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Porto Belo recebe Encontro da Rede Ecovida de Agroecologia

O Encontro do Núcleo Litoral Catarinense da Rede Ecovida acontece anualmente, reunindo famílias agricultoras que se dedicam à produção sustentável de alimentos orgânicos
Cerca de 150 pessoas, a maioria agricultores e agricultoras orgânicos de Santa Catarina, são esperadas neste final de semana no 13º ENCONTRO DO NÚCLEO LITORAL CATARINENSE DA REDE ECOVIDA DE AGROECOLOGIA, que acontece no Salão da Igreja Nossa Senhora Aparecida, comunidade Sertão de Santa Luzia, em Porto Belo. Na programação, haverá palestras, oficinas e a tradicional Feira de Saberes, Sabores e Sementes, representando a riqueza da agricultura agroecológica de Santa Catarina. O evento, organizado pelo Grupo de Agroecologia Costa Esmeraldas (GACE), começa no sábado, 24 de agosto, às 15h e termina no domingo, 25 de agosto, às 16h. No domingo a programação será aberta ao público.
A mesa de abertura do Encontro, no sábado às 18h, será sobre TECNOLOGIAS EM PRODUÇÃO SUSTENTÁVEL DE HORTALIÇAS, com a participação do agrônomo Euclides Schallenberger, da EPAGRI. No domingo o destaque é para as oficinas, abordando temas como: planejamento de produção, organização de grupos de consumidores e adubos. Durante todo o evento acontece a FEIRA DE SABERES SABORES, com alimentos e artesanato da agricultura familiar agroecológica catarinense. Um delicioso café e almoço agroecológicos serão servidos, a R$ 25 por pessoa. A organização pede confirmação da presença pelo telefone (47) 99720-6930.
O último encontro foi em Biguaçu

O Núcleo Litoral Catarinense da Rede Ecovida reúne cerca de 150 famílias de agricultores e agricultoras de 30 municípios catarinenses. Os Encontros  de Núcleo são realizados anualmente. Já a Rede Ecovida está presente nos três estados do Sul brasileiro, reunindo mais de 4 mil famílias de agricultores e agricultoras agroecológicos.

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Cepagro apoia a Tributação Verde

NOTA PÚBLICA

 CEPAGRO APÓIA A TRIBUTAÇÃO VERDE

O Cepagro vem a público manifestar seu apoio à Tributação Verde, que retira benefícios fiscais para agrotóxicos em Santa Catarina. Até agosto deste ano, tais produtos eram isentos de ICMS. Enquanto isso, a sociedade e os cofres públicos arcam com os custos para o tratamento de doenças relacionadas ao uso abusivo de agrotóxicos. Além disso, os impactos ao meio ambiente – como a contaminação da água – dificilmente são monetarizados. A proposta da Tributação Verde é que o ICMS passe a ser cobrado para agrotóxicos, assim como para qualquer outro produto. Ao contrário do que anunciam setores do agronegócio, isso não significa aumento de 30% do preço dos alimentos para a população, mas que a indústria dos agrotóxicos pagará impostos como qualquer outra.

O Brasil consome 20% dos agrotóxicos comercializados mundialmente, sendo que três culturas respondem por 72% desse montante: soja, milho e cana* – produtos voltados em grande parte para exportação ou para produção de carnes (que também serão exportadas), não para alimentar a população brasileira. Entre 2007 e 2014, o Brasil registrou uma média de 25 mil intoxicações por agrotóxicos ao ano – quase 3 casos por hora. Entretanto, considerando que para cada caso registrado outros 50 não são notificados – de acordo com a Organização Mundial de Saúde – esse índice pode chegar a 1.250.000 intoxicações. Destes, cerca de 20% envolvem crianças e adolescentes até 19 anos**.

Em Santa Catarina, Considerando a proporção populacional, temos um dos maiores índices de intoxicação por agrotóxicos no Brasil. O estado também desponta em casos de tentativas de suicídio com essas substâncias***. Um levantamento do Ministério Público de Santa Catarina mostra que em 22 cidades catarinenses a água está contaminada com pelo menos 7 princípios ativos – todos proibidos na União Europeia****.

Os impactos dos agrotóxicos na saúde já estão largamente documentados: do câncer ao autismo, de más formações de fetos a abortos tardios, são inegáveis os riscos a que estamos expostos pelo uso abusivo destas substâncias no nosso país e no nosso estado. Nossos alimentos, nossa água, nossos solos e até o leite materno***** em muitas regiões do país estão contaminados com princípios ativos de agrotóxicos.

