Arquivo da tag: IAF

Cepagro recebe delegação latino-americana para debater Sistemas Participativos de Garantia (SPG)

Representantes de organizações do México, Paraguay, Perú, Bolívia, Guatemala, Equador, El Salvador e Colômbia e de mais 6 estados brasileiros estarão em Florianópolis para participar da I Vivência em Sistemas Participativos de Garantia que o Cepagro promove de 21 a 26 de setembro. A atividade tem o objetivo de compartilhar experiências diversas em certificação participativa e SPG, estimulando a troca de conhecimentos sobre estratégias de produção, articulação de famílias e comercialização entre organizações brasileiras e de outros países latino-americanos. A Vivência faz parte do projeto Saberes na Prática em Rede, que tem apoio da Inter-American Foundation.

Basicamente, a certificação participativa num SPG é realizada pelos/as próprios/as agricultores/as. No Brasil, ela tem a mesma legitimidade que a certificação realizada por empresas de auditoria. Um dos principais SPGs brasileiros é o da Rede Ecovida de Agroecologia, que reúne mais de 4 mil famílias de agricultores agroecológicos do Sul do Brasil e inspirou outros sistemas no Brasil e na América Latina.

A programação da Vivência terá momentos abertos ao público, como o debate Certificação Participativa Orgânica: conexões latino-americanas, que acontece na 2ª feira, 24 de setembro, das 14h às 18h no Centro de Ciências Agrárias da UFSC. Na mesa de discussões, estão representantes do Ministério da Agricultura, dos Fóruns Brasileiro e Latinoamericano de SPGs, além de organizações do Paraguay, México e também da Rede Ecovida de Agroecologia. A participação no debate é aberta e gratuita. Para inscrições, clique aqui.

 

Anúncios

Lutas das mulheres e de Povos e Comunidades Tradicionais dão o tom do Encontro de Donatários da IAF no Brasil

O capricho da bolsa de algodão agroecológico produzida pelas mulheres do Quilombo Gurutuba, no Norte de Minas Gerais, distribuída aos participantes do Encontro de Donatários Brasil da IAF, refletia o cuidado e a atenção com que a equipe do Centro de Agricultura Alternativa do Norte de Minas (CAA-NM) organizou o evento, realizado em Montes Claros de 6 a 10 de março. Com foco na temática de Gênero e fomentando a participação de representantes de Povos e Comunidades Tradicionais – indígenas, quilombolas, extrativistas -, o Encontro reuniu cerca de 60 pessoas de 14 estados do Brasil onde a Fundação Inter-Americana (IAF) apoia projetos de desenvolvimento local. O Cepagro esteve presente no evento trocando experiências e também facilitando uma roda de conversa sobre Sistemas Participativos de Garantia (SPG).

A coincidência da data com a Semana da Mulher – em que pautas como violência e igualdade de gênero vêm mais à tona – ressaltou a importância de projetos que promovem a inclusão e o protagonismo de mulheres na parte produtiva, no associativismo, na organização social e na comercialização, como afirma David Ivan Fleischer, representante da IAF no Brasil: “Frente aos crescentes índices de violência contra a mulher e à estagnação dos indicadores de exclusão social delas no Brasil, a gente tem buscado aumentar o número desses projetos para promover mais igualdade entre homens e mulheres”.

A Marcha das Mulheres de Montes Claros entrou na programação do Encontro.

Mais do que apresentar e conhecer experiências, o Encontro também dedicou parte de sua programação à análise de conjuntura e ao debate teórico com enfoque de Gênero. A abertura do evento, por exemplo, foi dedicada à análise do atual contexto sociopolitico do Brasil e seus impactos nas organizações sociais e na participação feminina a partir da análise ou da trajetória de cinco mulheres: Marilene Alves de Souza (CAA), Cláudia Luz (professora da UNIMONTES), Brígida Salgado (da COOPERBIO), Maria de Lourdes Gomes de Lima (CENEP-PB) e Tereza Felipe da Costa, do Movimento Nacional de Catadores de Materiais Recicláveis.

Com diferentes linguagens e baseadas em suas experiências de vida únicas, todas abordaram o tema do atual desmonte de políticas públicas em curso no Brasil, ressaltando a importância da retomar a mobilização social e a participação política da sociedade organizada.

Leninha, do CAA-NM, demonstrou como as organizações da sociedade civil cresceram durante os governos de centro-esquerda com recursos governamentais, através de chamadas e editais públicos. Com a diminuição dessas fontes de financiamento e a saída de muitas cooperações internacionais do país, as organizações têm-se voltado para estratégias em níveis municipais e estaduais, além de estabelecer alianças entre países latino-americanos. “Além disso, não podemos perder a indignação nem a autonomia”, completa.

“Vamos ter que começar tudo de novo, encontrar novas formas de luta para que as próximas gerações possam viver num país democrático”, disse Maria de Lourdes, formada em História e que lutou por décadas pelos direitos políticos de mulheres em sindicatos e outras organizações na Paraíba. Aos 83 anos, Tereza Felipe da Costa faz outro chamado importante: que a juventude se empodere da política. “Não podemos deixar o país nas mãos da 3ª idade”, completou a líder comunitária da Zona Leste de São Paulo.

Tereza Felipe da Costa: “Que golpe é esse? Todos somos responsáveis por ele. Podemos escolher lutar contra. As únicas coisas que não pude escolher na vida foram: nascer mullher, negra e no Brasil.”

Do debate e da troca de experiências para a prática, o segundo dia do Encontro foi dedicado a visitas de campo: nas agroindústrias de processamento de polpas de frutas e de buriti da Cooperativa Grande Sertão e à Área de Experimentação e Formação em Agroecologia do CCA-NM. Fundada em 2003 através de articulação do CAA-NM com um coletivo que se organizava desde 1994, a Cooperativa de Agricultores Familiares e Agroextrativistas Grande teve apoio da IAF para trabalhar o beneficiamento e processamento de frutas nativas. Em 2012, com financiamento do BNDES – o primeiro para empreendimento de agricultura familiar no Brasil – a Cooperativa fundou a planta de processamento de óleos vegetais, cujo carro-chefe é o de buriti. “Inicialmente o financiamento era para produção de biodiesel. Mas então pensamos: por que nao produzir óleo para um alimento diferenciado, ao invés de biodiesel?”, conta José Fábio Soares, agricultor e um dos diretores da Cooperativa.

Atualmente, a cadeia produtiva do buriti articulada pela Cooperativa Grande Sertão envolve cerca de 600 famílias de 10 municípios do Norte de Minas. As famílias cooperadas receberam capacitação para beneficiamento do fruto e fornecem a raspa – matéria-prima para extração do óleo – para a Cooperativa. A empresa de cosméticos Natura é um dos principais parceiros comerciais da Cooperativa. Do buriti, tudo se aproveita: a casca vira ração para os animais e da torta da raspa produz-se farinha.

