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Organizações latino americanas de apoio à agricultura orgânica e agroecológica respondem à pandemia

Desde que foi anunciada pela Organização Mundial da Saúde, em 11 de março, a pandemia do novo coronavírus impõe muitos desafios a pessoas, governos e organizações. A necessidade do isolamento social como a medida mais urgente aumentou a vulnerabilidade de populações rurais e urbanas e a aproximação entre campo e cidade desponta como uma estratégia ao combate à insegurança alimentar e nutricional.

No meio rural, agricultores/as familiares foram fortemente impactados/as pela redução dos canais de comercialização, com o fechamento de feiras, escolas e restaurantes. Nas cidades, o aumento do desemprego soma-se a uma realidade onde a taxa de trabalho informal já é alta, agravando a pobreza e a fome. De um total de 292 milhões de pessoas empregadas na América Latina e no Caribe, 158 milhões trabalham em condições de informalidade, ou seja, uma média de 54%*, conforme dados da Organização Internacional do Trabalho (OIT).

Foto: Centro Campesino de Desarollo Sustentable

Nesse contexto, e agora que a América Latina é o novo epicentro da pandemia de COVID-19, as organizações de apoio à agricultura orgânica e agroecológica se tornam ainda mais importantes e se adaptam para garantir a Segurança Alimentar e Nutricional (SAN) no campo e na cidade. No Brasil, Paraguai, Equador, Peru, El Salvador e México, sete organizações parceiras do Cepagro no projeto Saberes na Prática em Rede, apoiado pela Fundação Inter Americana, respondem de maneira parecida à nova realidade imposta.

Rosa Murillo, agricultora e dinamizadora de meSSe.

Da região central do México ao sul do Brasil, a venda de cestas de alimentos orgânicos e agroecológicos tem sido uma alternativa para o escoamento da produção e abastecimento alimentar das cidades. No Equador, por exemplo, essa modalidade de comercialização passou a ser difundida nacionalmente, quase que de forma prioritária, segundo Rosa Murillo, agricultora e dinamizadora do Movimiento de Economía Social y Solidaria del Equador (meSSe).

No Rio Grande do Sul, alguns/as agricultores/as familiares apoiados/as pelo Centro de Tecnologias Alternativas Populares (CETAP)  também aderiram à venda de cestas. No entanto, como pontua a nutricionista do CETAP, Cíntia Gris, apesar de ser uma iniciativa fundamental para o momento, tanto para garantir a chegada de alimentos ecológicos à cidade quanto a renda de muitas famílias de agricultores, “o volume comercializado é inferior ao comercializado nas feiras. Estimamos que o volume comercializado atualmente significa 40 % da comercialização antes exercida”.

Foto: Asociación Paraguay Orgánico

Já a Asociación Paraguay Orgánico (APRO) viu a demanda por cestas orgânicas disparar desde o Decreto Presidencial que instaurou a quarentena e o fechamento de todas as feiras e restaurantes no Paraguai. Para Genaro Ferreira, secretário da APRO, “o desafio agora é melhorar a logística das entregas das cestas e a implementação de novo sistema virtual para ser mais eficiente”. Afinal, se essa modalidade de venda direta tem sido estratégica e importante, por aproximar produtores/as e consumidores/as, traz também novos desafios. 

O acesso à internet, às tecnologias e ao conhecimento tecnológico são alguns deles. No México, onde o Centro Campesino de Desarollo Sustentable e a Rede Tijtoca Nemiliztli atuam, as famílias agricultoras aderiram a venda de cestas através do Facebook e Whatsapp. Nesse ponto, o apoio dos/as mais jovens tem sido fundamental, pois possuem mais facilidade com as comunicações digitais.

Já na Bahia, a maior dificuldade dos agricultores agroecológicos da Rede Povos da Mata tem sido o transporte para abastecer os centros urbanos. Como 90% das feiras da Rede seguem suspensas desde o início da quarentena, o Movimento Mecenas da Vida, que atua na região, têm buscado apoios específicos para promover ações emergenciais de segurança alimentar, através da compra de alimentos desses produtores e entrega de cestas a famílias vulneráveis. Essa também tem sido uma prática do CETAP e, juntas, as duas organizações já distribuíram pelo menos 2.380 cestas agroecológicas, graças a projetos específicos.

Foto: Centro de Tecnologias Alternativas Populares

Essa resposta emergencial das ONGs acaba sendo um alívio para muitas famílias, principalmente quando o Estado se ausenta em garantir os direitos mais básicos dos/as cidadãos/as. No Equador, assim como no Brasil, o governo federal tem respondido à crise sanitária e econômica com “medidas drásticas que acentuam ainda mais a crise das famílias equatorianas e o  apoio aos agricultores foi quase nulo”, segundo Rosa Murillo. 

Para responder a essa ausência do Estado, o meSSe vem apostando nas práticas de economia solidária que já são praticadas nos territórios onde está presente. Trocas de alimentos entre amigos, vizinhos e comunidades, moedas sociais e circuitos interculturais solidários são algumas das ações que têm sido fortalecidas pelo movimento.

Tanto o Movimento de Economia Solidária, quanto o Movimento Agroecológico, com sua visão holística e integradora, tem muito a contribuir no combate às crises contemporâneas e nos processos de ampliação da democracia e participação social. Em El Salvador, a Fundación para el Desarrollo Socioeconómico y Restauración Ambiental (Fundesyram) tem percebido que o Sistema de Extensão Comunitária, metodologia de trabalho usada pela organização, está sendo essencial no apoio às famílias agricultoras.

 Através desse sistema de extensão rural, a Fundesyram impulsiona a Agroecologia combinando os conhecimentos técnicos que a organização desenvolve, com as práticas e conhecimentos locais, de forma horizontal e participativa. Técnicos/as da Fundesyram se comunicam com extensionistas das próprias comunidades, que por sua vez compartilham as informações e conhecimentos com seu grupo de produtores.

Se antes essa metodologia já era eficiente, por promover a autonomia e educação das comunidades de forma horizontal, agora que os técnicos da Fundesyram não podem estar presente nas comunidades por questões de segurança sanitária, esse sistema se torna ainda mais importante. Para Roberto Rodríguez, diretor da Fundesyram, como esses extensionistas comunitários residem e estão sempre dentro das comunidades, conseguem fazer um acompanhamento mais próximo das famílias, “o sistema de extensão comunitária é fundamental para o desenvolvimento sustentável, é a garantia da continuidade das ações do projeto e do apoio técnico e emocional dos produtores”, afirma Roberto.

Se por um lado esse fortalecimento nos territórios é essencial, o diálogo entre sociedade civil e poder público também é de extrema importância. É nesse sentido que o Cepagro participa historicamente em espaços de construção de políticas públicas de SAN e de fortalecimento da Agroecologia, com presença ativa em fóruns, conselhos, redes e articulações. Há anos esses espaços de organização da sociedade civil têm atuado na defesa do Direito Humano à Alimentação Adequada e de SAN e com as mudanças que enfrentamos mundialmente, novas demandas sociais precisam e estão sendo apresentadas.

“Já vínhamos enfrentando o desmantelamento destas mesmas conquistas desde que o governo atual não colocou o tema nas suas pautas prioritárias.  Com o advento da pandemia isso apenas se acirrou e faz com que a sociedade civil além de enfrentar a pandemia, enfrente o descaso e o desconhecimento de práticas como o Programa de Aquisição de Alimentos, Programa Nacional de Alimentação Escolar e tantas políticas que poderiam neste momento atender as duas pontas, agricultores e comunidades vulneráveis”, explica Erika Sagae, coordenadora do Projeto Saberes na Prática em Rede. Para ela, a participação do Cepagro nesses espaços não tem compromisso apenas com os impactos da realidade atual, “mas também com projeções de soluções futuras pós pandemia”, 

A pandemia da COVID-19 nos revela a natureza sistêmica do nosso mundo e nos convida forçadamente a repensar nosso modo de desenvolvimento e a forma como nos relacionamos com a natureza. As organizações de apoio à agricultura orgânica e agroecológica estão atentas à isso e são unânimes em reafirmar a necessidade de fortalecer as relações entre o campo e a cidade. E enquanto reorganizam o seu planejamento de atividades, vislumbram ações estratégicas à longo prazo.

Foto: Movimiento de Economía Social y Solidaria del Equador (meSSe)

Para Rosa Murillo, nesse momento é especialmente importante “evidenciar a produção agroecológica e a agricultura familiar camponesa, participando de eventos virtuais como conferências, palestras, vídeos e maratonas de agroecologia”, além de “continuar trabalhando sob os princípios de cosmovisão andina: minga (mutirão), reciprocidade, respeito à natureza e promoção da troca”.

Foto: Centro Campesino de Desarollo Sustentable

Victor Hugo Morales, do Centro Campesino, aponta que essa crise “nos faz refletir sobre como fortalecer o vínculo com os consumidores para que os/as agricultores/as sejam vistos como parte importante da cadeia produtiva e da mesma forma, criar circuitos curtos de comercialização que priorizem a Agroecologia e o impacto da pegada ambiental”.

A Agroecologia é resiliência e para Tiago Tombini, um dos fundadores do Mecenas da Vida, essa característica traz otimismo para encarar o futuro. “Acreditamos que essa crise não afetará negativamente nossa Instituição. Pelo contrário, vai nos trazer novos estímulos e oportunidades para criarmos soluções e contornarmos os problemas. O fato de trabalharmos com temas de importância global, tais como mudanças climáticas, economia regenerativa e colaborativa e empoderamento socioeconômico de grupos sociais vulneráveis, nos faz crer que conseguiremos acessar novos apoios institucionais, nos fortalecer e superar as adversidades momentâneas e aquelas que poderão surgir durante a extensão desta crise”.

E se cada organização atua conforme o contexto local, a troca entre essas experiências através de uma rede latino americana de agroecologia só vem fortalecer ainda mais essa atuação. É isso o que o projeto do Cepagro Saberes na Prática em Rede, que tem o apoio Fundação Inter Americana,  representa e por isso ele é importante.

Registro da última reunião das organizações parceiras no Projeto Saberes na Prática em Rede.

*nota informativa global sobre “A crise da COVID-19 e o emprego informal”, publicada esta semana pela OIT.

Encontro em El Salvador fortalece articulação latino-americana pela Agroecologia

Representantes de organizações do Paraguai, Equador, México, Honduras, Canadá, Brasil e instituições locais estiveram reunidos em Santa Tecla, El Salvador, para o VII Encuentro Nacional de Saberes y Experiencias en Agricultura Organica y Agroecologia. Organizado pela  Fundación para el Desarrollo Socioeconómico y Restauración Ambiental (Fundesyram), o evento aconteceu nos dias 15 e 16 de janeiro e colocou em debate as experiências em Agroecologia que vêm sendo desenvolvidas na América do Norte, Central e do Sul. Além de participar do encontro, a delegação internacional também visitou experiências locais.

