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Núcleo Litoral Catarinense fecha 2019 reforçando compromissos de participação e responsabilidade compartilhadas

Como o nome já diz, a certificação participativa pressupõe participação. E a última reunião do Núcleo Litoral Catarinense de 2019, realizada no dia 10 de dezembro, reforçou o compromisso da Rede Ecovida com  princípios como participação, responsabilidade compartilhada, confiança e transparência. Princípios que vão muito além da credibilidade de um selo nos alimentos, mas que fundamentam a prática agroecológica das mais de 90 famílias que compõem o Núcleo.

Durante o Encontro, que teve representantes dos 11 grupos do Núcleo e aconteceu no Gaia Village, em Garopaba (SC), foram discutidas questões sobre o Sistema Participativo de Garantia a partir de experiências dos próprios grupos. Procedimentos e práticas foram conversados, buscando sempre o equilíbrio entre a autonomia entre os grupos (formados pelas famílias de alguns municípios) e a responsabilidade compartilhada entre todos no âmbito do Núcleo. Isso porque, no Sistema Participativo, todas as decisões e verificações são feitas em conjunto, pelas próprias famílias. É a confiança entre todas, que todas estão seguindo os procedimentos do SPG, que mantém a Rede firme e forte.

Para delinear melhor as discussões, o Núcleo vem formando Grupos de Trabalho temáticos, que trouxeram informes para a reunião.

O GT de Comercialização falou sobre o processo de articulação com o Circuito da Rede Ecovida e como está sempre com o olhar atento para a rastreabilidade dos alimentos e o compromisso com os princípios da Rede.

O GT Sementes e Mudas informou que quer levantar o potencial de produção desses insumos no núcleo, além de organizar compras coletivas de sementes orgânicas. O uso de sementes e mudas orgânicas na produção agroecológica ainda não é uma exigência efetiva do Ministério da Agricultura, mas a Rede Ecovida já vem buscando isso para garantir a qualidade dos alimentos desde o início. Pelo Cepagro, a parceria com a Universidade de Michigan no projeto Culturas de cobertura da próxima geração, que tem o apoio da Conservation, Food & Health Foundation, vem sendo estimulada a produção de sementes de adubos verdes entre as famílias do Núcleo, o que poderia incentivar a adoção dessa prática, já que o custo das sementes nas agropecuárias muitas vezes é um obstáculo. Além disso, a ideia do projeto é que as/os agricultoras/es sejam fontes de conhecimento sobre o tema e não somente de sementes.

O GT Extrativismo disse que pretende abordar temas como boas práticas de manejo de espécies como açaí juçara, butiá e pinhão, além de dialogar com o Poder Público para regulamentar essas atividades.

E durante a reunião foi formado o GT Gênero do Núcleo, com a missão de trabalhar a temática no âmbito dos grupos para a construção de relações de gênero justas e equilibradas. Para fomentar e colorir essas reflexões, a bandeira com o lema QUANDO UMA MULHER AVANÇA, NENHUM HOMEM RETROCEDE, construída pelas mulheres para o Encontro Ampliado rodará entre os grupos. O primeiro a levá-la foi o grupo Paulo Lopes.

Ainda no âmbito de pesquisas no contexto do Núcleo, o Cepagro apresentou durante a reunião a proposta de trabalho para levantamento de dados para construção de Indicadores de Agroecologia junto às famílias do Litoral Catarinense. A proposta tem apoio da IAF e conta com a parceria da Universidade de British Columbia (Canadá), que está desenvolvendo um aplicativo para uso em campo que colaborará para a sistematização de dados sobre as propriedades, auxiliando as famílias no seu planejamento e gestão.

A reunião teve também a participação do Ministério da Agricultura (MAPA), representado pelos agrônomos Francisco Alexandro Powell Van Casteele e Elder Guedes. Eles falaram sobre o trabalho de fiscalização e controle do uso de agrotóxicos do MAPA em Santa Catarina, que envolve inclusive alimentos orgânicos. “As análises apontam que 5% das 2 mil coletas de alimentos orgânicos contêm resíduos de agrotóxicos. Metade desses casos é por contaminação de um vizinho (deriva) nas áreas de cultivo. Os outros são por contaminação nos pontos de venda”, disse Francisco, reforçando a importância de manter a documentação do caminho percorrido pelos alimentos (rastreabilidade), além das barreiras nas propriedades agroecológicas.

Mesmo com o horário avançado, os/as participantes encerraram a reunião em clima animado, talvez pela beleza do lugar, que sediará o próximo Encontro do Núcleo Litoral Catarinense, que já tem data marcada: 22 e 23 de agosto, em Garopaba. Porque é promovendo encontros que se fortalece a Agroecologia!

Mulheres e Juventudes protagonizam o XI Encontro Ampliado da Rede Ecovida de Agroecologia

Com o tema “Gênero, Geração e Conhecimento”, o XI Encontro Ampliado da Rede Ecovida de Agroecologia, realizado em Anchieta (SC) entre os dias 15 e 17 de novembro, foi marcado pelo protagonismo das mulheres e das juventudes da Agroecologia. 

Texto: Carú Dionísio e Clara Comandolli 
Fotos: Clara Comandolli

Quando o lema “Sem Feminismo, não há Agroecologia” apareceu pela primeira vez num Encontro Ampliado da Rede Ecovida, em 2017, o clima foi de algum estranhamento e surpresa. Mas, dito já nos finalmentes da Plenária Final do X EARE, com o burburinho da Feira de Saberes e Sabores ao fundo, passou discretamente. Dois anos depois, no embalo da grande participação feminina em ações de massa nas ruas do Brasil e da discussão de gênero ganhando corpo desde a Articulação Nacional de Agroecologia aos grupos da Rede Ecovida, o lema veio para a Plenária de Abertura do Encontro, convocado não por algumas, mas por muitas companheiras.  

