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Turismo com mais cultura e sabor

texto Ana Carolina Dionísio
foto Fernando Angeoletto, Gabriella Pieroni e Gisa Garcia

 

Compreendido por muito tempo como uma opção recreativa descompromissada para as camadas populares, o turismo social vem se consolidando como uma nova forma de viajar e de ter lazer, voltada mais para vivências baseadas na troca cultural entre visitantes e visitados do que para o simples consumo de paisagens, produtos e serviços. Buscando aprofundar a discussão sobre alternativas para transcender práticas turísticas convencionais e valorizar o aspecto inclusivo e humanista desta atividade, o SESC Florianópolis promoveu nos dias 28 e 29 de outubro a Jornada de Turismo Social, na unidade do Cacupé. O Cepagro e o Ponto de Cultura Engenhos de Farinha estiveram presentes no evento, expondo produtos agroecológicos do Box 721 do Ceasa e dos engenhos, artesanato do Grupo Nosso Espaço – que reúne mulheres da zona rural de Angelina –, e o composto produzido na Revolução dos Baldinhos.

Os chefs Philipe Bellettini e Fabiano Gregório e o produtor José Furtado apresentam os alimentos do café agroecológico
Os chefs Philipe Bellettini e Fabiano Gregório e o produtor José Furtado apresentam os alimentos do café agroecológico
Vários dos alimentos que estavam sendo comercializados – como  frutas, geleias e sucos orgânicos, beiju, bijajica e pão integral – puderam ser degustados no café preparado pelos slow-chefs Fabiano Gregório e Philipe Bellettini, em mais uma parceria do Slow Food com o Ponto de Cultura. Alguns dos produtores destas iguarias estavam presentes, como o casal José e Rose Furtado, que mantêm um engenho de farinha e plantam hortaliças e morango numa propriedade certificada pela Rede Ecovida em Garopaba. Este contato direto entre consumidor e agricultor é valorizado tanto entre os pressupostos da agroecologia quanto nas práticas inovadoras do turismo social.
Flora Castellano, do Ponto de Cultura, e o casal Rose e José Furtado, integrantes da Rede Ecovida de Agroecologia
Flora Castellano, do Ponto de Cultura, e o casal Rose e José Furtado, integrantes da Rede Ecovida de Agroecologia
Uma das iniciativas mais frutíferas neste sentido é a Acolhida na Colônia, associação de agroturismo sediada em Santa Rosa de Lima, nas encostas da Serra Geral catarinense. Fundada em 1999, a Acolhida reúne 180 famílias de agricultores que recebem turistas em propriedades espalhadas por 30 municípios do estado. “Além da melhoria da renda, a valorização do agricultor familiar e o resgate do patrimônio cultural estão entre os benefícios do agroturismo na região”, explica Daniele Gelbcke, uma das representantes da associação no evento. “Eu me encontrei na vida trabalhando com turismo . Eu cresci tendo vergonha de falar que era agricultora, mas isso já não acontece com meu filho, por exemplo”, conta a produtora-acolhedora Leonilda Baumann, de Santa Rosa de Lima. Na sua fala durante a Jornada, Dida, como é conhecida, deixou claro que, apesar do sucesso do empreendimento hospitaleiro no seu sítio, ela não abandonou a atividade agrícola e continua plantando hortaliças, frutas, milho, feijão e batatinha, tanto para consumo próprio quanto dos turistas.
A assessora em economia solidária Miriam Abe Alexandre dá explicações sobre o artesanato em fibras naturais produzido por um grupo de mulheres de Angelina
A assessora em economia solidária Miriam Abe Alexandre dá explicações sobre o artesanato em fibras naturais produzido por um grupo de mulheres de Angelina
“Na agroecologia percebemos a diversificação produtiva como a opção mais viável para os agricultores familiares. Por isso entendemos o turismo como mais uma alternativa, mas não a única, de geração de renda para os proprietários de engenhos”, afirma a coordenadora do Ponto de Cultura Engenhos de Farinha Gabriella Pieroni. As visitas a engenhos artesanais de farinha representam opções promissoras de circuitos turísticos na perspectiva da atividade como uma oportunidade para compartilhar experiências ligadas a cultura, gastronomia e tradições locais – tendência ressaltada durante a palestra da gerente de projetos socioeducativos do SESC-SP Flávia Costa -, e por isso o PdC Engenhos de Farinha vem firmando uma parceria com a Tekoá, operadora de turismo sustentável e de base comunitária de Florianópolis. A gerente Fernanda Carasilo já incluiu vivências em engenhos da Grande Florianópolis em alguns de seus roteiros de ecoturismo e city-tours, que também estavam sendo expostos no SESC. “Agências que trabalham com grupos escolares vieram perguntar sobre os programas, além de muitos guias e condutores ambientais”, diz Fernanda.
Daniele Gelbcke, da Acolhida na Colônia
Daniele Gelbcke, da Acolhida na Colônia

