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Associação Brasileira de Agroecologia divulga Manifesto em defesa da Política Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica e a Política de Núcleos de Estudos em Agroecologia (NEAs)

Escrito e assinado durante a reunião para discutir a Política Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica (PNAPO), que acontece em Brasília de 24 a 26 de abril, o Manifesto ressalta a importância dos Núcleos de Estudos em Agroecologia no Brasil (NEAs). Os NEAs “têm-se mostrado com uma política pública de amplo alcance e resultados em todo o território nacional”, já que apresentam características como capilaridade, interdisciplinariedade, articulação interinstitucional, além de outros princípios consonantes com os da Agroecologia. De acordo com o documento, “entre 2010 e 2017 os NEAs tiveram 377 projetos apoiados em 230 Campi, sendo 39 Institutos Federais; 49 Universidades Federais; 21 Universidades Estaduais; e 5 Universidades sem fins lucrativos. Está presente nos 27 estados da Federação e atendeu em torno de 60 mil beneficiários diretos entre estudantes, professores, agricultores e agricultoras familiares, técnicos da extensão rural, entre outras;  Veja abaixo o documento na íntegra ou clique aqui:

Manifesto em defesa da Política Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica e a Política de Núcleos de Estudos em Agroecologia no Brasil (NEAs)

Nós abaixo assinados, representantes de Núcleos de Estudo em Agroecologia das Universidades, Institutos Federais e Instituições de Pesquisa do Brasil, assim como o conjunto de parceiros – poder público, cooperativas, movimentos sociais, comunidades rurais, povos e comunidades tradicionais; Instituições de ATER; organizações da sociedade civil e empreendedores – vimos por meio deste manifestar nossas reivindicações quanto a manutenção da Política Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica – PNAPO, em especial o fomento aos Núcleos de Estudo em Agroecologia, considerando:

1. Que o avanço de uma agricultura cada vez mais distante da natureza, caracterizada pela busca do aumento da produtividade agrícola a qualquer custo, desencadeou uma série de impactos sociais, econômicos e, especialmente, ambientais, que estão interligados a partir de uma crise ecológica sem precedentes na história da humanidade;

2. Que estes impactos nos territórios rurais, bem como para a sociedade em geral, vêm sendo amplamente documentados em diversas pesquisas e revelam a incapacidade do modelo hegemônico atual de reagir às incertezas cada vez mais evidentes, sobretudo, no clima;

3. Que o esgotamento, cada vez mais evidente, de recursos vitais como terra, água e energia em um ambiente de crescimento da população mundial, coloca este modelo de agricultura altamente dependente de recursos naturais em uma encruzilhada;

4. Que atualmente, a Agroecologia tem-se apresentado como uma alternativa viável para superação destes problemas, entendida como uma ciência, prática e movimento, sendo desenvolvida por milhares de pessoas no campo e nas cidades, com diferentes expressões identitárias a partir de inúmeros ecossistemas, demonstrando sua capacidade de adaptação e resiliência em ambientes diversos;

5. Que a agricultura orgânica no Brasil cresce 20% ao ano, contribuindo com o  abastecimento de alimentos saudáveis para o conjunto da população e exportação para mais de 26 países, constituindo uma oportunidade na geração de emprego e renda em diversos segmentos econômicos;

6. Que recentemente a Agroecologia tem sido reconhecida por organismos internacionais, a exemplo da FAO, ONU, CELAC, entre outros, como necessidade de enfrentamento dos problemas globais no âmbito das mudanças climáticas, da superação da fome e geração de segurança alimentar, nutricional e soberania alimentar;

7. Que é necessária a aliança do campo científico acadêmico com os empresários, movimentos sociais, as comunidades rurais e urbanas e a diversidade de identidades dos sujeitos do campo e das cidades, das águas, das florestas para o avanço em escala da Agroecologia;

8. Diante deste contexto, os Núcleos de Agroecologia são inovações das instituições brasileiras de ensino, pesquisa e extensão com grande potencial para implementação das políticas governamentais, produção, construção e disseminação dos conhecimentos e práticas agroecológicas a partir dos territórios e em diálogo de saberes com as famílias agricultoras, camponesas, povos e comunidades tradicionais e suas organizações;

9. Entre 2010 e 2017 os NEAs tiveram 377 projetos apoiados em 230 Campi, sendo 39 Institutos Federais; 49 Universidades Federais; 21 Universidades Estaduais; e 5 Universidades sem fins lucrativos. Está presente nos 27 estados da Federação e atendeu em torno de 60 mil beneficiários diretos entre estudantes, professores,
agricultores e agricultoras familiares, técnicos da extensão rural, entre outras;

10. Os NEAs distribuídos em todo o Brasil têm-se mostrado com uma política pública de amplo alcance e resultados em todo o território nacional, por apresentarem muitas características fundamentais para uma política pública:

a) Capilaridade – Os NEAs estão distribuídos em todo o território brasileiro e atendem às demandas de diferentes realidades. Por ser uma política com capilaridade e ampla distribuição, atende as demandas específicas de cada microrregião, podendo ter alcance universal no conjunto dos territórios brasileiros;

b) Construção do conhecimento transdisciplinar – Por sua característica, atuam na construção de conhecimento transdisciplinar, aproximando a academia das comunidades, colaborando com a solução de problemas identificados na
realidade. É uma atuação horizontalizada;

c) Emancipação econômica e social de grupos – Através da atuação dos NEAs ocorre um aumento da renda dos territórios oriunda da comercialização de produtos agroecológicos por grupos de agricultores e agricultoras, consolidando os arranjos produtivos locais. Tem atuado na construção de alternativas para o processamento de alimentos, além de auxílio à produção,
com o desenvolvimento de tecnologias adaptadas, garantindo maior produção e diversidade alimentícia, contribuindo com a Segurança Alimentar e Nutricional das comunidades rurais e urbanas;