Além do protagonismo das mulheres, outra marca do XI EARE foi o destaque na participação das juventudes. A mesa de abertura foi toda feminina, com mulheres jovens e mais experientes ocupando os espaços principais de fala. 

Sem feminismo, não há Agroecologia

Uma das convidadas para este momento foi Miriam Nobre, da organização feminista Sempre Viva (SP) e integrante da da Marcha Mundial das Mulheres e do GT de Mulheres da Articulação Nacional de Agroecologia (ANA). Miriam trouxe um histórico da discussão de gênero no movimento agroecológico a partir dos Encontros Nacionais de Agroecologia (ENA). Lembrou que o lema “Sem feminismo, não há Agroecologia” veio à tona pela primeira vez no terceiro encontro, em 2014, trazendo avanços para o debate. No encontro seguinte, as mulheres negras e indígenas chamaram a atenção também para as suas lutas porque “a experiência das mulheres não é uma só. Há diversidade e desigualdades entre nós”, comentou Miriam. 

No IV ENA as mulheres afirmaram estar “em fúria feminista”, por conta do contexto das eleições de 2018 e foram protagonistas do movimento #EleNão, como lembrou Miriam, por temer o aprofundamento das políticas neoliberais. Miriam aponta que “o neoliberalismo transfere toda a insegurança e vulnerabilidade da vida para nós, trabalhadores e trabalhadoras, principalmente para as mulheres”. Um exemplo são os cortes feitos no Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), medida que pesa mais sobre as mulheres, historicamente responsáveis pelos cuidados com a alimentação familiar.

Miriam falou também sobre o sexismo institucional existente e que desconsidera a mulher como agricultora quando o marido não é. O sítio leva o nome do marido, mas quem acorda primeiro e vai dormir depois em muitos casos são as mulheres, que acumulam ao trabalho na agricultura os afazeres domésticos, desconsiderados como trabalho.

Foi pensando nesta realidade que o GT de Mulheres da ANA, em parceria com o Centro de Tecnologias Alternativas da Zona da Mata de Minas Gerais (CTA-ZM), elaborou a Caderneta Agroecológica, usada pelas mulheres para registrar a produção de seus quintais e hortas, anotando o que é para autoconsumo, o que é vendido, trocado, doado ou ganhado. A ideia da caderneta é dar visibilidade ao trabalho das mulheres do campo, mostrando como as “miudezas” de seus quintais produtivos têm grande impacto positivo na renda familiar, contribuindo para a valorização da participação feminina na economia  e para o enfrentamento da divisão sexual do trabalho. “A gente quer, junto com os companheiros, organizar a economia não baseada no lucro, mas colocando a vida no centro. E colocar a vida no centro é outra forma de dizer: ‘sem feminismo, não há Agroecologia’”, disse.

Companheiros conferem os recados das mulheres da Rede, estampados em bandeiras produzidas nos Núcleos.

Por fim, Miriam lembrou que o machismo afeta também a vida dos homens. Ela os convidou a expressarem seus sentimentos e a somarem no combate à violência contra as mulheres, não apenas nos casos de violência física quando ela já aconteceu. “Nós, homens e mulheres, queremos ser tão diversos quanto a natureza é”, disse e completou dizendo que nossa luta é pela liberação de territórios: do machismo, dos transgênicos e dos agrotóxicos.

Juventudes: “não queremos só a sucessão. Queremos construir a nossa Agroecologia”

As juventudes também estiveram presentes na Plenária de abertura, chamando a atenção para os conflitos intergeracionais existentes na agricultura familiar. A jovem agricultora de Pelotas (RS), Luana Kerstner Schiavon, falou sobre a importância do diálogo e da escuta entre jovens e pais trabalhadores rurais. “Na agricultura familiar todos trabalham, porque ninguém faz sozinho”, comentou Luana, mas mesmo assim é muito comum os/as jovens agricultores/as, em especial as mulheres, serem desconsideradas como corresponsáveis pela produção.

A juventude é um tempo de muitos questionamentos e incertezas, lembrou Luana, e por esse motivo a educação do campo é extremamente importante no reconhecimento do “quem sou eu”. Acesso à educação, liberdade para escolher e a confiança dos pais foram algumas das demandas colocadas pela juventude agroecológica, que quer sucessão familiar e não apenas a herança da propriedade.

Luana compõe a coordenação geral da Rede Ecovida e disse ainda que os/as jovens precisam ocupar os espaços de deliberação e decisão política. Fala reforçada por Cristina Sturmer dos Santos, da Cooperativa de Produção Agropecuária Vitória (COPAVI), gerida por assentados da Reforma Agrária  no município de Paranacity (PR). Por lá, toda a gestão é feita por mulheres e jovens, que representam a maioria dos/as cooperados/as. Ainda assim, Cris  afirma: “Falar de gênero, geração e feminismo nunca é uma coisa pacífica. É cheia de conflitos e contradições”.

Outras demandas da juventude foram colocadas no seminário Juventudes Agroecológicas: rebeldia com causa, realizado na manhã do sábado, 16 de novembro. Ao longo da conversa, a principal queixa da juventude agroecológica foi a desconfiança e o não reconhecimento dos mais velhos. A grande maioria disse que uma das razões para o abandono do jovem do campo é a falta de consideração com as ideias e opiniões deles/as, seja na gestão da propriedade familiar ou na sua participação política dentro dos grupos e núcleos da Rede Ecovida.

