sobre as propriedades, auxiliando as famílias no seu planejamento e gestão.

A reunião teve também a participação do Ministério da Agricultura (MAPA), representado pelos agrônomos Francisco Alexandro Powell Van Casteele e Elder Guedes. Eles falaram sobre o trabalho de fiscalização e controle do uso de agrotóxicos do MAPA em Santa Catarina, que envolve inclusive alimentos orgânicos. “As análises apontam que 5% das amostras de alimentos orgânicos contêm resíduos de agrotóxicos. Metade desses casos é por contaminação de um vizinho (deriva). Os outros são por contaminação nos pontos de venda”, disse Francisco, reforçando a importância de manter a documentação do caminho percorrido pelos alimentos (rastreabilidade), além das barreiras nas propriedades agroecológicas.

Mesmo com o horário avançado, os/as participantes encerraram a reunião em clima animado, talvez pela beleza do lugar, que sediará o próximo Encontro do Núcleo Litoral Catarinense, que já tem data marcada: 22 e 23 de agosto, em Garopaba. Porque é promovendo encontros que se fortalece a Agroecologia!

Mulheres e Juventudes protagonizam o XI Encontro Ampliado da Rede Ecovida de Agroecologia

Com o tema “Gênero, Geração e Conhecimento”, o XI Encontro Ampliado da Rede Ecovida de Agroecologia, realizado em Anchieta (SC) entre os dias 15 e 17 de novembro, foi marcado pelo protagonismo das mulheres e das juventudes da Agroecologia. 

Texto: Carú Dionísio e Clara Comandolli 
Fotos: Clara Comandolli

Quando o lema “Sem Feminismo, não há Agroecologia” apareceu pela primeira vez num Encontro Ampliado da Rede Ecovida, em 2017, o clima foi de algum estranhamento e surpresa. Mas, dito já nos finalmentes da Plenária Final do X EARE, com o burburinho da Feira de Saberes e Sabores ao fundo, passou discretamente. Dois anos depois, no embalo da grande participação feminina em ações de massa nas ruas do Brasil e da discussão de gênero ganhando corpo desde a Articulação Nacional de Agroecologia aos grupos da Rede Ecovida, o lema veio para a Plenária de Abertura do Encontro, convocado não por algumas, mas por muitas companheiras.  

Além do protagonismo das mulheres, outra marca do XI EARE foi o destaque na participação das juventudes. A mesa de abertura foi toda feminina, com mulheres jovens e mais experientes ocupando os espaços principais de fala. 

Sem feminismo, não há Agroecologia

Uma das convidadas para este momento foi Miriam Nobre, da organização feminista Sempre Viva (SP) e integrante da da Marcha Mundial das Mulheres e do GT de Mulheres da Articulação Nacional de Agroecologia (ANA). Miriam trouxe um histórico da discussão de gênero no movimento agroecológico a partir dos Encontros Nacionais de Agroecologia (ENA). Lembrou que o lema “Sem feminismo, não há Agroecologia” veio à tona pela primeira vez no terceiro encontro, em 2014, trazendo avanços para o debate. No encontro seguinte, as mulheres negras e indígenas chamaram a atenção também para as suas lutas porque “a experiência das mulheres não é uma só. Há diversidade e desigualdades entre nós”, comentou Miriam. 

No IV ENA as mulheres afirmaram estar “em fúria feminista”, por conta do contexto das eleições de 2018 e foram protagonistas do movimento #EleNão, como lembrou Miriam, por temer o aprofundamento das políticas neoliberais. Miriam aponta que “o neoliberalismo transfere toda a insegurança e vulnerabilidade da vida para nós, trabalhadores e trabalhadoras, principalmente para as mulheres”. Um exemplo são os cortes feitos no Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), medida que pesa mais sobre as mulheres, historicamente responsáveis pelos cuidados com a alimentação familiar.

Miriam falou também sobre o sexismo institucional existente e que desconsidera a mulher como agricultora quando o marido não é. O sítio leva o nome do marido, mas quem acorda primeiro e vai dormir depois em muitos casos são as mulheres, que acumulam ao trabalho na agricultura os afazeres domésticos, desconsiderados como trabalho.

Foi pensando nesta realidade que o GT de Mulheres da ANA, em parceria com o Centro de Tecnologias Alternativas da Zona da Mata de Minas Gerais (CTA-ZM), elaborou a Caderneta Agroecológica, usada pelas mulheres para registrar a produção de seus quintais e hortas, anotando o que é para autoconsumo, o que é vendido, trocado, doado ou ganhado. A ideia da caderneta é dar visibilidade ao trabalho das mulheres do campo, mostrando como as “miudezas” de seus quintais produtivos têm grande impacto positivo na renda familiar, contribuindo para a valorização da participação feminina na economia  e para o enfrentamento da divisão sexual do trabalho. “A gente quer, junto com os companheiros, organizar a economia não baseada no lucro, mas colocando a vida no centro. E colocar a vida no centro é outra forma de dizer: ‘sem feminismo, não há Agroecologia’”, disse.

Companheiros conferem os recados das mulheres da Rede, estampados em bandeiras produzidas nos Núcleos.

Por fim, Miriam lembrou que o machismo afeta também a vida dos homens. Ela os convidou a expressarem seus sentimentos e a somarem no combate à violência contra as mulheres, não apenas nos casos de violência física quando ela já aconteceu. “Nós, homens e mulheres, queremos ser tão diversos quanto a natureza é”, disse e completou dizendo que nossa luta é pela liberação de territórios: do machismo, dos transgênicos e dos agrotóxicos.

Juventudes: “não queremos só a sucessão. Queremos construir a nossa Agroecologia”

As juventudes também estiveram presentes na Plenária de abertura, chamando a atenção para os conflitos intergeracionais existentes na agricultura familiar. A jovem agricultora de Pelotas (RS), Luana Kerstner Schiavon, falou sobre a importância do diálogo e da escuta entre jovens e pais trabalhadores rurais. “Na agricultura familiar todos trabalham, porque ninguém faz sozinho”, comentou Luana, mas mesmo assim é muito comum os/as jovens agricultores/as, em especial as mulheres, serem desconsideradas como corresponsáveis pela produção.

A juventude é um tempo de muitos questionamentos e incertezas, lembrou Luana, e por esse motivo a educação do campo é extremamente importante no reconhecimento do “quem sou eu”. Acesso à educação, liberdade para escolher e a confiança dos pais foram algumas das demandas colocadas pela juventude agroecológica, que quer sucessão familiar e não apenas a herança da propriedade.

Luana compõe a coordenação geral da Rede Ecovida e disse ainda que os/as jovens precisam ocupar os espaços de deliberação e decisão política. Fala reforçada por Cristina Sturmer dos Santos, da Cooperativa de Produção Agropecuária Vitória (COPAVI), gerida por assentados da Reforma Agrária  no município de Paranacity (PR). Por lá, toda a gestão é feita por mulheres e jovens, que representam a maioria dos/as cooperados/as. Ainda assim, Cris  afirma: “Falar de gênero, geração e feminismo nunca é uma coisa pacífica. É cheia de conflitos e contradições”.