Assim, entendemos que a Tributação Verde para agrotóxicos é uma forma de compensar estes impactos na saúde e no meio ambiente dos e das catarinenses. A arrecadação desse imposto poderia, por exemplo, ser investida em ações para diminuição do uso de agrotóxicos e incentivo à agricultura ecológica. Não é justo que uma indústria que causa tantos impactos à saúde e ao meio ambiente tenha benefícios fiscais, enquanto a agricultura limpa, orgânica e agroecológica tenha tão poucos incentivos.

E lembramos que, se existe um setor que necessita de incentivos e isenções fiscais, é o da produção orgânica, para que os agricultores e as agricultoras que cultivam alimentos limpos e preservam o meio ambiente possam reduzir custos e, assim, ampliar o acesso da população a alimentos de qualidade e sem venenos.

* Dados do atlas “Geografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil”, da prof. Dra. Larissa Mies Bombardi (USP)

** Dados do atlas “Geografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil”, da prof. Dra. Larissa Mies Bombardi (USP)

*** Dados do atlas “Geografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil”, da prof. Dra. Larissa Mies Bombardi (USP)
**** Dados analisados pela prof. Dra. Sônia Hess (UFSC).

***** Dados levantados pelo prof. Wanderlei Antônio Pignati (UFMT) em Lucas do Rio Verde (MT).

Dia de sensibilização ambiental e Agroecologia no canteiro de obras do Floripa Airport

Na última sexta-feira, 26 de julho, o Cepagro esteve na obra do Floripa Airport, no bairro Tapera, sensibilizando trabalhadores e trabalhadoras para a compostagem e produção de alimentos em pequenos espaços. A convite da Racional Engenharia, Erika Sagae e Aline Assis, da equipe de Agricultura Urbana do Cepagro, e o coordenador de Desenvolvimento Rural, Charles Lamb, também realizaram uma oficina de produção de mudas.

No stand montado próximo aos refeitórios, onde almoçam diariamente mais de 700 funcionários, homens e mulheres das cinco regiões do país paravam para saber o que estava acontecendo. Era um tal de: “tem muda de coentro?”, “isso na minha terra é hortelã!”, “pra gente era malva”, “o açaí do Pará com 2 anos já está dando!”.

Além de conhecer diferentes formas de cultivo e aprender sobre o método UFSC de compostagem, os funcionários puderam saber sobre o destino do composto que é gerado ali mesmo, a partir do resíduo orgânico dos refeitórios. Em junho de 2018, durante a Semana do Meio Ambiente, a engenheira ambiental Luiza Marques procurou o Cepagro para dar destino ao composto gerado na obra. Desde então, a maior parte do composto do aeroporto foi doada ao Cepagro e contribuiu na implantação da horta comunitária do Posto de Saúde do Ribeirão da Ilha,  e em atividades realizadas na Escola Januária, no Campeche, e na Escola Tercílio Bastos, em Major Gercino.  Além disso, o composto também enriqueceu o cultivo das comunidades guaranis de Major Gercino, Aldeia Tekoá V’yá, e de Biguaçu, Aldeia Ygua Porã.

Na mesma ocasião, em 2018, o Cepagro facilitou a implantação de uma horta no canteiro de obras, para onde parte do composto também passou a ser destinado. O construtor civil John Nilson Alves Nepomuceno, do Pará, conta que usufrui da horta levando chás e temperos para casa. “É interessante porque a empresa tem uma preocupação com o meio ambiente, não descarta em qualquer lugar como se fosse qualquer resíduo. Eles separam os materiais reciclados, a serragem da madeira usam na compostagem. Se toda a empresa tivesse isso seria bom”, conta Nilson.

 

O Floripa Airport tem um plano básico ambiental, que vem sendo gerido pela Racional Engenharia. Segundo o técnico ambiental da empresa, Humberto Camargo Filho, a compostagem é uma das formas de gestão dos resíduos e por mês são compostados cerca de 250 kg. O responsável pela função é Romenald Albert, que aprendeu a compostar no Haiti, seu país natal. É ele também que cuida da horta diariamente.

À tarde, parte da equipe do administrativo, cozinheiras e funcionários do canteiro de obras participaram da oficina de produção de mudas. A agrônoma Aline Assis deu dicas sobre o cultivo de hortaliças em pequenos espaços e os participantes puderam levar para casa as mudas produzidas. Entre eles estava a sergipana Vanusia Jesus Santos, que ficou impressionada com o manjericão roxo e fez questão de levar uma muda para mostrar aos familiares.

Charles Lamb conta que a atividade “oportunizou uma grande troca de experiências e demonstrou o potencial que esse tipo de iniciativa pode ter em um espaço inóspito como um canteiro de obras”. Disse ainda que o Cepagro continuará apoiando a iniciativa com mais atividades até o término da obra, prevista para outubro.

