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Autonomia e fortalecimento mútuo marcam Encontro do Núcleo Litoral Catarinense

Realizado entre os dias 9 e 10 de setembro em Imbuia, a convite do Grupo Semear Sementes para o Futuro, o 9º Encontro do Núcleo Litoral Catarinense da Rede Ecovida mostrou mais uma vez a importância da articulação e mobilização comunitárias para o fortalecimento da Agroecologia. O empenho dos participantes transpareceu na qualidade das discussões e das oficinas, da alimentação, da programação cultural e na riqueza de sementes e saberes trocados durante o evento. O local do próximo encontro ainda será discutido pelos coordenadores de grupo, mas se há algo que mais uma vez ficou claro em Imbuia, é não faltam disposição e competências para seguir construindo e fortalecendo a Agroecologia.

texto e fotos
Carú Dionísio – Comunicação/Cepagro

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A convivência do agricultor Samir Grah com agrotóxicos começou cedo: aos 7 anos de idade, enquanto ajudava o pai nas roças de fumo em Ituporanga, município do Alto Vale do Itajaí. “Pra botar a muda na roça sem a lagarta, a gente ia passando aquele Orthene. Molhava a muda naquela solução e ia colocando no braço, sem proteção nenhuma. Ficava com o corpo todo molhado”, lembra o agricultor. Após quase três décadas trabalhando constantemente com biocidas, já casado e então plantando arroz irrigado na região de Joinville, uma intoxicação causada pelo  inseticida Furadan combinado com o herbicida Gramocil trouxe a certeza para ele e a esposa Nina de que era preciso mudar. “E a gente trabalhava só pra comprar veneno. Dizer que tava tirando algum lucro daquilo não dá. Mas é aquela cultura de que, se eu parar de plantar aquilo, vou morrer de fome”, conta Nina.  A primeira opção foi tentar o sustento na cidade. Até que, através de uma capacitação da Secretaria de Estado da Agricultura e do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (SENAR/SC), a família Grah entrou em contato com a Agroecologia.

Há três anos, muito mais do que uma alternativa de renda, a agricultura ecológica vem representando para estes agricultores uma possibilidade de continuar fazendo o que gostam – trabalhar na terra – com mais qualidade de vida, além da oportunidade de aprender e trocar experiências com outros. “Parece que o mundo se abriu. A gente começou a ver tudo de maneira diferente. O que a gente achava que só conseguia com veneno, viu que não precisava daquilo. Também aprendemos a conviver com a natureza, que nem tudo é perda”, relata Nina. Ou, como explica Marcos Stürmer, o técnico que incentivou a família a fazer a transição agroecológica: “Não é só parar de usar veneno, mas olhar a propriedade como um organismo vivo, que precisa de cuidados, e do qual até um inseto faz parte”.

Mais do que uma fonte de renda, a Agroecologia trouxe uma oportunidade de reconhecimento social para os agricultores Samir e Amasilda Grah, que foram até capa de jornal.
Mais do que uma fonte de renda, a Agroecologia trouxe uma oportunidade de reconhecimento social para os agricultores Samir e Amasilda Grah, que foram até capa de jornal.

Hoje, Samir é coordenador do grupo Rio Cristina, que reúne cerca de 10 famílias de Joinville, Araquari e  Guaramirim. Junto com outras cerca de 80 famílias de 14 grupos de 25 municípios, Samir, Nina e Marcos estiveram reunidos em Imbuia nesta semana para o 9º Encontro do Núcleo Litoral Catarinense da Rede Ecovida de Agroecologia.

Durante o Encontro, abundavam exemplos de superação da dependência do modelo da agricultura convencional através da transição agroecológica. Um deles é da família Allein, de Imbuia. Nascida numa família fumicultora, a jovem Dulciani formou-se ecóloga e, a partir daí, estimulou o pai Adenísio a entrar no caminho da agroecologia. “Quando ela me disse que em cinco anos a propriedade teria  que estar 100% orgânica, eu falei: Isso não vai dar certo. Mas, três anos depois, eu já tinha completado a transição”, conta o agricultor, que também é coordenador do seu grupo.

De filha para pai: foi com o estímulo e empenho de Dulciani que o agricultor Adenísio Allein resolveu começar a transição agroecológica da sua propriedade.
De filha para pai: foi com o estímulo e empenho de Dulciani que o agricultor Adenísio Allein resolveu começar a transição agroecológica da sua propriedade.

