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Agricultura Familiar da região sul busca alternativas para compensar queda na comercialização devido à pandemia

Foto: Comunicação Cepagro

Não é novidade que a agricultura familiar é responsável por produzir 70% dos alimentos que vão para a mesa da população brasileira. Não há pandemia que substitua a importância dos trabalhadores e trabalhadoras rurais no abastecimento alimentar das cidades, muito pelo contrário, a necessidade de consumir alimentos diversos e saudáveis é ainda mais evidente agora. No entanto, o fechamento de escolas, feiras e restaurantes, combinado ao enfraquecimento das políticas públicas de Segurança Alimentar, têm afetado a comercialização desse setor e consequentemente, a garantia de renda no campo e o abastecimento das cidades.

Na região sul do Brasil, à crise da Covid-19, soma-se um período de estiagem que também tem afetado a produção da agricultura familiar. Nesse novo contexto, as famílias agricultoras buscam alternativas para dar destino à sua produção e garantir a renda no fim do mês. Uma das opções encontradas por algumas delas, foi a comercialização de cestas de alimentos diretamente para o consumidor final, em diferentes modalidades.

Foto: ASPTA Agroecologia

É o caso da Cooperativa de Famílias de Agricultores Ecológicos de São Mateus do Sul (COFAECO), no Paraná, que para comercializar os produtos que antes eram adquiridos diretamente na loja física da cooperativa, aprimorou o uso das tecnologias sociais para receber pedidos por encomenda. Houve um expressivo crescimento na demanda  nos últimos dois meses, após a chegada da pandemia no país. Em março, foram comercializadas, em média, 25 cestas por semana. Já nas duas últimas semanas de maio, mais de 60 cestas foram entregues entre produtos in natura e beneficiados.

Foto: Centro Vianei

Em Lages, na Serra Catarinense, apenas uma feira de produtores agroecológicos e da agricultura familiar está em funcionamento. Se deparando com uma queda no movimento em relação aos meses anteriores e a ausência de medidas efetivas do poder público, foi preciso buscar outros caminhos de comercialização. A alternativa de alguns/as agricultores/as foi entregar parte da produção para a Cooperativa Ecoserra, que além de fornecer para o exército através do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), na modalidade de Compra Institucional, também faz a distribuição de cestas agroecológicas em Lages e Florianópolis.

Essa prática de delivery de cestas agroecológicas foi adotada também por famílias do Rio Grande do Sul, onde municípios como Passo Fundo seguem com decreto de suspensão das feiras. Segundo Cíntia Gris, nutricionista do Centro de Tecnologias Alternativas Populares (CETAP), que atua na região,  apesar de ser uma iniciativa fundamental para o momento, é preciso aumentar a quantidade de entregas, que ainda tem um consumo inferior ao das feiras. “Estimamos que o volume comercializado atualmente significa 40% da comercialização antes exercida”, afirma Cíntia.

Gilmar Cognacco, agricultor agroecológico. Foto: Comunicação Cepagro

Já em Florianópolis, as feiras estão funcionando com restrições sanitárias, porém o movimento também caiu, segundo Gilmar Cognacco, agricultor agroecológico de Leoberto Leal, Mesorregião da Grande Florianópolis. Além de abastecer uma feira na capital catarinense, Gilmar também comercializa no município de Brusque e conta que o movimento diminuiu de 30% a 60% com relação aos meses anteriores à pandemia. 

E as feiras são apenas um dos aspectos

Outra mudança que tem afetado bastante muitas famílias da região sul foi a interrupção do abastecimento escolar através do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE). Em alguns municípios, com a suspensão das aulas, suspendeu-se também a compra de alimentos da agricultura familiar, que no caso de Gilmar Cognacco, representava 60% da renda de sua família.

No dia 7 de abril, o Governo Federal sancionou a Lei n° 13.987, que autoriza, em caráter excepcional, a distribuição de alimentos adquiridos com recursos do PNAE aos responsáveis dos estudantes das escolas públicas de educação básica. Após essa sanção, o governo municipal de Florianópolis fez a distribuição dos alimentos que estavam estocados nas escolas, no formato de kits montados pelas diretoras e nutricionistas, à famílias de estudantes identificadas com maior insegurança alimentar. Entretanto, ao abrir um edital para a compra de novos kits, não foram incluídos os alimentos in natura, como frutas e vegetais. A Secretaria de Educação disse que pretende posteriormente incluir os gêneros alimentícios  da agricultura familiar.

Nas escolas municipais de Passo Fundo, os alimentos que estavam destinados para a alimentação dos meses de março e abril também foram distribuídos à famílias de estudantes através dos Centros de Referência em Assistência Social (CRAS), mas nem todos os estudantes de baixa renda foram atendidos, havendo reclamações e a necessidade de ajustes neste sentido. O município vinha realizando compras da Agricultura Familiar acima do mínimo de 30% determinado pelo PNAE, mas desde a suspensão das aulas, não foram realizadas novas compras da Agricultura Familiar.