“O potencial dos engenhos é enorme”, afirma Daniele Gelbcke, ressaltando que a organização e articulação entre proprietários é fundamental para que as iniciativas tenham resultados. “As parcerias para turismo pedagógico também são importantes”, completa. Em alguns engenhos da rede dos Pontos de Cultura, a promoção de atividades educativas já é freqüente. No Engenho do Sertão, em Bombinhas, são realizadas oficinas de arte-educação envolvendo aspectos da cultura popular local e percepção ambiental para estudantes de 14 a 18 anos e aulas de antropologia para pós-graduandos em Saúde e Turismo da Univali. No Casarão e Engenho dos Andrade, em Santo Antônio de Lisboa, já foram ministradas oficinas de vídeo e de percepção sensorial de alimentos com alunos da rede pública de educação de Florianópolis. A escola também já foi ao engenho da família Gelsleuchter, em Angelina.

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A formação para valorização do patrimônio histórico e cultural permeia todas estas atividades, que também vêm abordando aspectos de educação alimentar, como nas oficinas realizadas em conjunto com técnicos do Programa Educando com a Horta Escolar e Gastronomia. O desenvolvimento destas metodologias ocorrem no âmbito de um esforço para realizar um inventariamento sobre os engenhos artesanais de farinha visando à salvaguarda  dos seus saberes e modos de fazer como patrimônio imaterial junto ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). No contexto atual de restrições sanitárias e ambientais à produção artesanal de farinha, o registro no IPHAN simboliza um caminho para a sobrevivência desta (agri)cultura. “A salvaguarda, no entanto, deve estar combinada com estratégias de desenvolvimento sustentável para que estes produtores também possam gerar renda a partir da preservação deste patrimônio agroalimentar. Neste sentido, o turismo de base comunitária é uma ferramenta importante”, avalia Gabriella Pieroni.
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Cepagro e Ponto de Cultura participam do 7º Encontro dos Sem-Terrinha

Cerca de 350 crianças de assentamentos do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra em Santa Catarina estiveram reunidos entre os dias 10 e 12 de outubro na UFSC para o 7º Encontro Estadual dos Sem-Terrinhas. Na programação, além de atividades culturais e de intercâmbio com projetos sociais urbanos, os meninos e meninas integraram 24 oficinas com temas ligados a arte, agroecologia e educação, realizadas na 5ª feira (10/10). Nesta parte do evento, os técnicos do Cepagro Gisa Garcia e Alexandre Cordeiro e o chef do Ponto de Cultura Engenhos de Farinha / Slow Food Fabiano Gregório contribuíram abordando práticas de agricultura urbana e percepção sensorial dos alimentos.

O Encontro reuniu 350 crianças de assentamentos do MST em Santa Catarina na UFSC. Foto: Wagner Behr (Agecom / UFSC)
O Encontro reuniu na UFSC 350 crianças de assentamentos do MST em Santa Catarina. Foto: Wagner Behr (Agecom / UFSC)

Quinze crianças de assentamentos de Curitibanos, Campos Novos e Ponte Alta testaram suas aptidões sensoriais durante a Oficina do Sabor, ministrada pelo chef Fabiano Gregório, integrante dos movimentos Slow Food e Convivia Mata Atlântica e educador do gosto do Ponto de Cultura Engenhos de Farinha. A atividade, que já se tornou uma rotina durante os eventos do Ponto de Cultura, busca estimular os cinco sentidos dos participantes através do contato com diferentes alimentos. De olhos vendados – e por isso com os sentidos mais aguçados -, as crianças degustaram suco de uva, beiju e balas de banana, tatearam frutas e sentiram o cheiro de café.

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O objetivo da prática era que elas adivinhassem quais eram os alimentos presentes ali, e a maioria dos meninos e meninas descobriram quase tudo o que estavam provando. A exceção foi o beiju, que várias crianças disseram não conhecer ou não gostar. “Eu também não gostei muito da bala de banana”, disse Ana Paula dos Santos, de 13 anos. Moradora do assentamento Neri Fabres, em Curitibanos, ela iria conhecer outra novidade durante o Encontro: o mar, já que na programação também estava prevista uma confraternização na Praia do Forte. Junto com o irmão Gustavo, de 8 anos, ela estava visitando a costa pela primeira vez. “Tem gente que diz que às vezes o mar fica branco, outras está mais azul. Quero ver como que é”, contou.

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Enquanto cada participante da Oficina do Sabor conversava individualmente com Fabiano, os outros companheiros desenhavam e contavam histórias sobre os alimentos que são comuns nos seus assentamentos, junto com as monitoras Marivane dos Santos, Suzimara Garcia e Neusete de Arruda. Após a atividade, as crianças saborearam um pic-nic agroecológico com alguns dos alimentos que foram degustados, além de pão integral e geleia orgânica. Esta foi uma oportunidade para verificar qual a percepção que eles tinham do que é alimento orgânico. A resposta unânime foi: “Aquele que não tem veneno!”.

