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CCA de Portas Abertas traz a comunidade para dentro da universidade

Sábado, 29 de junho, foi dia de balbúrdia no Centro de Ciências Agrárias da Universidade Federal de Santa Catarina. Cerca de 600 pessoas passaram pelo centro de ensino no bairro Itacorubi, em Florianópolis, para prestigiar a primeira edição do CCA de Portas Abertas. Além de oficinas, minicursos, mostras científicas e visitação, o evento trouxe para a universidade uma feira agroecológica com produtos de famílias da Rede Ecovida, assentados da Reforma Agrária e da Comunidade Guarani Mbya de Major Gercino.

“Esse é o tipo de balbúrdia que nós temos que fazer, é a melhor forma de mostrar o que é feito dentro da universidade”, disse o pró-reitor de extensão da UFSC, Rogério Cid Bastos, durante a abertura do evento. Esse foi o objetivo do CCA de Portas Abertas: trazer a comunidade para dentro da universidade e apresentar as pesquisas, projetos e experiências que são realizadas. 

Durante a abertura também estavam o diretor do CCA, Walter Quadros Seiffert, o vereador egresso do curso de Agronomia, Marcos José de Abreu “Marquito”, além da professora do departamento de Zootecnia, Procássia Maria Lacerda Barbosa e a servidora da direção do CCA, Aline Cardozo Pereira que estavam na comissão organizadora. Todos eles/as frisaram a importância de dar continuidade ao evento, que tem a proposta de acontecer uma vez por semestre.

Foram mais de 40 atividades, entre elas contação de histórias, curso de comportamento e bem-estar de cães, oficina de hortas em pequenos espaços para crianças, visitas guiadas à Horta Orgânica do CCA, atividades culturais e uma oficina de compostagem organizada pelo Cepagro. Para as atividades do curso de Ciência e Tecnologia de Alimentos faltou mãos e tempo para dar conta da presença de tantas crianças interessadas.

“O que mais chamou a atenção foi a quantidade de famílias. Vieram muitas famílias com crianças, foi lindo. Tinha crianças que nunca tinham entrado no CCA e adultos que achavam que era um parque. Cumpriu mesmo o objetivo de abrir o CCA para o pessoal conhecer, e conhecer até os cursos”, comemora Aline Cardozo Pereira. Ela conta que, apesar das incertezas para esta primeira edição, o evento foi organizado com muita união. Houve o envolvimento de servidores, da direção do centro, de professores e o apoio do Cepagro na organização da feira, estrutura e divulgação do evento.

Mara Virginia Galvan, que é técnica em enfermagem e cursa Nutrição na UFSC, fez questão de comparecer com o filho ao evento. Ela aproveitou a oficina de compostagem para introduzir o tema a ele: “Me interessa bastante esse tema de fazer a compostagem e de nutrir o próprio alimento, porque hoje em dia a gente come mas não sabe se o alimento que tu come tem realmente os nutriente necessários. Eu achei a oficina superinteressante e bem informativa”.

Muitos voltaram para casa com mudas de flores nas mãos. Os/as alunos/as das disciplinas de paisagismo e floricultura do curso de Agronomia decidiram distribuir para a comunidade as mudas produzidas ao longo do semestre. Para o professor destas disciplinas, Enio Luiz Pedrotti, a intenção foi “mostrar para a comunidade como a universidade pode trabalhar de uma forma bem organizada e em contato com a comunidade, ao contrário do que tenta dizer o nosso governo de que a universidade é uma balbúrdia e que ninguém faz nada na universidade. A gente está mostrando o pouquinho que a gente sabe fazer e a gente sabe fazer muito mais coisas”, disse Enio.

