Arquivo da tag: Engenhos de Farinha

Cepagro é contemplado no Edital Elisabete Anderle de Estímulo à Cultura

A proposta do livro de receitas Saberes, Sabores e Histórias dos Engenhos de Farinha foi selecionada dentre outros 1.800 projetos inscritos em 2017. O projeto do Cepagro foi contemplado na categoria Culturas Populares e tem o objetivo de promover, através de eventos gastronômicos e da publicação de um livro de receitas, o patrimônio agroalimentar e biocultural dos engenhos de farinha de Santa Catarina. A iniciativa dá continuidade à mobilização junto aos engenhos de farinha artesanais de Santa Catarina que o Cepagro – através do Ponto de Cultura Engenhos de Farinha – vem retomando desde final do ano passado.

 

 

 

Anúncios

Engenhos artesanais de Santa Catarina realizam Encontro em Garopaba

Realizado no último domingo, 2 de abril, o III Encontro da Rede de Engenhos Artesanais de Santa Catarina integra um ciclo de eventos viabilizados com recursos do Prêmio de Boas Práticas em Salvaguarda do Patrimônio Imaterial, concedido pelo IPHAN ao Cepagro em 2015, pelo trabalho realizado no Ponto de Cultura Engenhos de Farinha, projeto que entre 2010 e 2014 promoveu diversas ações de valorização do patrimônio agroalimentar e cultural representado pelos engenhos de farinha catarinenses, através do Programa Cultura Viva, do Ministério da Cultura. 

texto e foto: Ana Carolina Dionísio (Cepagro)

Passava um pouco das 9h da manhã quando parte da equipe do Ponto de Cultura Engenhos de Farinha chegou ao Engenho do Ademir, uma casa de madeira com chão batido numa encosta de morro na comunidade da Costa do Macacu, em Garopaba. Ao entrar no engenho, deixaram pra trás a bela paisagem da Praia do Siriú para encontrar o café posto na mesa e o proprietário do local, Ademir Rosalino, pilotando o fogão a lenha na preparação do almoço. “Fazer comida pra 40, 50 pessoas não me preocupa. Mas é que aqui é casa de engenho, depois da farinhada a gente só amontoa tudo num canto, aí fica tudo bagunçado”, desculpa-se o agricultor de 57 anos. Junto com as famílias dos 8 irmãos e outras 2 de vizinhos, ele continua fazendo farinha no engenho – antes propriedade do seu pai e do seu tio – “só por farra”. Nessa brincadeira, na farinhada do ano passado foram processadas ali cerca de 25 toneladas de mandioca, que renderam 52 sacos de farinha, ou 2.340 kilos. “Aí quando termina a farinhada é aquele chororô. Até me ofereceram um engenho pra comprar, mas eu não quis. Prefiro vir aqui com eles”, conta a agricultora Alice Gonçalves Vieira, vizinha de Ademir e parceira imprescindível nas farinhadas.

Ademir e Alice, vizinhos e parceiros de farinhadas

Com a ajuda da família e dos vizinhos, Ademir conseguiu deixar o engenho organizado para o III Encontro da Rede de Engenhos Artesanais de Santa Catarina, que aconteceu ali no último domingo, 2 de abril, promovido pelo Ponto de Cultura Engenhos de Farinha, com apoio também do Projeto Misereor em Rede, articulado pelo Cepagro. Os coxos e o cevador foram acomodados próximos às paredes, os balaios e alqueires (caixas de madeira para medir o volume de farinha) empilhados num canto e as ferramentas acomodadas dentro do forno para ceder espaço a engenheiros e engenheiras da mandioca de Garopaba, Biguaçu, Imbituba, Palhoça e Florianópolis, além do Secretário de Turismo de Garopaba, membros do Movimento Slow Food e outros parceiros e entusiastas da iniciativa, como o historiador Francisco do Valle Pereira (NEA-UFSC) e a antropóloga Alessandra Schmitt (da ONG AMA-Garopaba). De acordo com a educadora Giselle Miotto, que colabora na articulação da Rede e ajudou na facilitação do evento, o Encontro tinha o objetivo de “fortalecer a Rede, que será a base para trabalhar a proposta de registro junto ao IPHAN mais adiante”, referindo-se à construção coletiva e participativa de um dossiê para chancelar os engenhos de farinha como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil.