Celebrado em 25 de julho, Dia Internacional da Agricultura Familiar homenageia quem alimenta o mundo

O Dia Internacional da Agricultura Familiar foi instituído em 2014 pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO). A data lembra da importância dos agricultores e das agricultoras para a alimentação mundial. De acordo com a FAO, entre 70 e 80% dos alimentos consumidos no mundo são produzidos por agricultores e agricultoras familiares e camponeses .

Em Santa Catarina, de acordo com a Síntese Anual da Agricultura publicada pela EPAGRI, o estado ainda caracteriza-se pelo predomínio de pequenas propriedades rurais.  Dos 183.065 estabelecimentos agropecuários do estado, 88,8% tem menos de 50 hectares, sendo que 37% destes estabelecimentos possuem menos de 10 hectares. Dentre os/as trabalhadores/as catarinenses que se identificam como agricultores/as, 84% são familiares.

Mas o que é agricultura familiar?
A categoria “agricultor/a familiar” é regulamentada pela lei 11.326, de 2006, que instituiu a Política Nacional de Agricultura Familiar e Empreendimentos Familiares Rurais, ainda durante o governo Lula. No texto, considera-se agricultor/a familiar quem:
– tem uma área de até 4 (quatro) módulos fiscais [em Santa Catarina isso corresponde a ate´80 hectares de terra]
– utiliza predominantemente mão-de-obra da própria família;
– tem renda familiar predominantemente originada de atividades econômicas vinculadas ao próprio estabelecimento ou empreendimento;
– dirige seu estabelecimento ou empreendimento com sua família.

Enquanto em cadeias produtivas agroindustriais, como frango, suínos e fumo, a agricultura familiar é responsável por grande parte da produção, no cultivo de alimentos orgânicos as famílias que trabalham no campo também têm destaque. No Cadastro Nacional de Produtores Orgânicos do Ministério da Agricultura – que contabiliza todas as famílias que passam por algum processo de certificação da produção – Santa Catarina tem 1.275 unidades de produção orgânica cadastradas, figurando entre os cinco maiores produtores de orgânicos do país. O documento também aponta que o número de agricultores/as catarinenses que se dedicam ao cultivo orgânico aumentou 12,9% entre 2017 e 2018, com o município de Santa Rosa de Lima, nas encostas da Serra Geral, reunindo o maior número de produtores/as.

Em 2017, Leonilda compartilhou sua experiência de vida e trabalho no Seminário “Mulheres e Agroecologia”

Uma das famílias é a da agricultora Leonilda Boeing Baumann. Antes conhecida como “a mulher do professor”, apesar de ter crescido e sempre trabalhado na roça, Leonilda Boeing Baumann agora maneja com seu filho uma propriedade com certificação agroecológica em Santa Rosa de Lima (SC), onde produzem verduras, temperos e chás, mel, geleias e mantêm também a Pousada Vitória. A partir do contato com o projeto Acolhida na Colonia de agroturismo, Leonilda resgatou sua autoestima de ser agricultora. E, com a inserção na Rede Ecovida de Agroecologia, afirma: “Hoje, se tu tem um alimento limpo na tua propriedade pra servir pra tua família, aí está o teu remédio”. 

O filho de Leonilda, Jackson, estudou Agronomia e voltou para trabalhar na propriedade em Santa Rosa de Lima. Participa de feiras e também de atividades da Rede Ecovida de Agroecologia.

E o que mais dizem as/os agricultoras/es sobre a agricultura familiar?

“Eu costumo dizer pro meu esposo que eu nasci pra isso. Nasci pra ser agricultora e produtora orgânica. Porque cada semente que eu planto na terra é com muito amor. Tanto amor, que eu até tenho dificuldade de tirar os alimentos da terra depois”. A agricultora Thaís Teixeira da Rosa, de Porto Seguro (BA), participa há dois anos da Rede de Agroecologia Povos da Mata, que reúne outras 700 famílias agricultoras da Bahia. Neste tempo, ela aprendeu e vem praticando diversas técnicas de manejo agroecológicas, que, combinadas com os saberes tradicionais repassados por suas ancestrais, garante o sucesso de suas colheitas e a diversidade na banca das duas feiras que ela realiza semanalmente. Com o trabalho na agricultura, Thaís e seu companheiro garantem o sustento da família de seis filhos. “Não é fácil”, afirma ela, mas seu amor pela terra não a deixa desistir: “Se não dá certo, eu vou lá e tento de novo”, conta. “Se você trata bem o solo, ele sorri pra você. A terra é como uma filha”, completa.