Agricultor agroecológico de Campo Belo, Lucas Francisco Goulart e família. Foto: Centro Vianei

Na região serrana de Santa Catarina a situação foi a mesma e o agricultor Lucas Francisco Goulart, de Campo Belo, que fornecia à escolas via PNAE, deixou de entregar pelo menos cinco variedades de alimentos frescos que já estavam licitados. Assim como Neura Grando dos Santos, agricultora agroecológica do município de Lagoa Vermelha (RS), que também ficou sem fornecer via PNAE. Por outro lado, segue fazendo feira e notou um aumento na venda online dos seus produtos.

No Paraná, a nível de estado, o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) foi interrompido durantes quinze dias após a paralisação das aulas, sendo normalizado na sequência. É uma importante fonte de renda para muitas famílias agricultoras da região, bem como para muitos estudantes que têm a alimentação escolar como única refeição diária. As organizações da agricultura familiar realizam as entregas quinzenalmente nas escolas, onde são preparados  as cestas destes alimentos e distribuídos as famílias de estudantes em vulnerabilidades. 

Sociedade civil fora da jogada

Foto: Luiza Damigo – Comunicação ASPTA Agroecologia

Em abril, o governo do Paraná anunciou também recursos para o Programa de Aquisição de Alimentos da Agricultura Familiar (PAA), em caráter emergencial, na modalidade de compra e doação simultânea, destinando os alimentos oriundos da agricultura familiar à pessoas em risco social. No entanto, a proposta não foi debatida com a sociedade civil e organizações da agricultura familiar. “O diálogo é importante para observar as demandas, perspectivas e desafios enfrentados no campo. O aporte emergencial do estado, no valor de R$20 milhões, é insuficiente para atender as necessidades tanto de famílias agricultoras quanto das pessoas beneficiadas com os alimentos”, de acordo com Fábio Pereira, assessor técnico da AS-PTA.

A agricultora paranaense Maria Terezinha Oliveira, da Comunidade da Invernada, zona rural de Rio Azul, é uma das que fornece ao PAA. Para complementar a renda, ela também comercializa leite, ovos, panificados e a colheita de seu quintal produtivo diretamente em sua casa, que está sempre com as portas abertas – agora com algumas medidas de precaução devido a Covid-19. “Como aqui é uma região com muita plantação de fumo, as pessoas acabam não conseguindo plantar comida para o próprio sustento, às vezes até por falta de tempo. E me procuram seja para uma cuca, biscoito, verduras, sabendo que vão levar um alimento saudável. O que sinto falta é de tomar um chimarrão com minhas comadres, mas é preciso tomar cuidado”. 

Em Santa Catarina, a situação foi parecida. O governo estadual anunciou a liberação de R$ 2 milhões de reais para o PAA, na modalidade de compra institucional. Mas a proposta foi construída sem a participação do Conselho de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea/SC), por meio do qual a sociedade civil apresenta suas demandas de SAN. Além do baixo valor anunciado, a proposta do governo coloca como prioritário os municípios com IDH abaixo de 0.7 para acesso ao programa, o que não revela onde estão de fato os grandes bolsões de insegurança alimentar.

Em contraste, o Consea/SC elaborou outra proposta demonstrando que o repasse precisa ser de R$ 23,2 milhões na modalidade de Compra com Doação Simultânea. O valor foi definido com base em um estudo elaborado pelo próprio conselho sobre a realidade socioeconômica de Santa Catarina.

Nesse sentido, a presença ativa das organizações da Agricultura Familiar e Agroecológica em conselhos de SAN, como os Conseas e Conselhos de Alimentação Escolar (CAE), municipais e estaduais, são extremamente importantes para pautar e cobrar ações do poder público. É essa atuação que o Centro de Tecnologias Alternativas Populares (CETAP), do Rio Grande do Sul, a AS-PTA – Agroecologia e Agricultura Familiar, no Paraná e as organizações catarinenses, Centro de Estudos e Promoção da Agricultura de Grupo (Cepagro) e Centro Vianei promovem conjuntamente através do projeto Misereor em Rede, que tem como objetivo promover a soberania alimentar e a Agroecologia no sul do Brasil.

E se essas ações de incidência política são importantes, nossas escolhas de consumo também são. Devemos, enquanto consumidores e dentro da realidade e possibilidade de cada um/a, apoiar a agricultura familiar agroecológica consumindo alimentos diretamente do/a produtor/a. Se puder, compre de quem produz perto de você, afinal, comer é um ato político.

