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Estudantes da Escola Januária, no Campeche, participam de primeira oficina de compostagem

Resíduos orgânicos, compostagem e destinação correta do lixo são conceitos que a partir de agora os alunos da Escola de Educação Básica Januária Teixeira da Rocha, no Campeche, conhecem bem.  Na última quarta-feira, 27 de março, as turmas do 1º ao 5º ano participaram da primeira oficina de Compostagem, assessorados pela Engenheira Agrônoma Karina Smania de Lorenzi, da equipe do Cepagro.

A ação, que iniciou em fevereiro com uma formação para os professores e funcionários, é uma parceria entre a escola e a Associação de Moradores do Campeche (Amocam) e está inserida na meta de oficinas do Cepagro para a Educação Alimentar e Nutricional através do projeto Misereor em Rede. O objetivo é trabalhar com as turmas três eixos centrais: Compostagem, Horta Pedagógica e Educação Alimentar e Nutricional, ao longo de todo o ano letivo.

Logo pela manhã, depois de uma explicação teórica em sala de aula, as crianças foram para a parte externa da escola colocar em prática o conteúdo trabalhado na primeira parte da aula. Elas mesmas montaram uma composteira que de agora em diante vai receber parte dos resíduos gerados na cantina da unidade. As turmas da tarde também tiveram a aula dividida entre teoria e prática, desta vez tudo em sala de aula.

Para a professora Silvia Leticia de Sá Teixeira Cardoso, “essa aula inicial do projeto foi muito interessante porque além de ter a aula teórica, onde foram abordados os conceitos de lixo orgânico, inorgânico, compostagem, destino correto para cada tipo de lixo, as crianças puderam também vivenciar na prática como funciona todo o processo de compostagem, por meio da oficina que a Karina realizou com eles. O que torna todo esse conhecimento muito mais significativo”.

Ainda como parte da programação do primeiro bimestre, que será inteiro focado no tema da gestão dos resíduos sólidos e compostagem, haverá um mutirão para a implantação de uma composteira e que vai envolver alunos, pais e professores. A atividade será no dia 6 de abril, sábado, quando a escola promove a festa da família.

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CEPAGRO ACOMPANHA GRUPO DE CONSUMIDORES EM FORMAÇÃO SOBRE CONSUMO CONSCIENTE

Foto: Comunicação CETAPNo último final de semana, 23 e 24 de março, grupos de consumidores de Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul se reuniram na sede do Centro de Tecnologias Alternativas Populares (CETAP), em Passo Fundo-RS, para o 3º Módulo do Curso de Formação Consumidores e Agroecologia, promovido pelo Projeto Misereor em Rede.

Foto: Comunicação CETAPEste primeiro módulo de 2019 teve como objetivo apresentar experiências de abastecimento e comercialização de alimentos ecológicos, buscando ressaltar a importância do público consumidor para o incentivo a um ambiente alimentar mais adequado saudável e sustentável. O Cepagro participou da formação acompanhando o grupo de consumidores de Florianópolis e representantes do Laboratório de Comercialização da Agricultura Familiar (Lacaf) e do grupo Ilha Meiembipe da Rede Ecovida de Agroecologia. 

Foto: Comunicação CETAPAo longo dos dois dias, os aproximadamente 60 cursistas tiveram momentos de rodas de conversa, palestras e debates que trataram, entre outras coisas, das estratégias de comercialização de alimentos orgânicos e agroecológicos e da legislação desses alimentos. O grupo também fez uma visita à Feira Ecológica de Passo Fundo, onde puderam conversar com feirantes e com a coordenação da Coonalter, cooperativa responsável pela organização das cinco feiras ecológicas da cidade.

Entre os palestrantes estava Mário Gusson e Lauro Foschiera, que apresentaram algumas experiências realizadas pelo CETAP. Ambos são figuras históricas da Rede que participaram do processo de fortalecimento da Agroecologia no sul do Brasil. Para Erika Sagae, Vice-Presidenta do Cepagro, foi muito importante para os jovens produtores e consumidores que estão chegando no processo da Agroecologia poder ouvir eles falando, “é bem importante porque é a história viva”.