O evento reuniu cerca de 180 pessoas e foi ponto de encontro para técnicos/as, acadêmicos/as e agricultores/as. A Vice-Presidenta do Cepagro, Erika Sagae e a técnica de campo, Isadora Escosteguy estiveram presentes nas mesas de debate e conferências e puderam compartilhar com o público um pouco da experiência brasileira no tema da Agroecologia.

Na América Latina, o Brasil segue sendo referência no que diz respeito à organização dos agricultores agroecológicos, com a experiência de mais de 20 anos da Rede Ecovida.  Erika Sagae apresentou as dinâmicas de funcionamento da Rede, que atualmente conta com 3.400 famílias certificadas, quase 20%  dos certificados de produção orgânica no Brasil. Mesmo assim, ainda é preciso avançar muito: somente em Santa Catarina existem 45.150 famílias dentro de sistemas como o da produção de tabaco, altamente dependente de agrotóxicos, dado que mostra a importância da Rede. “Há muito trabalho para se fazer e a união das pessoas fortalece a luta”, comentou Erika durante o debate sobre Redes e Movimentos Agroecológicos de El Salvador, México e Brasil

O México também conta com uma Rede de Agroecologia, criada recentemente, durante um encontro nacional de Agroecologia e Sistemas Participativos de Garantia (SPGs) organizado pelo Centro Campesino de Desarollo Sustentable e Rede Tijtoca Nemiliztli, em dezembro de 2018. Victor Hugo Morales, do Centro Campesino, explicou que a criação da rede tinha como objetivo dar visibilidade ao Movimento Agroecológico e ter o reconhecimento do governo. Atualmente, a Rede vem dando um aporte na comercialização e está iniciando a certificação participativa no país.

Já a Rede de Agroecologia de El Salvador (RAES) começou a se organizar em 2017, com o apoio da Fundesyram. Seu representante, Gerardo Hernández, conta que o objetivo é ter um diagnóstico da produção Agroecológica do país e convencer mais pessoas de que a Agroecologia é possível. Além da RAES, El Salvador também conta com o Movimento de Agricultura Orgânica (MAOES), formado por 23 organizações, entre produtores/as e instituições de apoio. O coordenador, Miguel Ramírez, frisou a importância da formação política, que é um dos principais eixos de atuação da MAOES, “para que os agricultores tenham consciência que a agricultura orgânica não é apenas uma série de técnicas de agricultura, mas um movimento de transformação e para que a agricultura orgânica se livre das amarras da agricultura convencional”, disse Miguel.

A participação das organizações latino americanas no Encontro salvadorenho se deu graças ao projeto Saberes na Prática em Rede, apoiado pela Fundação Inter-Americana (IAF).  Desde 2016, o projeto já proporcionou diversos encontros e trocas de experiências e para Erika Sagae, coordenadora do projeto, esse intercâmbio entre as organizações é de grande importância: “Fomentou a formação de redes de Agroecologia em outros países como o México, Paraguai e El Salvador, que depois culminaram em processos de Sistemas Participativos de Garantia (SPG). Mas mais do que isso, fortaleceu o movimento nesses países e fortalece essa nossa rede construída a partir do projeto”, disse.

O potencial dos intercâmbios foi confirmado pelo técnico da Fundesyram, José Jesús Córdova. Entre agosto e setembro de 2019, ele e o companheiro de trabalho, Juan Ruiz, estiveram em Florianópolis e participaram do Curso de Gestão Comunitária dos Resíduos Orgânicos realizado pelo Cepagro. Ao voltar à El Salvador, José realizou 5 capacitações para a gestão dos resíduos orgânicos através do Método UFSC de compostagem, compartilhando os aprendizados com pelo menos 400 pessoas. 

Uma das capacitações foi para os/as estudantes de Ciências Agronômicas da Universidade de El Salvador, o que deu origem à Brigada Ambiental de Ciencias Agronómicas (BACA). Em março, o grupo irá colher a primeira remessa de composto e analisar os resultados a fim de adaptar o método para a realidade do país. E a troca de saberes veio em boa hora, já que em dezembro do ano passado El Salvador aprovou a Lei Nacional para Gestão de Resíduos e Fomento à Reciclagem. 

A certificação participativa nas Américas

E o potencial do intercâmbio de saberes foi confirmado também durante a discussão sobre Sistemas Participativos de Garantia de Norte, Centro y Sur América, onde debateram representantes do Paraguai, México, Brasil e El Salvador.

Em El Salvador, a certificação participativa iniciou como uma experiência piloto depois que os técnicos da Fundesyram conheceram os sistemas do Brasil e Paraguai. José Jesus contou que, com o aumento da demanda por orgânicos, aumenta também o questionamento sobre a procedência dos alimentos e que o SPG representa “um respaldo para o produtor e uma garantia para o consumidor”.

Na Bahia, a demanda por produtos agroecológicos também cresce a cada dia, bem como o número de agricultores em busca da transição agroecológica. No estado nordestino, a certificação participativa é realizada pela Rede Povos da Mata, que hoje conta com 450 famílias certificadas e outras 300 em fase de transição, como explicou o presidente da Rede, Tiago Tombini. Diferente de outros países, o SPG brasileiro certifica unidades produtivos, e não produtos, comentou Tiago. Ele acredita que a sustentabilidade do sistema participativo está na responsabilidade compartilhada e no controle social.

Já no Paraguai, a certificação participativa é realizada pela Asociación de Produtores Orgánicos do Paraguay (APRO) em parceria com o Ministério da Agricultura local. Seu representante, Genaro Ferreira, contou que, além da certificação, a associação promove a comercialização. Com 20 anos de história, atualmente a APRO comercializa para mais de 5 mil consumidores, muitos deles acometidos por doenças como o câncer. Os jovens são outro público consumidor em ascensão, segundo Genaro.

E como a Agroecologia não é só certificação, as temáticas de gênero e geração também foram debatidas no encontro durante a mesa Mulheres e Juventudes na promoção da Agroecologia. Flor Quintanilla é coordenadora das ações em Gênero da Fundesyram e contou que autoestima e empoderamento feminino foram temas trabalhados pela organização no último ano. Um trabalho positivo que refletiu no aumento da participação feminina no Encontro e nos espaços de debate. Flor lembrou que sem Feminismo, não há Agroecologia: “De nada adianta eu cultivar agroecológicos na minha fazenda se na minha casa eu violento a minha companheira. Tem que mudar o modo de ver”, disse. 

Mudar o modo de ver e agir não apenas com as mulheres mas também com a figura feminina da terra, ou da Pachamama, como apontou Rosa Murillo. Rosa representa o MESSE, Movimiento de Economía Social y Solidaria do Equador, organização de maioria feminina e que traz em sua atuação a cosmovisão andina, do respeito à terra e à todos os elementos da natureza.  Rosa também pontuou que o consumo consciente e a economia solidária são formas de incentivar, não apenas as mulheres, mas a Agroecologia: “nosso valor está em nos articularmos, nos fortalecermos. Por que comprar de fora se a minha companheira produz o que eu preciso”, questionou.

Agroecologia também é consumo responsável

E para que haja cada vez mais consumidores conscientes, é preciso sensibilizar. É sob essa perspectiva que estão organizadas as Células de Consumidores Responsáveis do Laboratório de Comercialização da Agricultura Familiar (LACAF/UFSC), em Florianópolis. A pesquisadora e mestre em Agroecossistemas, Isadora Leite Escosteguy compartilhou a experiência de comercialização direta das Células durante a conferência sobre a Organização de Consumidores no Brasil.

As células consistem na formação de grupos de agricultores e consumidores, onde a entrega dos alimentos orgânicos é feita semanalmente em pontos de coleta comuns a uma mesma célula. A comunicação direta entre as duas pontas da cadeia produtiva é importante, mas segundo Isadora, o que provoca uma identificação maior com a iniciativa é quando os consumidores vão conhecer as fazendas onde são cultivados os alimentos que elas compram. Responsabilidade compartilhada e autogestão dos consumidores são premissas para quem quer iniciar uma célula de consumo, aconselhou Isadora.

Ecotecnologias, nutrição, educação, gastronomia ancestral e manejo de sementes foram outros temas abordados ao longo do evento. Além disso, os participantes também fizeram uma tour pelo Centro Divina Providência, onde o evento foi realizado. O Convento, localizado no município de Santa Tecla, região metropolitana da capital San Salvador, funciona também como um laboratório de experimentação para a Fundesyram. São canteiros de hortaliças, criação de galinhas e coelhos, viveiro de sementes, cultivo e processamento de café, além da gestão dos resíduos orgânicos e produção de composto. Tudo agroecológico. 

No manejo desses espaços, a equipe orientada pelo técnico da Fundesyram, Israel Morales,  testa e desenvolve técnicas que depois são compartilhadas com os/as agricultores/as em forma de extensão rural para a transição agroecológica. Um desses agricultores capacitados pela organização foi Daniel Pacheco Murcia, do município de Nueva Concepción. Daniel compõe a Asociación de Regantes de Atiocoyo Norte (ARAN), que conta com cerca de 200 agricultores associados no departamento de Chalatenango. Na ARAN cultivam principalmente arroz e goiaba, mas a maioria ainda de forma convencional.

Daniel compara a atual situação à uma bomba relógio: “O governo já não tem a oportunidade de manter tanta gente doente por problemas de agroquímicos. As crianças já nascem doentes, nossos agricultores morrendo de câncer, insuficiência renal em quase todos”, lamentou. Daniel cultiva arroz e goiaba orgânica e sua intenção é ir aos poucos mostrando aos companheiros de associação que vale a pena mudar. “Eu sinto alegria ao saber que posso mudar e que posso ajudar a outros que ainda não estão convencidos de que isso é um problema”, disse.

Além dos cultivos, ele também produz tilápia com uma técnica que substitui os antibióticos por probióticos, que são os microorganismos de montanha. A aplicação desses microorganismos nos tanques de tilápia auxiliam na purificação da água, reduzindo a necessidade de trocá-la com tanta frequência.

Os mesmos microorganismos pudemos encontrar nos canteiros de Medardo Francia Zelada, outro agricultor capacitado pela Fundesyram. Eles são um sinal de que o solo está fértil e livre de agroquímicos. Na propriedade de Medardo, em Cantón Taltapaneca, no município de Apaneca, os agrotóxicos não entram mais há cerca de 15 anos, quando ele recebeu uma capacitação da Fundesyram.

Até então não sabia produzir hortaliças, apenas cultivar e processar café, principal cultivo da região. Com o tempo foi agregando mais e mais diversidade aos seus canteiros e hoje, ao dar uma volta por sua propriedade, é possível encontrar alface, tomate, pimentão, rabanete, repolho, milho, além de frutas e alguns animais. Medardo se sente feliz em poder produzir um alimento saudável, e conta que a transição para a agroecologia lhe deu muita importância “porque esse tipo de agricultura nos ajuda a conservar os recursos como terra, água, ar, que são a base fundamental para a conservação da vida”.