d) Igualdade de gênero e Agroecologia – Os NEAs têm demonstrado uma atuação importante no desenvolvimento da autonomia econômica de mulheres rurais, considerando que no campo ainda há a persistência das desigualdades de gênero. As mulheres são protagonistas na produção agroecológica e os NEAs buscam valorizar esse trabalho;

e) Integração de políticas públicas – Os NEAs contribuem significativamente com a consolidação de outras políticas públicas nacionais, a exemplo de: PNAE, PNATER, PAA, PNAN, PNSAN, Política Nacional de Educação Ambiental, Políticas de Inclusão Educacional e de ações afirmativas, entre outras políticas nacionais que atendam as especificidades locais de cada NEA. Ainda cabe
salientar as ações em consonância com diversas políticas estaduais e
municipais fortalecendo a intersetorialidade e as diferentes articulações interinstitucionais;

f) Integração efetiva de ensino, pesquisa e extensão – Os NEAs criam condições para possibilitar o diálogo e a verdadeira indissociabilidade entre pesquisa, ensino e extensão nos Institutos Federais e Universidades, colaborando na construção de um conhecimento socialmente referenciado;

g) Institucionalização da Agroecologia nas IE – Os NEAs têm sido espaços de diálogo e construção de ações para a Agroecologia nas instituições de ensino, o que tem resultado em inúmeros cursos técnicos, tecnológicos, graduações, pós graduações em Agroecologia, além de disciplinas em currículos de outros
cursos. Outras ações são os projetos de pesquisa, extensão e inovações tecnológicas que abordam a Agroecologia, inserindo definitivamente a ciência agroecológica nas instituições de ensino;

h) Impacto ambiental – Os NEAs, por defenderem a produção de alimentos em bases agroecológicas, respeitam a utilização dos recursos naturais em moldes mais sustentáveis, otimizando recursos, melhorando as condições dos solos, da água e do ar, além de incentivar a convivência com os ambientes naturais, assim como a recuperação de áreas degradadas;

i) Articulação interinstitucional – Os NEAs proporcionam a aproximação de instituições e órgãos públicos de áreas multidisciplinares de diferentes esferas de governo, com as organizações da sociedade civil e comunitárias que atuam
no território, com a articulação e reflexão para buscar soluções aos desafios por meio da atuação conjunta, a partir da cooperação e otimização dos recursos.

Diante deste conjunto de elementos, apresentamos as reivindicações abaixo:

1. Execução financeira imediata da totalidade da Chamada MCTIC/MAPA/MEC/SAF Casa Civil/CNPq- 21/2016, tendo em vista que somente 50% dos projetos aprovados receberam recursos;

2. Abertura de um novo edital para contemplar os NEAs que estão finalizando projetos de outras chamadas com o objetivo de manter a atuação nas regiões;

3. Realizar previsão orçamentária de chamadas anuais na LOA para a continuidade das ações de desenvolvimento promovidas por cerca de 200 NEAs atuantes no país;

4. Garantia da continuidade da aplicação de recursos via editais operacionalizados pelo CNPq;

5. Que a SETEC/MEC destine recursos para aplicação via chamadas públicas do CNPq em projetos de capacitação técnica em Agroecologia e Produção Orgânica conduzidos pelos NEAs;

6. Que os parlamentares identificados com a Agroecologia e Produção Orgânica e Agricultura Familiar apresentem emendas conjuntas destinadas aos NEAs;

7. Que o CNPq destine recursos para os editais PIBEX operados pelas instituições de ensino, incluindo linhas de ações para a Agroecologia e produção orgânica;

8. Que o CONIF estude a viabilidade de criar linhas de editais de projetos integrados de Extensão-Ensino-Pesquisa em todas as unidades, e que as propostas de projetos de agroecologia e produção orgânica sejam avaliadas por pessoas que tenham
atuação na temática;

9. Que outras instituições da administração pública, tais como fundações de apoio a Pesquisa, Estatais e outras, possam incluir em seus editais a possibilidade de financiar os NEAs, CVTs e Redes de Neas.

Confira a lista de assinaturas no documento original.

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Começa campanha de financiamento coletivo para o IV Encontro Nacional de Agroecologia

A Articulação Nacional de Agroecologia (ANA) lança nesta terça-feira (10) a campanha de financiamento coletivo para arrecadar recursos para o IV Encontro Nacional de Agroecologia (ENA), que acontecerá em Belo Horizonte (MG), de 31 de maio a 3 de junho.

“Quando a gente fala de agroecologia, estamos falando de tecnologias muito avançadas, e, ao mesmo tempo, do resgate de tradições muito antigas, quando não havia as armas químicas combatendo as pragas, nem a geração de tantas pragas”, explica a atriz Letícia Sabatella, que gravou o vídeo de divulgação da campanha.

Realizado desde 2002, o ENA é o maior encontro de agroecologia de todos os biomas do Brasil. A edição deste ano deve mobilizar cerca de 2 mil representantes, entre agricultores, agricultoras, indígenas, quilombolas, representantes de povos e comunidades tradicionais de todos os estados, contando com a visita de mais de 30 mil pessoas.

Segundo Denis Monteiro, secretário executivo da ANA, já foi arrecadado mais de 60% do orçamento total do encontro com parceiros institucionais, mas ainda são necessários aportes adicionais para garantir a qualidade e a repercussão do evento. “A campanha é uma oportunidade para o cidadão e a cidadã, e também para empresas e pessoas do setor de alimentos e serviços, contribuírem para a realização do encontro, que faz parte de um movimento de transformação da agricultura brasileira”, conta.