Dulciani e Adenísio coordenaram a organização local do Encontro do Núcleo, junto com o grupo Semear Sementes para o Futuro, retratado na foto abaixo durante a solenidade de abertura do evento, que contou também com a presença do Prefeito de Imbuia, Antônio Oscar Laurindo, além de representantes da Secretaria Municipal de Agricultura e da Epagri, que também apoiaram a realização do Encontro.

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Dentre os destaques deste ano, a alimentação foi praticamente 100% orgânica, resultado do empenho na articulação dos agricultores do Núcleo feito pela Coordenação e pelo Grupo Semear Sementes para o Futuro.

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Durante as palestras, os participantes aproveitaram para esclarecer diversas dúvidas, principalmente quanto à legislação sobre agroindústrias, certificação participativa e a produção de sementes orgânicas. Para tratar destas temáticas, foram convidados especialistas nos assuntos. O Dr. Pablo Moritz, do Centro de Informações Toxicológicas do Hospital Universitário da UFSC, fez uma fala sobre os riscos à saúde pelo uso de agrotóxicos e transgênicos (foto abaixo)

O Dr. Pablo Moritz, do Centro de Informações Toxicológicas do Hospital Universitário da UFSC, fez uma fala sobre os riscos à saúde pelo uso de agrotóxicos e transgênicos.

Na manhã do dia 10, o consultor da Associação Biodinâmica Vladimir Moreira ministrou uma palestra sobre reprodução de sementes orgânicas, enfatizando a concentração no mercado mundial deste insumo e na importância de os agricultores produzirem as suas próprias. “O agricultor que não produz sua própria semente torna-se dependente”, disse Vladimir. Para ele, a indústria das sementes vem provocando uma erosão genética deste patrimônio, ao substituir as variedades de polinização aberta por híbridos, que vão perdendo o vigor ao longo das gerações. “Nós estimulamos o caminho inverso, com materiais de polinização aberta e incentivando a reprodução deles com os agricultores”, explica.

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Durante a fala de Vladimir, a platéia não quis perder nenhum detalhe das explicações.

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Uma importante forma de manter o patrimônio genético, cultural e histórico representado pelas sementes é através das trocas em feiras e bancos, além de capacitações e projetos de melhoramento participativo. Neste sentido, a Feira de Sementes do Encontro de Núcleo cresceu ainda mais neste ano, reunindo dezenas de agricultores com diversas variedades de alimentos, plantas medicinais e ornamentais, tornando a manhã do dia 10 ainda mais movimentada. “A ideia é estimular a produção de sementes para construir uma autonomia no Núcleo”, completa a coordenadora do Núcleo Claudete Ponath.

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Outro momento relevante nos encontros são as oficinais, quando os participantes da Rede aproveitam para compartilhar experiências e vislumbrar soluções coletivas para questões de produção, organização comunitária e comercialização agroecológica. Neste ano, uma das inovações neste eixo de trabalho foi a realização de uma oficina sobre Gênero, facilitada pelas pós-graduandas em Sociologia Política Karolyna Herrera e Flávia Soares (foto abaixo). Ali, as participantes puderam discutir questões como a dupla jornada de trabalho feminina e o protagonismo feminino na transição agroecológica das famílias.

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Temas como Certificação Participativa e Comercialização também foram abordados durante oficinas.

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Cordélia e Claudete, da coordenação do Núcleo, mediaram a oficina sobre Certificação Participativa.
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Durante a oficina de Comercialização, coordenada por Charles Lamb, do Cepagro, representantes dos grupos mapearam as diversas estratégias de escoamento da produção presentes no Núcleo.

Uma das oficinas que levantou mais dúvidas foi sobre a legislação sanitária de agroindústrias, com o consultor Leomar Prezotto. Ele apresentou legislações recentes que dizem respeito à produção de bebidas e artigos de engenhos.

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Além de vivências de fortalecimento e aprendizado mútuos, não faltaram no Encontro momentos de profundo reconhecimento e gratidão pelo trabalho dos agricultores e agricultoras que se dedicam à Agroecologia. Uma das expressões mais tocantes foi do Grupo de Canto Orfeônico de Vidal Ramos, que fez uma adaptação na letra de uma ratoeira (canção típica) especialmente para os agricultores agroecológicos.

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Gabriel representou os talentos da Imbuia  com um repertório de voz e violão.

