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Da semente aos resíduos: curso de consumidores conscientes encerra ciclo com formação sobre compostagem

Para tornar-se um consumidor responsável, tão importante quanto ter consciência do que se consome, é saber fazer a destinação correta dos resíduos. Foi pensando nisso que o 4º e último módulo do curso ‘Consumo consciente, responsável e agroecologia’ teve como tema a compostagem e a gestão comunitária dos resíduos. Organizada pelo Cepagro, a formação aconteceu entre os dias 28 e 29 de setembro e contou com a participação de cerca de 50 agricultores e consumidores do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.

Num curso voltado para a compostagem e o consumo consciente, é fundamental conhecer experiências práticas que abordam esses temas. Assim, o curso apoiado pela Misereor em Rede iniciou sua programação no sábado de manhã com a visita à duas iniciativas no bairro Campeche: a Destino Certo para Resíduos Orgânicos e a Horta Comunitária e Pedagógica do PACUCA. 

Num terreno com cerca de 1.000 m² numa das esquinas mais movimentadas do bairro – Avenida Campeche com a Rua Pau de Canela – Eduardo Elias, idealizador da Destino Certo, mantém um pátio de compostagem que recebe resíduos orgânicos dos restaurantes e pousadas locais. Eduardo faz a coleta semanal do resíduo orgânico de restaurantes, lojas de produtos naturais, escolas e condomínios do bairro, em dias alternados, trazendo entre 2 e 2,5 toneladas de restos de comida para compostar no pátio. O composto produzido vai para a horta anexa ao pátio, onde ele produz verduras e legumes orgânicos, que voltam para os restaurantes. 

Eduardo também comercializa o composto, fechando um ciclo de produção – consumo – produção de alimentos na cidade – ou, como ele chama, sintropia urbana. “Na lógica da sintropia urbana, nós fechamos os ciclos localmente”, explica Eduardo, que reforça que um dos objetivos da Destino Certo é também gerar consciência ecológica sobre nossos resíduos e estimular a reflexão sobre nossos padrões de consumo. “Queremos construir a noção de que resíduo orgânico é recurso, não é lixo”, afirma. 

Dali, o grupo seguiu para a Horta Comunitária e Pedagógica do PACUCA, instalada em 2015 através de uma intensa luta política e jurídica da comunidade por mais áreas verdes e de convivência no bairro. Numa área altamente visada pela especulação imobiliária, a Horta do PACUCA recebe e composta os resíduos orgânicos de cerca de 200 famílias do bairro, compostando em torno de 100 toneladas de resíduos ao ano, calcula o coordenador da Horta, Ataíde Silva. “A Horta marca a presença da comunidade na cidade, agregando o fator da produção de alimentos”, disse. 

Verduras e legumes do PACUCA chegam a escolas e asilos da comunidade, além de bairros periféricos da Grande Florianópolis, como Brejaru, Monte Cristo e a Ocupação Marielle Franco. A Horta também tem canteiros de plantas medicinais, que frequentemente são compartilhadas com usuários/as do Centro de Saúde do Campeche, que fica ali próximo.

Depois das visitas, o coletivo aprofundou os conhecimentos no tema com a oficina de compostagem facilitada pelo engenheiro agrônomo do Cepagro, Júlio Maestri. Júlio iniciou a oficina contando um pouco sobre a compostagem ao redor do mundo e ao longo da história. De forma sempre lúdica e participativa, ele explicou os processos da compostagem e seus diferentes modelos e dimensões, do âmbito doméstico ao municipal. Com as dúvidas sanadas, os/as cursistas partiram para a prática e juntos/as construíram uma composteira.

E como onde há consumo consciente, há alimentação agroecológica, o sábado terminou com um jantar feito com alimentos locais de agricultores/as agroecológicos/as e orgânicos/as da Rede Ecovida. Teve suco orgânico de Major Gercino, legumes de Leoberto Leal e Biguaçu, queijo, mel e receitas de engenho de Angelina. Além disso, integrantes do próprio grupo trouxeram feijão da serra, arroz do sul além da kombucha feita pelas consumidoras do litoral. Ou seja, na alimentação ofertada durante os dias de formação, consumidores/as e produtores/as estiveram realmente em rede.

E essa é a proposta do curso, que faz parte do projeto ‘Promoção da articulação entre o campo e a cidade em dinâmicas locais e regionais de abastecimento, conjugado com incidência política em soberania e segurança alimentar’ apoiado pela Misereor em Rede. A fim de formar consumidores conscientes e aproximá-los dos agricultores, o curso foi dividido em quatro módulos, planejados pelas organizações que compõem o projeto: AS-PTA, com sede em Palmeira (PR), Vianei, de Lajes (SC), CETAP, de Passo Fundo (RS) e Cepagro, com sede em Florianópolis (SC). 

De maio de 2018 até agora, os cursistas receberam formações sobre o tema das sementes crioulas, de sistemas agroflorestais e extrativismo, passaram pelo abastecimento e comercialização e agora encerram com a destinação dos resíduos orgânicos. Assim, no domingo a programação se voltou para a avaliação do curso. Os grupos presentes compartilharam suas reflexões sobre os aprendizados adquiridos até aqui e sobre os próximos passos para a manutenção dos coletivos formados. Todos eles indicaram que, independente de projetos, enquanto consumidores conscientes, continuarão fazendo formações , encontros e trocas entre si.

