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Engenheiros de Farinha de SC promovem encontro em Santo Antônio de Lisboa

??????????Após receber o Prêmio de Boas Práticas em Salvaguarda do Patrimônio Imaterial do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), o Ponto de Cultura Engenhos de Farinha realiza um encontro no Engenho dos Andrade, em Santo Antônio de Lisboa, no próximo sábado, 17 de dezembro. O objetivo do evento é prosseguir qualificando a articulação da Rede de Engenhos Artesanais de Farinha de Santa Catarina, que engloba famílias “engenheiras” desde Imbituba até Bombinhas, passando por Palhoça, Florianópolis e Angelina. As atividades começam às 9h da manhã e vão até às 18h.

O Ponto de Cultura foi uma iniciativa do Cepagro que promoveu ações de valorização dos engenhos artesanais de farinha catarinenses entre 2010 e 2014. No ano passado, ficou em quarto na premiação do IPHAN dentre 121 ações espalhadas pelo Brasil.  Na programação desse reencontro, além de avançar no mapeamento participativo dos Engenhos no Estado, acontece a exibição do documentário Engenhos da Cultura: Teias Agroecológicas e uma roda de conversa sobre os engenhos de farinha e áreas rurais no Plano Diretor de Florianópolis.

Outro ponto importante do encontro – além do cardápio cheio de quitutes de engenho – é a oficina sobre a Política de Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial, com Regina Helena Santiago (IPHAN/SC). Isso porque esta nova fase do Projeto marca a continuidade da mobilização para construir a proposta de Registro dos Engenhos de Farinha como Patrimônio Cultural do Brasil de forma colaborativa entre as várias iniciativas do Estado.

A participação no evento é aberta e gratuita, mas espera-se uma contribuição de R$ 30 para o almoço e café, além da confirmação de presença pelo email engenhosdefarinha@gmail.com até a 5ª feira (15 de dezembro).

SERVIÇO:

O quê: Encontro de Articulação da Rede de Engenhos de Farinha de SC
Quando: Sábado, 17 de dezembro, às 9h
Onde: Casarão e Engenho dos Andrade (Caminho dos Açores, 1180, Santo Antônio de Lisboa).

 

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Engenhos de Farinha: a expressão do Patrimônio Agroalimentar no litoral catarinense

Resultado de uma fusão de saberes e técnicas guaranis e açorianas, os Engenhos Artesanais de farinha de mandioca de Santa Catarina vêm enfrentando desafios para manter sua identidade e modos de fazer tradicionais transmitidos através das gerações em mais de dois séculos de história. De restrições sanitárias para a produção aos impactos da urbanização acelerada em algumas regiões do estado, várias são as pressões sofridas por este complexo agrícola e cultural. Ainda assim, os engenhos continuam rodando, seja como núcleos de educação patrimonial ou como unidades produtivas.

Articulados em rede e apoiados pelo Ponto de Cultura Engenhos de Farinha, estes espaços vêm sendo reavivados com práticas agroecológicas, vivências culturais e turismo de base comunitária. Um exemplo é o processo de certificação participativa da Rede Ecovida, do qual alguns “engenheiros” fazem parte, que além de assegurar a qualidade orgânica dos alimentos produzidos nas propriedades, fortalece e mobiliza o coletivo de agricultores familiares. Outra estratégia é a realização de atividades educativas nos engenhos, que sensibiliza as novas gerações para a importância da preservação dos saberes e sabores dos engenhos.

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Mapa de visitação dos Engenhos – Clique para ampliar

Complementando este desenhar de soluções criativas para a preservação deste patrimônio agroalimentar, o turismo de base comunitária vem se consolidando como uma ferramenta importante para a manutenção da sustentabilidade dos engenhos. Mais do que o simples consumo de paisagens, produtos e serviços, a atividade apresenta-se como uma oportunidade para visitantes e visitados compartilharem vivências culturais e gastronômicas. Visitar um engenho é saborear as histórias de iguarias como o beijú, a bijajica e o cuscus, as técnicas e tradições, ritos e rituais que circulam junto com as engrenagens. É compreender a importância do trabalho destes agricultores familiares para a segurança alimentar da população, contribuindo para o fortalecimento desta rede e preservação desta (agri)cultura. E ainda desfrutar de cenários diversos, que vão das belas praias da costa catarinense e sua tradição açoriana aos vales do interior, onde a influência germânica e italiana é mais presente.

