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CEPAGRO E NÚCLEO LITORAL CATARINENSE VISITAM O CENTRO PARANAENSE DE REFERÊNCIA EM AGROECOLOGIA

A visita ao Centro Paranaense de Referência em Agroecologia aconteceu nos dias 26 e 27 de novembro, reunindo agricultores e agricultoras de diversos grupos da Rede Ecovida de Agroecologia, além da agrônoma Aline de Assis, da equipe técnica do Cepagro. O grupo pôde conhecer e conversar sobre comercialização, cestas agroecológicas, produção animal agroecológica, plantas medicinais e preparados homeopáticos, além de visitar a Casa da Semente Crioula.

Há algum tempo a coordenação do Núcleo Litoral Catarinense da Rede Ecovida vinha discutindo maneiras de se tornar mais rede de Agroecologia e menos rede de certificação. Segundo Cátia Cristina Rommel, do Grupo Germinação (Anitápolis e Santa Rosa de Lima), o objetivo das capacitações era que os agricultores pudessem trabalhar mais a Agroecologia e passar menos tempo se fiscalizando e se punindo, ir para além da certificação. A visita ao CPRA, que se localiza na cidade de Pinhais, próxima a Curitiba, contemplou o desejo do grupo, pois incluiu diversos temas que vinham sendo discutidos nas reuniões.

A capacitação começou com uma discussão sobre formas mais democráticas e contra hegemônicas de comercialização, e que assegurem também menos fragilidade para os agricultores em meio às oscilações de mercado. Depois viram as questões de manejo animal agroecológico, rotação de pastagem, uso de fitoterápicos e outras formas de controle de parasitas. Além de conhecer várias espécies de abelhas nativas.

O CPRA, como eles mesmo falam, possui o privilégio de trabalhar exclusivamente a Agroecologia, o que é raro. O Centro é uma autarquia do estado e em um mesmo espaço consegue concentrar várias abordagens. Durante a capacitação, os agricultores do Núcleo aprenderam ainda sobre construção de estufas usando bambu, plantas medicinais aromáticas e abordagens das Cromatografias de Pfeiffer, uma forma de análise de solo que o próprio agricultor pode fazer.

Em seguida, o grupo seguiu para a Associação Brasileira de Amparo a Infância (ABAI), em Mandirituba/PR, instituição que trabalha com crianças a partir da ecologia e usando sementes crioulas como forma de autonomia. Além disso eles abrigam a Casa da Semente Crioula, onde fazem um trabalho de resgate de sementes com as crianças. Lá os agricultores puderam trocar e adquirir sementes agroecológicas, o que é muito difícil de conseguir, segundo Cátia. Por fim, aprenderam como selecionar variedades de milho e visitaram o senhor Dantas, um dos guardiões de sementes que possui uma grande diversidade.

Cátia Cristina contou que a Casa da Semente Crioula é uma experiência que também envolve a Rede Ecovida de Agroecologia, porque algumas das sementes utilizadas pelos produtores associados vêm de lá. A agricultora disse ainda que essa capacitação era um sonho e que depois de meses de articulação, foi muito gratificante ter feito a viagem, “Olhar de fora o nosso lugar é sempre enriquecedor, é como cruzar uma fronteira e olhar para o teu país, é sempre uma percepção diferente quando se olha de fora. Está todo mundo voltando pra casa com muito entusiasmo e muita inspiração”.

A agricultora Cristina Alves, do Grupo Associada (Nova Trento e Major Gercino), se sentiu engajada a também se tornar uma guardiã, tentar plantar essas sementes crioulas, conseguir novas a partir do plantio e repassá-las. “Foi um conhecimento maravilhoso saber que existem pessoas que são esses guardiões e que protegem essas sementes e que têm a capacidade de estar passando para outras pessoas e de cuidar desse tesouro com muito carinho”, disse Cristina. A sensação ao final da viagem foi de quero mais.

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Biguaçu recebe o 12º Encontro do Núcleo Litoral Catarinense da Rede Ecovida

A comunidade Fazenda de Dentro, em Biguaçu, será a casa do 12º Encontro do Núcleo Litoral Catarinense da Rede Ecovida de Agroecologia, que acontece nos dias 22 e 23 de setembro. A expectativa é que cerca de 200 pessoas participem do Encontro, que reunirá agricultoras e agricultores de  cerca de 30 municípios, distribuídos em 11 grupos. Palestras, oficinas e a tradicional Feira de Saberes, Sabores e Sementes integram a programação, que neste ano será restrita a convidadxs.