No domingo, a representante da coordenação da Rede Ecovida de Agroecologia Juliana Carvalho, fez um apresentação falando um pouco da Rede e da participação dos consumidores. Erika Sagae também frisou a importância de uma conversa direta com alguém da coordenação da Rede: “Para a gente foi um ponto muito importante, porque nesse processo todo desse projeto a gente quer, ao final, constituir um grupo de consumidores na Rede Ecovida, ou reestruturar um GT que já existiu na Rede. Esse caminho a gente está trilhando de forma bem orgânica, com processos participativos dos consumidores nos grupos, inseridos nos Núcleos”, diz.

A própria Rede Ecovida vem pensando nisso e está trazendo um outro elemento que seria não o consumidor, mas o coprodutor. Este ainda é um debate inicial mas que segue na linha de que todo produtor é também um consumidor e de que todo consumidor pode se inserir na rede como um coprodutor.

O quarto e último módulo do Curso que será realizado em Florianópolis, ainda sem data definida, terá como tema a Compostagem. O curso é uma das ações do Projeto Consumidorxs e Agricultorxs em Rede, que busca contribuir para a mudança nos hábitos de produção e consumo, garantindo a segurança e soberania alimentar e nutricional da população, visando a promoção da agroecologia. O projeto é financiado pela Misereor, e executado em conjunto por quatro entidades que atuam na região sul do Brasil: Cetap (Centro de Tecnologias Alternativas Populares), no Rio Grande do Sul, AS-PTA (Assessoria em Serviços e Projetos em Agricultura Alternativa, Agricultura Familiar e Agroecologia), no Paraná e Cepagro (Centro de Estudos e Promoção da Agricultura de Grupo) e Vianei (Associação Vianei de Cooperação e Intercâmbio no Trabalho, Educação, Cultura e Saúde) em Santa Catarina.

Seminário em Florianópolis traz denúncias e anúncios sobre agrotóxicos no Brasil

Na última segunda e terça-feira, 25 e 26 de março, aconteceu no Ministério Público do Estado de Santa Catarina (MPSC) o Seminário Sobre Agrotóxicos nos Alimentos, na Água e na Saúde. O evento, organizado pelo Fórum Catarinense de Combate aos Impactos dos Agrotóxicos e Transgênicos (FCCIAT), foi dividido em quatro painéis: Agrotóxicos e Saúde, Agrotóxicos e Água, Regulação e Comércio de Agrotóxicos e Agrotóxicos e Alimentos. Ao final do último dia, foi realizada uma Plenária conjunta do FCCIAT com os Fóruns Gaúcho e Paranaense de Combate aos Impactos dos Agrotóxicos.

Agrotóxicos e Saúde

O tom do primeiro painel do Seminário foi de denúncia do começo ao fim. O debate contou com a presença da Dra. Sílvia Brandalise, pediatra referência nacional e internacional no tratamento do câncer infantil, do Dr. Jackson Rogerio Barbosa, professor e pesquisador da Universidade Federal do Mato Grosso e do Dr. Pablo Moritz, médico Pneumologista do Centro de Informação e Assistência Toxicológica de Santa Catarina (CIATox-SC).

O Dr. Pablo Moritz abriu o debate com a informação de que a tolerância mínima de toxicidade dos agrotóxicos caiu por terra. Ele mostrou que pesquisas tornam cada vez mais evidente a gravidade da contaminação por substâncias químicas na saúde da população. A lista de doenças causadas direta ou indiretamente pelo uso de agrotóxicos e pesticidas é imensa e vai desde distúrbios psiquiátricos e neurológicos até efeitos de mutação genética. Entre essas doenças está o câncer.

Referência no assunto, a Dra. Sílvia Brandalise apresentou dados alarmantes do aumento da incidência de câncer e de má formação congênita em crianças de 0 a 14 anos. A pediatra afirma que a exposição aos venenos usados nas plantações está relacionada com a leucemia e tumores no cérebro e que o consumo excessivo de alimentos contaminados também representam fatores de risco. Como ela mesma lembrou, esses dados mostram que a contaminação por agrotóxico atinge à todos, sobretudo aqueles sem poder de escolha e que a tendência é aumentar.

Em 2012, a exposição anual aos agrotóxicos era de 5,2 litros por pessoa. Cinco anos depois, se constatou que a palavra ‘exposição’ era muito branda e passou-se a considerar o consumo de agrotóxicos, que em 2017 saltou para 7,3 litros anuais por pessoa. Os dados apresentados pelo Dr. Jackson Rogerio Barbosa mostram a liderança do Brasil no consumo de agrotóxicos, onde diversas substâncias já proibidas na União Europeia ainda são utilizadas em grande escala.