Na avaliação de Erika Sagae, que ao lado de Eduardo Rocha representa o Cepagro no projeto da Misereor, além dos aprendizados no sentido do consumo responsável, o curso foi importante enquanto um processo de formação para atuar na incidência política. Com o andamento do curso, a consumidora de Florianópolis Irene Shimomura, por exemplo, passou a fazer parte do Grupo Ilha Meiembipe, da Rede Ecovida. Por conta da sua participação no grupo, hoje, ela é também conselheira no Conselho de Segurança Alimentar e Nutricional de Santa Catarina. Além da Irene, o Ilha Meiembipe também ganhou representação de agricultores no Consea, “o que foi importante porque trouxe a produção primária para dentro do Conselho e para a construção da política municipal de segurança alimentar e nutricional”, conta Eduardo Rocha.

Na avaliação, o grupo do Centro Vianei trouxe principalmente a importância da autoformação e o envolvimento com outros temas. O grupo conta com pessoas de diversas áreas e isso também contribuiu para a formação de cada um. A professora Kauane Pionoski, de São João do Triunfo, faz parte do grupo formado pela AS-PTA e reforçou uma avaliação feita por ela ainda no primeiro módulo ao dizer que se há racismo, homofobia, misoginia e outras práticas de discriminação, não é Agroecologia. Também ficou como avaliação a importância de levar tudo o que gira em torno da Agroecologia à outros grupos e espaços.

Ao final da avaliação coletiva, os participantes receberam os certificados juntamente com um pacote de composto orgânico e uma muda de araucária. Os/as consumidores/as e agricultores/as se despediram com a certeza de um próximo encontro marcado para outubro, como um compromisso entre os grupos para além das instituições. Também ficou definida a participação de quatro cursistas no Encontro Ampliado da Rede Ecovida, em novembro. Eles/as farão uma oficina sobre consumo consciente.

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Encontro do Núcleo Litoral Catarinense renova princípios da Rede Ecovida de Agroecologia

“A alma da Rede Ecovida de Agroecologia são seus princípios, não a certificação”. A fala da agricultora Claudete Ponath, de Piçarras (SC), enfatiza que, muito além de emitir certificados de orgânico, a  Rede Ecovida existe porque há confiança, participação, transparência e organização de base entre famílias. Esses e outros princípios foram retomados e renovados durante o 13º Encontro do Núcleo Litoral Catarinense da Rede Ecovida de Agroecologia, realizado em Porto Belo no último final de semana, dias 24 e 25 de agosto de 2019. Mais de 130 pessoas participaram do Encontro, trocando conhecimentos, sementes e muita disposição para seguir trabalhando por uma agricultura limpa e amiga da Natureza.

A conversa sobre os princípios da Rede emerge num contexto em que, a partir do Fórum Brasileiro de Sistemas Participativos de Garantia, torna-se necessário incluir equidade de gênero e geração entre os princípios dos SPGs no país. “Isso significa que precisamos falar sobre Gênero e Geração no nosso Núcleo. Por termos uma coordenação com bastante mulheres ao longo de vários anos, pode parecer que não é preciso falar sobre isso. Mas não é verdade”, avalia Claudete, escolhida também como nova coordenadora do Núcleo, entrando no lugar da agricultora Tânea Mara Follmann, de Águas Mornas.

Troca de conhecimentos nas palestras e oficinas do Encontro
Além de momentos de celebração, os Encontros de Núcleo são espaços de troca e construção de conhecimentos.

A primeira palestra do Encontro foi no sábado 24, com o coordenador da Casa da Semente de Mandirituba (PR), Hans Rinklin. Após abordar o contexto de erosão genética em que vivemos atualmente, perdendo cerca de 10 variedades de sementes TODOS OS DIAS, além do controles de 66% da produção mundial de sementes por apenas 3 multinacionais, Hans apresentou o trabalho da Casa de Sementes e dos grupos de guardiões como uma alternativa para conservar a biodiversidade. “Sem semente, não há possibilidade de vida humana”, disse.

A Casa de Sementes existe desde 2011, articulando grupos de agricultores/as dispostos/as a conservar e multiplicar variedades de sementes crioulas e nativas. Mais do que um banco de armazenamento, a Casa promove também atividades de capacitação e acompanhamento de análises de sementes. Através de uma parceria com a Rede Sementes da Agroecologia, apoia a construção das Festas das Sementes no Paraná, além de realizar incidência política. Fechando a conversa, Hans afirmou: “A conservação das sementes e da agrobiodiversidade não é tarefa só dos/as agricultores/as. É de toda a sociedade, do campo e da cidade”.

Na sequência, os grupos do Núcleo Litoral fizeram sua apresentação.

Tecnologias sustentáveis de produção de hortaliças foi o tema da palestra do agrônomo Euclides Schallenberger, da Epagri de Itajaí.  Ao longo de uma hora com muitas informações, Schallenberger falou sobre propiciar boas condições ambientais para as plantas crescerem saudáveis, além de técnicas de manejo integrado, controle biológico e controle químico para doenças e “pragas” nos cultivos. “Não basta só não usar veneno. Para ter sucesso no cultivo orgânico, é preciso manter a planta em condições ótimas, criando também condições ruins para insetos e bactérias”, disse o agrônomo. Ao final de sua apresentação, Schallenberger falou sobre a nova proposta do ICMS Verde, prorrogada para entrar em vigor só no final de dezembro deste ano e que taxará com ICMS de 17% os agrotóxicos mais perigosos, reduzindo esta alíquota até 0%, no caso de produtos biológicos, permitidos na produção orgânica. “Isso mantém nosso custo de produção baixo, se comparado com o convencional”, disse.