O Núcleo Litoral Catarinense da Rede Ecovida reúne cerca de 150 famílias de agricultores e agricultoras de 30 municípios catarinenses. Os Encontros são realizados anualmente e neste ano terão uma participação especial: uma delegação de 17 organizações brasileiras e de outros países da América Latina (México, Paraguay, Peru, Colômbia, Equador, Guatemala e El Salvador) que participam de um intercâmbio sobre certificação de alimentos orgânicos promovido pelo Cepagro, promovendo uma rica troca de experiências.

 

 

Oficinas enriquecem reunião do Núcleo Litoral Catarinense

A última quinta-feira, 16 de agosto, foi um dia de aprendizados durante a reunião da Comissão de Verificação do Núcleo Litoral Catarinense da Rede Ecovida. Entre velhos conhecidos e caras novas, representantes dos grupos de Agroecologia que compõem o Núcleo estiveram presentes na Associação de Desenvolvimento da Microbacia do Rio Dúna, em Paulo Lopes, para discutir demandas sobre certificação e capacitação dos grupos, além de atividades futuras. Os agricultores e consumidores presentes participaram ainda de três oficinas com foco na fertilização do solo, sendo uma delas facilitada pelo Cepagro. 

Segundo Cátia Cristina Rommel, agricultora e secretária da coordenação do Núcleo, as reuniões mensais costumavam ficar centradas nas questões burocráticas e mais diretas que envolvem a certificação coletiva. Com o tempo, foi surgindo a demanda de trazer mais Agroecologia para os encontros, afinal, trocar conhecimentos e aprendizados sobre as práticas agroecológicas nunca é demais. Como o debate sobre o solo tinha vindo à tona em reuniões anteriores, surgiu a ideia de trazer oficinas com essa temática.

A primeira mini-oficina foi facilitada pelo agricultor Pedro Henrique Eger, do grupo Harmonia da Terra, de Rancho Queimado. Pedro explicou passo a passo como capturar e preparar os Microorganismos Eficazes (ME), seres que auxiliam no equilíbrio da vida do solo e no controle de doenças de folhagens. Ainda pela manhã, Ika Porã, de Garopaba, fez uma apresentação sobre a criação de minhocas e falou sobre os benefícios desses animais tanto na fertilização do solo quanto no uso para a alimentação de outras criações.

A tarde foi dedicada à oficina de Compostagem, ofertada pelo engenheiro agrônomo da equipe técnica do Cepagro, Júlio César Maestri. A oficina começou com a preparação da TV Composteira, ferramenta didática onde é possível ver o modelo de compostagem do método UFSC camada por camada. Em seguida, todos seguiram para o pátio da associação, onde as dúvidas restantes foram sanadas com a montagem da composteira no chão, com palhada.

Júlio alertou para a importância de reaproveitar os resíduos orgânicos: “Florianópolis gasta mais de R$ 2 milhões de reais por mês para enterrar o lixo produzido na capital”. Todo o resíduo é levado para o aterro de Biguaçu, sendo que praticamente 50% deste volume é de resíduos orgânicos que poderiam ser compostados. “A maior parte do resíduo orgânico é formada por água, ou seja, Florianópolis gasta um dinheirão para transportar água até o aterro”, explica o agrônomo.

Na reunião, os agricultores também discutiram a programação do Encontro do Núcleo Litoral Catarinense, que acontecerá nos dias 22 e 23 de setembro na Fazenda de Dentro, em Biguaçu. O evento acontece anualmente e a programação conta com oficinas, palestras e noite cultural, atividades pensadas de acordo com o interesse dos grupos locais. Luciano Zanghelini, do Grupo Flor do Fruto, está envolvido com a organização do evento e conta que muito provavelmente haverá uma oficina sobre o uso de bambu, já que esse tema tem surgido como uma demanda entre os agricultores. Já as palestras devem trazer temáticas mais gerais, entre técnicas e práticas agroecológicas, afim de contemplar um número maior de participantes.

