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Estudantes da Escola Januária, no Campeche, participam de primeira oficina de compostagem

Resíduos orgânicos, compostagem e destinação correta do lixo são conceitos que a partir de agora os alunos da Escola de Educação Básica Januária Teixeira da Rocha, no Campeche, conhecem bem.  Na última quarta-feira, 27 de março, as turmas do 1º ao 5º ano participaram da primeira oficina de Compostagem, assessorados pela Engenheira Agrônoma Karina Smania de Lorenzi, da equipe do Cepagro.

A ação, que iniciou em fevereiro com uma formação para os professores e funcionários, é uma parceria entre a escola e a Associação de Moradores do Campeche (Amocam) e está inserida na meta de oficinas do Cepagro para a Educação Alimentar e Nutricional através do projeto Misereor em Rede. O objetivo é trabalhar com as turmas três eixos centrais: Compostagem, Horta Pedagógica e Educação Alimentar e Nutricional, ao longo de todo o ano letivo.

Logo pela manhã, depois de uma explicação teórica em sala de aula, as crianças foram para a parte externa da escola colocar em prática o conteúdo trabalhado na primeira parte da aula. Elas mesmas montaram uma composteira que de agora em diante vai receber parte dos resíduos gerados na cantina da unidade. As turmas da tarde também tiveram a aula dividida entre teoria e prática, desta vez tudo em sala de aula.

Para a professora Silvia Leticia de Sá Teixeira Cardoso, “essa aula inicial do projeto foi muito interessante porque além de ter a aula teórica, onde foram abordados os conceitos de lixo orgânico, inorgânico, compostagem, destino correto para cada tipo de lixo, as crianças puderam também vivenciar na prática como funciona todo o processo de compostagem, por meio da oficina que a Karina realizou com eles. O que torna todo esse conhecimento muito mais significativo”.

Ainda como parte da programação do primeiro bimestre, que será inteiro focado no tema da gestão dos resíduos sólidos e compostagem, haverá um mutirão para a implantação de uma composteira e que vai envolver alunos, pais e professores. A atividade será no dia 6 de abril, sábado, quando a escola promove a festa da família.

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CEPAGRO ACOMPANHA GRUPO DE CONSUMIDORES EM FORMAÇÃO SOBRE CONSUMO CONSCIENTE

Foto: Comunicação CETAPNo último final de semana, 23 e 24 de março, grupos de consumidores de Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul se reuniram na sede do Centro de Tecnologias Alternativas Populares (CETAP), em Passo Fundo-RS, para o 3º Módulo do Curso de Formação Consumidores e Agroecologia, promovido pelo Projeto Misereor em Rede.

Foto: Comunicação CETAPEste primeiro módulo de 2019 teve como objetivo apresentar experiências de abastecimento e comercialização de alimentos ecológicos, buscando ressaltar a importância do público consumidor para o incentivo a um ambiente alimentar mais adequado saudável e sustentável. O Cepagro participou da formação acompanhando o grupo de consumidores de Florianópolis e representantes do Laboratório de Comercialização da Agricultura Familiar (Lacaf) e do grupo Ilha Meiembipe da Rede Ecovida de Agroecologia. 

Foto: Comunicação CETAPAo longo dos dois dias, os aproximadamente 60 cursistas tiveram momentos de rodas de conversa, palestras e debates que trataram, entre outras coisas, das estratégias de comercialização de alimentos orgânicos e agroecológicos e da legislação desses alimentos. O grupo também fez uma visita à Feira Ecológica de Passo Fundo, onde puderam conversar com feirantes e com a coordenação da Coonalter, cooperativa responsável pela organização das cinco feiras ecológicas da cidade.

Entre os palestrantes estava Mário Gusson e Lauro Foschiera, que apresentaram algumas experiências realizadas pelo CETAP. Ambos são figuras históricas da Rede que participaram do processo de fortalecimento da Agroecologia no sul do Brasil. Para Erika Sagae, Vice-Presidenta do Cepagro, foi muito importante para os jovens produtores e consumidores que estão chegando no processo da Agroecologia poder ouvir eles falando, “é bem importante porque é a história viva”.