No caso das frutas nativas, 200 famílias de 26 municípios do Norte de Minas fornecem as colheitas de seus quintais para a Cooperativa Grande Sertão. Nas 8 agroindústrias da Cooperativa são processadas cerca de 250 toneladas de frutas por ano, resultando em 17 sabores de polpas agroecológicas, cujo principal mercado é o Programa Nacional de Alimentação Escolar. A lógica das famílias cooperadas, entretanto, é priorizar a Segurança Alimentar: “Primeiro encher nossas barrigas, depois vender o excedente”, explica Aparecido Alves de Souza, da diretoria da cooperativa. A organização de uma OPAC para certificação das frutas nativas e das polpas é um dos próximos passos da Cooperativa e do CAA.

Na AEFA – que “não é do CAA, é dos agricultores e agricultoras”, como explicou Neucy Fagundes, da equipe técnica da organização – são cultivadas e estudadas mais de 600 espécies de plantas medicinais, além de 16 variedades de milho crioulo (estudo feito em parceria com a EMBRAPA, EMATER e UFMG). A unidade conta também com uma planta de beneficiamento de polpa de frutas e com um banco de sementes crioulas, guardando variedades de feijão, milho, sorgo, amendoim, girassol e favas. “Temos muito cuidado para saber de onde vem as sementes, para evitar contaminações”, explica Antônia Antunes da Silva Reis, secretária-executiva do CAA e moradora do  Quilombo Gurutuba. Além do risco de contaminação por transgênicos, outro desafio enfrentado para preservação das sementes são as mudanças climáticas: nos últimos 5 anos, as alteraçoes no regime das chuvas “faz o agricultor perder o tempo das sementes”, conta Antônia.

Outro momento intenso de trocas de experiências foi na oficina com o mestre de plantas medicinais Honório Dourado, que também integra a diretoria do CAA.

A participação de um grupo de jovens Xakriabá trouxe uma energia especial para a visita. Além de compartilharem seus cantos e danças, as/os jovens fizeram também uma roda de conversa com as/os participantes do Encontro, contando sobre sua luta em defesa de seu território e modos de vida. A população Xakriabá soma cerca de 11 mil pessoas no Norte de Minas Gerais.

 

As jovens lideranças Xakriabá compartilharam toda sua força e energia para seguir na luta pela defesa de seus territórios e modos de vida.

Coisas de mulher, coisas de homem: conversas e oficinas

Com a proposta de introduzir a discussão conceitual sobre relações de gênero, a professora do Curso de História da UNIMONTES Cláudia Maia foi convidada para facilitar uma oficina sobre o tema. Através de dinâmicas e uma apresentação dialogada, a professora construiu com as/os participantes o entendimento de que ser “mulher” ou “homem” – e os comportamentos e características atribuídos a esses sujeitos – é muito mais uma construção cultural e social do que condições naturais. Além disso, ela também explicou a importância de se considerar variáveis como classe social e etnia junto com a de gênero – se as mulheres são discriminadas, por exemplo, as brancas ainda são menos do que as negras. Quanto aos projetos voltados a mulheres, ela chama atenção para relações de poder baseadas no gênero que ainda atribuem o trabalho doméstico às responsabilidade femininas – logo, é preciso transformar essas relações também para não gerar mais sobrecarga para as mulheres. “Trabalhar na perspectiva de Gênero não significa só incluir mulheres em outras dinâmicas produtivas, mas transformar relações de poder”, explica a professora.

Neste sentido, iniciativas como a Campanha pela Divisão Justa do Trabalho colaboram para superar o desafio de conciliar a participação social e a geração de renda entre mulheres com outros afazeres historicamente considerados “femininos”. Essa foi uma das considerações das oficinas sobre ORGANIZAÇÃO SOCIAL COM ENFOQUE DE GÊNERO, uma das temáticas trabalhadas durante o encontro. As outras foram: Mobilização da Juventude e Produção e Comercialização.

 

Cepagro media troca de experiências sobre SPG

Fechando o Encontro, Charles Lamb e Erika Sagae, da equipe técnica do Cepagro, facilitaram uma oficina sobre Sistemas Participativos de Garantia (SPG). Após uma exposição inicial sobre o histórico dos SPGs e as dinâmicas de funcionamento da Rede Ecovida de Agroecologia, foi aberto um espaço para que participantes de diferentes redes de certificação apresentassem um pouco de sua experiência. Gilmar Batista de Souza, da Cooperafloresta; Tânea Mara Follmann, do Núcleo Litoral Catarinense e Paula Cristina dos Santos dos Núcleos Alto Uruguai e Planalto RS da Rede Ecovida de Agroecologia, e Tiago Tombini da Silveira, da Rede Povos da Mata, falaram sobre os desafios e aprendizados de seus grupos nas dinâmicas do SPG, como a certificação de produtos do extrativismo, a lida burocrática e o fortalecimento dos mecanismos de controle social (reuniões e encontros).

ECOFEST Trujillo fortalece articulação latinoamericana pela Agroecologia

A marinera trujillana, bailado típico do norte do Peru, embelzou a abertura do ECOFEST. Foto: Cecília Saito (Comunicação – MINKA)

Realizado de 2 a 4 de fevereiro em Trujillo, no norte do Perú, o Festival Agroecológico Internacional ECOFEST foi promovido pela MINKA – organização parceira do Cepagro no Projeto SABERES NA PRÁTICA EM REDE – e reuniu mais de 200 pessoas, entre agricultoras e agricultores, estudantes, educadores, técnicos de campo, nutricionistas e donos de restaurantes. Além do Cepagro, foram convidadas também CETAP (Brasil), o Centro Campesino A. C. e Tijtoca Nemiliztli (México), Asociación de Productores Orgánicos (APRO – Paraguay) e  Fundesyram (El Salvador), todas participantes do projeto, que é apoiado pela IAF. “O grande objetivo do ECOFEST foi promover os produtos agroecológicos, para que as pessoas os conheçam. Tivemos bastante cobertura da imprensa, e certamente nossas demandas chegaram por aí às autoridades”, disse William Siapo, coordenador de projetos da MINKA. “Em Trujillo, com MINKA, cada vez mais produtores têm essa visão da agroecologia e estão trabalhando com outros para melhorar a qualidade de seus solos, água, ar, produzindo alimentos que fazem bem para suas próprias famílias e daqueles que os consomem”, explica Miriam Brandão, representante da IAF no Peru.

Charles Lamb, do CEPAGRO, na abertura do ECOFEST, junto com representantes do FUNDESYRAM, IAF e CENTRO CAMPESINO. Foto: Cecília Saito (Comunicação – MINKA)

Além de trazer mais visibilidade para a Agroecologia, o evento debateu questões como a certificação de alimentos agroecológicos, comercialização, as relações entre gastronomia e saúde e também abriu espaço para a Rede Ecovida de Agroecologia. O Cepagro esteve presente em todas as mesas, da abertura ao encerramento do evento.  Trazendo um panorama sobre a Agroecologia na América Latina, Charles Lamb, coordenador do projeto SABERES NA PRÁTICA EM REDE, ressaltou que a Agroecologia é mais do que um modo de produção de alimentos limpos, mas é um sistema de promoção da vida, em contraposição aos impactos socioambientais negativos da agricultura chamada convencional. Trouxe também dados da FAO que apontam a Agroecologia como alternativa de desenvolvimento sustentável e primordial para a segurança alimentar na América Latina.