O CCA de Portas Abertas foi uma oportunidade tanto para a comunidade externa se aproximar do espaço universitário, quanto para os estudantes reafirmarem o conhecimento que estão produzindo. Ao lado dos agricultores agroecológicos, os graduandos em Agronomia, Gustavo Abad e Teresa Marcon, estavam presentes na feira agroecológica comercializando pela primeira vez os alimentos cultivados na Fazenda Experimental da Ressacada através do projeto de Sistema Agroflorestal, do Laboratório de Ecologia Aplicada (LEAp)

Gustavo e Teresa falaram da importância do contato entre consumidor e agricultor na feira e do evento abrir as portas para as experiências universitárias. “Esse espaço é bem importante porque é aqui que a gente vai mostrar pras pessoas como a gente pode produzir de uma forma diferente”, disse Teresa Marcon.

O evento, por fim, ganhou menção honrosa no Conselho Universitário da UFSC (CUn). Na avaliação da professora Procássia Maria Lacerda Barbosa, o primeiro CCA de Portas Abertas foi além das expectativas: “o que mais me impressionou foi o número de público realmente interessado em absorver algum conhecimento, ou seja, a Universidade sempre vai passar isso para a sociedade, “O lugar onde se gera o conhecimento”. O desejo para as próximas edições é que haja ainda mais envolvimento da comunidade universitária do CCA.

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Horta escolar rural ganha cara nova com práticas agroecológicas

Compostagem, plantas companheiras e sazonalidade foram temas trabalhados com os/as estudantes da escola Tercílio Bastos, de Major Gercino, na última sexta-feira, 28 de junho. Mais uma vez o técnico de campo Henrique Martini Romano esteve na comunidade do Pinheiral, onde o Cepagro vem realizando atividades de educação ambiental através do projeto Iniciativas socioambientais e educativas em comunidades rurais, apoiado pelo Instituto das Irmãs da Santa Cruz. 

A escola já possui uma horta com 36 canteiros e, durante o último encontro, Henrique perguntou às turmas que plantas elas gostariam de semear ali, além das que já vinham cultivando com as atividades do programa Mais Educação. Respeitando o calendário agrícola, Henrique selecionou algumas espécies da lista e planejou o plantio junto com os/as alunos/as. É dessa forma, com base na educação popular, que o Cepagro trabalha a educação agroecológica: “A gente dá bastante voz para os estudantes, propõe e escuta o que eles querem fazer”, conta Henrique.

A proposta de Henrique para as turmas dos sexto, sétimo e oitavo anos foi pensar os canteiros sob um dos princípios da Agroecologia: o consórcio de plantas, característica que auxilia no controle de pragas sem o uso de veneno. A ideia foi mostrar para eles/as que “a horta é um ecossistema, e que lá existem muitas relações e interações ecológicas entre as plantas, os animais e entre o meio físico, como o solo que tem ali”, disse Henrique. Em cada canteiro, plantas companheiras foram semeadas lado a lado em diferentes desenhos, pensados pelos/as próprios/as estudantes. 

Além de colorir e diversificar os canteiros com alimentos, temperos e flores, os/as alunos/as também aprenderam como funciona uma minhocasa. Com parte do composto doado pelo Hotel SESC Cacupé de Florianópolis, a turma do sexto ano montou uma composteira para entender como os restos de alimento são transformados em adubo para a horta. Eles/as também se divertiram tirando fotos das atividades.

O professor Izair Knaul, que leciona ciências, acompanhou as turmas durante a prática e contou que as atividades na horta colaboram muito com os aprendizados em sala de aula. O oitavo ano, por exemplo, estuda o corpo humano e a alimentação saudável e nutrição são  temas que aliam o conteúdo programado na disciplina com as práticas na horta.

Muitos aprendizados podem ser obtidos fazendo a relação com as disciplinas, mas para Henrique esse não é o principal objetivo da horta. “O objetivo maior com eles é criar um espaço de vida e de trabalho coletivo onde eles vão se relacionar de uma forma diferente do que eles se relacionam dentro da sala. A horta cria uma relação diferente entre eles e a terra, sutilmente a gente vai criando uma relação de mais amor e respeito com a natureza. Essa é a principal contribuição que a horta escolar tem para a educação e para a sociedade”, conta Henrique.

As atividades da horta pedagógica na Escola Tercílio Bastos seguirão até o final do ano letivo trabalhando 3 eixos centrais: gestão de resíduos, horta agroecológica e alimentação saudável, sempre buscando aliar o calendário agrícola com o calendário escolar.