Atenção: Para visitar os Engenhos, é fundamental fazer agendamento (vide contatos no mapa acima).

 

 

Articulação catarinense do Slow Food promoveu Encontro em Florianópolis

por Fernando Angeoletto / Cepagro

No último domingo, 23/03, foram reunidos os Convivia, Fortalezas, Comunidades do Alimentos e demais pontos de articulação do Slow Food catarinense. O evento foi realizado no Camping do Rio Vermelho e organizado pela equipe dos Convivia Engenhos de Farinha e Mata Atlântica. Compareceram aproximadamente 50 pessoas, entre membros articuladores do movimento, chefs de cozinha, nutricionistas, educadores, empreendedores em turismo sustentável e os agentes comunitários da Revolução dos Baldinhos.

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Na seqüência das apresentações iniciais, realizadas no período da manhã, os convidados foram agraciados com um farto almoço agroecológico, preparado pelos chefs do Convivium Mata Atlântica com produtos do Box 721 da Rede Ecovida, pescados artesanais, produtos da comunidade da Farinha de Mandioca Polvilhada, da Fortaleza do Pinhão e de Butiá, suculento fruto de palmeira endêmica do sul do Brasil que agora candidata-se a uma vaga na Arca do Gosto.

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Dentre as pautas da reunião, destacaram-se 2: a composição da delegação estadual para compor o próximo Terra Madre/Salone del Gusto, evento bianual que ocorre na Itália em outubro, e as reflexões sobre as metas traçadas pelo Slow Food Brasil, que agora configura-se como uma associação nacional, atrelada à matriz italiana porém com estrutura e funcionamento próprios.

A participação no Terra Madre mundial é sem dúvida um dos momentos de maior estímulo aos que se dedicam a levar adiante a produção artesanal de alimentos e a conservação da biodiversidade em seus territórios. Na reunião do último domingo, foi esclarecido que qualquer associado Slow Food pode candidatar-se à participação, que é integralmente custeada pelo movimento (passagem, hospedagem e alimentação).

As indicações, porém, são baseadas em alguns critérios determinantes: ser membro de alguma comunidade vinculada a produtos que já compõem ou em vias de compor a Arca do Gosto, possuir potencial de articulação local e nunca ter participado do evento. Esclarecidos os critérios, os participantes da reunião foram informados de que receberiam uma ficha de inscrição na semana corrente, que após preenchida é submetida à análise dos articuladores locais.

Até o momento, 30 produtos brasileiros estão listados na Arca do Gosto. É, sem dúvida, um número tímido diante de nossa biodiversidade e cultura gastronômica. Neste contexto insere-se uma das atuais metas do Slow Food brasileiro: alcançar 1.000 produtos componentes da Arca.

Farinha de mandioca polvilhada de Santa Catarina, bijajica, mel de bracatinga, méis de abelhas nativas e butiá estão na fila para indicação à Arca, somente para citar alguns produtos do nosso território. Durante a reunião, o butiá foi defendido por alguns de seus representantes, os agricultores familiares Antonio Augusto e Lurdes Soares. “Fazemos polpa, geleia e doce de corte. Dentro do coquinho há uma amêndoa muito boa para fazer pães. E ainda se pode fazer artesanato com as folhas da palmeira”, explica dona Lurdes. Um dos encaminhamentos do encontro foi a formação de uma comissão para identificar e realizar os protocolos de indicação dos produtos catarinenses à Arca do Gosto.

Antonio Augusto apresenta o butiá, durante defesa da indicação para Arca do Gosto
Antonio Augusto apresenta o butiá, durante defesa da indicação para Arca do Gosto

Outra meta prioritária do Slow Food nacional é atingir 1.000 pontos de articulação no território brasileiro. Dentre os participantes da reunião, um coletivo com este potencial era a Revolução dos Baldinhos, que já foi representada no Terra Madre Itália de 2010, com 3 agentes comunitários que ministraram oficinas de compostagem para a juventude do movimento. Foi aventada também a criação de um Convivium de pesquisadores e acadêmicos, liderado por Érika Sagae, mestranda em educação do Campo.