Infelizmente, assim como no Brasil, em El Salvador a agricultura convencional recebe mais incentivo do governo do que a produção Agroecológica, o que impõe barreiras ao seu avanço. Por isso, tanto Medardo quanto Daniel compartilham da ideia de que é preciso investir em formação, não apenas para produtores, mas para consumidores também.

Roberto Rodríguez, diretor da Fundesyram tem a mesma visão e conta que a origem dos Encontros Nacionais de Agroecologia de El Salvador surgiram justamente com o objetivo de serem espaços de formação e aprendizagem. “Se alguém está sozinho em sua propriedade, acredita que os seus problemas são os mais grandes do mundo. Mas quando nos encontramos e vemos que muitas vezes temos os mesmos problemas ou vemos que alguém já os está superando, aí seguimos adiante”, disse Roberto.

E foi esse também o objetivo da equipe do Cepagro com a viagem à El Salvador. Levar um pouco dos avanças que estamos tendo por aqui, e conhecer as experiências bem sucedidas de El Salvador. O trabalho em rede fortalece e assim seguimos, apoiando uns aos outros para uma América Latina cada dia mais agroecológica.

Cepagro vai a El Salvador debater construção de indicadores para a Agroecologia

Bem estar social, respeito às relações de trabalho e de gênero, sustentabilidade financeira e ambiental. A Agroecologia traz consigo esses e outros  princípios e, por esse motivo, medir o seu avanço não é tarefa fácil. E foi com o objetivo de pensar soluções coletivas para esse desafio que a Vice-Presidenta do Cepagro Erika Sagae e a técnica de campo Isadora Escosteguy estiveram em El Salvador reunidas com representantes da Universidade de British Columbia (Canadá), da Fundação Inter Americana (IAF) e de outras seis organizações que promovem a Agroecologia no Paraguay, Equador, México, Brasil, Honduras e El Salvador.

A reunião aconteceu no dia 14 de janeiro, na capital San Salvador e foi a segunda oficina de indicadores facilitada pela professora canadense Hannah Wittman, da UBC, com as organizações que compõem o Comitê Gestor do projeto Saberes na Prática em Rede, apoiado pela IAF. Uma primeira conversa presencial já havia sido realizada em 2018, em Florianópolis, quando Hannah fez um levantamento dos tipos de indicadores – Econômicos, Sociais e Ambientais – que as organizações consideravam mais importantes.

De lá pra cá houve muito diálogo e o desenvolvimento de um aplicativo para tornar possível a coleta de informações que visam medir os mais diversos indicadores que abrangem o que chamamos de Agroecologia. “O desafio é criar um modelo para avaliar todos os âmbitos da Agroecologia, que é uma ciência, é um modelo de produção de alimentos e é um movimento social”, como afirmou Hannah, que trabalhará na sistematização dos dados junto aos pesquisadores e pesquisadoras na UBC.

Hannah deu início à atividade explicando o contexto em que o aplicativo, batizado de LiteFarm, foi desenvolvido e questionou: “Como a revolução digital serve para a soberania alimentar?”.

Para as organizações presentes, o aplicativo, ainda em fase de aprimoramento e testes, e os dados que poderão ser gerados serão importantes para mensurar o impacto social que a Agroecologia vem proporcionando, para contribuir na comercialização, para incidir em políticas públicas e pensar em programas e projetos. Também para responder questionamentos e convencer as pessoas dos benefícios da Agroecologia, além de compreender onde ainda é preciso avançar.

Para Victor Hugo Morales, do Centro Campesino de Desarollo Sustentable (México), os indicadores também serão importantes no trabalho de extensão rural junto a agricultores em transição agroecológica. “Quando o agrônomo chegar, ele vai poder dizer que no primeiro ano não vai haver o mesmo rendimento de antes, mas que a partir do segundo ano sim. Vai conseguir mostrar que há melhoria na qualidade de vida com evidências científicas, vai mostrar que o agricultor vai precisar investir menos ao longo do tempo”, disse Victor.

Já Juan Ruiz, técnico da Fundesyram (El Salvador), trouxe um outro olhar: “Quando apresentamos projetos, alguns financiadores nos pedem por indicadores e as vezes esses dados nos faltam. Então os indicadores nos ajudariam na captação de projetos”.  Roberto Rodríguez, diretor da Fundesyram, acredita que o aplicativo pode ser um atrativo para os jovens do campo. “Em El Salvador vemos que os jovens estudaram mais que os pais e por isso estão mais abertos para uma agricultura mais saudável. Eles tentam uma vida melhor na cidade mas já não encontram e vêem na Agroecologia uma forma de vida mais saudável, um trabalho com melhores condições de vida. Vemos muito futuro nos jovens”, disse Roberto.

O objetivo a médio prazo é que aplicativo seja justamente uma ferramenta de uso dos/as próprios/as agricultores/as, onde eles/as possam alimentar e acompanhar os dados gerados por eles/as mesmos/as. Como bem apontou a professora Hannah, hoje, a captação de dados online serve principalmente às multinacionais. A fim de auxiliar as famílias no seu planejamento e gestão da propriedade, o LiteFarm irá na contramão disso.

Zia Mehrabi, pesquisador da UBC, também esteve presente na atividade e explicou que “a ideia é ter informações em nível local para depois levar à escala maior”. Zia explicou que para atender às diversidades de valores e culturas locais, o desenvolvimento do aplicativo partiu de uma pesquisa com 77 agricultores/as canadenses. No processo, foram realizadas três oficinas de design onde os/as agricultores/as desenharam soluções digitais que lhes seriam úteis.

A atividade em El Salvador junto às organizações latino americanas representou uma continuidade do desenvolvimento do aplicativo, que deve levar em conta a realidade dos países do Hemisfério Sul. O acesso à internet, por exemplo, é um dos aspecto ainda muito desiguais à nível global. A fim de debater e aprofundar outros pontos que ainda precisam ser melhor trabalhados no aplicativo, os representantes dos cinco países se dividiram em grupos de trabalho. Alguns dos levantamentos apontados pelo coletivo foram a necessidade de incluir indicadores de gênero, de trocas não monetárias dos alimentos e de saberes ancestrais.

A construção dos indicadores de Agroecologia foi um dos temas incorporados no projeto do Cepagro apoiado pela IAF. Ao longo dos próximos meses, os técnicos de campo do Cepagro, Chales Lamb e Isadora Escosteguy, irão utilizar o aplicativo junto a 15 famílias da região de abrangência do Cepagro, testando-o em campo e já alimentando a base de dados. Erika Sagae, coordenadora do projeto Saberes na Prática em Rede, ressalta o interesse do Cepagro em seguir construindo os indicadores de Agroecologia para “fortalecer e demonstrar os avanços que a Agroecologia vem tendo, com o apoio inclusive dessas organizações de cooperação que vem apostando no tema da Agroecologia no Brasil e também perceber as questões que precisam ser melhoradas”.

Ao longo do  projeto, ainda serão realizados outros momentos presenciais de aprendizado, buscando construir avanços na pesquisa de indicadores que fortalecerão o papel da Agroecologia tanto na academia quanto na construção de políticas públicas de apoio a esta ciência, prática e movimento.

 

Mulheres e Juventudes protagonizam o XI Encontro Ampliado da Rede Ecovida de Agroecologia

Com o tema “Gênero, Geração e Conhecimento”, o XI Encontro Ampliado da Rede Ecovida de Agroecologia, realizado em Anchieta (SC) entre os dias 15 e 17 de novembro, foi marcado pelo protagonismo das mulheres e das juventudes da Agroecologia. 

Texto: Carú Dionísio e Clara Comandolli 
Fotos: Clara Comandolli

Quando o lema “Sem Feminismo, não há Agroecologia” apareceu pela primeira vez num Encontro Ampliado da Rede Ecovida, em 2017, o clima foi de algum estranhamento e surpresa. Mas, dito já nos finalmentes da Plenária Final do X EARE, com o burburinho da Feira de Saberes e Sabores ao fundo, passou discretamente. Dois anos depois, no embalo da grande participação feminina em ações de massa nas ruas do Brasil e da discussão de gênero ganhando corpo desde a Articulação Nacional de Agroecologia aos grupos da Rede Ecovida, o lema veio para a Plenária de Abertura do Encontro, convocado não por algumas, mas por muitas companheiras.  

Além do protagonismo das mulheres, outra marca do XI EARE foi o destaque na participação das juventudes. A mesa de abertura foi toda feminina, com mulheres jovens e mais experientes ocupando os espaços principais de fala. 

Sem feminismo, não há Agroecologia

Uma das convidadas para este momento foi Miriam Nobre, da organização feminista Sempre Viva (SP) e integrante da da Marcha Mundial das Mulheres e do GT de Mulheres da Articulação Nacional de Agroecologia (ANA). Miriam trouxe um histórico da discussão de gênero no movimento agroecológico a partir dos Encontros Nacionais de Agroecologia (ENA). Lembrou que o lema “Sem feminismo, não há Agroecologia” veio à tona pela primeira vez no terceiro encontro, em 2014, trazendo avanços para o debate. No encontro seguinte, as mulheres negras e indígenas chamaram a atenção também para as suas lutas porque “a experiência das mulheres não é uma só. Há diversidade e desigualdades entre nós”, comentou Miriam. 

No IV ENA as mulheres afirmaram estar “em fúria feminista”, por conta do contexto das eleições de 2018 e foram protagonistas do movimento #EleNão, como lembrou Miriam, por temer o aprofundamento das políticas neoliberais. Miriam aponta que “o neoliberalismo transfere toda a insegurança e vulnerabilidade da vida para nós, trabalhadores e trabalhadoras, principalmente para as mulheres”. Um exemplo são os cortes feitos no Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), medida que pesa mais sobre as mulheres, historicamente responsáveis pelos cuidados com a alimentação familiar.

Miriam falou também sobre o sexismo institucional existente e que desconsidera a mulher como agricultora quando o marido não é. O sítio leva o nome do marido, mas quem acorda primeiro e vai dormir depois em muitos casos são as mulheres, que acumulam ao trabalho na agricultura os afazeres domésticos, desconsiderados como trabalho.

Foi pensando nesta realidade que o GT de Mulheres da ANA, em parceria com o Centro de Tecnologias Alternativas da Zona da Mata de Minas Gerais (CTA-ZM), elaborou a Caderneta Agroecológica, usada pelas mulheres para registrar a produção de seus quintais e hortas, anotando o que é para autoconsumo, o que é vendido, trocado, doado ou ganhado. A ideia da caderneta é dar visibilidade ao trabalho das mulheres do campo, mostrando como as “miudezas” de seus quintais produtivos têm grande impacto positivo na renda familiar, contribuindo para a valorização da participação feminina na economia  e para o enfrentamento da divisão sexual do trabalho. “A gente quer, junto com os companheiros, organizar a economia não baseada no lucro, mas colocando a vida no centro. E colocar a vida no centro é outra forma de dizer: ‘sem feminismo, não há Agroecologia’”, disse.

