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Vivência em SPGs reúne organizações latino-americanas em Florianópolis

Confiança. Considerada um dos princípios fundamentais dos Sistemas Participativos de Garantia, a confiança foi mencionada diversas vezes durante a Vivência em Sistemas Participativos de Garantia (SPGs) que o Cepagro promoveu de 21 a 26 de setembro em Florianópolis, com apoio da Inter-American Foundation. Participaram 17 organizações de 5 estados brasileiros (BA, SP, PR, RS, MG) e oito países latino-americanos (Bolívia, Colômbia, El Salvador, Equador, Guatemala, México, Paraguay e Peru) todas apoiados pela IAF. Com uma programação dinâmica e variada, a Vivência teve o objetivo de compartilhar experiências diversas em certificação participativa e SPG, estimulando a troca de conhecimentos sobre estratégias de produção, articulação de famílias e comercialização no âmbito da Agroecologia.

Basicamente, os SPGs partem do princípio que os/as próprios/as agricultores/as, organizados/as em grupos, podem realizar a certificação de sua produção para garantir sua qualidade orgânica. O Brasil é referência na construção de SPGs e na sua regulamentação, cujo marco é a Lei 10.831, de 2003, que equipara os SPGs às certificações por auditoria. Neste sentido, a Rede Ecovida teve atuação fundamental nesta construção. A caminhada para a consolidação de um SPG, contudo, passa por diversos estágios: da pesquisa sobre as possibilidades ao reconhecimento na legislação, passando pela organização de grupos de agricultores/as. As organizações participantes da Vivência encontram-se em distintos estágios deste caminho, e aí residiu a riqueza do intercâmbio. Reconhecer-se nesta caminhada foi uma das primeiras atividades da Vivência.

No caso de organizações como APA-TO (Tocantins) e IPHAE (Bolívia), que ainda estão levantando informações sobre SPGs, uma das questões a serem regulamentadas é quanto à certificação de alimentos oriundos do extrativismo, como o babaçu, o açaí e o cupuaçu, foco dos grupos com elas trabalham. Outras, como a SERRACIMA (SP) e o Centro de Agricultura Alternativa do Norte de Minas (CAA/NM – MG), discutem se serão só uma organização de apoio à certificação ou se já se formalizam como uma OPAC (Organismo Participativa de Avaliação da Conformidade). Já o Movimento da Economia Social e Solidária do Ecuador (MESSE), não aceitou a forma como o governo local tentou impor a regulamentação do SPG e decidiram manter a certificação por eles mesmos, no contato direto e confiança entre agricultores/as e consumidores/as: “Não nos interessa que o Estado nos reconheça”, afirma Rosa Murillo Naranjo,  do MESSE. CETAP e CEPAGRO, como participantes da Rede Ecovida, já integram um SPG consolidado, que inclusive serviu de inspiração para Paraguay e México implementarem seus próprios sistemas. No México, contudo, ainda não há legislação específica para certificação participativa.

Para as organizações que ainda estão construindo um SPG, os desafios são múltiplos: dificuldade para certificar alimentos do extrativismo, falta de legislação específica ou que não contempla suas realidades locais, comercialização. No caso dos SPGs já consolidados, como o da Rede Ecovida, “o desafio é trabalhar a Agroecologia para além do SPG”, como disse Albenir Concolatto, representante do CETAP (RS) na Vivência. No caso da Rede Povos da Mata, da Bahia, os obstáculos são: obter recursos para manter equipe técnica e as grandes distâncias entre diferentes biomas das propriedades certificadas, contou Sidilon Mendes.

Feito esse diagnóstico no primeiro dia sobre o desenvolvimento e desafios dos SPGs, a turma partiu no sábado e domingo (22 e 23 de setembro) para conhecer duas feiras agroecológicas: a do Campeche, abastecida pelo agricultor Gilmar Cognacco; e a VIVA CIDADE, no Centro, com agricultores/as do Grupo Flor do Fruto, de Biguaçu.