No domingo, a representante da coordenação da Rede Ecovida de Agroecologia Juliana Carvalho, fez um apresentação falando um pouco da Rede e da participação dos consumidores. Erika Sagae também frisou a importância de uma conversa direta com alguém da coordenação da Rede: “Para a gente foi um ponto muito importante, porque nesse processo todo desse projeto a gente quer, ao final, constituir um grupo de consumidores na Rede Ecovida, ou reestruturar um GT que já existiu na Rede. Esse caminho a gente está trilhando de forma bem orgânica, com processos participativos dos consumidores nos grupos, inseridos nos Núcleos”, diz.

A própria Rede Ecovida vem pensando nisso e está trazendo um outro elemento que seria não o consumidor, mas o coprodutor. Este ainda é um debate inicial mas que segue na linha de que todo produtor é também um consumidor e de que todo consumidor pode se inserir na rede como um coprodutor.

O quarto e último módulo do Curso que será realizado em Florianópolis, ainda sem data definida, terá como tema a Compostagem. O curso é uma das ações do Projeto Consumidorxs e Agricultorxs em Rede, que busca contribuir para a mudança nos hábitos de produção e consumo, garantindo a segurança e soberania alimentar e nutricional da população, visando a promoção da agroecologia. O projeto é financiado pela Misereor, e executado em conjunto por quatro entidades que atuam na região sul do Brasil: Cetap (Centro de Tecnologias Alternativas Populares), no Rio Grande do Sul, AS-PTA (Assessoria em Serviços e Projetos em Agricultura Alternativa, Agricultura Familiar e Agroecologia), no Paraná e Cepagro (Centro de Estudos e Promoção da Agricultura de Grupo) e Vianei (Associação Vianei de Cooperação e Intercâmbio no Trabalho, Educação, Cultura e Saúde) em Santa Catarina.

Horta Pedagógica da Escola Januária Teixeira da Rocha dá os primeiros passos

Ontem, 5 de fevereiro, a Escola de Educação Básica Januária Teixeira da Rocha, no Campeche, iniciou as atividades práticas para a implantação de uma Horta Pedagógica assessorada pelo Cepagro. A ação é uma parceria entre a escola e a Associação de Moradores do Campeche (Amocam) e está inserida na meta de oficinas do Cepagro para a Educação Alimentar e Nutricional através do projeto Misereor em Rede. O objetivo é trabalhar com crianças do primeiro ao quinto ano três eixos centrais: Compostagem, Horta Pedagógica e Educação Alimentar e Nutricional, ao longo de todo o ano letivo.

A ideia surgiu depois que o diretor da escola, Abrão Iuskow, procurou a Amocam a fim de redesenhar uma pequena composteira utilizada pelo colégio. O presidente da associação de moradores, Alencar Deck Vigano, procurou o Cepagro e em dezembro uma primeira reunião foi realizada para ver o que era possível fazer. Ao fim do encontro, o que era pra ser apenas a manutenção de uma composteira acabou se transformando em um projeto de implantação de Horta Pedagógica com direito a 4 visitas técnicas de formação para professores, alunos e familiares.

Nesta terça-feira, a Engenheira Agrônoma Karina Smania de Lorenzi, da equipe do Cepagro, realizou a primeira formação com as professoras e funcionárias da unidade. Ela falou sobre Agroecologia e a importância da destinação correta dos resíduos, além de mostrar maneiras de inserir a composteira e a horta na educação fundamental. 

Karina esteve desenvolvendo uma Horta Pedagógica no Núcleo de Educação Infantil da Armação em 2018, com crianças de 5 e 6 anos. Lá o trabalho é mais lúdico, envolve música, contação de histórias e personagens. Ela conta que no ensino fundamental é possível se aprofundar mais, “fazer algumas experiências mais técnicas, dá pra aliar as disciplinas com os conhecimentos da horta e fazer as práticas das disciplinas das professoras na horta pedagógica”. 

Hoje a escola já tem uma horta, mas ela não tem sido incluída no conteúdo programático das turmas. O diretor Abrão conta que “é altamente indicado que se faça isso em uma escola, principalmente em uma escola como a nossa, do primeiro ao quinto ano. É melhor do que a creche, porque a creche é mais pelo deslumbramento. Aqui não, aqui é a assimilação para a vida delas. Desses cinco anos que as crianças passam na escola, algumas coisas vão ficar para o resto da vida. … E esses projetos é que ficam”, disse o diretor.

As atividades na horta serão realizadas em etapas bimestrais, respeitando assim o tempo da natureza. O primeiro bimestre será focado na sensibilização, gestão dos resíduos sólidos e compostagem. Em seguida o enfoque será nos canteiros, sementeiras e no plantio. Depois que a horta estiver dando frutos começa o trabalho sobre alimentação saudável e gastronomia, para então falar sobre adubação verde, plantas de cobertura e fazer a  avaliação final.

A professora Maria Inês Evaristo ficou muito feliz com a novidade: “A ideia está casando bem com o que a gente já estava pretendendo fazer. Aliás, a gente já tinha começado mas no ano passado a ideia estava meio adormecida. Quando a Karina apareceu no final do ano, avivou tudo e hoje a gente pode ver quantas ideias boas existem”.

A professora Ellen Regina Batista também está bastante motivada e quer contribuir com a horta: “cada passo desse projeto vai ser um momento de aprendizado, de descoberta, de curiosidade. E tanto as crianças quanto nós vamos estar aprendendo e aprofundando nossos conhecimentos”, disse.

E não foram somente as professoras que ficaram contentes com a parceria. Rozinéia do Carmo, que é funcionária da escola e mãe de alunas, disse que é ótimo saber que as filhas vão ter esse espaço dentro da escola: “As minhas filhas comem de tudo, elas vão amar. E eu acho que melhora até na alimentação das crianças, porque tem muita criança que não come porque não conhece”. Rozinéia está certa, temas como segurança alimentar e nutricional, alimentação saudável e desperdício de alimentos serão alguns dos assuntos trabalhados. A educação pode ser transformadora e uma Horta Pedagógica dentro da escola traz muitos benefícios para pais, alunos e professores.

Grupo de Florianópolis participa de curso de Consumidores e Agroecologia, em Lages

Nos dias 24 e 25 de novembro, grupos de consumidores de Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul estiveram reunidos em Lages para participar do 2º Módulo do Curso Consumidores e Agroecologia, promovido pelo Projeto Misereor em Rede. O Cepagro acompanhou o grupo de Florianópolis, que conta com 10 cursistas, entre consumidores e agricultores.

O módulo foi dividido em dois momentos, um teórico e outro com atividades a campo. Os participantes iniciaram o primeiro dia de curso compartilhando os relatos do “Tempo Comunidade”, período entre os módulos em que os grupos realizam dinâmicas entre si para colocar os aprendizados em prática. Erika Sagae, da equipe técnica do Projeto, conta que em Florianópolis o grupo optou por realizar mutirões e oficinas, “Em todas as atividades realizadas houve a participação quase que total dos cursistas, isso demonstra uma coesão do grupo que está cada vez mais integrando, se interagindo e fortalecendo relações”, disse.

Em seguida, os consumidores receberam uma formação sobre os Fundamentos da Agroecologia e Sistemas Agroflorestais e Políticas Públicas, facilitadas pelo agrônomo e educador Natal João Magnanti e pela técnica de campo Carolina couto waltrich,  do Centro Vianei de Educação Popular, de uma forma bastante participativa e construtiva. O dia encerrou com atividades culturais e uma feirinha solidária, gerando uma interação com os grupos de artesãos locais.

No segundo dia, os cursistas fizeram uma saída de campo e puderam conhecer de perto tipos de sistemas agroflorestais existentes. A experiência de agricultura sintrópica, na Propriedade Sol de Gaia, e a Propriedade Rio Bonito, que trabalha com sementes crioulas. Dois momentos muito ricos onde consumidores compreenderam também as dificuldades existentes no escoamento da produção e nos diferentes canais de comercialização.