Companheiros conferem os recados das mulheres da Rede, estampados em bandeiras produzidas nos Núcleos.

Por fim, Miriam lembrou que o machismo afeta também a vida dos homens. Ela os convidou a expressarem seus sentimentos e a somarem no combate à violência contra as mulheres, não apenas nos casos de violência física quando ela já aconteceu. “Nós, homens e mulheres, queremos ser tão diversos quanto a natureza é”, disse e completou dizendo que nossa luta é pela liberação de territórios: do machismo, dos transgênicos e dos agrotóxicos.

Juventudes: “não queremos só a sucessão. Queremos construir a nossa Agroecologia”

As juventudes também estiveram presentes na Plenária de abertura, chamando a atenção para os conflitos intergeracionais existentes na agricultura familiar. A jovem agricultora de Pelotas (RS), Luana Kerstner Schiavon, falou sobre a importância do diálogo e da escuta entre jovens e pais trabalhadores rurais. “Na agricultura familiar todos trabalham, porque ninguém faz sozinho”, comentou Luana, mas mesmo assim é muito comum os/as jovens agricultores/as, em especial as mulheres, serem desconsideradas como corresponsáveis pela produção.

A juventude é um tempo de muitos questionamentos e incertezas, lembrou Luana, e por esse motivo a educação do campo é extremamente importante no reconhecimento do “quem sou eu”. Acesso à educação, liberdade para escolher e a confiança dos pais foram algumas das demandas colocadas pela juventude agroecológica, que quer sucessão familiar e não apenas a herança da propriedade.

Luana compõe a coordenação geral da Rede Ecovida e disse ainda que os/as jovens precisam ocupar os espaços de deliberação e decisão política. Fala reforçada por Cristina Sturmer dos Santos, da Cooperativa de Produção Agropecuária Vitória (COPAVI), gerida por assentados da Reforma Agrária  no município de Paranacity (PR). Por lá, toda a gestão é feita por mulheres e jovens, que representam a maioria dos/as cooperados/as. Ainda assim, Cris  afirma: “Falar de gênero, geração e feminismo nunca é uma coisa pacífica. É cheia de conflitos e contradições”.

Outras demandas da juventude foram colocadas no seminário Juventudes Agroecológicas: rebeldia com causa, realizado na manhã do sábado, 16 de novembro. Ao longo da conversa, a principal queixa da juventude agroecológica foi a desconfiança e o não reconhecimento dos mais velhos. A grande maioria disse que uma das razões para o abandono do jovem do campo é a falta de consideração com as ideias e opiniões deles/as, seja na gestão da propriedade familiar ou na sua participação política dentro dos grupos e núcleos da Rede Ecovida.

Bruna Richter Eichler, agricultora de Venâncio Aires (RS), disse que se não fosse os jovens levando a Agroecologia para a propriedade, algumas famílias até hoje não teriam saído da agricultura convencional. É essa situação que a estudante e agricultora Gabriela Mariga enfrenta hoje. Ela estudou em colégio agrícola no município de Paulo Bento (RS) e conta que os professores “só ensinavam a plantar milho e soja”, principais culturas da região. 

Apesar de nunca ter ouvido falar sobre as práticas agroecológicas em sala de aula, Gabriela encontrou na biblioteca da escola um livro de Ana Primavesi, uma das precursoras da Agroecologia. A partir daí se encantou pelo movimento e passou a se aprofundar no tema. Hoje ela estuda Gestão Ambiental da Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (UERGS). 

“Quando eu falava em Agroecologia os professores me chamavam de louca e as pessoas perguntavam por que eu queria voltar para o passado”, coisa que ouve também dentro de casa, comenta Gabriela. Na propriedade dos pais o cultivo é convencional, então  ela recorreu ao CETAP, organização que apoia a Agroecologia no Rio Grande do Sul, para poder participar do XI EARE. No Encontro se sentiu em casa: “aqui tu é aceita. Lá eles acham que não se produz sem veneno”, disse.

Ao final do seminário foi encaminhada a criação de um GT da Juventude da Rede Ecovida, que colocou como uma de suas prioridades a inclusão da participação de 30% de jovens nas coordenações da Rede. Além disso, foi mencionada a importância do incentivo à cultura e lazer e à comunicação pela valorização da Agroecologia, acesso à educação, formação em marketing e empreendedorismo. Na ocasião também foi criado um GT de Arte e Cultura, com o intuito de pensar e promover místicas, músicas e momentos culturais para os eventos da Rede e assim contribuir com as reflexões da Agroecologia. “A mística e a cultural são tão importantes quanto os momentos de debates”, disse Bruna Richter Eichler, que abrilhantou musicalmente o encontro com sua banda. 

Seminários e oficinas discutem questões técnicas e políticas da Agroecologia

Na manhã do sábado, 16, também foi realizado o seminário Momento político atual e a agroecologia: quais são nossos caminhos?  Mais do que pensar questões e conflitos partidários, o Seminário foi dedicado a resgatar um pouco da caminhada da Rede Ecovida e de outras redes de Agroecologia do Brasil em suas construções por outro modelo de agricultura e de relação com território, além da participação de políticas públicas neste desenvolvimento.

A professora Cláudia Schmitt, da UFRJ e da Associação Brasileira de Agroecologia, trouxe dados sistematizados pelas redes que participaram do projeto ECOFORTE (apoiado pela Petrobrás) entre 2015 e 2016, mostrando que a maioria delas acessaram programas como o PNAE, PAA e até o Bolsa Família. A conjuntura atual, entretanto, é de desmonte dessas políticas, avaliou Cláudia, com acordo dos/as participantes: “nesse processo, primeiro retiram-se recursos, desestruturam-se as instituições e os espaços de participação social”, disse.  O ruir das políticas públicas afeta também as ações coletivas nos territórios, o que, por sua vez, tem impacto nos agroecossistemas.

“Mesmo assim, as redes não param”, disse Claudia. Neste sentido, Alvir Longhi, da organização CETAP (RS), convidou os/as participantes a pensarem temas aglutinadores – além do SPG – que poderiam constituir a estratégia política da Rede Ecovida para os próximos anos. O trabalho em torno da sociobiodiversidade e novas dinâmicas de comercialização, abarcando também a economia solidária, foram alguns dos temas levantados. Marilu Menezes, da Fundação Luterana de Diaconia (FLD), afirmou que “a Rede precisa assumir como eixo estratégico a superação de toda forma de violência de gênero, raça, etnia e orientação sexual”. 

Loyvana Perucchi, do Núcleo Serramar da Rede, lembrou da importância de termos formações políticas no âmbito dos núcleos e grupos. O vereador Marquito, de Florianópolis, trouxe a estratégia da construção de projetos de lei estaduais e municipais para avançar localmente na Agroecologia ainda que o cenário em nível federal esteja desfavorável. Também foi afirmada a importância de fortalecer a comunicação popular nas organizações da Rede, já que a disputa também é narrativa.

A programação também contou com os seminário sobre Produção local e ecológica de sementes e mudas, Sistemas agroflorestais e agrobiodiversidade e Produção animal: leite, aves de corte e ovos.

Durante a tarde os mais de 700 participantes do encontro, entre agricultores/as, consumidores/as e profissionais e organizações de apoio à Rede Ecovida se dividiram entre as 29 oficinas realizadas. Entre elas, a oficina sobre consumo consciente, facilitada pelo grupo de consumidores formados pelo Cepagro, em conjunto com o CETAP, Vianei e ASPTA, com apoio da Misereor.

O GT Gênero promoveu a oficina Mate e Debate sobre Gênero, reunindo mulheres dos três estados da Rede. Além de relatos de diversos tipos de violências que ainda acontecem em espaços públicos e privados da Rede, as mulheres colocaram também a importância de continuar os ciclos de encontros locais e regionais entre elas, como o I Encontro de Mulheres da Rede Ecovida de Agroecologia, realizado em Erechim em setembro. 

Nos intervalos, a tradicional Feira de Saberes e Sabores trazia toda a riqueza da produção da agricultura familiar agroecológica do sul do Brasil.

Plenária final traz encaminhamentos para a Rede e mostra força da união feminina

O XI EARE encerrou com a Plenária Final na manhã de domingo. Como de costume, neste momento a Rede deu as boas vindas aos novos Núcleos, que haviam sido anunciados no EARE de 2017: Núcleo Vale do Itapocu (SC), Núcleo Sudeste Gaúcho (RS), Núcleo Centro-Sul (PR) e Guarumbé (PR).

 Ivo Macagnan, do CAPA Saltinho e da coordenação da Rede, apresentou alguns  anúncios: hoje a Rede Ecovida conta com 3.400 famílias certificadas, o que representa quase 20%  dos certificados de produção orgânica no Brasil. Outro motivo de comemoração foi a dos avanços do sistema informatizado para a certificação participativa e do equilíbrio das contas da Rede.
Foi apresentada também a nova coordenação da Rede Ecovida.

Do seminário Sistemas agroflorestais e agrobiodiversidade, foi afirmada a necessidade de  fomentar a utilização de PANCS; de as ações de ATER retornarem para os agricultores familiares, que são os verdadeiros observadores e experimentadores; de avançar na certificação agroflorestal. “A Agroecologia é a agricultura do futuro, precisamos lutar para fortalecê-la”, disse Israel Lourenço, integrante do MST e relator.

Sobre Produção local e ecológica de sementes e mudas, os/as relatores/as afirmaram que a Rede Ecovida está preparada e tem capacidade para ter autonomia desses insumos em suas produções. “Precisamos olhar para as experiências que já existem e companheiros/as que já produzem mudas e sementes, fazer parcerias e visitas às instituições que trabalham o tema, formações para a circulação de conhecimento, não ver a semente de uma forma romantizada mas estratégica, fortalecer e honrar nossas sementes crioulas”, disseram. 

Na temática de Produção Animal, afirmou-se a necessidade de ampliar a produção animal na Rede Ecovida para além de bovinos e aves, fortalecer as agroindústrias de tratamento de leite, avançar na agroindustrialização coletiva, fortalecer a homeopatia no tratamento de doenças animais. Além disso, propôs-se que derivados de leite agroecológico sejam ofertados na alimentação escolar, assim como a sugestão de a Rede Ecovida editar um compêndio de receitas ecológicas para tratamento de animais.

Fechando a Plenária, as mulheres ocuparam novamente o palco para trazer encaminhamentos trabalhados pelo GT Gênero ao longo do ano, que envolvem a inclusão do tópico sobre violência de gênero e outras violações de direitos humanos como passível de perda de certificado no Manual de Procedimentos da Rede. Além disso, as mulheres anunciaram o requisito de todo Comitê de Ética de Núcleo, uma das instâncias da certificação participativa, ter uma mulher em sua composição. E chamaram a atenção para a importância das mulheres das famílias participarem nas visitas e reuniões da Rede. A intervenção foi fechada novamente com o lema Sem Feminismo, Não há Agroecologia, com o repasse da bandeira do movimento das mulheres, construída coletiva e localmente nos núcleos, para as companheiras que receberão o próximo Encontro Ampliado. O XII EARE será em Pinhão, no Paraná, com acolhimento do recém-formado Núcleo Centro Sul.