Cooperativa de agricultores de Major Gercino inaugura agroindústria de sucos e geleia de uva

A agricultura familiar de Major Gercino obteve mais uma conquista na última sexta-feira, 15 de junho: foi inaugurada a agroindústria de Suco de Uva e Geleia da Coopermajor, cooperativa formada por agricultores município do Alto Vale do Rio Tijucas. A agroindústria, situada no Distrito de Pinheiral, conta com dez viticultores associados e já começou a funcionar. O Cepagro esteve presente na solenidade de inauguração, junto com IMG_2662o Prefeito de Major Gercino, Valmor Pedro Kammers, o Secretário da Agricultura do município, Valdecir Marchi, o engenheiro agrônomo extensionista da Epagri, Remy Simão e o presidente da Coopermajor, Elvino Staroski, além dos agricultores que compõem a cooperativa. De acordo com Elvino, até agora, cerca de 4 mil litros de sucos já foram processados ali. A produção é feita separadamente pelos agricultores, mas a comercialização, que deve iniciar em breve utilizará uma só rotulagem. A agroindústria processará tanto uvas convencionais quanto orgânicas, estas certificadas pela Rede Ecovida de Agroecologia. 

Para o presidente da Coopermajor, a agroindústria beneficia os associados principalmente no valor da venda. Se antes a uva era vendida à granel e com um preço estipulado, muitas vezes, pelo comprador, com a venda do suco, a valorização do produto e do produtor aumentam. “A gente foi conversando em reuniões e viu que tinha um meio de agregar mais valor e nos juntamos. Hoje a gente está com 10 associados nomeados e com um preço bem melhor do suco do que com a uva vendida a granel”, conta Elvino. Nenhuma garrafa foi comercializada até agora, mas a produção já está acontecendo desde fevereiro deste ano.

O investimento para a concretização da Indústria veio em grande parte dos próprios agricultores associados e contou também com recursos do programa SC Rural, do Governo do estado de Santa Catarina, mobilizados através da Epagri. Além disso, a produção dos sucos e geleias, que serão em parte orgânicos, conta com a certificação participativa da Rede Ecovida de Agroecologia, da qual Aloísio, Salete e outros agricultores familiares da região fazem parte.

IMG_2667Depois das falas iniciais da cerimônia, Valdecir Marchi, Secretário da Agricultura e Meio Ambiente do município, falou um pouco sobre a história da cooperativa e fez um agradecimento especial à Aloísio e Salete Stolarczk, casal de agricultores associados que doaram o terreno para a construção da indústria da Coopermajor.

IMG_2676Após os agradecimentos, os presentes assistiram à palestra com o enólogo Stevan Arcari, que explicou um pouco sobre o novo sistema de produção do suco, não mais feito em panelas e com evaporação, mas por meio de um processo enzimático. Segundo Stevan, os viticultores que produzirem no maquinário da indústria terão a vantagem de fabricar um suco integral, feito com pura uva, colhida de manhã e processada a noite – vantagem ainda maior para aqueles que utilizarem uvas orgânicas.

O enólogo ainda lembrou que o custo final do suco pode até ficar um pouco maior, se comparado à grandes empresas produtoras. Mas essa característica é compensada levando em conta toda a qualidade embutida no produto, vindo de agricultura familiar e fruto de uma cooperativa.

IMG_2698Após a palestra, os casais associados, Aloísio e Salete e Elvino e Ana, cortaram a fita de inauguração e os presentes puderam fazer uma visita ao interior da fábrica. 

Alimentos orgânicos: mais saúde e segurança para quem cultiva e para quem come

Seja pela apresentação de dados estatísticos, estudos acadêmicos ou pelas histórias de agricultoras e agricultores, essa foi a tônica da Semana Nacional do Alimento Orgânico em Florianópolis, celebrada no final de maio e início de junho. No Seminário de Alimentos Orgânicos realizado pela Cidasc em parceria com o Cepagro na FIESC no dia 1º de junho e na Feira Orgânica CCA do dia 2, o público pode conhecer melhor sobre a produção, certificação e comercialização de alimentos orgânicos. Além de mais reconhecimento pelo trabalho dos e das que produzem alimentos bons e limpos, outra demanda ganhou força nessa Semana: maior participação dos consumidores e consumidoras nos processos de certificação e comercialização de orgânicos. Como disse o agricultor Anderson Romão, do Núcleo Litoral Catarinense da Rede Ecovida: “A parte mais difícil a gente faz, que é acordar cedo e plantar. Para o negócio virar mesmo, tem que partir do consumidor”.