Outras demandas da juventude foram colocadas no seminário Juventudes Agroecológicas: rebeldia com causa, realizado na manhã do sábado, 16 de novembro. Ao longo da conversa, a principal queixa da juventude agroecológica foi a desconfiança e o não reconhecimento dos mais velhos. A grande maioria disse que uma das razões para o abandono do jovem do campo é a falta de consideração com as ideias e opiniões deles/as, seja na gestão da propriedade familiar ou na sua participação política dentro dos grupos e núcleos da Rede Ecovida.

Bruna Richter Eichler, agricultora de Venâncio Aires (RS), disse que se não fosse os jovens levando a Agroecologia para a propriedade, algumas famílias até hoje não teriam saído da agricultura convencional. É essa situação que a estudante e agricultora Gabriela Mariga enfrenta hoje. Ela estudou em colégio agrícola no município de Paulo Bento (RS) e conta que os professores “só ensinavam a plantar milho e soja”, principais culturas da região. 

Apesar de nunca ter ouvido falar sobre as práticas agroecológicas em sala de aula, Gabriela encontrou na biblioteca da escola um livro de Ana Primavesi, uma das precursoras da Agroecologia. A partir daí se encantou pelo movimento e passou a se aprofundar no tema. Hoje ela estuda Gestão Ambiental da Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (UERGS). 

“Quando eu falava em Agroecologia os professores me chamavam de louca e as pessoas perguntavam por que eu queria voltar para o passado”, coisa que ouve também dentro de casa, comenta Gabriela. Na propriedade dos pais o cultivo é convencional, então  ela recorreu ao CETAP, organização que apoia a Agroecologia no Rio Grande do Sul, para poder participar do XI EARE. No Encontro se sentiu em casa: “aqui tu é aceita. Lá eles acham que não se produz sem veneno”, disse.

Ao final do seminário foi encaminhada a criação de um GT da Juventude da Rede Ecovida, que colocou como uma de suas prioridades a inclusão da participação de 30% de jovens nas coordenações da Rede. Além disso, foi mencionada a importância do incentivo à cultura e lazer e à comunicação pela valorização da Agroecologia, acesso à educação, formação em marketing e empreendedorismo. Na ocasião também foi criado um GT de Arte e Cultura, com o intuito de pensar e promover místicas, músicas e momentos culturais para os eventos da Rede e assim contribuir com as reflexões da Agroecologia. “A mística e a cultural são tão importantes quanto os momentos de debates”, disse Bruna Richter Eichler, que abrilhantou musicalmente o encontro com sua banda. 

Seminários e oficinas discutem questões técnicas e políticas da Agroecologia

Na manhã do sábado, 16, também foi realizado o seminário Momento político atual e a agroecologia: quais são nossos caminhos?  Mais do que pensar questões e conflitos partidários, o Seminário foi dedicado a resgatar um pouco da caminhada da Rede Ecovida e de outras redes de Agroecologia do Brasil em suas construções por outro modelo de agricultura e de relação com território, além da participação de políticas públicas neste desenvolvimento.

A professora Cláudia Schmitt, da UFRJ e da Associação Brasileira de Agroecologia, trouxe dados sistematizados pelas redes que participaram do projeto ECOFORTE (apoiado pela Petrobrás) entre 2015 e 2016, mostrando que a maioria delas acessaram programas como o PNAE, PAA e até o Bolsa Família. A conjuntura atual, entretanto, é de desmonte dessas políticas, avaliou Cláudia, com acordo dos/as participantes: “nesse processo, primeiro retiram-se recursos, desestruturam-se as instituições e os espaços de participação social”, disse.  O ruir das políticas públicas afeta também as ações coletivas nos territórios, o que, por sua vez, tem impacto nos agroecossistemas.

“Mesmo assim, as redes não param”, disse Claudia. Neste sentido, Alvir Longhi, da organização CETAP (RS), convidou os/as participantes a pensarem temas aglutinadores – além do SPG – que poderiam constituir a estratégia política da Rede Ecovida para os próximos anos. O trabalho em torno da sociobiodiversidade e novas dinâmicas de comercialização, abarcando também a economia solidária, foram alguns dos temas levantados. Marilu Menezes, da Fundação Luterana de Diaconia (FLD), afirmou que “a Rede precisa assumir como eixo estratégico a superação de toda forma de violência de gênero, raça, etnia e orientação sexual”. 

Loyvana Perucchi, do Núcleo Serramar da Rede, lembrou da importância de termos formações políticas no âmbito dos núcleos e grupos. O vereador Marquito, de Florianópolis, trouxe a estratégia da construção de projetos de lei estaduais e municipais para avançar localmente na Agroecologia ainda que o cenário em nível federal esteja desfavorável. Também foi afirmada a importância de fortalecer a comunicação popular nas organizações da Rede, já que a disputa também é narrativa.

A programação também contou com os seminário sobre Produção local e ecológica de sementes e mudas, Sistemas agroflorestais e agrobiodiversidade e Produção animal: leite, aves de corte e ovos.

Durante a tarde os mais de 700 participantes do encontro, entre agricultores/as, consumidores/as e profissionais e organizações de apoio à Rede Ecovida se dividiram entre as 29 oficinas realizadas. Entre elas, a oficina sobre consumo consciente, facilitada pelo grupo de consumidores formados pelo Cepagro, em conjunto com o CETAP, Vianei e ASPTA, com apoio da Misereor.

O GT Gênero promoveu a oficina Mate e Debate sobre Gênero, reunindo mulheres dos três estados da Rede. Além de relatos de diversos tipos de violências que ainda acontecem em espaços públicos e privados da Rede, as mulheres colocaram também a importância de continuar os ciclos de encontros locais e regionais entre elas, como o I Encontro de Mulheres da Rede Ecovida de Agroecologia, realizado em Erechim em setembro. 

Nos intervalos, a tradicional Feira de Saberes e Sabores trazia toda a riqueza da produção da agricultura familiar agroecológica do sul do Brasil.

Plenária final traz encaminhamentos para a Rede e mostra força da união feminina

O XI EARE encerrou com a Plenária Final na manhã de domingo. Como de costume, neste momento a Rede deu as boas vindas aos novos Núcleos, que haviam sido anunciados no EARE de 2017: Núcleo Vale do Itapocu (SC), Núcleo Sudeste Gaúcho (RS), Núcleo Centro-Sul (PR) e Guarumbé (PR).

 Ivo Macagnan, do CAPA Saltinho e da coordenação da Rede, apresentou alguns  anúncios: hoje a Rede Ecovida conta com 3.400 famílias certificadas, o que representa quase 20%  dos certificados de produção orgânica no Brasil. Outro motivo de comemoração foi a dos avanços do sistema informatizado para a certificação participativa e do equilíbrio das contas da Rede.
Foi apresentada também a nova coordenação da Rede Ecovida.