Por fim, os líderes brasileiros estão incumbidos em contribuir com a criação de 10 hortas no continente africano, dentre o expressivo número de 10.000 hortas assumido pelo Slow Food mundial. Trata-se, na visão do movimento, de amenizar uma dívida histórica da Europa com a África, além de fortalecer a soberania alimentar no continente, sabidamente ameaçada.

A reunião de domingo contou também com a presença de uma parlamentar, a deputada federal Luci Choinacki (PT), idealizadora da Frente Parlamentar pelo Desenvolvimento da Agroecologia e Produção Orgânica. Sensibilizada com o Slow Food, a deputada comprometeu-se a colaborar com a viabilização da ida de agricultores ao Terra Madre da Itália, já que as vagas financiadas pelo movimento são limitadas.

Deputada Luci Choinacki segura pacote de composto produzido pela Revolução dos Baldinhos, ao lado de agentes comunitários e agricultores
Deputada Luci Choinacki segura pacote de composto produzido pela Revolução dos Baldinhos, ao lado de agentes comunitários e agricultores

A reunião tratou ainda do fortalecimento associativo do Slow Food, com convites a novos futuros membros, que podem vincular-se aos Convivia Engenhos de Farinha e Mata Atlântica ou a Fortaleza do Pinhão catarinenses. Para estimular o consumo local de produtos tradicionais e agroecológicos, foi socializada a lista das Compras Coletivas e a oferta semanal do Box 721 da Rede Ecovida na Ceasa/SC. O próximo evento do coletivo está agendado para maio, em Lages, com oficinas sobre o uso gastronômico do Pinhão e outras atividades que serão divulgadas em breve.

Confira, clicando na foto abaixo, o álbum completo do Encontro Slow Food catarinense.

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Turismo com mais cultura e sabor

texto Ana Carolina Dionísio
foto Fernando Angeoletto, Gabriella Pieroni e Gisa Garcia

 

Compreendido por muito tempo como uma opção recreativa descompromissada para as camadas populares, o turismo social vem se consolidando como uma nova forma de viajar e de ter lazer, voltada mais para vivências baseadas na troca cultural entre visitantes e visitados do que para o simples consumo de paisagens, produtos e serviços. Buscando aprofundar a discussão sobre alternativas para transcender práticas turísticas convencionais e valorizar o aspecto inclusivo e humanista desta atividade, o SESC Florianópolis promoveu nos dias 28 e 29 de outubro a Jornada de Turismo Social, na unidade do Cacupé. O Cepagro e o Ponto de Cultura Engenhos de Farinha estiveram presentes no evento, expondo produtos agroecológicos do Box 721 do Ceasa e dos engenhos, artesanato do Grupo Nosso Espaço – que reúne mulheres da zona rural de Angelina –, e o composto produzido na Revolução dos Baldinhos.