Com a mobilização de agricultores ecologistas e outras parcerias, foram definidos os produtos e serviços a serem oferecidos como recompensas aos apoiadores da campanha. As opções vão de sementes crioulas a cursos e palestras relacionadas à agroecologia, passando por alimentos, serviços e contrapartidas de visibilidade de marcas, entre outros benefícios físicos ou virtuais. Novas recompensas serão adicionadas à campanha, que será finalizada dia 15 de maio.

Para contribuir, acesse catarse.me/ivena e conheça as recompensas.

Saiba mais sobre o IV ENA, acesse enagroecologia.org.br.

 

Lutas das mulheres e de Povos e Comunidades Tradicionais dão o tom do Encontro de Donatários da IAF no Brasil

O capricho da bolsa de algodão agroecológico produzida pelas mulheres do Quilombo Gurutuba, no Norte de Minas Gerais, distribuída aos participantes do Encontro de Donatários Brasil da IAF, refletia o cuidado e a atenção com que a equipe do Centro de Agricultura Alternativa do Norte de Minas (CAA-NM) organizou o evento, realizado em Montes Claros de 6 a 10 de março. Com foco na temática de Gênero e fomentando a participação de representantes de Povos e Comunidades Tradicionais – indígenas, quilombolas, extrativistas -, o Encontro reuniu cerca de 60 pessoas de 14 estados do Brasil onde a Fundação Inter-Americana (IAF) apoia projetos de desenvolvimento local. O Cepagro esteve presente no evento trocando experiências e também facilitando uma roda de conversa sobre Sistemas Participativos de Garantia (SPG).

A coincidência da data com a Semana da Mulher – em que pautas como violência e igualdade de gênero vêm mais à tona – ressaltou a importância de projetos que promovem a inclusão e o protagonismo de mulheres na parte produtiva, no associativismo, na organização social e na comercialização, como afirma David Ivan Fleischer, representante da IAF no Brasil: “Frente aos crescentes índices de violência contra a mulher e à estagnação dos indicadores de exclusão social delas no Brasil, a gente tem buscado aumentar o número desses projetos para promover mais igualdade entre homens e mulheres”.

A Marcha das Mulheres de Montes Claros entrou na programação do Encontro.

Mais do que apresentar e conhecer experiências, o Encontro também dedicou parte de sua programação à análise de conjuntura e ao debate teórico com enfoque de Gênero. A abertura do evento, por exemplo, foi dedicada à análise do atual contexto sociopolitico do Brasil e seus impactos nas organizações sociais e na participação feminina a partir da análise ou da trajetória de cinco mulheres: Marilene Alves de Souza (CAA), Cláudia Luz (professora da UNIMONTES), Brígida Salgado (da COOPERBIO), Maria de Lourdes Gomes de Lima (CENEP-PB) e Tereza Felipe da Costa, do Movimento Nacional de Catadores de Materiais Recicláveis.

Com diferentes linguagens e baseadas em suas experiências de vida únicas, todas abordaram o tema do atual desmonte de políticas públicas em curso no Brasil, ressaltando a importância da retomar a mobilização social e a participação política da sociedade organizada.

Leninha, do CAA-NM, demonstrou como as organizações da sociedade civil cresceram durante os governos de centro-esquerda com recursos governamentais, através de chamadas e editais públicos. Com a diminuição dessas fontes de financiamento e a saída de muitas cooperações internacionais do país, as organizações têm-se voltado para estratégias em níveis municipais e estaduais, além de estabelecer alianças entre países latino-americanos. “Além disso, não podemos perder a indignação nem a autonomia”, completa.

“Vamos ter que começar tudo de novo, encontrar novas formas de luta para que as próximas gerações possam viver num país democrático”, disse Maria de Lourdes, formada em História e que lutou por décadas pelos direitos políticos de mulheres em sindicatos e outras organizações na Paraíba. Aos 83 anos, Tereza Felipe da Costa faz outro chamado importante: que a juventude se empodere da política. “Não podemos deixar o país nas mãos da 3ª idade”, completou a líder comunitária da Zona Leste de São Paulo.

Tereza Felipe da Costa: “Que golpe é esse? Todos somos responsáveis por ele. Podemos escolher lutar contra. As únicas coisas que não pude escolher na vida foram: nascer mullher, negra e no Brasil.”

Do debate e da troca de experiências para a prática, o segundo dia do Encontro foi dedicado a visitas de campo: nas agroindústrias de processamento de polpas de frutas e de buriti da Cooperativa Grande Sertão e à Área de Experimentação e Formação em Agroecologia do CCA-NM. Fundada em 2003 através de articulação do CAA-NM com um coletivo que se organizava desde 1994, a Cooperativa de Agricultores Familiares e Agroextrativistas Grande teve apoio da IAF para trabalhar o beneficiamento e processamento de frutas nativas. Em 2012, com financiamento do BNDES – o primeiro para empreendimento de agricultura familiar no Brasil – a Cooperativa fundou a planta de processamento de óleos vegetais, cujo carro-chefe é o de buriti. “Inicialmente o financiamento era para produção de biodiesel. Mas então pensamos: por que nao produzir óleo para um alimento diferenciado, ao invés de biodiesel?”, conta José Fábio Soares, agricultor e um dos diretores da Cooperativa.

Atualmente, a cadeia produtiva do buriti articulada pela Cooperativa Grande Sertão envolve cerca de 600 famílias de 10 municípios do Norte de Minas. As famílias cooperadas receberam capacitação para beneficiamento do fruto e fornecem a raspa – matéria-prima para extração do óleo – para a Cooperativa. A empresa de cosméticos Natura é um dos principais parceiros comerciais da Cooperativa. Do buriti, tudo se aproveita: a casca vira ração para os animais e da torta da raspa produz-se farinha.