Do seminário Sistemas agroflorestais e agrobiodiversidade, foi afirmada a necessidade de  fomentar a utilização de PANCS; de as ações de ATER retornarem para os agricultores familiares, que são os verdadeiros observadores e experimentadores; de avançar na certificação agroflorestal. “A Agroecologia é a agricultura do futuro, precisamos lutar para fortalecê-la”, disse Israel Lourenço, integrante do MST e relator.

Sobre Produção local e ecológica de sementes e mudas, os/as relatores/as afirmaram que a Rede Ecovida está preparada e tem capacidade para ter autonomia desses insumos em suas produções. “Precisamos olhar para as experiências que já existem e companheiros/as que já produzem mudas e sementes, fazer parcerias e visitas às instituições que trabalham o tema, formações para a circulação de conhecimento, não ver a semente de uma forma romantizada mas estratégica, fortalecer e honrar nossas sementes crioulas”, disseram. 

Na temática de Produção Animal, afirmou-se a necessidade de ampliar a produção animal na Rede Ecovida para além de bovinos e aves, fortalecer as agroindústrias de tratamento de leite, avançar na agroindustrialização coletiva, fortalecer a homeopatia no tratamento de doenças animais. Além disso, propôs-se que derivados de leite agroecológico sejam ofertados na alimentação escolar, assim como a sugestão de a Rede Ecovida editar um compêndio de receitas ecológicas para tratamento de animais.

Fechando a Plenária, as mulheres ocuparam novamente o palco para trazer encaminhamentos trabalhados pelo GT Gênero ao longo do ano, que envolvem a inclusão do tópico sobre violência de gênero e outras violações de direitos humanos como passível de perda de certificado no Manual de Procedimentos da Rede. Além disso, as mulheres anunciaram o requisito de todo Comitê de Ética de Núcleo, uma das instâncias da certificação participativa, ter uma mulher em sua composição. E chamaram a atenção para a importância das mulheres das famílias participarem nas visitas e reuniões da Rede. A intervenção foi fechada novamente com o lema Sem Feminismo, Não há Agroecologia, com o repasse da bandeira do movimento das mulheres, construída coletiva e localmente nos núcleos, para as companheiras que receberão o próximo Encontro Ampliado. O XII EARE será em Pinhão, no Paraná, com acolhimento do recém-formado Núcleo Centro Sul.

A alimentação é um ponto importante dos Encontros Ampliados da Rede Ecovida. Nesta edição, a preparação das refeições foi feita por seis chefes do Movimento Slow Food, em conjunto com quatro restaurantes locais. Foram servidos cerca de 1500 pratos por dia, feitos com alimentos agroecológicos dos agricultores e agricultoras da Rede, com um menu especialmente pensado para os/as vegetarianos/as.

Os chefes se dividiram entre os restaurantes seguindo um rodízio e  o ecochef do Convivium Slow Food Mata Atlântica, Fabiano Gregório, conta que todos os restaurantes queriam receber o menu vegetariano em algum momento, principalmente para aprender coisas novas: “Foi uma interação bem bacana, teve bastante troca de experiências e foi muito engrandecedor”, conta.

No domingo, os chefes do Slow se reuniram no Salão Paroquial para o almoço coletivo de despedida do XI EARE, uma forma de aproveitar os alimentos preparados sem gerar desperdício. Além de ser um momento de confraternização e celebração de mais um encontro realizado que deixou um gostinho de quero mais.

I Encontro de Mulheres da Rede Ecovida reafirma: Sem Feminismo, não há Agroecologia

O que significa trazer um olhar de gênero para o trabalho em Agroecologia? O que significa dizer que Sem Feminismo, não há Agroecologia? Como levar esses debates para os grupos de agricultoras? Como fortalecer a participação e o protagonismo das mulheres na Rede Ecovida de Agroecologia?
Essas foram algumas das questões discutidas durante o I Encontro de Mulheres da Rede Ecovida de Agroecologia, realizado entre os dias 19 e 21 de setembro em Erechim (RS). Promovido com apoio da Embrapa Pelotas e do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), o Encontro reuniu companheiras de 12 núcleos dos três estados do Sul do Brasil, que discutiram conceitos, analisaram a conjuntura atual e pautaram encaminhamentos para a Rede Ecovida de Agroecologia, que, segundo as mulheres, deve colocar-se novamente como movimento de resistência.

No primeiro dia do Encontro, as mulheres trouxeram relatos sobre a discussão de gênero e o protagonismo feminino em seus núcleos. A diversidade de situações relatadas foi grande: da existência de grupos de agroecologia majoritariamente femininos a outros em que as mulheres praticamente não participam; da violência física e psicológica a agricultoras e coordenadoras de núcleos à paridade de gênero nas coordenações. Mesmo neste quadro tão diverso, foi consensual que é preciso estimular e garantir a participação das mulheres em todos os espaços de decisão da Rede Ecovida, dos grupos ao Encontro Ampliado, fortalecendo a discussão sobre gênero e envolvendo os companheiros homens neste debate também. Só assim será possível promover relações sociais mais justas e livres de qualquer tipo de violência, pressuposto básico da Agroecologia.

As participantes construíram um Rio da Vida das Mulheres da Rede Ecovida, fazendo um resgate histórico de suas trajetórias pessoais e também de coletivos feministas no movimento agroecológico. Durante a dinâmica, ficou claro como as lutas empreendidas por mulheres desde as décadas de 1980 ao início dos anos 2000 resultaram num crescimento da discussão sobre gênero e feminismo na Agroecologia após 2005 – 2010. Conquistas históricas como a da documentação e da aposentadoria para trabalhadoras rurais, empreendidas há mais de 30 anos, foram seguidas pelo crescente acesso feminino ao ensino técnico e superior, além da formação de setoriais de mulheres e de gênero dentro de movimentos como o MST e a criação de políticas públicas como ATER Mulheres e a priorização da atuação de técnicas mulheres no ATER Agroecologia, que contribuíram para que as demandas das mulheres ganhassem espaço e visibilidade.

Buscando promover relações de gênero mais justas no âmbito da Rede Ecovida, as mulheres traçaram encaminhamentos que serão apresentados no próximo Encontro Ampliado, que será realizado entre os dias 15 e 17 de novembro de 2019, em Anchieta, Oeste de Santa Catarina.

O que é “Sem Feminismo, não há Agroecologia” para as mulheres da Rede Ecovida?
Construindo coletivamente a compreensão de que os papéis e padrões de comportamento relacionados ao gênero na nossa sociedade – que definem o que é “coisa de mulher” ou “coisa de homem” – são na verdade construções sociais e históricas, e que o(s) Feminismo(s) busca(m) romper com esses padrões e pautar relações mais igualitárias,  as mulheres da Rede Ecovida debateram o lema que vem sendo cada vez mais ouvido no movimento agroecológico: Sem Feminismo, não há Agroecologia.