“A gente sabe que agricultura familiar é pra gente plantar e ter alimentos de saúde pras crianças e escolas. Se possível, orgânico. Porque o convencional anda muito complicado, causando muita doença. Eu acho que as escolas deveriam tudo pegar alimento orgânico. Porque as crianças comerem alimento convencional é muito complicado”. O agricultor Orlando Ribeiro Melo vive e trabalha em Bocaina do Sul, na Serra Catarinense. Participa da Rede Ecovida há 10 anos, quando iniciou sua transição do cultivo convencional para a Agroecologia. “Agroecologia é ter mais saúde para o povo, com alimentos saudáveis e de qualidade”, afirma ele.

E a agricultura familiar caminha com os povos e comunidades tradicionais. Quem dá o recado é Walter dos Santos, liderança quilombola e agricultor do Maranhão. “A gente tem que valorizar o quilombola e a agricultura familiar porque são parceiros que andam juntos. Porque se nós não produzimos, nós não conseguimos nos alimentar e se nós produzimos juntos: tá aí a agricultura familiar. Eu acredito que uma só andorinha não faz verão, mas o povo junto muda a realidade do Brasil.”

Superando um passado de fome e analfabetismo, com apoio de entidades da igreja católica e acessando políticas públicas como o Bolsa Família, o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e o Programa Nacional de Alimentação Escolar, a comunidade quilombola Piqui da Rampa, onde Walter nasceu e cresceu, hoje se sustenta com o que é produzido ali e sabe o valor dos alimentos. “O Bolsa Família fez com que a gente pudesse trabalhar de barriga cheia e aumentou nossa capacidade de conhecimento. E nós só soubemos o quanto valia um kilo de abóbora ou de feijão quando a CONAB chegou aqui e entramos no PAA”, conta. Com três refeições ao dia e alfabetização, a comunidade alcançou autonomia e conquistou espaços institucionais, como o Conselho Estadual de Segurança Alimentar e Nutricional, onde Walter ocupa um assento, e a universidade pública, com várixs jovens da comunidade tendo acesso. Dois são filhxs de Walter: Valdenice, que está cursando o Mestrado em Ciências da Saúde na Universidade Federal do Maranhão, e Waldey, estudando Agronomia também na UFMA.

“Nasci e me criei na roça. Agricultura Familiar pra mim é trabalhar a terra com carinho, produzir alimentos saudáveis pra nossa população. A gente sabe que 70% dos nossos alimentos vêm da agricultura familiar. Pra mim é tudo isso: produzir alimentos saudáveis com respeito ao meio ambiente”, afirma Lindomar Lins, agricultor do município de São Gabriel, no sertão baiano.

Ele sempre trabalhou na agricultura, e até 2011 cultivava somente pepino e beterraba em sua propriedade, utilizando adubos químicos e agrotóxicos. Através da sensibilização e assistência técnica da empresa pública de assistência técnica, Lindomar iniciou sua transição agroecológica. Com o estabelecimento da Rede Povos da Mata na região a partir de 2016, Lindomar pôde certificar sua produção como orgânica. Hoje, ele produz de 40 a 45 variedades de alimentos numa área de apenas 1,5 hectare, que tem tanto uma horta diversificada quanto um Sistema Agroflorestal. A observação do ciclo natural dos cultivos somada ao uso racional da irrigação com cobertura de solo e à produção própria de adubos e insumos orgânicos colabora para as colheitas de Lindomar, que faz 3 feiras orgânicas por semana na região. “É só entender a Natureza e trabalhar com ela que dá tudo certo”, afirma o agricultor. 

Para Carmem Munarini, agricultora e membra do Movimento de Mulheres Camponesas, “ser agricultora familiar é trabalhar junto com minha família lá na roça, lá no interior. É se organizar e ter direito também a mandar. Não deixar só os filhos e o marido mandarem, mas ter o direito também de participar nas decisões da família e nas decisões do trabalho da agricultura familiar”.

 

Rede Povos da Mata fortalece a Agroecologia na Bahia

Consolidada em 2016, a Rede Povos da Mata reúne hoje 700 famílias agricultoras de 4 regiões da Bahia. Nos dias 12 e 13 de julho foi realizado o II Encontro da Rede, em Irecê, no sertão baiano. O Cepagro esteve lá e conta um pouco do que rolou.