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Na oficina de Agricultura Urbana, ministrada pelos agrônomos Gisa Garcia e Alexandre Cordeiro, da equipe técnica do Cepagro, junto com duas agrônomas do Laboratório de Educação do Campo e Estudos da Reforma Agrária (Lecera-UFSC), as crianças construíram uma horta suspensa usando garrafas PET, onde plantaram hortaliças e temperos. Os técnicos abordaram todo o passo a passo de construção da horta de forma lúdica, mesclando jogos de adivinhação dos nomes das mudas, por exemplo. “A única planta que elas não conheciam era o manjericão”, disse Gisa Garcia.

A horta foi instalada nas grades da janela da diretora do Restaurante Universitário, que se comprometeu a cuidar dela. A ideia da atividade, de acordo com Gisa, era mostrar que é possível cultivar alimentos mesmo quando há restrição de espaço (como é o caso das áreas urbanas), além de avaliar a compreensão deles acerca das vantagens de plantar alimentos na cidade.

Ao conjugar o lúdico com o educativo, as oficinas atendem a dois objetivos que estão sempre presentes nos Encontros dos Sem-Terrinha. “Sempre juntamos estudo, diversão, luta e intercâmbio com as crianças do urbano”, explica Revero Ribeiro, da comissão organizadora do evento. Nos dois últimos tópicos, as crianças construíram uma pauta de reivindicações para o governador Raimundo Colombo a partir de uma discussão realizada na manhã de 5ª feira sobre as condições das escolas e de qualidade de vida nos assentamentos da Reforma Agrária. O debate foi sistematizado em um documento entregue para o governador na 6ª (11/10). Neste dia eles também visitaram o Instituto Vilson Groh, para conhecer as crianças que participam de projetos sócio-educacionais em bairros desfavorecidos de Florianópolis, como o Morro do Mocotó e o Monte Serrat.

Núcleo Litoral Catarinense reúne seus 14 grupos para debates e agendas comuns na promoção da Agroecologia

As dinâmicas produtivas dos 14 grupos que compõem o Núcleo Litoral Catarinense da Rede Ecovida, representados por mais de 100 agricultores agroecológicos, foram fortalecidas durante o Encontro realizado na semana passada em Rancho Queimado.

Tendo como anfitrião o grupo local “Harmonia da Terra”, o evento foi aberto com a tradicional apresentação dos grupos, alguns já consolidados e outros, como os de Piçarras e Itapema, recém fundados e encontrando naquele espaço o estímulo para seguir na caminhada da produção agroecológica de alimentos, fitoterápicos e plantas ornamentais.

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Grupos do Litoral Catarinense na abertura do Encontro

Autoridades do segmento da agricultura e segurança alimentar deram suas contribuições na abertura do evento. Francisco Powell, da superintendência local do MAPA (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento), balizou o debate sobre a legislação nacional de produção orgânica. O foco  recaiu sobre a Instrução Normativa (IN) 46, que dispõe sobre o regulamento técnico dos sistemas de produção orgânica vegetal e animal, sobretudo nas questões de insumos, aspectos ambientais e normas de certificação.

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Francisco Powell, do MAPA

Substrato e sementes estão na essência dos itens da IN 46, que estabelece o ano de 2013 como prazo para que todos os insumos envolvidos na produção orgânica também sejam de procedência orgânica. “As CPOrg’s (Comissões de Produção Orgânica) de cada Estado estão listando as sementes orgânicas disponíveis no mercado. Sabemos que a oferta ainda é pequena, portanto o Ministério vai estender este prazo”, explicou Powell ao público do Encontro. A recomendação da Rede Ecovida é que, mesmo que sejam utilizadas sementes germinadas em cultivos convencionais, não se usem as que possuem algum tratamento químico, como aplicação de fungicidas.

Já em relação à “cama de aviário”, mistura de maravalha (serragem à base de pinus) e excrementos de aves confinadas bastante utilizado na fertilização dos solos, ainda há permissividade por parte do MAPA, embora o horizonte também aponte para a exigência de substratos e fertilizantes integralmente orgânicos. Deste cenário surge mais um item de valorização da reciclagem da fração orgânica nos centros urbanos, com separação, compostagem e produção de adubo. O elo entre o rural e o urbano na ciclagem de nutrientes já entrou na agenda de municípios como Garopaba, no litoral catarinense, onde situa-se um dos grupos do Encontro. A municipalidade está investindo na construção de 3 pátios de compostagem em propriedades agroecológicas, para receber os resíduos de restaurantes da cidade e transformá-los em adubo. Pretende-se, num período de 3 anos, chegar a 12 pátios de compostagem, abrangendo, gradativamente, a coleta de médios e grandes geradores (mais restaurantes, supermercados, escolas, etc.)