Mãos à horta: Cepagro cultiva Agroecologia em escola rural de Major Gercino

O projeto Iniciativas socioambientais e educativas em comunidades rurais segue cultivando a educação ambiental com a juventude de Major Gercino. Nos dias 13 e 14 de junho, o técnico de campo Henrique Martini Romano esteve na escola Tercílio Bastos, na comunidade do Pinheiral, para trabalhar temáticas como agroecologia, horta agroecológica e compostagem com as turmas do Ensino Fundamental e Médio.  “A abordagem foi por meio da sensibilização do potencial da horta agroecológica em criar um ambiente de vida, de aprendizagem, de convívio e produção de alimentos dentro da escola”, conta Henrique.

A escola já possui uma horta com 36 canteiros. A diretora, Fabiane Motta, conta que a horta foi iniciada através do programa Mais Educação, que hoje mantém uma técnica desenvolvendo a atividades neste espaço com os/as estudantes. O projeto do Cepagro, apoiado pelo Instituto das Irmãs da Santa Cruz, vem apoiar ainda mais as iniciativas de promoção da Agroecologia na escola. “Nós tentamos sempre manter esse foco, da educação ambiental, da reciclagem, da sustentabilidade na nossa escola”, afirma Fabiane.

Henrique desenvolveu atividades diferentes com as diversas faixas etárias de estudantes. Com os/as adolescentes do Ensino Médio, do período noturno, foi abordado o que é uma organização da sociedade civil como o Cepagro e também o tema da agroecologia e de sua importância enquanto um movimento de transformação social por meio da produção e consumo de alimentos saudáveis com respeito aos ecossistemas naturais. Além disso, foi conversado com os/as estudantes a possibilidade de eles/as colaborarem com fotos e vídeos sobre as atividades, animando os canais de comunicação da escola. 

Já as turmas do Ensino Fundamental “fizeram o reconhecimento do espaço da horta, identificaram as plantas já cultivadas no local e realizaram um levantamento das espécies que desejam cultivar”, relata Henrique. Com a ajuda do sexto e sétimo anos, foi também iniciada a limpeza de alguns canteiros e reativada a compostagem dos resíduos orgânicos da alimentação escolar.

Até o final do ano, o Cepagro estará presente na escola Tercílio Bastos a cada duas semanas. Além do trabalho na horta, os/as estudantes irão planejar um sistema de captação de água da chuva para a escola.

A consciência ambiental está presente na escola Tercílio Bastos.

 

Doutoranda dos EUA apresenta resultados de pesquisa para famílias agricultoras

Ervilhaca e aveia, duas culturas comuns em adubação verde.

Como a adubação verde e os consórcios de hortaliças podem melhorar a produtividade dos cultivos e a qualidade dos alimentos? Essa pergunta motivou a doutoranda Anne Elise Stratton, da Universidade de Michigan (EUA), a vir para Santa Catarina desenvolver a pesquisa de campo do seu doutorado. “Minha tese é de que a diversificação de cultivos e a adubação verde têm potencial de reduzir custos e aumentar a produtividade, contribuindo para a autossuficiência das famílias agricultoras”, explica Anne Elise. Desenvolvida em parceria com o Cepagro, a pesquisa Cultivos em consórcio, adubação verde e a qualidade do solo e das hortaliças produzidas já trouxe alguns resultados, que foram apresentados na última terça, 4 de junho, em Angelina.

O engenho da família Gelsleuchter (da Rede Ecovida de Agroecologia) recebeu a atividade, que reuniu 10 agricultoras e agricultores de Angelina, Major Gercino e Leoberto Leal. Anne Elise apresentou um panorama da pesquisa, que envolveu 15 propriedades em seis municípios: Angelina, Águas Mornas, Leoberto Leal, Major Gercino, Nova Trento e Santa Rosa de Lima. Em todas foram implantadas parcelas experimentais de consórcio de cultivos, quando dois ou três espécies são cultivadas no mesmo espaço simultaneamente. Além disso, em sete das 15 propriedades foram feitos experimentos com adubação verde  – cultivos feitos para fornecer cobertura e nutrientes para o solo, não para serem colhidos.