As oficinas, no domingo de manhã, trataram de temas como: preparados biodinâmicos, adubos verdes, plantas alimentícias não convencionais (PANCs), comercialização e organização de consumidores/as e planejamento de produção e gênero.

Pra quem precisava relaxar e se cuidar um pouco, a Oficina Cuidar de Si foi o espaço certo para isso.

 

Trocas e intercâmbios durante o Encontro

Ao longo de todo o evento, a Feira de Saberes e Sabores era o espaço de trocas e conversas em meio à produção agroecológica do Núcleo Litoral Catarinense.

Assim como em anos anteriores, em 2019 o Encontro do Núcleo teve participações externas. Uma delas é dos companheiros da organização Fundesyram, de El Salvador, José Jesús Cordoba e Juan Antônio Ruiz, que vieram a Santa Catarina participar de diversas atividades conjuntas com o Cepagro. Além de trazer um pouco da experiência em Agroecologia do seu país natal, eles compartilharam também sementes, afinal “nosotros los agricultores agroecológicos somos todos hermanos”, disse José Jesus. A Fundesyram é parceira do Cepagro no projeto apoiado pela IAF.

Também participaram neste Encontro a turma da Rede Plantar para a Vida, de Sergipe, que está sendo assessorada por membros do Núcleo Litoral para compor seu SPG. O agricultor e estudante de Agronomia Elvis Valentim Lisboa era um dos membros da comitiva e conta que se sentiu em casa durante o Encontro. “Vimos que temos muita coisa parecida com os/as agricultores/as daqui”, disse. Elvis relata que a Rede surge a partir de uma articulação entre grupos de agricultores que fazem feira na região do município de Lagartos: “como grupo, temos mais impacto na comunidade”, afirma. Durante o Encontro, algo que o marcou bastante foi a diversidade: de pessoas, de interesses, de cultivos e de culturas. Leva para Sergipe os aprendizados que teve durante a oficina de Planejamento de Produção, com a equipe do LACAF.

A técnica do Sebrae Luciana Oliveira Gonçalves acompanha a Rede sergipana e conta que por lá os/as agricultores/as seguem os mesmos princípios da Ecovida. Desde 2017 a rede adotou o SPG e em dois anos Luciana já percebeu “a transformação social que causa na vida das pessoas e a melhora da autoestima. Com o processo participativo eles passaram a se relacionar de outra maneira, mais coletiva, fazem mutirões, se ajudam”. 

E é claro que nos encontros do Núcleo não pode faltar um banquete agroecológico. Em meio à diversidade de alimentos preparados pelo Grupo de Agroecologia Costa Esmeralda, que recebeu o evento, apenas três itens não eram agroecológicos.

Plenária do Encontro aborda princípios da Rede Ecovida
A demanda pela inclusão da equidade de gênero e geração estimulou a discussão sobre os princípios gerais da Rede Ecovida durante o Encontro do Núcleo. Representantes de vários grupos falaram sobre cada um dos 9 princípios da Rede: descentralização, confiança, processo pedagógico, formações de redes, participação, olhar externo, organização de base, transparência e adequação à unidade familiar. Atualmente, as questões de gênero e geração foram incluídas somente no Manual de Procedimentos da Rede, num capítulo que trata sobre violações de direitos humanos. Estas infrações podem implicar a perda do certificado e exclusão da Rede – ou seja, diz respeito principalmente à certificação, mas, como disse Claudete: o que move a Rede são seus princípios, eles são a alma da Rede. Neste sentido, continua a demanda por mais discussão dentro desta temática para que seja abarcada também como princípio agroecológico praticado na Rede.

Também foi apresentada a nova equipe de coordenação, com Claudete Ponath na coordenação e Ernande Stolarczk, de Major Gercino, como vice. E o próximo Encontro de Núcleo já tem local: Garopaba.

Porto Belo recebe Encontro da Rede Ecovida de Agroecologia

O Encontro do Núcleo Litoral Catarinense da Rede Ecovida acontece anualmente, reunindo famílias agricultoras que se dedicam à produção sustentável de alimentos orgânicos
Cerca de 150 pessoas, a maioria agricultores e agricultoras orgânicos de Santa Catarina, são esperadas neste final de semana no 13º ENCONTRO DO NÚCLEO LITORAL CATARINENSE DA REDE ECOVIDA DE AGROECOLOGIA, que acontece no Salão da Igreja Nossa Senhora Aparecida, comunidade Sertão de Santa Luzia, em Porto Belo. Na programação, haverá palestras, oficinas e a tradicional Feira de Saberes, Sabores e Sementes, representando a riqueza da agricultura agroecológica de Santa Catarina. O evento, organizado pelo Grupo de Agroecologia Costa Esmeraldas (GACE), começa no sábado, 24 de agosto, às 15h e termina no domingo, 25 de agosto, às 16h. No domingo a programação será aberta ao público.
A mesa de abertura do Encontro, no sábado às 18h, será sobre TECNOLOGIAS EM PRODUÇÃO SUSTENTÁVEL DE HORTALIÇAS, com a participação do agrônomo Euclides Schallenberger, da EPAGRI. No domingo o destaque é para as oficinas, abordando temas como: planejamento de produção, organização de grupos de consumidores e adubos. Durante todo o evento acontece a FEIRA DE SABERES SABORES, com alimentos e artesanato da agricultura familiar agroecológica catarinense. Um delicioso café e almoço agroecológicos serão servidos, a R$ 25 por pessoa. A organização pede confirmação da presença pelo telefone (47) 99720-6930.
O último encontro foi em Biguaçu

O Núcleo Litoral Catarinense da Rede Ecovida reúne cerca de 150 famílias de agricultores e agricultoras de 30 municípios catarinenses. Os Encontros  de Núcleo são realizados anualmente. Já a Rede Ecovida está presente nos três estados do Sul brasileiro, reunindo mais de 4 mil famílias de agricultores e agricultoras agroecológicos.