Paula Ferreira na abertura do Encontro

“Irecê tem a maior Feira Orgânica certificada da Bahia. Não somos mais pequenos agricultores de fundo de quintal. Produzimos toneladas de alimentos! Queremos assumir o compromisso de fornecer para a alimentação escolar na região. Temos produção pra isso”. Contrariando o senso comum que associa a agricultura familiar – sobretudo a agroecológica – com algo “pequeno” ou “sem escala”, a agricultora Paula da Silva Ferreira defendeu que Agroecologia é sim uma opção para alimentar a população com qualidade e quantidade. Paula é coordenadora de um dos núcleos da Rede de Agroecologia Povos da Mata e falou durante a abertura do II Encontro da Rede, realizado em Irecê, no sertão baiano, nos dias 12 e 13 de julho. Credenciada em 2016 como um organismo participativo de certificação orgânica, a Rede Povos da Mata está presente hoje em 28 municípios baianos do Litoral, Sertão, Chapada Diamantina e Recôncavo Baiano, envolvendo 700 famílias agricultoras, sendo 300 delas certificadas, além de 6 agroindústrias. “Nosso compromisso nos próximos 2 anos é continuar colaborando e qualificar o que já temos. Não temos meta de criar mais tantos grupos ou núcleos”, afirma Tatiane Botelho, que foi presidente da Rede até este Encontro, quando nova diretoria foi empossada.

O Encontro reuniu mais de 450 pessoas ao longo dos dois dias de atividades, que tiveram o objetivo de discutir as perspectivas da Rede para o fortalecimento da produção agroecológica de alimentos de base ecológica, assim como o consumo consciente de alimentos saudáveis. Neste sentido, tanto Paula Ferreira quanto Tatiane Botelho, que estava presidente da Rede Povos da Mata, aproveitaram a presença de representantes do Ministério da Agricultura e do Governo baiano na  abertura do Encontro  para apresentar perspectivas e demandas para fortalecer a produção e ampliar o acesso a alimentos agroecológicos. Consolidar o fornecimento de alimentos orgânicos para a alimentação escolar e prover infra-estrutura para as feiras orgânicas da região, como barracas e veículos, foram algumas das necessidades elencadas no evento. As coordenadoras da Rede também ressaltaram a importância de parcerias, como a do SEBRAE e da BAHIATER (a empresa pública de assistência técnica e extensão rural) tanto no apoio do evento quanto para o trabalho das famílias.

Feira Agroecológica e análise de conjuntura abrem o Encontro
Nada como uma Feira Agroecológica para iniciar um Encontro de Agroecologia. E no da Rede Povos da Mata não foi diferente: dezenas de famílias dos 4 núcleos da Rede trouxeram alimentos, cosméticos naturais e artesanatos para comercializar, mostrando a riqueza e a diversidade da produção agroecológica.O grupo de Agroecologia Pé de Serra reúne 17 famílias da região de Uibaí, no sertão baiano. Elas produzem hortaliças, legumes e frutas orgânicas e compareceram na Feira do Encontro da Rede Povos da Mata.


Além de conhecer a força da produção agroecológica na caatinga , no Encontro foi possível provar o chocolate orgânico produzido pelas famílias do Assentamento Terra Vista, município de Arataca, onde trabalham 55 famílias. Uma delas é a do jovem agricultor Daniel de Lima Santos.


A Rede Povos da Mata abrange também a comunidade pataxó do Sul da Bahia. Durante o encontro, as mulheres pataxó da região de Porto Seguro trouxeram seus artesanatos e também o mel orgânico que está em processo de certificação pela Rede.

Na palestra de abertura, Rogério Dias, da Associação Brasileira de Agroecologia, trouxe uma análise de conjuntura da Agroecologia no Brasil e as perspectivas de resistência da produção agroecológica de alimentos. Para Rogério, “a mudança de governo acelerou o desmonte de políticas públicas para Agroecologia que já vinha acontecendo desde o golpe de 2016”. Uma delas é própria Política Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica, instituída em 2012. Rogério avalia que “A PNAPO acabou, mas ainda precisamos confirmar quando sair o Plano Plurianual pra Agricultura. Mas não temos nenhuma garantia que haverá recursos para fomento da Agroecologia”.

Rogério, entretanto, lembra que “o Brasil não é só o Governo Federal. Os estados também têm Planos Plurianuais de Agricultura”. O agrônomo ressalta que a pressão da sociedade e a atuação das redes agroecológicas são fundamentais para resistir ao desmonte de políticas públicas para agricultura familiar, agroecologia e segurança alimentar. E reforça que “neste momento, temos que incomodar. Podemos incomodar sozinho, como um bicho de pé faz. Mas, se formos um bando de formigas lava-pés, incomodamos mais ainda”.

O tema do outro painel da tarde era Os impactos dos agrotóxicos na saúde humana, mas a nutricionista Valéria Cristina Paschoal preferiu abordar os benefícios dos alimentos orgânicos. A partir de revisão bibliográfica de artigos científicos, Valéria afirma que as plantas manejadas agroecologicamente crescem mais resistentes,  essa resistência é repassada aos alimentos, aumentando a imunidade de quem os consome. Neste sentido, os alimentos da caatinga são os que trazem mais benefícios, pois crescem num ambiente extremamente adverso. Para manter essa produção, Valéria reafirma a importância da valorização da agricultura familiar: “Não existem pessoas mais cultas que os/as agricultores/as. Porque a agricultura é uma das primeiras formas de cultura que o ser humano desenvolveu”, disse.