Texto e foto: Carú Dionísio

“Me sinto confortável em dizer para os consumidores que podem consumir orgânico em Santa Catarina, porque é de qualidade”. A fala do engenheiro agrônomo Matheus Mazon Fraga, da CIDASC, veio após ele apresentar os resultados do Programa de Monitoramento da Produção Orgânica Vegetal durante o Seminário de Alimentos Orgânicos que aconteceu no dia 1º de junho. Implementado pela CIDASC com apoio do Banco Mundial, o Programa fez a coleta e análise de 1840 amostras de 13 cultivos orgânicos entre 2012 e 2016. Dessas, apenas 6% apresentaram inconformidades, como resíduos de agrotóxicos. “E, nesses casos, os órgãos públicos estão tomando as providências”, assegurou o agrônomo.

Enquanto a coleta e análise de resultados cabe à CIDASC, a averiguação das inconformidades está a cargo do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA). Segundo o engenheiro agrônomo Francisco Powell Van de Casteele, do MAPA, a maioria das ocorrências de resíduos de agrotóxicos em alimentos orgânicos é devido à proximidade entre propriedades agroecológicas e convencionais, com barreiras insuficientes: “Parece um contrassenso, mas é o produtor orgânico que tem que proteger sua produção de um vizinho que às vezes não segue boas práticas no uso de agrotóxicos”, afirmou. Nos casos em que se verifica negligência ou má fé por parte do agricultor supostamente orgânico, é feito um auto de infração, que pode gerar multas. “Depois de várias autuações, encaminhamos para o Ministério Público”, completou.

Se pela segurança a população pode confiar nos alimentos orgânicos, seu valor de mercado ainda restringe seu consumo. Entretanto, os benefícios ambientais da agricultura orgânica não têm preço, de acordo com Francisco Powell: “Falam que o orgânico é caro. Mas se pensarmos na água potável que deixa de ser contaminada e na contribuição da agricultura orgânica para sua preservação, perceberemos os benefícios dessa atividade no fornecimento de água de qualidade para toda população”, avaliou.

A relação entre o consumo de alimentos orgânicos e os benefícios ambientais e para a saúde da agricultura ecológica foi corroborada durante o Seminário pela nutricionista Elaine de Azevedo, professora da Universidade Federal do Espírito Santo: “Comprando da agricultura familiar e dos povos e comunidades tradicionais, continuaremos donos de nossos recursos ambientais”, afirmou. Convidando o público a refletir sobre o alto consumo de carnes – já que a pecuária é uma das atividades com mais impactos socioambientais da atualidade -, a professora ressaltou na sua fala como a alimentação também é política. Quando podemos escolher o que comemos, optamos também por determinado modelo produtivo e social. “Para a alimentação ser política, é preciso pensar em quem trabalha no campo”, disse. Além de mais seguro para trabalhadores e trabalhadoras rurais, pois não envolve o manejo de agrotóxicos, os alimentos orgânicos também têm melhor valor nutricional em relação aos chamados convencionais, de acordo com vários estudos apresentados pela professora no Seminário. Elaine encerrou sua fala com a leitura do potente “Manifesto da Comida de Verdade”.

Mas como aumentar o acesso a esses alimentos bons, limpos e justos, num cenário em que grandes conglomerados empresariais dominam o mercado mundial de alimentos? Para o professor Oscar José Rover, coordenador do Laboratório de Comercialização da Agricultura Familiar da UFSC, a chave é aproximar produtores e consumidores, investindo em feiras, circuitos curtos de comercialização e células de consumidores, muitas vezes organizados pela internet. Novamente, o papel do consumidor e da consumidora é enfatizado, como disse o agricultor agroecológico Anderson Romão.

Anderson fez sua apresentação junto com outros 5 agricultores e agricultoras do Núcleo Litoral Catarinense da Rede Ecovida de Agroecologia, que fecharam a programação do Seminário de Alimentos Orgânicos. Além de explicar o funcionamento da Rede, a agricultora Claudete Ponath (Piçarras) apresentou um panorama de abrangência do Núcleo Litoral Catarinense, que envolve 130 famílias de agricultores de 28 municípios, de Garopaba até Joinville. Nas suas falas, o grupo reforçou que a Rede vai bem além da certificação, como disse a agricultora Sônia Jendiroba, do grupo Ilha Meiembipe (Florianópolis): “Quando entrei pra Rede eu queria muito mais do que plantar sem veneno. Queria fazer parte da agroecologia, estar mais próximo dos consumidores e com outros agricultores”.