Visitando a parcela experimental de adubação verde

O consórcio experimentado por Anne nas propriedades foi de ervilha e pepino. Os resultados foram variados: em alguns casos, houve diferença na produção, em outros não, indicando que é preciso aprofundar as análises. No caso da adubação verde, os resultados foram diferentes, principalmente para o pepino: quanto mais tempo de cobertura de solo, melhor o rendimento do pepino. Já a ervilha, de acordo com Anne Elise, “fixa seu próprio nitrogênio no solo e não precisa de tantos nutrientes, por isso o benefício não é tão evidente”.

Dione Eger (centro) falando sobre o uso da adubação verde em sua propriedade

As famílias agricultoras já vêm observando as vantagens da adubação verde há tempos. Uma delas é o casal Dione e Zenaide Eger, que cultiva fumo na sua propriedade em Major Gercino. “Lá tem muita erosão, então temos que usar cobertura de solo. Usamos aveia preta como adubação de inverno, pois é a cultura mais adaptada à nossa região”, explica Dione, que já facilitou uma oficina sobre o assunto em 2015. Sobre a pesquisa, Zenaide avalia que “é fundamental para nós. Pois assim entendemos o porquê das coisas. Se ficamos só com a nossa observação, precisamos esperar um ano até colher a nova safra pra saber se o que a gente tentou vai dar certo ou não”.

Gabriela e Amauri Batisti mudaram da fumicultura para a agroecologia.

Na outra ponta da transição agroecológica está o casal Gabriela e Amauri Batisti, também de Major Gercino. Eles também cultivavam fumo e resolveram investir na agroecologia para trabalhar com mais saúde. “Depois que paramos com o fumo, chegamos a trabalhar fora durante dois anos. Mas aí fizemos as contas e vimos que seria melhor os dois ficarem trabalhando na roça”, conta Gabriela. Hoje eles produzem banana, açaí, aipim, batata salsa, batata doce e hortaliças num sistema agroflorestal, com cultivos tanto em meio à floresta nativa quanto junto com eucaliptos. “Antes a gente plantava uma coisa só em cada lugar. Depois que ela chegou, começamos a plantar tudo junto. E ainda quero experimentar plantar aveia no meio das bananeiras”, afirma a agricultora. Ela e o companheiro comercializam sua produção na alimentação escolar de Major Gercino e São João Batista, além de fornecerem 40 a 45 cestas de alimentos semanalmente. “No futuro, queremos montar uma agroindústria para beneficiamento de aipim”, completa.

O agricultor Gilmar Cognacco também plantava fumo e hoje está na agroecologia, participando da pesquisa. Aproveitou a atividade para colher um pouco de couve para as feiras de Brusque e Florianópolis.

Além das conexões acadêmicas entre a UFSC e a Universidade de Michigan, essas diferentes caminhadas na transição para uma agricultura mais sustentável foram um atrativo para Anne Elise desenvolver sua pesquisa de campo no Brasil. “Vocês são um exemplo dessa transição sustentável na agricultura, com conservação de solos e diversificação”, disse ela às famílias. “Acredito que essa pesquisa será um reforço para a noção da Agroecologia como ciência, além de reunir informações e dados sobre práticas como a adubação verde”, completa Anne Elise.

A pesquisa continua até 2020. Um novo ciclo de adubação verde será plantado em agosto, para ser incorporado e aí receber mudas de hortaliças. Nessas próximas fases, será importante o apoio que o Cepagro vem recebendo do Instituto das Irmãs da Santa Cruz para compra de insumos e logística da equipe de campo.