No segundo dia, a vice-presidente do Cepagro, Erika Sagae, abriu o painel sobre “Comercialização de Produtos Agroecológicos”, enfatizando a diversificação de estratégias como primordial para a comercialização na Agroecologia. Circuitos curtos, mercados institucionais e feiras foram alguns dos exemplos citados. A nutricionista Cintia Gris, da equipe técnica do CETAP, também participou do debate, trazendo exemplos de grupos de consumidores e feiras agroecológicas articuladas pela organização. “As feiras são mais do que espaços de comercialização, ali também acontecem ricas trocas de experiências e receitas”, disse. Para Victor Hugo Morales, do Centro Campesino de Desarollo Sostenible (México), o envolvimento de consumidores é fundamental para a valorização dos alimentos agroecológicos, que quase sempre têm um preço diferenciado. “As pessoas ainda veem só o preço, e não o valor”, avalia William Siapo, da MINKA. Para Genaro Ferreira Piris, da Asociación de Productores Orgânicos do Paraguay, é importante associar agroindústrias às produção de alimentos agroecológicos, para se ter um aproveitamento integral das colheitas. Durante o painel, a articulação de pequenas células de consumidores foi uma das estratégias apontadas para criar mais conscientização sobre os alimentos agroecológicos, sua valorização, além de envolver consumidores/as no movimento agroecológico. Fechando a programação do dia, as/os participantes conheceram a BioFeira Punto Verde de Huanchaco, articulada pela Minka Verde, e um dos pontos de comercialização da Frutas Selectas, que recebe a produção de diversas famílias de agricultores agroecológicos assessoradas pela MINKA.

Visita à Red de Productores Campiña de la Merced.

A organização MINKA – palavra quechua para falar de “trabalho coletivo” –  presta assessoria em produção agroecológica e articula a comercialização de cerca de 130 famílias de agricultores e agricultoras na região do Valle de Santa Catalina, próximo a Trujillo.

Insumos produzidos pela Red de Productores Campiña de la Merced

Na visitas de campo, as/os participantes do ECOFEST puderam conhecer algumas dessas experiências, tanto em estruturas de produção agroecológica quanto pontos de comercialização. A primeira parada foi na Red de Productores Campiña de la Merced, que produz insumos orgânicos como bokashi líquido e calda bordalesa. Os insumos são fornecidos para produtores de frutas orgânicas, por sua vez comercializadas através do projeto Minka Verde, apoiado pela Inter-American Foundation.

Uma das agricultoras mais interessadas na visita era Ferlinda Isabel Sánchez Córdoba (em pé, foto ao lado), que veio da província de Cajamarca, a 300km de Trujillo, para participar do evento. Ela também é assessorada pela MINKA “para tudo que seja cultivos alternativos, ecológicos. Nas capacitações, aprendemos a usar insumos naturais e também sobre irrigação”, explica Ferlinda, que além de criar animais, cultiva trigo, milho, batatas, grãos e árvores frutíferas, tudo numa propriedade de 3 hectares. Demonstrando muita identidade agroecológica, Ferlinda se denomina “todista”: “porque eu semeio de tudo. Assim, se não me vai bem em alguma safra, tenho de onde tirar minha renda por outro lado. E minha alimentação está assegurada”, afirma a agricultora. “Antes eu trabalhava para outras pessoas, na colheita do milho, por exemplo. Agora, na Agroecologia, eu tenho trabalho na minha própria casa. Não preciso mais trabalhar para os outros”, completa.

Na segunda visita, o público conheceu a produção de morangos e verduras orgânicos na região de Menocucho, próximo a Trujillo. A Asociación de Freseros de Menocucho reúne 12 famílias e comercializa cerca de 400kg de morangos por semana, também articulada pela Minka Verde. O agricultor José Luiz Chavez (foto ao lado) conta que “Minka nos ajuda a ter um mercado estável”. Sobre a produção agroecológica, ele afirma que “ao combater insetos e outros bichinhos, só aumenta a necessidade de uso de mais inseticidas. Na agricultura orgânica, o próprio ecossistema se equilibra. A natureza trabalha junto com o agricultor”. O processo de transição, contudo, não é fácil: José Luiz explica que só depois da 3ª safra é o ecossistema atingiu um equilíbrio razoável para ter uma boa produção. Na propriedade da família de José Luiz também são produzidas mudas de tomate, alface e outras verduras.

 

 

 

 

 

Certificação gera grande interesse no público
Com uma apresentação inicial de Claudete Ponath, agricultora do Núcleo Litoral Catarinense da Rede Ecovida de Agroecologia, a Certificação de Alimentos Orgânicos – especialmente no Sistema Participativo – foi debatida no primeiro dia de programação ECOFEST. Claudete trouxe um histórico da certificação no Brasil, enfocando nos princípios do sistema participativo (como participação e confiança) e falou também sobre a dinâmica do SPG da Rede Ecovida de Agroecologia, enfatizando os mercados locais e a mobilização social. Dentre os desafios apontados ao longo da discussão, a contaminação das propriedades agroecológicas por resíduos de agrotóxicos foi um dos principais. Participaram no debate Genaro Ferreira Piris, da Asociación de Produtores Orgánicos de Paraguay; Fernando George Pluma, da Tijtoca Nemiliztli A. C. – TNAC “Sembramos Vida” (México) e Salvador Sanchez da Asociación Regional de Produtores Ecológico de La Libertad (ARPELL). Tanto APRO quanto TIJTOCA inspiraram-se na Rede Ecovida de Agroecologia para desenvolverem seus SPGs. “Buscamos esta construção para atender à demanda de uma certificação que estivesse ao alcance dos pequenos agricultores”, disse Genaro.

Educação agroecológica e Políticas Públicas para Agroecologia: demandas do ECOFEST TRUJILLO

Durante o evento, a ausência de representantes do Poder Público foi sentida e apontada em diversos momentos. Ao mesmo tempo, foram apresentadas experiências que demonstram a importância de políticas públicas para o desenvolvimento da agricultura familiar, agroecológica e de pequena escala, como é o caso do Brasil. Neste sentido, reforça-se a demanda pela construção de políticas públicas de apoio à produção e comercialização de alimentos orgânicos e agroecológicos. Também convidou-se o público a contribuir na construção do Consejo Regional de Produtores Orgânicos de a Libertad junto à Gerência Regional de Agricultura, assim como a pressionar as autoridades para que efetivem a doação de um espaço para o Centro Educativo de Agricultura Orgânica. A partir da experiência brasileira, percebemos a importância da participação da sociedade civil em espaços de controle social, como os conselhos, para incidir na construção de políticas públicas.