Após um almoço no Mercado Público de Florianópolis, a turma seguiu para o 12º Encontro do Núcleo Litoral Catarinense da Rede Ecovida de Agroecologia. Realizado na comunidade Fazenda de Dentro, em Biguaçu, o Encontro reuniu cerca de 150 pessoas, com ricas trocas de experiências, saberes e sementes. Dois participantes da Vivência – Romeu Leite, do Fórum Brasileiro de SPG, e Rosa Murillo Naranjo, do MESSE – compartilharam a mesa de abertura do Encontro com a agricultora Catarina Francisco Gelsleuchter.

Na sequência do Encontro, os/as participantes da Vivência conversaram com a professora Hanna Wittman sobre a pesquisa de Indicadores em Agroecologia. A atividade teve o intuito de sensibilizar e fazer um levantamento junto às organizações sobre que tipos de dados já vêm sendo pesquisados por elas com seus grupos de ação e quais tipos de indicadores – Econômicos, Sociais e Ambientais – elas consideram mais importantes.

Na segunda-feira, 24 de setembro, a programação continuou no Centro de Ciências Agrárias da UFSC, com destaque para o debate Certificação Orgânica Participativa: conexões latino-americanas, com a participação de Virgínia Lira, coordenadora de Agroecologia do Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento, Laércio Meirelles, do Fórum Latino-americano de SPG e Romeu Leite, coordenador do Fórum Brasileiro de SPG, além de representantes dos SPGs Tijtoca Nemiliztli (México); Paraguay Orgânico e Rede Ecovida de Agroecologia. Veja a matéria sobre o evento aqui.

Ainda buscando conhecer experiências agroecológicas, na terça-feira, 25 de setembro, o grupo visitou duas propriedades no bairro Ratones, um dos que mais mesclam o urbano ao rural na Ilha de Santa Catarina. O Sítio Flor de Ouro e o Espaço Pergalê.

No Flor de Ouro, o destaque foi o sistema agroflorestal implementado ali, suas técnicas de manejo e a convivência com as abelhas nativas sem ferrão. Além disso, o Flor de Ouro é um exemplo de comercialização de alimentos agroecológicos em conexão direta com os/as consumidores/as. Eles entregam cestas agroecológicas no esquema CSA – Comunidade que Sustenta a Agricultura e abriram mão da certificação. De acordo com o agricultor Daniel Cavalari, que trabalha no sítio, a confiança dos/as consumidores/as é tanta que não sentiram mais a necessidade de ter a certificação. Além disso, quem quiser pode visitar o sítio para verificar a qualidade orgânica dos alimentos. As cestas levam de 13 a 15 itens e custam R$ 55.

O CSA continuou na pauta de discussões do grupo durante a visita ao Espaço Pergalê, da agricultora e chef de cozinha Sônia Jendiroba. Margareth McQuade, representante do CSA Campeche, conversou com a turma da Vivência sobre os princípios e funcionamento dessa lógica de comercialização em que, ao invés de “consumidores/as” existem “co-agricultores/as”. “O CSA me encantou pela sua filosofia: os agricultores fazem o que gostam e nós apoiamos eles”, contou Margareth. Isso porque o CSA funciona numa lógica de planilha aberta, em que todos os custos de produção e logística dos alimentos são compartilhados entre agricultores/as e co-agricultores/as. Como observou João Palmeira, da APA-TO, é ir da “cultura do preço para a do apreço”.

A proprietária do espaço Pergalê, Sônia Jendiroba, também comercializa cestas agroecológicas com legumes e verduras que ela cultiva em seu sítio. Sônia, entretanto, faz questão de manter a certificação pela Rede Ecovida e inclusive enviar periodicamente via whatsapp seu certificado para quem compra dela. A turma da vivência pode conhecer ali sua horta agroecológica com cerca de meio hectare e até ajudou um pouco na capina.

Na despedida do grupo, no dia 26 de setembro, foram recuperados os pontos que mais lhes chamou a atenão. A relação entre agricultores/as e consumidores/as foi um deles. “Apesar de ser um intercâmbio de SPG, vimos experiências também de produção, comercialização e participamos do Encontro do Núcleo da Rede Ecovida, nos sentimos muito acolhidos”, observa Clara Esther Martínez, da organização colombiana CORAMBIENTE. Sandra Konig, da Associação Outro Olhar, de Guarapuava (PR), disse que “saiu convencida que o SPG vai muito além da certificação, e que sempre precisa estar de acordo com diferentes contextos, especialmente considerando povos originários”. Na bagagem de volta à casa, além de muitas experiências e aprendizados, os/as participantes certamente levam saudades da praia do Campeche, que estava a poucos minutos de caminhada da pousada onde foi realizado o evento, a Tulipane.