Buscando esse fortalecimento da Rede, as atividades começaram com a engenheira agrônoma Flora Castellano, do Projeto Slow Food-UFSC-MDA, apresentando uma linha do tempo da Rede de Engenhos, cujos primórdios remontam aos trabalhos do Ponto de Cultura Engenhos de Farinha, projeto que entre 2010 e 2014 promoveu diversas ações de valorização do patrimônio agroalimentar e cultural representado pelos engenhos através do Programa Cultura Viva, do Ministério da Cultura. Na sequência, a agricultora Catarina Gelsleuchter, proprietária de um engenho em Angelina (SC), falou sobre sua experiência na Rede Ecovida de Agroecologia, para trazer aos participantes um pouco do que é integrar um coletivo com esse caráter. “Me sinto outra pessoa, pois sabemos que não estamos sozinhos. Agora também falamos com mais orgulho que somos agricultores”, contou Catarina.

Se pensar os objetivos da Rede é fundamental para seu fortalecimento, refletir sobre as motivações das pessoas para vir ao próprio Encontro é um dos passos iniciais. A partir do que já havia sido apontado nos Encontros anteriores, a equipe do PdC sistematizou as motivações das pessoas, que serviu de ponto de partida para a reflexão do domingo. Tradição, paixão e resistência foram evocadas várias vezes, assim como os impasses vividos pelos engenheiros e engenheiras artesanais.

Um dos principais é quanto às restrições sanitárias sofridas pela farinha de mandioca produzida artesanalmente, o que inclusive barra a certificação orgânica desses produtos. Para obter um selo “Orgânico Brasil” do Ministério da Agricultura, os engenhos teriam que enquadrar-se nos parâmetros de agroindústrias normais, com adequações na infra-estrutura e processos produtivos. “Nem temos interesse em ter essa certificação oficial, pois isso descaracterizaria o nosso produto”, afirma Catarina Gelsleuchter. Na lógica sanitarista, os saberes tradicionais de forneiro artesanal do seu marido, Celso Gelsleuchter, por exemplo, pouca importância teriam. Marlene Borges, da Associação Comunitária Rural de

A agricultora Catarina Gelsleuchter fala sobre sua vivência na Rede Ecovida de Agroecologia.

Imbituba (ACORDI), pondera que “a rigidez sanitária chega a alguns absurdos, principalmente quanto a edificação. Mas a questão sanitária é importante. Às vezes são pequenos pontos que podemos nos orientar para regularizar o produto. Não dá pra fugir do

problema, tem que enfrentar. Mas não é porque uma construção é rústica que não tem higiene”. Luiz Farias, também da ACORDI, concorda: “Não importa se o Engenho é de tábua ou não, tem que estar limpo”. Para José Antônio Furtado, o Zezinho, proprietário de um engenho na Garopaba e membro da Rede Ecovida de Agroecologia, “o importante é a certificação na roça, da matéria-prima”. Joaquim Pereira de Souza, o Biluca, dono de um engenho e alambique de cachaça também no Macacu, concorda com Zezinho: “Olham pra azulejo, pra fábrica, pra o que é moderno, mas não pra matéria prima. O conjunto da obra é que é importante, se tem veneno na roça de mandioca ou não, por exemplo”.

A professora Jaqueline Prudêncio, o agricultor Luiz Farias e o historiador Francisco do Vale Pereira durante o Encontro.

Neste sentido, as iniciativas do Movimento Slow Food em construir as Fortalezas do Alimento – projetos que visam conservar um produto ou sua técnica de produção tradicional em risco de extinção – pode ser uma alternativa para certificar a farinha de mandioca artesanal sem implicar na descaracterização do seu processo produtivo. “É o reconhecimento de produtos que não

necessariamente se enquadram nos padrões sanitários”, explicou Flora Castellano. A regularização ou certificação da farinha de mandioca toca em outro ponto bastante discutido no encontro: a comercialização dos produtos dos engenhos. Divididos em grupos temáticos, os participantes debateram estratégias de fortalecimento deste eixo, assim como o turismo, a questão fundiária e a educação e cultura.

No âmbito da comercialização, a alimentação escolar foi considerada como um canal importante para escoar os produtos dos engenhos, como sugerido pelo Secretário de Turismo de Garopaba, Jackson Sena. Outros temas, como a formação de preço em rede, a possibilidade de um selo territorial ou de qualidade ligada à tradicionalidade e o criação de circuitos culturais-gastronômicos também foram levantados. De acordo com os participantes, a demanda por farinha de mandioca artesanal está em alta: “Estão procurando demais”, avalia Biluca.