Cepagro apoia a Tributação Verde

NOTA PÚBLICA

 CEPAGRO APÓIA A TRIBUTAÇÃO VERDE

O Cepagro vem a público manifestar seu apoio à Tributação Verde, que retira benefícios fiscais para agrotóxicos em Santa Catarina. Até agosto deste ano, tais produtos eram isentos de ICMS. Enquanto isso, a sociedade e os cofres públicos arcam com os custos para o tratamento de doenças relacionadas ao uso abusivo de agrotóxicos. Além disso, os impactos ao meio ambiente – como a contaminação da água – dificilmente são monetarizados. A proposta da Tributação Verde é que o ICMS passe a ser cobrado para agrotóxicos, assim como para qualquer outro produto. Ao contrário do que anunciam setores do agronegócio, isso não significa aumento de 30% do preço dos alimentos para a população, mas que a indústria dos agrotóxicos pagará impostos como qualquer outra.

O Brasil consome 20% dos agrotóxicos comercializados mundialmente, sendo que três culturas respondem por 72% desse montante: soja, milho e cana* – produtos voltados em grande parte para exportação ou para produção de carnes (que também serão exportadas), não para alimentar a população brasileira. Entre 2007 e 2014, o Brasil registrou uma média de 25 mil intoxicações por agrotóxicos ao ano – quase 3 casos por hora. Entretanto, considerando que para cada caso registrado outros 50 não são notificados – de acordo com a Organização Mundial de Saúde – esse índice pode chegar a 1.250.000 intoxicações. Destes, cerca de 20% envolvem crianças e adolescentes até 19 anos**.

Em Santa Catarina, Considerando a proporção populacional, temos um dos maiores índices de intoxicação por agrotóxicos no Brasil. O estado também desponta em casos de tentativas de suicídio com essas substâncias***. Um levantamento do Ministério Público de Santa Catarina mostra que em 22 cidades catarinenses a água está contaminada com pelo menos 7 princípios ativos – todos proibidos na União Europeia****.

Os impactos dos agrotóxicos na saúde já estão largamente documentados: do câncer ao autismo, de más formações de fetos a abortos tardios, são inegáveis os riscos a que estamos expostos pelo uso abusivo destas substâncias no nosso país e no nosso estado. Nossos alimentos, nossa água, nossos solos e até o leite materno***** em muitas regiões do país estão contaminados com princípios ativos de agrotóxicos.

Assim, entendemos que a Tributação Verde para agrotóxicos é uma forma de compensar estes impactos na saúde e no meio ambiente dos e das catarinenses. A arrecadação desse imposto poderia, por exemplo, ser investida em ações para diminuição do uso de agrotóxicos e incentivo à agricultura ecológica. Não é justo que uma indústria que causa tantos impactos à saúde e ao meio ambiente tenha benefícios fiscais, enquanto a agricultura limpa, orgânica e agroecológica tenha tão poucos incentivos.

E lembramos que, se existe um setor que necessita de incentivos e isenções fiscais, é o da produção orgânica, para que os agricultores e as agricultoras que cultivam alimentos limpos e preservam o meio ambiente possam reduzir custos e, assim, ampliar o acesso da população a alimentos de qualidade e sem venenos.

* Dados do atlas “Geografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil”, da prof. Dra. Larissa Mies Bombardi (USP)

** Dados do atlas “Geografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil”, da prof. Dra. Larissa Mies Bombardi (USP)

*** Dados do atlas “Geografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil”, da prof. Dra. Larissa Mies Bombardi (USP)
**** Dados analisados pela prof. Dra. Sônia Hess (UFSC).

***** Dados levantados pelo prof. Wanderlei Antônio Pignati (UFMT) em Lucas do Rio Verde (MT).

Dia de sensibilização ambiental e Agroecologia no canteiro de obras do Floripa Airport

Na última sexta-feira, 26 de julho, o Cepagro esteve na obra do Floripa Airport, no bairro Tapera, sensibilizando trabalhadores e trabalhadoras para a compostagem e produção de alimentos em pequenos espaços. A convite da Racional Engenharia, Erika Sagae e Aline Assis, da equipe de Agricultura Urbana do Cepagro, e o coordenador de Desenvolvimento Rural, Charles Lamb, também realizaram uma oficina de produção de mudas.

No stand montado próximo aos refeitórios, onde almoçam diariamente mais de 700 funcionários, homens e mulheres das cinco regiões do país paravam para saber o que estava acontecendo. Era um tal de: “tem muda de coentro?”, “isso na minha terra é hortelã!”, “pra gente era malva”, “o açaí do Pará com 2 anos já está dando!”.

Além de conhecer diferentes formas de cultivo e aprender sobre o método UFSC de compostagem, os funcionários puderam saber sobre o destino do composto que é gerado ali mesmo, a partir do resíduo orgânico dos refeitórios. Em junho de 2018, durante a Semana do Meio Ambiente, a engenheira ambiental Luiza Marques procurou o Cepagro para dar destino ao composto gerado na obra. Desde então, a maior parte do composto do aeroporto foi doada ao Cepagro e contribuiu na implantação da horta comunitária do Posto de Saúde do Ribeirão da Ilha,  e em atividades realizadas na Escola Januária, no Campeche, e na Escola Tercílio Bastos, em Major Gercino.  Além disso, o composto também enriqueceu o cultivo das comunidades guaranis de Major Gercino, Aldeia Tekoá V’yá, e de Biguaçu, Aldeia Ygua Porã.