No caso das frutas nativas, 200 famílias de 26 municípios do Norte de Minas fornecem as colheitas de seus quintais para a Cooperativa Grande Sertão. Nas 8 agroindústrias da Cooperativa são processadas cerca de 250 toneladas de frutas por ano, resultando em 17 sabores de polpas agroecológicas, cujo principal mercado é o Programa Nacional de Alimentação Escolar. A lógica das famílias cooperadas, entretanto, é priorizar a Segurança Alimentar: “Primeiro encher nossas barrigas, depois vender o excedente”, explica Aparecido Alves de Souza, da diretoria da cooperativa. A organização de uma OPAC para certificação das frutas nativas e das polpas é um dos próximos passos da Cooperativa e do CAA.

Na AEFA – que “não é do CAA, é dos agricultores e agricultoras”, como explicou Neucy Fagundes, da equipe técnica da organização – são cultivadas e estudadas mais de 600 espécies de plantas medicinais, além de 16 variedades de milho crioulo (estudo feito em parceria com a EMBRAPA, EMATER e UFMG). A unidade conta também com uma planta de beneficiamento de polpa de frutas e com um banco de sementes crioulas, guardando variedades de feijão, milho, sorgo, amendoim, girassol e favas. “Temos muito cuidado para saber de onde vem as sementes, para evitar contaminações”, explica Antônia Antunes da Silva Reis, secretária-executiva do CAA e moradora do  Quilombo Gurutuba. Além do risco de contaminação por transgênicos, outro desafio enfrentado para preservação das sementes são as mudanças climáticas: nos últimos 5 anos, as alteraçoes no regime das chuvas “faz o agricultor perder o tempo das sementes”, conta Antônia.

Outro momento intenso de trocas de experiências foi na oficina com o mestre de plantas medicinais Honório Dourado, que também integra a diretoria do CAA.

A participação de um grupo de jovens Xakriabá trouxe uma energia especial para a visita. Além de compartilharem seus cantos e danças, as/os jovens fizeram também uma roda de conversa com as/os participantes do Encontro, contando sobre sua luta em defesa de seu território e modos de vida. A população Xakriabá soma cerca de 11 mil pessoas no Norte de Minas Gerais.

 

As jovens lideranças Xakriabá compartilharam toda sua força e energia para seguir na luta pela defesa de seus territórios e modos de vida.

Coisas de mulher, coisas de homem: conversas e oficinas

Com a proposta de introduzir a discussão conceitual sobre relações de gênero, a professora do Curso de História da UNIMONTES Cláudia Maia foi convidada para facilitar uma oficina sobre o tema. Através de dinâmicas e uma apresentação dialogada, a professora construiu com as/os participantes o entendimento de que ser “mulher” ou “homem” – e os comportamentos e características atribuídos a esses sujeitos – é muito mais uma construção cultural e social do que condições naturais. Além disso, ela também explicou a importância de se considerar variáveis como classe social e etnia junto com a de gênero – se as mulheres são discriminadas, por exemplo, as brancas ainda são menos do que as negras. Quanto aos projetos voltados a mulheres, ela chama atenção para relações de poder baseadas no gênero que ainda atribuem o trabalho doméstico às responsabilidade femininas – logo, é preciso transformar essas relações também para não gerar mais sobrecarga para as mulheres. “Trabalhar na perspectiva de Gênero não significa só incluir mulheres em outras dinâmicas produtivas, mas transformar relações de poder”, explica a professora.

Neste sentido, iniciativas como a Campanha pela Divisão Justa do Trabalho colaboram para superar o desafio de conciliar a participação social e a geração de renda entre mulheres com outros afazeres historicamente considerados “femininos”. Essa foi uma das considerações das oficinas sobre ORGANIZAÇÃO SOCIAL COM ENFOQUE DE GÊNERO, uma das temáticas trabalhadas durante o encontro. As outras foram: Mobilização da Juventude e Produção e Comercialização.

 

Cepagro media troca de experiências sobre SPG

Fechando o Encontro, Charles Lamb e Erika Sagae, da equipe técnica do Cepagro, facilitaram uma oficina sobre Sistemas Participativos de Garantia (SPG). Após uma exposição inicial sobre o histórico dos SPGs e as dinâmicas de funcionamento da Rede Ecovida de Agroecologia, foi aberto um espaço para que participantes de diferentes redes de certificação apresentassem um pouco de sua experiência. Gilmar Batista de Souza, da Cooperafloresta; Tânea Mara Follmann, do Núcleo Litoral Catarinense e Paula Cristina dos Santos dos Núcleos Alto Uruguai e Planalto RS da Rede Ecovida de Agroecologia, e Tiago Tombini da Silveira, da Rede Povos da Mata, falaram sobre os desafios e aprendizados de seus grupos nas dinâmicas do SPG, como a certificação de produtos do extrativismo, a lida burocrática e o fortalecimento dos mecanismos de controle social (reuniões e encontros).