O facilitador Pedro Xavier da Silva, do Projeto Slow Food-UFSC-MDA apresenta as sugestões do eixo temático de Turismo.

No caso dos engenhos, a comercialização vai de mãos dadas com o turismo. “O turista que visita os engenhos também pode ser uma avaliador dos produtos, se criamos esse laço de amizade com os clientes”, considerou Catarina Gelsleuchter. A partir do exemplo da Rota da Baleia Franca, no litoral sul do estado, e da Acolhida na Colônia, nas Encostas da Serra, os e as participantes ressaltaram a importância de que este turismo seja de base cultural e comunitária, o que pode demandar uma preparação e capacitação dos engenhos para receber o público. Se por um lado temos exemplos de engenhos valorizados por suas edificações e patrimônio material, como o Casarão e Engenho dos Andrade, em Florianópolis, por outro o saber-fazer que envolve os engenhos em atividade – da escolha das variedades de mandioca e a influência destas na qualidade da farinha ao ponto da torra no forno – também pode constituir um atrativo cultural.

Um dos temas mais delicados e com mais especificidades na discussão é quanto à questão fundiária, com uma diversidade de situações abarcando os engenhos da Rede, conforme foi sintetizado pelo facilitador Alexandre Pires Lage, da equipe do PdC (foto). A ACORDI, por exemplo, encontra-se em uma área comunal que há anos vem resistindo a especulação imobiliária e a mega-projetos de “desenvolvimento” que buscam expropriar as terras dxs agricultorxs e trazem pesados impactos socioambientais para todo território. Já os engenhos da Ilha de Santa Catarina sofrem com a falta de terras para o cultivo de mandioca, pois as áreas rurais deixaram de ser consideradas no novo Plano Diretor. Para construir estratégias de atuação nesses contextos, os participantes tiraram como encaminhamento realizar um estudo sobre os Planos Diretores dos municípios e também buscar assessoria jurídica para ter esclarecimentos sobre seus direitos.

Como tema transversal a todos estão a Educação e a Cultura, como apontou a facilitadora Manuela Braganholo, também da equipe PdC Engenhos de Farinha. Nessa ponte entre escola e engenhos, tanto a alimentação escolar pode ser um canal de escoamento para os derivados da mandioca, quanto os próprios engenhos configuram espaços de aprendizagem. Atividades práticas para colocar as mãos na massa e na terra, produção de cartilhas e livros de receitas e um mapeamento dos mestres de engenho foram algumas das ações apontadas para fortalecer este eixo no âmbito da Rede.

Os recursos do Prêmio do IPHAN que vinham financiando os eventos já estão terminando, sendo suficientes para mais um encontro da Rede, que acontecerá na propriedade da família Gelsleuchter, em Angelina (SC), no final de maio ou início de junho. Mesmo sem a garantia de apoio financeiro, os/as membros da Rede continuam motivadxs a continuar encontrando-se para fortalecer seus nós e laços, mostrando na prática como os engenhos são movidos por paixão e resistência.

Mandioca neles!

Engenheiros de Farinha de SC promovem encontro em Santo Antônio de Lisboa

??????????Após receber o Prêmio de Boas Práticas em Salvaguarda do Patrimônio Imaterial do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), o Ponto de Cultura Engenhos de Farinha realiza um encontro no Engenho dos Andrade, em Santo Antônio de Lisboa, no próximo sábado, 17 de dezembro. O objetivo do evento é prosseguir qualificando a articulação da Rede de Engenhos Artesanais de Farinha de Santa Catarina, que engloba famílias “engenheiras” desde Imbituba até Bombinhas, passando por Palhoça, Florianópolis e Angelina. As atividades começam às 9h da manhã e vão até às 18h.

O Ponto de Cultura foi uma iniciativa do Cepagro que promoveu ações de valorização dos engenhos artesanais de farinha catarinenses entre 2010 e 2014. No ano passado, ficou em quarto na premiação do IPHAN dentre 121 ações espalhadas pelo Brasil.  Na programação desse reencontro, além de avançar no mapeamento participativo dos Engenhos no Estado, acontece a exibição do documentário Engenhos da Cultura: Teias Agroecológicas e uma roda de conversa sobre os engenhos de farinha e áreas rurais no Plano Diretor de Florianópolis.