A alimentação é um ponto importante dos Encontros Ampliados da Rede Ecovida. Nesta edição, a preparação das refeições foi feita por seis chefes do Movimento Slow Food, em conjunto com quatro restaurantes locais. Foram servidos cerca de 1500 pratos por dia, feitos com alimentos agroecológicos dos agricultores e agricultoras da Rede, com um menu especialmente pensado para os/as vegetarianos/as.

Os chefes se dividiram entre os restaurantes seguindo um rodízio e  o ecochef do Convivium Slow Food Mata Atlântica, Fabiano Gregório, conta que todos os restaurantes queriam receber o menu vegetariano em algum momento, principalmente para aprender coisas novas: “Foi uma interação bem bacana, teve bastante troca de experiências e foi muito engrandecedor”, conta.

No domingo, os chefes do Slow se reuniram no Salão Paroquial para o almoço coletivo de despedida do XI EARE, uma forma de aproveitar os alimentos preparados sem gerar desperdício. Além de ser um momento de confraternização e celebração de mais um encontro realizado que deixou um gostinho de quero mais.

Rede Povos da Mata fortalece a Agroecologia na Bahia

Consolidada em 2016, a Rede Povos da Mata reúne hoje 700 famílias agricultoras de 4 regiões da Bahia. Nos dias 12 e 13 de julho foi realizado o II Encontro da Rede, em Irecê, no sertão baiano. O Cepagro esteve lá e conta um pouco do que rolou.

Paula Ferreira na abertura do Encontro

“Irecê tem a maior Feira Orgânica certificada da Bahia. Não somos mais pequenos agricultores de fundo de quintal. Produzimos toneladas de alimentos! Queremos assumir o compromisso de fornecer para a alimentação escolar na região. Temos produção pra isso”. Contrariando o senso comum que associa a agricultura familiar – sobretudo a agroecológica – com algo “pequeno” ou “sem escala”, a agricultora Paula da Silva Ferreira defendeu que Agroecologia é sim uma opção para alimentar a população com qualidade e quantidade. Paula é coordenadora de um dos núcleos da Rede de Agroecologia Povos da Mata e falou durante a abertura do II Encontro da Rede, realizado em Irecê, no sertão baiano, nos dias 12 e 13 de julho. Credenciada em 2016 como um organismo participativo de certificação orgânica, a Rede Povos da Mata está presente hoje em 28 municípios baianos do Litoral, Sertão, Chapada Diamantina e Recôncavo Baiano, envolvendo 700 famílias agricultoras, sendo 300 delas certificadas, além de 6 agroindústrias. “Nosso compromisso nos próximos 2 anos é continuar colaborando e qualificar o que já temos. Não temos meta de criar mais tantos grupos ou núcleos”, afirma Tatiane Botelho, que foi presidente da Rede até este Encontro, quando nova diretoria foi empossada.

O Encontro reuniu mais de 450 pessoas ao longo dos dois dias de atividades, que tiveram o objetivo de discutir as perspectivas da Rede para o fortalecimento da produção agroecológica de alimentos de base ecológica, assim como o consumo consciente de alimentos saudáveis. Neste sentido, tanto Paula Ferreira quanto Tatiane Botelho, que estava presidente da Rede Povos da Mata, aproveitaram a presença de representantes do Ministério da Agricultura e do Governo baiano na  abertura do Encontro  para apresentar perspectivas e demandas para fortalecer a produção e ampliar o acesso a alimentos agroecológicos. Consolidar o fornecimento de alimentos orgânicos para a alimentação escolar e prover infra-estrutura para as feiras orgânicas da região, como barracas e veículos, foram algumas das necessidades elencadas no evento. As coordenadoras da Rede também ressaltaram a importância de parcerias, como a do SEBRAE e da BAHIATER (a empresa pública de assistência técnica e extensão rural) tanto no apoio do evento quanto para o trabalho das famílias.

Feira Agroecológica e análise de conjuntura abrem o Encontro
Nada como uma Feira Agroecológica para iniciar um Encontro de Agroecologia. E no da Rede Povos da Mata não foi diferente: dezenas de famílias dos 4 núcleos da Rede trouxeram alimentos, cosméticos naturais e artesanatos para comercializar, mostrando a riqueza e a diversidade da produção agroecológica.O grupo de Agroecologia Pé de Serra reúne 17 famílias da região de Uibaí, no sertão baiano. Elas produzem hortaliças, legumes e frutas orgânicas e compareceram na Feira do Encontro da Rede Povos da Mata.


Além de conhecer a força da produção agroecológica na caatinga , no Encontro foi possível provar o chocolate orgânico produzido pelas famílias do Assentamento Terra Vista, município de Arataca, onde trabalham 55 famílias. Uma delas é a do jovem agricultor Daniel de Lima Santos.


A Rede Povos da Mata abrange também a comunidade pataxó do Sul da Bahia. Durante o encontro, as mulheres pataxó da região de Porto Seguro trouxeram seus artesanatos e também o mel orgânico que está em processo de certificação pela Rede.

Na palestra de abertura, Rogério Dias, da Associação Brasileira de Agroecologia, trouxe uma análise de conjuntura da Agroecologia no Brasil e as perspectivas de resistência da produção agroecológica de alimentos. Para Rogério, “a mudança de governo acelerou o desmonte de políticas públicas para Agroecologia que já vinha acontecendo desde o golpe de 2016”. Uma delas é própria Política Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica, instituída em 2012. Rogério avalia que “A PNAPO acabou, mas ainda precisamos confirmar quando sair o Plano Plurianual pra Agricultura. Mas não temos nenhuma garantia que haverá recursos para fomento da Agroecologia”.

Rogério, entretanto, lembra que “o Brasil não é só o Governo Federal. Os estados também têm Planos Plurianuais de Agricultura”. O agrônomo ressalta que a pressão da sociedade e a atuação das redes agroecológicas são fundamentais para resistir ao desmonte de políticas públicas para agricultura familiar, agroecologia e segurança alimentar. E reforça que “neste momento, temos que incomodar. Podemos incomodar sozinho, como um bicho de pé faz. Mas, se formos um bando de formigas lava-pés, incomodamos mais ainda”.

O tema do outro painel da tarde era Os impactos dos agrotóxicos na saúde humana, mas a nutricionista Valéria Cristina Paschoal preferiu abordar os benefícios dos alimentos orgânicos. A partir de revisão bibliográfica de artigos científicos, Valéria afirma que as plantas manejadas agroecologicamente crescem mais resistentes,  essa resistência é repassada aos alimentos, aumentando a imunidade de quem os consome. Neste sentido, os alimentos da caatinga são os que trazem mais benefícios, pois crescem num ambiente extremamente adverso. Para manter essa produção, Valéria reafirma a importância da valorização da agricultura familiar: “Não existem pessoas mais cultas que os/as agricultores/as. Porque a agricultura é uma das primeiras formas de cultura que o ser humano desenvolveu”, disse.

Comida de verdade, no sertão e na cidade
Caracterizado pelo clima seco da caatinga, Irecê está num território de 20 municípios que abrange aproximadamente 44 mil famílias agricultoras. Em meio aos monocultivos de feijão com uso pesado de agrotóxicos e adubos químicos, cerca de 130 famílias cultivam a Agroecologia, articuladas na Rede Povos da Mata.

Uma dessas famílias é a de Lindomar Lins, do município de São Gabriel. Lindomar sempre trabalhou na roça, e até 2011 cultivava somente pepino e beterraba em sua propriedade, utilizando adubos químicos e agrotóxicos. Através da sensibilização e assistência técnica da empresa pública de extensão rural, Lindomar iniciou sua transição agroecológica. Com o estabelecimento da Rede Povos da Mata na região a partir de 2016, Lindomar pôde certificar sua produção como orgânica. Hoje, ele produz de 40 a 45 variedades de alimentos numa área de apenas 1,5 hectare, que tem tanto uma horta diversificada quanto um Sistema Agroflorestal. A observação do ciclo natural dos cultivos somada ao uso racional da irrigação com cobertura de solo e à produção própria de adubos e insumos orgânicos colabora para as colheitas de Lindomar, que faz 3 feiras orgânicas por semana na região. “É só entender a Natureza e trabalhar com ela que dá tudo certo”, afirma o agricultor. Os/as participantes do Encontro visitaram a propriedade de Lindomar durante uma oficina de Certificação Participativa realizada no evento. 

O trabalho de promoção da Agroecologia na região iniciou em 2011, muito pela atuação do agrônomo Edvaldo Reinaldo Filho, da empresa pública de extensão rural, a Bahiater. Além de práticas e insumos agroecológicos, ele orienta as famílias sobre o uso racional da água, já que ali os cultivos são irrigados, dependendo de poços artesanais. “Quando trabalhamos a cobertura do solo com palhadas, restos de culturas e estercos estamos utilizando tecnologias de convivência com o semiárido, além de aproveitar os insumos da própria unidade produtiva. Desta forma, há uma redução de perdas de umidade do solo, reduzindo a evaporação, além de melhorar a temperatura do solo, proporcionando melhor desenvolvimento das plantas”, explica Reinaldo. “O manejo ecológico do solo é fundamental para evitar erosão e compactação do solo, proporcionando uma melhor absorção da água de chuva e de irrigação e a permanência da biota do solo”, completa.

Através da participação na Comissão de Produção Orgânica da Bahia, Reinaldo conheceu a Rede Povos da Mata e convidou representantes para virem conhecer as famílias agricultoras do Sertão. O contato com a Rede Povos da Mata potencializou a organização dos/as agricultores/as agroecológicos de Irecê, que formaram o Núcleo Raízes do Sertão. “Depois da primeira reunião, já saíram 4 ou 5 grupos de famílias”. No âmbito da Rede, as famílias puderam não só certificar sua produção, como abrir novos canais de comercialização – tanto é que do sertão elas enviam alimentos orgânicos para a merenda escolar de Ilhéus, no Sul da Bahia. Além disso, o Raízes do Sertão promove outras 10 feiras agroecológicas na região, sendo que a de Irecê é a maior com certificação do estado, como lembrou Paula Ferreira na abertura.