Jackson e Pablo chamaram atenção para o ciclo vicioso desse modelo de negócio: quanto mais veneno se usa nas lavouras, mais resistentes se tornam as pragas e mais veneno é necessário. Quem ganha com isso? O agronegócio é o grande beneficiado, demonstra Jackson: “Esses que estão ricos e milionários não estão no Brasil, estão fora daqui. Aqui nós estamos morrendo e o nosso ambiente, nossos ecossistemas e nossa vida está sendo destruída para alguns, pouquíssimos, ficarem multibilionários no mundo”.

Agrotóxicos e Água

Ainda na terça-feira, as pesquisadoras Prof. Dra. Sonia Hess, da Universidade Federal de Santa Catarina e a Dra. Larissa Bombardi (USP), autora do atlas “Geografia do uso de agrotóxicos no Brasil“, chocaram o público com mais dados alarmantes, dessa vez com relação a água que consumimos, que pode ser considerada também o nosso principal alimento.

De acordo com Larissa Bombardi, o Brasil é extremamente permissivo quando se fala em limites de resíduos permitidos na água. No caso do herbicida Diuron, por exemplo, a legislação brasileira considera “seguro” uma quantidade até 900 vezes maior de resíduos dessa substancia na água do que é tolerado na União Europeia. Se considerarmos o glifosato, o agrotóxico mais utilizado no Brasil, esse limite chega a 5 mil vezes mais: se na Europa fosse permitido ter 1 grama desse princípio ativo em 1.000 litros de água, por exemplo, no Brasil estaria OK ter 5 kilos.

“Talvez seja porque devido à mistura de raças nós brasileiros somos mais fortes, né”, ironiza a professora Sônia Hess, que também trouxe dados alarmantes sobre a contaminação da água por esgoto e também agrotóxicos em Santa Catarina. Enquanto menos de 30% dos municípios catarinenses fazem coleta de esgoto – e ainda nem todos esses fazem o tratamento -, Sônia constatou que em 22 cidades a água está contaminada com pelo menos 7 princípios ativos – todos proibidos na União Europeia. A professora baseou-se num levantamento do Ministério Público que analisou amostras de água em 90 municípios catarinenses, e ressalta que esses dados vieram de uma única coleta. “Se for feita uma análise sistemática, veremos que o índice de contaminação é bem maior”, explica. “Estamos cozinhando e tomando banho de veneno porque permitimos o uso”, alerta. Para Sonia, “o Brasil é a maior lixeira química do mundo” e “não temos soberania quando permitimos que lixo dos outros seja depositado aqui”, criticando a comercialização de agrotóxicos aqui que são proibidos em outros países do mundo. Ela sugere a diminuição do consumo de carne e derivado de animais como uma ação prática que pode ser adotada pela sociedade para desestimular a poluição e o consumo exagerado de água.

Isso porque o elevado consumo de agrotóxicos no Brasil está diretamente relacionado ao nosso modelo agroexportador de commodities agrícolas e minerais. O Brasil consome 20% dos agrotóxicos utilizados no planeta, sendo que três culturas respondem por 72% desse montante: soja, milho e cana. “A gente se insere na economia mundializada de forma subalterna, exportando produtos com baixo valor agregado”, afirma Larissa Mies Bombardi, autora do atlas “Geografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil”.

Larissa aponta que entre 2007 e 2014, o Brasil registrou uma média de 25 mil intoxicações por agrotóxicos ao ano. Entretanto, considerando que para cada caso registrado outros 50 não são notificados – de acordo com a Organização Mundial de Saúde – esse índice pode chegar a 1.250.000 intoxicações. Destes, cerca de 20% envolvem crianças e adolescentes até 19 anos. E são nas áreas com culturas como soja, cana, milho, algodão e eucalipto que existem mais intoxicações por agrotóxicos: “Uma parte das intoxicações está relacionado ao modelo agrícola que não privilegia a segurança e soberania alimentar, mas atender a demanda de um mercado internacional de commodities”, completa. 

Considerando a proporção populacional, Santa Catarina tem um dos maiores índices de intoxicação por agrotóxicos no Brasil. O estado também desponta em casos de tentativas de suicídio com essas substâncias. 