Para a tecnóloga em Agroecologia Andressa Aparecida Martins, da equipe técnica do CETAP, o Feminismo está no tripé básico de princípios da Agroecologia. “A Agroecologia deve ser economicamente viável, ambientalmente sustentável e socialmente justa. Sem o Feminismo, não tem como ser socialmente justa”, afirma.

Para a agricultora e técnóloga em Agroecologia Daniela Calza, do Paraná, “Sem Feminismo não há Agroecologia porque não é possível a produção de alimentos saudáveis com respeito à natureza, ao bem estar animal, mas com relações doentes. A Agroecologia contempla questões sociais, culturais. Se a gente tem a exploração de um ser humano por outro, não é Agroecologia”. Daniela integra a Cooperativa de Produção Agropecuária Vitória (COPAVI), de Paranacity, que já vem pautando a participação igualitária de mulheres . “A cooperação e a Agroecologia proporcionam independência e autonomia das mulheres, tanto na questão financeira quanto no poder de decisão”, completa Daniela.

Maria Paula Perucci, de Santa Catarina, acredita que Sem Feminismo, não há Agroecologia porque “uma rede de Agroecologia é também um movimento social que propõe novo modelo de sociedade. Só vamos chegar a essa nova sociedade quando terminarmos com a sobrecarga das mulheres pelo trabalho doméstico, vencermos as barreiras de violência doméstica e ocuparmos todos os lugares. E nosso lugar é onde a gente quiser. Por isso, feminismo e agroecologia andam juntos”.

A agricultora Jane Matos é a primeira mulher a ocupar a coordenação de seu Núcleo, o Serra, do Rio Grande do Sul, que tem mais de 300 famílias. “Temos feito esse movimento das mulheres participarem de todas as assembleias e momentos de decisão do nosso Núcleo. Tínhamos poucas mulheres participando, mas estamos buscando fortalecer e cativar mais companheiras. Quando eu chego numa propriedade, sempre pergunto: ‘onde está sua senhora?’, para que as mulheres participem também das visitas”. Ela conta que aprendeu sobre Feminismo e Agroecologia na prática, com sua avó. “Ela praticava a Agroecologia e tinha uma ideia de direitos igualitários com os homens. Era a prática da vida dela. E é  esse querer que eu tenho, que o Feminismo e a Agroecologia estejam juntos”. Para Jane, “nós mulheres precisamos ocupar nossos lugares, sem ter esse preconceito que queremos ocupar o lugar dos homens. Queremos caminhar junto, lado a lado”, completa.

A engenheira florestal e agricultora Meri Diana Strauss Foesch afirma que “o feminismo busca a igualdade, e hoje buscamos que as mulheres participem em seus núcleos e na rede. As mulheres têm muito conhecimento a buscar e compartilhar. Precisamos defender o feminismo para criar uma sociedade mais igualitária, para ter desenvolvimento sustentável, para assegurar direitos como saúde, educação, agricultura ecológica, com tecnologias ecológicas e com a participação de todas e todos”.

Aghata Cristie Rewa Charnobay é técnica de extensão do Laboratório de Mecanização Agrícola da Universidade Estadual de Ponta Grossa e veio ao Encontro para conhecer o trabalho da Rede Ecovida e de suas mulheres. “Quero colaborar para as mulheres se empoderarem mais nesse mundão”, conta. “Sem Feminismo, não há Agroecologia porque a Agroecologia vem como mudança de sociedade, movimento e também ciência. É a gente entender e estudar o todo, sem excluir relações. E a mulher é grande parte dessas relações. E falamos muito de transformação. Pra mudar o mundo, precisamos mudar nós mesmo. Debater o Feminismo na Agroecologia é importante para mudar as mulheres, os homens e consequentemente o todo”.

A tecnóloga em Agroecologia e assentada da Reforma Agrária Rosângela de Fátima Rodrigues avalia que “hoje vivemos no sistema capitalista, que abriga o agronegócio. Nesses sistemas as mulheres somos exploradas, humilhadas e ofendidas, verbalmente e fisicamente. Se não tiver o Feminismo, se não lutarmos por nossos direitos, por igualdade, não tem Agroecologia. Porque a Agroecologia trabalha com a vida, com respeito, diversidade, cuidado do meio ambiente, o cuidado com o outro. Pra mim não há Agroecologia, sem o Feminismo. E esses são os nossos espaços, de voz e de vez, se sermos escutadas e valorizadas enquanto mulheres”.

 

 

 

 

Encontro do Núcleo Litoral Catarinense renova princípios da Rede Ecovida de Agroecologia

“A alma da Rede Ecovida de Agroecologia são seus princípios, não a certificação”. A fala da agricultora Claudete Ponath, de Piçarras (SC), enfatiza que, muito além de emitir certificados de orgânico, a  Rede Ecovida existe porque há confiança, participação, transparência e organização de base entre famílias. Esses e outros princípios foram retomados e renovados durante o 13º Encontro do Núcleo Litoral Catarinense da Rede Ecovida de Agroecologia, realizado em Porto Belo no último final de semana, dias 24 e 25 de agosto de 2019. Mais de 130 pessoas participaram do Encontro, trocando conhecimentos, sementes e muita disposição para seguir trabalhando por uma agricultura limpa e amiga da Natureza.

A conversa sobre os princípios da Rede emerge num contexto em que, a partir do Fórum Brasileiro de Sistemas Participativos de Garantia, torna-se necessário incluir equidade de gênero e geração entre os princípios dos SPGs no país. “Isso significa que precisamos falar sobre Gênero e Geração no nosso Núcleo. Por termos uma coordenação com bastante mulheres ao longo de vários anos, pode parecer que não é preciso falar sobre isso. Mas não é verdade”, avalia Claudete, escolhida também como nova coordenadora do Núcleo, entrando no lugar da agricultora Tânea Mara Follmann, de Águas Mornas.

Troca de conhecimentos nas palestras e oficinas do Encontro
Além de momentos de celebração, os Encontros de Núcleo são espaços de troca e construção de conhecimentos.

A primeira palestra do Encontro foi no sábado 24, com o coordenador da Casa da Semente de Mandirituba (PR), Hans Rinklin. Após abordar o contexto de erosão genética em que vivemos atualmente, perdendo cerca de 10 variedades de sementes TODOS OS DIAS, além do controles de 66% da produção mundial de sementes por apenas 3 multinacionais, Hans apresentou o trabalho da Casa de Sementes e dos grupos de guardiões como uma alternativa para conservar a biodiversidade. “Sem semente, não há possibilidade de vida humana”, disse.

