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Rede de Engenhos lança publicações e reafirma: #EngenhoÉPatrimônio

Divulgação Engenho É Patrimônio 15 abril 2019

A Rede Catarinense de Engenhos de Farinha e o Cepagro têm o prazer de convidar a todos e todas que se interessam por patrimônio cultural, cultura popular e gastronomia para o encontro #EngenhoÉPatrimônio, que acontece no dia 15 de abril (2ª feira), das 9h às 16h, no Hotel SESC Cacupé. Na programação, haverá uma roda de conversa sobre o Patrimônio Cultural dos Engenhos com a participação das famílias e equipe da Rede, além do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). Também serão lançados o livro Comida de Engenho e que traz receitas tradicionais de engenhos de farinha; além do Mapa Cultural dos Engenhos de Farinha de SC, ambas publicações apoiadas pelo Edital Elisabete Anderle de Estímulo à Cultura de 2017. Destaque para a apresentação do mini-doc #EngenhoÉPatrimônio, produzido pelo Cepagro, e do Inventário Cultural dos Engenhos de Farinha de Santa Catarina, que traz um panorama sobre os bens culturais relacionados aos engenhos e sua importância para as comunidades. O Inventário foi construído de forma participativa com as comunidades, que integraram oficinas de educação patrimonial promovidas pela Rede em Bombinhas, Florianópolis, Imbituba e Garopaba. A iniciativa teve apoio da Secretaria de Estado de Turismo, Esporte e Cultura.

O evento é gratuito, as inscrições podem ser feitas pelo email engenhosdefarinha@cepagro.org.br ou no telefone  (48) 99172-3841 (com Karina).

A Rede Catarinense de Engenhos de Farinha reúne famílias que mantêm ou trabalham em engenhos, junto com agentes públicos, pesquisadores/as, cozinheiros/as, educadores/as e ativistas pela preservação de seu patrimônio agroalimentar e cultural. Para saber mais, siga nossa página no Facebook: www.facebook.com/RedeCatarinensedeEngenhosDeFarinha

 PROGRAMAÇÃO #EngenhoÉPatrimônio

9h – 11h Auditório
Hotel Sesc Cacupé
ABERTURA
Mesa redonda: #EngenhoÉPatrimônio: educação patrimonial nos engenhos de farinha catarinenses – IPHAN, Cepagro, representante dos engenhos
11h – 11h30 Apresentação do mini-doc #EngenhoÉPatrimônio
12h – 13h30 Restaurante Sesc Cacupé Almoço
13h30 – 14h Engenho do SESC CACUPÉ Apresentação do Inventário Cultural dos Engenhos de Farinha de SC
14h – 14h30 Engenhos no território catarinense e lançamento do Mapa Cultural dos Engenhos de Farinha de SC (possibilidade participação vereador Marquito)
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Rede de Engenhos promove oficina de Educação Patrimonial em Garopaba

Representações de sete engenhos de farinha de Garopaba participaram da Oficina de Educação Patrimonial realizada pela Rede Catarinense de Engenhos de Farinha e Centro de Promoção da Agricultura de Grupo (Cepagro), no dia 25 de novembro no Engenho da Vó Cicina, na Lagoa da Encantada  A ação foi feita através do Projeto Ponto de Cultura 2.0: articulação em rede, com a facilitação da educadora Giselle Miotto e da Mestra em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade Manuela Braganholo. Ao longo de um dia de muita prosa e reflexões, as famílias presentes fizeram um levantamento dos bens culturais relacionados aos engenhos de farinha da região.