A demanda por uma perspectiva agroecológica na Educação – tanto de agricultores para a adoção de práticas de manejo agroecológicas como de consumidores/as para priorização de uma alimentação saudável – foi apontada em vários painéis. Como estratégias, foram citadas a implantação de hortas escolares e comunitárias, além do trabalho direto com consumidores/as através de campanhas e também em feiras, assim como a instalação de “puntos verdes” de alimentos saudáveis nas escolas.

 

Cepagro participa de Festival Agroecológico no Peru

De 2 a 4 de fevereiro, membros da equipe Cepagro participam do ECOFEST TRUJILLO, festival agroecológico internacional promovido pela organização MINKA PERÚ, parceira no Projeto Saberes na Prática em Rede. O evento reúne em Trujillo, no norte peruano, representantes de organizações e especialistas em Agroecologia e Alimentação Saudável do Brasil, México, Paraguay, El Salvador, Colômbia e Equador, além dos anfitriões e membros da IAF, que apoia a maioria das organizações presentes.

Na abertura do evento, na próxima sexta (2 de fevereiro), o coordenador de Desenvolvimento Rural Sustentável do Cepagro, Charles Lamb, abordará o tema AGROECOLOGIA NA AMÉRICA LATINA. No sábado, 3 de fevereiro, a vice-presidenta do Cepagro, Erika Sagae, falará sobre COMERCIALIZAÇÃO DE ALIMENTOS AGROECOLÓGICOS. Estarão presentes nas mesas as organizações: Centro Campesino de Desarollo Sostenible (México), APROFUNDESYRAM e CETAP,  parcerias do Cepagro no projeto SABERES NA PRÁTICA EM REDE.

Acompanhe a cobertura no blog e na fanpage do Cepagro.

Festival SANTA CATARINA AGROECOLÓGICA destaca a atuação das mulheres na Agroecologia

A agricultora Adélia Schmitz, liderança do Movimento de Mulheres Camponesas, fala durante o Seminário MULHERES E AGROECOLOGIA.

texto e fotos: Comunicação Cepagro

Na manhã daquela 5ª feira, 5 de outubro, a 39º Oktoberfest de Itapiranga estava nos seus últimos preparativos na Linha Presidente Becker quando a agricultora Adélia Schmitz, de 69 anos, saiu da comunidade do interior de Itapiranga (SC) rumo a Chapecó. Chegando à “capital do Oeste catarinense”, Adélia dormiu no Centro de Formação do Movimento de Mulheres Camponesas – em que ela é liderança desde 1991 – para acordar às 3h da manhã e encontrar com as companheiras agricultoras Lourdes Bodaneze e Rosalina da Silva, para juntas pegarem um voo a Florianópolis. Às 10h da manhã da sexta-feira, 6 de outubro, Adélia abria o Seminário “Mulheres e Agroecologia”, promovido pelo Cepagro no Auditório da Epagri, como parte da programação do Festival SANTA CATARINA Agroecológica.

Realizado de 6 a 8 de outubro em Florianópolis, com patrocínio da Fundação Banco do Brasil, o Festival reuniu cerca de 300 pessoas ao longo de 3 dias de programação: na continuação do Seminário, aconteceu o 11º Encontro do Núcleo Litoral Catarinense, no Espaço Pergalê, um sítio urbano no Norte da Ilha. Nas palestras, oficinas e na Feira de Sementes, Saberes e Sabores do Encontro, o protagonismo continuou sendo das mulheres. “O Festival teve o objetivo de promover e valorizar a Agroecologia em Santa Catarina, principalmente na região do Litoral, com destaque para o papel da mulher no seu desenvolvimento”, explica a agrônoma Gisa Garcia, da equipe técnica no Cepagro que organizou o evento.

O Festival começou com a recepção dxs participantes do Seminário na FEIRA ORGÂNICA CCA, realizada toda 6ª feira no Centro de Ciências Agrárias da UFSC.

POR QUE “SEM FEMINISMO, NÃO HÁ AGROECOLOGIA”?

Da esquerda para direita: Adélia Schmitz (MMC), Beth Cardoso (CTA-ZM / ANA), Ana Meirelles (Rede Ecovida de Agroecologia, mediadora), Diva Vani Deitos (APACO) e Cátia Cristina Rommel (Rede Ecovida de Agroecologia): força feminina discutindo “Por que ‘Sem Feminismo, não há Agroecologia’?”.

Abrindo o Seminário, junto com as agricultoras Diva Vani Deitos e Cátia Cristina Rommel, da Rede Ecovida de Agroecologia, e de Elizabeth Cardoso, representando o GT Mulheres da Articulação Nacional de Agroecologia, Adélia discute a questão Por que ‘Sem Feminismo, não há Agroecologia?’: “A Agroecologia e o Feminismo são pontos que se ligam pela transformação da sociedade. A Agroecologia, pelo lado da produção; o Feminismo, pelas relações pessoais”, afirma a camponesa.

“A Agroecologia e o Feminismo são pontos que se ligam pela transformação da sociedade. A Agroecologia, pelo lado da produção; o Feminismo, pelas relações pessoais”, afirma Adélia Schmitz.

Se a base da Agroecologia é a Agricultura Familiar, explica Elizabeth Cardoso, do Centro de Tecnologias Alternativas da Zona da Mata e da Articulação Nacional de Agroecologia, “e a gente sabe, as mulheres sabem, que a família é aonde começam os conflitos: de gênero, de geração… Então a gente precisa também dar apoio para as mulheres. Abrir espaços pras mulheres, dar visibilidade, pras mulheres terem autonomia pra decidirem o que querem plantar e aonde”. Isso porque muitas vezes a titularidade da propriedade, a Declaração de Aptidão ao PRONAF e outros documentos da família agricultora estão no nome do marido, restringindo as vozes e decisões das mulheres.

Os quintais produtivos – áreas próximas às casas onde são cultivados alimentos para o autoconsumo familiar – são frequentemente os únicos espaços onde as mulheres conseguem exercer sua autonomia e protagonismo agroecológico. Sua produção, contudo, quase sempre é subestimada, considerada “miudeza” – assim como o trabalho das mulheres é “ajuda”. Para dar mais visibilidade a essa produção e auxiliar as mulheres nessa administração, o CTA-ZM criou, após a Marcha das Margaridas de 2015, a Caderneta Agroecológica, em que são registrados consumo, da troca, da venda e da doação do que é cultivado nos quintais produtivos. Sistematizando os dados registrados nessas cadernetas, a equipe do CTA-ZM identificou que os quintais são os espaços mais biodiversos das propriedades. Além disso, as “miudezas” de 1 hectare de quintal geram a mesma renda do que 3 hectares cultivados com café – cultura tradicional em Minas Gerais. Neste sentido, de acordo com Beth Cardoso, é fundamental que os quintais sejam objeto de políticas públicas também.