Mais de 50 pessoas, entre colaboradores/as diretos e indiretos, estiveram envolvidos/as na organização da Vivência, entre equipe técnica do Cepagro e da Pousada, agricultores/as que forneceram os alimentos agroecológicos para as refeições e tradutores/as.

 

 

 

 

 

 

 

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Cepagro recebe delegação latino-americana para debater Sistemas Participativos de Garantia (SPG)

Representantes de organizações do México, Paraguay, Perú, Bolívia, Guatemala, Equador, El Salvador e Colômbia e de mais 6 estados brasileiros estarão em Florianópolis para participar da I Vivência em Sistemas Participativos de Garantia que o Cepagro promove de 21 a 26 de setembro. A atividade tem o objetivo de compartilhar experiências diversas em certificação participativa e SPG, estimulando a troca de conhecimentos sobre estratégias de produção, articulação de famílias e comercialização entre organizações brasileiras e de outros países latino-americanos. A Vivência faz parte do projeto Saberes na Prática em Rede, que tem apoio da Inter-American Foundation.

Basicamente, a certificação participativa num SPG é realizada pelos/as próprios/as agricultores/as. No Brasil, ela tem a mesma legitimidade que a certificação realizada por empresas de auditoria. Um dos principais SPGs brasileiros é o da Rede Ecovida de Agroecologia, que reúne mais de 4 mil famílias de agricultores agroecológicos do Sul do Brasil e inspirou outros sistemas no Brasil e na América Latina.

A programação da Vivência terá momentos abertos ao público, como o debate Certificação Participativa Orgânica: conexões latino-americanas, que acontece na 2ª feira, 24 de setembro, das 14h às 18h no Centro de Ciências Agrárias da UFSC. Na mesa de discussões, estão representantes do Ministério da Agricultura, dos Fóruns Brasileiro e Latinoamericano de SPGs, além de organizações do Paraguay, México e também da Rede Ecovida de Agroecologia. A participação no debate é aberta e gratuita. Para inscrições, clique aqui.

 

Núcleo Litoral Catarinense e Cepagro participam de capacitação sobre SPG em Torres

A coordenação do Núcleo Litoral Catarinense da Rede Ecovida e os agrônomos Gisa Garcia e Francys Pacheco, da equipe técnica do Cepagro, estiveram em Torres (RS) na semana passada participando de uma capacitação sobre o novo sistema informatizado de registro de dados das famílias da Rede. A comitiva também aproveitou para intercambiar experiências com iniciativas de coletivos de consumidores locais, além de firmar os entendimentos sobre os Sistemas Participativos de Garantia. A atividade foi realizada com apoio da Fundação Inter-Americana.

No primeiro dia da visita, 8 de agosto, o grupo conheceu a cooperativa de consumidores EcoTorres, onde tiveram um bate-papo com Laércio Meirelles, um dos idealizadores da Rede Ecovida, sobre o processo de formação da Rede e o contexto politico da época, além de possíveis rumos deste coletivo que reúne quase 4.500 famílias de agricultores e agricultoras agroecológicos. O coordenador da EcoTorres, Beto Johann, contou sobre a iniciativa de consumidores em criar uma cooperativa para que tivessem acesso a um alimento saudável, limpo e que valorizasse a produção local.

Na 4ª feira, 9 de agosto, o grupo visitou a sede da Associação Ecovida de Certificação Participativa, onde foram apresentados ao novo sistema de cadastro de famílias da Rede Ecovida. Cristiano Motter, técnico do Centro Ecológico, explicou que a partir desse ano todos os dados da propriedade e de produção das famílias membros da Rede serão incluídos nessa plataforma online, o que permitirá gerar automaticamente os certificados e relatórios específicos sobre os grupos e Núcleos, como por exemplo, áreas de produção, diversidade de alimentos, entre outros.
com informações e fotos de Gisa Garcia

Cepagro participa de encontro de SPG no México e inicia articulação do Convênio com IAF