Bruna Richter Eichler, agricultora de Venâncio Aires (RS), disse que se não fosse os jovens levando a Agroecologia para a propriedade, algumas famílias até hoje não teriam saído da agricultura convencional. É essa situação que a estudante e agricultora Gabriela Mariga enfrenta hoje. Ela estudou em colégio agrícola no município de Paulo Bento (RS) e conta que os professores “só ensinavam a plantar milho e soja”, principais culturas da região. 

Apesar de nunca ter ouvido falar sobre as práticas agroecológicas em sala de aula, Gabriela encontrou na biblioteca da escola um livro de Ana Primavesi, uma das precursoras da Agroecologia. A partir daí se encantou pelo movimento e passou a se aprofundar no tema. Hoje ela estuda Gestão Ambiental da Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (UERGS). 

“Quando eu falava em Agroecologia os professores me chamavam de louca e as pessoas perguntavam por que eu queria voltar para o passado”, coisa que ouve também dentro de casa, comenta Gabriela. Na propriedade dos pais o cultivo é convencional, então  ela recorreu ao CETAP, organização que apoia a Agroecologia no Rio Grande do Sul, para poder participar do XI EARE. No Encontro se sentiu em casa: “aqui tu é aceita. Lá eles acham que não se produz sem veneno”, disse.

Ao final do seminário foi encaminhada a criação de um GT da Juventude da Rede Ecovida, que colocou como uma de suas prioridades a inclusão da participação de 30% de jovens nas coordenações da Rede. Além disso, foi mencionada a importância do incentivo à cultura e lazer e à comunicação pela valorização da Agroecologia, acesso à educação, formação em marketing e empreendedorismo. Na ocasião também foi criado um GT de Arte e Cultura, com o intuito de pensar e promover místicas, músicas e momentos culturais para os eventos da Rede e assim contribuir com as reflexões da Agroecologia. “A mística e a cultural são tão importantes quanto os momentos de debates”, disse Bruna Richter Eichler, que abrilhantou musicalmente o encontro com sua banda. 

Seminários e oficinas discutem questões técnicas e políticas da Agroecologia

Na manhã do sábado, 16, também foi realizado o seminário Momento político atual e a agroecologia: quais são nossos caminhos?  Mais do que pensar questões e conflitos partidários, o Seminário foi dedicado a resgatar um pouco da caminhada da Rede Ecovida e de outras redes de Agroecologia do Brasil em suas construções por outro modelo de agricultura e de relação com território, além da participação de políticas públicas neste desenvolvimento.

A professora Cláudia Schmitt, da UFRJ e da Associação Brasileira de Agroecologia, trouxe dados sistematizados pelas redes que participaram do projeto ECOFORTE (apoiado pela Petrobrás) entre 2015 e 2016, mostrando que a maioria delas acessaram programas como o PNAE, PAA e até o Bolsa Família. A conjuntura atual, entretanto, é de desmonte dessas políticas, avaliou Cláudia, com acordo dos/as participantes: “nesse processo, primeiro retiram-se recursos, desestruturam-se as instituições e os espaços de participação social”, disse.  O ruir das políticas públicas afeta também as ações coletivas nos territórios, o que, por sua vez, tem impacto nos agroecossistemas.

“Mesmo assim, as redes não param”, disse Claudia. Neste sentido, Alvir Longhi, da organização CETAP (RS), convidou os/as participantes a pensarem temas aglutinadores – além do SPG – que poderiam constituir a estratégia política da Rede Ecovida para os próximos anos. O trabalho em torno da sociobiodiversidade e novas dinâmicas de comercialização, abarcando também a economia solidária, foram alguns dos temas levantados. Marilu Menezes, da Fundação Luterana de Diaconia (FLD), afirmou que “a Rede precisa assumir como eixo estratégico a superação de toda forma de violência de gênero, raça, etnia e orientação sexual”. 

Loyvana Perucchi, do Núcleo Serramar da Rede, lembrou da importância de termos formações políticas no âmbito dos núcleos e grupos. O vereador Marquito, de Florianópolis, trouxe a estratégia da construção de projetos de lei estaduais e municipais para avançar localmente na Agroecologia ainda que o cenário em nível federal esteja desfavorável. Também foi afirmada a importância de fortalecer a comunicação popular nas organizações da Rede, já que a disputa também é narrativa.

A programação também contou com os seminário sobre Produção local e ecológica de sementes e mudas, Sistemas agroflorestais e agrobiodiversidade e Produção animal: leite, aves de corte e ovos.

Durante a tarde os mais de 700 participantes do encontro, entre agricultores/as, consumidores/as e profissionais e organizações de apoio à Rede Ecovida se dividiram entre as 29 oficinas realizadas. Entre elas, a oficina sobre consumo consciente, facilitada pelo grupo de consumidores formados pelo Cepagro, em conjunto com o CETAP, Vianei e ASPTA, com apoio da Misereor.

O GT Gênero promoveu a oficina Mate e Debate sobre Gênero, reunindo mulheres dos três estados da Rede. Além de relatos de diversos tipos de violências que ainda acontecem em espaços públicos e privados da Rede, as mulheres colocaram também a importância de continuar os ciclos de encontros locais e regionais entre elas, como o I Encontro de Mulheres da Rede Ecovida de Agroecologia, realizado em Erechim em setembro. 

Nos intervalos, a tradicional Feira de Saberes e Sabores trazia toda a riqueza da produção da agricultura familiar agroecológica do sul do Brasil.