Beth Cardoso, do CTA-ZM e Articulação Nacional de Agroecologia: “A gente quer a Agroecologia para o mundo. Pra isso acontecer, tem que dar poder também para as mulheres”.

Apesar de alguns avanços em políticas públicas para mulheres agricultoras, elas ainda encontram vários entraves para acessar programas como o PRONAF ou mesmo para vender seus produtos. Como afirma Diva Vani Deitos, agricultora e coordenadora da Associação de Pequenos Agricultores do Oeste Catarinense (APACO): “Quando a gente fala das nossas miudezas, das nossas propostas de produção, esbarramos nos grandes, que é a questão da legislação. A legislação no nosso meio veio pro extermínio da produção que as mulheres ainda tinham nas mãos”. Para Diva, as restrições sanitárias às agroindústrias caseiras dos chamados “produtos coloniais” – como salames e queijos – afetam primeiramente as mulheres. “Antes, nós colocávamos o queijo na sacola e vendia, agora temos que sair escondidas pra vender. O queijo tá na mão delas, o dinheiro vinha na mão delas. Aí veio o sistema de integração, que na verdade é exclusão – principalmente das mulheres e dos jovens. Não permite mais mulheres ter acesso a seu próprio dinheiro, pois o contrato quase sempre está no nome do marido”, afirma a agricultora.

Diva Vani Deitos, da Associação dos Pequenos Agricultores do Oeste Catarinense (APACO): “Nós, mulheres, temos uma semente dentro de nós, que é a da resistência”.

“O feminismo é necessário por isso. Para termos igualdade de direitos”, enfatiza a agricultora e agrônoma Cátia Cristina Rommel, do grupo Germin’Ação da Rede Ecovida de Agrocologia.  Compartilhando com a plateia do seminário diversas histórias de sutis discriminações que ela já enfrentou por ser mulher mantendo um sítio em Anitápolis (SC) – ter que explicar para um vendedor que pode sim usar uma tobata, por exemplo – ela afirma que “Feminismo se trata da luta por direitos, equidade de direitos. Não é homem contra mulher, alguém ser mais ou menos do que o outro”. E vai além: “O feminismo não é contra os homens. Se vocês não são machistas, não se sintam afetados pelo feminismo. Juntem-se!”. Adélia Schmitz, do MMC, faz coro: “Se você tem a capacidade de se indignar com um sistema que é injusto, então você também é feminista”.

Cátia Cristina Rommel, agricultora do grupo Germin’Ação da Rede Ecovida de Agroecologia: “As capacidades não são dos gêneros. São dos seres humanos. Não importa se é homem, mulher ou qualquer outra identidade. Ou sem identificação de gênero. A gente encontra capacidades. A gente pede ajuda. Pra um homem, por que não? Ou pra uma mulher. Mas tanto faz”.

POLÍTICAS PÚBLICAS PARA MULHERES AGRICULTORAS: ENTRE AVANÇOS E RETROCESSOS

Legislação para agroindústrias, acesso ao PRONAF, aos programas de compras institucionais, à saúde, à assistência em casos de violência: entre avanços e retrocessos, as políticas públicas para mulheres agricultoras foram outro ponto de discussão durante o Seminário. Além de Beth Cardoso, no painel também participaram a agricultora Rosalina da Silva, do Movimento de Mulheres Camponesas, e a doutoranda em Ciências Humanas Marie Leal Lonzano, do Instituto de Estudos de Gênero da Universidade Federal de Santa Catarina. Na abertura do Painel, Marie lembra que “se políticas públicas para mulheres são algo recente no Brasil, para mulheres rurais são ainda mais”. O marco inicial neste campo é a Constituição de 1988, a primeira a reconhecer as mulheres como trabalhadoras rurais.

De acordo com a pesquisadora, foi com os governos de centro-esquerda de Lula e Dilma Rousseff que tais políticas avançaram um pouco mais, com a criação da Secretaria de Políticas para Mulheres (SPM) e de programas como o PRONAF Mulher e o ATER Mulheres. “Mas só a existência dessas políticas não garante sua efetividade. É preciso que elas tenham continuidade”, afirma a pesquisadora. Neste sentido, tanto Beth Cardoso quanto Rosalina trouxeram dados sobre a diminuição de recursos para programas voltados às mulheres. “Temos que continuar na luta e nos organizando”, avalia Beth Cardoso.

Participando do Movimento de Mulheres Camponesas desde sua fundação, a agricultora Rosalina da Silva é conhecida como a “bruxinha do MMC”, graças à sua dedicação e sabedoria no trato com plantas medicinais. O trabalho coletivo que ela fundou em Chapecó para trabalhar com esta temática – a Associação Pitanga Rosa – foi finalista do Prêmio Mulheres Rurais que produzem o Brasil Sustentável, da antiga Secretaria Nacional de Políticas para as Mulheres. Durante o Festival, Rosalina compartilhou um pouco desses saberes e histórias de luta e cuidado pela terra..

RESISTÊNCIA FEMININA E AGROECOLÓGICA

Painel “Experiências de Protagonismo e Empoderamento Feminino na Agroecologia” reuniu agricultoras e técnicas dos 3 estados do sul do Brasil e também de El Salvador, com a mediação de Tânea Mara Follmann, agricultora e coordenadora do Núcleo Litoral Catarinense da Rede Ecovida de Agroecologia.

Se o cenário atual das políticas públicas é temeroso, a resistência feminina mantém viva a agroecologia no campo e na cidade. Durante o painel “Experiências de empoderamento e protagonismo feminino na agroecologia”, agricultoras – rurais e urbanas – e técnicas de organizações dos três estados do Sul do Brasil e também de El Salvador relataram os desafios enfrentados e as conquistas alcançadas no trabalho com a terra.

Leonilda Boeing Baumann: de “mulher do professor” a agricultora agroecológica 

Antes conhecida como “a mulher do professor”, apesar de ter crescido e sempre trabalhado na roça, Leonilda agora maneja sozinha e autonomamente uma propriedade com certificação agroecológica em Santa Rosa de Lima (SC). A partir do contato com o projeto Acolhida na Colônia de agroturismo, Leonilda resgatou sua autoestima de ser agricultora. E, com a inserção na Rede Ecovida de Agroecologia, afirma: “Hoje, se tu tem um alimento limpo na tua propriedade pra servir pra tua família, aí está o teu remédio”. Sobre a atuação das mulheres na Agroecologia, afirma: “Falta sim união nossa, união das mulheres. Acho que as mulheres não devem deixar de ser mulher, vaidosa, é importante a gente se sentir bonita. Nosso papel de mulher é diferente do homem, é de ser cuidadora, espiritual. A gente coloca muito amor no que a gente faz”.