Comida de verdade, no sertão e na cidade
Caracterizado pelo clima seco da caatinga, Irecê está num território de 20 municípios que abrange aproximadamente 44 mil famílias agricultoras. Em meio aos monocultivos de feijão com uso pesado de agrotóxicos e adubos químicos, cerca de 130 famílias cultivam a Agroecologia, articuladas na Rede Povos da Mata.

Uma dessas famílias é a de Lindomar Lins, do município de São Gabriel. Lindomar sempre trabalhou na roça, e até 2011 cultivava somente pepino e beterraba em sua propriedade, utilizando adubos químicos e agrotóxicos. Através da sensibilização e assistência técnica da empresa pública de extensão rural, Lindomar iniciou sua transição agroecológica. Com o estabelecimento da Rede Povos da Mata na região a partir de 2016, Lindomar pôde certificar sua produção como orgânica. Hoje, ele produz de 40 a 45 variedades de alimentos numa área de apenas 1,5 hectare, que tem tanto uma horta diversificada quanto um Sistema Agroflorestal. A observação do ciclo natural dos cultivos somada ao uso racional da irrigação com cobertura de solo e à produção própria de adubos e insumos orgânicos colabora para as colheitas de Lindomar, que faz 3 feiras orgânicas por semana na região. “É só entender a Natureza e trabalhar com ela que dá tudo certo”, afirma o agricultor. Os/as participantes do Encontro visitaram a propriedade de Lindomar durante uma oficina de Certificação Participativa realizada no evento. 

O trabalho de promoção da Agroecologia na região iniciou em 2011, muito pela atuação do agrônomo Edvaldo Reinaldo Filho, da empresa pública de extensão rural, a Bahiater. Além de práticas e insumos agroecológicos, ele orienta as famílias sobre o uso racional da água, já que ali os cultivos são irrigados, dependendo de poços artesanais. “Quando trabalhamos a cobertura do solo com palhadas, restos de culturas e estercos estamos utilizando tecnologias de convivência com o semiárido, além de aproveitar os insumos da própria unidade produtiva. Desta forma, há uma redução de perdas de umidade do solo, reduzindo a evaporação, além de melhorar a temperatura do solo, proporcionando melhor desenvolvimento das plantas”, explica Reinaldo. “O manejo ecológico do solo é fundamental para evitar erosão e compactação do solo, proporcionando uma melhor absorção da água de chuva e de irrigação e a permanência da biota do solo”, completa.

Através da participação na Comissão de Produção Orgânica da Bahia, Reinaldo conheceu a Rede Povos da Mata e convidou representantes para virem conhecer as famílias agricultoras do Sertão. O contato com a Rede Povos da Mata potencializou a organização dos/as agricultores/as agroecológicos de Irecê, que formaram o Núcleo Raízes do Sertão. “Depois da primeira reunião, já saíram 4 ou 5 grupos de famílias”. No âmbito da Rede, as famílias puderam não só certificar sua produção, como abrir novos canais de comercialização – tanto é que do sertão elas enviam alimentos orgânicos para a merenda escolar de Ilhéus, no Sul da Bahia. Além disso, o Raízes do Sertão promove outras 10 feiras agroecológicas na região, sendo que a de Irecê é a maior com certificação do estado, como lembrou Paula Ferreira na abertura.

A agricultora Thais Teixeira da Rosa veio de Porto Seguro, a 900km dali, para o Encontro e ficou encantada com a força da produção no sertão. A visita à propriedade de Lindomar agregou ainda mais conhecimentos para a agricultora, que também já observa os benefícios da cobertura do solo e ficou muito interessada nos insumos usados em Irecê. “Meu desafio ainda é a produção da cebola, mas vou insistir e experimentar, até encontrar o jeito certo”, afirma a agricultora. Ela já comercializava alimentos na feira, mas não tinha certificação. “Quando a gente ia vender, falava que era orgânico. E o consumidor falava: prova. Então o selo veio pra isso, pra provar pro consumidor. E também oferecemos as visitas”. Apesar de não usar agrotóxicos, Thaís ainda utilizava adubos químicos na produção. “Mas quando a Adriana [ técnica da Secretaria de Agricultura ] veio aqui pra fazer a transição, eu não tive dúvida. Porque quero que meus netos comam saudável e tenha ganhado isso de mim. Que eles digam: minha vó plantava orgânico!”, conta a agricultora. Como parte de sua transição, ela passou a produzir seus próprios adubos: “Lá em casa sou eu que adubo. Eu faço compostagem, faço meu biofertilizante. Eu que adubo”, afirma a agricultora, batendo no peito. E Thaís quer mais: “Eu ainda peco porque não fiz uma análise de solo. Também tenho vontade de levar meus produtos num laboratório, pra ver que tá livre de tudo. Mas ainda não tenho recursos pra isso. Mas quero fazer um banner, quero mais! Cada vez mais diversidade. Porque pra mim não adianta comprar o alface comigo e o resto dos alimentos virem do mercado, envenenados”.