A agricultora Thais Teixeira da Rosa veio de Porto Seguro, a 900km dali, para o Encontro e ficou encantada com a força da produção no sertão. A visita à propriedade de Lindomar agregou ainda mais conhecimentos para a agricultora, que também já observa os benefícios da cobertura do solo e ficou muito interessada nos insumos usados em Irecê. “Meu desafio ainda é a produção da cebola, mas vou insistir e experimentar, até encontrar o jeito certo”, afirma a agricultora. Ela já comercializava alimentos na feira, mas não tinha certificação. “Quando a gente ia vender, falava que era orgânico. E o consumidor falava: prova. Então o selo veio pra isso, pra provar pro consumidor. E também oferecemos as visitas”. Apesar de não usar agrotóxicos, Thaís ainda utilizava adubos químicos na produção. “Mas quando a Adriana [ técnica da Secretaria de Agricultura ] veio aqui pra fazer a transição, eu não tive dúvida. Porque quero que meus netos comam saudável e tenha ganhado isso de mim. Que eles digam: minha vó plantava orgânico!”, conta a agricultora. Como parte de sua transição, ela passou a produzir seus próprios adubos: “Lá em casa sou eu que adubo. Eu faço compostagem, faço meu biofertilizante. Eu que adubo”, afirma a agricultora, batendo no peito. E Thaís quer mais: “Eu ainda peco porque não fiz uma análise de solo. Também tenho vontade de levar meus produtos num laboratório, pra ver que tá livre de tudo. Mas ainda não tenho recursos pra isso. Mas quero fazer um banner, quero mais! Cada vez mais diversidade. Porque pra mim não adianta comprar o alface comigo e o resto dos alimentos virem do mercado, envenenados”.

Representantes de organizações de Alagoas, Rio Grande do Norte, Minas Gerais e Maranhão também participaram do evento, através do apoio da Inter-American Foundation. Walter dos Santos, da comunidade quilombola Piqui da Rampa, no Maranhão, veio através da Caritas Maranhão, apoiada pela IAF. Ele conta que “vejo que aqui a turma sofre uma pressão tão grande, que busca o conhecimento. Fiquei muito feliz com a oportunidade de vir aqui e trocar esses conhecimentos, quero levar de volta pra minha comunidade”. A agricultora e guardiã de sementes Ana Maria da Silva Gomes, do Rio Grande do Norte, foi mobilizada pela Comissão Pastoral da Terra e garante que “vou levar uma carrada de sabedoria de volta para as minhas companheiras do assentamento”.

Cepagro volta a El Salvador para debater Políticas Públicas e fortalecer articulações agroecológicas

A convite da Fundación para el Desarrollo Socioeconómico y Restauración Ambiental (FUNDESYRAM) – organização parceira do Cepagro no projeto apoiado pela IAF -, nosso coordenador de desenvolvimento rural, Charles Lamb, esteve em El Salvador entre os dias 13 e 18 de maio, participando do Fórum “POLÍTICAS PÚBLICAS PARA EL FOMENTO DE LA AGROECOLOGÍA EN EL SALVADOR” e conhecendo o trabalho de fomento à Agroecologia no país centroamericano. “Foram dias de diálogo muito aberto sobre as iniciativas e contextos atuais no Brasil e de El Salvador relacionados à organização de base e promoção da agroecologia. Há muitas semelhanças e compartilhamento de saberes, conhecimentos técnicos e metodológicos”, afirma Charles.

O Fórum “POLÍTICAS PÚBLICAS PARA EL FOMENTO DE LA AGROECOLOGÍA EN EL SALVADOR” foi realizado no dia 16 de maio na capital, San Salvador, com o objetivo de  “elaborar propostas de políticas públicas nacionais e locais que apóiem a promoção da agroecologia para a produção e consumo de alimentos saudáveis em El Salvador”, visando à criação de um documento a ser apresentado ao Presidente recém-eleito do país, que tomará posse dia 1 de junho. O evento reuniu mais de 200 pessoas de todo o país, representando diferentes movimentos e organizações de base, além da cooperação internacional, representações da União Europeia, representantes públicos de municípios e academia. De acordo com Charles Lamb, foram reafirmadas “convicções de que a agroecologia realmente promove não somente o desenvolvimento das comunidades, mas é um elemento determinante para as questões relacionadas aos efeitos do clima, principalmente nos países que têm na agricultura a sua principal fonte de renda e manutenção de populações no campo”, de acordo com Charles. “Além dos painéis que trataram de temática relacionadas, à tarde se distribuiu o público presente em diferentes mesas, gerando através dessas um documento a ser apresentado ao governo federal de El Salvador, iniciativa única e respaldada por um coletivo convicto de suas proposições”, completa.

A Fundesyram é uma das principais articuladoras de uma Rede de Agroecologia em El Salvador, que reúne mais de 50 organizações do ocidente ao oriente do país. “A articulação da Rede é uma das estratégias mais concretas e acertadas para a promoção da segurança alimentar e nutricional, além da geração de renda e preservação ambiental para as famílias agricultoras. As iniciativas promovem do desenvolvimento local e regional, gerando possibilidades concretas das pessoas permanecerem em suas comunidades com qualidade de Vida”, conta o membro da equipe Cepagro.

Durante a visita à parte ocidental de El Salvador, Charles conheceu a Escola de Campo de Agricultores no município de Apaneca, a 1400 metros de altitude. Relata que ali “foi possível conhecer e dialogar com agricultoras e agricultores, representantes da Horizont 3000, e com a equipe técnica responsável por diferentes projetos executados nas regiões de atuação de Fundesyram. Chamou atenção a questão das Biofábricas existentes, uma estratégia muito avançada de oportunizar insumos de baixo custo a nível comunitário (Biofortificadores e bokashi), gerando economia e disseminação de manejos sustentáveis dos cafezais, cultura muito presente nesta região. A certificação participativa via SPG, compras públicas, câmbios climáticos, redes colaborativas, e cooperação, também foram debatidas com o grupo presente.”

Na parte Oriental, ele conheceu a Associação Intermunicipal de Desenvolvimento do Norte de Morazán, que vem colocando prioridade no desenvolvimento territorial desta região através de um consórcio de municípios, se mantendo há mais de 12 anos demandando aos governantes políticas que sejam efetivas. Ali, a Fundesyram promove a agroecologia junto a uma Escola-fundação, que até 2018 ainda trabalhava com insumos químicos procedentes de grandes multinacionais. Charles observa que “A partir do acompanhamento da Fundesyram e de outras parcerias locais, foi possível incorporar práticas agroecológicas ao conteúdo escolar e, através de grupos de estudos, implementar ações concretas de cultivos, manejos, compostagem e outros que somente reforçam a importância das hortas pedagógicas como alimentadoras do desenvolvimento local”.

Empoderar mulheres e sensibilizar homens: Cepagro vai a El Salvador para conhecer o trabalho em Gênero da organização FUNDESYRAM

Buscando qualificar seu trabalho na temática de Gênero,  o Cepagro participou de mais um belo e potente encontro de mulheres que constroem a Agroecologia: o I CONGRESO MUJER Y AGROECOLOGIA, promovido em El Salvador pela Fundación para el Desarrollo Socioeconómico y Restauración Ambiental (FUNDESYRAM), organização parceira no projeto apoiado pela Inter-American Foundation. O evento aconteceu nos dias 10 e 11 de outubro e reuniu mais de 120 mulheres de 35 organizações de todo país. Cepagro e Rede Ecovida foram representados pela jornalista Ana Carolina Dionísio e pela agricultora Cátia Cristina Rommel, respectivamente. Nos dias após o encontro, as representantes brasileiras tiveram a oportunidade de conhecer mais um pouco do trabalho da FUNDESYRAM na linha de Gênero e Agroecologia.

Mesmo com as fortes chuvas que atingiam o pequeno país centroamericano nos dias anteriores ao Congreso, dificultando a circulação nas áreas rurais, a participação de mulheres no evento superou as expectativas da engenheira agrônoma Flor Quintanilla, coordenadora das ações em Gênero da organização. Ela explica que o objetivo do evento foi exatamente promover a articulação de diferentes organizações de mulheres para que incidam, tenham mais protagonismo na produção e integrem a recém-formada Red Agroecológica de El Salvador, composta por organizações e coletivos das três regiões do país: Oriente, Central e Occidente.

Ao longo dos dois dias foram compartilhadas experiências, além de serem discutidas estratégias e ações para promover o empoderamento feminino, a autonomia financeira e a superação do machismo no trabalho e através da Agroecologia. “É nestes espaços que conseguimos nos encontrar e nos reconhecer, e assim vemos que estamos na mesma luta”, afirma Flor.

Num país em que, de acordo com a Organização Mundial de Saúde, metade das mulheres já sofreram violência física ou psicológica na vida, trabalhar pelo seu empoderamento não é tarefa fácil.  É com muita paciência e bom humor que a Fundesyram apoia associações e coletivos de mulheres, facilitando oficinas e capacitações em liderança, empreendedorismo, técnicas agroecológicas e artesanato.  Além disso, colaboram todos os anos na organização da Feria de Logros (Feira de Realizações), onde as participantes das atividades apresentam seus produtos. Todo este trabalho caminha junto com programas do governo salvadorenho, como o Ciudad Mujer, que possui postos de atendimento em todo país para atenção integral às mulheres, nas linhas de Saúde Sexual e Reprodutiva; Atenção à Violência de Gênero; Autonomia Econômica; Gestão Territorial e do Conhecimento e Atenção Infantil.

“Me senti muito bem e confortável aqui. Percebemos como a Fundesyram se interessa pelo bem comum, e tudo que foi discutido aqui vai em concordância com o enfoque do nosso trabalho em Segurança Alimentar e Nutricional”, conta a agricultora Sandra Hernández, que participou do Congreso. Ela produz hortaliças e mel na sua parcela no município de Morazán, já próximo da fronteira com Honduras. Ela participa da Asociación de Municípios del Norte de Morazán e integra a Red Agroecológica de El Salvador junto com outras 350 famílias só na região oriental do país.

E como aumentar a participação das mulheres nos processos produtivos e também decisórios das organizações? Embora seja consensual que a superação das limitações impostas pelo patriarcado é o primeiro passo, as estratégias para promover essa superação são múltiplas. No Congreso foram sugeridas a realização de campanhas de conscientização dos direitos das mulheres, trabalhos em escolas e também nos lares e organização de grupos de incidência política nas prefeituras. Dar visibilidade nas redes sociais ao trabalho desenvolvido por mulheres e formar grupos de poupança e empréstimo comunitários para elas também foram elencadas.

“Mas também precisamos incluir os homens nos trabalhos domésticos, não só as mulheres nas organizações”, pondera Fátima Landaverde, técnica na área de Gestão Ambiental e Territorial da Associación Colectiva de Mujeres por el Desarollo Local, também presente no evento. “É importante que os homens desenvolvam o olhar de que nas organizações as mulheres são capazes de assumir trabalhos além de secretaria e cuidados, por exemplo. É importante que eles estejam dispostos a ceder nos cargos de direção para eleger mulheres”, completa Fátima.  A Colectiva tem enfoque feminista: “Nossa organização trabalha com formação de mulheres em insumos e comercialização agroecológicos, enfatizando o papel da mulher na Agroecologia”, explica. Sobre o Congreso, ela sugere que se incorpore às discussões também a luta pela defesa dos territórios e das águas empreendida por mulheres.