A Casa de Sementes existe desde 2011, articulando grupos de agricultores/as dispostos/as a conservar e multiplicar variedades de sementes crioulas e nativas. Mais do que um banco de armazenamento, a Casa promove também atividades de capacitação e acompanhamento de análises de sementes. Através de uma parceria com a Rede Sementes da Agroecologia, apoia a construção das Festas das Sementes no Paraná, além de realizar incidência política. Fechando a conversa, Hans afirmou: “A conservação das sementes e da agrobiodiversidade não é tarefa só dos/as agricultores/as. É de toda a sociedade, do campo e da cidade”.

Na sequência, os grupos do Núcleo Litoral fizeram sua apresentação.

Tecnologias sustentáveis de produção de hortaliças foi o tema da palestra do agrônomo Euclides Schallenberger, da Epagri de Itajaí.  Ao longo de uma hora com muitas informações, Schallenberger falou sobre propiciar boas condições ambientais para as plantas crescerem saudáveis, além de técnicas de manejo integrado, controle biológico e controle químico para doenças e “pragas” nos cultivos. “Não basta só não usar veneno. Para ter sucesso no cultivo orgânico, é preciso manter a planta em condições ótimas, criando também condições ruins para insetos e bactérias”, disse o agrônomo. Ao final de sua apresentação, Schallenberger falou sobre a nova proposta do ICMS Verde, prorrogada para entrar em vigor só no final de dezembro deste ano e que taxará com ICMS de 17% os agrotóxicos mais perigosos, reduzindo esta alíquota até 0%, no caso de produtos biológicos, permitidos na produção orgânica. “Isso mantém nosso custo de produção baixo, se comparado com o convencional”, disse.

As oficinas, no domingo de manhã, trataram de temas como: preparados biodinâmicos, adubos verdes, plantas alimentícias não convencionais (PANCs), comercialização e organização de consumidores/as e planejamento de produção e gênero.

Pra quem precisava relaxar e se cuidar um pouco, a Oficina Cuidar de Si foi o espaço certo para isso.

 

Trocas e intercâmbios durante o Encontro

Ao longo de todo o evento, a Feira de Saberes e Sabores era o espaço de trocas e conversas em meio à produção agroecológica do Núcleo Litoral Catarinense.

Assim como em anos anteriores, em 2019 o Encontro do Núcleo teve participações externas. Uma delas é dos companheiros da organização Fundesyram, de El Salvador, José Jesús Cordoba e Juan Antônio Ruiz, que vieram a Santa Catarina participar de diversas atividades conjuntas com o Cepagro. Além de trazer um pouco da experiência em Agroecologia do seu país natal, eles compartilharam também sementes, afinal “nosotros los agricultores agroecológicos somos todos hermanos”, disse José Jesus. A Fundesyram é parceira do Cepagro no projeto apoiado pela IAF.

Também participaram neste Encontro a turma da Rede Plantar para a Vida, de Sergipe, que está sendo assessorada por membros do Núcleo Litoral para compor seu SPG. O agricultor e estudante de Agronomia Elvis Valentim Lisboa era um dos membros da comitiva e conta que se sentiu em casa durante o Encontro. “Vimos que temos muita coisa parecida com os/as agricultores/as daqui”, disse. Elvis relata que a Rede surge a partir de uma articulação entre grupos de agricultores que fazem feira na região do município de Lagartos: “como grupo, temos mais impacto na comunidade”, afirma. Durante o Encontro, algo que o marcou bastante foi a diversidade: de pessoas, de interesses, de cultivos e de culturas. Leva para Sergipe os aprendizados que teve durante a oficina de Planejamento de Produção, com a equipe do LACAF.

A técnica do Sebrae Luciana Oliveira Gonçalves acompanha a Rede sergipana e conta que por lá os/as agricultores/as seguem os mesmos princípios da Ecovida. Desde 2017 a rede adotou o SPG e em dois anos Luciana já percebeu “a transformação social que causa na vida das pessoas e a melhora da autoestima. Com o processo participativo eles passaram a se relacionar de outra maneira, mais coletiva, fazem mutirões, se ajudam”. 

E é claro que nos encontros do Núcleo não pode faltar um banquete agroecológico. Em meio à diversidade de alimentos preparados pelo Grupo de Agroecologia Costa Esmeralda, que recebeu o evento, apenas três itens não eram agroecológicos.

Plenária do Encontro aborda princípios da Rede Ecovida
A demanda pela inclusão da equidade de gênero e geração estimulou a discussão sobre os princípios gerais da Rede Ecovida durante o Encontro do Núcleo. Representantes de vários grupos falaram sobre cada um dos 9 princípios da Rede: descentralização, confiança, processo pedagógico, formações de redes, participação, olhar externo, organização de base, transparência e adequação à unidade familiar. Atualmente, as questões de gênero e geração foram incluídas somente no Manual de Procedimentos da Rede, num capítulo que trata sobre violações de direitos humanos. Estas infrações podem implicar a perda do certificado e exclusão da Rede – ou seja, diz respeito principalmente à certificação, mas, como disse Claudete: o que move a Rede são seus princípios, eles são a alma da Rede. Neste sentido, continua a demanda por mais discussão dentro desta temática para que seja abarcada também como princípio agroecológico praticado na Rede.

Também foi apresentada a nova equipe de coordenação, com Claudete Ponath na coordenação e Ernande Stolarczk, de Major Gercino, como vice. E o próximo Encontro de Núcleo já tem local: Garopaba.

Porto Belo recebe Encontro da Rede Ecovida de Agroecologia

O Encontro do Núcleo Litoral Catarinense da Rede Ecovida acontece anualmente, reunindo famílias agricultoras que se dedicam à produção sustentável de alimentos orgânicos
Cerca de 150 pessoas, a maioria agricultores e agricultoras orgânicos de Santa Catarina, são esperadas neste final de semana no 13º ENCONTRO DO NÚCLEO LITORAL CATARINENSE DA REDE ECOVIDA DE AGROECOLOGIA, que acontece no Salão da Igreja Nossa Senhora Aparecida, comunidade Sertão de Santa Luzia, em Porto Belo. Na programação, haverá palestras, oficinas e a tradicional Feira de Saberes, Sabores e Sementes, representando a riqueza da agricultura agroecológica de Santa Catarina. O evento, organizado pelo Grupo de Agroecologia Costa Esmeraldas (GACE), começa no sábado, 24 de agosto, às 15h e termina no domingo, 25 de agosto, às 16h. No domingo a programação será aberta ao público.
A mesa de abertura do Encontro, no sábado às 18h, será sobre TECNOLOGIAS EM PRODUÇÃO SUSTENTÁVEL DE HORTALIÇAS, com a participação do agrônomo Euclides Schallenberger, da EPAGRI. No domingo o destaque é para as oficinas, abordando temas como: planejamento de produção, organização de grupos de consumidores e adubos. Durante todo o evento acontece a FEIRA DE SABERES SABORES, com alimentos e artesanato da agricultura familiar agroecológica catarinense. Um delicioso café e almoço agroecológicos serão servidos, a R$ 25 por pessoa. A organização pede confirmação da presença pelo telefone (47) 99720-6930.
O último encontro foi em Biguaçu

O Núcleo Litoral Catarinense da Rede Ecovida reúne cerca de 150 famílias de agricultores e agricultoras de 30 municípios catarinenses. Os Encontros  de Núcleo são realizados anualmente. Já a Rede Ecovida está presente nos três estados do Sul brasileiro, reunindo mais de 4 mil famílias de agricultores e agricultoras agroecológicos.