Organizações latino americanas de apoio à agricultura orgânica e agroecológica respondem à pandemia

Desde que foi anunciada pela Organização Mundial da Saúde, em 11 de março, a pandemia do novo coronavírus impõe muitos desafios a pessoas, governos e organizações. A necessidade do isolamento social como a medida mais urgente aumentou a vulnerabilidade de populações rurais e urbanas e a aproximação entre campo e cidade desponta como uma estratégia ao combate à insegurança alimentar e nutricional.

No meio rural, agricultores/as familiares foram fortemente impactados/as pela redução dos canais de comercialização, com o fechamento de feiras, escolas e restaurantes. Nas cidades, o aumento do desemprego soma-se a uma realidade onde a taxa de trabalho informal já é alta, agravando a pobreza e a fome. De um total de 292 milhões de pessoas empregadas na América Latina e no Caribe, 158 milhões trabalham em condições de informalidade, ou seja, uma média de 54%*, conforme dados da Organização Internacional do Trabalho (OIT).

Foto: Centro Campesino de Desarollo Sustentable

Nesse contexto, e agora que a América Latina é o novo epicentro da pandemia de COVID-19, as organizações de apoio à agricultura orgânica e agroecológica se tornam ainda mais importantes e se adaptam para garantir a Segurança Alimentar e Nutricional (SAN) no campo e na cidade. No Brasil, Paraguai, Equador, Peru, El Salvador e México, sete organizações parceiras do Cepagro no projeto Saberes na Prática em Rede, apoiado pela Fundação Inter Americana, respondem de maneira parecida à nova realidade imposta.

Rosa Murillo, agricultora e dinamizadora de meSSe.

Da região central do México ao sul do Brasil, a venda de cestas de alimentos orgânicos e agroecológicos tem sido uma alternativa para o escoamento da produção e abastecimento alimentar das cidades. No Equador, por exemplo, essa modalidade de comercialização passou a ser difundida nacionalmente, quase que de forma prioritária, segundo Rosa Murillo, agricultora e dinamizadora do Movimiento de Economía Social y Solidaria del Equador (meSSe).

No Rio Grande do Sul, alguns/as agricultores/as familiares apoiados/as pelo Centro de Tecnologias Alternativas Populares (CETAP)  também aderiram à venda de cestas. No entanto, como pontua a nutricionista do CETAP, Cíntia Gris, apesar de ser uma iniciativa fundamental para o momento, tanto para garantir a chegada de alimentos ecológicos à cidade quanto a renda de muitas famílias de agricultores, “o volume comercializado é inferior ao comercializado nas feiras. Estimamos que o volume comercializado atualmente significa 40 % da comercialização antes exercida”.

Foto: Asociación Paraguay Orgánico

Já a Asociación Paraguay Orgánico (APRO) viu a demanda por cestas orgânicas disparar desde o Decreto Presidencial que instaurou a quarentena e o fechamento de todas as feiras e restaurantes no Paraguai. Para Genaro Ferreira, secretário da APRO, “o desafio agora é melhorar a logística das entregas das cestas e a implementação de novo sistema virtual para ser mais eficiente”. Afinal, se essa modalidade de venda direta tem sido estratégica e importante, por aproximar produtores/as e consumidores/as, traz também novos desafios. 

O acesso à internet, às tecnologias e ao conhecimento tecnológico são alguns deles. No México, onde o Centro Campesino de Desarollo Sustentable e a Rede Tijtoca Nemiliztli atuam, as famílias agricultoras aderiram a venda de cestas através do Facebook e Whatsapp. Nesse ponto, o apoio dos/as mais jovens tem sido fundamental, pois possuem mais facilidade com as comunicações digitais.

Já na Bahia, a maior dificuldade dos agricultores agroecológicos da Rede Povos da Mata tem sido o transporte para abastecer os centros urbanos. Como 90% das feiras da Rede seguem suspensas desde o início da quarentena, o Movimento Mecenas da Vida, que atua na região, têm buscado apoios específicos para promover ações emergenciais de segurança alimentar, através da compra de alimentos desses produtores e entrega de cestas a famílias vulneráveis. Essa também tem sido uma prática do CETAP e, juntas, as duas organizações já distribuíram pelo menos 2.380 cestas agroecológicas, graças a projetos específicos.

Foto: Centro de Tecnologias Alternativas Populares

Essa resposta emergencial das ONGs acaba sendo um alívio para muitas famílias, principalmente quando o Estado se ausenta em garantir os direitos mais básicos dos/as cidadãos/as. No Equador, assim como no Brasil, o governo federal tem respondido à crise sanitária e econômica com “medidas drásticas que acentuam ainda mais a crise das famílias equatorianas e o  apoio aos agricultores foi quase nulo”, segundo Rosa Murillo. 

Para responder a essa ausência do Estado, o meSSe vem apostando nas práticas de economia solidária que já são praticadas nos territórios onde está presente. Trocas de alimentos entre amigos, vizinhos e comunidades, moedas sociais e circuitos interculturais solidários são algumas das ações que têm sido fortalecidas pelo movimento.