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A reciclagem de resíduos orgânicos urbanos contribuirá na fertilização dos solos agroecológicos rurais

O agrônomo Matheus Mazon Fraga, responsável pelo setor de agrotóxicos e fiscalização da Cidasc, explanou ao público o programa de monitoramento da produção agrícola realizado pelo órgão. São fiscalizados tanto produtos convencionais, visando a aferição dos agrotóxicos permitidos e a possível incidência dos proibidos, quanto os orgânicos, com o intuito de averiguar a credibilidade dos sistemas de certificação. Das coletas de produtos orgânicos em Santa Catarina, que no ano de 2013 somaram 375 amostras de alface, arroz, banana, batata, brócolis, cebola, cenoura, feijão, maçã, morango e pimentão das Ceasas e varejistas, houve 95,16% de aprovação. “A reprovação é relativamente baixa, mas o correto seria que fosse zero. O item mais problemático foi a cebola, com apenas 69% de aprovação”, explicou Fraga.

Algumas amostras desses vegetais, incluindo a cebola, foram coletadas junto ao Box de Produtos Agroecológicos da Ceasa/SC, que comercializa boa parte da produção do Núcleo Litoral Catarinense. Maçã, batata-inglesa, feijão e arroz foram analisados, e todos os resultados foram negativos quanto a presença de compostos químicos de agrotóxicos. “É uma conquista da sociedade brasileira ter acesso a alimentos seguros legitimados pela certificação participativa”, lembrou o coordenador-geral do Cepagro Charles Lamb.

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Agricultor Jair Scheidt, de Imbuia-SC, com sua produção de feijão e cebola que passou pela avaliação da Cidasc

O final do primeiro dia do Encontro foi dedicado ao diagnóstico do Núcleo quanto ao Sistema Participativo de Garantia (SPG), modalidade de acreditação da conformidade orgânica exercido pela Rede Ecovida e controlado pelo MAPA. Na ocasião foram indicados e apresentados os membros dos comitês de verificação de cada grupo, representados por no mínimo 2 pessoas, cujos nomes devem constar nas atas que comprovam o andamento da articulação (reuniões) entre as famílias.

Cada comitê assume por um ano a responsabilidade das visitas de pares, método de controle social onde as propriedades requerentes de certificação são verificadas conforme as normas da Rede Ecovida e do MAPA. No Encontro de Núcleo foi estabelecido um “agendão”, pontuado pelas demandas de renovação e novos pedidos de certificação em cada grupo, e agendadas as respectivas visitas. É com este engajamento permanente, sempre registrado por documentos, que a metodologia da certificação participativa vai se fortalecendo perante o público consumidor e toda sociedade.

Depois de tanta informação para processar, e cumpridos os compromissos do dia, o público do Litoral Catarinense pôde se deliciar com uma variada programação cultural, com muita música popular e campeira e um tradicional número de dança folclórica alemã.

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A manhã do dia seguinte foi dedicada às oficinas, onde os agricultores intercambiam seus ofícios, valorizam seus saberes, aprimoram suas lidas. Foram tratados de forma prática 6 temas, em propriedades espalhadas pela região rural de Rancho Queimado: Compostagem, Certificação Participativa, Comercialização, Patrimônio Agroalimentar, Insumos e Boas Práticas na pós-Colheita. As impressões e encaminhamentos de cada oficina foram registradas e socializadas com o público ao final do evento.

Sistematização das Oficinas – Encontro Núcleo Litoral Catarinense 2013

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Oficina de Compostagem
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Oficina de Patrimônio Agroalimentar

Está marcado para setembro de 2014 o próximo Encontro do Núcleo Litoral Catarinense da Rede Ecovida. Desta vez o grupo anfitrião será o “Semear Sementes para o Futuro”, e a cidade-sede Leoberto Leal, no Alto Vale do Itajaí.

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Fim de semana foi de Farinhadas nos engenhos artesanais

Ao menos 2 Farinhadas foram realizadas no último fim de semana no Litoral Catarinense e arredores.

Ambas foram apoiadas pelo Cepagro e o Ponto de Cultura Engenhos de Farinha, que articula-se com a Rede Ecovida, Iphan e demais parceiros para o reconhecimento da atividade como Patrimônio Imaterial.

No sábado(24/08)  aconteceu a Farinhada de Angelina, em engenho movido à roda d’água, o único com essas características em operação na comunidade rural de Coqueiros.

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Tocadores da região rural de Angelina animaram a festa da Farinhada no bairro Coqueiros (Engenho da Família Gelsleuchter)

Já no domingo (25/08), o tradicional Engenho dos Andrade, localizado em plena Ilha de Santa Catarina e com engrenagens movidas à tração animal, abriu suas portas para uma grande celebração do patrimônio agroalimentar.

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“Engenheiros” unidos: Dico (Engenho da Costa), Claudio (Engenho dos Andrade) e Zezinho (Engenho da Garopaba) durante a Farinhada de Floripa

Em breve, o blog do Ponto de Cultura vai contar todos os detalhes e mostrar os álbuns de fotos dos eventos.