“No Brasil, a agricultura deixou de ser sinônimo de produção de alimentos”, afirma Larissa Bombardi. Hoje, o Brasil importa feijão enquanto a monocultura de soja corresponde a 3 portugais e ½, sendo que essa produção absorve aproximadamente 52% do total de agrotóxicos comercializados no país. Outros 10% do agrotóxico comercializado vão para o milho (mais de 90% transformado em ração animal) e 10% também para as plantações de cana-de-açúcar, utilizada na produção de etanol. Ou seja, todo esse veneno agrícola absorvido pela terra e que vai parar nos rios e na água que consumimos, é destinado à exportação e não para alimentar a população.

Fiscalização e Regulação de Agrotóxicos

Este painel teve a participação de representantes das Secretarias de Agricultura do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina, abordando as principais ações de controle e fiscalização sobre falsificação, contrabando, comercialização e uso de agrotóxicos nestes estados.

No Rio Grande do Sul, estado onde são consumidos 23 litros de agrotóxicos por habitante, Rafael Friedrich, do Departamento de Defesa Agrícola, afirma que “até a população urbana está exposta à deriva dos agrotóxicos que não atingem o alvo”. Ele relatou casos de contaminação por agrotóxicos em áreas urbanas de Bagé, Santana do Livramento e Dom Pedrito, no sul do estado, muitas vezes a grandes distâncias das áreas pulverizadas. Além disso, o Rio Grande do Sul também vem registrando grande mortandade de abelhas, cuja relação com o uso de agrotóxicos também está comprovada. A Secretaria de Agricultura realiza o acompanhamento destes casos, mas certamente tem essa atividade comprometida pela falta de profissionais para atender a todo estado, de acordo com Friedrich.

O Secretário Adjunto de Agricultura de Santa Catarina, Ricardo Miotto, trouxe dados sobre a comercialização de agrotóxicos em Santa Catarina, mostrando como a questão do receituário agronômico ainda é problemática no estado. Santa Catarina é o 9º consumidor de agrotóxicos no país, comercializando cerca de 25 mil toneladas de veneno por ano,  e uma das principais infrações identificadas pela Secrataria/CIDASC é a prescrição de agrotóxicos em desacordo com a legislação. “É preciso ter um trabalho forte com os agricultores, mas também com quem autoriza o uso”, avalia Miotto. De acordo com ele, o receituário agronômico é um documento importante para o controle de uso de agrotóxicos, mas vem sendo tratado com descaso por profissionais que o assinam e também pelos estabelecimentos de comercialização.

Agrotóxicos e Alimentos

Na terça-feira, 26, os alimentos foram o foco do debate. A mesa composta por Dra. Elisabetta Recine, professora e pesquisadora da Universidade Federal de Brasília, Dr. Renato Zanella, professor e pesquisador da Universidade Federal de Santa Maria e a Dra. Ana Paula Bortoletto Martins, nutricionista e líder do programa de alimentação saudável no Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec).

Sindemia Global foi a expressão destacada pelas pesquisadoras durante o debate. O termo trata da relação entre três pandemias: mudanças climáticas, desnutrição e obesidade. Ou seja, um Sistema Alimentar que prioriza o uso de agrotóxicos, resulta na contaminação do solo, água e ar, provocando as mudanças climáticas. O uso do veneno agrícola também diminui a qualidade nutricional dos alimentos, provocando a má-nutrição. Por fim, a grande quantidade de alimentos destinados a produção de ultraprocessados resulta em altos índices de obesidade.

Pensando nisso, Elisabetta Recine diz que não é efetivo tratar dos Sistemas Alimentares de forma fragmentada: “Quando fragmentamos a compreensão, fragmentamos também os problemas, os culpados e as soluções”, afirma. Ela já foi presidenta do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea) e sugere que as políticas públicas para alimentação sejam construídas de forma coletiva.

A pesquisadora ainda chamou atenção para a mudança de narrativa e de formas de consumo. Segundo ela, a afirmação de que só é possível alimentar essa e as gerações futuras com o uso de agrotóxicos é falsa e é nosso papel também dar visibilidade às práticas que fogem do modelo hegemônico.