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Eduardo Amaral (foto), da Superintendência de Santa Catarina do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) e Adonyran Livramento, da CIDASC-Rio do Sul, também contribuíram na programação do Encontro. Amaral falou sobre a atuação do Ministério junto a Sistemas Participativos de Garantia, tais como o da Rede Ecovida, sublinhando a importância de os grupos manterem-se ativos e articulados. De acordo com ele, se os grupos estão desagregados, passam a ocorrer inconformidades no processo de certificação participativa. Os principais problemas levantados por Amaral foram: barreiras de proteção insuficientes; descuido com resíduos sólidos, especialmente plásticos; acondicionamento inadequado de produtos e uso de insumos não permitidos ou sem registro no MAPA.

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O programa da CIDASC de monitoramento de resíduos de agrotóxicos foi o tema da fala de Adonyran Livramento. Entre 2012 e 2014, a empresa já realizou mais de 1 mil análises de produtos orgânicos e certificados, sendo que em 94% dos casos não foram encontrados nenhum resíduo de agroquímicos. Um dos agricultores presentes durante o Encontro, Jair Scheidt, teve sua produção de cebolas verificada e aprovada por este programa em 2013.

Veículos de mídia locais estiveram presentes, como a Rádio Sintonia 1310 AM de Ituporanga. A cobertura ficou a cargo da jornalista Adriane Rengel, na foto entrevistando o coordenador rural do Cepagro Charles Lamb. A matéria pode ser conferida neste link.

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Na despedida do Encontro, mais agradecimentos ao trabalho dos agricultores e de todos os participantes, mesmo para os que ainda não se preocupam em expressar esta gratidão com palavras. Como a pequena Maria, filha de Dulciani e neta de Adenísio Allein, que pode brincar e posar para fotos tranquilamente com os saudáveis alimentos colhidos pelo avô.

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Veja abaixo mais fotos do Encontro:

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Território com 25 municípios reúne-se em Imbuia para o Encontro do Núcleo Litoral Catarinense

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Na próxima semana (09 e 10/09/2015), representantes de 25 municípios catarinenses serão recepcionados em Imbuia para o Encontro do Núcleo Litoral Catarinense da Rede Ecovida de Agroecologia. O evento é realizado para socialização das conjunturas, experiências e produtos das famílias agricultoras de base ecológica do território, fazendo parte das festividades do aniversário de emancipação do município sede.

Haverá ainda a Feira de Saberes e Sabores, aberta ao público, e a Feira de Sementes, espaço dedicado ao intercâmbio do material genético não transgênico produzido pelos agricultores do Núcleo. O Encontro acontece no Centro Social Dona Emília e Seu Lulu (Rua Otto Scheidt, 81 – próximo da Pizzaria La Bella Pizza/ Imbuia-SC).

Confira abaixo a programação completa.

Dia 09/09/2015

8:00 às 9:00hs – Recepção / Inscrição e café da manhã

9:00 – Espaço para organização da Feira de Saberes e Sabores;

10:00 – Abertura do evento

  • Representante do Núcleo Litoral Catarinense da Rede Ecovida de Agroecologia;
  • Representante da Rede Ecovida de Agroecologia;
  • Representantes do município de Imbuia (SC);

11:00 – Rede Ecovida – Laércio Meirelles;

12:00 – Almoço

13:30 – Oficinas

  • 1) Certificação Participativa, com representantes do Núcleo Litoral Catarina: Cadastro da Unidade Produtiva/ Agroindústria, Plano de manejo, DTC, Caderno de Campo;
  • 2) Adequação de agroindústrias (engenhos / alambiques artesanais), com Leomar Prezotto e Representante da Vigilância Sanitária Estadual;
  •  3) Rodada de negócios – representante da prefeitura de Florianópolis – compras para merenda escolar – representantes do Núcleo Litoral Catarinense relatando experiências diversas sobre comercialização (BOX 721 – Feiras – Mercados diversos);
  • 4) Mulheres & Gênero – com Ana Meirelles (coordenação da Rede Ecovida);

15:30 – Palestra sobre Vida, Alimentação e Saúde;

17:00 – Solicitação de novos interessados em assumir a equipe de Coordenação do Núcleo;

17:30 – Tesouraria – prestação de contas;

18:30 – Juventude – perspectivas futuras do Núcleo Litoral Catarinense;