Os chefs Philipe Bellettini e Fabiano Gregório e o produtor José Furtado apresentam os alimentos do café agroecológico
Os chefs Philipe Bellettini e Fabiano Gregório e o produtor José Furtado apresentam os alimentos do café agroecológico
Vários dos alimentos que estavam sendo comercializados – como  frutas, geleias e sucos orgânicos, beiju, bijajica e pão integral – puderam ser degustados no café preparado pelos slow-chefs Fabiano Gregório e Philipe Bellettini, em mais uma parceria do Slow Food com o Ponto de Cultura. Alguns dos produtores destas iguarias estavam presentes, como o casal José e Rose Furtado, que mantêm um engenho de farinha e plantam hortaliças e morango numa propriedade certificada pela Rede Ecovida em Garopaba. Este contato direto entre consumidor e agricultor é valorizado tanto entre os pressupostos da agroecologia quanto nas práticas inovadoras do turismo social.
Flora Castellano, do Ponto de Cultura, e o casal Rose e José Furtado, integrantes da Rede Ecovida de Agroecologia
Flora Castellano, do Ponto de Cultura, e o casal Rose e José Furtado, integrantes da Rede Ecovida de Agroecologia
Uma das iniciativas mais frutíferas neste sentido é a Acolhida na Colônia, associação de agroturismo sediada em Santa Rosa de Lima, nas encostas da Serra Geral catarinense. Fundada em 1999, a Acolhida reúne 180 famílias de agricultores que recebem turistas em propriedades espalhadas por 30 municípios do estado. “Além da melhoria da renda, a valorização do agricultor familiar e o resgate do patrimônio cultural estão entre os benefícios do agroturismo na região”, explica Daniele Gelbcke, uma das representantes da associação no evento. “Eu me encontrei na vida trabalhando com turismo . Eu cresci tendo vergonha de falar que era agricultora, mas isso já não acontece com meu filho, por exemplo”, conta a produtora-acolhedora Leonilda Baumann, de Santa Rosa de Lima. Na sua fala durante a Jornada, Dida, como é conhecida, deixou claro que, apesar do sucesso do empreendimento hospitaleiro no seu sítio, ela não abandonou a atividade agrícola e continua plantando hortaliças, frutas, milho, feijão e batatinha, tanto para consumo próprio quanto dos turistas.
A assessora em economia solidária Miriam Abe Alexandre dá explicações sobre o artesanato em fibras naturais produzido por um grupo de mulheres de Angelina
A assessora em economia solidária Miriam Abe Alexandre dá explicações sobre o artesanato em fibras naturais produzido por um grupo de mulheres de Angelina
“Na agroecologia percebemos a diversificação produtiva como a opção mais viável para os agricultores familiares. Por isso entendemos o turismo como mais uma alternativa, mas não a única, de geração de renda para os proprietários de engenhos”, afirma a coordenadora do Ponto de Cultura Engenhos de Farinha Gabriella Pieroni. As visitas a engenhos artesanais de farinha representam opções promissoras de circuitos turísticos na perspectiva da atividade como uma oportunidade para compartilhar experiências ligadas a cultura, gastronomia e tradições locais – tendência ressaltada durante a palestra da gerente de projetos socioeducativos do SESC-SP Flávia Costa -, e por isso o PdC Engenhos de Farinha vem firmando uma parceria com a Tekoá, operadora de turismo sustentável e de base comunitária de Florianópolis. A gerente Fernanda Carasilo já incluiu vivências em engenhos da Grande Florianópolis em alguns de seus roteiros de ecoturismo e city-tours, que também estavam sendo expostos no SESC. “Agências que trabalham com grupos escolares vieram perguntar sobre os programas, além de muitos guias e condutores ambientais”, diz Fernanda.
Daniele Gelbcke, da Acolhida na Colônia
Daniele Gelbcke, da Acolhida na Colônia

“O potencial dos engenhos é enorme”, afirma Daniele Gelbcke, ressaltando que a organização e articulação entre proprietários é fundamental para que as iniciativas tenham resultados. “As parcerias para turismo pedagógico também são importantes”, completa. Em alguns engenhos da rede dos Pontos de Cultura, a promoção de atividades educativas já é freqüente. No Engenho do Sertão, em Bombinhas, são realizadas oficinas de arte-educação envolvendo aspectos da cultura popular local e percepção ambiental para estudantes de 14 a 18 anos e aulas de antropologia para pós-graduandos em Saúde e Turismo da Univali. No Casarão e Engenho dos Andrade, em Santo Antônio de Lisboa, já foram ministradas oficinas de vídeo e de percepção sensorial de alimentos com alunos da rede pública de educação de Florianópolis. A escola também já foi ao engenho da família Gelsleuchter, em Angelina.

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A formação para valorização do patrimônio histórico e cultural permeia todas estas atividades, que também vêm abordando aspectos de educação alimentar, como nas oficinas realizadas em conjunto com técnicos do Programa Educando com a Horta Escolar e Gastronomia. O desenvolvimento destas metodologias ocorrem no âmbito de um esforço para realizar um inventariamento sobre os engenhos artesanais de farinha visando à salvaguarda  dos seus saberes e modos de fazer como patrimônio imaterial junto ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). No contexto atual de restrições sanitárias e ambientais à produção artesanal de farinha, o registro no IPHAN simboliza um caminho para a sobrevivência desta (agri)cultura. “A salvaguarda, no entanto, deve estar combinada com estratégias de desenvolvimento sustentável para que estes produtores também possam gerar renda a partir da preservação deste patrimônio agroalimentar. Neste sentido, o turismo de base comunitária é uma ferramenta importante”, avalia Gabriella Pieroni.
Clique na imagem abaixo para conferir o álbum completo 
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Fim de semana foi de Farinhadas nos engenhos artesanais

Ao menos 2 Farinhadas foram realizadas no último fim de semana no Litoral Catarinense e arredores.