Educação Patrimonial e Alimentar: a Escola vai ao Engenho

Na atividade promovida pelo Ponto de Cultura Engenhos de Farinha no dia 18 de junho, 20 alunos do NEI Maria Salomé dos Santos que participam do Programa Educando com a Horta Escolar e Gastronomia (PEHEG) visitaram o Engenho dos Andrade, em Santo Antônio de Lisboa, Florianópolis. Além de experimentarem novos sabores e aromas durante a “Oficina do Sabor”, eles puderam conhecer um pouco sobre o feitio da farinha de mandioca artesanal, interagindo com histórias e memórias desta (agri)cultura. Estas vivências de espaços e saberes tradicionais dos engenhos fazem parte de metodologias transdisciplinares que estão sendo desenvolvidas para trabalhar temas de educação alimentar e patrimonial no âmbito dos Projetos Político-Pedagógicos da rede pública de ensino e do PEHEG  e que serão sistematizadas numa publicação com lançamento previsto para o final do ano.

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Após a recepção pelo dono do Engenho, o artista plástico Cláudio Andrade, as crianças testaram suas aptidões sensoriais durante a Oficina do Sabor, degustando suco de maracujá, sentindo o aroma do pó de café e tateando pinhão, cenoura, maçã e tangerina, tudo com os olhos vendados, o que lhes aguçou os sentidos. “Foi muito interessante ver o interesse das crianças e como algumas apresentam maior conhecimento sobre as frutas e os legumes”, afirma a mestranda em Agroecossistemas Flora Castellano, que ministrou a oficina junto com o chef Fabiano Gregório, integrante do Movimento Slow Food e dos Convivia Mata Atlântica e Engenhos de Farinha. A engenheira agrônoma Karina de Lorenzi também acompanhou o grupo, auxiliando na coordenação das atividades.

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Os meninos e meninas, todos com até 5 anos, também saborearam um café da manhã com salada de frutas (algumas orgânicas), pão, geléias e bijajica de produtores da rede de engenhos do Ponto de Cultura, além de suco de maçã da Rede Ecovida. Durante o café foram realizados alguns comentários sobre a procedência e qualidade dos produtos servidos.

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A próxima atividade foi uma pequena demonstração do processamento da mandioca no engenho, em que Cláudio ensinou como se rala manualmente a mandioca para fazer a farinha, trazendo um boi para dentro do engenho para coloca-lo em funcionamento. “As crianças ficaram curiosas com a massa da mandioca ralada, mas gostaram mesmo é de ver de perto um boi tão grande e bonito”, disse Flora.

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Desafios e alternativas ao cultivo de tabaco em discussão

O Cepagro organizou na última terça, 4 de junho, um debate que faz parte de um ciclo de reuniões sobre atividades bem sucedidas que oferecem potencial para implementação dos artigos 17 e 18 da Convenção Quadro para Controle do Tabaco. Estes tópicos dizem respeito a alternativas economicamente viáveis para produtores que desejam abandonar a fumicultura e a proteção ao meio ambiente e a saúde das pessoas. Promovido pela Secretaria Executiva da Comissão Nacional para Implementação da Convenção-Quadro para Controle do Tabaco (SE-CONICQ) e Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) em parceria com o Cepagro, o encontro aconteceu no Centro de Ciências Agrárias da UFSC.

por Ana Carolina Dionísio

Artesãs, agricultoras, estudantes e representantes dos poderes públicos estavam presentes
Artesãs, agricultoras, estudantes e representantes dos poderes públicos estavam presentes

Estiveram presentes representantes do Ministério da Saúde, Instituto Nacional do Câncer, Secretaria Municipal de Saúde de Florianópolis, MDA, Comissão de Saúde da Assembleia Legislativa de Santa Catarina, Embrapa, além de estudantes de pós-graduação da UFSC, membros do Grupo de Mães da comunidade de Três Barras (Palhoça) e do Grupo de Agroecologia Terra Viva de Angelina.  A secretária-executiva da Conicq Tânia Cavalcante apresentou um panorama dos avanços da Convenção Quadro no país e no mundo, lembrando como o tratado não está focado somente na diminuição do consumo do tabaco, mas também em criar alternativas de produção para as milhares de famílias (só no Brasil são 186 mil) que ainda dependem da fumicultura. “A Convenção busca salvaguardas para quem produz, não simplesmente a proibição”, disse.