Ana Karolina da Conceição: resistência na Agroecologia Urbana

Liderança comunitária e mãe de dois filhos, Karol coordena, junto com Cíntia da Cruz, o Grupo da Revolução dos Baldinhos, projeto de Compostagem e Agricultura Urbana que desde 2008 vem fazendo a diferença na comunidade Chico Mendes, em Florianópolis. As mulheres são a maioria na Revolução, que, mesmo com vários revezes, vem mantendo o trabalho junto à população local que envolver a compostagem, distribuição de composto para hortas e jardins residenciais, brechó, recolhimento de óleo para produção de sabão e a realização de uma feira comunitária. “A resistência é das mulheres! No nosso projeto, A gente está começando a trabalhar as questões de gênero, pras pessoas se reconhecerem, que saiam de casa, que vão ao posto de saúde, que use os espaços”, afirma a agricultora urbana.

Maristela Ferro: vender e consumir são atos políticos

Moradora de São Domingos do Sul, na região de Passo Fundo (RS), Maristela veio ao Seminário junto com a equipe técnica do CETAP, organização que assessora seu grupo de agroecologia, a Associação Sagra Italiana. Reunindo unidades produtivas e agroindústrias, a Associação possui também um espaço de comercialização dos alimentos. Ali é um dos espaços onde Maristela exerce sua incidência política e agroecológica: “A questão mais política hoje para nós produtores é o trato com o consumidor. É a questão mais política que tem e é possível e está na nossa mão!”. Entre uma fala e outra, Maristela agraciou o público com várias canções, sendo que a última afirmava: “Na lei ou na marra, nós vamos ganhar!”.

Flor Quintanilla: trabalho de gênero em El Salvador

A engenheira agrônoma Flor Quintanilla é da equipe técnica do Fundesyram, organização de El Salvador que é parceira do Cepagro no projeto “Saberes na Prática em Rede”, viabilizado pela Fundação Inter-Americana (IAF). Durante o Seminário, falou sobre o trabalho na linha de gênero da organização, que envolve formações para as mulheres e também para os homens. “”Desde que a MULHER domesticou o milho, isso já era Agroecologia. Esquecemos disso pela Revolução Verde, mas trabalhamos pra resgatar esses valores ancestrais”, afirma.  Discussões sobre novas masculinidades, distribuição do trabalho doméstico e a importância de valorizar o autoconsumo na produção agroecológica são alguns dos pontos trabalhados. “Seria um grande erro somente produzir para vender, e não também para comer. Na produção agroecológica é o inverso, primeiro produzimos para comer depois vendemos”, explica.

Lourdes Bodaneze: “o milagre só vem do solo”

Dentro do Movimento de Mulheres Camponesas “há uns 25 anos”, a agricultora Lourdes Bodaneze cultiva um terreno urbano no município de Marema, no Oeste de Santa Catarina. Numa área de 9m x 20m, ela já chegou a ter, ao longo de um ano, quase 70 variedades de alimentos, sempre no manejo agroecológico. Além da produção, ela também beneficia e comercializa alguns dos alimentos.  A diversidade de espécies e sua dedicação são tamanhas que ela passou a ser uma guardiã de sementes crioulas no Movimento. “O milagre só vem do solo. Por isso, precisamos cuidar da mãe terra. A Natureza só nos devolve o que damos para ela. Se ela dá algo ruim, é porque algo está errado. A Natureza pode estar pedindo ajuda!”, afirma a agricultora, que também facilitou duas oficinas sobre Sementes Crioulas durante o Encontro do Núcleo Litoral Catarinense.

Jandira de Oliveira Lima: agroecologia para reencontrar as raízes

Como uma mulher guarani vivendo na cidade de Guarapuava (PR), distante de seu povo, não foram poucas as discriminações enfrentadas por Jandira de Oliveira Lima. O convivência entre brancos não a fez perder suas raízes e saberes. Dentro da Rede Solidária Popyguá, que reúne cerca de 40 famílias de 9 terras indígenas do Paraná e de Santa Catarina, Jandira utiliza seus saberes sobre plantas medicinais para produzir óleos essenciais, além de peças de artesanato com sementes. “Tirei tudo da terra e nunca usei veneno, e assim ensinamos nossas crianças”, afirma. A Rede é apoiada pela Organização Outro Olhar, que fomenta a agroecologia nas terras indígenas, muitas vezes degradadas pela agricultura convencional.

Anelise Becker: protagonismo feminino e juvenil

Filha de agricultores agroecológicos, Anelise cresceu participando de Encontros da Rede Ecovida de Agroecologia e militando na Pastoral da Juventude em Morrinhos do Sul, município da região de Torres (RS), pertencente ao Núcleo Litoral Solidário da Rede Ecovida de Agroecologia. “Em primeiro lugar, sou agricultora”, afirma Anelise, que também defendeu o mestrado em Desenvolvimento Rural na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Na sua pesquisa, identificou que a permanência de jovens e o protagonismo das mulheres é maior nas famílias ligadas à Agroecologia.  Ressalta, entretanto, que “por mais que se reconheça o protagonismo dos jovens dentro do movimento agroecológico, por causa do patriarcado isso ainda é um tabu dentro das famílias”.

Dirlei Conceição Luiz: união de mulheres transformando realidades

Moradora de Cerro Negro, um dos municípios com menor IDH de Santa Catarina, Dirlei é uma das lideranças da Associação das Mulheres do Cruzeirinho, que reúne 12 famílias desta comunidade. Com apoio do Centro Vianei de Educação Popular, as mulheres do Cruzeirinho acessaram uma linha de crédito para construir estufas de produção de hortaliças, que elas certificam através da Rede Ecovida e entregam na alimentação escolar do município. “Na nossa localidade, muitas mulheres não tem terreno para plantar, por isso para nós a Agroeocologia é um desafio. Mesmo assim, essas mulheres trabalham em uma horta comunitária, e todos os dias elas vão até essa horta e discutem os desafios enfrentados”, conta a agricultora.

MULHERES E JUVENTUDE PROTAGONIZAM ENCONTRO DO NÚCLEO LITORAL CATARINENSE

Ana Meirelles, Diva Vani Deitos, Tânea Mara Follman e Kathrine de Souza com a juventude agroecológica: as quatro falaram no painel de encerramento do Encontro.

Além das mais de 20 participantes de outros 4 núcleos da Rede Ecovida, do MMC e de organizações parceiras do Cepagro no projeto apoiado pela IAF, uma turma de 35 jovens mobilizados pelo Slow Food enriqueceu ainda mais a vivência do 11º Encontro do Núcleo Litoral Catarinense da Rede Ecovida de Agroecologia, continuação do Festival SANTA CATARINA AGROECOLÓGICA. Uma linda sessão de dança circular mediada pela companheira Magna Machado trouxe uma energia especial para o começo do encontro.