Outro ponto importante do encontro – além do cardápio cheio de quitutes de engenho – é a oficina sobre a Política de Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial, com Regina Helena Santiago (IPHAN/SC). Isso porque esta nova fase do Projeto marca a continuidade da mobilização para construir a proposta de Registro dos Engenhos de Farinha como Patrimônio Cultural do Brasil de forma colaborativa entre as várias iniciativas do Estado.

A participação no evento é aberta e gratuita, mas espera-se uma contribuição de R$ 30 para o almoço e café, além da confirmação de presença pelo email engenhosdefarinha@gmail.com até a 5ª feira (15 de dezembro).

SERVIÇO:

O quê: Encontro de Articulação da Rede de Engenhos de Farinha de SC
Quando: Sábado, 17 de dezembro, às 9h
Onde: Casarão e Engenho dos Andrade (Caminho dos Açores, 1180, Santo Antônio de Lisboa).

 

Engenhos de Farinha: a expressão do Patrimônio Agroalimentar no litoral catarinense

Resultado de uma fusão de saberes e técnicas guaranis e açorianas, os Engenhos Artesanais de farinha de mandioca de Santa Catarina vêm enfrentando desafios para manter sua identidade e modos de fazer tradicionais transmitidos através das gerações em mais de dois séculos de história. De restrições sanitárias para a produção aos impactos da urbanização acelerada em algumas regiões do estado, várias são as pressões sofridas por este complexo agrícola e cultural. Ainda assim, os engenhos continuam rodando, seja como núcleos de educação patrimonial ou como unidades produtivas.

Articulados em rede e apoiados pelo Ponto de Cultura Engenhos de Farinha, estes espaços vêm sendo reavivados com práticas agroecológicas, vivências culturais e turismo de base comunitária. Um exemplo é o processo de certificação participativa da Rede Ecovida, do qual alguns “engenheiros” fazem parte, que além de assegurar a qualidade orgânica dos alimentos produzidos nas propriedades, fortalece e mobiliza o coletivo de agricultores familiares. Outra estratégia é a realização de atividades educativas nos engenhos, que sensibiliza as novas gerações para a importância da preservação dos saberes e sabores dos engenhos.

mapa-arte-ENGENHOS_2014
Mapa de visitação dos Engenhos – Clique para ampliar

Complementando este desenhar de soluções criativas para a preservação deste patrimônio agroalimentar, o turismo de base comunitária vem se consolidando como uma ferramenta importante para a manutenção da sustentabilidade dos engenhos. Mais do que o simples consumo de paisagens, produtos e serviços, a atividade apresenta-se como uma oportunidade para visitantes e visitados compartilharem vivências culturais e gastronômicas. Visitar um engenho é saborear as histórias de iguarias como o beijú, a bijajica e o cuscus, as técnicas e tradições, ritos e rituais que circulam junto com as engrenagens. É compreender a importância do trabalho destes agricultores familiares para a segurança alimentar da população, contribuindo para o fortalecimento desta rede e preservação desta (agri)cultura. E ainda desfrutar de cenários diversos, que vão das belas praias da costa catarinense e sua tradição açoriana aos vales do interior, onde a influência germânica e italiana é mais presente.

Atenção: Para visitar os Engenhos, é fundamental fazer agendamento (vide contatos no mapa acima).

 

 

Articulação catarinense do Slow Food promoveu Encontro em Florianópolis

por Fernando Angeoletto / Cepagro

No último domingo, 23/03, foram reunidos os Convivia, Fortalezas, Comunidades do Alimentos e demais pontos de articulação do Slow Food catarinense. O evento foi realizado no Camping do Rio Vermelho e organizado pela equipe dos Convivia Engenhos de Farinha e Mata Atlântica. Compareceram aproximadamente 50 pessoas, entre membros articuladores do movimento, chefs de cozinha, nutricionistas, educadores, empreendedores em turismo sustentável e os agentes comunitários da Revolução dos Baldinhos.