Para Sônia, ser visitada pelas pessoas que comem os alimentos que ela cultiva só traz mais credibilidade para seu trabalho, além de fortalecer seu compromisso com a Rede: “Esse olhar nos dá credibilidade e também responsabilidade de produzir e vender, saber que não vamos falhar na frente, senão toda a Rede vai pagar o pato. Temos esse compromisso social de que o que produzimos é saúde”, concluiu.

Já Pedro Eger, do grupo Harmonia da Terra, de Rancho Queimado, enfatizou o intercâmbio de informações entre agricultores e agricultoras como uma das principais motivações para estar na Rede: “Além da diminuição do custo, nós migramos da certificação por auditoria para a participativa pela oportunidade de trocar experiências com outros agricultores”, disse.

A Semana do Alimento Orgânico terminou com uma edição festiva da Feira Orgânica CCA. Veja como foi na fotorreportagem de Joelson Cardoso para o Cotidiano UFSC e também na reportagem de Marcelo Luiz Zapelini para o Desacato.info.

Confira também a matéria de Fernando Lisbôa para o telejornal UFSC Cidade.

Veja mais fotos do Seminário na galeria abaixo:

Agroecologia transcende fronteiras pelo bem viver durante o 10º Encontro Ampliado da Rede Ecovida

Reunindo cerca de 1.500 pessoas, o 10º Encontro Ampliado da Rede Ecovida de Agroecologia aconteceu em Erexim (RS) entre os dias 21 e 23 de abril, com a organização encampada pelo Núcleo de Agroecologia do Alto Uruguai. Com o lema “Cuidado, Cultura e Bem Viver: Construindo Caminhos”, as atividades e discussões do 10º EARE firmaram a concepção de Agroecologia para muito além da produção orgânica, representando também uma alternativa para ter mais qualidade de vida no campo e na cidade, com segurança e soberania alimentar e respeito às diversidades de gênero e de gerações. O próximo Encontro Ampliado da Rede será no Oeste de Santa Catarina, entre 2019 e 2020.

texto e foto – Carú Dionísio

Delegação do Núcleo Litoral Catarinense que foi ao 10º Encontro Ampliado da Rede Ecovida

“Uma vez na Bahia uma camponesa me disse assim: ‘Agroecologia é chamar a terra de meu bem’. Porque o que o agronegócio faz é estupro! É pornografia! Mas o que a gente faz é agro-erótico.”. Sob os aplausos de uma plateia de quase mil pessoas, a Pastora Nancy Pereira, da Comissão Pastoral da Terra, prossegue na comparação: “A agroecologia não pode ter pressa, não pode entrar sem pedir licença, tem que acariciar, tem que esperar. É uma relação dessa outra metodologia, desse outro modo, que é o modo do cuidado.

Pastora Nancy Pereira e o agro-erotismo agroecológico

Quando você ama, você cuida! Quando você deseja, você cuida! E fazer agroecologia é se envolver nessa relação erótica com a vida, com a comida, com o sol , com a água”. Proferida durante o Painel de Abertura do 10º Encontro Ampliado da Rede Ecovida de Agroecologia, as provocativas comparações da Pastora evocavam o lema do evento neste ano: “Cuidado, Cultura e Bem Viver: Construindo Caminhos”.

Realizado entre os dias 21 e 23 de abril em Erexim, no Rio Grande do Sul, o 10º EARE reuniu cerca de 1.500 pessoas, entre agricultores e agricultoras, equipes técnicas de organizações, estudantes, consumidores e consumidoras que acreditam e trabalham pela Agroecologia não só como opção produtiva, mas como um caminho para o bem viver. “Quando a gente discute agroecologia, a Rede Ecovida busca isso de forma bem mais ampla do que simplesmente a produção orgânica. É um conjunto de ações, pensando principalmente no espaço e na qualidade de vida”, afirma Edson Klein, da equipe técnica do CETAP, que juntamente com o CAPA e o Núcleo de Agroecologia do Alto Uruguai, encampou a organização do Encontro em 2017. O agricultor Aires Niedzielski, da coordenação da Rede Ecovida, vai além:O nosso sonho, a nossa luta é mostrar que a Agroecologia é a salvação do nosso planeta”.

Fazendo jus a esta ampla concepção da Agroecologia, que abarca também segurança e soberania alimentar dos povos, questões trabalhistas, sociais, de gênero e de gerações, a programação do Encontro contou com uma variada programação de 30 oficinas, que aconteceram na primeira tarde do evento. Foram trabalhados temas técnicos, políticos, sociais e gastro-etílicos: de insumos a sementes crioulas, passando por discussões sobre os impactos da Reforma da Previdência para agricultores e agricultoras ou crédito para agricultora ecológica, além do compartilhamento de receitas e sabores de frutas nativas, cervejas orgânicas e plantas alimentícias não-convencionais (PANCs).

Oficina “Cuidar de Si”, com Maria Dênis Schneider, da equipe técnica do Cepagro

A equipe técnica do Cepagro facilitou quatro oficinas durante o Encontro: “Compostagem e Gestão Comunitária de Resíduos Orgânicos”, com Júlio César Maestri; “Cuidar de Si: Respiração, Automassagem e Relaxamento” e “Feira Orgânica CCA”, com Maria Dênis Schneider e “Consumidores e Agricultores Construindo Alternativas de Abastecimento”, com Erika Sagae e equipe do Projeto Misereor em Rede.

Oficina de compostagem, com Júlio César Maestri

 

 

 

 

Oficina “Consumidores e Agricultores Construindo Alternativas de Abastecimento”, com Erika Sagae e equipe do Projeto Misereor em Rede.

Outros momentos importantes de formação dos Encontros Ampliados são os seminários, que nesta 10ª edição aconteceram no segundo dia, 22 de abril. “Os seminários discutem temas relacionados ao trabalho da Rede Ecovida e sua dinâmica. É a partir desses seminários que a gente consegue tirar diretrizes de funcionamento da Rede para o próximo período”, explica Edson Klein. Mulheres, Juventude, Comercialização, Assistência Técnica e Extensão Rural, Sementes, Certificação e Mudanças Climáticas foram as temáticas discutidas.

A participação de uma delegação com cerca de 50 membros de organizações de 14 países latino-americanos foi novamente um dos destaques do 10º Encontro Ampliado, assim como na edição de 2015, em Marechal Cândido Rondon (PR). Apoiadas pela Fundação Inter-Americana (IAF), as organizações integraram o 10º EARE como uma preparação para o Encontro de Donatários da Fundação que aconteceu na sequência, em Passo Fundo. “Nestes dias como delegação aprendemos muito. Que os problemas e estratégias para superá-los são similares na américa latina. Que os países que representamos não estamos sós, pois temos vocês. Que é mais importante o grupo, e não o indivíduo. Que nos sentimos uma rede latino-americana de agroecologia graças a vocês”, afirmou durante a Plenária do Encontro Roberto Sandoval Rodriguez, da organização FUNDESYRAM, de El Salvador. “Queremos voltar com essa energia pros nossos lugares e internacionalizar esse processo. Porque a Rede Ecovida pode ser uma rede que vai quebrar as fronteiras criadas pelos estados. A Rede Ecovida é uma rede que pode construir entre os povos”, disse Aymara Victoria Llanque Zonta, da organização boliviana IPHAE.

Delegação Latino-Americana na Plenária Final do Encontro

A delegação do Núcleo Litoral Catarinense também compareceu em peso, com quase 80 pessoas. Produtores de cogumelos orgânicos em São João Batista (SC) e membros do grupo Associada, o casal Cristina Alves e Emerson Casas Salvador participavam pela primeira vez de um Encontro Ampliado. “A gente entrou na rede em busca da certificação , mas descobrimos que a Rede é mais que isso. Na rede a gente fez vários contatos. Hoje valeria entrar na Rede mesmo que não houvesse certificação”, afirma Emerson. A troca de experiências e saberes durante o Encontro também chamou a atenção deles, assim como a dinâmica de funcionamento da Rede Ecovida: “Eu achei bem interessante porque a Rede não é só um nome, ela funciona em Rede mesmo. Não é uma hierarquia, as decisões são horizontais. E os problemas resolvidos pontualmente”, avalia Cristina. A estudante de Biologia da UFSC Eduarda Silva também estava na caravana e contou que “Foi muito bonito ver o quanto o trabalho coletivo é real e pode acontecer quando se tem um propósito verdadeiro. Foi muito gratificante ter essa vivência com agricultores, trocando informações, experiências e sementes”.