“Nossa luta é pelo equilíbrio”, afirma Rosa Areval, da ADECIME (Asociación de Mujeres Empreendedoras). De volta ao Congreso, ela defende que “É preciso envolver-se no movimento feminista para que as mulheres possam avançar, mesmo que pouco a pouco. Dar visibilidade ao nosso trabalho e impulsar leis a favor das mulheres”, afirma ela.

É no sentido de envolver também aos homens  na luta pela equidade de gêneros que a FUNDESYRAM promove atividades com grupos de novas masculinidades (nuevas masculinidades). Formando Comitês de Vínculos Solidários em conjunto com associações comunitárias, a Fundesyram realiza rodas de conversa para que eles possam refletir sobre o ciclo da violência contra as mulheres e a paternidade responsável, entender valores e preconceitos impostos pelo machismo que são nocivos para eles e suas famílias e compreender que não há problemas em um homem expressar seus sentimentos e emoções. Melhorias nas relações familiares e compartilhamento de tarefas domésticas são algumas das mudanças relatadas pelos participantes, que também têm a responsabilidade de multiplicar as discussões em suas comunidades. 

“Passei a entender que um homem não precisa passar por cima de uma mulher, pois todos e todas temos as mesmas capacidades”, conta o jovem Marciel López, um dos participantes do Círculo no município de Tabuca, onde a FUNDESYRAM também atua. “E não precisa ser uma mulher para lavar a toupa, varrer a casa ou fazer tortilha. Os homens também têm que fazer isso”, completa ele.

“E as crianças podem brincar com o que quiserem”, acrescenta O agricultor Jorge Hernandez Ramos. Desnaturalizar o ciúme foi outro aprendizado dele nas atividades do Círculo, o que trouxe mais harmonia em suas relações familiares. “Precisamos avançar mais nas comunidades, para que as crianças se sintam cada vez mais protegidas”, afirma Jorge.

A partir das experiências de mulheres e de homens, percebe-se como a AUTO-ORGANIZAÇÃO é fundamental nestes processos. A agricultora Maria Lucrécia Argueta, da Fundação Segundo Monte, de Morazán, concorda: “Que se organizem! Já começamos a unir as mulheres, temos um discurso comum, temos muitos desafios e precisamos nos unir pelo meio ambiente”, afirma ela. Na sua parcela, Maria Lucrécia cultiva frutas, desenvolve técnicas de conservação da água e produz xampus naturais. Saiu de casa às 2h da manhã para chegar a tempo do início do Congreso, mais uma amostra da garra e disposição das mulheres salvadorenhas.

Cepagro promove debate sobre Sistemas Participativos de Garantia

Representantes de Redes de Agroecologia de 8 países latino-americanos e de 5 estados brasileiros  estiveram presentes no debate sobre Certificação Orgânica Participativa: Conexões Latino-Americanas, que aconteceu na tarde da última segunda-feira, 24, no Centro de Ciências Agrárias da UFSC. O evento promovido pelo Cepagro faz parte da programação da Vivência em SPG do projeto Saberes na Prática em Rede, que aconteceu entre 21 e 26 de setembro, com o apoio da Inter-American Foundation, visando ao intercâmbio de experiências em certificação participativa na América Latina.

O debate foi dividido em dois momentos, tratando inicialmente da conjuntura brasileira em Sistemas Participativos de Garantia e em seguida foram apresentadas iniciativas bem sucedidas existentes no México, Paraguai e Brasil. Os palestrantes convidados para a primeira parte foram Virgínia Lira, coordenadora de Agroecologia do Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento, Laércio Meirelles, do Fórum Latino-americano de SPG e Romeu Leite, coordenador do Fórum Brasileiro de SPG.

Virgínia abriu o debate apresentando alguns dados sobre a produção de orgânicos no Brasil atualmente. Porta voz da Agroecologia dentro do Ministério da Agricultura, ela afirmou que, apesar da crise em que nos encontramos, a produção de orgânicos no país não para de crescer, e com isso os Sistemas Participativos de Garantia também avançam.

Em sua fala, Virgínia enalteceu as relações humanas estabelecidas dentro dos SPGs, uma relação que permite a troca de experiências, conhecimentos e a melhoria na produção de orgânicos, uma vez que as dúvidas dos agricultores podem ser sanadas em um diálogo direto e próximo. Nos SPGs, a identidade cultural dos agricultores é respeitada e levada em conta na hora de pensar nos processos da certificação, uma lógica longe de ser atendida pela certificação por auditoria.

Virgínia propôs como desafio a simplificação dos formulários de certificação e deixou como perspectiva para um futuro próximo a aproximação entre Brasil e Chile, após a assinatura do memorando de intenções, que na prática deverá permitir a circulação de certos produtos orgânicos entre os dois países com o mesmo selo de garantia. Atualmente, se um produtor orgânico brasileiro quer comercializar seu produto no Chile, ele precisa contratar uma certificadora que esteja credenciada lá para que o seu produto seja reconhecido pelas normas chilenas, e vice e versa. A futura equivalência dos selos promete abrir portas e baratear os custos da importação para os produtores orgânicos.

Em seguida, Laércio Meirelles assumiu o microfone e contou a história da Certificação Participativa no Brasil, desde a década de 1980. Ele lembrou que os SPGs surgiram pelo desejo de desburocratizar, baratear e dar autonomia aos agricultores, mas infelizmente o reconhecimento da certificação participativa por parte do Estado tem distanciado os SPGs desse objetivo, por burocratizar demais o processo. Segundo Laércio, “a Agroecologia e o Estado não são filhos do mesmo pai e mãe. A Agroecologia é um filho anarquista”, e essa distância dificulta a relação entre ambos. Para ele é preciso haver mais legitimidade social e equilíbrio entre busca por regulamentação e fiscalização.

Romeu LeiteRomeu Leite, do Fórum Brasileiro de SPG e que também é produtor orgânico, retomou no debate o desequilíbrio entre o Estado e as iniciativas de certificação participativa. Na lógica do Estado, através do Ministério da Agricultura, as inconformidades na produção de orgânicos precisam ser punidas, por exemplo, enquanto nos SPGs, essas falhas procuram ser resolvidas com educação e orientação, num diálogo aberto entre produtores e certificadores. “O SPG é um processo social que não tem como objetivo simplesmente gerar um selo de credibilidade orgânica, mas é um processo educativo, de construção coletiva do conhecimento em que agricultores, consumidores e técnicos, todos juntos, vão trocar experiências e construir juntos o conhecimento agroecológico”, conta.

Por fim, ressaltou uma característica única dos SPGs: a possibilidade de adaptação do processo de certificação de acordo com cada realidade local. Um exemplo disso é o que vem acontecendo com as comunidades indígenas do Xingu, primeiro SPG indígena do país. Nesse processo inédito, a formação e os formulários dos agricultores tem um formato muito mais visual, por meio de desenhos que demonstram o plano de manejo e a produção de cada unidade. Um formato que funciona muito melhor para aquela realidade cultural. Segundo Romeu, essa possibilidade de adaptação é importante porque para o perfil do agricultor familiar o excesso de burocracia só atrapalha o avanço dos SPGs. 

Sabendo disso, o coordenador do Fórum Brasileiro de SPG afirmou que a entidade tem discutido a simplificação da documentação para o credenciamento dos agricultores orgânicos, a fim de democratizar ainda mais esse sistema.

Na segunda parte do evento, o público pôde conhecer três SPGs que existem na América Latina. A Tijtoca Nemiliztli, do México, representada pelo agricultor Fernando George Pluma; a Paraguay Orgánico, apresentada pela Daniela Solís e a Rede Ecovida de Agroecologia, representada pela agricultora Tânea Mara Follmann.

Fernando George PlumaFernando e Daniela explicaram o funcionamento das suas redes de SPG e apresentaram o Daniela Solíspanorama da certificação participativa e da produção de orgânicos nos seus países, seus avanços e desafios a serem enfrentados. Com a fala de encerramento, Tânea Mara Follmann, coordenadora do Núcleo Litoral Catarinense da Rede Ecovida,  explicou o funcionamento do processo de certificação na Rede e detalhou o passo a passo para a entrada de

Tânea Mara Follmann

Tânea lembrou também da importância da relação entre os agricultores e grupos da região e ressaltou que antes de ser uma rede de certificação, a Ecovida é uma rede de Agroecologia. Ela concorda que o principal desafio dos SPGs hoje é a questão da documentação necessária para a certificação que por vezes acaba sendo muito extensa. “É cada vez maior a necessidade de comprovar o que você faz e convencer as pessoas de que o que você faz é bom e está dentro de normas. Isso tem estado cada vez mais presente e causa um desgaste em todo o processo, porque é como se te colocassem em dúvida a todo momento”.

Por outro lado, Tânea conta que com as reuniões de grupos, de núcleos e os encontros anuais promovidos pela Rede, os frutos do SPG ultrapassam a certificação: “existem experiências que são trocadas ali onde se aprende muito entre agricultores. O SPG promove uma visibilidade e aproxima os agricultores das pessoas que consomem e gera um movimento muito legal que é, com certeza, uma conquista para os agricultores”. 

A agrônoma Cassiele Lusa Mendes Bley, que atua na Epagri de Antônio Carlos, veio ao debate e conta que conhecer melhor os processos de certificação da Rede Ecovida foi essencial. Atualmente no município é feita somente a certificação por auditoria, mas existe a vontade de criar um grupo de SPG, principalmente depois das últimas mudanças na legislação sobre certificação orgânica, “agora está muito mais rígida principalmente para o pequeno produtor, então eles vem buscar essas informações e a gente tem que ter uma outra alternativa, algo melhor para oferecer”, conta Cassiele.

O Secretário de Agricultura e Meio Ambiente de Antônio Carlos, Osvaldino Gesser, também participou do debate e ressalta a importância de promover a agricultura ecológica através das dinâmicas de SPG junto aos trabalhadores rurais do município. “Temos uma preocupação com a saúde dos nossos agricultores e agricultoras, além do cuidado com o meio-ambiente”, afirma o Secretário, que relata que casos de câncer de pele e depressão têm se tornado cada vez mais comuns em Antônio Carlos.

 

Cepagro recebe delegação latino-americana para debater Sistemas Participativos de Garantia (SPG)

Representantes de organizações do México, Paraguay, Perú, Bolívia, Guatemala, Equador, El Salvador e Colômbia e de mais 6 estados brasileiros estarão em Florianópolis para participar da I Vivência em Sistemas Participativos de Garantia que o Cepagro promove de 21 a 26 de setembro. A atividade tem o objetivo de compartilhar experiências diversas em certificação participativa e SPG, estimulando a troca de conhecimentos sobre estratégias de produção, articulação de famílias e comercialização entre organizações brasileiras e de outros países latino-americanos. A Vivência faz parte do projeto Saberes na Prática em Rede, que tem apoio da Inter-American Foundation.