Representantes de organizações de Alagoas, Rio Grande do Norte, Minas Gerais e Maranhão também participaram do evento, através do apoio da Inter-American Foundation. Walter dos Santos, da comunidade quilombola Piqui da Rampa, no Maranhão, veio através da Caritas Maranhão, apoiada pela IAF. Ele conta que “vejo que aqui a turma sofre uma pressão tão grande, que busca o conhecimento. Fiquei muito feliz com a oportunidade de vir aqui e trocar esses conhecimentos, quero levar de volta pra minha comunidade”. A agricultora e guardiã de sementes Ana Maria da Silva Gomes, do Rio Grande do Norte, foi mobilizada pela Comissão Pastoral da Terra e garante que “vou levar uma carrada de sabedoria de volta para as minhas companheiras do assentamento”.

CCA de Portas Abertas traz a comunidade para dentro da universidade

Sábado, 29 de junho, foi dia de balbúrdia no Centro de Ciências Agrárias da Universidade Federal de Santa Catarina. Cerca de 600 pessoas passaram pelo centro de ensino no bairro Itacorubi, em Florianópolis, para prestigiar a primeira edição do CCA de Portas Abertas. Além de oficinas, minicursos, mostras científicas e visitação, o evento trouxe para a universidade uma feira agroecológica com produtos de famílias da Rede Ecovida, assentados da Reforma Agrária e da Comunidade Guarani Mbya de Major Gercino.

“Esse é o tipo de balbúrdia que nós temos que fazer, é a melhor forma de mostrar o que é feito dentro da universidade”, disse o pró-reitor de extensão da UFSC, Rogério Cid Bastos, durante a abertura do evento. Esse foi o objetivo do CCA de Portas Abertas: trazer a comunidade para dentro da universidade e apresentar as pesquisas, projetos e experiências que são realizadas. 

Durante a abertura também estavam o diretor do CCA, Walter Quadros Seiffert, o vereador egresso do curso de Agronomia, Marcos José de Abreu “Marquito”, além da professora do departamento de Zootecnia, Procássia Maria Lacerda Barbosa e a servidora da direção do CCA, Aline Cardozo Pereira que estavam na comissão organizadora. Todos eles/as frisaram a importância de dar continuidade ao evento, que tem a proposta de acontecer uma vez por semestre.

Foram mais de 40 atividades, entre elas contação de histórias, curso de comportamento e bem-estar de cães, oficina de hortas em pequenos espaços para crianças, visitas guiadas à Horta Orgânica do CCA, atividades culturais e uma oficina de compostagem organizada pelo Cepagro. Para as atividades do curso de Ciência e Tecnologia de Alimentos faltou mãos e tempo para dar conta da presença de tantas crianças interessadas.

“O que mais chamou a atenção foi a quantidade de famílias. Vieram muitas famílias com crianças, foi lindo. Tinha crianças que nunca tinham entrado no CCA e adultos que achavam que era um parque. Cumpriu mesmo o objetivo de abrir o CCA para o pessoal conhecer, e conhecer até os cursos”, comemora Aline Cardozo Pereira. Ela conta que, apesar das incertezas para esta primeira edição, o evento foi organizado com muita união. Houve o envolvimento de servidores, da direção do centro, de professores e o apoio do Cepagro na organização da feira, estrutura e divulgação do evento.

Mara Virginia Galvan, que é técnica em enfermagem e cursa Nutrição na UFSC, fez questão de comparecer com o filho ao evento. Ela aproveitou a oficina de compostagem para introduzir o tema a ele: “Me interessa bastante esse tema de fazer a compostagem e de nutrir o próprio alimento, porque hoje em dia a gente come mas não sabe se o alimento que tu come tem realmente os nutriente necessários. Eu achei a oficina superinteressante e bem informativa”.

Muitos voltaram para casa com mudas de flores nas mãos. Os/as alunos/as das disciplinas de paisagismo e floricultura do curso de Agronomia decidiram distribuir para a comunidade as mudas produzidas ao longo do semestre. Para o professor destas disciplinas, Enio Luiz Pedrotti, a intenção foi “mostrar para a comunidade como a universidade pode trabalhar de uma forma bem organizada e em contato com a comunidade, ao contrário do que tenta dizer o nosso governo de que a universidade é uma balbúrdia e que ninguém faz nada na universidade. A gente está mostrando o pouquinho que a gente sabe fazer e a gente sabe fazer muito mais coisas”, disse Enio.