DSC_0226

Na seqüência das apresentações iniciais, realizadas no período da manhã, os convidados foram agraciados com um farto almoço agroecológico, preparado pelos chefs do Convivium Mata Atlântica com produtos do Box 721 da Rede Ecovida, pescados artesanais, produtos da comunidade da Farinha de Mandioca Polvilhada, da Fortaleza do Pinhão e de Butiá, suculento fruto de palmeira endêmica do sul do Brasil que agora candidata-se a uma vaga na Arca do Gosto.

DSC_0259

 

Dentre as pautas da reunião, destacaram-se 2: a composição da delegação estadual para compor o próximo Terra Madre/Salone del Gusto, evento bianual que ocorre na Itália em outubro, e as reflexões sobre as metas traçadas pelo Slow Food Brasil, que agora configura-se como uma associação nacional, atrelada à matriz italiana porém com estrutura e funcionamento próprios.

A participação no Terra Madre mundial é sem dúvida um dos momentos de maior estímulo aos que se dedicam a levar adiante a produção artesanal de alimentos e a conservação da biodiversidade em seus territórios. Na reunião do último domingo, foi esclarecido que qualquer associado Slow Food pode candidatar-se à participação, que é integralmente custeada pelo movimento (passagem, hospedagem e alimentação).

As indicações, porém, são baseadas em alguns critérios determinantes: ser membro de alguma comunidade vinculada a produtos que já compõem ou em vias de compor a Arca do Gosto, possuir potencial de articulação local e nunca ter participado do evento. Esclarecidos os critérios, os participantes da reunião foram informados de que receberiam uma ficha de inscrição na semana corrente, que após preenchida é submetida à análise dos articuladores locais.

Até o momento, 30 produtos brasileiros estão listados na Arca do Gosto. É, sem dúvida, um número tímido diante de nossa biodiversidade e cultura gastronômica. Neste contexto insere-se uma das atuais metas do Slow Food brasileiro: alcançar 1.000 produtos componentes da Arca.

Farinha de mandioca polvilhada de Santa Catarina, bijajica, mel de bracatinga, méis de abelhas nativas e butiá estão na fila para indicação à Arca, somente para citar alguns produtos do nosso território. Durante a reunião, o butiá foi defendido por alguns de seus representantes, os agricultores familiares Antonio Augusto e Lurdes Soares. “Fazemos polpa, geleia e doce de corte. Dentro do coquinho há uma amêndoa muito boa para fazer pães. E ainda se pode fazer artesanato com as folhas da palmeira”, explica dona Lurdes. Um dos encaminhamentos do encontro foi a formação de uma comissão para identificar e realizar os protocolos de indicação dos produtos catarinenses à Arca do Gosto.

Antonio Augusto apresenta o butiá, durante defesa da indicação para Arca do Gosto
Antonio Augusto apresenta o butiá, durante defesa da indicação para Arca do Gosto

Outra meta prioritária do Slow Food nacional é atingir 1.000 pontos de articulação no território brasileiro. Dentre os participantes da reunião, um coletivo com este potencial era a Revolução dos Baldinhos, que já foi representada no Terra Madre Itália de 2010, com 3 agentes comunitários que ministraram oficinas de compostagem para a juventude do movimento. Foi aventada também a criação de um Convivium de pesquisadores e acadêmicos, liderado por Érika Sagae, mestranda em educação do Campo.

Por fim, os líderes brasileiros estão incumbidos em contribuir com a criação de 10 hortas no continente africano, dentre o expressivo número de 10.000 hortas assumido pelo Slow Food mundial. Trata-se, na visão do movimento, de amenizar uma dívida histórica da Europa com a África, além de fortalecer a soberania alimentar no continente, sabidamente ameaçada.

A reunião de domingo contou também com a presença de uma parlamentar, a deputada federal Luci Choinacki (PT), idealizadora da Frente Parlamentar pelo Desenvolvimento da Agroecologia e Produção Orgânica. Sensibilizada com o Slow Food, a deputada comprometeu-se a colaborar com a viabilização da ida de agricultores ao Terra Madre da Itália, já que as vagas financiadas pelo movimento são limitadas.

Deputada Luci Choinacki segura pacote de composto produzido pela Revolução dos Baldinhos, ao lado de agentes comunitários e agricultores
Deputada Luci Choinacki segura pacote de composto produzido pela Revolução dos Baldinhos, ao lado de agentes comunitários e agricultores

A reunião tratou ainda do fortalecimento associativo do Slow Food, com convites a novos futuros membros, que podem vincular-se aos Convivia Engenhos de Farinha e Mata Atlântica ou a Fortaleza do Pinhão catarinenses. Para estimular o consumo local de produtos tradicionais e agroecológicos, foi socializada a lista das Compras Coletivas e a oferta semanal do Box 721 da Rede Ecovida na Ceasa/SC. O próximo evento do coletivo está agendado para maio, em Lages, com oficinas sobre o uso gastronômico do Pinhão e outras atividades que serão divulgadas em breve.