O curso conta com quatro módulos e, até que o próximo aconteça, os grupos locais voltam a se reunir no tempo comunidade. Segundo Erika Sagae, o grupo de Florianópolis possui uma característica interessante que é ter em sua formação tanto consumidores quanto agricultores. Essa interação está fomentando a criação de duas novas células de consumo.

Cepagro promove mutirão e revitaliza o horto da Pastoral da Saúde, em Capoeiras

Na tarde da última terça-feira, 16 de outubro, o horto de plantas medicinais da Pastoral da Saúde de Capoeiras ganhou cara nova. O Cepagro, junto com a Pastoral da Saúde, promoveu um mutirão para a revitalização dos canteiros. O espaço já vinha sendo utilizado pela instituição para o cultivo orgânico de plantas medicinais, que são utilizadas para a produção de compostos fitoterápicos, cremes, xaropes e cosméticos para diversas finalidades. Produtos que são comercializados para toda a comunidade a preços sociais.

A atividade, que teve como objetivo fortalecer o trabalho realizado na Pastoral e mobilizar a comunidade, foi mais uma das ações que o Cepagro, através do Projeto Misereor em Rede, vem desenvolvendo em Capoeiras. A primeira delas foi a implementação de um canteiro em espiral com ervas medicinais no Centro de Referência em Assistência Social do bairro. As ações concretizadas até agora já renderam frutos.

Alvira Bossy, psicóloga do CRAS Capoeiras, que também participou do mutirão no horto, elogia a metodologia de trabalhar com as hortas. Para ela, ao redor de um canteiro é possível trabalhar temas como cidadania, convivência comunitária e participação social, que são pilares do trabalho de assistência social. Além disso é um espaço onde se consegue reunir muitos saberes: “em um canteiro de ervas, por exemplo, a gente consegue agregar os saberes dos profissionais que trabalham saúde, que é um saber mais técnico. A gente consegue envolver a Pastoral da Saúde, que tem todo um conhecimento técnico mas também popular. Consegue incluir uma benzedeira para trabalhar a questão das crenças, que aqui na ilha é bastante forte”, conta Alvira.

A aproximação entre o CRAS e a Pastoral da Saúde traz a possibilidade de uso do espaço para atividades de convívio social e sensibilização ambiental. Durante o mutirão, técnicos, assistentes sociais e comunidade debatem a questão dos produtos agroecológicos, compartilham as dúvidas e trocam conhecimentos. O objetivo do Projeto Misereor em Rede é justamente de trabalhar com os consumidores. Erika Sagae, vice-presidenta do Cepagro, conta que a partir desse caminho, atuando nos espaços de produção do alimento, é possível formar e conscientizar os consumidores. E as ações realizadas até agora já mostraram resultado.

A partir de uma demanda da comunidade local, em breve, o CRAS Capoeiras será uma célula de consumo, em conjunto com o Laboratório de Comercialização da Agricultura Familiar (LACAF), onde produtores agroecológicos da Rede Ecovida vão estar entregando produtos para uma célula de consumidores. Erika reforça que as atividades resultam de um trabalho integrado: a horta, a revitalização no horto da pastoral e a construção de consumidores conscientes.

A atividade no horto contou com o apoio do Hotel SESC Cacupé, na doação do composto orgânico.

Cepagro participa de Feira de Sementes Crioulas no Paraná

Realizada nos dias 31 de agosto e 1 de setembro em São João do Triunfo (PR), a 16ª Feira Regional das Sementes Crioulas e da Agrobiodiversidade recebeu mais de 4 mil visitantes para conhecer as 120 bancas de guardiões e guardiãs de sementes, além de artesanato e alimentos agroecológicos. A maioria dos grupos expondo sementes eram do Paraná, mas marcaram presença também Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Paraíba e Mato Grosso do Sul. O Cepagro participou através do projeto apoiado pela Misereor, levando um grupo de consumidores/as, produtores/as, feirantes e agricultore/as urbanos/as para intercambiar experiências e saberes sobre a riqueza da agrobiodiversidade representada pelas sementes. “Foi uma experiência riquíssima aproximar consumidorxs desse universo das sementes, pra entendermos o que significa proteger sementes crioulas e disseminar seu cultivo no processo produtivo, fazendo frente à indústria da alimentação e agronegócio. É importante pra gente entender a diversidade e variedade de sementes que tem e como estamos à mercê de indústria de alimentos que padroniza o acesso, os sabores e a relação que temos com alimento”, avalia Eduardo Daniel da Rocha, da equipe Cepagro/Misereor.