Celebrado em 25 de julho, Dia Internacional da Agricultura Familiar homenageia quem alimenta o mundo

O Dia Internacional da Agricultura Familiar foi instituído em 2014 pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO). A data lembra da importância dos agricultores e das agricultoras para a alimentação mundial. De acordo com a FAO, entre 70 e 80% dos alimentos consumidos no mundo são produzidos por agricultores e agricultoras familiares e camponeses .

Em Santa Catarina, de acordo com a Síntese Anual da Agricultura publicada pela EPAGRI, o estado ainda caracteriza-se pelo predomínio de pequenas propriedades rurais.  Dos 183.065 estabelecimentos agropecuários do estado, 88,8% tem menos de 50 hectares, sendo que 37% destes estabelecimentos possuem menos de 10 hectares. Dentre os/as trabalhadores/as catarinenses que se identificam como agricultores/as, 84% são familiares.

Mas o que é agricultura familiar?
A categoria “agricultor/a familiar” é regulamentada pela lei 11.326, de 2006, que instituiu a Política Nacional de Agricultura Familiar e Empreendimentos Familiares Rurais, ainda durante o governo Lula. No texto, considera-se agricultor/a familiar quem:
– tem uma área de até 4 (quatro) módulos fiscais [em Santa Catarina isso corresponde a ate´80 hectares de terra]
– utiliza predominantemente mão-de-obra da própria família;
– tem renda familiar predominantemente originada de atividades econômicas vinculadas ao próprio estabelecimento ou empreendimento;
– dirige seu estabelecimento ou empreendimento com sua família.

Enquanto em cadeias produtivas agroindustriais, como frango, suínos e fumo, a agricultura familiar é responsável por grande parte da produção, no cultivo de alimentos orgânicos as famílias que trabalham no campo também têm destaque. No Cadastro Nacional de Produtores Orgânicos do Ministério da Agricultura – que contabiliza todas as famílias que passam por algum processo de certificação da produção – Santa Catarina tem 1.275 unidades de produção orgânica cadastradas, figurando entre os cinco maiores produtores de orgânicos do país. O documento também aponta que o número de agricultores/as catarinenses que se dedicam ao cultivo orgânico aumentou 12,9% entre 2017 e 2018, com o município de Santa Rosa de Lima, nas encostas da Serra Geral, reunindo o maior número de produtores/as.

Em 2017, Leonilda compartilhou sua experiência de vida e trabalho no Seminário “Mulheres e Agroecologia”

Uma das famílias é a da agricultora Leonilda Boeing Baumann. Antes conhecida como “a mulher do professor”, apesar de ter crescido e sempre trabalhado na roça, Leonilda Boeing Baumann agora maneja com seu filho uma propriedade com certificação agroecológica em Santa Rosa de Lima (SC), onde produzem verduras, temperos e chás, mel, geleias e mantêm também a Pousada Vitória. A partir do contato com o projeto Acolhida na Colonia de agroturismo, Leonilda resgatou sua autoestima de ser agricultora. E, com a inserção na Rede Ecovida de Agroecologia, afirma: “Hoje, se tu tem um alimento limpo na tua propriedade pra servir pra tua família, aí está o teu remédio”. 

O filho de Leonilda, Jackson, estudou Agronomia e voltou para trabalhar na propriedade em Santa Rosa de Lima. Participa de feiras e também de atividades da Rede Ecovida de Agroecologia.

E o que mais dizem as/os agricultoras/es sobre a agricultura familiar?

“Eu costumo dizer pro meu esposo que eu nasci pra isso. Nasci pra ser agricultora e produtora orgânica. Porque cada semente que eu planto na terra é com muito amor. Tanto amor, que eu até tenho dificuldade de tirar os alimentos da terra depois”. A agricultora Thaís Teixeira da Rosa, de Porto Seguro (BA), participa há dois anos da Rede de Agroecologia Povos da Mata, que reúne outras 700 famílias agricultoras da Bahia. Neste tempo, ela aprendeu e vem praticando diversas técnicas de manejo agroecológicas, que, combinadas com os saberes tradicionais repassados por suas ancestrais, garante o sucesso de suas colheitas e a diversidade na banca das duas feiras que ela realiza semanalmente. Com o trabalho na agricultura, Thaís e seu companheiro garantem o sustento da família de seis filhos. “Não é fácil”, afirma ela, mas seu amor pela terra não a deixa desistir: “Se não dá certo, eu vou lá e tento de novo”, conta. “Se você trata bem o solo, ele sorri pra você. A terra é como uma filha”, completa.

“A gente sabe que agricultura familiar é pra gente plantar e ter alimentos de saúde pras crianças e escolas. Se possível, orgânico. Porque o convencional anda muito complicado, causando muita doença. Eu acho que as escolas deveriam tudo pegar alimento orgânico. Porque as crianças comerem alimento convencional é muito complicado”. O agricultor Orlando Ribeiro Melo vive e trabalha em Bocaina do Sul, na Serra Catarinense. Participa da Rede Ecovida há 10 anos, quando iniciou sua transição do cultivo convencional para a Agroecologia. “Agroecologia é ter mais saúde para o povo, com alimentos saudáveis e de qualidade”, afirma ele.

E a agricultura familiar caminha com os povos e comunidades tradicionais. Quem dá o recado é Walter dos Santos, liderança quilombola e agricultor do Maranhão. “A gente tem que valorizar o quilombola e a agricultura familiar porque são parceiros que andam juntos. Porque se nós não produzimos, nós não conseguimos nos alimentar e se nós produzimos juntos: tá aí a agricultura familiar. Eu acredito que uma só andorinha não faz verão, mas o povo junto muda a realidade do Brasil.”

Superando um passado de fome e analfabetismo, com apoio de entidades da igreja católica e acessando políticas públicas como o Bolsa Família, o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e o Programa Nacional de Alimentação Escolar, a comunidade quilombola Piqui da Rampa, onde Walter nasceu e cresceu, hoje se sustenta com o que é produzido ali e sabe o valor dos alimentos. “O Bolsa Família fez com que a gente pudesse trabalhar de barriga cheia e aumentou nossa capacidade de conhecimento. E nós só soubemos o quanto valia um kilo de abóbora ou de feijão quando a CONAB chegou aqui e entramos no PAA”, conta. Com três refeições ao dia e alfabetização, a comunidade alcançou autonomia e conquistou espaços institucionais, como o Conselho Estadual de Segurança Alimentar e Nutricional, onde Walter ocupa um assento, e a universidade pública, com várixs jovens da comunidade tendo acesso. Dois são filhxs de Walter: Valdenice, que está cursando o Mestrado em Ciências da Saúde na Universidade Federal do Maranhão, e Waldey, estudando Agronomia também na UFMA.