Na mesma ocasião, em 2018, o Cepagro facilitou a implantação de uma horta no canteiro de obras, para onde parte do composto também passou a ser destinado. O construtor civil John Nilson Alves Nepomuceno, do Pará, conta que usufrui da horta levando chás e temperos para casa. “É interessante porque a empresa tem uma preocupação com o meio ambiente, não descarta em qualquer lugar como se fosse qualquer resíduo. Eles separam os materiais reciclados, a serragem da madeira usam na compostagem. Se toda a empresa tivesse isso seria bom”, conta Nilson.

 

O Floripa Airport tem um plano básico ambiental, que vem sendo gerido pela Racional Engenharia. Segundo o técnico ambiental da empresa, Humberto Camargo Filho, a compostagem é uma das formas de gestão dos resíduos e por mês são compostados cerca de 250 kg. O responsável pela função é Romenald Albert, que aprendeu a compostar no Haiti, seu país natal. É ele também que cuida da horta diariamente.

À tarde, parte da equipe do administrativo, cozinheiras e funcionários do canteiro de obras participaram da oficina de produção de mudas. A agrônoma Aline Assis deu dicas sobre o cultivo de hortaliças em pequenos espaços e os participantes puderam levar para casa as mudas produzidas. Entre eles estava a sergipana Vanusia Jesus Santos, que ficou impressionada com o manjericão roxo e fez questão de levar uma muda para mostrar aos familiares.

Charles Lamb conta que a atividade “oportunizou uma grande troca de experiências e demonstrou o potencial que esse tipo de iniciativa pode ter em um espaço inóspito como um canteiro de obras”. Disse ainda que o Cepagro continuará apoiando a iniciativa com mais atividades até o término da obra, prevista para outubro.

Celebrado em 25 de julho, Dia Internacional da Agricultura Familiar homenageia quem alimenta o mundo

O Dia Internacional da Agricultura Familiar foi instituído em 2014 pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO). A data lembra da importância dos agricultores e das agricultoras para a alimentação mundial. De acordo com a FAO, entre 70 e 80% dos alimentos consumidos no mundo são produzidos por agricultores e agricultoras familiares e camponeses .

Em Santa Catarina, de acordo com a Síntese Anual da Agricultura publicada pela EPAGRI, o estado ainda caracteriza-se pelo predomínio de pequenas propriedades rurais.  Dos 183.065 estabelecimentos agropecuários do estado, 88,8% tem menos de 50 hectares, sendo que 37% destes estabelecimentos possuem menos de 10 hectares. Dentre os/as trabalhadores/as catarinenses que se identificam como agricultores/as, 84% são familiares.

Mas o que é agricultura familiar?
A categoria “agricultor/a familiar” é regulamentada pela lei 11.326, de 2006, que instituiu a Política Nacional de Agricultura Familiar e Empreendimentos Familiares Rurais, ainda durante o governo Lula. No texto, considera-se agricultor/a familiar quem:
– tem uma área de até 4 (quatro) módulos fiscais [em Santa Catarina isso corresponde a ate´80 hectares de terra]
– utiliza predominantemente mão-de-obra da própria família;
– tem renda familiar predominantemente originada de atividades econômicas vinculadas ao próprio estabelecimento ou empreendimento;
– dirige seu estabelecimento ou empreendimento com sua família.

Enquanto em cadeias produtivas agroindustriais, como frango, suínos e fumo, a agricultura familiar é responsável por grande parte da produção, no cultivo de alimentos orgânicos as famílias que trabalham no campo também têm destaque. No Cadastro Nacional de Produtores Orgânicos do Ministério da Agricultura – que contabiliza todas as famílias que passam por algum processo de certificação da produção – Santa Catarina tem 1.275 unidades de produção orgânica cadastradas, figurando entre os cinco maiores produtores de orgânicos do país. O documento também aponta que o número de agricultores/as catarinenses que se dedicam ao cultivo orgânico aumentou 12,9% entre 2017 e 2018, com o município de Santa Rosa de Lima, nas encostas da Serra Geral, reunindo o maior número de produtores/as.

Em 2017, Leonilda compartilhou sua experiência de vida e trabalho no Seminário “Mulheres e Agroecologia”

Uma das famílias é a da agricultora Leonilda Boeing Baumann. Antes conhecida como “a mulher do professor”, apesar de ter crescido e sempre trabalhado na roça, Leonilda Boeing Baumann agora maneja com seu filho uma propriedade com certificação agroecológica em Santa Rosa de Lima (SC), onde produzem verduras, temperos e chás, mel, geleias e mantêm também a Pousada Vitória. A partir do contato com o projeto Acolhida na Colonia de agroturismo, Leonilda resgatou sua autoestima de ser agricultora. E, com a inserção na Rede Ecovida de Agroecologia, afirma: “Hoje, se tu tem um alimento limpo na tua propriedade pra servir pra tua família, aí está o teu remédio”. 

O filho de Leonilda, Jackson, estudou Agronomia e voltou para trabalhar na propriedade em Santa Rosa de Lima. Participa de feiras e também de atividades da Rede Ecovida de Agroecologia.

E o que mais dizem as/os agricultoras/es sobre a agricultura familiar?