Plenária final traz encaminhamentos para a Rede e mostra força da união feminina

O XI EARE encerrou com a Plenária Final na manhã de domingo. Como de costume, neste momento a Rede deu as boas vindas aos novos Núcleos, que haviam sido anunciados no EARE de 2017: Núcleo Vale do Itapocu (SC), Núcleo Sudeste Gaúcho (RS), Núcleo Centro-Sul (PR) e Guarumbé (PR).

 Ivo Macagnan, do CAPA Saltinho e da coordenação da Rede, apresentou alguns  anúncios: hoje a Rede Ecovida conta com 3.400 famílias certificadas, o que representa quase 20%  dos certificados de produção orgânica no Brasil. Outro motivo de comemoração foi a dos avanços do sistema informatizado para a certificação participativa e do equilíbrio das contas da Rede.
Foi apresentada também a nova coordenação da Rede Ecovida.

Do seminário Sistemas agroflorestais e agrobiodiversidade, foi afirmada a necessidade de  fomentar a utilização de PANCS; de as ações de ATER retornarem para os agricultores familiares, que são os verdadeiros observadores e experimentadores; de avançar na certificação agroflorestal. “A Agroecologia é a agricultura do futuro, precisamos lutar para fortalecê-la”, disse Israel Lourenço, integrante do MST e relator.

Sobre Produção local e ecológica de sementes e mudas, os/as relatores/as afirmaram que a Rede Ecovida está preparada e tem capacidade para ter autonomia desses insumos em suas produções. “Precisamos olhar para as experiências que já existem e companheiros/as que já produzem mudas e sementes, fazer parcerias e visitas às instituições que trabalham o tema, formações para a circulação de conhecimento, não ver a semente de uma forma romantizada mas estratégica, fortalecer e honrar nossas sementes crioulas”, disseram. 

Na temática de Produção Animal, afirmou-se a necessidade de ampliar a produção animal na Rede Ecovida para além de bovinos e aves, fortalecer as agroindústrias de tratamento de leite, avançar na agroindustrialização coletiva, fortalecer a homeopatia no tratamento de doenças animais. Além disso, propôs-se que derivados de leite agroecológico sejam ofertados na alimentação escolar, assim como a sugestão de a Rede Ecovida editar um compêndio de receitas ecológicas para tratamento de animais.

Fechando a Plenária, as mulheres ocuparam novamente o palco para trazer encaminhamentos trabalhados pelo GT Gênero ao longo do ano, que envolvem a inclusão do tópico sobre violência de gênero e outras violações de direitos humanos como passível de perda de certificado no Manual de Procedimentos da Rede. Além disso, as mulheres anunciaram o requisito de todo Comitê de Ética de Núcleo, uma das instâncias da certificação participativa, ter uma mulher em sua composição. E chamaram a atenção para a importância das mulheres das famílias participarem nas visitas e reuniões da Rede. A intervenção foi fechada novamente com o lema Sem Feminismo, Não há Agroecologia, com o repasse da bandeira do movimento das mulheres, construída coletiva e localmente nos núcleos, para as companheiras que receberão o próximo Encontro Ampliado. O XII EARE será em Pinhão, no Paraná, com acolhimento do recém-formado Núcleo Centro Sul.

A alimentação é um ponto importante dos Encontros Ampliados da Rede Ecovida. Nesta edição, a preparação das refeições foi feita por seis chefes do Movimento Slow Food, em conjunto com quatro restaurantes locais. Foram servidos cerca de 1500 pratos por dia, feitos com alimentos agroecológicos dos agricultores e agricultoras da Rede, com um menu especialmente pensado para os/as vegetarianos/as.

Os chefes se dividiram entre os restaurantes seguindo um rodízio e  o ecochef do Convivium Slow Food Mata Atlântica, Fabiano Gregório, conta que todos os restaurantes queriam receber o menu vegetariano em algum momento, principalmente para aprender coisas novas: “Foi uma interação bem bacana, teve bastante troca de experiências e foi muito engrandecedor”, conta.

No domingo, os chefes do Slow se reuniram no Salão Paroquial para o almoço coletivo de despedida do XI EARE, uma forma de aproveitar os alimentos preparados sem gerar desperdício. Além de ser um momento de confraternização e celebração de mais um encontro realizado que deixou um gostinho de quero mais.

Núcleo Litoral Catarinense entrega certificados e faz planejamento para o segundo semestre

“Para nós, a certificação por auditoria estava fora de cogitação. Não só pelo custo, mas porque o sistema participativo é também estar junto. Isso é fundamental neste momento político”. Em 2017, a professora Tatianne de Faria Vieira deixou o emprego no Instituto Federal de Goiás para instalar uma micro-padaria artesanal em Santo Amaro da Imperatriz. Quase  dois anos depois, ela espera ansiosamente receber o primeiro certificado para sua agroindústria, o que atesta a qualidade do local para beneficiamento de alimentos orgânicos. Mas mais do que o documento de certificação, o importante para Tatianne é estar dentro do Sistema Participativo: “Vocês são minha referência”, disse ela para as famílias que participaram da última reunião do Núcleo Litoral Catarinense da Rede Ecovida de Agroecologia, realizada no Engenho da Família Gelsleuchter, em Angelina, na quinta passada, dia 13 de junho. Além da entrega de 56 certificados de produção orgânica, durante a reunião também foram tratados assuntos como o Encontro do Núcleo Litoral Catarinense, repasses do Fórum Brasileiro de SPGs e da Plenária catarinense da Rede Ecovida e ainda a agenda de capacitações do Núcleo para o segundo semestre do ano.