A Dra. Ana Paula, do Idec, concorda com Elisabetta e defende o fortalecimento das agendas agroecológicas e de produção orgânica. Ela frisou a importância do acesso à informação confiável e a Educação Alimentar e Nutricional como formas de contrapor o discurso hegemônico do agronegócio e de disputar a narrativa. Ela menciona o Guia Alimentar para a População Brasileira, material educativo e confiável produzido pelo Ministério da Saúde em 2014 e que está disponível gratuitamente online para consulta.

Ao final dos dois dias de seminário, a constatação de que a saída é coletiva foi unanimidade entre os palestrantes. Cabe a todos e todas da sociedade civil contribuir com a mudança: não consumir produtos contaminados, se alimentar de orgânicos, estimular o uso de pouco ou nenhum veneno agrícola comprando de agricultores familiares agroecológicos e cobrar um posicionamento dos governantes são algumas atitudes que nós enquanto consumidores podemos adotar.

Outra solução apontada pela procuradora do Ministério Público do Paraná e membra do Fórum Paranaense contra os Agrotóxicos, Margaret Matos de Carvalho, é a construção de legislações municipais e estaduais pra controle e redução dos agrotóxicos. “Nesta conjuntura complicada em que vivemos, a resistência está nos municípios”, afirma Margaret. Através da realização de audiências públicas no interior do estado e da atuação do Fórum Paranaense de Combate aos Agrotóxicos, foram construídas no Paraná projetos de lei municipais e estaduais para:
– proibir a pulverização aérea de veneno
– inserção de alimentos orgânicos na merenda escolar
– obrigatoriedade de barreiras verdes para áreas pulverizadas com agrotóxicos
– acabar com a isenção fiscal para agrotóxicos
A organização Terra de Direitos publicou uma cartilha com orientações para propor leis de controle e redução de agrotóxicos, que pode ser consultada aqui.

Pesquisadores internacionais vêm ao Cepagro conhecer experiências locais de Agroecologia

Na tarde da última quarta-feira, 20 de março, o Cepagro recebeu a ilustre visita de agrônomos e pesquisadores de diversos países para uma conversa com grupos locais de agricultores e parceiros do Cepagro. O grupo de 30 visitantes contava com pesquisadores vindos dos Estados Unidos, Canadá, El Salvador, Quênia, Alemanha, Tanzânia, Peru, Finlândia e Equador, todos membros do Programa Colaborativo de Pesquisas sobre Cultivos (CCRP), da Fundação McKnight, sediada em Minnesota, nos Estados Unidos.

Florianópolis foi a cidade escolhida para a realização da reunião anual do Programa em 2019, dez anos após a realização da primeira reunião na capital catarinense, quando o Programa iniciava a sua primeira fase. A escolha do local, segundo Jane Maland Cady, diretora do Programa Internacional da Fundação McKnight, se deu pela simbologia dos 10 anos, porque a cidade é um local central para reunir os representantes vindos de diferentes países e, principalmente, porque o Brasil é pioneiro e possui muitas experiências na área da Agroecologia.

Para dividir suas experiências locais de práticas agroecológicas com os visitantes internacionais, estiveram presentes o Fábio Ferraz e a Bárbara Ventura, representantes do Assentamento Comuna Amarildo de Souza, o Cacique Artur Benites e as lideranças Alexandro e Fábio, representando a comunidade Guarani da Aldeia Tekoá vy’a, de Major Gercino, também Shirlen Vidal de Oliveira e Helena Jucélia Vidal de Oliveira, do Quilombo Vidal Martins, no Rio Vermelho em Florianópolis. Além do casal de agricultores urbanos Raquel Solange de Souza e Alaércio Vicente Pereira Junior e dos pesquisadores parceiros do Cepagro Dana James e Evan Bowness, da Universidade de British Columbia (Canadá). Esteve presente também o Prof. Antonio Munarim, do Centro Vianei de Educação Popular.

Depois de um almoço descontraído compartilhado na sede do Cepagro, pesquisadores e agricultores se reuniram no pátio do CCA, ao ar livre, para uma conversa sobre as experiências agroecológicas. A roda de conversa começou com uma rápida apresentação geral e em seguida os grupos locais falaram um pouco sobre como trabalham a Agroecologia em suas localidades e sobre como se dá a parceria com o Cepagro.