Ambas foram apoiadas pelo Cepagro e o Ponto de Cultura Engenhos de Farinha, que articula-se com a Rede Ecovida, Iphan e demais parceiros para o reconhecimento da atividade como Patrimônio Imaterial.

No sábado(24/08)  aconteceu a Farinhada de Angelina, em engenho movido à roda d’água, o único com essas características em operação na comunidade rural de Coqueiros.

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Tocadores da região rural de Angelina animaram a festa da Farinhada no bairro Coqueiros (Engenho da Família Gelsleuchter)

Já no domingo (25/08), o tradicional Engenho dos Andrade, localizado em plena Ilha de Santa Catarina e com engrenagens movidas à tração animal, abriu suas portas para uma grande celebração do patrimônio agroalimentar.

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“Engenheiros” unidos: Dico (Engenho da Costa), Claudio (Engenho dos Andrade) e Zezinho (Engenho da Garopaba) durante a Farinhada de Floripa

Em breve, o blog do Ponto de Cultura vai contar todos os detalhes e mostrar os álbuns de fotos dos eventos.

Educação Patrimonial e Alimentar: a Escola vai ao Engenho

Na atividade promovida pelo Ponto de Cultura Engenhos de Farinha no dia 18 de junho, 20 alunos do NEI Maria Salomé dos Santos que participam do Programa Educando com a Horta Escolar e Gastronomia (PEHEG) visitaram o Engenho dos Andrade, em Santo Antônio de Lisboa, Florianópolis. Além de experimentarem novos sabores e aromas durante a “Oficina do Sabor”, eles puderam conhecer um pouco sobre o feitio da farinha de mandioca artesanal, interagindo com histórias e memórias desta (agri)cultura. Estas vivências de espaços e saberes tradicionais dos engenhos fazem parte de metodologias transdisciplinares que estão sendo desenvolvidas para trabalhar temas de educação alimentar e patrimonial no âmbito dos Projetos Político-Pedagógicos da rede pública de ensino e do PEHEG  e que serão sistematizadas numa publicação com lançamento previsto para o final do ano.

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Após a recepção pelo dono do Engenho, o artista plástico Cláudio Andrade, as crianças testaram suas aptidões sensoriais durante a Oficina do Sabor, degustando suco de maracujá, sentindo o aroma do pó de café e tateando pinhão, cenoura, maçã e tangerina, tudo com os olhos vendados, o que lhes aguçou os sentidos. “Foi muito interessante ver o interesse das crianças e como algumas apresentam maior conhecimento sobre as frutas e os legumes”, afirma a mestranda em Agroecossistemas Flora Castellano, que ministrou a oficina junto com o chef Fabiano Gregório, integrante do Movimento Slow Food e dos Convivia Mata Atlântica e Engenhos de Farinha. A engenheira agrônoma Karina de Lorenzi também acompanhou o grupo, auxiliando na coordenação das atividades.

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Os meninos e meninas, todos com até 5 anos, também saborearam um café da manhã com salada de frutas (algumas orgânicas), pão, geléias e bijajica de produtores da rede de engenhos do Ponto de Cultura, além de suco de maçã da Rede Ecovida. Durante o café foram realizados alguns comentários sobre a procedência e qualidade dos produtos servidos.

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A próxima atividade foi uma pequena demonstração do processamento da mandioca no engenho, em que Cláudio ensinou como se rala manualmente a mandioca para fazer a farinha, trazendo um boi para dentro do engenho para coloca-lo em funcionamento. “As crianças ficaram curiosas com a massa da mandioca ralada, mas gostaram mesmo é de ver de perto um boi tão grande e bonito”, disse Flora.

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Clique na imagem abaixo para ver o álbum completo da atividade.