“Nasci e me criei na roça. Agricultura Familiar pra mim é trabalhar a terra com carinho, produzir alimentos saudáveis pra nossa população. A gente sabe que 70% dos nossos alimentos vêm da agricultura familiar. Pra mim é tudo isso: produzir alimentos saudáveis com respeito ao meio ambiente”, afirma Lindomar Lins, agricultor do município de São Gabriel, no sertão baiano.

Ele sempre trabalhou na agricultura, e até 2011 cultivava somente pepino e beterraba em sua propriedade, utilizando adubos químicos e agrotóxicos. Através da sensibilização e assistência técnica da empresa pública de assistência técnica, Lindomar iniciou sua transição agroecológica. Com o estabelecimento da Rede Povos da Mata na região a partir de 2016, Lindomar pôde certificar sua produção como orgânica. Hoje, ele produz de 40 a 45 variedades de alimentos numa área de apenas 1,5 hectare, que tem tanto uma horta diversificada quanto um Sistema Agroflorestal. A observação do ciclo natural dos cultivos somada ao uso racional da irrigação com cobertura de solo e à produção própria de adubos e insumos orgânicos colabora para as colheitas de Lindomar, que faz 3 feiras orgânicas por semana na região. “É só entender a Natureza e trabalhar com ela que dá tudo certo”, afirma o agricultor. 

Para Carmem Munarini, agricultora e membra do Movimento de Mulheres Camponesas, “ser agricultora familiar é trabalhar junto com minha família lá na roça, lá no interior. É se organizar e ter direito também a mandar. Não deixar só os filhos e o marido mandarem, mas ter o direito também de participar nas decisões da família e nas decisões do trabalho da agricultura familiar”.

 

Rede Povos da Mata fortalece a Agroecologia na Bahia

Consolidada em 2016, a Rede Povos da Mata reúne hoje 700 famílias agricultoras de 4 regiões da Bahia. Nos dias 12 e 13 de julho foi realizado o II Encontro da Rede, em Irecê, no sertão baiano. O Cepagro esteve lá e conta um pouco do que rolou.

Paula Ferreira na abertura do Encontro

“Irecê tem a maior Feira Orgânica certificada da Bahia. Não somos mais pequenos agricultores de fundo de quintal. Produzimos toneladas de alimentos! Queremos assumir o compromisso de fornecer para a alimentação escolar na região. Temos produção pra isso”. Contrariando o senso comum que associa a agricultura familiar – sobretudo a agroecológica – com algo “pequeno” ou “sem escala”, a agricultora Paula da Silva Ferreira defendeu que Agroecologia é sim uma opção para alimentar a população com qualidade e quantidade. Paula é coordenadora de um dos núcleos da Rede de Agroecologia Povos da Mata e falou durante a abertura do II Encontro da Rede, realizado em Irecê, no sertão baiano, nos dias 12 e 13 de julho. Credenciada em 2016 como um organismo participativo de certificação orgânica, a Rede Povos da Mata está presente hoje em 28 municípios baianos do Litoral, Sertão, Chapada Diamantina e Recôncavo Baiano, envolvendo 700 famílias agricultoras, sendo 300 delas certificadas, além de 6 agroindústrias. “Nosso compromisso nos próximos 2 anos é continuar colaborando e qualificar o que já temos. Não temos meta de criar mais tantos grupos ou núcleos”, afirma Tatiane Botelho, que foi presidente da Rede até este Encontro, quando nova diretoria foi empossada.

O Encontro reuniu mais de 450 pessoas ao longo dos dois dias de atividades, que tiveram o objetivo de discutir as perspectivas da Rede para o fortalecimento da produção agroecológica de alimentos de base ecológica, assim como o consumo consciente de alimentos saudáveis. Neste sentido, tanto Paula Ferreira quanto Tatiane Botelho, que estava presidente da Rede Povos da Mata, aproveitaram a presença de representantes do Ministério da Agricultura e do Governo baiano na  abertura do Encontro  para apresentar perspectivas e demandas para fortalecer a produção e ampliar o acesso a alimentos agroecológicos. Consolidar o fornecimento de alimentos orgânicos para a alimentação escolar e prover infra-estrutura para as feiras orgânicas da região, como barracas e veículos, foram algumas das necessidades elencadas no evento. As coordenadoras da Rede também ressaltaram a importância de parcerias, como a do SEBRAE e da BAHIATER (a empresa pública de assistência técnica e extensão rural) tanto no apoio do evento quanto para o trabalho das famílias.

Feira Agroecológica e análise de conjuntura abrem o Encontro
Nada como uma Feira Agroecológica para iniciar um Encontro de Agroecologia. E no da Rede Povos da Mata não foi diferente: dezenas de famílias dos 4 núcleos da Rede trouxeram alimentos, cosméticos naturais e artesanatos para comercializar, mostrando a riqueza e a diversidade da produção agroecológica.O grupo de Agroecologia Pé de Serra reúne 17 famílias da região de Uibaí, no sertão baiano. Elas produzem hortaliças, legumes e frutas orgânicas e compareceram na Feira do Encontro da Rede Povos da Mata.


Além de conhecer a força da produção agroecológica na caatinga , no Encontro foi possível provar o chocolate orgânico produzido pelas famílias do Assentamento Terra Vista, município de Arataca, onde trabalham 55 famílias. Uma delas é a do jovem agricultor Daniel de Lima Santos.


A Rede Povos da Mata abrange também a comunidade pataxó do Sul da Bahia. Durante o encontro, as mulheres pataxó da região de Porto Seguro trouxeram seus artesanatos e também o mel orgânico que está em processo de certificação pela Rede.

Na palestra de abertura, Rogério Dias, da Associação Brasileira de Agroecologia, trouxe uma análise de conjuntura da Agroecologia no Brasil e as perspectivas de resistência da produção agroecológica de alimentos. Para Rogério, “a mudança de governo acelerou o desmonte de políticas públicas para Agroecologia que já vinha acontecendo desde o golpe de 2016”. Uma delas é própria Política Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica, instituída em 2012. Rogério avalia que “A PNAPO acabou, mas ainda precisamos confirmar quando sair o Plano Plurianual pra Agricultura. Mas não temos nenhuma garantia que haverá recursos para fomento da Agroecologia”.