Todos eles falaram dos avanços que tiveram nos últimos tempos, com relação à produção e comercialização dos seus produtos, mas também trataram enfaticamente das dificuldades vivenciadas atualmente, principalmente com relação ao acesso à terra. Tanto as quilombolas Shirlen e Helena, como os assentados Fábio e Bárbara e os guaranis Alexandro, professor Fábio e o cacique Artur contaram como suas populações enfrentam os problemas da incerteza com relação à terra onde vivem e onde plantam seu alimento e sua fonte de renda.

Para que a Agroecologia possa acontecer, a democratização do acesso à terra para os povos do campo e da cidade se faz necessária. O relato dos três grupos sociais que historicamente batalham por esse direito, seja pela reforma agrária como é o caso dos assentados, seja pela posse dos territórios tradicionais para indígenas e quilombolas, contextualizou para os pesquisadores de outros países como essa questão é enfrentada no Brasil.

O pesquisador Ernesto Méndez, Ph.D. e Professor de Agroecologia e Estudos Ambientais na Universidade de Vermont, nos EUA, gostou muito de ter conhecido os grupos quem fazem Agroecologia em Santa Catarina. “O Brasil é forte na Agroecologia e é muito importante escutar vocês, os produtores e os indígenas. É muito importante para o nosso programa aprender um pouco da experiência no Brasil”, disse. Ernesto é membro do Comitê Consultivo do Programa Colaborativo de Pesquisas sobre Cultivos da McKnight, que se propõe melhorar o acesso a alimentos locais, sustentáveis e nutritivos usando pesquisa colaborativa e compartilhamento de conhecimento com pequenos agricultores, instituições de pesquisa e organizações de desenvolvimento.

Carlos Barahona-Zamora, diretor geral da organização Stats4SD – Estatísticas para o Desenvolvimento Sustentável, parceira da Fundação McKnight, também achou a vinda à Florianópolis muito rica. “O genuíno das experiências que os companheiros compartilharam nos dão muito o que pensar”, disse Carlos. Segundo ele, os relatos e reivindicações dos quilombolas, indígenas, assentados e agricultores urbanos “geraram algumas reações e comentários muito interessantes nos companheiros da equipe” e o que ouviram vai fazer com que modifiquem alguns de seus planejamentos.

Para Raquel Solange de Souza, agricultora urbana do Ribeirão da Ilha, ter a oportunidade de falar sobre sua vivência com a Agroecologia no meio urbano para grupos locais e pesquisadores internacionais foi sensacional. “Foi muito legal, mesmo sem falar inglês, poder me comunicar com as pessoas que vieram de fora e também poder conhecer os indígenas e as quilombolas, porque eu nunca visitei uma aldeia e um quilombo”, contou Raquel. “Como assistente social eu já dei várias palestras, mas de um tema que eu tinha propriedade. E estar ali para falar sobre Agroecologia, era só a experiência pessoal minha, foi mais colocar o coração para fora”, acrescentou.

Como apontou Charles Lamb, Coordenador de Desenvolvimento Rural do Cepagro, “Faz parte das características do Cepagro possibilitar o contato de pesquisadores e membros de organizações como a McKnight e os grupos com os quais trabalhamos, trazendo transparência e possibilitando o exercício da fala por parte destes grupos, apresentando suas demandas e colaborações para um mundo mais agroecológico”.

Esse contato com diferentes realidades que o Cepagro possibilitou cativou a admiração da diretora do CCRP, Jane Maland Cady. “Para mim o mais lindo foi o trabalho do Cepagro. O nome Cepagro, você pode ouvir em muitos lugares diferentes, e ver o Cepagro dentro da Universidade e ligado com as comunidades diversas, fazendo pesquisa, políticas públicas,  produtos verdadeiros e lutando por crédito, esse tipo de ação é muito importante e inspiradora”.

Antes de deixar o Centro de Ciências Agrárias da UFSC, os membros do Programa Colaborativo de Pesquisas sobre Cultivos puderam ainda conhecer a atuação do Laboratório de Comercialização da Agricultura Familiar (LACAF), que também se apresentou e contou um pouco das experiências com a comercialização direta para agricultores familiares.