A participação da equipe do Cepagro no II Encuentro, Taller y Feria de Certificación Participativa y SPG, promovido entre os dias 25 e 27 de novembro pelas organizações mexicanas Centro Campesino e Tijtoca Nemiliztli no município de Hueyotlipan (estado de Tlaxcala, a 105 km da Cidade do México), marcou o início da articulação do Comitê Gestor do convênio que a entidade firmou em setembro deste ano com a Inter-American Foundation (IAF). Além de apresentar as experiências do Cepagro dsc_0013em SPG e fomento à agroecologia, durante o evento os técnicos Charles Lamb e Ana Carolina Dionísio puderam conversar com representantes do Centro Campesino e da Asociación de Productores Orgánicos do Paraguay (APRO) para convidá-los a integrar o Comitê Gestor do projeto, que será formado por 5 ou 6 organizações brasileiras e de outros países latinoamericanos, compondo uma instância de coordenação compartilhada das ações e tomada de decisões participativas. Nos próximos três anos de atividades, o Cepagro trabalhará em cooperação com a IAF e seus donatários para articular uma rede de colaboração em torno da agroecologia, promovendo a troca de experiências e o compartilhar de conhecimentos entre organizações latino-americanas.

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baixa8O Encontro de Hueyotlipan já foi um exemplo de evento combinando momentos de formação, troca de experiências e articulação para outras iniciativas. Estavam presentes organizações dos estados mexicanos de Tlaxcala, Hidalgo, Oaxaca, Puebla e Michoacan, e todas apresentaram suas ações nos eixos de produção, garantia e comercialização de produtos agroecológicos. A experiência em certificação participativa da Tijtoca Nemiliztli – associação consolidada em 2016 e que teve sua primeira inspiração para formar um SPG durante o Encontro Ampliado da Rede Ecovida realizado em Florianópolis em 2012 – é única no México.

baixa7Fora a Tijtoca, a outra possibilidade de certificação participativa é pelos Mercados Alternativos (Tianguis), que funcionam como organismos de controle social, cada um tendo sua comissão de verificação. Segundo Humberto Morales, coordenador do Centro Campesino – entidade que assessora a Tijtoca – a participação de organizações de outros estados e também de outros países traz mais credibilidade para o SPG frente à autoridades locais, contribuindo para a expansão dele em mais regiões mexicanas.

baixa3No momento, cerca de 40 propriedades familiares (“fincas”) são certificadas pela Tijtoca Nemiliztli, na maioria quintais produtivos. Há também 15 produtores de grãos, além de micro-agroindústrias,  produções de cogumelos e também de cosméticos. A participação ativa de consumidores na comissão de verificação da Tijtoca é um dos seus diferenciais, pois fortalece a noção de “olhar externo” para as propriedades que integram a rede de certificação, de acordo com Rafael Palafox, um dos coordenadores da associação. Além disso, os produtores de grãos devem cultivar exclusivamente sementes crioulas para serem certificados.

baixa32Com um foco marcante em quintais produtivos voltados ao autoconsumo e comercialização de excedentes, o SPG da Tijtoca Nemiliztli acaba tendo um vínculo forte com as mulheres. Isso porque os chamados huertos de traspatio, a “pequena produção” nos arredores das casas é uma atividade frequentemente a cargo delas. Desta forma, não é surpreendente que a discussão sobre gênero esteja na pauta de organizações presentes, como o Grupo Vicente Guerrero e do Centro Económico Social Julián Garcez, ambas de Tlaxcala. “Trabalhamos a temática de gênero desde 2004, através de uma parceria com o Centro de Direitos Humanos”, explica a agricultora e comerciantes Martha Zempoaltecal, do Grupo Vicente Guerrero. Além da prevenção do HIV, as organizações também atuam na prevenção ao tráfico de mulheres indígenas na região.

baixa12A gestão de recursos hídricos foi outra temática apresentada por diversas organizações, já que a disponibilidade de água para a agricultura é problemática no México, seja pela escassez ou pela contaminação. A construção de cisternas e sistemas de captação de água da chuva e biodigestores para tratamento de dejetos animais e humanos foi uma solução apresentada por diversas organizações para superar este desafio.

baixa9Como encaminhamentos da sistematização das apresentações do encontro, percebeu-se a mudança de mentalidade demandada para o avanço da agroecologia. “A resistência à mudança ocorre também porque existe um foco só no econômico, sem considerar o impacto ambiental e na saúde”, explica Humberto Morales. Neste sentido, campanhas de conscientização junto a consumidores é uma estratégia que caminha junto com a sensibilização dos agricultores. “Tocamos o coração, para daí mudar a cabeça e então a propriedade”, completa Morales. Além desses eixos, os da incidência política e articulação em rede também são fundamentais, como explica Martha Zempoaltecal: “É necessário que nos organizemos e nos fortaleçamos para conseguirmos mais valorização de nossos produtos. E fazermos alianças e articulações para fortalecer os processos”.