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Patrimônio Agroalimentar em Debate II mostra que os engenhos de farinha não morreram

Esta foi a tônica da intensa troca de saberes, experiências e até mesmo receitas que marcou a segunda edição do evento, realizado na última quarta (15/05) no Museu Comunitário Engenho do Sertão, em Bombinhas, integrando a programação da Semana Nacional de Museus. Promovido pelo Cepagro através do Ponto de Cultura Engenhos de Farinha, em parceria com a ONG Instituto Boi Mamão, o evento reuniu representantes do poder público e da Epagri, acadêmicos, estudantes de Ensino Médio e mestres de engenhos locais. Nesta etapa, as atividades estiveram focadas na farinha e outros derivados da mandioca produzidos nestes espaços que continuam vivos: os engenhos artesanais.

por Ana Carolina Dionísio – Cepagro

O evento reuniu representantes do poder público, da Epagri, estudantes, acadêmicos e mestres de engenhos da região
O evento reuniu representantes do poder público, da Epagri, estudantes, acadêmicos e mestres de engenhos da região

Antes de começarem a discutir questões relativas aos engenhos, como a sua importância tanto para a preservação da memória e dos saberes tradicionais ligados à gastronomia quanto como atividade econômica, os participantes visitaram duas unidades produtivas, que neste mês já estavam em plena ação. Uma das anfitriãs foi D. Rosa Melo, proprietária de um engenho artesanal em que algumas técnicas tradicionais de preparação e o processamento da matéria prima são mantidas, como a prensa manual de fuso para desidratar a massa da mandioca. Além da produção para a subsistência, D. Rosa também vende farinha para quatro localidades da região. Nas fases de raspagem e lavagem das raízes, feitas manualmente, ela conta com a ajuda de várias mulheres dos bairros vizinhos, que vêm trabalhar ali em troca de massa para beiju, outro processado do engenho. De acordo com Gabriella Pieroni, coordenadora do Ponto de Cultura Engenhos de Farinha, este tipo de vivência comunitária aliada ao interesse pelo produto demonstra a relevância que os engenhos continuam tendo localmente: “Os engenhos não morreram porque os produtos e processados não saíram da mesa das pessoas”, afirma.

Nas rodas de bate-papo das visitas aos engenhos, muito diálogo de saberes e experiências
Nas rodas de bate-papo das visitas aos engenhos, muito diálogo de saberes e experiências

Entre a visita aos engenhos e as apresentações do painel Os Engenhos de Farinha não morreram, a segunda atividade do dia, um delicioso almoço foi servido no Engenho do Sertão, preparado no fogo a lenha por Salete Pinheiro, Rosa Melo, Darci, Rosete e Rosane Fritsch com matérias primas locais: mariscos, cação e a farinha para o pirão. A prefeita de Bombinhas, Ana Paula da Silva, estava presente e demonstrou a abertura da gestão atual para fomentar ações de apoio à manutenção dos engenhos, seja do ponto de vista econômico ou enquanto espaços de preservação da cultura local.

Pausa para o almoço preparada no fogão a lenha com matérias primas locais
Pausa para o almoço preparado no fogão a lenha com matérias primas locais

Após o almoço, com a chegada de mestres produtores de farinha, a presidente da Fundação Municipal de Cultura Nivea Maria Bücker abriu o debate ressaltando a importância de conhecer a história da nossa tradição gastronômica para saber mais da cultura local. “É claro que o produto final – seja uma tainha assada ou um beiju – é muito bom, mas quando a gente agrega esse valor da história ou da herança destes alimentos, fica melhor ainda”, disse. Exemplos da valorização de matérias primas tradicionais, como a mandioca e o berbigão, aparecem no curta-metragem “Litoral Catarinense”, apresentado no evento. O vídeo, focado nos engenhos de farinha e reservas de pesca artesanais, representou Santa Catarina na Expo Movil do Terra Madre, encontro internacional do movimento Slow Food realizado na Itália em outubro do ano passado.

Rosane Lutchemberg, presidente do Instituto Boi Mamão e coordenadora do Museu Comunitário Engenho do Sertão, deu continuidade ao painel após a exibição do curta, questionando uma matéria do Jornal da Assembleia Legislativa de 2004 intitulada Os engenhos de farinha estão morrendo. “Pra nós, eles estão muito vivos. Quando fizemos um mapeamento dos engenhos na região em 1999, havia 9 em funcionamento. Dez anos depois, em um levantamento da Fundação Municipal de Cultura, foram registrados 13”, afirma a gestora de projetos. O próprio Engenho do Sertão, adquirido por Rosane em 1997 e cadastrado como Museu Comunitário em 2007, é um exemplo de como estes espaços podem continuar ativos, ainda que sua função produtiva e econômica tenha entrado em declínio, como destaca Fernanda Silva, neta de José Amândio da Silva, antigo proprietário do local: “Há engenhos de farinha e há pessoas que se preocupam em preservá-los. O engenho do meu avô José Amândio hoje é o Museu Comunitário Engenho do Sertão, onde muita gente vai conhecer um pouco da nossa cultura”. Uma dessas pessoas é o estudante André Cordeiro, do Curso Profissionalizante em Turismo da EBM Maria Rita Flor, que participou do evento e relata que “Agora a gente está sabendo que eles não estão deixando que a cultura morra, que estão passando para os alunos, para a comunidade, uma coisa que eles faziam antigamente e que o pessoal acha que está morrendo”.