A entrega dos certificados 2019-2020 acontece num contexto de informatização do sistema de emissão de certificados da Rede Ecovida. Para que toda a documentação das mais de 100 famílias do Núcleo fosse organizada e digitalizada, foi mobilizada uma equipe de 10 representantes de vários grupos, como informou e agradeceu a coordenadora Tânea Mara Follmann. “Os problemas que tivemos na emissão de certificados foram por falhas no preenchimento da documentação, não por inconformidades”, afirma a agricultora. Com o sistema informatizado, qualquer problema na documentação trava o processo de emissão do certificado. Dos grupos e famílias que estavam com tudo ok, só sorrisos; quem teve problemas terá que esperar mais um pouco até a situação estar regularizada no sistema central da OPAC.

Encontro do Núcleo Litoral Catarinense será em Porto Belo
O grupo Costa Esmeralda, que promove nos dias 24 e 25 de agosto o Encontro do Núcleo Litoral Catarinense, fez alguns informes sobre a organização.  “Nossa ideia é ter alimentação 100% orgânica”, disse Flávia Mundstock, da equipe de organização. Para isso, a colaboração das famílias agricultoras do Núcleo será fundamental, doando e fornecendo alimentos. Para as oficinas estão listados temas como: preparados biodinâmicos, plantas alimentícias não convencionais (PANCs), reaproveitamento integral de alimentos, plantas medicinais, processamento, integração agricultores/as e consumidores/as e gênero. Haverá atividades especiais para as crianças, o famoso Encontrinho, além do espaço Cuidar de Si, com diversas práticas terapêuticas.

Fórum Brasileiro de SPGs: equidade e violência de gênero passam a integrar princípios dos sistemas participativos
A temática de gênero emergiu na discussão sobre o Encontro do Núcleo a partir dos informes feitos pela agricultora Claudete Ponath sobre o encontro do Fórum Brasileiro de SPGs, realizado em Valinhos (SP) nos dias 1 a 3 de maio, reunindo 54 representantes de 26 Sistemas Participativos de Garantia do Brasil. A Carta de Valinhos, documento final do encontro, traz que “O Fórum recomenda fortemente que os manuais de procedimentos dos SPGs e OCSs explicitem que a violência de gênero não será tolerada e implica na suspensão do certificado do responsável”. Neste sentido, a proposta de manter a discussão de gênero viva nos encontros da Rede é para “Ver o que pode estar velado. Não tolerar a violência de gênero parece algo óbvio, mas não é. Tanto é, que não falamos muito. Precisamos trazer esse tema mais para as reuniões”, disse Claudete. Outros pontos abordados no encontro e disponíveis na carta foram notas técnicas e instruções normativas sobre a certificação orgânica que ainda precisam ser discutidas com o coletivo dos SPGs, além do encaminhamento de manter as Comissões Estaduais de Produção Orgânica (CPOrgs) funcionando, apesar do decreto presidencial 9759, de 11 de abril de 2019, que extingue diversos conselhos e comissões.

Núcleo Litoral Catarinense terá mais duas capacitações neste ano
Enquanto no primeiro semestre os grupos estavam intensamente envolvidos nas visitas e dinâmicas da certificação, a partir de agosto as reuniões do Núcleo terão caráter mais formativo. Para depois do Encontro do Núcleo em Porto Belo nods dias 24 e 25 de agosto, ficaram agendadas capacitações sobre:
– o Circuito de Comercialização da Rede Ecovida, que será na propriedade da família Cognacco, em Leoberto Leal, em outubro;
– mudas orgânicas, com uma visita a um centro produtor em Blumenau.

Fechando a atividade, uma rodada pela bela propriedade da família Gelsleuchter, visitando as áreas de cultivo e aproveitando para trocar informações e saberes sobre a produção agroecológica.

Veja mais fotos da reunião!

 

 

Vivência em SPGs reúne organizações latino-americanas em Florianópolis

Confiança. Considerada um dos princípios fundamentais dos Sistemas Participativos de Garantia, a confiança foi mencionada diversas vezes durante a Vivência em Sistemas Participativos de Garantia (SPGs) que o Cepagro promoveu de 21 a 26 de setembro em Florianópolis, com apoio da Inter-American Foundation. Participaram 17 organizações de 5 estados brasileiros (BA, SP, PR, RS, MG) e oito países latino-americanos (Bolívia, Colômbia, El Salvador, Equador, Guatemala, México, Paraguay e Peru) todas apoiados pela IAF. Com uma programação dinâmica e variada, a Vivência teve o objetivo de compartilhar experiências diversas em certificação participativa e SPG, estimulando a troca de conhecimentos sobre estratégias de produção, articulação de famílias e comercialização no âmbito da Agroecologia.

Basicamente, os SPGs partem do princípio que os/as próprios/as agricultores/as, organizados/as em grupos, podem realizar a certificação de sua produção para garantir sua qualidade orgânica. O Brasil é referência na construção de SPGs e na sua regulamentação, cujo marco é a Lei 10.831, de 2003, que equipara os SPGs às certificações por auditoria. Neste sentido, a Rede Ecovida teve atuação fundamental nesta construção. A caminhada para a consolidação de um SPG, contudo, passa por diversos estágios: da pesquisa sobre as possibilidades ao reconhecimento na legislação, passando pela organização de grupos de agricultores/as. As organizações participantes da Vivência encontram-se em distintos estágios deste caminho, e aí residiu a riqueza do intercâmbio. Reconhecer-se nesta caminhada foi uma das primeiras atividades da Vivência.