Em meio ao Banquetaço, nasce o Fórum Catarinense de Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional

Na tarde da última quarta-feira, 27, Florianópolis se uniu a mais de 40 cidades brasileiras para a realização do Banquetaço em defesa do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea). Durante quase 3 horas foram servidas gratuitamente cerca de 2 mil refeições, preparadas com alimentos saudáveis, saborosos e de origem justa, no centro da Capital. Além do banquete, a programação do evento contou com uma roda de conversa sobre a importância do Consea e da participação social na política pública de Segurança Alimentar e Nutricional. E foi ali, em pleno Largo da Catedral Metropolitana e em meio a diversos setores da sociedade, que nasceu o Fórum Catarinense de Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (FCSSAN), que vai complementar a atuação do Consea em Santa Catarina. Para além disso, o Fórum visa aumentar a participação da sociedade civil nas discussões em torno do tema.

CONSEA PRA QUÊ?

O Consea é uma instituição de governo com participação social que tem como função principal o controle social de políticas públicas sobre Segurança Alimentar e Nutricional. Ele possui uma limitação de representações e, segundo Mick Lennon Machado, conselheiro do Consea pela Associação Catarinense de Nutrição, a luta por sua continuidade é maior que o próprio Conselho, que hoje carece da participação de alguns setores, como por exemplo os pescadores artesanais.

O Fórum, por sua vez, é uma instituição da sociedade, que não tem representações do governo mas têm sua legitimidade, já que a Constituição garante à todos os cidadãos o direito fundamental à livre associação. Segundo Eduardo Rocha, Diretor-Presidente do Cepagro, o Fórum, para além do controle social, pode trazer elementos mais práticos para a elaboração de projetos e políticas públicas que atendam as demandas da sociedade com menos interferência do governo. Por esse motivo é muito importante a participação de diversos setores sociais, pois o Fórum Catarinense de Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional será um espaço onde a própria sociedade irá discutir e elaborar políticas que atendam às suas necessidades, no campo da alimentação.

A princípio, o FCSSAN será composto pelas organizações que já compõem os Conseas Estadual e Municipais, além das pessoas que durante o Banquetaço colocaram seus nomes para participarem do nascimento dessa instância. Estiveram presentes no evento indígenas, quilombolas, mulheres, pessoas em situação de rua, estudantes e representantes do Movimento Negro Unificado, Movimento dos Trabalhadores Sem Terra, Movimento dos Atingidos por Barragem, Federação de Trabalhadores da Agricultura Familiar e outras tantas organizações.

Entre eles estava Vanda Gomes Pinedo, do Movimento Negro Unificado e representante do Fórum das Religiões de Matriz Africana da Grande Florianópolis. Vanda já compõe o Consea/SC e falou sobre a importância de estar presente também no FCSSAN, que poderá ampliar ainda mais a discussão e fundamentação da importância da alimentação saudável junto às comunidades tradicionais de matriz africana. “É muito importante quebrar com essa oligarquia da alimentação e dessa alimentação que tem nos trazidos muitas doenças. Então a gente se soma nessa perspectiva, para fazer o enfrentamento na sociedade que tem nos retirado espaços de produtividade todos os dias. Cada vez que perdemos espaço de produtividade há uma ampliação dos alimentos que atingem a nossa saúde”, disse Vanda, lembrando que alimentação também tem haver com territorialidade.

Em um momento onde as instituições de controle social estão ameaçadas, a criação do Fórum se torna também uma garantia da defesa de direitos. Ao longo da roda de conversa do Banquetaço, Neila Maria V. Machado, coordenadora do projeto Fortalecimento do Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Sisan) e membro do TearSAN, lembrou que o Consea Nacional já havia sido extinto antes, em 1994, no governo de Fernando Henrique Cardoso. Ele foi recriado somente 9 anos depois, no governo Lula, por pressão popular e graças também à existência do Fórum Brasileiro de Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (FBSSAN). Foi graças a políticas planejadas no Consea que o Brasil saiu do Mapa da Fome, em 2014.

Com o fechamento do Consea Nacional pela segunda vez, através da Medida Provisória Nº 870/2019, os Conselhos estaduais e municipais passam a ter sua atuação ameaçada. O recém nascido Fórum servirá também para garantir que a sociedade continue reunida, discutindo e vigilante a fim de defender seus direitos garantidos e buscando conquistar novos.

Ao final da roda de conversa, André Luiz Farias, representante da Associação Beneficente Terreiro de Umbanda Reino de Iemanjá e 1º Secretário do Consea/SC, fez o convite a todos e todas para comparecerem na próxima Plenária do Consea/SC, no dia 20 de março, para a construção da Conferência Popular em defesa do Consea e de pautas da sociedade civil.