Cepagro conversa sobre direito à alimentação no serviço de proteção social básica

A convite do Centro de Referência em Assistência Social (CRAS) Canasvieiras, o Cepagro colaborou na revitalização da Horta do Centro de Saúde de Canasvieiras. A atividade aconteceu como uma oficina do Chá de Direitos, que toda primeira sexta-feira do mês reúne mulheres usuárias do CRAS para participar de uma oficina e discutir sobre direitos sociais. No último dia 7, o tema da conversa foi o Direito à Alimentação e a agrônoma Aline de Assis e o presidente do Cepagro, Eduardo Rocha, foram contribuir com o debate.

O convite veio da assistente social do CRAS, Simone Serafim Corrêa e da graduanda em Serviço Social pela UFSC, Maria Eduarda Libano, que estagia no local. Foi Maria Eduarda quem iniciou a conversa apresentando um panorama da fome no Brasil. Ela demonstrou em gráfico que em 2014 o Brasil saiu do Mapa da Fome, mas que nos últimos anos o número de pessoas sem acesso a alimentos de forma regular e suficiente voltou a crescer e o retorno à lista de países em que a insegurança alimentar é problemática pode se tornar realidade.

Maria Eduarda estagia no CRAS Canasvieiras desde março do ano passado e conta que diariamente aparecem no centro pessoas pedindo por alimento: “é em praticamente todo atendimento”, conta. O CRAS Canasvieiras atende anualmente cerca de 5 mil famílias e, por trabalhar com pessoas em situação de vulnerabilidade, pode oferecer até 7 cestas básicas por mês. No entanto, como aponta a assistente social Simone Serafim Corrêa, “a cesta básica funciona como um paliativo, ela não resolve o problema social que é o desemprego”.

Simone confirma o aumento da demanda por alimentação no CRAS, que é diário. Ela explica que o CRAS, enquanto serviço de proteção social básica, pode e deve tratar da Insegurança Alimentar, já que a Política Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional é uma política transversal. Pensando nisso, durante a conversa que iniciou a oficina, Eduardo Rocha lembrou que a alimentação só se tornou um direito garantido na constituição em 2010 e, já que é um direito, o Estado tem o dever de garantir que todas e todos os/as cidadãos/ãs brasileiros/as se alimentem adequadamente.

Como a proposta do Chá de Direitos é justamente conversar sobre nossas garantias constitucionais, Eduardo apresentou os programas do governo que de fato tratam a alimentação como direito. É o caso do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), que repassa às escolas municipais, estaduais e federais um valor para ser aplicado na alimentação e em ações de educação alimentar e nutricional a estudantes.

O PNAE estabelece que 30% do valor repassado deve ser investido na compra direta de produtos da agricultura familiar, medida que estimula também o desenvolvimento econômico e sustentável das comunidades. Durante sua fala, Eduardo Rocha lembrou que 70% da nossa comida vem da agricultura familiar, por isso nada mais justo do que investir no setor.

Como aponta Eduardo, “os direitos não caem do céu, são conquistados através do coletivo e da organização” e, para ele, espaços como o CRAS, CREAS, bem como os conselhos da sociedade civil responsáveis por fiscalizar os programas e as políticas públicas são de grande importância.

Além de discutir sobre os direitos sociais, o grupo de mulheres, gestantes, crianças e servidoras públicas presentes na atividade aproveitou para colocar as mãos na terra e plantar alimento no espaço público. Acompanhados pela agrônoma do Cepagro, Aline de Assis, o grupo seguiu para a horta do Centro de Saúde de Canasvieiras que está aos cuidados da profissional de educação física Claudia Pedroso e da auxiliar de serviços Nair.

Claudia tem realizado atividades de fortalecimento de vínculo principalmente com o público atendido pelo Centro de Saúde. Durante a oficina os canteiros foram revitalizados no modelo agroecológico e ganharam ainda mais vida e potencial de se tornar uma espaço de convivência e promoção da saúde. Quando Eduardo perguntou às usuárias do CRAS o que vinha à mente quando elas olhavam para a imagem de um canteiro agroecológico, surgiram as palavras: harmonia, variedade, biodiversidade e coletivo.

Assim foi a atividade na tarde de sexta-feira: diversa, coletiva e harmônica.