A oficina é continuação do mapeamento dos engenhos de farinha artesanais de Garopaba iniciado através do edital Elisabete Anderle, que buscou identificar e mobilizar os engenhos da região para compor a Rede Catarinense dos Engenhos de Farinha. Nessa primeira ação,realizada ao longo de três dias no início de novembro,houve a participação de três agentes locais: Luis Fernando, da comunidade do Macacu, Maria Cristina Gomes, estudante de educação patrimonial pelo IFSC e Claudete Medeiros, do coletivo Taiá Terra. Além de mapear 28 engenhos de farinha na cidade, foi possível conhecer  um pouco da realidade destes engenhos dentro do aspecto produtivo e de intenção de manutenção dos mesmos, seja desenvolvendo atividades vinculadas ao turismo ou mesmo como forma de preservação da cultura e subsistência.

Na dia 25, além de levantar os bens culturais, a comunidade também discutiu sobre as principais dificuldades que eles enfrentam para manter os engenhos de pé e funcionando. Na visão dos engenheirxs, o fator que mais compromete a manutenção desta cultura é o fato de não haver dentro do município aspectos legais que garantam a terra para o plantio, em relação ao Plano Diretor, onde as áreas rurais ficaram reduzidas comparada com a realidade, e até mesmo a questão de impostos. Como eles mesmo colocaram:  “Sem roça, não tem mandioca, sem mandioca, não tem farinha”.

Segundo José Antônio Furtado, o Zezinho, que trabalha no engenho construído por seu pai há 69 anos e faz parte do Conselho de Agricultura do município, “Hoje é tudo lote, não tem mais terra”. A resistência que ele e os outros engenheirxs da região fazem é principalmente contra a especulação imobiliária e a mega-projetos que preveem a expropriação de terra dos agricultores e causam grandes impactos socioambientais para o território.

Luís Fernando conta que os agricultores não têm sido informados adequadamente de onde eles podem ou não plantar. Disse ainda que a fiscalização no município é inadequada e que há um tratamento diferente para aqueles com poder aquisitivo maior. Manoel João Pereira, pescador e lavrador do Capão, se pergunta o porquê de não poder plantar sua roça, enquanto aqueles que têm interesse em construir, conseguem a liberação para “vir com uma máquina e arrancar tudo”. Ele mantém o engenho do pai funcionando desde a década de 1970.

O que move a resistência destes engenhos é principalmente a manutenção da tradição e da sua cultura. Dona Santina, que é forneira, coisa rara para uma mulher no mundo dos engenhos, ama ficar no engenho, tratar o gado e manter a cultura herdada da família: “se me diz pra fazer outra coisa eu não quero”. Além da preservação da cultura, a manutenção dos engenhos pode vir a se tornar um atrativo turístico para a região. Mariana, neta da Vó Cicina, fez um curso de guia de turismo e não quer perder as raízes. Ela teve o privilégio de receber turistas no engenho da família, com direito a café colonial, e vê grande potencial na valorização do turismo de base comunitária.

Estas atividades envolvendo a comunidade local fortalecem a Rede Catarinense dos Engenhos de Farinha, para que seja possível levar estas questões ao poder público local. Elas também vêm somar à campanha #EngenhoéPatrimonio, que busca mobilizar a sociedade civil e iniciativas do terceiro setor para propor o registro dos engenhos de farinha artesanais do litoral catarinense como patrimônio cultural imaterial reconhecido pelo IPHAN.

Trocas de ramas, conhecimentos e causos marcam 5º Encontro da Rede Catarinense de Engenhos de Farinha

Realizado durante a já tradicional Feira da Mandioca de Imbituba, o 5º Encontro da Rede Catarinense de Engenhos de Farinha aconteceu no último domingo, 22 de julho, reunindo famílias engenheiras de Florianópolis, Angelina, Palhoça, Garopaba no engenho da ACORDI (Associação Comunitária Rural de Imbituba), cuja comunidade também participou do evento. Além de desfrutar das belas paisagens, conhecer o histórico de luta da Comunidade Tradicional dos Areais da Ribanceira e saborear o almoço da roça, as/os participantes trocaram sementes, mudas, ramas de mandioca e aipim e claro, muitos causos, experiências e saberes. O Cepagro participou na articulação e cobertura do evento.