No caso de organizações como APA-TO (Tocantins) e IPHAE (Bolívia), que ainda estão levantando informações sobre SPGs, uma das questões a serem regulamentadas é quanto à certificação de alimentos oriundos do extrativismo, como o babaçu, o açaí e o cupuaçu, foco dos grupos com elas trabalham. Outras, como a SERRACIMA (SP) e o Centro de Agricultura Alternativa do Norte de Minas (CAA/NM – MG), discutem se serão só uma organização de apoio à certificação ou se já se formalizam como uma OPAC (Organismo Participativa de Avaliação da Conformidade). Já o Movimento da Economia Social e Solidária do Ecuador (MESSE), não aceitou a forma como o governo local tentou impor a regulamentação do SPG e decidiram manter a certificação por eles mesmos, no contato direto e confiança entre agricultores/as e consumidores/as: “Não nos interessa que o Estado nos reconheça”, afirma Rosa Murillo Naranjo,  do MESSE. CETAP e CEPAGRO, como participantes da Rede Ecovida, já integram um SPG consolidado, que inclusive serviu de inspiração para Paraguay e México implementarem seus próprios sistemas. No México, contudo, ainda não há legislação específica para certificação participativa.

Para as organizações que ainda estão construindo um SPG, os desafios são múltiplos: dificuldade para certificar alimentos do extrativismo, falta de legislação específica ou que não contempla suas realidades locais, comercialização. No caso dos SPGs já consolidados, como o da Rede Ecovida, “o desafio é trabalhar a Agroecologia para além do SPG”, como disse Albenir Concolatto, representante do CETAP (RS) na Vivência. No caso da Rede Povos da Mata, da Bahia, os obstáculos são: obter recursos para manter equipe técnica e as grandes distâncias entre diferentes biomas das propriedades certificadas, contou Sidilon Mendes.

Feito esse diagnóstico no primeiro dia sobre o desenvolvimento e desafios dos SPGs, a turma partiu no sábado e domingo (22 e 23 de setembro) para conhecer duas feiras agroecológicas: a do Campeche, abastecida pelo agricultor Gilmar Cognacco; e a VIVA CIDADE, no Centro, com agricultores/as do Grupo Flor do Fruto, de Biguaçu.

Após um almoço no Mercado Público de Florianópolis, a turma seguiu para o 12º Encontro do Núcleo Litoral Catarinense da Rede Ecovida de Agroecologia. Realizado na comunidade Fazenda de Dentro, em Biguaçu, o Encontro reuniu cerca de 150 pessoas, com ricas trocas de experiências, saberes e sementes. Dois participantes da Vivência – Romeu Leite, do Fórum Brasileiro de SPG, e Rosa Murillo Naranjo, do MESSE – compartilharam a mesa de abertura do Encontro com a agricultora Catarina Francisco Gelsleuchter.

Na sequência do Encontro, os/as participantes da Vivência conversaram com a professora Hanna Wittman sobre a pesquisa de Indicadores em Agroecologia. A atividade teve o intuito de sensibilizar e fazer um levantamento junto às organizações sobre que tipos de dados já vêm sendo pesquisados por elas com seus grupos de ação e quais tipos de indicadores – Econômicos, Sociais e Ambientais – elas consideram mais importantes.

Na segunda-feira, 24 de setembro, a programação continuou no Centro de Ciências Agrárias da UFSC, com destaque para o debate Certificação Orgânica Participativa: conexões latino-americanas, com a participação de Virgínia Lira, coordenadora de Agroecologia do Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento, Laércio Meirelles, do Fórum Latino-americano de SPG e Romeu Leite, coordenador do Fórum Brasileiro de SPG, além de representantes dos SPGs Tijtoca Nemiliztli (México); Paraguay Orgânico e Rede Ecovida de Agroecologia. Veja a matéria sobre o evento aqui.

Ainda buscando conhecer experiências agroecológicas, na terça-feira, 25 de setembro, o grupo visitou duas propriedades no bairro Ratones, um dos que mais mesclam o urbano ao rural na Ilha de Santa Catarina. O Sítio Flor de Ouro e o Espaço Pergalê.

No Flor de Ouro, o destaque foi o sistema agroflorestal implementado ali, suas técnicas de manejo e a convivência com as abelhas nativas sem ferrão. Além disso, o Flor de Ouro é um exemplo de comercialização de alimentos agroecológicos em conexão direta com os/as consumidores/as. Eles entregam cestas agroecológicas no esquema CSA – Comunidade que Sustenta a Agricultura e abriram mão da certificação. De acordo com o agricultor Daniel Cavalari, que trabalha no sítio, a confiança dos/as consumidores/as é tanta que não sentiram mais a necessidade de ter a certificação. Além disso, quem quiser pode visitar o sítio para verificar a qualidade orgânica dos alimentos. As cestas levam de 13 a 15 itens e custam R$ 55.

O CSA continuou na pauta de discussões do grupo durante a visita ao Espaço Pergalê, da agricultora e chef de cozinha Sônia Jendiroba. Margareth McQuade, representante do CSA Campeche, conversou com a turma da Vivência sobre os princípios e funcionamento dessa lógica de comercialização em que, ao invés de “consumidores/as” existem “co-agricultores/as”. “O CSA me encantou pela sua filosofia: os agricultores fazem o que gostam e nós apoiamos eles”, contou Margareth. Isso porque o CSA funciona numa lógica de planilha aberta, em que todos os custos de produção e logística dos alimentos são compartilhados entre agricultores/as e co-agricultores/as. Como observou João Palmeira, da APA-TO, é ir da “cultura do preço para a do apreço”.

A proprietária do espaço Pergalê, Sônia Jendiroba, também comercializa cestas agroecológicas com legumes e verduras que ela cultiva em seu sítio. Sônia, entretanto, faz questão de manter a certificação pela Rede Ecovida e inclusive enviar periodicamente via whatsapp seu certificado para quem compra dela. A turma da vivência pode conhecer ali sua horta agroecológica com cerca de meio hectare e até ajudou um pouco na capina.