19:30 – Jantar

20:00 – Apresentação Cultural – Grupo Folclórico de Dança e Viola de Vidal Ramos;

Dia 10/09/2015

7:30 às 8:30hs – Café da manhã

9:00 – Palestra sobre reprodução de sementes de hortaliças com Vladimir Moreira;

Feira de Troca de Sementes_Imbuia_201511:00 – Programação especial: Feira de Sementes (clique no cartaz ao lado para saber mais);

12:00 – Almoço

13:30 – Palestra com Rogério Dias – Coordenador de Agroecologia do MAPA (Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento);

14:30 – Palestras:

  • Controle de resíduos de Agrotóxicos (CIDASC – Companhia Integrada de Desenvolvimento Agrícola de Santa Catarina)
  • Conformidade orgânica no Sistema Participativo – com Eduardo Amaral e Francisco Castelle (MAPA –  Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento);

16:00 – Encaminhamentos e Encerramento;

TRAGAM SUAS CANECAS!

Agricultores conhecem iniciativas agroecológicas em intercâmbio promovido pelo Cepagro e FRBL

Realizada nos dias 11 e 12 de agosto, a atividade reuniu 15 famílias beneficiárias do projeto de diversificação na fumicultura que o Cepagro executa nos municípios de Leoberto Leal, Major Gercino e Nova Trento com apoio do Fundo para Reconstituição de Bens Lesados do Ministério Público de Santa Catarina. Foram visitadas propriedades e agroindústrias agroecológicas em Rancho Queimado e Santo Amaro da Imperatriz, além do Box 721 de Orgânicos da Ceasa em São José. O objetivo do intercâmbio foi mostrar que é possível produzir de maneira sustentável, além de incentivar a troca de conhecimentos com quem já vem trabalhando com sistemas agroecológicos. A ideia é possibilitar a formação de redes de agricultores sob novas formas de organização para a cooperação entre as famílias.

texto e fotos – Ana Carolina Dionísio, Gisa Garcia e Marina Pinto

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A primeira parada do intercâmbio, ainda na manhã da terça-feira, foi na propriedade de Pedro Eger em Rancho Queimado, que faz parte do grupo Harmonia da Terra da Rede Ecovida de Agroecologia. O agricultor mostrou os canteiros onde produz morangos orgânicos, explicando como é feito o preparo do solo, a adubação orgânica, a compra coletiva de mudas, a colheita, pós-colheita e custo de produção. Quanto à comercialização, a família destina sua produção para uma rede de supermercados local, algumas feiras e merenda escolar. Os que não atendem ao padrão de comercialização in natura vão para a agroindústria da região, servindo de matéria prima para deliciosas geleias e polpa de frutas. “Nenhum morango é perdido e recebemos muitos pedidos de encomenda, mas não damos conta de contempla-los”, disse Pedro Eger, que também ressaltou que “os agricultores estarem organizados é fundamental para que tenham força na conquista de mercados e no acesso a políticas públicas junto aos governos locais”.

IMG_0110A próxima visita, ainda no período da manhã, foi na agroindústria do Rancho EcoFrutícola, outro nó local da Rede Ecovida de Agroecologia. Na propriedade também são cultivados morangos orgânicos, mas na forma de canteiros suspensos e protegidos, um sistema diferente da propriedade anterior. De acordo com o  proprietário Samuel Weigert, a técnica cria um ambiente menos propício ao desenvolvimento de fungos e um maior controle no fornecimento dos nutrientes necessários para o desenvolvimento da cultura. Os participantes também conheceram os locais onde os morangos são selecionados, embalados e destinados para polpas ou geleias. Samuel relatou que absorvem a produção de outros agricultores orgânicos, mas que a demanda é muito maior que a oferta.

A última parada do primeiro dia de intercâmbio foi no BOX 721 da Ceasa, o único ali que comercializa exclusivamente produtos orgânicos.

O primeiro dia de intercâmbio terminou com uma visita ao Box 721 da Ceasa, o único ali que comercializa exclusivamente produtos orgânicos. O agricultor Elton Laureth e o técnico do Cepagro Francys Luiz Pacheco, que fazem a gestão da iniciativa, explicaram um pouco da logística e funcionamento do Box, enquanto o coordenador do projeto Charles Lamb ressaltou o caráter coletivo do empreendimento.