Tanto o Movimento de Economia Solidária, quanto o Movimento Agroecológico, com sua visão holística e integradora, tem muito a contribuir no combate às crises contemporâneas e nos processos de ampliação da democracia e participação social. Em El Salvador, a Fundación para el Desarrollo Socioeconómico y Restauración Ambiental (Fundesyram) tem percebido que o Sistema de Extensão Comunitária, metodologia de trabalho usada pela organização, está sendo essencial no apoio às famílias agricultoras.

 Através desse sistema de extensão rural, a Fundesyram impulsiona a Agroecologia combinando os conhecimentos técnicos que a organização desenvolve, com as práticas e conhecimentos locais, de forma horizontal e participativa. Técnicos/as da Fundesyram se comunicam com extensionistas das próprias comunidades, que por sua vez compartilham as informações e conhecimentos com seu grupo de produtores.

Se antes essa metodologia já era eficiente, por promover a autonomia e educação das comunidades de forma horizontal, agora que os técnicos da Fundesyram não podem estar presente nas comunidades por questões de segurança sanitária, esse sistema se torna ainda mais importante. Para Roberto Rodríguez, diretor da Fundesyram, como esses extensionistas comunitários residem e estão sempre dentro das comunidades, conseguem fazer um acompanhamento mais próximo das famílias, “o sistema de extensão comunitária é fundamental para o desenvolvimento sustentável, é a garantia da continuidade das ações do projeto e do apoio técnico e emocional dos produtores”, afirma Roberto.

Se por um lado esse fortalecimento nos territórios é essencial, o diálogo entre sociedade civil e poder público também é de extrema importância. É nesse sentido que o Cepagro participa historicamente em espaços de construção de políticas públicas de SAN e de fortalecimento da Agroecologia, com presença ativa em fóruns, conselhos, redes e articulações. Há anos esses espaços de organização da sociedade civil têm atuado na defesa do Direito Humano à Alimentação Adequada e de SAN e com as mudanças que enfrentamos mundialmente, novas demandas sociais precisam e estão sendo apresentadas.

“Já vínhamos enfrentando o desmantelamento destas mesmas conquistas desde que o governo atual não colocou o tema nas suas pautas prioritárias.  Com o advento da pandemia isso apenas se acirrou e faz com que a sociedade civil além de enfrentar a pandemia, enfrente o descaso e o desconhecimento de práticas como o Programa de Aquisição de Alimentos, Programa Nacional de Alimentação Escolar e tantas políticas que poderiam neste momento atender as duas pontas, agricultores e comunidades vulneráveis”, explica Erika Sagae, coordenadora do Projeto Saberes na Prática em Rede. Para ela, a participação do Cepagro nesses espaços não tem compromisso apenas com os impactos da realidade atual, “mas também com projeções de soluções futuras pós pandemia”, 

A pandemia da COVID-19 nos revela a natureza sistêmica do nosso mundo e nos convida forçadamente a repensar nosso modo de desenvolvimento e a forma como nos relacionamos com a natureza. As organizações de apoio à agricultura orgânica e agroecológica estão atentas à isso e são unânimes em reafirmar a necessidade de fortalecer as relações entre o campo e a cidade. E enquanto reorganizam o seu planejamento de atividades, vislumbram ações estratégicas à longo prazo.

Foto: Movimiento de Economía Social y Solidaria del Equador (meSSe)

Para Rosa Murillo, nesse momento é especialmente importante “evidenciar a produção agroecológica e a agricultura familiar camponesa, participando de eventos virtuais como conferências, palestras, vídeos e maratonas de agroecologia”, além de “continuar trabalhando sob os princípios de cosmovisão andina: minga (mutirão), reciprocidade, respeito à natureza e promoção da troca”.

Foto: Centro Campesino de Desarollo Sustentable

Victor Hugo Morales, do Centro Campesino, aponta que essa crise “nos faz refletir sobre como fortalecer o vínculo com os consumidores para que os/as agricultores/as sejam vistos como parte importante da cadeia produtiva e da mesma forma, criar circuitos curtos de comercialização que priorizem a Agroecologia e o impacto da pegada ambiental”.

A Agroecologia é resiliência e para Tiago Tombini, um dos fundadores do Mecenas da Vida, essa característica traz otimismo para encarar o futuro. “Acreditamos que essa crise não afetará negativamente nossa Instituição. Pelo contrário, vai nos trazer novos estímulos e oportunidades para criarmos soluções e contornarmos os problemas. O fato de trabalharmos com temas de importância global, tais como mudanças climáticas, economia regenerativa e colaborativa e empoderamento socioeconômico de grupos sociais vulneráveis, nos faz crer que conseguiremos acessar novos apoios institucionais, nos fortalecer e superar as adversidades momentâneas e aquelas que poderão surgir durante a extensão desta crise”.