Na despedida do grupo, no dia 26 de setembro, foram recuperados os pontos que mais lhes chamou a atenão. A relação entre agricultores/as e consumidores/as foi um deles. “Apesar de ser um intercâmbio de SPG, vimos experiências também de produção, comercialização e participamos do Encontro do Núcleo da Rede Ecovida, nos sentimos muito acolhidos”, observa Clara Esther Martínez, da organização colombiana CORAMBIENTE. Sandra Konig, da Associação Outro Olhar, de Guarapuava (PR), disse que “saiu convencida que o SPG vai muito além da certificação, e que sempre precisa estar de acordo com diferentes contextos, especialmente considerando povos originários”. Na bagagem de volta à casa, além de muitas experiências e aprendizados, os/as participantes certamente levam saudades da praia do Campeche, que estava a poucos minutos de caminhada da pousada onde foi realizado o evento, a Tulipane.

Mais de 50 pessoas, entre colaboradores/as diretos e indiretos, estiveram envolvidos/as na organização da Vivência, entre equipe técnica do Cepagro e da Pousada, agricultores/as que forneceram os alimentos agroecológicos para as refeições e tradutores/as.

 

 

 

 

 

 

 

Cepagro recebe delegação latino-americana para debater Sistemas Participativos de Garantia (SPG)

Representantes de organizações do México, Paraguay, Perú, Bolívia, Guatemala, Equador, El Salvador e Colômbia e de mais 6 estados brasileiros estarão em Florianópolis para participar da I Vivência em Sistemas Participativos de Garantia que o Cepagro promove de 21 a 26 de setembro. A atividade tem o objetivo de compartilhar experiências diversas em certificação participativa e SPG, estimulando a troca de conhecimentos sobre estratégias de produção, articulação de famílias e comercialização entre organizações brasileiras e de outros países latino-americanos. A Vivência faz parte do projeto Saberes na Prática em Rede, que tem apoio da Inter-American Foundation.

Basicamente, a certificação participativa num SPG é realizada pelos/as próprios/as agricultores/as. No Brasil, ela tem a mesma legitimidade que a certificação realizada por empresas de auditoria. Um dos principais SPGs brasileiros é o da Rede Ecovida de Agroecologia, que reúne mais de 4 mil famílias de agricultores agroecológicos do Sul do Brasil e inspirou outros sistemas no Brasil e na América Latina.

A programação da Vivência terá momentos abertos ao público, como o debate Certificação Participativa Orgânica: conexões latino-americanas, que acontece na 2ª feira, 24 de setembro, das 14h às 18h no Centro de Ciências Agrárias da UFSC. Na mesa de discussões, estão representantes do Ministério da Agricultura, dos Fóruns Brasileiro e Latinoamericano de SPGs, além de organizações do Paraguay, México e também da Rede Ecovida de Agroecologia. A participação no debate é aberta e gratuita. Para inscrições, clique aqui.

 

Núcleo Litoral Catarinense e Cepagro participam de capacitação sobre SPG em Torres

A coordenação do Núcleo Litoral Catarinense da Rede Ecovida e os agrônomos Gisa Garcia e Francys Pacheco, da equipe técnica do Cepagro, estiveram em Torres (RS) na semana passada participando de uma capacitação sobre o novo sistema informatizado de registro de dados das famílias da Rede. A comitiva também aproveitou para intercambiar experiências com iniciativas de coletivos de consumidores locais, além de firmar os entendimentos sobre os Sistemas Participativos de Garantia. A atividade foi realizada com apoio da Fundação Inter-Americana.

No primeiro dia da visita, 8 de agosto, o grupo conheceu a cooperativa de consumidores EcoTorres, onde tiveram um bate-papo com Laércio Meirelles, um dos idealizadores da Rede Ecovida, sobre o processo de formação da Rede e o contexto politico da época, além de possíveis rumos deste coletivo que reúne quase 4.500 famílias de agricultores e agricultoras agroecológicos. O coordenador da EcoTorres, Beto Johann, contou sobre a iniciativa de consumidores em criar uma cooperativa para que tivessem acesso a um alimento saudável, limpo e que valorizasse a produção local.

Na 4ª feira, 9 de agosto, o grupo visitou a sede da Associação Ecovida de Certificação Participativa, onde foram apresentados ao novo sistema de cadastro de famílias da Rede Ecovida. Cristiano Motter, técnico do Centro Ecológico, explicou que a partir desse ano todos os dados da propriedade e de produção das famílias membros da Rede serão incluídos nessa plataforma online, o que permitirá gerar automaticamente os certificados e relatórios específicos sobre os grupos e Núcleos, como por exemplo, áreas de produção, diversidade de alimentos, entre outros.
com informações e fotos de Gisa Garcia

Cepagro participa de encontro de SPG no México e inicia articulação do Convênio com IAF

A participação da equipe do Cepagro no II Encuentro, Taller y Feria de Certificación Participativa y SPG, promovido entre os dias 25 e 27 de novembro pelas organizações mexicanas Centro Campesino e Tijtoca Nemiliztli no município de Hueyotlipan (estado de Tlaxcala, a 105 km da Cidade do México), marcou o início da articulação do Comitê Gestor do convênio que a entidade firmou em setembro deste ano com a Inter-American Foundation (IAF). Além de apresentar as experiências do Cepagro dsc_0013em SPG e fomento à agroecologia, durante o evento os técnicos Charles Lamb e Ana Carolina Dionísio puderam conversar com representantes do Centro Campesino e da Asociación de Productores Orgánicos do Paraguay (APRO) para convidá-los a integrar o Comitê Gestor do projeto, que será formado por 5 ou 6 organizações brasileiras e de outros países latinoamericanos, compondo uma instância de coordenação compartilhada das ações e tomada de decisões participativas. Nos próximos três anos de atividades, o Cepagro trabalhará em cooperação com a IAF e seus donatários para articular uma rede de colaboração em torno da agroecologia, promovendo a troca de experiências e o compartilhar de conhecimentos entre organizações latino-americanas.