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A maioria dos agricultores não conhecia a CEASA e não tinha ideia do tamanho da movimentação comercial de alimentos que acontece naquele espaço. Um deles afirmou: “Estamos acostumados a receber o comprador em casa, mas com a desvantagem de que ele é que coloca o preço, aqui realmente podemos ficar mais próximos do cliente e possibilitar a negociação”.

DSC_0263Após um belo fim de tarde e pernoite no Hotel do SESC Cacupé, a caravana partiu na manhã seguinte para Santo Amaro da Imperatriz. O destino foi a chácara Recanto da Natureza, localizada na comunidade da Vargem do Braço. A propriedade pertence ao Parque Estadual da Serra do Tabuleiro, e recentemente os órgãos ambientais determinaram que no local só serão permitidas atividades agrícolas feitas de forma ecológica. Não foi a legislação ambiental, contudo, que levou as seis famílias proprietárias da chácara a entrarem na produção orgânica. Foi um episódio de forte intoxicação por agrotóxicos, ainda no início dos anos 90, que estimulou o agricultor Amilton Voges a fazer sua revolução agroecológica.

DSC_0244Os participantes do intercâmbio visitaram algumas áreas da chácara, que possui 22 hectares cultivados. Amilton mostrou como adaptou as técnicas agroecológicas para sua realidade: “Quando resolvemos plantar orgânico, tive que ir para outras propriedades longe daqui para aprender as técnicas e também fiz muitos cursos, mas muito do conhecimento tem que ser adaptado para nossa realidade e particularidade. Na agricultura orgânica é assim, o planejamento é fundamental e a toda hora temos que ter ideias e experimentar coisas novas”. Ainda complementou que a primeira técnica que realizou foi a adubação verde, que “proporcionou a desintoxicação das nossas terras e até hoje nos utilizamos dessa técnica como geradora de nutrientes para as hortaliças”.

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A chácara também tem uma agroindústria de pré-processamento das hortaliças, a qual foi construída por uma demanda de mercado. Eles abastecem restaurantes e mercados da Grande Florianópolis e também a merenda escolar. Como a demanda é maior que a produção, a agroindústria também compra hortaliças de outros agricultores orgânicos locais.

DSC_0274Amilton expôs que a produção da agricultura orgânica é constantemente fiscalizada pela CIDASC e por isso realiza todo o registro da produção que entra para pré-processamento. A garantia da qualidade dos produtos, entretanto, vai além dos controles burocráticos. Para Amilton, “uma vez que o agricultor experimenta fazer agricultura orgânica, ele nunca mais volta a usar agrotóxicos e insumos químicos”. Hoje as famílias se orgulham de seu trabalho e de serem exemplos vivos de que uma agricultura sustentável dá certo.

Imbuia sediará Encontro da Rede Ecovida de Agroecologia

O Encontro de Núcleo Litoral Catarinense da Rede Ecovida de Agroecologia já tem data e local certos: será nos dias 9 e 10 de setembro, em Imbuia, a convite do grupo Semear Sementes para o Futuro, que reúne agricultores deste município e de Leoberto Leal. Na última 5ª feira, 6 de agosto, os anfitriões estiveram reunidos com representantes de outros 8 grupos no Camping do Rio Vermelho para discutir e encaminhar diversas questões referentes ao Encontro, cuja última edição aconteceu na comunidade do Pinheiral, em Major Gercino.

Logo Encontro Núcleo Imbuia

Dentre os principais encaminhamentos, estipulou-se a data de 20 de agosto para que os grupos enviem o número de participantes para o email flaviamundstock@hotmail.com.  Tal levantamento é extremamente importante para que os grupos possam organizar sobretudo a questão da alimentação. Para o alojamento, haverá vagas em uma propriedade de Imbuia. Clique aqui para ver a programação.

Além da pauta do Encontro, a reunião também foi um momento de troca entre os membros da Rede e representantes do poder público. O diretor de proteção de ecossistemas da FATMA, Tenente-coronel Márcio Luiz Alves, fez uma explanação sobre o Parque do Rio Vermelho e outras unidades de conservação do estado (foto abaixo). Explicou também a inserção do Cepagro na administração do Camping, ressaltando seu processo de recuperação.

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Atendendo a uma demanda sobre o debate levantado pelo grupo de Itapema – certificação de agricultores urbanos – o coordenador do eixo urbano do Cepagro, Marcos José de Abreu, traçou um panorama da atuação da organização na cidade. A articulação de hortas comunitárias, a formação com profissionais dos Centros de Saúde e Assistência Social e a gestão de resíduos orgânicos foram alguns dos tópicos abordados.