E se cada organização atua conforme o contexto local, a troca entre essas experiências através de uma rede latino americana de agroecologia só vem fortalecer ainda mais essa atuação. É isso o que o projeto do Cepagro Saberes na Prática em Rede, que tem o apoio Fundação Inter Americana,  representa e por isso ele é importante.

Registro da última reunião das organizações parceiras no Projeto Saberes na Prática em Rede.

*nota informativa global sobre “A crise da COVID-19 e o emprego informal”, publicada esta semana pela OIT.

Cepagro vai a El Salvador debater construção de indicadores para a Agroecologia

Bem estar social, respeito às relações de trabalho e de gênero, sustentabilidade financeira e ambiental. A Agroecologia traz consigo esses e outros  princípios e, por esse motivo, medir o seu avanço não é tarefa fácil. E foi com o objetivo de pensar soluções coletivas para esse desafio que a Vice-Presidenta do Cepagro Erika Sagae e a técnica de campo Isadora Escosteguy estiveram em El Salvador reunidas com representantes da Universidade de British Columbia (Canadá), da Fundação Inter Americana (IAF) e de outras seis organizações que promovem a Agroecologia no Paraguay, Equador, México, Brasil, Honduras e El Salvador.

A reunião aconteceu no dia 14 de janeiro, na capital San Salvador e foi a segunda oficina de indicadores facilitada pela professora canadense Hannah Wittman, da UBC, com as organizações que compõem o Comitê Gestor do projeto Saberes na Prática em Rede, apoiado pela IAF. Uma primeira conversa presencial já havia sido realizada em 2018, em Florianópolis, quando Hannah fez um levantamento dos tipos de indicadores – Econômicos, Sociais e Ambientais – que as organizações consideravam mais importantes.

De lá pra cá houve muito diálogo e o desenvolvimento de um aplicativo para tornar possível a coleta de informações que visam medir os mais diversos indicadores que abrangem o que chamamos de Agroecologia. “O desafio é criar um modelo para avaliar todos os âmbitos da Agroecologia, que é uma ciência, é um modelo de produção de alimentos e é um movimento social”, como afirmou Hannah, que trabalhará na sistematização dos dados junto aos pesquisadores e pesquisadoras na UBC.

Hannah deu início à atividade explicando o contexto em que o aplicativo, batizado de LiteFarm, foi desenvolvido e questionou: “Como a revolução digital serve para a soberania alimentar?”.

Para as organizações presentes, o aplicativo, ainda em fase de aprimoramento e testes, e os dados que poderão ser gerados serão importantes para mensurar o impacto social que a Agroecologia vem proporcionando, para contribuir na comercialização, para incidir em políticas públicas e pensar em programas e projetos. Também para responder questionamentos e convencer as pessoas dos benefícios da Agroecologia, além de compreender onde ainda é preciso avançar.

Para Victor Hugo Morales, do Centro Campesino de Desarollo Sustentable (México), os indicadores também serão importantes no trabalho de extensão rural junto a agricultores em transição agroecológica. “Quando o agrônomo chegar, ele vai poder dizer que no primeiro ano não vai haver o mesmo rendimento de antes, mas que a partir do segundo ano sim. Vai conseguir mostrar que há melhoria na qualidade de vida com evidências científicas, vai mostrar que o agricultor vai precisar investir menos ao longo do tempo”, disse Victor.

Já Juan Ruiz, técnico da Fundesyram (El Salvador), trouxe um outro olhar: “Quando apresentamos projetos, alguns financiadores nos pedem por indicadores e as vezes esses dados nos faltam. Então os indicadores nos ajudariam na captação de projetos”.  Roberto Rodríguez, diretor da Fundesyram, acredita que o aplicativo pode ser um atrativo para os jovens do campo. “Em El Salvador vemos que os jovens estudaram mais que os pais e por isso estão mais abertos para uma agricultura mais saudável. Eles tentam uma vida melhor na cidade mas já não encontram e vêem na Agroecologia uma forma de vida mais saudável, um trabalho com melhores condições de vida. Vemos muito futuro nos jovens”, disse Roberto.

O objetivo a médio prazo é que aplicativo seja justamente uma ferramenta de uso dos/as próprios/as agricultores/as, onde eles/as possam alimentar e acompanhar os dados gerados por eles/as mesmos/as. Como bem apontou a professora Hannah, hoje, a captação de dados online serve principalmente às multinacionais. A fim de auxiliar as famílias no seu planejamento e gestão da propriedade, o LiteFarm irá na contramão disso.

Zia Mehrabi, pesquisador da UBC, também esteve presente na atividade e explicou que “a ideia é ter informações em nível local para depois levar à escala maior”. Zia explicou que para atender às diversidades de valores e culturas locais, o desenvolvimento do aplicativo partiu de uma pesquisa com 77 agricultores/as canadenses. No processo, foram realizadas três oficinas de design onde os/as agricultores/as desenharam soluções digitais que lhes seriam úteis.