Entre as pessoas que confirmaram presença na construção da Conferência Popular e do Fórum Catarinense de Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional, estava a Vice-Presidenta da Associação de Moradores da Ponta Norte de Florianópolis, Karen Navarro. Ela, por exemplo, não está no Consea mas quer se unir à defesa por uma alimentação saudável para todos: “A grande importância da nossa participação enquanto sociedade unida e estabelecida é que a nossa comunidade realmente tenha voz e que a gente possa se juntar a outras comunidades e em massa poder fazer a diferença”, disse Karen.

Todas e todos são bem vindos na construção destes novos espaços de articulação social que serão a Conferência e o Fórum. Como lembrou Mick Lennon Machado, “se a gente vai ser retirado institucionalmente da governança, temos que nos unir ainda mais e continuar fortalecendo as bases”.

Crianças do NEIM Armação recebem visita de uma Bruxa na horta encantada

O ano letivo terminou com uma visita muito especial no Núcleo de Educação Infantil Municipal da Armação. Ontem, 18 de dezembro, foi a última aula do ano na Horta Pedagógica e a Bruxa Manidipá esteve na escola, à convite das crianças, especialmente para conhecer o canteiro de plantas medicinais que elas mesmas ajudaram a fazer.

A professora Angélica Laurent contou que a ideia de mandar uma cartinha convite surgiu depois que elas conheceram uma bruxa no SESC Cacupé. Lá elas descobriram que existem bruxas boas e que elas são criaturas que conhecem muito sobre plantas. Como as crianças da turma G5 já vinham fazendo um correio entre elas, resolveram juntas escrever a cartinha para a bruxa, e não demorou muito para a visita acontecer. Ao longo do dia elas ouviram muitas histórias e aprenderam que as plantas têm poderes mágicos e podem curar.

Nos bastidores, a engenheira agrônoma Karina Smania de Lorenzi, da equipe técnica do Cepagro, que é responsável pelas atividades na Horta do NEIM Armação entregou a carta para a colega Maria Dênis Schneider, da diretoria do Cepagro que, assim como as bruxas, entende muito de plantas. O convite foi aceito e a bruxa Manidipá surgiu e pôde ir até a escola conhecer a horta encantadora das crianças.

Depois de contar algumas histórias em sala de aula, a bruxa acompanhou os pequenos até a horta, onde fizeram suas próprias varinhas mágicas com as plantas do canteiro de ervas medicinais. Maria Dênis lembrou que as bruxas têm uma relação direta com a horta porque as plantas são a matéria prima de tudo o que ela faz, seja uma água perfumada, um remédio ou chá. “Galhos de lavanda junto com folhas de capim-limão amarradinhas embaixo do travesseiro são uma poção mágica que serve para acalmar e ajuda a dormir melhor. Ou o chá de calêndula que acalma a nossa pele depois de pegar muito sol na praia”, são algumas das receitas de Maria Dênis. 

Além das histórias e confecção das varinha mágicas, a bruxa também pôde conhecer a casa das abelhinhas Mandaçaias que moram na horta do NEIM. Ao final do dia, todos juntos repetiram as palavras mágicas, aquelas conhecidas mundialmente: sim sim salabim e outras como: cuidar das plantas e dos animais.

Lançado o Programa Estadual de Agrobiodiversidade

Texto foi construído durante o “Seminário Estadual Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional: Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e Programa Agrobiodiversidade”, realizado entre os dias 4 e 6 de dezembro em São José

Programa Estadual de Agrobiodiversidade acaba de ser lançado pelo Conselho Estadual de Segurança Alimentar e Nutricional (CONSEA/SC). De acordo com a presidenta do CONSEA/SC, Rita de Cássia Marschin da Silva, o Programa Estadual de Agrobiodiversidade “visa a Promoção da Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional, constituindo-se em um componente essencial para o desenvolvimento sustentável e manutenção da diversidade genética das espécie ficando assim assegurado a importância socioeconômica e diversificação da produção agregando valor tendo como base práticas alimentares promotoras da saúde, que respeitem a diversidade cultural e que sejam ambiental, cultural, econômica e socialmente sustentáveis.”

Confira o texto na íntegra – Consea – Programa Agrobiodiversidade.