ECOFEST Trujillo fortalece articulação latinoamericana pela Agroecologia

A marinera trujillana, bailado típico do norte do Peru, embelzou a abertura do ECOFEST. Foto: Cecília Saito (Comunicação – MINKA)

Realizado de 2 a 4 de fevereiro em Trujillo, no norte do Perú, o Festival Agroecológico Internacional ECOFEST foi promovido pela MINKA – organização parceira do Cepagro no Projeto SABERES NA PRÁTICA EM REDE – e reuniu mais de 200 pessoas, entre agricultoras e agricultores, estudantes, educadores, técnicos de campo, nutricionistas e donos de restaurantes. Além do Cepagro, foram convidadas também CETAP (Brasil), o Centro Campesino A. C. e Tijtoca Nemiliztli (México), Asociación de Productores Orgánicos (APRO – Paraguay) e  Fundesyram (El Salvador), todas participantes do projeto, que é apoiado pela IAF. “O grande objetivo do ECOFEST foi promover os produtos agroecológicos, para que as pessoas os conheçam. Tivemos bastante cobertura da imprensa, e certamente nossas demandas chegaram por aí às autoridades”, disse William Siapo, coordenador de projetos da MINKA. “Em Trujillo, com MINKA, cada vez mais produtores têm essa visão da agroecologia e estão trabalhando com outros para melhorar a qualidade de seus solos, água, ar, produzindo alimentos que fazem bem para suas próprias famílias e daqueles que os consomem”, explica Miriam Brandão, representante da IAF no Peru.

Charles Lamb, do CEPAGRO, na abertura do ECOFEST, junto com representantes do FUNDESYRAM, IAF e CENTRO CAMPESINO. Foto: Cecília Saito (Comunicação – MINKA)

Além de trazer mais visibilidade para a Agroecologia, o evento debateu questões como a certificação de alimentos agroecológicos, comercialização, as relações entre gastronomia e saúde e também abriu espaço para a Rede Ecovida de Agroecologia. O Cepagro esteve presente em todas as mesas, da abertura ao encerramento do evento.  Trazendo um panorama sobre a Agroecologia na América Latina, Charles Lamb, coordenador do projeto SABERES NA PRÁTICA EM REDE, ressaltou que a Agroecologia é mais do que um modo de produção de alimentos limpos, mas é um sistema de promoção da vida, em contraposição aos impactos socioambientais negativos da agricultura chamada convencional. Trouxe também dados da FAO que apontam a Agroecologia como alternativa de desenvolvimento sustentável e primordial para a segurança alimentar na América Latina.

No segundo dia, a vice-presidente do Cepagro, Erika Sagae, abriu o painel sobre “Comercialização de Produtos Agroecológicos”, enfatizando a diversificação de estratégias como primordial para a comercialização na Agroecologia. Circuitos curtos, mercados institucionais e feiras foram alguns dos exemplos citados. A nutricionista Cintia Gris, da equipe técnica do CETAP, também participou do debate, trazendo exemplos de grupos de consumidores e feiras agroecológicas articuladas pela organização. “As feiras são mais do que espaços de comercialização, ali também acontecem ricas trocas de experiências e receitas”, disse. Para Victor Hugo Morales, do Centro Campesino de Desarollo Sostenible (México), o envolvimento de consumidores é fundamental para a valorização dos alimentos agroecológicos, que quase sempre têm um preço diferenciado. “As pessoas ainda veem só o preço, e não o valor”, avalia William Siapo, da MINKA. Para Genaro Ferreira Piris, da Asociación de Productores Orgânicos do Paraguay, é importante associar agroindústrias às produção de alimentos agroecológicos, para se ter um aproveitamento integral das colheitas. Durante o painel, a articulação de pequenas células de consumidores foi uma das estratégias apontadas para criar mais conscientização sobre os alimentos agroecológicos, sua valorização, além de envolver consumidores/as no movimento agroecológico. Fechando a programação do dia, as/os participantes conheceram a BioFeira Punto Verde de Huanchaco, articulada pela Minka Verde, e um dos pontos de comercialização da Frutas Selectas, que recebe a produção de diversas famílias de agricultores agroecológicos assessoradas pela MINKA.

Visita à Red de Productores Campiña de la Merced.

A organização MINKA – palavra quechua para falar de “trabalho coletivo” –  presta assessoria em produção agroecológica e articula a comercialização de cerca de 130 famílias de agricultores e agricultoras na região do Valle de Santa Catalina, próximo a Trujillo.

Insumos produzidos pela Red de Productores Campiña de la Merced

Na visitas de campo, as/os participantes do ECOFEST puderam conhecer algumas dessas experiências, tanto em estruturas de produção agroecológica quanto pontos de comercialização. A primeira parada foi na Red de Productores Campiña de la Merced, que produz insumos orgânicos como bokashi líquido e calda bordalesa. Os insumos são fornecidos para produtores de frutas orgânicas, por sua vez comercializadas através do projeto Minka Verde, apoiado pela Inter-American Foundation.

Uma das agricultoras mais interessadas na visita era Ferlinda Isabel Sánchez Córdoba (em pé, foto ao lado), que veio da província de Cajamarca, a 300km de Trujillo, para participar do evento. Ela também é assessorada pela MINKA “para tudo que seja cultivos alternativos, ecológicos. Nas capacitações, aprendemos a usar insumos naturais e também sobre irrigação”, explica Ferlinda, que além de criar animais, cultiva trigo, milho, batatas, grãos e árvores frutíferas, tudo numa propriedade de 3 hectares. Demonstrando muita identidade agroecológica, Ferlinda se denomina “todista”: “porque eu semeio de tudo. Assim, se não me vai bem em alguma safra, tenho de onde tirar minha renda por outro lado. E minha alimentação está assegurada”, afirma a agricultora. “Antes eu trabalhava para outras pessoas, na colheita do milho, por exemplo. Agora, na Agroecologia, eu tenho trabalho na minha própria casa. Não preciso mais trabalhar para os outros”, completa.