Tânia Cavalcante apresentou a Convenção Quadro de Controle do Tabaco, seus avanços e metas
Tânia Cavalcante apresentou a Convenção Quadro de Controle do Tabaco, seus avanços e metas

Outra convidada foi a empresária Francisca Vieira, do Grupo Natural Cotton Color, que desenvolve roupas feitas com algodão naturalmente colorido desenvolvido pela Embrapa. O cultivo, processamento e confecção de peças com esta fibra tem se mostrado como uma opção de desenvolvimento sustentável para dezenas de agricultores familiares da Paraíba, inclusive ex-fumicultores. Para impulsionar a iniciativa, Francisca contou com o apoio do Sebrae, e não só financeiro. “O mais problemático é o desenvolvimento do produto: saber qual produto fazer, para quem e como vender”, afirmou, lembrando como capacitações neste sentido são fundamentais para agricultores e artesãos. Esta fala foi extremamente valiosa sobretudo para o Grupo de Agroecologia Terra Viva, que reúne mulheres que trabalham com artesanato com fibras naturais e tecelagem manual. O intercâmbio entre elas foi intenso, e Francisca destacou que os artigos delas têm potencial para atingir vários mercados, desde que seja uma produção planejada, com apoio técnico especializado. Neste sentido, o grupo vem sendo apoiado pelo Ponto de Cultura Engenhos de Farinha através da formadora em economia solidária Miriam Abe, que promove capacitações com as mulheres sobre artesanato com matérias primas locais e cooperativismo.

A confecção com algodão colorido representa, segundo Francisca, uma produção sustentável, pois leva em conta as comunidades produtoras
Francisca expõe e vende suas roupas com algodão colorido em feiras e eventos de moda no Brasil e no exterior

O algodão colorido poderia ser, então, uma alternativa ao tabaco no Sul do Brasil, região responsável por 95% da produção de folhas no país? Nem Francisca nem Gilvan Ramos, da Embrapa-PB, puderam responder estar pergunta, mas lembraram que a riqueza do algodão colorido não é o cultivo em si, mas o arranjo produtivo local organizado ao redor dele. “É nisto que devemos concentrar esforços e recursos, nestes produtos únicos que ao longo do tempo vão ser aperfeiçoando”, completou Ramos.

Patrimônio Agroalimentar em Debate II mostra que os engenhos de farinha não morreram

Esta foi a tônica da intensa troca de saberes, experiências e até mesmo receitas que marcou a segunda edição do evento, realizado na última quarta (15/05) no Museu Comunitário Engenho do Sertão, em Bombinhas, integrando a programação da Semana Nacional de Museus. Promovido pelo Cepagro através do Ponto de Cultura Engenhos de Farinha, em parceria com a ONG Instituto Boi Mamão, o evento reuniu representantes do poder público e da Epagri, acadêmicos, estudantes de Ensino Médio e mestres de engenhos locais. Nesta etapa, as atividades estiveram focadas na farinha e outros derivados da mandioca produzidos nestes espaços que continuam vivos: os engenhos artesanais.

por Ana Carolina Dionísio – Cepagro

O evento reuniu representantes do poder público, da Epagri, estudantes, acadêmicos e mestres de engenhos da região
O evento reuniu representantes do poder público, da Epagri, estudantes, acadêmicos e mestres de engenhos da região

Antes de começarem a discutir questões relativas aos engenhos, como a sua importância tanto para a preservação da memória e dos saberes tradicionais ligados à gastronomia quanto como atividade econômica, os participantes visitaram duas unidades produtivas, que neste mês já estavam em plena ação. Uma das anfitriãs foi D. Rosa Melo, proprietária de um engenho artesanal em que algumas técnicas tradicionais de preparação e o processamento da matéria prima são mantidas, como a prensa manual de fuso para desidratar a massa da mandioca. Além da produção para a subsistência, D. Rosa também vende farinha para quatro localidades da região. Nas fases de raspagem e lavagem das raízes, feitas manualmente, ela conta com a ajuda de várias mulheres dos bairros vizinhos, que vêm trabalhar ali em troca de massa para beiju, outro processado do engenho. De acordo com Gabriella Pieroni, coordenadora do Ponto de Cultura Engenhos de Farinha, este tipo de vivência comunitária aliada ao interesse pelo produto demonstra a relevância que os engenhos continuam tendo localmente: “Os engenhos não morreram porque os produtos e processados não saíram da mesa das pessoas”, afirma.

Nas rodas de bate-papo das visitas aos engenhos, muito diálogo de saberes e experiências
Nas rodas de bate-papo das visitas aos engenhos, muito diálogo de saberes e experiências

Entre a visita aos engenhos e as apresentações do painel Os Engenhos de Farinha não morreram, a segunda atividade do dia, um delicioso almoço foi servido no Engenho do Sertão, preparado no fogo a lenha por Salete Pinheiro, Rosa Melo, Darci, Rosete e Rosane Fritsch com matérias primas locais: mariscos, cação e a farinha para o pirão. A prefeita de Bombinhas, Ana Paula da Silva, estava presente e demonstrou a abertura da gestão atual para fomentar ações de apoio à manutenção dos engenhos, seja do ponto de vista econômico ou enquanto espaços de preservação da cultura local.