A atividade em El Salvador junto às organizações latino americanas representou uma continuidade do desenvolvimento do aplicativo, que deve levar em conta a realidade dos países do Hemisfério Sul. O acesso à internet, por exemplo, é um dos aspecto ainda muito desiguais à nível global. A fim de debater e aprofundar outros pontos que ainda precisam ser melhor trabalhados no aplicativo, os representantes dos cinco países se dividiram em grupos de trabalho. Alguns dos levantamentos apontados pelo coletivo foram a necessidade de incluir indicadores de gênero, de trocas não monetárias dos alimentos e de saberes ancestrais.

A construção dos indicadores de Agroecologia foi um dos temas incorporados no projeto do Cepagro apoiado pela IAF. Ao longo dos próximos meses, os técnicos de campo do Cepagro, Chales Lamb e Isadora Escosteguy, irão utilizar o aplicativo junto a 15 famílias da região de abrangência do Cepagro, testando-o em campo e já alimentando a base de dados. Erika Sagae, coordenadora do projeto Saberes na Prática em Rede, ressalta o interesse do Cepagro em seguir construindo os indicadores de Agroecologia para “fortalecer e demonstrar os avanços que a Agroecologia vem tendo, com o apoio inclusive dessas organizações de cooperação que vem apostando no tema da Agroecologia no Brasil e também perceber as questões que precisam ser melhoradas”.

Ao longo do  projeto, ainda serão realizados outros momentos presenciais de aprendizado, buscando construir avanços na pesquisa de indicadores que fortalecerão o papel da Agroecologia tanto na academia quanto na construção de políticas públicas de apoio a esta ciência, prática e movimento.

 

Seminário apresenta experiências de Agroecologia no município de Major Gercino

Ao longo de 2019, o município de Major Gercino recebeu diversas ações voltada para a promoção e valorização da Agroecologia. Foram atividades realizadas pelo Cepagro através do projeto Iniciativas Sócio-Ambientais e Educativas em comunidades rurais, apoiado pelo Instituto das Irmãs da Santa Cruz, que tiveram como foco as famílias agricultoras do Grupo Associada da Rede Ecovida de Agroecologia. Agora chegou a hora de compartilhar com toda a comunidade do município um pouco do que foi realizado ao longo deste ano no Seminário Caminhos Agroecológicos: alimentos saudáveis nas escolas e comunidades.

Durante o evento, que acontecerá na Escola Professor Tercílio Bastos nesta sexta-feira, 6 de dezembro, as famílias agricultoras do Grupo Associada da Rede Ecovida irão compartilhar suas experiências com a produção e comercialização de alimentos agroecológicos na região. O coordenador do Grupo Associada, Ernande Stolarczk é um dos convidados e vai falar sobre a experiência do grupo com agroindústria e com o fornecimento de alimentação escolar municipal. Também serão apresentadas experiências com a comercialização dos alimentos agroecológicos através das feiras e das células de consumo.

Outras ações do projeto serão apresentadas na sexta-feira, como a capacitação para a tecnologia social de biodigestão. E além das famílias agricultoras, o projeto teve como foco os alunos e alunas da escola estadual, que irão apresentar o trabalho com as Hortas Escolares no Seminário.

Ao final das falas e apresentações, haverá um café agroecológico com alimentos produzidos na região, da qual todos e todas são convidados a participar. O evento é realizado pelo Cepagro em parceria com a Escola Professor Tercílio Bastos e tem o apoio da Prefeitura de Major Gercino, do Grupo Associada da Rede Ecovida e do Instituto das Irmãs da Santa Cruz.

Serviço:

O que: Seminário Caminhos Agroecológicos: alimentos saudáveis nas escolas e comunidades

Onde: Escola Professor Tercílio Bastos, Rua Geral – Pinheiral, Major Gercino (SC)

Quando: Sexta-feira, 6 de dezembro, às 14h

Cepagro inicia projeto para a implantação da adubação verde junto a Famílias Agricultoras da Rede Ecovida

Nova parceria institucional junto ao Cepagro começa a oportunizar a implantação e ampliação de cultivos de adubos verdes no Núcleo Litoral Catarinense da Rede Ecovida de Agroecologia. Trata-se da The Conservation, Food & Health Foundation, que através de seu Conselho de Curadores selecionou 15 propostas entre mais de 300 apresentadas dos quatro distintos continentes onde as iniciativas são apoiadas.

A proposta do Cepagro em conjunto com a doutoranda Anne Elise Stratton, da Universidade de Michigan (EUA) é voltada para os cultivos de adubação verde, que têm como objetivo fornecer cobertura e nutrientes para o solo e assim reduzir custos e aumentar a produtividade das famílias agricultoras. A proposta teve sua relevância considerada por trazer a perspectiva do trabalho direto com famílias agricultoras dos municípios de Angelina, Leoberto Leal, Major Gercino, Nova Trento e Santa Rosa de Lima. O projeto também inclui famílias fumicultoras que buscam alternativas ao cultivo do tabaco.