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baixa8O Encontro de Hueyotlipan já foi um exemplo de evento combinando momentos de formação, troca de experiências e articulação para outras iniciativas. Estavam presentes organizações dos estados mexicanos de Tlaxcala, Hidalgo, Oaxaca, Puebla e Michoacan, e todas apresentaram suas ações nos eixos de produção, garantia e comercialização de produtos agroecológicos. A experiência em certificação participativa da Tijtoca Nemiliztli – associação consolidada em 2016 e que teve sua primeira inspiração para formar um SPG durante o Encontro Ampliado da Rede Ecovida realizado em Florianópolis em 2012 – é única no México.

baixa7Fora a Tijtoca, a outra possibilidade de certificação participativa é pelos Mercados Alternativos (Tianguis), que funcionam como organismos de controle social, cada um tendo sua comissão de verificação. Segundo Humberto Morales, coordenador do Centro Campesino – entidade que assessora a Tijtoca – a participação de organizações de outros estados e também de outros países traz mais credibilidade para o SPG frente à autoridades locais, contribuindo para a expansão dele em mais regiões mexicanas.

baixa3No momento, cerca de 40 propriedades familiares (“fincas”) são certificadas pela Tijtoca Nemiliztli, na maioria quintais produtivos. Há também 15 produtores de grãos, além de micro-agroindústrias,  produções de cogumelos e também de cosméticos. A participação ativa de consumidores na comissão de verificação da Tijtoca é um dos seus diferenciais, pois fortalece a noção de “olhar externo” para as propriedades que integram a rede de certificação, de acordo com Rafael Palafox, um dos coordenadores da associação. Além disso, os produtores de grãos devem cultivar exclusivamente sementes crioulas para serem certificados.

baixa32Com um foco marcante em quintais produtivos voltados ao autoconsumo e comercialização de excedentes, o SPG da Tijtoca Nemiliztli acaba tendo um vínculo forte com as mulheres. Isso porque os chamados huertos de traspatio, a “pequena produção” nos arredores das casas é uma atividade frequentemente a cargo delas. Desta forma, não é surpreendente que a discussão sobre gênero esteja na pauta de organizações presentes, como o Grupo Vicente Guerrero e do Centro Económico Social Julián Garcez, ambas de Tlaxcala. “Trabalhamos a temática de gênero desde 2004, através de uma parceria com o Centro de Direitos Humanos”, explica a agricultora e comerciantes Martha Zempoaltecal, do Grupo Vicente Guerrero. Além da prevenção do HIV, as organizações também atuam na prevenção ao tráfico de mulheres indígenas na região.

baixa12A gestão de recursos hídricos foi outra temática apresentada por diversas organizações, já que a disponibilidade de água para a agricultura é problemática no México, seja pela escassez ou pela contaminação. A construção de cisternas e sistemas de captação de água da chuva e biodigestores para tratamento de dejetos animais e humanos foi uma solução apresentada por diversas organizações para superar este desafio.

baixa9Como encaminhamentos da sistematização das apresentações do encontro, percebeu-se a mudança de mentalidade demandada para o avanço da agroecologia. “A resistência à mudança ocorre também porque existe um foco só no econômico, sem considerar o impacto ambiental e na saúde”, explica Humberto Morales. Neste sentido, campanhas de conscientização junto a consumidores é uma estratégia que caminha junto com a sensibilização dos agricultores. “Tocamos o coração, para daí mudar a cabeça e então a propriedade”, completa Morales. Além desses eixos, os da incidência política e articulação em rede também são fundamentais, como explica Martha Zempoaltecal: “É necessário que nos organizemos e nos fortaleçamos para conseguirmos mais valorização de nossos produtos. E fazermos alianças e articulações para fortalecer os processos”.

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Se a comercialização também foi outro desafio apontado por praticamente todas as organizações participantes, nada como a promoção de uma Feira para pensar soluções conjuntos e ampliar a divulgação dos produtos. No domingo de encerramento do evento, a Calle Juarez, em frente à Casa Ejidal de Hueyotlipan, foi fechada para a montagem do mercado com produtos agroecológicos das associações que estiveram no evento, apresentações culturais, rodas de conversa temáticas e preparação de receitas.

dsc_0252Conhecer as organizações participantes foi fundamental para compreender um pouco mais dos desafios, demandas e soluções na promoção em agroecologia fora do contexto brasileiro. O diálogo do Cepagro com outras organizações será fundamental para definir as temáticas a serem trabalhadas e o planejamento de atividades do projeto, dentre as quais estão previstas: a realização de três seminários (2 no Brasil e 1 em outro país), além de 5 oficinas de intercâmbio para troca de experiências e melhores práticas (sendo 2 no Brasil e 3 em diferentes países da América Latina). As oficinas serão momentos de formação e troca de conhecimentos com foco em temas baixa45relacionados à agroecologia, como práticas sustentáveis de agricultura, comercialização de produtos agroecológicos, certificação participativa, gênero, gestão sustentável da água e de resíduos orgânicos. Os seminários incluirão a presença de especialistas e também treinamento em desenvolvimento organizacional. Neste projeto, uma das principais ferramentas de comunicação e aprendizado será a plataforma virtual Red Colaborar.