“Nunca tinha vindo numa feira com uma variedade de sementes tão grande. Com tantas experiências, pessoas preocupadas com não agrotóxicos e com a saúde, com alimento mais saudável”, conta a consumidora-produtora Isamara Thomas de Quadros, da Enseada do Brito, que estava na delegação de Floripa mobilizada pelo Cepagro. Outro estreante em Feiras de Sementes Crioulas era o agricultor Juliano Alexandre dos Santos, de Águas Mornas: “Antes de vir pra cá, pensei: ‘se eu conseguir um milho crioulo, já fico satisfeito”. Mas foi muito mais do que isso”, conta. Juliano é agricultor orgânico e já vem buscando sementes e mudas orgânicas para qualificar sua produção, que ele comercializa em feiras na Grande Florianópolis. Ele também cria animais para o consumo da família e “não ficava tranquilo de dar milho transgênico pra eles”, afirma. Além das inúmeras variedades de milho, ele trouxe da Feira sementes de hortaliças crioulas que ele nem sabia que existia, alimentos processados para revender na sua feira, material didático sobre manejo de sementes crioulas… “Quase enchi o bagageiro inteiro da van”, brinca o agricultor. “E claro, o conhecimento: em cada stand, com cada guardião a gente adquire uma bagagem riquíssima”, completa.

Somente no acervo da AS-PTA, organizadora da Feira, são 256 variedades crioulas de milho, feijão, adubos verdes, hortaliças, arroz, café, amendoim, mostarda e outros grãos. E as Feiras são o grande momento de troca e circulação dessas variedades, além do enriquecimento dos bancos locais. “A maioria das entidades não têm muitas pessoas na equipe, dependemos de financiamento. Então nas Feiras conseguimos catalogar com cada agricultor/a o que está sendo exposto, toda a diversidade de alimentos cultivados pela agricultura familiar”, conta André Emílio Jantara, da AS-PTA Palmeira, organizadora do evento. André conta que a ideia das Feiras regionais surgiu com um grupo de mulheres no ano 2000. “Elas sentaram numa comunidade e cada uma levou as sementes que tinham para fazer a troca entre elas. Só ali já tinha mais de 100 variedades de sementes. Daí surgiu a ideia das Feiras Municipais, depois as Feiras Regionais e assim foi aumentando o número de guardiões de sementes”.

Autonomia das grandes empresas e adaptação às práticas de cultivo agroecológicas que diminuem o custo de produção são algumas das vantagens do uso das sementes crioulas apontadas por agricultores e agricultoras. “Tem um custo mais acessível, porque além de eu não precisar comprar a semente, ela também aceita adubo orgânico, esterco de galinha e os resíduos orgânicos que eu uso pra adubar”, afirma a agricultora e guardiã de sementes Maria Vanderléia Barbosa, da comunidade Rio Baio, de São João do Triunfo. Ela participa da COAFTRIL (Cooperativa Mista Triunfense de Agricultores e Agricultoras Familiares) e veio para a Feira com diversas variedades de milho, feijão, gila, mostarda. “É uma tradição, né. É uma coisa boa, pura, saudável, sem veneno. O sabor é outro. Então a gente não quer perder”, afirma a agricultora.

O agricultor e estudante Mateus Gelinski, de 19 anos, avalia que “Além da independência das grandes produtoras de semente transgênicas, temos mais variabilidade e melhor custo benefício”. Mateus também acrescenta que “O jovem tem papel fundamental na preservação das sementes, porque é ele que vai manter as futuras gerações. Tem variedades que meu pai planta há mais de 30 anos, se a gente não seguir com isso, elas vão se acabar”, completa. André Jantara concorda: o envolvimento da juventude no trabalho de resgate, conservação e multiplicação de sementes é primordial. “O foco está nas escolas, com a juventude, com aqueles que estão na propriedade com os pais ainda. Esses são nossos guardiões mirins”, afirma.