Cepagro promove educação agroecológica no dia Mundial do Meio Ambiente

Há 47 anos, durante a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano, realizada em Estocolmo pela ONU, instituiu-se o Dia Mundial do Meio Ambiente. A data tinha como objetivo alertar a população e governos de cada país sobre os perigos de negligenciarmos o cuidado com o mundo em que vivemos. No Brasil, celebramos também a Semana Nacional do Meio Ambiente, como consequência da data criada pela ONU.

Como parte da programação desta semana, o Cepagro realizou mais uma oficina de horta agroecológica na Escola de Educação Básica Januária Teixeira da Rocha, no Campeche. Por lá, apesar da importância da data, as crianças sabem que a Educação Ambiental acontece todo dia.

Na atividade de hoje, foi a vez da turma do 4º ano sujar as mãos de terra. Junto com a agrônoma do Cepagro, Karina Smania de Lorenzi, as crianças construíram o quarto canteiro da escola. Mas antes de ir para a prática, Karina explicou para elas a diferença entre um canteiro convencional e um canteiro agroecológico.

No canteiro convencional várias mudas de uma mesma espécie são plantadas lado a lado. Se um inseto ataca uma plantinha, a chance de ele atacar o canteiro inteiro é maior. Já a horta agroecológica funciona na base da cooperação, onde cada plantinha contribui com as suas características próprias, lógica que é aplicada também na vida de cada um. Há pessoas que são boas em matemática, outras que vão melhor em geografia, e tem ainda aquelas que são ótimas artistas ou esportistas.

Respeitando a diversidade e cooperando com o próximo, assim a oficina aconteceu. O composto utilizado, por exemplo, foi doação da Horta Pedagógica e Comunitária do Parque Cultural do Campeche (Pacuca). O coordenador do Parque, Ataíde Silva lembra que o espaço onde hoje está a horta comunitária foi conquistado com dificuldade. “Na época em que foi implantada, a ideia da horta foi uma forma de presença da comunidade, do não abandono dos moradores”, conta Ataíde. Para ele, as crianças são a esperança de que as gerações futuras colham ainda mais frutos e “nesse dia Mundial do Meio Ambiente, a coisa mais importante é a educação, é o que vocês fazem nessa escola, isso é uma semente”.

A professora Silvia Leticia de Sá T. Cardoso diz para seus alunos que eles sãos os guardiões do Campeche. Ela lembra que o bairro já sofreu com alguns crimes ambientais e acredita que a educação ambiental na escola é uma forma de conscientizar as gerações futuras para o cuidado com o espaço onde vivem. E tem funcionado.

Alguns pais contaram para Silvia que começaram a compostar em casa a pedido dos filhos, que estão mostrando interesse em cuidar das plantinhas do quintal de casa. “No relato dos pais eu pude perceber que eles vão levar esse projeto para a vida toda. Não só na questão ambiental, mas também levam para a vida, se tornam mais responsáveis”, contou a professora Silvia, que leciona para o quarto ano.

E essa é a ideia. Através de projeto do Cepagro, apoiado pela Misereor e em parceira com a Associação de Moradores do Campeche (Amocam), Karina Smania faz atividades práticas e pontuais na escola, trabalhando sempre uma turma e uma temática diferente. A agrônoma conta que com a horta pedagógica é possível trabalhar diversos temas, mas que a educação ambiental pode ser feita também no dia a dia pelas professoras em sala de aula, aliando a educação ambiental a suas disciplinas, sejam elas quais forem.

Na sexta-feira, 7 de junho, Karina voltará à escola e vai usar a literatura e a música para falar sobre as plantas que nascem embaixo e em cima da terra.

Oficina com hortas no CRAS Capoeiras é apresentada como experiência exitosa em Seminário sobre Assistência Social

Criatividade, envolvimento, solidariedade e construção. Essas foram as palavras escolhidas pela psicóloga Gabriela C. Klauck, para descrever o trabalho com hortas agroecológicas realizado no Centro de Referência em Assistência Social (CRAS) Capoeiras em parceria com o Cepagro. Gabriela é de Caxambu do Sul e conheceu a experiência do CRAS durante o X Seminário Estadual de Gestores e Trabalhadores da Assistência Social, promovido pela Federação Catarinense de Municípios (FECAM).