Na segunda visita, o público conheceu a produção de morangos e verduras orgânicos na região de Menocucho, próximo a Trujillo. A Asociación de Freseros de Menocucho reúne 12 famílias e comercializa cerca de 400kg de morangos por semana, também articulada pela Minka Verde. O agricultor José Luiz Chavez (foto ao lado) conta que “Minka nos ajuda a ter um mercado estável”. Sobre a produção agroecológica, ele afirma que “ao combater insetos e outros bichinhos, só aumenta a necessidade de uso de mais inseticidas. Na agricultura orgânica, o próprio ecossistema se equilibra. A natureza trabalha junto com o agricultor”. O processo de transição, contudo, não é fácil: José Luiz explica que só depois da 3ª safra é o ecossistema atingiu um equilíbrio razoável para ter uma boa produção. Na propriedade da família de José Luiz também são produzidas mudas de tomate, alface e outras verduras.

 

 

 

 

 

Certificação gera grande interesse no público
Com uma apresentação inicial de Claudete Ponath, agricultora do Núcleo Litoral Catarinense da Rede Ecovida de Agroecologia, a Certificação de Alimentos Orgânicos – especialmente no Sistema Participativo – foi debatida no primeiro dia de programação ECOFEST. Claudete trouxe um histórico da certificação no Brasil, enfocando nos princípios do sistema participativo (como participação e confiança) e falou também sobre a dinâmica do SPG da Rede Ecovida de Agroecologia, enfatizando os mercados locais e a mobilização social. Dentre os desafios apontados ao longo da discussão, a contaminação das propriedades agroecológicas por resíduos de agrotóxicos foi um dos principais. Participaram no debate Genaro Ferreira Piris, da Asociación de Produtores Orgánicos de Paraguay; Fernando George Pluma, da Tijtoca Nemiliztli A. C. – TNAC “Sembramos Vida” (México) e Salvador Sanchez da Asociación Regional de Produtores Ecológico de La Libertad (ARPELL). Tanto APRO quanto TIJTOCA inspiraram-se na Rede Ecovida de Agroecologia para desenvolverem seus SPGs. “Buscamos esta construção para atender à demanda de uma certificação que estivesse ao alcance dos pequenos agricultores”, disse Genaro.

Educação agroecológica e Políticas Públicas para Agroecologia: demandas do ECOFEST TRUJILLO

Durante o evento, a ausência de representantes do Poder Público foi sentida e apontada em diversos momentos. Ao mesmo tempo, foram apresentadas experiências que demonstram a importância de políticas públicas para o desenvolvimento da agricultura familiar, agroecológica e de pequena escala, como é o caso do Brasil. Neste sentido, reforça-se a demanda pela construção de políticas públicas de apoio à produção e comercialização de alimentos orgânicos e agroecológicos. Também convidou-se o público a contribuir na construção do Consejo Regional de Produtores Orgânicos de a Libertad junto à Gerência Regional de Agricultura, assim como a pressionar as autoridades para que efetivem a doação de um espaço para o Centro Educativo de Agricultura Orgânica. A partir da experiência brasileira, percebemos a importância da participação da sociedade civil em espaços de controle social, como os conselhos, para incidir na construção de políticas públicas.

A demanda por uma perspectiva agroecológica na Educação – tanto de agricultores para a adoção de práticas de manejo agroecológicas como de consumidores/as para priorização de uma alimentação saudável – foi apontada em vários painéis. Como estratégias, foram citadas a implantação de hortas escolares e comunitárias, além do trabalho direto com consumidores/as através de campanhas e também em feiras, assim como a instalação de “puntos verdes” de alimentos saudáveis nas escolas.

 

Chapecó recebe Encontro Regional de Agroecologia do Sul

Nos dias 13 e 14 de março de 2018, em Chapecó (SC), acontece o Encontro Regional de Agroecologia do Sul (ERA/Sul). O Encontro tem o objetivo de fortalecer as redes de agroecologia existentes na Região Sul do Brasil, dando visibilidade às experiências coletivas de fortalecimento da agroecologia na região. São esperadas cerca de 100 pessoas para o Encontro, entre lideranças de movimentos e entidades que compõem a Articulação Nacional de Agroecologia (ANA), agricultoras e agricultores agroecológicos, técnicas/os, ativistas, consumidoras/es e apoiadoras/es do movimento agroecológico. As atividades acontecem no Centro de Formação Maria Rosa (Rua Sete de Setembro, 2070d – Pres. Médici) e servem de preparação para o IV Encontro Nacional de Agroecologia, que será realizado em Belo Horizonte (MG) de 31 de maio a 3 de junho deste ano.

Num cenário de crescentes ameaças a direitos adquiridos e garantias democráticas, a programação do ERA/Sul dialoga com Encontro Nacional de Agroecologia, cuja temática nesta edição é Agroecologia e Democracia unindo Campo e Cidade. Na Plenária de Abertura, o ERA/Sul traz Maria Emília Pacheco, primeira mulher a presidir o Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea) e hoje integrante do Fórum Brasileiro de Soberania, Segurança Alimentar e Nutricional (FBSSAN), para discutir o tema Sem Democracia não há Agroecologia, juntamente com representantes da Rede Ecovida de Agroecologia e do Movimento de Mulheres Camponesas. A mesa acontece a partir das 17h30.

Nas próximas atividades, as organizações irão construir sua participação no IV Encontro Nacional de Agroecologia. Cerca de 2 mil pessoas de todo Brasil são esperadas para o ENA em Belo Horizonte, sendo 70% de agricultores(as) familiares, camponeses(as), povos indígenas, comunidades quilombolas, pescadores(as), outros povos e comunidades tradicionais, assentados(as) da reforma agrária e coletivos da agricultura urbana; 50% de mulheres e 30% de jovens diretamente envolvidas na construção da agroecologia em contraposição ao projeto dominante imposto por grupos do capital financeiro, industrial e agrário.