Ao estar sendo fundamentado por pesquisa de doutorado diretamente aplicada a campo, o projeto une extensão rural e pesquisa acadêmica em sintonia com a realidade das famílias agricultoras. Na prática, a adubação verde tem mostrado como manejos adequados resultam em economia, boa saúde para quem trabalha e consome alimentos destas terras e principalmente geram autonomia perante as grandes corporações fabricantes de agroquímicos, além de fortalecer os grupos de base.

O coordenador de desenvolvimento rural do Cepagro, Charles Lamb, conta que esta demanda de trabalho vem sendo identificada já de alguns anos. Por isso, “está tendo uma ótima adesão das famílias participantes, principalmente por trazer inovação no acesso a este tipo de cultura agrícola ainda pouco disseminada na região. Tanto pela falta de sementes, como por carência de orientação e capacitação, ‘insumos’ que se tornam determinantes para o estabelecimento desta importante prática conservacionista de solos e mananciais”.

Ainda como objetivos previstos no projeto, destacam-se: A capacitação de um grupo principal de 15 a 20 famílias agricultoras no uso de cobertura vegetal por meio de pesquisa participativa em andamento, o desenvolvimento dessas unidades como “centros de recursos” para culturas de cobertura, com parcelas de demonstração e compartilhamento de sementes e equipamentos, a institucionalização das culturas de cobertura nos planos de manejo da rede de certificação participativa e a realização de saídas de campo nas áreas demonstrativas. 

A The Conservation, Food & Health Foundation, conforme seu site “procura proteger os recursos naturais, melhorar a produção de alimentos e promover a saúde pública na Ásia, África, América Latina e Oriente Médio”. E assim seguimos, promovendo e agradecendo as boas parcerias e conquistas nesses tempos difíceis de negação dos impactos gerados por uma agricultura poluidora e dependente de agroquímicos. No Cepagro, acreditamos que sustentabilidade não é só renda, é água limpa, é solo sadio, é pessoas com saúde espalhando sementes e felicidades.

Da semente aos resíduos: curso de consumidores conscientes encerra ciclo com formação sobre compostagem

Para tornar-se um consumidor responsável, tão importante quanto ter consciência do que se consome, é saber fazer a destinação correta dos resíduos. Foi pensando nisso que o 4º e último módulo do curso ‘Consumo consciente, responsável e agroecologia’ teve como tema a compostagem e a gestão comunitária dos resíduos. Organizada pelo Cepagro, a formação aconteceu entre os dias 28 e 29 de setembro e contou com a participação de cerca de 50 agricultores e consumidores do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.

Num curso voltado para a compostagem e o consumo consciente, é fundamental conhecer experiências práticas que abordam esses temas. Assim, o curso apoiado pela Misereor em Rede iniciou sua programação no sábado de manhã com a visita à duas iniciativas no bairro Campeche: a Destino Certo para Resíduos Orgânicos e a Horta Comunitária e Pedagógica do PACUCA. 

Num terreno com cerca de 1.000 m² numa das esquinas mais movimentadas do bairro – Avenida Campeche com a Rua Pau de Canela – Eduardo Elias, idealizador da Destino Certo, mantém um pátio de compostagem que recebe resíduos orgânicos dos restaurantes e pousadas locais. Eduardo faz a coleta semanal do resíduo orgânico de restaurantes, lojas de produtos naturais, escolas e condomínios do bairro, em dias alternados, trazendo entre 2 e 2,5 toneladas de restos de comida para compostar no pátio. O composto produzido vai para a horta anexa ao pátio, onde ele produz verduras e legumes orgânicos, que voltam para os restaurantes. 

Eduardo também comercializa o composto, fechando um ciclo de produção – consumo – produção de alimentos na cidade – ou, como ele chama, sintropia urbana. “Na lógica da sintropia urbana, nós fechamos os ciclos localmente”, explica Eduardo, que reforça que um dos objetivos da Destino Certo é também gerar consciência ecológica sobre nossos resíduos e estimular a reflexão sobre nossos padrões de consumo. “Queremos construir a noção de que resíduo orgânico é recurso, não é lixo”, afirma. 

Dali, o grupo seguiu para a Horta Comunitária e Pedagógica do PACUCA, instalada em 2015 através de uma intensa luta política e jurídica da comunidade por mais áreas verdes e de convivência no bairro. Numa área altamente visada pela especulação imobiliária, a Horta do PACUCA recebe e composta os resíduos orgânicos de cerca de 200 famílias do bairro, compostando em torno de 100 toneladas de resíduos ao ano, calcula o coordenador da Horta, Ataíde Silva. “A Horta marca a presença da comunidade na cidade, agregando o fator da produção de alimentos”, disse. 