“Eu costumo dizer pro meu esposo que eu nasci pra isso. Nasci pra ser agricultora e produtora orgânica. Porque cada semente que eu planto na terra é com muito amor. Tanto amor, que eu até tenho dificuldade de tirar os alimentos da terra depois”. A agricultora Thaís Teixeira da Rosa, de Porto Seguro (BA), participa há dois anos da Rede de Agroecologia Povos da Mata, que reúne outras 700 famílias agricultoras da Bahia. Neste tempo, ela aprendeu e vem praticando diversas técnicas de manejo agroecológicas, que, combinadas com os saberes tradicionais repassados por suas ancestrais, garante o sucesso de suas colheitas e a diversidade na banca das duas feiras que ela realiza semanalmente. Com o trabalho na agricultura, Thaís e seu companheiro garantem o sustento da família de seis filhos. “Não é fácil”, afirma ela, mas seu amor pela terra não a deixa desistir: “Se não dá certo, eu vou lá e tento de novo”, conta. “Se você trata bem o solo, ele sorri pra você. A terra é como uma filha”, completa.

“A gente sabe que agricultura familiar é pra gente plantar e ter alimentos de saúde pras crianças e escolas. Se possível, orgânico. Porque o convencional anda muito complicado, causando muita doença. Eu acho que as escolas deveriam tudo pegar alimento orgânico. Porque as crianças comerem alimento convencional é muito complicado”. O agricultor Orlando Ribeiro Melo vive e trabalha em Bocaina do Sul, na Serra Catarinense. Participa da Rede Ecovida há 10 anos, quando iniciou sua transição do cultivo convencional para a Agroecologia. “Agroecologia é ter mais saúde para o povo, com alimentos saudáveis e de qualidade”, afirma ele.

E a agricultura familiar caminha com os povos e comunidades tradicionais. Quem dá o recado é Walter dos Santos, liderança quilombola e agricultor do Maranhão. “A gente tem que valorizar o quilombola e a agricultura familiar porque são parceiros que andam juntos. Porque se nós não produzimos, nós não conseguimos nos alimentar e se nós produzimos juntos: tá aí a agricultura familiar. Eu acredito que uma só andorinha não faz verão, mas o povo junto muda a realidade do Brasil.”

Superando um passado de fome e analfabetismo, com apoio de entidades da igreja católica e acessando políticas públicas como o Bolsa Família, o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e o Programa Nacional de Alimentação Escolar, a comunidade quilombola Piqui da Rampa, onde Walter nasceu e cresceu, hoje se sustenta com o que é produzido ali e sabe o valor dos alimentos. “O Bolsa Família fez com que a gente pudesse trabalhar de barriga cheia e aumentou nossa capacidade de conhecimento. E nós só soubemos o quanto valia um kilo de abóbora ou de feijão quando a CONAB chegou aqui e entramos no PAA”, conta. Com três refeições ao dia e alfabetização, a comunidade alcançou autonomia e conquistou espaços institucionais, como o Conselho Estadual de Segurança Alimentar e Nutricional, onde Walter ocupa um assento, e a universidade pública, com várixs jovens da comunidade tendo acesso. Dois são filhxs de Walter: Valdenice, que está cursando o Mestrado em Ciências da Saúde na Universidade Federal do Maranhão, e Waldey, estudando Agronomia também na UFMA.

“Nasci e me criei na roça. Agricultura Familiar pra mim é trabalhar a terra com carinho, produzir alimentos saudáveis pra nossa população. A gente sabe que 70% dos nossos alimentos vêm da agricultura familiar. Pra mim é tudo isso: produzir alimentos saudáveis com respeito ao meio ambiente”, afirma Lindomar Lins, agricultor do município de São Gabriel, no sertão baiano.

Ele sempre trabalhou na agricultura, e até 2011 cultivava somente pepino e beterraba em sua propriedade, utilizando adubos químicos e agrotóxicos. Através da sensibilização e assistência técnica da empresa pública de assistência técnica, Lindomar iniciou sua transição agroecológica. Com o estabelecimento da Rede Povos da Mata na região a partir de 2016, Lindomar pôde certificar sua produção como orgânica. Hoje, ele produz de 40 a 45 variedades de alimentos numa área de apenas 1,5 hectare, que tem tanto uma horta diversificada quanto um Sistema Agroflorestal. A observação do ciclo natural dos cultivos somada ao uso racional da irrigação com cobertura de solo e à produção própria de adubos e insumos orgânicos colabora para as colheitas de Lindomar, que faz 3 feiras orgânicas por semana na região. “É só entender a Natureza e trabalhar com ela que dá tudo certo”, afirma o agricultor. 

Para Carmem Munarini, agricultora e membra do Movimento de Mulheres Camponesas, “ser agricultora familiar é trabalhar junto com minha família lá na roça, lá no interior. É se organizar e ter direito também a mandar. Não deixar só os filhos e o marido mandarem, mas ter o direito também de participar nas decisões da família e nas decisões do trabalho da agricultura familiar”.

 

Rede Povos da Mata fortalece a Agroecologia na Bahia

Consolidada em 2016, a Rede Povos da Mata reúne hoje 700 famílias agricultoras de 4 regiões da Bahia. Nos dias 12 e 13 de julho foi realizado o II Encontro da Rede, em Irecê, no sertão baiano. O Cepagro esteve lá e conta um pouco do que rolou.