Pausa para o almoço preparada no fogão a lenha com matérias primas locais
Pausa para o almoço preparado no fogão a lenha com matérias primas locais

Após o almoço, com a chegada de mestres produtores de farinha, a presidente da Fundação Municipal de Cultura Nivea Maria Bücker abriu o debate ressaltando a importância de conhecer a história da nossa tradição gastronômica para saber mais da cultura local. “É claro que o produto final – seja uma tainha assada ou um beiju – é muito bom, mas quando a gente agrega esse valor da história ou da herança destes alimentos, fica melhor ainda”, disse. Exemplos da valorização de matérias primas tradicionais, como a mandioca e o berbigão, aparecem no curta-metragem “Litoral Catarinense”, apresentado no evento. O vídeo, focado nos engenhos de farinha e reservas de pesca artesanais, representou Santa Catarina na Expo Movil do Terra Madre, encontro internacional do movimento Slow Food realizado na Itália em outubro do ano passado.

Rosane Lutchemberg, presidente do Instituto Boi Mamão e coordenadora do Museu Comunitário Engenho do Sertão, deu continuidade ao painel após a exibição do curta, questionando uma matéria do Jornal da Assembleia Legislativa de 2004 intitulada Os engenhos de farinha estão morrendo. “Pra nós, eles estão muito vivos. Quando fizemos um mapeamento dos engenhos na região em 1999, havia 9 em funcionamento. Dez anos depois, em um levantamento da Fundação Municipal de Cultura, foram registrados 13”, afirma a gestora de projetos. O próprio Engenho do Sertão, adquirido por Rosane em 1997 e cadastrado como Museu Comunitário em 2007, é um exemplo de como estes espaços podem continuar ativos, ainda que sua função produtiva e econômica tenha entrado em declínio, como destaca Fernanda Silva, neta de José Amândio da Silva, antigo proprietário do local: “Há engenhos de farinha e há pessoas que se preocupam em preservá-los. O engenho do meu avô José Amândio hoje é o Museu Comunitário Engenho do Sertão, onde muita gente vai conhecer um pouco da nossa cultura”. Uma dessas pessoas é o estudante André Cordeiro, do Curso Profissionalizante em Turismo da EBM Maria Rita Flor, que participou do evento e relata que “Agora a gente está sabendo que eles não estão deixando que a cultura morra, que estão passando para os alunos, para a comunidade, uma coisa que eles faziam antigamente e que o pessoal acha que está morrendo”.

Rosane Lutchemberg rememorou a tradição da farinha de mandioca em Bombinhas destacando os proprietários de engenhos artesanais
Rosane Lutchemberg rememora a tradição dos engenhos artesanais em Bombinhas , sendo que alguns estavam presentes no painel

Assim, constituir um atrativo turístico é apenas uma dentre as várias funções do Museu, onde também são realizadas oficinas de arte-educação envolvendo aspectos da cultura popular local e percepção ambiental para estudantes de 14 a 18 anos e aulas de antropologia para pós-graduandos da Univali.  Ao ver mestres de engenho reunidos ali, Rosane completa: “Este museu é de vocês. Vocês estão se reapropriando do que é de vocês de direito”.

Além de atrativo turístico, o Museu Comunitário Engenho do Sertão também é um espaço de educação patrimonial e ambiental
Além de atrativo turístico, o Museu Comunitário Engenho do Sertão também é um espaço de educação patrimonial e ambiental

Enquanto a promoção de atividades educativas nos engenhos é um estímulo para a participação comunitária nestes espaços, a realização de intercâmbios entre proprietários destas unidades constitui uma oportunidade para trocar experiências e buscar soluções para obstáculos e limitações enfrentadas pelos processadores artesanais de mandioca ligados, por exemplo, à legislação sanitária e à comercialização dos produtos, de acordo com Gabriella Pieroni. Na sua fala, ela apresentou o projeto Ponto de Cultura Engenhos de Farinha, que já realizou um mapeamento dos engenhos no Litoral Catarinense e vem fomentando encontros entre membros destas comunidades, além de oficinas de mídia-educação e obras de melhoramento na estrutura física de algumas propriedades. Outro eixo de trabalho do projeto é a articulação com o movimento Slow Food e o Convivium Mata Atlântica, grupo de gastrônomos-expedicionários que viajam pelo Brasil buscando valorizar matérias-primas regionais. Isso porque o reconhecimento gastronômico da farinha de mandioca polvilhada de Santa Catarina pode abrir um canal de comercialização do produto e, consequentemente, de fortalecimento da produção artesanal e familiar deste item no estado. A coordenadora do projeto finalizou sua intervenção convidando a todos os mestres de Bombinhas e região a participarem das atividades, iniciativa apoiada pela presidente da Fundação Municipal de Cultura Nívea Bücker.