O CCA de Portas Abertas foi uma oportunidade tanto para a comunidade externa se aproximar do espaço universitário, quanto para os estudantes reafirmarem o conhecimento que estão produzindo. Ao lado dos agricultores agroecológicos, os graduandos em Agronomia, Gustavo Abad e Teresa Marcon, estavam presentes na feira agroecológica comercializando pela primeira vez os alimentos cultivados na Fazenda Experimental da Ressacada através do projeto de Sistema Agroflorestal, do Laboratório de Ecologia Aplicada (LEAp)

Gustavo e Teresa falaram da importância do contato entre consumidor e agricultor na feira e do evento abrir as portas para as experiências universitárias. “Esse espaço é bem importante porque é aqui que a gente vai mostrar pras pessoas como a gente pode produzir de uma forma diferente”, disse Teresa Marcon.

O evento, por fim, ganhou menção honrosa no Conselho Universitário da UFSC (CUn). Na avaliação da professora Procássia Maria Lacerda Barbosa, o primeiro CCA de Portas Abertas foi além das expectativas: “o que mais me impressionou foi o número de público realmente interessado em absorver algum conhecimento, ou seja, a Universidade sempre vai passar isso para a sociedade, “O lugar onde se gera o conhecimento”. O desejo para as próximas edições é que haja ainda mais envolvimento da comunidade universitária do CCA.

Horta escolar rural ganha cara nova com práticas agroecológicas

Compostagem, plantas companheiras e sazonalidade foram temas trabalhados com os/as estudantes da escola Tercílio Bastos, de Major Gercino, na última sexta-feira, 28 de junho. Mais uma vez o técnico de campo Henrique Martini Romano esteve na comunidade do Pinheiral, onde o Cepagro vem realizando atividades de educação ambiental através do projeto Iniciativas socioambientais e educativas em comunidades rurais, apoiado pelo Instituto das Irmãs da Santa Cruz. 

A escola já possui uma horta com 36 canteiros e, durante o último encontro, Henrique perguntou às turmas que plantas elas gostariam de semear ali, além das que já vinham cultivando com as atividades do programa Mais Educação. Respeitando o calendário agrícola, Henrique selecionou algumas espécies da lista e planejou o plantio junto com os/as alunos/as. É dessa forma, com base na educação popular, que o Cepagro trabalha a educação agroecológica: “A gente dá bastante voz para os estudantes, propõe e escuta o que eles querem fazer”, conta Henrique.

A proposta de Henrique para as turmas dos sexto, sétimo e oitavo anos foi pensar os canteiros sob um dos princípios da Agroecologia: o consórcio de plantas, característica que auxilia no controle de pragas sem o uso de veneno. A ideia foi mostrar para eles/as que “a horta é um ecossistema, e que lá existem muitas relações e interações ecológicas entre as plantas, os animais e entre o meio físico, como o solo que tem ali”, disse Henrique. Em cada canteiro, plantas companheiras foram semeadas lado a lado em diferentes desenhos, pensados pelos/as próprios/as estudantes. 

Além de colorir e diversificar os canteiros com alimentos, temperos e flores, os/as alunos/as também aprenderam como funciona uma minhocasa. Com parte do composto doado pelo Hotel SESC Cacupé de Florianópolis, a turma do sexto ano montou uma composteira para entender como os restos de alimento são transformados em adubo para a horta. Eles/as também se divertiram tirando fotos das atividades.

O professor Izair Knaul, que leciona ciências, acompanhou as turmas durante a prática e contou que as atividades na horta colaboram muito com os aprendizados em sala de aula. O oitavo ano, por exemplo, estuda o corpo humano e a alimentação saudável e nutrição são  temas que aliam o conteúdo programado na disciplina com as práticas na horta.

Muitos aprendizados podem ser obtidos fazendo a relação com as disciplinas, mas para Henrique esse não é o principal objetivo da horta. “O objetivo maior com eles é criar um espaço de vida e de trabalho coletivo onde eles vão se relacionar de uma forma diferente do que eles se relacionam dentro da sala. A horta cria uma relação diferente entre eles e a terra, sutilmente a gente vai criando uma relação de mais amor e respeito com a natureza. Essa é a principal contribuição que a horta escolar tem para a educação e para a sociedade”, conta Henrique.

As atividades da horta pedagógica na Escola Tercílio Bastos seguirão até o final do ano letivo trabalhando 3 eixos centrais: gestão de resíduos, horta agroecológica e alimentação saudável, sempre buscando aliar o calendário agrícola com o calendário escolar.