Paula Ferreira na abertura do Encontro

“Irecê tem a maior Feira Orgânica certificada da Bahia. Não somos mais pequenos agricultores de fundo de quintal. Produzimos toneladas de alimentos! Queremos assumir o compromisso de fornecer para a alimentação escolar na região. Temos produção pra isso”. Contrariando o senso comum que associa a agricultura familiar – sobretudo a agroecológica – com algo “pequeno” ou “sem escala”, a agricultora Paula da Silva Ferreira defendeu que Agroecologia é sim uma opção para alimentar a população com qualidade e quantidade. Paula é coordenadora de um dos núcleos da Rede de Agroecologia Povos da Mata e falou durante a abertura do II Encontro da Rede, realizado em Irecê, no sertão baiano, nos dias 12 e 13 de julho. Credenciada em 2016 como um organismo participativo de certificação orgânica, a Rede Povos da Mata está presente hoje em 28 municípios baianos do Litoral, Sertão, Chapada Diamantina e Recôncavo Baiano, envolvendo 700 famílias agricultoras, sendo 300 delas certificadas, além de 6 agroindústrias. “Nosso compromisso nos próximos 2 anos é continuar colaborando e qualificar o que já temos. Não temos meta de criar mais tantos grupos ou núcleos”, afirma Tatiane Botelho, que foi presidente da Rede até este Encontro, quando nova diretoria foi empossada.

O Encontro reuniu mais de 450 pessoas ao longo dos dois dias de atividades, que tiveram o objetivo de discutir as perspectivas da Rede para o fortalecimento da produção agroecológica de alimentos de base ecológica, assim como o consumo consciente de alimentos saudáveis. Neste sentido, tanto Paula Ferreira quanto Tatiane Botelho, que estava presidente da Rede Povos da Mata, aproveitaram a presença de representantes do Ministério da Agricultura e do Governo baiano na  abertura do Encontro  para apresentar perspectivas e demandas para fortalecer a produção e ampliar o acesso a alimentos agroecológicos. Consolidar o fornecimento de alimentos orgânicos para a alimentação escolar e prover infra-estrutura para as feiras orgânicas da região, como barracas e veículos, foram algumas das necessidades elencadas no evento. As coordenadoras da Rede também ressaltaram a importância de parcerias, como a do SEBRAE e da BAHIATER (a empresa pública de assistência técnica e extensão rural) tanto no apoio do evento quanto para o trabalho das famílias.

Feira Agroecológica e análise de conjuntura abrem o Encontro
Nada como uma Feira Agroecológica para iniciar um Encontro de Agroecologia. E no da Rede Povos da Mata não foi diferente: dezenas de famílias dos 4 núcleos da Rede trouxeram alimentos, cosméticos naturais e artesanatos para comercializar, mostrando a riqueza e a diversidade da produção agroecológica.O grupo de Agroecologia Pé de Serra reúne 17 famílias da região de Uibaí, no sertão baiano. Elas produzem hortaliças, legumes e frutas orgânicas e compareceram na Feira do Encontro da Rede Povos da Mata.


Além de conhecer a força da produção agroecológica na caatinga , no Encontro foi possível provar o chocolate orgânico produzido pelas famílias do Assentamento Terra Vista, município de Arataca, onde trabalham 55 famílias. Uma delas é a do jovem agricultor Daniel de Lima Santos.


A Rede Povos da Mata abrange também a comunidade pataxó do Sul da Bahia. Durante o encontro, as mulheres pataxó da região de Porto Seguro trouxeram seus artesanatos e também o mel orgânico que está em processo de certificação pela Rede.

Na palestra de abertura, Rogério Dias, da Associação Brasileira de Agroecologia, trouxe uma análise de conjuntura da Agroecologia no Brasil e as perspectivas de resistência da produção agroecológica de alimentos. Para Rogério, “a mudança de governo acelerou o desmonte de políticas públicas para Agroecologia que já vinha acontecendo desde o golpe de 2016”. Uma delas é própria Política Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica, instituída em 2012. Rogério avalia que “A PNAPO acabou, mas ainda precisamos confirmar quando sair o Plano Plurianual pra Agricultura. Mas não temos nenhuma garantia que haverá recursos para fomento da Agroecologia”.

Rogério, entretanto, lembra que “o Brasil não é só o Governo Federal. Os estados também têm Planos Plurianuais de Agricultura”. O agrônomo ressalta que a pressão da sociedade e a atuação das redes agroecológicas são fundamentais para resistir ao desmonte de políticas públicas para agricultura familiar, agroecologia e segurança alimentar. E reforça que “neste momento, temos que incomodar. Podemos incomodar sozinho, como um bicho de pé faz. Mas, se formos um bando de formigas lava-pés, incomodamos mais ainda”.

O tema do outro painel da tarde era Os impactos dos agrotóxicos na saúde humana, mas a nutricionista Valéria Cristina Paschoal preferiu abordar os benefícios dos alimentos orgânicos. A partir de revisão bibliográfica de artigos científicos, Valéria afirma que as plantas manejadas agroecologicamente crescem mais resistentes,  essa resistência é repassada aos alimentos, aumentando a imunidade de quem os consome. Neste sentido, os alimentos da caatinga são os que trazem mais benefícios, pois crescem num ambiente extremamente adverso. Para manter essa produção, Valéria reafirma a importância da valorização da agricultura familiar: “Não existem pessoas mais cultas que os/as agricultores/as. Porque a agricultura é uma das primeiras formas de cultura que o ser humano desenvolveu”, disse.

Comida de verdade, no sertão e na cidade
Caracterizado pelo clima seco da caatinga, Irecê está num território de 20 municípios que abrange aproximadamente 44 mil famílias agricultoras. Em meio aos monocultivos de feijão com uso pesado de agrotóxicos e adubos químicos, cerca de 130 famílias cultivam a Agroecologia, articuladas na Rede Povos da Mata.