Rogério, entretanto, lembra que “o Brasil não é só o Governo Federal. Os estados também têm Planos Plurianuais de Agricultura”. O agrônomo ressalta que a pressão da sociedade e a atuação das redes agroecológicas são fundamentais para resistir ao desmonte de políticas públicas para agricultura familiar, agroecologia e segurança alimentar. E reforça que “neste momento, temos que incomodar. Podemos incomodar sozinho, como um bicho de pé faz. Mas, se formos um bando de formigas lava-pés, incomodamos mais ainda”.

O tema do outro painel da tarde era Os impactos dos agrotóxicos na saúde humana, mas a nutricionista Valéria Cristina Paschoal preferiu abordar os benefícios dos alimentos orgânicos. A partir de revisão bibliográfica de artigos científicos, Valéria afirma que as plantas manejadas agroecologicamente crescem mais resistentes,  essa resistência é repassada aos alimentos, aumentando a imunidade de quem os consome. Neste sentido, os alimentos da caatinga são os que trazem mais benefícios, pois crescem num ambiente extremamente adverso. Para manter essa produção, Valéria reafirma a importância da valorização da agricultura familiar: “Não existem pessoas mais cultas que os/as agricultores/as. Porque a agricultura é uma das primeiras formas de cultura que o ser humano desenvolveu”, disse.

Comida de verdade, no sertão e na cidade
Caracterizado pelo clima seco da caatinga, Irecê está num território de 20 municípios que abrange aproximadamente 44 mil famílias agricultoras. Em meio aos monocultivos de feijão com uso pesado de agrotóxicos e adubos químicos, cerca de 130 famílias cultivam a Agroecologia, articuladas na Rede Povos da Mata.

Uma dessas famílias é a de Lindomar Lins, do município de São Gabriel. Lindomar sempre trabalhou na roça, e até 2011 cultivava somente pepino e beterraba em sua propriedade, utilizando adubos químicos e agrotóxicos. Através da sensibilização e assistência técnica da empresa pública de extensão rural, Lindomar iniciou sua transição agroecológica. Com o estabelecimento da Rede Povos da Mata na região a partir de 2016, Lindomar pôde certificar sua produção como orgânica. Hoje, ele produz de 40 a 45 variedades de alimentos numa área de apenas 1,5 hectare, que tem tanto uma horta diversificada quanto um Sistema Agroflorestal. A observação do ciclo natural dos cultivos somada ao uso racional da irrigação com cobertura de solo e à produção própria de adubos e insumos orgânicos colabora para as colheitas de Lindomar, que faz 3 feiras orgânicas por semana na região. “É só entender a Natureza e trabalhar com ela que dá tudo certo”, afirma o agricultor. Os/as participantes do Encontro visitaram a propriedade de Lindomar durante uma oficina de Certificação Participativa realizada no evento. 

O trabalho de promoção da Agroecologia na região iniciou em 2011, muito pela atuação do agrônomo Edvaldo Reinaldo Filho, da empresa pública de extensão rural, a Bahiater. Além de práticas e insumos agroecológicos, ele orienta as famílias sobre o uso racional da água, já que ali os cultivos são irrigados, dependendo de poços artesanais. “Quando trabalhamos a cobertura do solo com palhadas, restos de culturas e estercos estamos utilizando tecnologias de convivência com o semiárido, além de aproveitar os insumos da própria unidade produtiva. Desta forma, há uma redução de perdas de umidade do solo, reduzindo a evaporação, além de melhorar a temperatura do solo, proporcionando melhor desenvolvimento das plantas”, explica Reinaldo. “O manejo ecológico do solo é fundamental para evitar erosão e compactação do solo, proporcionando uma melhor absorção da água de chuva e de irrigação e a permanência da biota do solo”, completa.

Através da participação na Comissão de Produção Orgânica da Bahia, Reinaldo conheceu a Rede Povos da Mata e convidou representantes para virem conhecer as famílias agricultoras do Sertão. O contato com a Rede Povos da Mata potencializou a organização dos/as agricultores/as agroecológicos de Irecê, que formaram o Núcleo Raízes do Sertão. “Depois da primeira reunião, já saíram 4 ou 5 grupos de famílias”. No âmbito da Rede, as famílias puderam não só certificar sua produção, como abrir novos canais de comercialização – tanto é que do sertão elas enviam alimentos orgânicos para a merenda escolar de Ilhéus, no Sul da Bahia. Além disso, o Raízes do Sertão promove outras 10 feiras agroecológicas na região, sendo que a de Irecê é a maior com certificação do estado, como lembrou Paula Ferreira na abertura.

A agricultora Thais Teixeira da Rosa veio de Porto Seguro, a 900km dali, para o Encontro e ficou encantada com a força da produção no sertão. A visita à propriedade de Lindomar agregou ainda mais conhecimentos para a agricultora, que também já observa os benefícios da cobertura do solo e ficou muito interessada nos insumos usados em Irecê. “Meu desafio ainda é a produção da cebola, mas vou insistir e experimentar, até encontrar o jeito certo”, afirma a agricultora. Ela já comercializava alimentos na feira, mas não tinha certificação. “Quando a gente ia vender, falava que era orgânico. E o consumidor falava: prova. Então o selo veio pra isso, pra provar pro consumidor. E também oferecemos as visitas”. Apesar de não usar agrotóxicos, Thaís ainda utilizava adubos químicos na produção. “Mas quando a Adriana [ técnica da Secretaria de Agricultura ] veio aqui pra fazer a transição, eu não tive dúvida. Porque quero que meus netos comam saudável e tenha ganhado isso de mim. Que eles digam: minha vó plantava orgânico!”, conta a agricultora. Como parte de sua transição, ela passou a produzir seus próprios adubos: “Lá em casa sou eu que adubo. Eu faço compostagem, faço meu biofertilizante. Eu que adubo”, afirma a agricultora, batendo no peito. E Thaís quer mais: “Eu ainda peco porque não fiz uma análise de solo. Também tenho vontade de levar meus produtos num laboratório, pra ver que tá livre de tudo. Mas ainda não tenho recursos pra isso. Mas quero fazer um banner, quero mais! Cada vez mais diversidade. Porque pra mim não adianta comprar o alface comigo e o resto dos alimentos virem do mercado, envenenados”.

Representantes de organizações de Alagoas, Rio Grande do Norte, Minas Gerais e Maranhão também participaram do evento, através do apoio da Inter-American Foundation. Walter dos Santos, da comunidade quilombola Piqui da Rampa, no Maranhão, veio através da Caritas Maranhão, apoiada pela IAF. Ele conta que “vejo que aqui a turma sofre uma pressão tão grande, que busca o conhecimento. Fiquei muito feliz com a oportunidade de vir aqui e trocar esses conhecimentos, quero levar de volta pra minha comunidade”. A agricultora e guardiã de sementes Ana Maria da Silva Gomes, do Rio Grande do Norte, foi mobilizada pela Comissão Pastoral da Terra e garante que “vou levar uma carrada de sabedoria de volta para as minhas companheiras do assentamento”.