Veja a matéria completa na página da Rede Catarinense de Engenhos de Farinha.

 

Cepagro participa na articulação de rede agroalimentar com LACAF-UFSC e Slow Food

Durante o Encontro de Construção de Mercados realizado na última 5ª feira (28 de junho) no Centro de Ciências Agrárias da UFSC, o Cepagro esteve presente para colaborar na construção de uma rede agroalimentar que articula ações e atores sociais em torno da produção, comercialização e abastecimento de alimentos bons, limpos e justos na Grande Florianópolis. A atividade integra o Projeto Alimentos Bons, Limpos e Justos, coordenado pelo Laboratório de Comercialização da Agricultura Familiar da UFSC em parceria com o Movimento Slow Food, com apoio da Secretaria Especial da Agricultura Familiar e Desenvolvimento Agrário (SEAD/UFSC) e é uma continuação do Seminário realizado em abril deste ano que teve o mesmo foco: construção social de mercados. Do Cepagro, participaram Erika Sagae e Eduardo Rocha, técnicos do projeto Consumidorxs e Agricultorxs em Rede (apoiado pela Misereor) e integrantes da Rede Semear Floripa de Agricultura Urbana e do Conselho Municipal de Segurança Alimentar e Nutricional e Sustentável de Florianópolis, respectivamente. O técnico da Epagri de Major Gercino Remy Simao e a presidente do Sindicato de Trabalhadores Rurais do município Marlene Fuck também compareceram, assim como a assessora Letícia Barbosa, do gabinete do vereador Marquito (PSol), além de estudantes e militantes do Movimento Slow Food.

A rede busca atender uma demanda de articular produtores e consumidores de alimentos, assim como organizações e entidades de apoio. “A gente percebe que de um lado o produtor não tem relação mais direta com consumidor, que por sua vez não percebe a dificuldade que é pro alimento chegar à cidade”, explica Erika Sagae. Apesar de ainda estar em construção, já tem alguns princípios norteadores, como:

  • Mercados solidários, circuitos curtos, valorização dos produtos da socioagrobiodiversidade e dos produtos locais;
  • valorização da produção artesanal e extrativistas;
  • valorização dos alimentos bons, limpos e justos
  • mapear atores que poderiam se integrar à rede.

As Fortalezas e Comunidades do Alimento Slow Food marcaram presença na mesa do café preparado por Fabiano Gregório, da Aliança de Cozinheiros Slow Food.  Receitas dos Engenhos de Farinha, suco de butiá do Litoral Catarinense e queijo colonial da Comunidade do Diamante, junto com frutas orgânicas e pão de fermentação natural, deixaram o encontro mais saboroso.

Como próximos passos, as entidades participantes do encontro – principalmente Cepagro, LACAF e Slow Food – irão colaborar no mapeamento de atores públicos e ações que podem ser desenvolvidas no contexto da rede. “A ideia é identificar o que as organizações já fazem e quais os potenciais de trabalho conjunto e quais pautas devem ser priorizadas”, explica Eduardo Rocha, do Cepagro. Uma dessas ações já vem sendo desenvolvida no âmbito do projeto Consumidorxs e Agricultorxs em Rede, realizado pelo Cepagro e outras três organizações do Sul do Brasil e que tem o objetivo de desenvolver processos de formação e articulação entre os vários elos da cadeia de consumo de alimentos agroecológicos. O gabinete do vereador Marquito também vem desenvolvendo um mapeamento de iniciativas de comercialização de alimentos agroecológicos em Florianópolis, visando à publicação dessas informações numa plataforma virtual e interativa.