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Se a comercialização também foi outro desafio apontado por praticamente todas as organizações participantes, nada como a promoção de uma Feira para pensar soluções conjuntos e ampliar a divulgação dos produtos. No domingo de encerramento do evento, a Calle Juarez, em frente à Casa Ejidal de Hueyotlipan, foi fechada para a montagem do mercado com produtos agroecológicos das associações que estiveram no evento, apresentações culturais, rodas de conversa temáticas e preparação de receitas.

dsc_0252Conhecer as organizações participantes foi fundamental para compreender um pouco mais dos desafios, demandas e soluções na promoção em agroecologia fora do contexto brasileiro. O diálogo do Cepagro com outras organizações será fundamental para definir as temáticas a serem trabalhadas e o planejamento de atividades do projeto, dentre as quais estão previstas: a realização de três seminários (2 no Brasil e 1 em outro país), além de 5 oficinas de intercâmbio para troca de experiências e melhores práticas (sendo 2 no Brasil e 3 em diferentes países da América Latina). As oficinas serão momentos de formação e troca de conhecimentos com foco em temas baixa45relacionados à agroecologia, como práticas sustentáveis de agricultura, comercialização de produtos agroecológicos, certificação participativa, gênero, gestão sustentável da água e de resíduos orgânicos. Os seminários incluirão a presença de especialistas e também treinamento em desenvolvimento organizacional. Neste projeto, uma das principais ferramentas de comunicação e aprendizado será a plataforma virtual Red Colaborar.

 

 

 

 

 

 

Autonomia e fortalecimento mútuo marcam Encontro do Núcleo Litoral Catarinense

Realizado entre os dias 9 e 10 de setembro em Imbuia, a convite do Grupo Semear Sementes para o Futuro, o 9º Encontro do Núcleo Litoral Catarinense da Rede Ecovida mostrou mais uma vez a importância da articulação e mobilização comunitárias para o fortalecimento da Agroecologia. O empenho dos participantes transpareceu na qualidade das discussões e das oficinas, da alimentação, da programação cultural e na riqueza de sementes e saberes trocados durante o evento. O local do próximo encontro ainda será discutido pelos coordenadores de grupo, mas se há algo que mais uma vez ficou claro em Imbuia, é não faltam disposição e competências para seguir construindo e fortalecendo a Agroecologia.

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Carú Dionísio – Comunicação/Cepagro

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A convivência do agricultor Samir Grah com agrotóxicos começou cedo: aos 7 anos de idade, enquanto ajudava o pai nas roças de fumo em Ituporanga, município do Alto Vale do Itajaí. “Pra botar a muda na roça sem a lagarta, a gente ia passando aquele Orthene. Molhava a muda naquela solução e ia colocando no braço, sem proteção nenhuma. Ficava com o corpo todo molhado”, lembra o agricultor. Após quase três décadas trabalhando constantemente com biocidas, já casado e então plantando arroz irrigado na região de Joinville, uma intoxicação causada pelo  inseticida Furadan combinado com o herbicida Gramocil trouxe a certeza para ele e a esposa Nina de que era preciso mudar. “E a gente trabalhava só pra comprar veneno. Dizer que tava tirando algum lucro daquilo não dá. Mas é aquela cultura de que, se eu parar de plantar aquilo, vou morrer de fome”, conta Nina.  A primeira opção foi tentar o sustento na cidade. Até que, através de uma capacitação da Secretaria de Estado da Agricultura e do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (SENAR/SC), a família Grah entrou em contato com a Agroecologia.