Confira, clicando na foto abaixo, o álbum completo do Encontro Slow Food catarinense.

DSC_0301

Turismo com mais cultura e sabor

texto Ana Carolina Dionísio
foto Fernando Angeoletto, Gabriella Pieroni e Gisa Garcia

 

Compreendido por muito tempo como uma opção recreativa descompromissada para as camadas populares, o turismo social vem se consolidando como uma nova forma de viajar e de ter lazer, voltada mais para vivências baseadas na troca cultural entre visitantes e visitados do que para o simples consumo de paisagens, produtos e serviços. Buscando aprofundar a discussão sobre alternativas para transcender práticas turísticas convencionais e valorizar o aspecto inclusivo e humanista desta atividade, o SESC Florianópolis promoveu nos dias 28 e 29 de outubro a Jornada de Turismo Social, na unidade do Cacupé. O Cepagro e o Ponto de Cultura Engenhos de Farinha estiveram presentes no evento, expondo produtos agroecológicos do Box 721 do Ceasa e dos engenhos, artesanato do Grupo Nosso Espaço – que reúne mulheres da zona rural de Angelina –, e o composto produzido na Revolução dos Baldinhos.

Os chefs Philipe Bellettini e Fabiano Gregório e o produtor José Furtado apresentam os alimentos do café agroecológico
Os chefs Philipe Bellettini e Fabiano Gregório e o produtor José Furtado apresentam os alimentos do café agroecológico
Vários dos alimentos que estavam sendo comercializados – como  frutas, geleias e sucos orgânicos, beiju, bijajica e pão integral – puderam ser degustados no café preparado pelos slow-chefs Fabiano Gregório e Philipe Bellettini, em mais uma parceria do Slow Food com o Ponto de Cultura. Alguns dos produtores destas iguarias estavam presentes, como o casal José e Rose Furtado, que mantêm um engenho de farinha e plantam hortaliças e morango numa propriedade certificada pela Rede Ecovida em Garopaba. Este contato direto entre consumidor e agricultor é valorizado tanto entre os pressupostos da agroecologia quanto nas práticas inovadoras do turismo social.
Flora Castellano, do Ponto de Cultura, e o casal Rose e José Furtado, integrantes da Rede Ecovida de Agroecologia
Flora Castellano, do Ponto de Cultura, e o casal Rose e José Furtado, integrantes da Rede Ecovida de Agroecologia
Uma das iniciativas mais frutíferas neste sentido é a Acolhida na Colônia, associação de agroturismo sediada em Santa Rosa de Lima, nas encostas da Serra Geral catarinense. Fundada em 1999, a Acolhida reúne 180 famílias de agricultores que recebem turistas em propriedades espalhadas por 30 municípios do estado. “Além da melhoria da renda, a valorização do agricultor familiar e o resgate do patrimônio cultural estão entre os benefícios do agroturismo na região”, explica Daniele Gelbcke, uma das representantes da associação no evento. “Eu me encontrei na vida trabalhando com turismo . Eu cresci tendo vergonha de falar que era agricultora, mas isso já não acontece com meu filho, por exemplo”, conta a produtora-acolhedora Leonilda Baumann, de Santa Rosa de Lima. Na sua fala durante a Jornada, Dida, como é conhecida, deixou claro que, apesar do sucesso do empreendimento hospitaleiro no seu sítio, ela não abandonou a atividade agrícola e continua plantando hortaliças, frutas, milho, feijão e batatinha, tanto para consumo próprio quanto dos turistas.
A assessora em economia solidária Miriam Abe Alexandre dá explicações sobre o artesanato em fibras naturais produzido por um grupo de mulheres de Angelina
A assessora em economia solidária Miriam Abe Alexandre dá explicações sobre o artesanato em fibras naturais produzido por um grupo de mulheres de Angelina
“Na agroecologia percebemos a diversificação produtiva como a opção mais viável para os agricultores familiares. Por isso entendemos o turismo como mais uma alternativa, mas não a única, de geração de renda para os proprietários de engenhos”, afirma a coordenadora do Ponto de Cultura Engenhos de Farinha Gabriella Pieroni. As visitas a engenhos artesanais de farinha representam opções promissoras de circuitos turísticos na perspectiva da atividade como uma oportunidade para compartilhar experiências ligadas a cultura, gastronomia e tradições locais – tendência ressaltada durante a palestra da gerente de projetos socioeducativos do SESC-SP Flávia Costa -, e por isso o PdC Engenhos de Farinha vem firmando uma parceria com a Tekoá, operadora de turismo sustentável e de base comunitária de Florianópolis. A gerente Fernanda Carasilo já incluiu vivências em engenhos da Grande Florianópolis em alguns de seus roteiros de ecoturismo e city-tours, que também estavam sendo expostos no SESC. “Agências que trabalham com grupos escolares vieram perguntar sobre os programas, além de muitos guias e condutores ambientais”, diz Fernanda.
Daniele Gelbcke, da Acolhida na Colônia
Daniele Gelbcke, da Acolhida na Colônia