A delegação do Núcleo Litoral Catarinense incluiu estudantes, consumidorxs, equipe técnica do Cepagro e da Revolução dos Baldinhos.

Uma das inovações do 10º Encontro Ampliado foi a parceria entre Rede Ecovida e o Movimento Slow Food para prover a alimentação durante o evento. Foram 7.500 refeições preparadas com sete toneladas de alimentos orgânicos por uma equipe de 38 cozinheiras, cozinheiros e estudantes de Gastronomia dos três estados do Sul do Brasil. “Foi um grande desafio reunir e ligar os Núcleos da Rede Ecovida para conseguir os alimentos. E agora estamos aqui, cozinhando pra quem são os protagonistas dessa agricultura linda e limpa, que são os agricultores e agricultoras”, afirma o cozinheiro Israel Dedéa, do Movimento Slow Food.

 

 

 

 

 

 

 

A riqueza e o colorido da produção Agroecológica também podiam ser conferidos na Feira de Saberes e Sabores.

Além da posse da nova coordenação da Rede, foi deliberado na Plenária Final que o próximo Encontro Ampliado será no Oeste de Santa Catarina, em 2019 ou 2020. Também foi nomeado o mais novo núcleo da Rede Ecovida de Agroecologia: o Peroba Rosa, apadrinhado pelos núcleos Maria Rosa, Libertação Camponesa e Arenita Caiuá, do Paraná. Assim, a Rede Ecovida de Agroecologia conta agora com 29 células regionais nos três estados do Sul do Brasil e também Sul de São Paulo. Foram apresentados ainda dois pré-núcleos: Vale do Itapocu (apadrinhado pelo Núcleo Litoral Catarinense) e Sudeste Gaúcho (a partir do Núcleo Vale do Caí).

Coordenação da Rede Ecovida que finalizou suas atividades durante o 10º EARE.

 

Nova Coordenação da Rede apresentando-se à Plenária.

Seminários traçam diretrizes da Rede

Seminário Mulheres e Agroecologia

Cerca de 120 mulheres, entre agricultoras, técnicas, professoras, estudantes e consumidoras, participaram do seminário “Mulheres construindo Agroecologia”. Na sistematização das discussões, as participantes salientaram o protagonismo feminino em questões centrais da agroecologia, como resgate e conservação de sementes crioulas, segurança e soberania alimentar, processamento e comercialização de alimentos agroecológicos. “Porém, sua participação nos espaços de coordenação e processos de decisão das organizações, grupos, associações, cooperativas e ONGs ainda precisa avançar muito”. Ressaltam também que esta não é uma luta só das mulheres: “É necessários que nossos companheiros revejam suas posturas e práticas, que as organizações assumam o desafio de tratar as desigualdades de gênero como prioridade e não mais como uma ação pontual”. Como afirmou a agricultora Diva Vani Deitos, da coordenação da Associação dos Pequenos Agricultores do Oeste Catarinense (APACO) e uma das principais referências nas discussões de Gênero dentro da Rede: “E que sejam as mulheres as protagonistas da suas histórias… As mulheres têm que contar sua história, não mais ser contada somente pelos homens.”

Seminário de Juventude e Agroecologia, em Aratiba.

Se sem feminismo não há agroecologia, sem a mobilização da juventude tampouco. No Seminário realizado no município de Aratiba (a 40km de Erexim), cerca de 150 pessoas estiveram reunidas para discutir e conhecer experiências que conectam Juventude e Agroecologia. Iniciativas como o Conselho Municipal da Juventude de Itatiba do Sul, a Feira Jovem de Boa Vista e a Escola Família Agrícola, de Santa Cruz do Sul, foram apresentadas, com a facilitação de Rogério Suniga Rosa.  Além dos fatores que atraem e afastam os e as jovens do campo, a relatora do seminário na Plenária Final, Anelise Becker, apresentou demandas do coletivo da juventude agroecológica. A participação da juventude na coordenação da Rede e em maior número nos Encontros Ampliados, a realização de um Encontro de jovens da Rede Ecovida e a formação de uma caravana da juventude para o 4º Encontro Nacional de Agroecologia (que acontece em 2018 em Belo Horizonte) foram algumas das propostas apresentadas.