Na programação da Feira, além da grande troca de sementes, aconteceram também oficinas e o I Seminário de Consumo Consciente e Alimentação Saudável, com o professor Rubens Nodari (UFSC) e o engenheiro Manuel Delafoulhouze, do Centro Paranaense de Referência em Agroecologia (CPRA). Delafoulhouze trouxe reflexões sobre a dinâmica de distribuição centralizada de alimentos e seu impacto negativo na qualidade da nossa alimentação. Buscando fazer um contraponto, o CPRA media grupos de Comunidades que Sustentam a Agricultura (CSA), proposta de comercialização que compartilha custos e responsabilidades da produção entre agricultorxs e consumidorxs, aproximando esses elos da cadeia. Só na Grande Curitiba, o CSA articula entre 40 a 50 grupos de consumidorxs, que recebem alimentos de mais de 1000 famílias de agricultorxs.

Abordando inicialmente os já conhecidos reveses dos monocultivos – sobretudo transgênicos – no Brasil e no mundo (aumento da contaminação por agrotóxicos, diminuição da população de insetos polinizadores e maior vulnerabilidade agrícola), Nodari ressaltou a contribuição que o público urbano pode ter para resgatar a dignidade dos agricultores e agricultoras: consumindo alimentos agroecológicos. Para Nodari, se considerarmos a qualidade superior desses alimentos, veremos que não são tão caros como se diz. Além disso, a diversidade de cultivos postulada pela Agroecologia é a melhor barreira contra pragas.

A agricultora Angelice Dias Barbosa conhece na prática a diferença dos alimentos agroecológicos. Tendo trabalhado como confeiteira e salgadeira durante vários anos, Angelice passou a trabalhar na agricultura agroecológica em 2016, quando conheceu seu companheiro, Celson José Chagas. Vivendo e trabalhando no Assentamento Contestado, na Lapa (PR), Angelice conta que “eu achava que conhecia sabor, mas era sabor artificial. Hoje é o sabor natural. Tenho tomate com sabor de verdade. Brócolis e alface antes era borracha, hoje é algo suculento, sem veneno. Hoje eu posso usar numa receita o morango orgânico do companheiro que é nosso vizinho e planta. Conheci trigo orgânico, saí do veneno. Hoje me orgulho disso”.

O companheiro de Angelice, Celson, tem mais experiência no trabalho com sementes crioulas. Ele conta que, junto com os Núcleos Maria Rosa da Anunciação e Maurício Burmester da Rede Ecovida de Agroecologia, o Assentamento Contestado vem fomentando esse trabalho para “ter mais sustentabilidade e soberania na questão da semente. A gente participa também da Casa da Semente e vem tentando resgatar o conhecimento sobre as sementes crioulas de hortaliças”, afirma. “A ideia é vender de agricultor para agricultor. Temos 10 famílias produzindo sementes no Assentamento, além de outras 20 em Palmeira. Fazemos também o melhoramento genético dessas sementes”, completa. “Hoje não dá pra falar em Agroecologia sem falar de semente. Primeiro para seu consumo, depois na comunidade do entorno e, se possível, para outros agricultores da região”.

Uma participação mais do que especial na Feira foi do povo Guarani-Kaiowá junto com assentados da Reforma Agrária que vieram na delegação do Mato Grosso do Sul, articulados pela Universidade Federal do Mato Grosso do Sul. “Começamos a plantar semente que não era nossa e fomos perdendo nossos alimentos. Mas estamos resgatando e agora até os fazendeiros procuram nossas sementes. Pra nós isso é uma grande soberania. Pois isso é vida, alimento saudável. Hoje temos DAP e vendemos  mandioca, batata doce, abacate e moranga nas escolas da reserva indígena”, conta Edite Martins Guarani, da Aldeia Jaguaperu, localizada na Terra Indígena de Dourados.