Assim como no Seminário, durante o Encontro o protagonismo continuou feminino: na palestra de abertura, Adélia Schmitz, do MMC, trouxe a mesma garra e disposição na defesa pela Agroecologia feminista compartilhada durante o Seminário, emocionando principalmente as agricultoras que a assistiam. “Me senti representada por ela”, afirmou Maria Silvestre, agricultora de Guaramirim (SC), integrante do Grupo Rio Cristina. A identificação entre as agricultoras não foi por acaso: assim como Adélia, Maria é uma liderança em sua comunidade, atuando no Sindicato dos Trabalhadores Rurais e na Pastoral da Saúde, além de outros espaços de incidência política do município. As duas também estiveram juntas na Marcha das Margaridas de 2015, em Brasília. “Eu acho que a gente como mulher e como mãe tem que participar desses espaços. Parar de reclamar e participar mais. Eu tenho que ir lá e mostrar o que eu quero para o município”, afirma Maria.

“Sair de casa”, contudo, ainda é um desafio para muitas mulheres do campo e também da cidade: “Nós fomos educadas para sermos boas mães, boas esposas, saber administrar bem uma casa e assim por diante. Então, a primeira dificuldade que a gente encontrou é a de ter a vontade de sair de casa”, explica Adélia Schmitz. Frente ao isolamento enfrentado por tantas mulheres rurais, a união com outras companheiras em redes e movimentos é fundamental para vencer as barreiras que as prendem nos papéis tradicionais associados às mulheres. Como afirma Ana Meirelles, do Núcleo Litoral Solidário da Rede Ecovida de Agroecologia: “Sempre lutamos para a mulher participar não só pra dentro da porteira, mas também para fora”. Rosalina da Silva, do MMC, completa: “Foi no movimento que descobri essa capacidade a gente tem de ser feminista e camponesa ao mesmo tempo, e trazer os companheiros pra ser feminista junto com a gente. Foi no movimento que a gente teve essa segurança de que era correto ir pra luta”.

As agricultoras Adélia Schmitz e Maria Silvestre, companheiras na luta pela agroecologia.

 

 

 

CRIANÇAS TAMBÉM TÊM O SEU ESPAÇO: NO ENCONTRINHO!

Uma equipe de Pedagogas do Núcleo de Desenvolvimento Infantil da UFSC e estudantes do CCA criaram momentos especiais para o futuro da Agroecologia.

 

 

O COLORIDO DA AGROECOLOGIA NA FEIRA DE SABERES, SABORES E SEMENTES 

INTERCÂMBIO ENTRE GRUPOS E NÚCLEOS DA REDE ECOVIDA
Treze grupos do Litoral Catarinense participaram deste Encontro, que contou também com a presença de representantes de outros 4 Núcleos da Rede do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina.

OFICINAS COM PARTICIPAÇÕES ESPECIAIS
Rosalina da Silva, a “bruxinha do MMC” canta, na abertura de sua oficina de Plantas Medicinais brindada durante o Encontro: “É em grupo, com as companheiras, que a bruxinha encontra forças pra lutar”. Além de Rosalina, Lourdes Bodaneze e Adélia Schmitz também facilitaram oficinas durante o Encontro, sobre Sementes Crioulas e Gênero e Agroecologia, respectivamente.

Oficina de Sementes Crioulas, com Lourdes Bodaneze

Oficina “Gênero e Agroecologia”

Outros temas abordados nas oficinas foram: Mudas e Estaquias, Calendário Biodinâmico, Economia Solidária (com o Instituto Nhandecy, de Curitiba), Comercialização, Agroflorestas, Meliponicultura, Compostagem e Agricultura Urbana (com a Revolução dos Baldinhos) e muitas outras. Confira a galeria de imagens!

Oficina AGROFLORESTAS
Oficina MUDAS E ESTAQUIAS
Oficina COGUMELOS
Oficina COGUMELOS

 

 

 

 

Oficina CALENDÁRIO BIODINÂMICO e PLANEJAMENTO DE PRODUÇÃO
Oficina DINÂMICAS DE COMERCIALIZAÇÃO NO NÚCLEO LITORAL CATARINENSE

Através do patrocínio da Fundação Banco do Brasil, o Cepagro adquiriu mais de 500 mudas de espécies nativas com a Associação de Preservação do Meio Ambiente e da Vida (APREMAVI), organização de Atalanta (SC). As mudas foram distribuídas gratuitamente aos participantes do Encontro.

 

Além de fortalecer as vozes da juventude, os jovens mobilizados pelo Slow Food também colaboraram na preparação dos cafés e lanches do domingo durante o Encontro do Núcleo Litoral Catarinense da Rede Ecovida.

Jovens de toda Santa Catarina participaram do Encontro, mobilizados pelo Slow Food, através da facilitadora Giselle Miotto

MESA FEMININA ENCERRA O ENCONTRO

Mantendo o protagonismo feminino do Festival, o painel de encerramento do Encontro do Núcleo Litoral Catarinense reuniu mulheres de 4 núcleos da Rede Ecovida de Agroecologia para debater “Origens e Presente do Sistema Participativo”. Lideranças históricas da Rede Ecovida como Diva Vani Deitos (Núcleo Oeste de SC) e Ana Meirelles (Núcleo Litoral Solidário) compartilharam a palavra com a atual coordenadora do Núcleo Litoral Catarinense, Tânea Mara Follmann, e a jovem agricultora Kathrine de Souza, do Núcleo Planalto Serrano.

 

 

Antes das doces despedidas – sobremesas preparadas com muito carinho pela equipe chefiada pela anfitriã, agricultora e cozinheira Sônia Jendiroba –, duas candidaturas foram apresentadas para receber o próximo Encontro do Núcleo: Biguaçu e Anitápolis. A confirmação será na próxima reunião do Núcleo, no início de novembro, em Major Gercino.

Pela vida da Terra, Agroecologia: a participação do Cepagro e organizações latino-americanas no X CBA

Clara Nichols, diretora da Sociedade Científica Latino-Americana de Agroecologia (SOCLA), discursa na abertura do X CBA.

Através do projeto Saberes na Prática em Rede, apoiado pela IAF, o Cepagro participou, junto com as organizações CETAP (RS), APA-TO (Tocantins), Campesino (México), APRO (Paraguay), Minka (Perú), Fundesyram (El Salvador), do X Congresso Brasileiro de Agroecologia, realizado em Brasília de 12 a 15 de setembro de 2017. Quase 5 mil pessoas participaram do evento, cuja próxima edição será em Sergipe. Clique aqui para ver a Carta do Cerrado resultante do evento.
Aprendizados e trocas de experiências marcaram a participação da comitiva no evento, além de uma reunião com coordenações de Agroecologia do Ministério da Agricultura e da Secretaria Especial da Agricultura Familiar e Desenvolvimento Agrário (SEAD). Durante o CBA, as organizações também construíram uma agenda de atividades conjuntas, sendo que o próximo encontro destas será em Trujillo (Perú), durante o Festival Agroecológico organizado por MINKA.