Uma dessas famílias é a de Lindomar Lins, do município de São Gabriel. Lindomar sempre trabalhou na roça, e até 2011 cultivava somente pepino e beterraba em sua propriedade, utilizando adubos químicos e agrotóxicos. Através da sensibilização e assistência técnica da empresa pública de extensão rural, Lindomar iniciou sua transição agroecológica. Com o estabelecimento da Rede Povos da Mata na região a partir de 2016, Lindomar pôde certificar sua produção como orgânica. Hoje, ele produz de 40 a 45 variedades de alimentos numa área de apenas 1,5 hectare, que tem tanto uma horta diversificada quanto um Sistema Agroflorestal. A observação do ciclo natural dos cultivos somada ao uso racional da irrigação com cobertura de solo e à produção própria de adubos e insumos orgânicos colabora para as colheitas de Lindomar, que faz 3 feiras orgânicas por semana na região. “É só entender a Natureza e trabalhar com ela que dá tudo certo”, afirma o agricultor. Os/as participantes do Encontro visitaram a propriedade de Lindomar durante uma oficina de Certificação Participativa realizada no evento. 

O trabalho de promoção da Agroecologia na região iniciou em 2011, muito pela atuação do agrônomo Edvaldo Reinaldo Filho, da empresa pública de extensão rural, a Bahiater. Além de práticas e insumos agroecológicos, ele orienta as famílias sobre o uso racional da água, já que ali os cultivos são irrigados, dependendo de poços artesanais. “Quando trabalhamos a cobertura do solo com palhadas, restos de culturas e estercos estamos utilizando tecnologias de convivência com o semiárido, além de aproveitar os insumos da própria unidade produtiva. Desta forma, há uma redução de perdas de umidade do solo, reduzindo a evaporação, além de melhorar a temperatura do solo, proporcionando melhor desenvolvimento das plantas”, explica Reinaldo. “O manejo ecológico do solo é fundamental para evitar erosão e compactação do solo, proporcionando uma melhor absorção da água de chuva e de irrigação e a permanência da biota do solo”, completa.

Através da participação na Comissão de Produção Orgânica da Bahia, Reinaldo conheceu a Rede Povos da Mata e convidou representantes para virem conhecer as famílias agricultoras do Sertão. O contato com a Rede Povos da Mata potencializou a organização dos/as agricultores/as agroecológicos de Irecê, que formaram o Núcleo Raízes do Sertão. “Depois da primeira reunião, já saíram 4 ou 5 grupos de famílias”. No âmbito da Rede, as famílias puderam não só certificar sua produção, como abrir novos canais de comercialização – tanto é que do sertão elas enviam alimentos orgânicos para a merenda escolar de Ilhéus, no Sul da Bahia. Além disso, o Raízes do Sertão promove outras 10 feiras agroecológicas na região, sendo que a de Irecê é a maior com certificação do estado, como lembrou Paula Ferreira na abertura.

A agricultora Thais Teixeira da Rosa veio de Porto Seguro, a 900km dali, para o Encontro e ficou encantada com a força da produção no sertão. A visita à propriedade de Lindomar agregou ainda mais conhecimentos para a agricultora, que também já observa os benefícios da cobertura do solo e ficou muito interessada nos insumos usados em Irecê. “Meu desafio ainda é a produção da cebola, mas vou insistir e experimentar, até encontrar o jeito certo”, afirma a agricultora. Ela já comercializava alimentos na feira, mas não tinha certificação. “Quando a gente ia vender, falava que era orgânico. E o consumidor falava: prova. Então o selo veio pra isso, pra provar pro consumidor. E também oferecemos as visitas”. Apesar de não usar agrotóxicos, Thaís ainda utilizava adubos químicos na produção. “Mas quando a Adriana [ técnica da Secretaria de Agricultura ] veio aqui pra fazer a transição, eu não tive dúvida. Porque quero que meus netos comam saudável e tenha ganhado isso de mim. Que eles digam: minha vó plantava orgânico!”, conta a agricultora. Como parte de sua transição, ela passou a produzir seus próprios adubos: “Lá em casa sou eu que adubo. Eu faço compostagem, faço meu biofertilizante. Eu que adubo”, afirma a agricultora, batendo no peito. E Thaís quer mais: “Eu ainda peco porque não fiz uma análise de solo. Também tenho vontade de levar meus produtos num laboratório, pra ver que tá livre de tudo. Mas ainda não tenho recursos pra isso. Mas quero fazer um banner, quero mais! Cada vez mais diversidade. Porque pra mim não adianta comprar o alface comigo e o resto dos alimentos virem do mercado, envenenados”.

Representantes de organizações de Alagoas, Rio Grande do Norte, Minas Gerais e Maranhão também participaram do evento, através do apoio da Inter-American Foundation. Walter dos Santos, da comunidade quilombola Piqui da Rampa, no Maranhão, veio através da Caritas Maranhão, apoiada pela IAF. Ele conta que “vejo que aqui a turma sofre uma pressão tão grande, que busca o conhecimento. Fiquei muito feliz com a oportunidade de vir aqui e trocar esses conhecimentos, quero levar de volta pra minha comunidade”. A agricultora e guardiã de sementes Ana Maria da Silva Gomes, do Rio Grande do Norte, foi mobilizada pela Comissão Pastoral da Terra e garante que “vou levar uma carrada de sabedoria de volta para as minhas companheiras do assentamento”.