Na cultura Guarani-Kaiowá, o manejo dessas sementes é especial, pois conta com tecnologias espirituais, como conta Anastácio Peralta, também da TI Dourados: “A semente pra nós tem alma, tem vida. Hoje quem manda é o trator, o veneno. Isso mata o ser humano, a natureza, os microrganismos. Mas nós trabalhamos com tecnologias espirituais. O solo é batizado, a semente também. Fazemos reza para chamar a chuva. Como a planta tem vida e alma, temos que rezar pra ela sempre ir e voltar”.

 

Projeto Misereor em Rede segue articulando agricultorxs e consumidorxs

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Visita ao Sítio Saraquá, em Águas Mornas (SC)

Se “comer é um ato político”, faz parte desta ação política a escolha consciente dos nossos alimentos. Buscando conscientizar e sensibilizar o público urbano para o consumo de alimentos agroecológicos, o Projeto Misereor em Rede vem promovendo a aproximação entre as duas pontas – consumidorxs e agricultorxs – das cadeias de comercialização agroecológica. Através de visitas a campo, consumidorxs conhecem propriedades agroecológicas e conversam com agricultorxs, passando a entender mais sobre a sazonalidade dos alimentos, os desafios de produção e logística e a importância de buscar produtorxs que estejam mais próximxs às suas residências. Neste mês, o projeto articulou essas vivências em Florianópolis e Águas Mornas.

WhatsApp Image 2018-08-20 at 19.14.28No sábado passado, 18 de agosto, um grupo de consumidores se reuniu com agricultores do Sítio Florbela (localizado no Sertão do Ribeirão), buscando mobilizar um grupo para receber cestas de alimentos agroecológicos no Sul da Ilha.  “Refletimos sobre como essa proximidade entre  produtorxs e consumidorxs é positiva do ponto de vista do frescor do alimento também”, avalia Erika Sagae, da equipe do projeto. No domingo, já no Sítio Florbela, a reunião do grupo Ilha Meiembipe da Rede Ecovida de Agroecologia teve a participação de consumidorxs mobilizadxs pelo projeto. Além de fortalecer o debate sobre a participação de consumidorxs na Rede Ecovida, a atividade serviu também para o grupo perceber demandas e oportunidades de divulgação de sua produção.

No outro sábado, 25 de agosto, a equipe Cepagro/Misereor em Rede levou um grupo de consumidores e consumidoras para conhecer o Sítio Saraquá, em Águas Mornas. A propriedade é certificada pela Rede Ecovida de Agroecologia e cultivada pelos agricultores Tânea Mara e Vítor Follmann, do grupo Harmonia da Terra. Eles fornecem semanalmente alimentos agroecológicos para grupos de Comunidades que Sustentam a Agricultura (CSA), uma proposta de comercialização que compartilha custos e responsabilidades da produção entre agricultorxs e consumidorxs.

A ideia da Comunidade que Sustenta a Agricultura, surgida na Alemanha nos anos 1920 e chegada a Florianópolis em 2016, é que haja uma planilha aberta de custos de produção, que são compartilhados entre consumidores e produtores. O planejamento de produção é feito de acordo com a sazonalidade dos alimentos, a gestão administrativa e financeira do empreendimento é toda compartilhada e cada membro paga uma cota mensal dos custos de produção, que vão de R$ 130 a R$ 200 por mês (dependendo dos alimentos comprados). Custos de mão de obra, transporte, logística e até um fundo para emergências são divididos entre todxs. Tânea e Vítor, do Sítio Saraquá, entregam semanalmente 32 cestas agroecológicas (a capacidade de produção deles é para até 40 cestas).

Além de diminuir a presença de atravessadores, a articulação entre consumidores e produtores fortalece também o compromisso de quem compra com a produção.  Durante a visita ao Sítio Saraquá, o grupo da cidade pode conversar sobre estes e outros temas com os agricultores. “Os consumidores também fizeram várias perguntas também sobre certificação participativa, como funciona, quais são as dificuldades. Foi um momento bem interessante de intercâmbio e aproximação entre consumidores e produtor, importante pra entendermos os desafios que os agricultores têm pra levar alimento até a cidade”, avalia Erika Sagae. Na caminhada pelo Sítio, o grupo pôde ver a Agroecologia sendo cultivada na prática, com muita diversidade de alimentos e técnicas de manejo agrícola sustentáveis.