Seminário sobre Sementes

“As sementes quer dizer pra gente autonomia, se a gente consegue ter a nossa própria semente, a gente tem autonomia, como plantar, onde e quando né?”. Enquanto oferta variedades de milho crioulo a R$ 5/kilo de sementes na Feira de Saberes e Sabores, a agricultora Edelaine Brinker, de Sananduva (RS), fala da importância dos guardiões e guardiães desse patrimônio genético e cultural: “Os agricultores conseguem dominar todo esse processo: plantam, cuidam, colhem, selecionam. E eles não ficam nas mãos das multinacionais, eles são os donos da semente”.
O professor do Curso de Agronomia da UFSC Rubens Onofre Nodari concorda: “Fazer agroecologia sem sementes crioulas não é agroecologia”. Além de facilitar uma uma oficina sobre os impactos de novas (bio)tecnologias para a agricultura, Nodari participou também do Seminário Sementes e Agroecologia, coordenado pela ReSA- Rede Sementes da Agroecologia. Dentre as muitas propostas delineadas durante as discussões, destacam-se: a necessidade de apoio do BNDES para financiamento de projeto com sementes na Rede Ecovida, inclusive com financiamento de kits de detecção de transgênicos para distribuição e conscientização entre os agricultores; a realização de feiras e festas para trocas de sementes dentro da Rede; a formação de grupos de trabalho para sistematizar como anda esta questão em cada núcleo e a mobilização para modificação das legislações estaduais e municipais para o uso de agrotóxicos e a proibição da pulverização aérea. Além disso, foi reafirmado o papel fundamental de cada agricultor e agricultora como guardiães de sementes, assumindo a a responsabilidade de guardar pelo menos uma variedade de semente que cultiva, não para comercialização em grande escala, mas para troca entre seus pares.

 

Seminário sobre Comercialização

Realizado no município de Três Arroios (a 25km de Erechim), o Seminário “Estratégias de Comercialização para a Segurança Alimentar e Nutricional” reuniu quase 150 pessoas para discutir questões como “Como os produtores e participantes da Rede podem ter acesso à alimentação 100% orgânica”, “Que tipo de Vigilância Sanitária queremos para a Agroecologia” e “Qual mercado queremos construir?”. O município é sede da ECOTERRA, associação que congrega 75 famílias de 10 municípios da região que produzem e comercializam alimentos agroecológicos. Representantes da associação, do Circuito de Comercialização da Rede Ecovida de Agroecologia e da Vigilância Sanitária do Paraná compuseram o painel inicial da atividade. As demandas apresentadas a partir das discussões incluem o fortalecimento das estações dos circuitos de comercialização, prática de preços menores dos alimentos entre os agricultores e agricultoras da Rede, cursos e oficinas de abastecimento, a inclusão de consumidores e consumidoras nas reuniões de grupos e núcleos, além da revisão da legislação para agroindústrias familiares e que a Vigilância Sanitária atue para orientar, não só punir.

Aqui, o álbum completo do 10º Encontro Ampliado da Rede Ecovida de Agroecologia.

Delegação catarinense segue rumo ao Encontro Nacional de Agricultura Urbana

enau

Partiu hoje rumo ao Rio de Janeiro um grupo de 20 representantes da temática de Agricultura Urbana em SC, para participarem do 1° Encontro Nacional de Agricultura Urbana (ENAU).

Entre os coletivos e organizações representados estão: Cepagro, Camping do Rio Vermelho, Educando com a Horta, Revolução dos Baldinhos, Associação de Mulheres Camponesas do Oeste, Associação de Trabalhadores de Materiais Recicláveis e Resíduos Sólidos da Palhoça, União das Associações Comunitárias de Xanxerê, CAUP/SC, Quintais de Floripa, Coletivo Pátios Amigos, Centro Terra Viva de Apoio à AUP e UNEAGRO (Câmara Setorial de Agricultura Familiar).

A participação efetiva da delegação catarinense é fruto de um processo com vários encontros para mapeamento, socialização e entendimentos da temática, que vem sendo realizados desde 2012 e apontam para o surgimento de políticas públicas voltados ao segmento.

Acompanhe, no blog, notícias a partir da cobertura colaborativa do evento ao longo desta semana.