DSC_0096Outro momento importante foi com a presença das nutricionistas Sanlina Hülse e Raquel Erdmann (foto), do Departamento de Alimentação Escolar da Prefeitura Municipal de Florianópolis. Elas falaram sobre a aquisição de produtos da agricultura familiar para alimentação escolar, esmiuçando questões como o funcionamento da chamada pública de alimentos, especificações dos produtos e dinâmica de entregas em Florianópolis.

Agricultores e técnicos compartilham saberes em atividades do Cepagro em Major Gercino

Se a troca de saberes entre agricultores é um dos princípios básicos da agroecologia, no contexto de iniciativas de promoção da agricultura ecológica é fundamental realizar cursos em que os ministrantes são também agricultores. Foi o que aconteceu nas propriedades das famílias Eger e Stolarczk, moradoras de Major Gercino e participantes do projeto de Fomento à Assistência Técnica e Extensão Rural para Fumicultores visando à Transição Agroecológica, executado desde o ano passado na região com apoio do Fundo para Reconstituição de Bens Lesados do Ministério Público de Santa Catarina. Na última 3ª, 9 de junho, o agricultor Dione Eger e o engenheiro agrônomo Guilherme Gomes ministraram uma oficina sobre adubação verde, na propriedade localizada na comunidade do Campinho. Já nos dias 11 e 12 foi a vez da família Stolarczk e do técnico agrícola Marcos Stumer, do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural, mostrarem como é o manejo orgânico da batata-salsa, cultivo que representa, junto com o fumo e a uva, uma das principais fontes de renda para os agricultores de Major Gercino.

Os irmãos Dione e Tiago Eger [pontas] aprofundam suas explicações para os técnicos Remy (Epagri) e Marina (Cepagro).
Os irmãos Dione e Tiago Eger [pontas] aprofundam suas explicações para os técnicos Remy Salomão (Epagri) e Marina Pinto (Cepagro).
Além dos agricultores participantes do projeto, estiveram presentes nas atividades os Secretários de Agricultura e Meio-Ambiente de Nova Trento e Major Gercino, técnicos da Epagri e a presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Major Gercino, Marlene Fuck. A auditora do Ministério Público de Santa Catarina, Juliana Miguel Procópio da Silva, também assistiu à oficina do dia 9.

A oficial do MP/SC Juliana Silva [esquerda] conversa com as agricultoras Zenaide e Zenita Eger sobre a rotina do cultivo e colheita do fumo, a qual elas se dedicam.
A oficial do MP/SC Juliana Silva [esquerda] conversa com as agricultoras Zenaide e Zenita Eger sobre a rotina do cultivo e colheita do fumo, a qual elas se dedicam.
Manter o solo coberto, evitar a erosão e garantir a renovação da matéria orgânica incorporada à terra são alguns dos objetivos do uso da adubação verde, técnica que consiste no plantio de espécies (principalmente leguminosas) em rotação ou consorciação com as culturas anuais. Na propriedade de Dione, ele semeou aveia na área das roças de fumo. Assim que o ciclo da aveia estiver completo e ela secar, ele irá acamar as plantas e realizar o plantio direto das mudas de fumo em meio à palhada. “Por isso é muito importante conhecer o ciclo produtivo da planta que será usada na adubação verde, para saber quando acamá-la”, explica o agricultor.

Menos mão-de-obra, menos agrotóxicos e aumento da produtividade: vantagens que Dione Eger identifica no uso da adubação verde.
Menos mão-de-obra, menos agrotóxicos e aumento da produtividade: vantagens que Dione Eger identifica no uso da adubação verde.

Segundo Dione, nos 2 anos em que vem praticando a adubação verde nas roças de fumo, já é possível perceber um aumento na produtividade do solo. “Além disso, a palhada não deixa o inço [ervas daninhas] vir. Também mantém as lesmas longe do pé de fumo”, conta o agricultor, que vem reduzindo o uso de herbicidas e inseticidas desde que começou a adotar a técnica. Sua ideia também é diminuir gradualmente o cultivo de fumo na propriedade, por não se tratar de uma cultura alimentícia.