Basicamente, a certificação participativa num SPG é realizada pelos/as próprios/as agricultores/as. No Brasil, ela tem a mesma legitimidade que a certificação realizada por empresas de auditoria. Um dos principais SPGs brasileiros é o da Rede Ecovida de Agroecologia, que reúne mais de 4 mil famílias de agricultores agroecológicos do Sul do Brasil e inspirou outros sistemas no Brasil e na América Latina.

A programação da Vivência terá momentos abertos ao público, como o debate Certificação Participativa Orgânica: conexões latino-americanas, que acontece na 2ª feira, 24 de setembro, das 14h às 18h no Centro de Ciências Agrárias da UFSC. Na mesa de discussões, estão representantes do Ministério da Agricultura, dos Fóruns Brasileiro e Latinoamericano de SPGs, além de organizações do Paraguay, México e também da Rede Ecovida de Agroecologia. A participação no debate é aberta e gratuita. Para inscrições, clique aqui.

 

Lutas das mulheres e de Povos e Comunidades Tradicionais dão o tom do Encontro de Donatários da IAF no Brasil

O capricho da bolsa de algodão agroecológico produzida pelas mulheres do Quilombo Gurutuba, no Norte de Minas Gerais, distribuída aos participantes do Encontro de Donatários Brasil da IAF, refletia o cuidado e a atenção com que a equipe do Centro de Agricultura Alternativa do Norte de Minas (CAA-NM) organizou o evento, realizado em Montes Claros de 6 a 10 de março. Com foco na temática de Gênero e fomentando a participação de representantes de Povos e Comunidades Tradicionais – indígenas, quilombolas, extrativistas -, o Encontro reuniu cerca de 60 pessoas de 14 estados do Brasil onde a Fundação Inter-Americana (IAF) apoia projetos de desenvolvimento local. O Cepagro esteve presente no evento trocando experiências e também facilitando uma roda de conversa sobre Sistemas Participativos de Garantia (SPG).

A coincidência da data com a Semana da Mulher – em que pautas como violência e igualdade de gênero vêm mais à tona – ressaltou a importância de projetos que promovem a inclusão e o protagonismo de mulheres na parte produtiva, no associativismo, na organização social e na comercialização, como afirma David Ivan Fleischer, representante da IAF no Brasil: “Frente aos crescentes índices de violência contra a mulher e à estagnação dos indicadores de exclusão social delas no Brasil, a gente tem buscado aumentar o número desses projetos para promover mais igualdade entre homens e mulheres”.

A Marcha das Mulheres de Montes Claros entrou na programação do Encontro.

Mais do que apresentar e conhecer experiências, o Encontro também dedicou parte de sua programação à análise de conjuntura e ao debate teórico com enfoque de Gênero. A abertura do evento, por exemplo, foi dedicada à análise do atual contexto sociopolitico do Brasil e seus impactos nas organizações sociais e na participação feminina a partir da análise ou da trajetória de cinco mulheres: Marilene Alves de Souza (CAA), Cláudia Luz (professora da UNIMONTES), Brígida Salgado (da COOPERBIO), Maria de Lourdes Gomes de Lima (CENEP-PB) e Tereza Felipe da Costa, do Movimento Nacional de Catadores de Materiais Recicláveis.

Com diferentes linguagens e baseadas em suas experiências de vida únicas, todas abordaram o tema do atual desmonte de políticas públicas em curso no Brasil, ressaltando a importância da retomar a mobilização social e a participação política da sociedade organizada.

Leninha, do CAA-NM, demonstrou como as organizações da sociedade civil cresceram durante os governos de centro-esquerda com recursos governamentais, através de chamadas e editais públicos. Com a diminuição dessas fontes de financiamento e a saída de muitas cooperações internacionais do país, as organizações têm-se voltado para estratégias em níveis municipais e estaduais, além de estabelecer alianças entre países latino-americanos. “Além disso, não podemos perder a indignação nem a autonomia”, completa.

“Vamos ter que começar tudo de novo, encontrar novas formas de luta para que as próximas gerações possam viver num país democrático”, disse Maria de Lourdes, formada em História e que lutou por décadas pelos direitos políticos de mulheres em sindicatos e outras organizações na Paraíba. Aos 83 anos, Tereza Felipe da Costa faz outro chamado importante: que a juventude se empodere da política. “Não podemos deixar o país nas mãos da 3ª idade”, completou a líder comunitária da Zona Leste de São Paulo.

Tereza Felipe da Costa: “Que golpe é esse? Todos somos responsáveis por ele. Podemos escolher lutar contra. As únicas coisas que não pude escolher na vida foram: nascer mullher, negra e no Brasil.”

Do debate e da troca de experiências para a prática, o segundo dia do Encontro foi dedicado a visitas de campo: nas agroindústrias de processamento de polpas de frutas e de buriti da Cooperativa Grande Sertão e à Área de Experimentação e Formação em Agroecologia do CCA-NM. Fundada em 2003 através de articulação do CAA-NM com um coletivo que se organizava desde 1994, a Cooperativa de Agricultores Familiares e Agroextrativistas Grande teve apoio da IAF para trabalhar o beneficiamento e processamento de frutas nativas. Em 2012, com financiamento do BNDES – o primeiro para empreendimento de agricultura familiar no Brasil – a Cooperativa fundou a planta de processamento de óleos vegetais, cujo carro-chefe é o de buriti. “Inicialmente o financiamento era para produção de biodiesel. Mas então pensamos: por que nao produzir óleo para um alimento diferenciado, ao invés de biodiesel?”, conta José Fábio Soares, agricultor e um dos diretores da Cooperativa.

Atualmente, a cadeia produtiva do buriti articulada pela Cooperativa Grande Sertão envolve cerca de 600 famílias de 10 municípios do Norte de Minas. As famílias cooperadas receberam capacitação para beneficiamento do fruto e fornecem a raspa – matéria-prima para extração do óleo – para a Cooperativa. A empresa de cosméticos Natura é um dos principais parceiros comerciais da Cooperativa. Do buriti, tudo se aproveita: a casca vira ração para os animais e da torta da raspa produz-se farinha.

No caso das frutas nativas, 200 famílias de 26 municípios do Norte de Minas fornecem as colheitas de seus quintais para a Cooperativa Grande Sertão. Nas 8 agroindústrias da Cooperativa são processadas cerca de 250 toneladas de frutas por ano, resultando em 17 sabores de polpas agroecológicas, cujo principal mercado é o Programa Nacional de Alimentação Escolar. A lógica das famílias cooperadas, entretanto, é priorizar a Segurança Alimentar: “Primeiro encher nossas barrigas, depois vender o excedente”, explica Aparecido Alves de Souza, da diretoria da cooperativa. A organização de uma OPAC para certificação das frutas nativas e das polpas é um dos próximos passos da Cooperativa e do CAA.

Na AEFA – que “não é do CAA, é dos agricultores e agricultoras”, como explicou Neucy Fagundes, da equipe técnica da organização – são cultivadas e estudadas mais de 600 espécies de plantas medicinais, além de 16 variedades de milho crioulo (estudo feito em parceria com a EMBRAPA, EMATER e UFMG). A unidade conta também com uma planta de beneficiamento de polpa de frutas e com um banco de sementes crioulas, guardando variedades de feijão, milho, sorgo, amendoim, girassol e favas. “Temos muito cuidado para saber de onde vem as sementes, para evitar contaminações”, explica Antônia Antunes da Silva Reis, secretária-executiva do CAA e moradora do  Quilombo Gurutuba. Além do risco de contaminação por transgênicos, outro desafio enfrentado para preservação das sementes são as mudanças climáticas: nos últimos 5 anos, as alteraçoes no regime das chuvas “faz o agricultor perder o tempo das sementes”, conta Antônia.

Outro momento intenso de trocas de experiências foi na oficina com o mestre de plantas medicinais Honório Dourado, que também integra a diretoria do CAA.

A participação de um grupo de jovens Xakriabá trouxe uma energia especial para a visita. Além de compartilharem seus cantos e danças, as/os jovens fizeram também uma roda de conversa com as/os participantes do Encontro, contando sobre sua luta em defesa de seu território e modos de vida. A população Xakriabá soma cerca de 11 mil pessoas no Norte de Minas Gerais.

 

As jovens lideranças Xakriabá compartilharam toda sua força e energia para seguir na luta pela defesa de seus territórios e modos de vida.

Coisas de mulher, coisas de homem: conversas e oficinas

Com a proposta de introduzir a discussão conceitual sobre relações de gênero, a professora do Curso de História da UNIMONTES Cláudia Maia foi convidada para facilitar uma oficina sobre o tema. Através de dinâmicas e uma apresentação dialogada, a professora construiu com as/os participantes o entendimento de que ser “mulher” ou “homem” – e os comportamentos e características atribuídos a esses sujeitos – é muito mais uma construção cultural e social do que condições naturais. Além disso, ela também explicou a importância de se considerar variáveis como classe social e etnia junto com a de gênero – se as mulheres são discriminadas, por exemplo, as brancas ainda são menos do que as negras. Quanto aos projetos voltados a mulheres, ela chama atenção para relações de poder baseadas no gênero que ainda atribuem o trabalho doméstico às responsabilidade femininas – logo, é preciso transformar essas relações também para não gerar mais sobrecarga para as mulheres. “Trabalhar na perspectiva de Gênero não significa só incluir mulheres em outras dinâmicas produtivas, mas transformar relações de poder”, explica a professora.

Neste sentido, iniciativas como a Campanha pela Divisão Justa do Trabalho colaboram para superar o desafio de conciliar a participação social e a geração de renda entre mulheres com outros afazeres historicamente considerados “femininos”. Essa foi uma das considerações das oficinas sobre ORGANIZAÇÃO SOCIAL COM ENFOQUE DE GÊNERO, uma das temáticas trabalhadas durante o encontro. As outras foram: Mobilização da Juventude e Produção e Comercialização.

 

Cepagro media troca de experiências sobre SPG

Fechando o Encontro, Charles Lamb e Erika Sagae, da equipe técnica do Cepagro, facilitaram uma oficina sobre Sistemas Participativos de Garantia (SPG). Após uma exposição inicial sobre o histórico dos SPGs e as dinâmicas de funcionamento da Rede Ecovida de Agroecologia, foi aberto um espaço para que participantes de diferentes redes de certificação apresentassem um pouco de sua experiência. Gilmar Batista de Souza, da Cooperafloresta; Tânea Mara Follmann, do Núcleo Litoral Catarinense e Paula Cristina dos Santos dos Núcleos Alto Uruguai e Planalto RS da Rede Ecovida de Agroecologia, e Tiago Tombini da Silveira, da Rede Povos da Mata, falaram sobre os desafios e aprendizados de seus grupos nas dinâmicas do SPG, como a certificação de produtos do extrativismo, a lida burocrática e o fortalecimento dos mecanismos de controle social (reuniões e encontros).