Há três anos, muito mais do que uma alternativa de renda, a agricultura ecológica vem representando para estes agricultores uma possibilidade de continuar fazendo o que gostam – trabalhar na terra – com mais qualidade de vida, além da oportunidade de aprender e trocar experiências com outros. “Parece que o mundo se abriu. A gente começou a ver tudo de maneira diferente. O que a gente achava que só conseguia com veneno, viu que não precisava daquilo. Também aprendemos a conviver com a natureza, que nem tudo é perda”, relata Nina. Ou, como explica Marcos Stürmer, o técnico que incentivou a família a fazer a transição agroecológica: “Não é só parar de usar veneno, mas olhar a propriedade como um organismo vivo, que precisa de cuidados, e do qual até um inseto faz parte”.

Mais do que uma fonte de renda, a Agroecologia trouxe uma oportunidade de reconhecimento social para os agricultores Samir e Amasilda Grah, que foram até capa de jornal.
Mais do que uma fonte de renda, a Agroecologia trouxe uma oportunidade de reconhecimento social para os agricultores Samir e Amasilda Grah, que foram até capa de jornal.

Hoje, Samir é coordenador do grupo Rio Cristina, que reúne cerca de 10 famílias de Joinville, Araquari e  Guaramirim. Junto com outras cerca de 80 famílias de 14 grupos de 25 municípios, Samir, Nina e Marcos estiveram reunidos em Imbuia nesta semana para o 9º Encontro do Núcleo Litoral Catarinense da Rede Ecovida de Agroecologia.

Durante o Encontro, abundavam exemplos de superação da dependência do modelo da agricultura convencional através da transição agroecológica. Um deles é da família Allein, de Imbuia. Nascida numa família fumicultora, a jovem Dulciani formou-se ecóloga e, a partir daí, estimulou o pai Adenísio a entrar no caminho da agroecologia. “Quando ela me disse que em cinco anos a propriedade teria  que estar 100% orgânica, eu falei: Isso não vai dar certo. Mas, três anos depois, eu já tinha completado a transição”, conta o agricultor, que também é coordenador do seu grupo.

De filha para pai: foi com o estímulo e empenho de Dulciani que o agricultor Adenísio Allein resolveu começar a transição agroecológica da sua propriedade.
De filha para pai: foi com o estímulo e empenho de Dulciani que o agricultor Adenísio Allein resolveu começar a transição agroecológica da sua propriedade.

Dulciani e Adenísio coordenaram a organização local do Encontro do Núcleo, junto com o grupo Semear Sementes para o Futuro, retratado na foto abaixo durante a solenidade de abertura do evento, que contou também com a presença do Prefeito de Imbuia, Antônio Oscar Laurindo, além de representantes da Secretaria Municipal de Agricultura e da Epagri, que também apoiaram a realização do Encontro.

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Dentre os destaques deste ano, a alimentação foi praticamente 100% orgânica, resultado do empenho na articulação dos agricultores do Núcleo feito pela Coordenação e pelo Grupo Semear Sementes para o Futuro.

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Durante as palestras, os participantes aproveitaram para esclarecer diversas dúvidas, principalmente quanto à legislação sobre agroindústrias, certificação participativa e a produção de sementes orgânicas. Para tratar destas temáticas, foram convidados especialistas nos assuntos. O Dr. Pablo Moritz, do Centro de Informações Toxicológicas do Hospital Universitário da UFSC, fez uma fala sobre os riscos à saúde pelo uso de agrotóxicos e transgênicos (foto abaixo)

O Dr. Pablo Moritz, do Centro de Informações Toxicológicas do Hospital Universitário da UFSC, fez uma fala sobre os riscos à saúde pelo uso de agrotóxicos e transgênicos.

Na manhã do dia 10, o consultor da Associação Biodinâmica Vladimir Moreira ministrou uma palestra sobre reprodução de sementes orgânicas, enfatizando a concentração no mercado mundial deste insumo e na importância de os agricultores produzirem as suas próprias. “O agricultor que não produz sua própria semente torna-se dependente”, disse Vladimir. Para ele, a indústria das sementes vem provocando uma erosão genética deste patrimônio, ao substituir as variedades de polinização aberta por híbridos, que vão perdendo o vigor ao longo das gerações. “Nós estimulamos o caminho inverso, com materiais de polinização aberta e incentivando a reprodução deles com os agricultores”, explica.