Da cidade para o campo: Projeto Misereor em Rede difunde a Agroecologia

Grupo que visitou a propriedade da família Cognacco, em Leoberto Leal.

Neste mês de novembro, as atividades do Projeto Misereor em Rede continuam difundindo a Agroecologia para a população, em atividades como oficinas, intercâmbios e visitas de campo. No sábado, 11 de novembro, representantes da comunidade e profissionais dos Postos de Saúde do Ribeirão da Ilha e Alto Ribeirão participaram de uma oficina de compostagem no Jardim Botânico do Itacorubi. E no domingo, 12 de novembro, um grupo de consumidores e consumidoras da Feira Agroecológica do Campeche visitou a propriedade da família Cognacco, na comunidade Vargem dos Bugres, em Leoberto Leal (SC), onde são cultivados muitos dos alimentos que abastecem a Feira.

Turma da Oficina de Compostagem no Jardim Botânico.

A oficina de compostagem do sábado foi facilitada pela equipe da COMCAP e fez parte de uma série de atividades realizadas no Posto de Saúde do Ribeirão da Ilha através de uma parceria entre Cepagro e Epagri. “Agora também contamos com apoio da COMCAP e das Secretarias de Saúde e Agricultura de Florianópolis”, explica Erika Sagae, da equipe de campo do Projeto. Nos próximos encontros, será implantada uma horta naquela unidade de saúde. “Agradecemos a todxs que participam com entusiasmo da atividade, incentivando e acreditando na Agricultura Urbana em Florianópolis”, completa Erika.

 

 

No domingo, um grupo de 10 consumidores e consumidoras, além da equipe Cepagro e estudantes do Centro de Ciências Agrárias, foram ao interior de Leoberto Leal, a 150 km de Florianópolis, para conhecer a propriedade de Gilmar e Lúcia Cognacco, família que todos os sábados traz uma grande diversidade de alimentos agroecológicos para a Feira Agroecológica do Campeche.

Além de disfrutar das belas paisagens do interior de Santa Catarina, o grupo (re)conheceu na prática e no campo o esforço de toda a família para produzir alimentos bons, limpos e justos. Comentários sobre a distância percorrida pelo agricultor todas as semanas para fazer a Feira, a união da família no trabalho pela agroecologia e o cuidado no cultivo dos alimentos e criação dos animais brotavam a todo momento entre os participantes. Para a família, foi mais uma oportunidade de reconhecimento e valorização pela sua jornada agroecológica.

Seminário em Santa Rosa de Lima aborda desafios e demandas da Agroecologia

VIII Seminário Estadual de Agroecologia em Santa Rosa de Lima

Santa Rosa de Lima, município com 2 mil habitantes nas Encostas da Serra Catarinense, sediou o VIII Seminário Estadual de Agroecologia nos dias 26 e 27 de outubro. Conhecida pelo agroturismo – foi ali que começou o projeto Acolhida na Colônia -, a cidade, que  também tem o título de Capital Catarinense da Agroecologia Agroecologia, recebeu cerca de mil pessoas para o Seminário. O evento foi promovido pela Prefeitura de Santa Rosa de Lima, Associação dos Agricultores Agroecológicos (Agreco/CooperAgreco), Sindicato dos Trabalhadores da Agricultura Familiar (Sintraf), Associação de Agroturismo Acolhida na Colônia, Cooperativa de Crédito Cresol, Centro de Formação em Agroecologia (Cefae), além dos movimentos sociais como o Movimento dos Sem Terra – MST, e teve apoio do gabinete do Deputado Estadual Padre Pedro. O objetivo do evento foi debater os temas ligados à produção sustentável de alimentos. O Cepagro participou do evento facilitando uma oficina sobre Agricultura Urbana e Compostagem.

Oficinas

As oficinas aconteceram no segundo dia do evento, com temáticas como Educação do campo, Meliponicultura e Sementes Crioulas. O Cepagro ofereceu a oficina de Agricultura Urbana, facilitada pelo engenheiro agrônomo Júlio Maestri, da equipe técnica da organização. Na atividade estavam presentes  estudantes, agrônomos, aposentados e representantes do Poder Público.

Turma da oficina de Agricultura Urbana no VIII Seminário Estadual de Agroecologia

A abertura da oficina foi uma dinâmica em que os presentes ficavam frente à frente.  “Na nossa educação o professor é colocado de forma superior ao aluno, mas quando a olhamos no mesmo plano (nos olhos), nos reconhecemos como seres humanos, e conseguimos enxergar que somos iguais. Quero mostrar que hoje estou como facilitador da oficina, mas tem várias pessoas aqui que também têm muito a contribuir”, disse Júlio Maestri, mostrando como os conhecimentos da cultura popular também são válidos e que a oficina é uma troca de experiências entre o facilitador e os presentes, mais do que uma transmissão de informações.

Evaldo Espezim Secretário Municipal de Desenvolvimento Sustentável, Agrícola e da Pesca de Imbituba – SC.

Muitas dúvidas foram levantadas, entre elas a do Secretário Municipal de Desenvolvimento Sustentável, Agrícola e da Pesca de Imbituba (SC), Evaldo Espezimsobre a possibilidade de fazer compostagem com as vísceras de peixe. “Os pescadores em Imbituba descartam 30 toneladas de vísceras de peixe ao mês. Eles vendem a uma fábrica de ração em Laguna, e isso pesa no bolso deles, que arcam com transporte dos resíduos, e nem todos conseguem ir até o local de venda. A lei exige transporte específico para esse material. Por isso me interessei em conhecer a compostagem, e saber da viabilidade dela para transformar as vísceras de peixe em composto. Estamos pensando em implementar na cidade e tentar garantir um projeto contínuo, e que seja algo permanente”, disse Evaldo Espezim.