Gabriella Pieroni apresenta os eixos de trabalho do projeto "Ponto de Cultura Engenhos de Farinha"
Gabriella Pieroni apresenta os eixos de trabalho do projeto “Ponto de Cultura Engenhos de Farinha”

As diversas relações entre cultura gastronômica e patrimônio cultural continuaram permeando a conversa no Engenho, desta vez conduzida pela professora do Programa de Pós-Graduação em Turismo e Hotelaria da Univali Yolanda Flores e Silva. Antropóloga de formação, a acadêmica realiza uma parte das suas aulas no próprio engenho, tentando, assim, “trazer saberes tradicionais para a sala de aula, através de visitas dos estudantes a locais como este”, explica. Estas visitas sempre incluem uma refeição preparada no próprio engenho, com ingredientes locais. Através destas vivências antropológico-gastronômicas, a professora busca chamar a atenção dos estudantes para a valorização “das pessoas que alimentam o mundo: os agricultores e pescadores”, diz. Nestas dinâmicas, Yolanda trabalha com a noção de “pertencimento cultural”, baseada no conhecimento da história e cultura locais. “Pertencer a um lugar como Bombinhas é, então, conhecer os engenhos”, conclui.

Yolanda Flores e Silva: "Não é porque a gente vira doutor que tem que esquecer que come farinha de mandioca".
Yolanda Flores e Silva: “Não é porque a gente vira doutor que tem que esquecer que come farinha de mandioca”.

Uma das orientandas de Yolanda é a nutricionista Hellany Brum, que está desenvolvendo sua dissertação de mestrado com as famílias de Bombinhas no contexto da preservação da cultura local como um novo segmento turístico. Ela apresentou seu projeto de pesquisa durante o evento, mostrando como a integração com universidades pode ser outra opção de apoio à manutenção de atividades nos engenhos.

A importância de agregar a pesquisa e extensão universitárias a outras iniciativas nestes espaços já fora apontada pelo engenheiro agrônomo da Epagri Enilto Neubert na primeira edição de Patrimônio Agroalimentar em Debate, em março deste ano. Ele participou novamente nesta segunda rodada, trazendo dados que indicam uma crescente revalorização da mandioca. Além de fazer um levantamento que encontrou 350 engenhos em funcionamento em Santa Catarina, Enilto citou pesquisas que demonstram diversas propriedades nutricionais da mandioca. O engenheiro elencou mais alguns tópicos relevantes para a discussão do tema que entraram em consonância com a fala de Gabriella, como manter o horizonte da geração de renda e da valorização do trabalho dos agricultores, lembrando também da necessidade de socializar as agendas para promover encontros entre as comunidades produtoras .

O engenheiro agrônomo Enilto Neubert, da Epagri, apresenta dados que reforçam a ideia de que os engenhos de farinha não morreram.
O engenheiro agrônomo Enilto Neubert, da Epagri, apresenta dados que reforçam a ideia de que os engenhos de farinha não morreram.

Outro palestrante do evento anterior que também veio a  Bombinhas foi Cláudio Andrade, proprietário do Engenho dos Andrade, no bairro de Santo Antônio de Lisboa, em Florianópolis. O artista plástico e historiador auto-didata expôs as diversas atividades educativas desenvolvidas em seu engenho, tombado como Patrimônio Histórico Municipal: oficinas de teatro, vídeo, contação de histórias e passeios de carro-de-boi. De acordo com Cláudio, mais de mil crianças já visitaram o local em 2013. Para ele, “o engenho deveria ser um bem tombado em cada município”, dada a sua relevância para a preservação da memória local.

Para fechar o painel, a intervenção especial de D. Rosa Melo, uma das mestres de engenho presentes. Rememorando a rotina de trabalho árduo iniciada na infância, ela fez um testemunho detalhado dos tempos em que a farinha de mandioca constituía uma das principais fontes de renda da região, como na década de 60: “Teve ano em que fizemos até 60 sacos de farinha. Foi uma luta. Nós, mulheres, chegava a inchar os pulsos de tanto raspar mandioca”. Ela conta que, sem água encanada nem energia elétrica, “era tudo muito duro naquele tempo. Mas eu não enjeitei não. Lutei, lutei e lutei”.

"Era tudo muito duro naquele tempo", afirma D. Rosa de Melo sobre a época em que a farinha de mandioca era uma das principais fontes de renda locais
“Era tudo muito duro naquele tempo”, afirma D. Rosa de Melo sobre a época em que a farinha de mandioca era uma das principais fontes de renda locais

Além das receitas com mandioca e milho que coloriram a mesa do café do evento – coruja (rosca de polvilho), nego deitado com banana (bolo de fubá na folha de bananeira), pudim de aipim na folha, beiju e bolo de aipim com coco –,  a herança dos tempos narrados por D. Rosa foi reavivada com uma roda de ratoeira formada pelas mulheres que estavam ali. O refrão “Ratoeira bem cantada faz chorar, faz padecer/Também faz o triste amante de seu amor esquecer” foi acompanhado também por alguns homens, emocionando a todo o público.

“Ratoeira bem cantada faz chorar, faz padecer Também faz o triste amante de seu amor esquecer”
“Ratoeira bem cantada faz chorar, faz padecer
Também faz o triste amante de seu amor esquecer”

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Nego deitado, cabeça de gato, beiju:  herança cultural e gastronômica na mesa do café
Nego deitado, coruja, beiju: herança cultural e gastronômica na mesa do café