A conversa com as coordenações de Agroecologia do MAPA e da SEAD foi no dia 14 de setembro. Na esteira de um processo de negociação para equipar mecanismos de certificação de alimentos orgânicos entre Brasil e Chile, Virgínia Lira, coordenadora de Agroecologia e Produção Orgânica do MAPA, afirmou que “buscamos com esta conversa ter novas idéias para integrar as legislações dos países e facilitar a circulação de produtos orgânicos”. Participaram, além das organizações do projeto Saberes na Prática em Rede, representantes de Honduras e do Uruguay.

Pela vida da Terra, Agroecologia!
A 10ª edição do  CBA teve forte presença de movimentos sociais, que ocuparam o palco da abertura do evento.  Muito além de um nicho de mercado, reafirmou-se ali a Agroecologia como fundamental para a nossa saúde, bem viver e sobrevivência.

Cepagro e Fundesyram compartilham experiências em Agricultura Urbana
No primeiro dia de evento, os engenheiros agrônomos Karina de Lorenzi e Ícaro Pereira apresentaram o Ciclo de Oficinas Saber na Prática na Tenda de Conhecimentos. Mais de 2.600 trabalhos foram inscritos no Congresso.

Karina de Lorenzi também apresentou a metodologia de hortas pedagógicas do Cepagro numa roda de conversa sobre Agricultura Urbana durante CBA. Na mesma atividade, a socióloga Janaína Santos, da Associação de Apoio as Comunidades do Campo do Rio Grande do Norte, falou sobre a reaplicação da tecnologia social da Gestão Comunitária de Resíduos Orgânicos e Agricultura Urbana em Macaíba (RN), realizada ali pela Revolução dos Baldinhos e Cepagro com apoio da Fundação Banco do Brasil. No compartilhar de experiências também do RJ, MG e SP, enfatizou-se o caráter politico e de resistência que a ocupação de espaços urbanos com práticas agrícolas representa, juntamente com os benefícios ambientais e para a segurança alimentar das comunidades. Destacou-se também o protagonismo feminino nas experiências. Como disse Janaína Santos, “se sem Feminismo não há Agroecologia, parece que Agricultura Urbana também não”. 

 

A metodologia Cepagro de hortas pedagógicas também foi compartilhada com as organizações parceiras latino-americanas.

 

 

Israel Morales Ayala, da organização FUNDESYRAM, de El Salvador, também apresentou a experiência deles com hortas urbanas, escolares e terapêuticas. Um dos diferenciais do trabalho da FUNDESYRAM é a EXTENSÃO COMUNITÁRIA, em que cada família que recebe uma capacitação em agricultura urbana repassa estes conhecimentos a outros cinco vizinhos. 

Participaram da atividade coordenada pela professora Juliana Luiz coletivos de agricultura urbana da Argentina e de Minas Gerais, além do Ponto de Cultura Iacitata (PA) e a “madrinha do Coletivo Nacional de Agricultura Urbana” Maria Emília Pacheco, representando o Fórum Brasileiro de Segurança Alimentar e Nutricional. Ela afirmou que, além de ressignificar a cidade também como produtoras de vida e não só de resíduos, a Agricultura Urbana também movimenta o debate sobre direito à cidade.

Sem Feminismo, não há Agroecologia
O lema reafirmou-se em diversas rodas de conversa, painéis e até numa marcha durante o X CBA. Enquanto a expropriação violenta de territórios pelo agronegócio e projetos de “desenvolvimento” impactam primeiramente as mulheres, elas também são as mais resistentes a essas agressões. Neste sentido, reafirmou-se no primeiro dia do CBA: SEM FEMINISMO, NÃO HÁ AGROECOLOGIA. Na mesa que reuniu movimentos sociais, acadêmicas, agricultoras, estudantes e militantes, Michela Calaça, do MMC, denunciou o desmantelamento de políticas públicas voltadas às mulheres e o impacto negativo das Reformas do governo Temer para elas. Junto com ela, Maria Verônica Santana, do MMTR, ressaltou a importância da auto-organização das mulheres para enfrentar o machismo, o racismo e a violência patriarcal. Como disse a agricultora feminista e negra Luiza Cavalcante, da REGA, “um dia a roda grande vai passar por dentro da roda pequena. E a roda grande é a força das mulheres unidas”. Na sala que ficou pequena para as 160 pessoas que participaram da atividade, foi lançada a Campanha pela Divisão Justa do Trabalho Doméstico, articulada por diversas organizações, redes e coletivos feministas e agroecológicos.

Confira outras imagens das articulações feministas durante o CBA:

A riqueza da sociobiodiversidade agroecológica

A Rede Catarinense de Engenhos de Farinha e as Fortalezas do Butiá e do Pinhão mandaram representações ao X Congresso Brasileiro de Agroecologia.

A Feira de Sementes do Congresso foi um espetáculo de diversidade e trocas genéticas.

Facilitação gráfica
Ao longo das atividades, artistas (ou seriam muralistas) faziam anotações e desenhos em painéis: eram xs profissionais de facilitação gráfica em ação. Criada como uma ferramenta de sistematização visual, a facilitação gráfica gerou belíssimos e ricos painéis-resumo das discussões realizadas ao longo do CBA.

 

02

Núcleo Litoral Catarinense e Cepagro participam de capacitação sobre SPG em Torres

A coordenação do Núcleo Litoral Catarinense da Rede Ecovida e os agrônomos Gisa Garcia e Francys Pacheco, da equipe técnica do Cepagro, estiveram em Torres (RS) na semana passada participando de uma capacitação sobre o novo sistema informatizado de registro de dados das famílias da Rede. A comitiva também aproveitou para intercambiar experiências com iniciativas de coletivos de consumidores locais, além de firmar os entendimentos sobre os Sistemas Participativos de Garantia. A atividade foi realizada com apoio da Fundação Inter-Americana.

No primeiro dia da visita, 8 de agosto, o grupo conheceu a cooperativa de consumidores EcoTorres, onde tiveram um bate-papo com Laércio Meirelles, um dos idealizadores da Rede Ecovida, sobre o processo de formação da Rede e o contexto politico da época, além de possíveis rumos deste coletivo que reúne quase 4.500 famílias de agricultores e agricultoras agroecológicos. O coordenador da EcoTorres, Beto Johann, contou sobre a iniciativa de consumidores em criar uma cooperativa para que tivessem acesso a um alimento saudável, limpo e que valorizasse a produção local.

Na 4ª feira, 9 de agosto, o grupo visitou a sede da Associação Ecovida de Certificação Participativa, onde foram apresentados ao novo sistema de cadastro de famílias da Rede Ecovida. Cristiano Motter, técnico do Centro Ecológico, explicou que a partir desse ano todos os dados da propriedade e de produção das famílias membros da Rede serão incluídos nessa plataforma online, o que permitirá gerar automaticamente os certificados e relatórios específicos sobre os grupos e Núcleos, como por exemplo, áreas de produção, diversidade de alimentos, entre outros.
com informações e fotos de Gisa Garcia