Lidiane Camargo

Além do Secretário de Imbituba, estava presente Lidiane Camargo, extensionista da Epagri em Criciúma.  “Agricultura urbana é algo novo para gente, por isso me inscrevi na oficina, para saber mais sobre gestão de resíduos urbanos”, disse a agrônoma.

Os desafios da Agroecologia na pauta do evento

Professor Ernesto Mendez – Universidade Vermont (EUA)

No primeiro dia do Seminário, durante a palestra “Os desafios da Agroecologia”, o professor Costarriquenho Ernesto Mendez (foto), pesquisador da Universidade de Vermont (EUA), faz três perguntas ao público: “Quem aqui pesquisa e estuda a Agroecologia? Levante a mão, por favor.” Ele mesmo levanta sua mão esquerda, e a direita segura o microfone. “Agora quem aqui é agricultor?”, e a cena se repete, desta vez com grande parte do público com as mãos levantadas. “Uma última pergunta, quem aqui pratica à agroecologia como movimento social?” Ele novamente levanta a mão esquerda, mas apenas um terço dos presentes se manifestam. Diante dessa resposta, ele afirma: “é necessário que todos nós participemos de forma integral do movimento, plantando, reivindicando, pesquisando e protestando”. De acordo com Mendez, o movimento agroecológico, além dos problemas de investimentos e reconhecimento dos órgãos que atuam na esfera da produção de alimentos, perde ainda mais força quando os seus principais agentes, os produtores e consumidores, não estão inseridos de forma ativa nos princípios da agroecologia e relaxam na militância. “É necessário um trabalho participativo de todos para uma transformação social, é isso que a agroecologia precisa agora”, disse Ernesto.

O Seminário Catarinense de Agroecologia é um marco, pois ao atingir sua maioridade – 18 anos desde o primeiro evento, em 1999, em Rio do Sul – foi publicado o Manifesto Agroecológico de Santa Rosa de Lima, que afirma: “em tempos de crise humanitária”, repudia os cortes em políticas públicas para o campo instaurada pelo atual governo e a criminalização dos movimentos sociais. Era a esses posicionamentos firmes, ativos e coletivos que o professor Ernesto se referia. Talvez, a elaboração do Manifesto foi o maior acerto da organização, que realizou um evento impecável quanto à logística

Contrapontos

Todas as palestras do evento foram proferidas por homens. Onde estavam as mulheres? Segundo o documento do Manifesto, As belezas naturais das Encostas da Serra Geral têm oportunizado a vivência familiar, garantindo a permanência de jovens e a autonomia de mulheres, pela geração de trabalho e renda com a atividade do agroturismo”. Se o ponto de partida é realmente a valorização da autonomia das mulheres, por que então não ouvi-las, e oportunizar que contem suas experiências na agroecologia?

Outro ponto que contrapõe ao Manifesto que afirma “Requeremos a criação imediata de bancos de sementes crioulas, destinados à Agroecologia, visando à preservação do patrimônio genético; e a promoção de feiras e de sistemas de trocas de sementes crioulas”. Entretanto, foi  pouca ou quase nenhuma participação na feira de sementes por parte dos agricultores. Onde estavam os guardiões e as Guardiãs das sementes? Perto da feira havia apenas um senhor alto e olhos puxados, e seu filho, expondo sua criação de abelhas sem ferrão e nativas do continente americano.

O caso do apicultor e a falta de assistência e financiamento

Guido Defrein, apicultor em Santa Rosa de Lima

 O apicultor Guido Defrein apresentou durante o Seminário algumas das 26 espécies de abelhas nativas sem ferrão, que ele cria na sua propriedade ali em Santa Rosa de Lima. Guido tem uma estrutura interessante voltada à produção e venda de enxames, mas sua produção não é orgânica. Para que isso fosse possível, suas abelhas teriam que alimentar-se com néctar natural, não poderiam ser tratadas com açúcar, como ele faz. Mesmo  sem a possibilidade de ter a certificação orgânica de sua produção, Guido Defrein gostaria de alimentar suas abelhinhas com açúcar orgânico. “O açúcar comum tem muita soda e cal” diz o apicultor, que não consegue fontes de financiamento comprar açúcar orgânico, mais caro e mais difícil de encontrar no mercado.

A dificuldade desse senhor ultrapassa o financiamento, fica nítido quando olha para a nossa câmera e vem lágrimas aos olhos:
–       O senhor se emociona quando fala das abelhas, por quê? Tem muito amor nelas, né?”, pergunto a Guido, no fundo intrigado com as lágrimas.
–       “Claro né moço minha vida toda trabalho com isso”, responde o apicultor.
–       “É que meu pai perdeu cerca de 15.000 abelhas porque foi enganado por um camarada que vendeu açúcar envenenado pra ele” disse Hyuri Defrein, filho do apicultor.

O apicultor gostaria de tratar as abelhas da forma mais saudável possível, com certeza pelo amor que tem pelos insetos e pela dedicação naquilo que faz. Demandas como a de Guido estão expressas no Manifesto Agroecológico de Santa Rosa de Lima: “Cobramos investimentos nas redes de economia solidária que incluem o apoio técnico ao processo de produção e comercialização, criando a cultura da solidariedade”. As discussões do evento, o Manifesto e o depoimento do apicultor  refletem os desafios enfrentados por quem quer trabalhar e viver  Agroecologia, principalmente em termos de assistência técnica, financiamento e a comercialização dos produtos dos agricultores familiares de base agroecológica.