“O potencial dos engenhos é enorme”, afirma Daniele Gelbcke, ressaltando que a organização e articulação entre proprietários é fundamental para que as iniciativas tenham resultados. “As parcerias para turismo pedagógico também são importantes”, completa. Em alguns engenhos da rede dos Pontos de Cultura, a promoção de atividades educativas já é freqüente. No Engenho do Sertão, em Bombinhas, são realizadas oficinas de arte-educação envolvendo aspectos da cultura popular local e percepção ambiental para estudantes de 14 a 18 anos e aulas de antropologia para pós-graduandos em Saúde e Turismo da Univali. No Casarão e Engenho dos Andrade, em Santo Antônio de Lisboa, já foram ministradas oficinas de vídeo e de percepção sensorial de alimentos com alunos da rede pública de educação de Florianópolis. A escola também já foi ao engenho da família Gelsleuchter, em Angelina.

selecaoDSC_0284

A formação para valorização do patrimônio histórico e cultural permeia todas estas atividades, que também vêm abordando aspectos de educação alimentar, como nas oficinas realizadas em conjunto com técnicos do Programa Educando com a Horta Escolar e Gastronomia. O desenvolvimento destas metodologias ocorrem no âmbito de um esforço para realizar um inventariamento sobre os engenhos artesanais de farinha visando à salvaguarda  dos seus saberes e modos de fazer como patrimônio imaterial junto ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). No contexto atual de restrições sanitárias e ambientais à produção artesanal de farinha, o registro no IPHAN simboliza um caminho para a sobrevivência desta (agri)cultura. “A salvaguarda, no entanto, deve estar combinada com estratégias de desenvolvimento sustentável para que estes produtores também possam gerar renda a partir da preservação deste patrimônio agroalimentar. Neste sentido, o turismo de base comunitária é uma ferramenta importante”, avalia Gabriella Pieroni.
Clique na imagem abaixo para conferir o álbum completo 
selecaoDSC_0243

Fim de semana foi de Farinhadas nos engenhos artesanais

Ao menos 2 Farinhadas foram realizadas no último fim de semana no Litoral Catarinense e arredores.

Ambas foram apoiadas pelo Cepagro e o Ponto de Cultura Engenhos de Farinha, que articula-se com a Rede Ecovida, Iphan e demais parceiros para o reconhecimento da atividade como Patrimônio Imaterial.

No sábado(24/08)  aconteceu a Farinhada de Angelina, em engenho movido à roda d’água, o único com essas características em operação na comunidade rural de Coqueiros.

DSC_0553
Tocadores da região rural de Angelina animaram a festa da Farinhada no bairro Coqueiros (Engenho da Família Gelsleuchter)

Já no domingo (25/08), o tradicional Engenho dos Andrade, localizado em plena Ilha de Santa Catarina e com engrenagens movidas à tração animal, abriu suas portas para uma grande celebração do patrimônio agroalimentar.

DSC_0605
“Engenheiros” unidos: Dico (Engenho da Costa), Claudio (Engenho dos Andrade) e Zezinho (Engenho da Garopaba) durante a Farinhada de Floripa

Em breve, o blog do Ponto de Cultura vai contar todos os detalhes e mostrar os álbuns de fotos dos eventos.