A diminuição do uso de agrotóxicos seguramente contribui para melhorar a qualidade do solo, pois não extermina organismos que o mantém vivo e saudável, tais como fungos, bactérias e minhocas. A manutenção da qualidade do solo através da constante incorporação de matéria orgânica foi a tônica da fala introdutória ao curso, feita pelo engenheiro agrônomo Guilherme Gomes.

A parte introdutória do curso de adubação verde foi ministrada pelo engenheiro agrônomo Guilherme Gomes [de azul]
A parte introdutória do curso de adubação verde foi ministrada pelo engenheiro agrônomo Guilherme Gomes [de azul]
Nos dias 11 e 12 de junho o tema foi o cultivo orgânico de batata-salsa, num curso promovido pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (SENAR/SC), através do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Major Gercino, na propriedade da família Stolarczk, na comunidade do Pinheiral. Conhecendo a demanda dos beneficiários do projeto por mais conhecimento quanto a este cultivo, visto por muitos como uma alternativa rentável à produção de fumo, a equipe do Cepagro/FRBL incorporou a atividade ao projeto. “Diagnosticamos nas lavouras da cultura dos beneficiários do projeto um uso intensivo do solo sem planejamento e preparação do mesmo, a utilização demasiada e indiscriminada de agrotóxicos e fertilizantes químicos, o que causa um desequilíbrio do sistema e uma contaminação química do meio ambiente. O tema do curso esta totalmente ao encontro do objetivo do nosso projeto: apresentar técnicas conservacionistas do solo e diminuir o uso intensivo de insumos químicos”, explica a engenheira agrônoma Gisa Garcia, extensionista rural do projeto Cepagro/FRBL.

Na parte teórica do curso, ministrada pelo técnico agrícola Marcos Stumer, do SENAR/SC, foram abordados assuntos como: preparação e manejo do solo para a cultura da batata salsa; preparação de mudas, podas, colheita e irrigação; receitas de preparados como biofertilizantes, inseticidas e fungicidas naturais utilizando ervas como losna, arruda e erva de defunto. Após as explicações, os participantes construíram um canteiro elevado, com o objetivo de fornecer um ambiente equilibrado para cultura sem necessitar revolver o solo.

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Durante o mês de junho as técnicas do projeto seguem mobilizando as famílias inscritas, focando nas comunidades rurais do município de Leoberto Leal. A próxima oficina será neste município no dia 2 de julho, na propriedade do agricultor Gilmar Cognacco,  comunidade de Vargem dos Bugres. Gilmar, que cultivava quase 200 mil pés de tabaco, hoje destaca-se como produtor de alimentos orgânicos na região e organiza uma feira em Brusque. Durante a oficina, ele irá compartilhar um pouco de sua experiência em transição agroecológica e diversificação produtiva.

“Overdose de Tabaco”, na revista Galileu, expõe drama de fumicultores de SC

A revista Galileu deste mês publicou uma reportagem de 6 páginas, dando voz a agricultores que sofrem da enfermidade reconhecida somente em 2009 pelo Ministério da Saúde, a “doença da folha verde do tabaco.”
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Trata-se de uma intoxicação dérmica aguda, que pode elevar em 50 vezes o nível de nicotina no sangue principalmente em agricultores não fumantes, causando vômito, diarreia, dores no corpo, tontura e escurecimento de vista, segundo relatos dos próprios entrevistados, que integram projeto executado pelo Cepagro e apoiado pelo Fundo para Reconstituição dos Bens Lesados (Ministério Público Estadual/SC).
A longo prazo, explica a dra.Tania Cavalcante do INCA (Instituto Nacional do Câncer), esta superexposição à nicotina pode aumentar os riscos de câncer, doenças pulmonares e cardiovasculares.
A revista está nas bancas de todo o Brasil.

Programa da BAND aborda produção agroecológica na grande Florianópolis e região

Com a participação de Charles Lamb, coordenador geral, e das agrônomas Gisa Garcia e Jerusa Rosa da equipe técnica do Cepagro, o programa Sustentar da Rede BAND reportou os desafios da produção agroecológica na grande Florianópolis, desde a organização das famílias agricultoras até a comercialização no Box 721 do CEASA, nos pequenos varejos e nas feiras. A metodologia de trabalho com famílias que desejam diversificar o cultivo do tabaco, fazendo a gradual transição para a agroecologia, também foi abordada. Abaixo, a reportagem na íntegra.