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Durante a fala de Vladimir, a platéia não quis perder nenhum detalhe das explicações.

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Uma importante forma de manter o patrimônio genético, cultural e histórico representado pelas sementes é através das trocas em feiras e bancos, além de capacitações e projetos de melhoramento participativo. Neste sentido, a Feira de Sementes do Encontro de Núcleo cresceu ainda mais neste ano, reunindo dezenas de agricultores com diversas variedades de alimentos, plantas medicinais e ornamentais, tornando a manhã do dia 10 ainda mais movimentada. “A ideia é estimular a produção de sementes para construir uma autonomia no Núcleo”, completa a coordenadora do Núcleo Claudete Ponath.

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Outro momento relevante nos encontros são as oficinais, quando os participantes da Rede aproveitam para compartilhar experiências e vislumbrar soluções coletivas para questões de produção, organização comunitária e comercialização agroecológica. Neste ano, uma das inovações neste eixo de trabalho foi a realização de uma oficina sobre Gênero, facilitada pelas pós-graduandas em Sociologia Política Karolyna Herrera e Flávia Soares (foto abaixo). Ali, as participantes puderam discutir questões como a dupla jornada de trabalho feminina e o protagonismo feminino na transição agroecológica das famílias.

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Temas como Certificação Participativa e Comercialização também foram abordados durante oficinas.

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Cordélia e Claudete, da coordenação do Núcleo, mediaram a oficina sobre Certificação Participativa.
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Durante a oficina de Comercialização, coordenada por Charles Lamb, do Cepagro, representantes dos grupos mapearam as diversas estratégias de escoamento da produção presentes no Núcleo.

Uma das oficinas que levantou mais dúvidas foi sobre a legislação sanitária de agroindústrias, com o consultor Leomar Prezotto. Ele apresentou legislações recentes que dizem respeito à produção de bebidas e artigos de engenhos.

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Além de vivências de fortalecimento e aprendizado mútuos, não faltaram no Encontro momentos de profundo reconhecimento e gratidão pelo trabalho dos agricultores e agricultoras que se dedicam à Agroecologia. Uma das expressões mais tocantes foi do Grupo de Canto Orfeônico de Vidal Ramos, que fez uma adaptação na letra de uma ratoeira (canção típica) especialmente para os agricultores agroecológicos.

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Gabriel representou os talentos da Imbuia  com um repertório de voz e violão.

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Eduardo Amaral (foto), da Superintendência de Santa Catarina do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) e Adonyran Livramento, da CIDASC-Rio do Sul, também contribuíram na programação do Encontro. Amaral falou sobre a atuação do Ministério junto a Sistemas Participativos de Garantia, tais como o da Rede Ecovida, sublinhando a importância de os grupos manterem-se ativos e articulados. De acordo com ele, se os grupos estão desagregados, passam a ocorrer inconformidades no processo de certificação participativa. Os principais problemas levantados por Amaral foram: barreiras de proteção insuficientes; descuido com resíduos sólidos, especialmente plásticos; acondicionamento inadequado de produtos e uso de insumos não permitidos ou sem registro no MAPA.

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O programa da CIDASC de monitoramento de resíduos de agrotóxicos foi o tema da fala de Adonyran Livramento. Entre 2012 e 2014, a empresa já realizou mais de 1 mil análises de produtos orgânicos e certificados, sendo que em 94% dos casos não foram encontrados nenhum resíduo de agroquímicos. Um dos agricultores presentes durante o Encontro, Jair Scheidt, teve sua produção de cebolas verificada e aprovada por este programa em 2013.

Veículos de mídia locais estiveram presentes, como a Rádio Sintonia 1310 AM de Ituporanga. A cobertura ficou a cargo da jornalista Adriane Rengel, na foto entrevistando o coordenador rural do Cepagro Charles Lamb. A matéria pode ser conferida neste link.

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Na despedida do Encontro, mais agradecimentos ao trabalho dos agricultores e de todos os participantes, mesmo para os que ainda não se preocupam em expressar esta gratidão com palavras. Como a pequena Maria, filha de Dulciani e neta de Adenísio Allein, que pode brincar e posar para fotos tranquilamente com os saudáveis alimentos colhidos pelo avô.

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Veja abaixo mais fotos do Encontro: