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Projeto de cooperação internacional inicia construção de indicadores da Agroecologia na América Latina 

A aceleração da crise climática global ameaça cada vez mais a segurança alimentar e nutricional das populações do campo e da cidade. Nesse contexto, a Agroecologia ganha importância por combinar produção de alimentos saudáveis com a conservação dos recursos naturais e a justiça social. Embora já esteja comprovado que os sistemas agroecológicos são mais resilientes às mudanças climáticas, há ainda uma carência de indicadores que relacionem o seu potencial econômico, social e ambiental.

Foi buscando preencher esta lacuna que um conjunto de organizações latinoamericanas deram início ao projeto “Agroecologia na América Latina: construindo caminhos”, uma iniciativa piloto regional que tem como estratégia coletar e sistematizar evidências científicas para o desenvolvimento de Indicadores da Agroecologia, com o objetivo de contribuir com a transição agroecológica e subsidiar a construção de políticas públicas que promovam o avanço da Agroecologia.

Foto mostra representantes das 8 organizações participantes do projeto
Comitê Gestor do projeto ‘Indicadores da Agroecologia: construindo caminhos’ reunido em El Salvador, janeiro de 2020

O projeto é desenvolvido através de cooperação internacional entre o Cepagro, a Universidade da Colúmbia Britânica (UBC) – através da professora e pesquisadora canadense Hannah Wittman – e seis organizações que promovem a Agroecologia na América Latina: Centro Campesino, A.C. e Tijtoca Nemiliztli, A.C. (México), Fundesyram (El Salvador), Movimiento de Economía Social y Solidaria del Ecuador – meSSe (Equador), APRO (Paraguay), Movimento Mecenas da Vida – MMV (Bahia) e Centro de Tecnologias Alternativas Populares – CETAP (Rio Grande do Sul). O projeto tem o apoio da Fundação Interamericana (IAF).

O projeto tem o formato de uma pesquisa-ação, onde a coleta de dados será realizada de forma participativa com famílias agricultoras e organizações de apoio. Esta coleta será facilitada pelo LiteFarm, uma ferramenta digital de gestão agrícola desenvolvida por uma equipe de cientistas, agricultores-colaboradores, designers, desenvolvedores e estudantes da UBC. Além de dinamizar a coleta de dados das propriedades agroecológicas, o aplicativo visa auxiliar famílias agricultoras no acompanhamento e gestão de suas áreas produtivas. Como se trata de um projeto piloto, a efetividade desta ferramenta ainda está sendo testada e aprimorada.

Construção coletiva e pedagógica

Cada uma das organizações está trabalhando em parceria com pelo menos 15 famílias que possuem mais de três anos de experiência em produção agroecológica. Neste primeiro trimestre, em meio às dificuldades enfrentadas pela pandemia, as organizações iniciaram o diálogo com as famílias participantes para explicar melhor sobre o projeto, seus objetivos e benefícios.

Encontro entre agricultores da Rede Povos da Mata e técnicos do Movimento Mecenas da Vida

No Sul da Bahia, região nordeste do Brasil, o Movimento Mecenas da Vida irá trabalhar com famílias vinculadas à Rede de Agroecologia Povos da Mata. Entre as 15 unidades produtivas selecionadas há produção de frutíferas, folhosas, temperos e raízes, mas predominam as famílias que cultivam o cacau, principal cultura agrícola da região. Segundo Luiz Fernando Vieira Pozza, da diretoria do MMV, com esse projeto a instituição almeja “o fortalecimento das práticas sustentáveis e agroecológicas exercidas pelos agricultores da rede Povos da Mata. As  trocas,  aprendizagens e a cooperação fraterna com as instituições parceiras também são almejadas pelo MMV”, afirma.

Já no sul do Brasil, a iniciativa envolverá famílias agricultoras da Rede Ecovida de Agroecologia. Giovani Gonçalves, Coordenador técnico do Centro de Tecnologias Alternativas Populares (CETAP) espera que o projeto e o uso da ferramenta LiteFarm possam fornecer informações relevantes para fortalecer a transição agroecológica e subsidiar ações da organização nesse sentido, bem como “auxiliar as famílias na geração de dados que sirvam para os processos de certificação participativa”.

Nesses primeiros meses, as técnicas e técnicos extensionistas das organizações estiveram centrados em se familiarizar com a ferramenta LiteFarm, através de capacitações virtuais realizadas com desenvolvedores da UBC. Nestas capacitações as organizações contribuíram com sugestões para o aprimoramento da ferramenta, para que ela seja acessível aos agricultores/as e compatível com diferentes sistemas agroecológicos. Um desafio que se apresentou até o momento foi o acesso limitado à internet nas comunidades rurais, o que dificulta o uso do aplicativo à campo e exige metodologias adaptadas para a coleta de dados.

Rosa Murillo em visita às famílias participantes do projeto na Serra norte do Equador

Rosa Murillo, agricultora e dinamizadora do Movimento de Economia Social e Solidária do Equador (meSSe), acredita que o projeto piloto, ao capacitar a equipe de dinamizadores do meSSe para o uso da ferramenta e para a análise da informação sob critérios técnicos econômicos, ambientais e sociais, “permitirá a médio e longo prazo fazer incidência interna e externa para o fortalecimento da agricultura familiar camponesa agroecológica, apoiando com mais precisão as atividades onde as famílias têm mais fragilidades”.

“Internamente o movimento pode fazer uso desta expertise para difundir o trabalho das famílias e as práticas desenvolvidas em suas propriedades a fim de ampliar seu raio de ação para novas famílias a nível territorial”. “A nível externo, permitirá incidir nas políticas públicas locais para conseguir o apoio do Estado às dinâmicas territoriais baseadas numa produção sustentável, estas podem conseguir uma assistência técnica à produção agroecológica, transformação de produtos, acesso a mercado, entre outros”, complementa Rosa.

Histórico de atuação em rede

As organizações latinoamericanas envolvidas neste projeto piloto já vinham atuando em uma rede de colaboração formada em torno da agroecologia desde 2016, através do projeto Saberes na Prática em Rede, coordenado pelo Cepagro com o apoio da Fundação Interamericana (IAF). As experiências e aprendizados vivenciados coletivamente em encontros presenciais e virtuais ao longo desses anos, despertaram não apenas a necessidade de seguir promovendo a agroecologia, mas também de medir os avanços que ela vem proporcionando em suas múltiplas dimensões.

Visualizando essa necessidade, as organizações identificaram conjuntamente uma série de indicadores relevantes nos âmbitos social, econômico e ambiental. Para citar alguns, estão o acesso à terra, água e sementes agroecológicas, a participação em agroindústrias e cooperativas, canais de comercialização, autoconsumo e dependência de insumos externos, por exemplo. Nesta primeira fase do projeto, serão então definidos entre 3 a 5 indicadores por eixo – social, econômico e ambiental – de forma participativa.

Para Erika Sagae, Vice-Presidenta do Cepagro e coordenadora do Projeto Agroecologia na América Latina: construindo caminhos, “a utilização do aplicativo, somada a construção de indicadores a partir da parceria com a UBC vai trazer elementos importantes, tanto para a efetivação de políticas públicas em Agroecologia a partir de dados que a gente possa estar apresentando para os governos locais, como também para essa troca de conhecimentos entre os países.”

Reunião com técnicos do Centro Campesino e Rede Tijtoca para discutir o andamento do projeto no México

Além de estreitar as relações entre os países e organizações latinoamericanas no campo da Agroecologia, o projeto fortalece também o trabalho de agricultores e agricultoras ecológicos. Para Victor Hugo Morales Hernandez, do Centro Campesino A.C. em Tlaxcala, no México, os agricultores(as) familiares serão beneficiados pois “terão disponíveis informações e dados que lhes permitam defender o seu trabalho para conseguir posicionar os seus produtos no mercado, sensibilizando a sociedade para reconhecer que não é justo que concorram com os modelos de agricultura moderna nem com os custos de comercialização”. Aponta ainda que “é um grande avanço para as organizações e produtores agroecologistas contar com ferramentas  que permitam compartilhar os resultados em diferentes contextos e assim apoiar a consolidação de movimentos e políticas”.

Portanto, com esta iniciativa piloto, espera-se melhorar o intercâmbio de experiências e conhecimentos sobre práticas agroecológicas locais, fortalecendo a Agroecologia na base e ao mesmo tempo vislumbrar um horizonte onde ela seja política e socialmente assumida como uma abordagem para o enfrentamento às crises emergentes.

Cepagro vai a El Salvador debater construção de indicadores para a Agroecologia

Bem estar social, respeito às relações de trabalho e de gênero, sustentabilidade financeira e ambiental. A Agroecologia traz consigo esses e outros  princípios e, por esse motivo, medir o seu avanço não é tarefa fácil. E foi com o objetivo de pensar soluções coletivas para esse desafio que a Vice-Presidenta do Cepagro Erika Sagae e a técnica de campo Isadora Escosteguy estiveram em El Salvador reunidas com representantes da Universidade de British Columbia (Canadá), da Fundação Inter Americana (IAF) e de outras seis organizações que promovem a Agroecologia no Paraguay, Equador, México, Brasil, Honduras e El Salvador.

A reunião aconteceu no dia 14 de janeiro, na capital San Salvador e foi a segunda oficina de indicadores facilitada pela professora canadense Hannah Wittman, da UBC, com as organizações que compõem o Comitê Gestor do projeto Saberes na Prática em Rede, apoiado pela IAF. Uma primeira conversa presencial já havia sido realizada em 2018, em Florianópolis, quando Hannah fez um levantamento dos tipos de indicadores – Econômicos, Sociais e Ambientais – que as organizações consideravam mais importantes.

De lá pra cá houve muito diálogo e o desenvolvimento de um aplicativo para tornar possível a coleta de informações que visam medir os mais diversos indicadores que abrangem o que chamamos de Agroecologia. “O desafio é criar um modelo para avaliar todos os âmbitos da Agroecologia, que é uma ciência, é um modelo de produção de alimentos e é um movimento social”, como afirmou Hannah, que trabalhará na sistematização dos dados junto aos pesquisadores e pesquisadoras na UBC.

Hannah deu início à atividade explicando o contexto em que o aplicativo, batizado de LiteFarm, foi desenvolvido e questionou: “Como a revolução digital serve para a soberania alimentar?”.

Para as organizações presentes, o aplicativo, ainda em fase de aprimoramento e testes, e os dados que poderão ser gerados serão importantes para mensurar o impacto social que a Agroecologia vem proporcionando, para contribuir na comercialização, para incidir em políticas públicas e pensar em programas e projetos. Também para responder questionamentos e convencer as pessoas dos benefícios da Agroecologia, além de compreender onde ainda é preciso avançar.

Para Victor Hugo Morales, do Centro Campesino de Desarollo Sustentable (México), os indicadores também serão importantes no trabalho de extensão rural junto a agricultores em transição agroecológica. “Quando o agrônomo chegar, ele vai poder dizer que no primeiro ano não vai haver o mesmo rendimento de antes, mas que a partir do segundo ano sim. Vai conseguir mostrar que há melhoria na qualidade de vida com evidências científicas, vai mostrar que o agricultor vai precisar investir menos ao longo do tempo”, disse Victor.

Já Juan Ruiz, técnico da Fundesyram (El Salvador), trouxe um outro olhar: “Quando apresentamos projetos, alguns financiadores nos pedem por indicadores e as vezes esses dados nos faltam. Então os indicadores nos ajudariam na captação de projetos”.  Roberto Rodríguez, diretor da Fundesyram, acredita que o aplicativo pode ser um atrativo para os jovens do campo. “Em El Salvador vemos que os jovens estudaram mais que os pais e por isso estão mais abertos para uma agricultura mais saudável. Eles tentam uma vida melhor na cidade mas já não encontram e vêem na Agroecologia uma forma de vida mais saudável, um trabalho com melhores condições de vida. Vemos muito futuro nos jovens”, disse Roberto.

O objetivo a médio prazo é que aplicativo seja justamente uma ferramenta de uso dos/as próprios/as agricultores/as, onde eles/as possam alimentar e acompanhar os dados gerados por eles/as mesmos/as. Como bem apontou a professora Hannah, hoje, a captação de dados online serve principalmente às multinacionais. A fim de auxiliar as famílias no seu planejamento e gestão da propriedade, o LiteFarm irá na contramão disso.

Zia Mehrabi, pesquisador da UBC, também esteve presente na atividade e explicou que “a ideia é ter informações em nível local para depois levar à escala maior”. Zia explicou que para atender às diversidades de valores e culturas locais, o desenvolvimento do aplicativo partiu de uma pesquisa com 77 agricultores/as canadenses. No processo, foram realizadas três oficinas de design onde os/as agricultores/as desenharam soluções digitais que lhes seriam úteis.

A atividade em El Salvador junto às organizações latino americanas representou uma continuidade do desenvolvimento do aplicativo, que deve levar em conta a realidade dos países do Hemisfério Sul. O acesso à internet, por exemplo, é um dos aspecto ainda muito desiguais à nível global. A fim de debater e aprofundar outros pontos que ainda precisam ser melhor trabalhados no aplicativo, os representantes dos cinco países se dividiram em grupos de trabalho. Alguns dos levantamentos apontados pelo coletivo foram a necessidade de incluir indicadores de gênero, de trocas não monetárias dos alimentos e de saberes ancestrais.

A construção dos indicadores de Agroecologia foi um dos temas incorporados no projeto do Cepagro apoiado pela IAF. Ao longo dos próximos meses, os técnicos de campo do Cepagro, Chales Lamb e Isadora Escosteguy, irão utilizar o aplicativo junto a 15 famílias da região de abrangência do Cepagro, testando-o em campo e já alimentando a base de dados. Erika Sagae, coordenadora do projeto Saberes na Prática em Rede, ressalta o interesse do Cepagro em seguir construindo os indicadores de Agroecologia para “fortalecer e demonstrar os avanços que a Agroecologia vem tendo, com o apoio inclusive dessas organizações de cooperação que vem apostando no tema da Agroecologia no Brasil e também perceber as questões que precisam ser melhoradas”.

Ao longo do  projeto, ainda serão realizados outros momentos presenciais de aprendizado, buscando construir avanços na pesquisa de indicadores que fortalecerão o papel da Agroecologia tanto na academia quanto na construção de políticas públicas de apoio a esta ciência, prática e movimento.