Rosane Lutchemberg rememorou a tradição da farinha de mandioca em Bombinhas destacando os proprietários de engenhos artesanais
Rosane Lutchemberg rememora a tradição dos engenhos artesanais em Bombinhas , sendo que alguns estavam presentes no painel

Assim, constituir um atrativo turístico é apenas uma dentre as várias funções do Museu, onde também são realizadas oficinas de arte-educação envolvendo aspectos da cultura popular local e percepção ambiental para estudantes de 14 a 18 anos e aulas de antropologia para pós-graduandos da Univali.  Ao ver mestres de engenho reunidos ali, Rosane completa: “Este museu é de vocês. Vocês estão se reapropriando do que é de vocês de direito”.

Além de atrativo turístico, o Museu Comunitário Engenho do Sertão também é um espaço de educação patrimonial e ambiental
Além de atrativo turístico, o Museu Comunitário Engenho do Sertão também é um espaço de educação patrimonial e ambiental

Enquanto a promoção de atividades educativas nos engenhos é um estímulo para a participação comunitária nestes espaços, a realização de intercâmbios entre proprietários destas unidades constitui uma oportunidade para trocar experiências e buscar soluções para obstáculos e limitações enfrentadas pelos processadores artesanais de mandioca ligados, por exemplo, à legislação sanitária e à comercialização dos produtos, de acordo com Gabriella Pieroni. Na sua fala, ela apresentou o projeto Ponto de Cultura Engenhos de Farinha, que já realizou um mapeamento dos engenhos no Litoral Catarinense e vem fomentando encontros entre membros destas comunidades, além de oficinas de mídia-educação e obras de melhoramento na estrutura física de algumas propriedades. Outro eixo de trabalho do projeto é a articulação com o movimento Slow Food e o Convivium Mata Atlântica, grupo de gastrônomos-expedicionários que viajam pelo Brasil buscando valorizar matérias-primas regionais. Isso porque o reconhecimento gastronômico da farinha de mandioca polvilhada de Santa Catarina pode abrir um canal de comercialização do produto e, consequentemente, de fortalecimento da produção artesanal e familiar deste item no estado. A coordenadora do projeto finalizou sua intervenção convidando a todos os mestres de Bombinhas e região a participarem das atividades, iniciativa apoiada pela presidente da Fundação Municipal de Cultura Nívea Bücker.

Gabriella Pieroni apresenta os eixos de trabalho do projeto "Ponto de Cultura Engenhos de Farinha"
Gabriella Pieroni apresenta os eixos de trabalho do projeto “Ponto de Cultura Engenhos de Farinha”

As diversas relações entre cultura gastronômica e patrimônio cultural continuaram permeando a conversa no Engenho, desta vez conduzida pela professora do Programa de Pós-Graduação em Turismo e Hotelaria da Univali Yolanda Flores e Silva. Antropóloga de formação, a acadêmica realiza uma parte das suas aulas no próprio engenho, tentando, assim, “trazer saberes tradicionais para a sala de aula, através de visitas dos estudantes a locais como este”, explica. Estas visitas sempre incluem uma refeição preparada no próprio engenho, com ingredientes locais. Através destas vivências antropológico-gastronômicas, a professora busca chamar a atenção dos estudantes para a valorização “das pessoas que alimentam o mundo: os agricultores e pescadores”, diz. Nestas dinâmicas, Yolanda trabalha com a noção de “pertencimento cultural”, baseada no conhecimento da história e cultura locais. “Pertencer a um lugar como Bombinhas é, então, conhecer os engenhos”, conclui.