Cepagro é contemplado no Edital Elisabete Anderle de Estímulo à Cultura

A proposta do livro de receitas Saberes, Sabores e Histórias dos Engenhos de Farinha foi selecionada dentre outros 1.800 projetos inscritos em 2017. O projeto do Cepagro foi contemplado na categoria Culturas Populares e tem o objetivo de promover, através de eventos gastronômicos e da publicação de um livro de receitas, o patrimônio agroalimentar e biocultural dos engenhos de farinha de Santa Catarina. A iniciativa dá continuidade à mobilização junto aos engenhos de farinha artesanais de Santa Catarina que o Cepagro – através do Ponto de Cultura Engenhos de Farinha – vem retomando desde final do ano passado.

 

 

 

Engenhos artesanais de Santa Catarina realizam Encontro em Garopaba

Realizado no último domingo, 2 de abril, o III Encontro da Rede de Engenhos Artesanais de Santa Catarina integra um ciclo de eventos viabilizados com recursos do Prêmio de Boas Práticas em Salvaguarda do Patrimônio Imaterial, concedido pelo IPHAN ao Cepagro em 2015, pelo trabalho realizado no Ponto de Cultura Engenhos de Farinha, projeto que entre 2010 e 2014 promoveu diversas ações de valorização do patrimônio agroalimentar e cultural representado pelos engenhos de farinha catarinenses, através do Programa Cultura Viva, do Ministério da Cultura. 

texto e foto: Ana Carolina Dionísio (Cepagro)

Passava um pouco das 9h da manhã quando parte da equipe do Ponto de Cultura Engenhos de Farinha chegou ao Engenho do Ademir, uma casa de madeira com chão batido numa encosta de morro na comunidade da Costa do Macacu, em Garopaba. Ao entrar no engenho, deixaram pra trás a bela paisagem da Praia do Siriú para encontrar o café posto na mesa e o proprietário do local, Ademir Rosalino, pilotando o fogão a lenha na preparação do almoço. “Fazer comida pra 40, 50 pessoas não me preocupa. Mas é que aqui é casa de engenho, depois da farinhada a gente só amontoa tudo num canto, aí fica tudo bagunçado”, desculpa-se o agricultor de 57 anos. Junto com as famílias dos 8 irmãos e outras 2 de vizinhos, ele continua fazendo farinha no engenho – antes propriedade do seu pai e do seu tio – “só por farra”. Nessa brincadeira, na farinhada do ano passado foram processadas ali cerca de 25 toneladas de mandioca, que renderam 52 sacos de farinha, ou 2.340 kilos. “Aí quando termina a farinhada é aquele chororô. Até me ofereceram um engenho pra comprar, mas eu não quis. Prefiro vir aqui com eles”, conta a agricultora Alice Gonçalves Vieira, vizinha de Ademir e parceira imprescindível nas farinhadas.

Ademir e Alice, vizinhos e parceiros de farinhadas

Com a ajuda da família e dos vizinhos, Ademir conseguiu deixar o engenho organizado para o III Encontro da Rede de Engenhos Artesanais de Santa Catarina, que aconteceu ali no último domingo, 2 de abril, promovido pelo Ponto de Cultura Engenhos de Farinha, com apoio também do Projeto Misereor em Rede, articulado pelo Cepagro. Os coxos e o cevador foram acomodados próximos às paredes, os balaios e alqueires (caixas de madeira para medir o volume de farinha) empilhados num canto e as ferramentas acomodadas dentro do forno para ceder espaço a engenheiros e engenheiras da mandioca de Garopaba, Biguaçu, Imbituba, Palhoça e Florianópolis, além do Secretário de Turismo de Garopaba, membros do Movimento Slow Food e outros parceiros e entusiastas da iniciativa, como o historiador Francisco do Valle Pereira (NEA-UFSC) e a antropóloga Alessandra Schmitt (da ONG AMA-Garopaba). De acordo com a educadora Giselle Miotto, que colabora na articulação da Rede e ajudou na facilitação do evento, o Encontro tinha o objetivo de “fortalecer a Rede, que será a base para trabalhar a proposta de registro junto ao IPHAN mais adiante”, referindo-se à construção coletiva e participativa de um dossiê para chancelar os engenhos de farinha como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil.

Buscando esse fortalecimento da Rede, as atividades começaram com a engenheira agrônoma Flora Castellano, do Projeto Slow Food-UFSC-MDA, apresentando uma linha do tempo da Rede de Engenhos, cujos primórdios remontam aos trabalhos do Ponto de Cultura Engenhos de Farinha, projeto que entre 2010 e 2014 promoveu diversas ações de valorização do patrimônio agroalimentar e cultural representado pelos engenhos através do Programa Cultura Viva, do Ministério da Cultura. Na sequência, a agricultora Catarina Gelsleuchter, proprietária de um engenho em Angelina (SC), falou sobre sua experiência na Rede Ecovida de Agroecologia, para trazer aos participantes um pouco do que é integrar um coletivo com esse caráter. “Me sinto outra pessoa, pois sabemos que não estamos sozinhos. Agora também falamos com mais orgulho que somos agricultores”, contou Catarina.

Se pensar os objetivos da Rede é fundamental para seu fortalecimento, refletir sobre as motivações das pessoas para vir ao próprio Encontro é um dos passos iniciais. A partir do que já havia sido apontado nos Encontros anteriores, a equipe do PdC sistematizou as motivações das pessoas, que serviu de ponto de partida para a reflexão do domingo. Tradição, paixão e resistência foram evocadas várias vezes, assim como os impasses vividos pelos engenheiros e engenheiras artesanais.

Um dos principais é quanto às restrições sanitárias sofridas pela farinha de mandioca produzida artesanalmente, o que inclusive barra a certificação orgânica desses produtos. Para obter um selo “Orgânico Brasil” do Ministério da Agricultura, os engenhos teriam que enquadrar-se nos parâmetros de agroindústrias normais, com adequações na infra-estrutura e processos produtivos. “Nem temos interesse em ter essa certificação oficial, pois isso descaracterizaria o nosso produto”, afirma Catarina Gelsleuchter. Na lógica sanitarista, os saberes tradicionais de forneiro artesanal do seu marido, Celso Gelsleuchter, por exemplo, pouca importância teriam. Marlene Borges, da Associação Comunitária Rural de

A agricultora Catarina Gelsleuchter fala sobre sua vivência na Rede Ecovida de Agroecologia.

Imbituba (ACORDI), pondera que “a rigidez sanitária chega a alguns absurdos, principalmente quanto a edificação. Mas a questão sanitária é importante. Às vezes são pequenos pontos que podemos nos orientar para regularizar o produto. Não dá pra fugir do

problema, tem que enfrentar. Mas não é porque uma construção é rústica que não tem higiene”. Luiz Farias, também da ACORDI, concorda: “Não importa se o Engenho é de tábua ou não, tem que estar limpo”. Para José Antônio Furtado, o Zezinho, proprietário de um engenho na Garopaba e membro da Rede Ecovida de Agroecologia, “o importante é a certificação na roça, da matéria-prima”. Joaquim Pereira de Souza, o Biluca, dono de um engenho e alambique de cachaça também no Macacu, concorda com Zezinho: “Olham pra azulejo, pra fábrica, pra o que é moderno, mas não pra matéria prima. O conjunto da obra é que é importante, se tem veneno na roça de mandioca ou não, por exemplo”.

A professora Jaqueline Prudêncio, o agricultor Luiz Farias e o historiador Francisco do Vale Pereira durante o Encontro.

Neste sentido, as iniciativas do Movimento Slow Food em construir as Fortalezas do Alimento – projetos que visam conservar um produto ou sua técnica de produção tradicional em risco de extinção – pode ser uma alternativa para certificar a farinha de mandioca artesanal sem implicar na descaracterização do seu processo produtivo. “É o reconhecimento de produtos que não

necessariamente se enquadram nos padrões sanitários”, explicou Flora Castellano. A regularização ou certificação da farinha de mandioca toca em outro ponto bastante discutido no encontro: a comercialização dos produtos dos engenhos. Divididos em grupos temáticos, os participantes debateram estratégias de fortalecimento deste eixo, assim como o turismo, a questão fundiária e a educação e cultura.

No âmbito da comercialização, a alimentação escolar foi considerada como um canal importante para escoar os produtos dos engenhos, como sugerido pelo Secretário de Turismo de Garopaba, Jackson Sena. Outros temas, como a formação de preço em rede, a possibilidade de um selo territorial ou de qualidade ligada à tradicionalidade e o criação de circuitos culturais-gastronômicos também foram levantados. De acordo com os participantes, a demanda por farinha de mandioca artesanal está em alta: “Estão procurando demais”, avalia Biluca.

O facilitador Pedro Xavier da Silva, do Projeto Slow Food-UFSC-MDA apresenta as sugestões do eixo temático de Turismo.

No caso dos engenhos, a comercialização vai de mãos dadas com o turismo. “O turista que visita os engenhos também pode ser uma avaliador dos produtos, se criamos esse laço de amizade com os clientes”, considerou Catarina Gelsleuchter. A partir do exemplo da Rota da Baleia Franca, no litoral sul do estado, e da Acolhida na Colônia, nas Encostas da Serra, os e as participantes ressaltaram a importância de que este turismo seja de base cultural e comunitária, o que pode demandar uma preparação e capacitação dos engenhos para receber o público. Se por um lado temos exemplos de engenhos valorizados por suas edificações e patrimônio material, como o Casarão e Engenho dos Andrade, em Florianópolis, por outro o saber-fazer que envolve os engenhos em atividade – da escolha das variedades de mandioca e a influência destas na qualidade da farinha ao ponto da torra no forno – também pode constituir um atrativo cultural.

Um dos temas mais delicados e com mais especificidades na discussão é quanto à questão fundiária, com uma diversidade de situações abarcando os engenhos da Rede, conforme foi sintetizado pelo facilitador Alexandre Pires Lage, da equipe do PdC (foto). A ACORDI, por exemplo, encontra-se em uma área comunal que há anos vem resistindo a especulação imobiliária e a mega-projetos de “desenvolvimento” que buscam expropriar as terras dxs agricultorxs e trazem pesados impactos socioambientais para todo território. Já os engenhos da Ilha de Santa Catarina sofrem com a falta de terras para o cultivo de mandioca, pois as áreas rurais deixaram de ser consideradas no novo Plano Diretor. Para construir estratégias de atuação nesses contextos, os participantes tiraram como encaminhamento realizar um estudo sobre os Planos Diretores dos municípios e também buscar assessoria jurídica para ter esclarecimentos sobre seus direitos.

Como tema transversal a todos estão a Educação e a Cultura, como apontou a facilitadora Manuela Braganholo, também da equipe PdC Engenhos de Farinha. Nessa ponte entre escola e engenhos, tanto a alimentação escolar pode ser um canal de escoamento para os derivados da mandioca, quanto os próprios engenhos configuram espaços de aprendizagem. Atividades práticas para colocar as mãos na massa e na terra, produção de cartilhas e livros de receitas e um mapeamento dos mestres de engenho foram algumas das ações apontadas para fortalecer este eixo no âmbito da Rede.

Os recursos do Prêmio do IPHAN que vinham financiando os eventos já estão terminando, sendo suficientes para mais um encontro da Rede, que acontecerá na propriedade da família Gelsleuchter, em Angelina (SC), no final de maio ou início de junho. Mesmo sem a garantia de apoio financeiro, os/as membros da Rede continuam motivadxs a continuar encontrando-se para fortalecer seus nós e laços, mostrando na prática como os engenhos são movidos por paixão e resistência.

Mandioca neles!