Durante o evento, que aconteceu entre 29 e 31 de maio, foram apresentadas algumas experiências exitosas nos Sistemas Únicos de Assistência Social (SUAS) dos municípios catarinenses. As psicólogas do CRAS, Alvira Bossy e Liliana Budag Becker e a agrônoma do Cepagro, Karina Smania de Lorenzi, participaram e compartilharam com assistentes sociais, psicólogas/os e gestoras/es públicas/os, os frutos colhidos com as oficinas agroecológicas realizadas através do projeto Misereor em Rede.

O projeto iniciou com duas oficinas de horta facilitadas pelos Agrônomos do Cepagro Ícaro Pereira e Karina, e envolveu desde crianças até idosos. As psicólogas do centro viram na prática agroecológica uma forma de melhorar o vínculo com os usuários do CRAS, abraçaram a ideia e seguiram fazendo atividades envolvendo plantas, o cuidado com a terra e com as pessoas.

Uma dessas atividades foi a oficina de memórias através das plantas, voltada para a terceira idade. Os idosos foram convidados a levar uma planta que despertasse neles alguma memória e, junto com as assistentes, construíram vasos com material reciclável. Alvira Bossy conta que aquele momento lúdico de convívio com os usuários não tinha como objetivo somente a confecção do vaso, mas sim ser “um momento para refletir, compartilhar e construir memórias juntos”.

O cuidado e o fortalecimento de vínculos são princípios do trabalho com assistência social e Lilian Budag Becker acredita que “quando se quer fortalecer vínculos, a gente precisa entender de que maneira se dá esse vínculo. E usar a Agroecologia é tudo, porque você pode usar o teu ambiente, o teu quintal, as ruas, as praças, os espaços que você tem”.

A Agroecologia não é apenas um modelo de fazer agricultura, complementou Karina durante a apresentação, “ela pode ser aplicada também no nosso modo de vida”. Na diversidade de um canteiro agroecológico, uma planta com a raiz mais longa descompacta o solo, outra com aroma forte repele insetos, enquanto as flores chamativas atraem os polinizadores. “Então essa relação de colaboração entre as plantas, a gente consegue observar na relação humana também”, acrescentou.

Entre relatos, palestras e oficina, o seminário tinha como objetivo “propiciar a troca de experiências na execução e qualificação teórica das políticas de Assistência Social”, afirma Janice Merigo, assistente social da Fecam. Para ela, o relato sobre o CRAS Capoeiras acrescentou no debate porque mostrou como “as oficinas fortalecem a participação do usuário no serviço de assistência social”.

Gabriela Klauck foi uma das profissionais que se sentiu inspirada pela iniciativa: “Quando eu vi elas eu achei fantástico, porque eu me vi enquanto psicóloga trabalhando com a arte, com a criatividade das pessoas, fazendo elas se movimentarem. Envolve solidariedade e cooperativismo, isso é construção, isso é transformação social”. Apesar da vontade de inovar no seu local de atuação, Gabriela contou que por conta do engessamento da política de assistência social, nem sempre é fácil propor ideias novas nos centros de assistência.

No caso do CRAS Capoeiras, como lembra Alvira, boa parte dos materiais utilizados para as oficinas foram materiais que tinha ali mesmo, no ambiente do CRAS, “mas não é por isso que não se precisa investir. Tem que incluir na Assistência Social mais recurso”.

Durante os relatos das experiências, mais de uma vez falou-se na necessidade de pensar fora da caixa. Alvira concorda: “A gente, como profissional, tem que se desconstruir, precisamos sair das caixas. Vamos parar de falar da psicologia só com psicólogos, de assistência social só com assistente sociais”. Sem desconsiderar as territorialidades e realidades locais, a experiência no CRAS Capoeiras mostrou que a Agroecologia tem potencial quando o assunto é Proteção Social Básica, Assistência Social  e seus princípios: cuidado e fortalecimento de vínculos.