Yolanda Flores e Silva: "Não é porque a gente vira doutor que tem que esquecer que come farinha de mandioca".
Yolanda Flores e Silva: “Não é porque a gente vira doutor que tem que esquecer que come farinha de mandioca”.

Uma das orientandas de Yolanda é a nutricionista Hellany Brum, que está desenvolvendo sua dissertação de mestrado com as famílias de Bombinhas no contexto da preservação da cultura local como um novo segmento turístico. Ela apresentou seu projeto de pesquisa durante o evento, mostrando como a integração com universidades pode ser outra opção de apoio à manutenção de atividades nos engenhos.

A importância de agregar a pesquisa e extensão universitárias a outras iniciativas nestes espaços já fora apontada pelo engenheiro agrônomo da Epagri Enilto Neubert na primeira edição de Patrimônio Agroalimentar em Debate, em março deste ano. Ele participou novamente nesta segunda rodada, trazendo dados que indicam uma crescente revalorização da mandioca. Além de fazer um levantamento que encontrou 350 engenhos em funcionamento em Santa Catarina, Enilto citou pesquisas que demonstram diversas propriedades nutricionais da mandioca. O engenheiro elencou mais alguns tópicos relevantes para a discussão do tema que entraram em consonância com a fala de Gabriella, como manter o horizonte da geração de renda e da valorização do trabalho dos agricultores, lembrando também da necessidade de socializar as agendas para promover encontros entre as comunidades produtoras .

O engenheiro agrônomo Enilto Neubert, da Epagri, apresenta dados que reforçam a ideia de que os engenhos de farinha não morreram.
O engenheiro agrônomo Enilto Neubert, da Epagri, apresenta dados que reforçam a ideia de que os engenhos de farinha não morreram.

Outro palestrante do evento anterior que também veio a  Bombinhas foi Cláudio Andrade, proprietário do Engenho dos Andrade, no bairro de Santo Antônio de Lisboa, em Florianópolis. O artista plástico e historiador auto-didata expôs as diversas atividades educativas desenvolvidas em seu engenho, tombado como Patrimônio Histórico Municipal: oficinas de teatro, vídeo, contação de histórias e passeios de carro-de-boi. De acordo com Cláudio, mais de mil crianças já visitaram o local em 2013. Para ele, “o engenho deveria ser um bem tombado em cada município”, dada a sua relevância para a preservação da memória local.

Para fechar o painel, a intervenção especial de D. Rosa Melo, uma das mestres de engenho presentes. Rememorando a rotina de trabalho árduo iniciada na infância, ela fez um testemunho detalhado dos tempos em que a farinha de mandioca constituía uma das principais fontes de renda da região, como na década de 60: “Teve ano em que fizemos até 60 sacos de farinha. Foi uma luta. Nós, mulheres, chegava a inchar os pulsos de tanto raspar mandioca”. Ela conta que, sem água encanada nem energia elétrica, “era tudo muito duro naquele tempo. Mas eu não enjeitei não. Lutei, lutei e lutei”.

"Era tudo muito duro naquele tempo", afirma D. Rosa de Melo sobre a época em que a farinha de mandioca era uma das principais fontes de renda locais
“Era tudo muito duro naquele tempo”, afirma D. Rosa de Melo sobre a época em que a farinha de mandioca era uma das principais fontes de renda locais

Além das receitas com mandioca e milho que coloriram a mesa do café do evento – coruja (rosca de polvilho), nego deitado com banana (bolo de fubá na folha de bananeira), pudim de aipim na folha, beiju e bolo de aipim com coco –,  a herança dos tempos narrados por D. Rosa foi reavivada com uma roda de ratoeira formada pelas mulheres que estavam ali. O refrão “Ratoeira bem cantada faz chorar, faz padecer/Também faz o triste amante de seu amor esquecer” foi acompanhado também por alguns homens, emocionando a todo o público.

“Ratoeira bem cantada faz chorar, faz padecer Também faz o triste amante de seu amor esquecer”
“Ratoeira bem cantada faz chorar, faz padecer
Também faz o triste amante de seu amor esquecer”

Clique na imagem abaixo para conferir o álbum de fotos completo

Nego deitado, cabeça de gato, beiju:  herança cultural e gastronômica na mesa do café
Nego deitado, coruja, beiju: herança cultural e gastronômica na mesa do café