Verduras e legumes do PACUCA chegam a escolas e asilos da comunidade, além de bairros periféricos da Grande Florianópolis, como Brejaru, Monte Cristo e a Ocupação Marielle Franco. A Horta também tem canteiros de plantas medicinais, que frequentemente são compartilhadas com usuários/as do Centro de Saúde do Campeche, que fica ali próximo.

Depois das visitas, o coletivo aprofundou os conhecimentos no tema com a oficina de compostagem facilitada pelo engenheiro agrônomo do Cepagro, Júlio Maestri. Júlio iniciou a oficina contando um pouco sobre a compostagem ao redor do mundo e ao longo da história. De forma sempre lúdica e participativa, ele explicou os processos da compostagem e seus diferentes modelos e dimensões, do âmbito doméstico ao municipal. Com as dúvidas sanadas, os/as cursistas partiram para a prática e juntos/as construíram uma composteira.

E como onde há consumo consciente, há alimentação agroecológica, o sábado terminou com um jantar feito com alimentos locais de agricultores/as agroecológicos/as e orgânicos/as da Rede Ecovida. Teve suco orgânico de Major Gercino, legumes de Leoberto Leal e Biguaçu, queijo, mel e receitas de engenho de Angelina. Além disso, integrantes do próprio grupo trouxeram feijão da serra, arroz do sul além da kombucha feita pelas consumidoras do litoral. Ou seja, na alimentação ofertada durante os dias de formação, consumidores/as e produtores/as estiveram realmente em rede.

E essa é a proposta do curso, que faz parte do projeto ‘Promoção da articulação entre o campo e a cidade em dinâmicas locais e regionais de abastecimento, conjugado com incidência política em soberania e segurança alimentar’ apoiado pela Misereor em Rede. A fim de formar consumidores conscientes e aproximá-los dos agricultores, o curso foi dividido em quatro módulos, planejados pelas organizações que compõem o projeto: AS-PTA, com sede em Palmeira (PR), Vianei, de Lajes (SC), CETAP, de Passo Fundo (RS) e Cepagro, com sede em Florianópolis (SC). 

De maio de 2018 até agora, os cursistas receberam formações sobre o tema das sementes crioulas, de sistemas agroflorestais e extrativismo, passaram pelo abastecimento e comercialização e agora encerram com a destinação dos resíduos orgânicos. Assim, no domingo a programação se voltou para a avaliação do curso. Os grupos presentes compartilharam suas reflexões sobre os aprendizados adquiridos até aqui e sobre os próximos passos para a manutenção dos coletivos formados. Todos eles indicaram que, independente de projetos, enquanto consumidores conscientes, continuarão fazendo formações , encontros e trocas entre si.

Na avaliação de Erika Sagae, que ao lado de Eduardo Rocha representa o Cepagro no projeto da Misereor, além dos aprendizados no sentido do consumo responsável, o curso foi importante enquanto um processo de formação para atuar na incidência política. Com o andamento do curso, a consumidora de Florianópolis Irene Shimomura, por exemplo, passou a fazer parte do Grupo Ilha Meiembipe, da Rede Ecovida. Por conta da sua participação no grupo, hoje, ela é também conselheira no Conselho de Segurança Alimentar e Nutricional de Santa Catarina. Além da Irene, o Ilha Meiembipe também ganhou representação de agricultores no Consea, “o que foi importante porque trouxe a produção primária para dentro do Conselho e para a construção da política municipal de segurança alimentar e nutricional”, conta Eduardo Rocha.

Na avaliação, o grupo do Centro Vianei trouxe principalmente a importância da autoformação e o envolvimento com outros temas. O grupo conta com pessoas de diversas áreas e isso também contribuiu para a formação de cada um. A professora Kauane Pionoski, de São João do Triunfo, faz parte do grupo formado pela AS-PTA e reforçou uma avaliação feita por ela ainda no primeiro módulo ao dizer que se há racismo, homofobia, misoginia e outras práticas de discriminação, não é Agroecologia. Também ficou como avaliação a importância de levar tudo o que gira em torno da Agroecologia à outros grupos e espaços.

Ao final da avaliação coletiva, os participantes receberam os certificados juntamente com um pacote de composto orgânico e uma muda de araucária. Os/as consumidores/as e agricultores/as se despediram com a certeza de um próximo encontro marcado para outubro, como um compromisso entre os grupos para além das instituições. Também ficou definida a participação de quatro cursistas no Encontro Ampliado da Rede Ecovida, em novembro. Eles/as farão uma oficina sobre consumo consciente.

Encontro do Núcleo Litoral Catarinense renova princípios da Rede Ecovida de Agroecologia

“A alma da Rede Ecovida de Agroecologia são seus princípios, não a certificação”. A fala da agricultora Claudete Ponath, de Piçarras (SC), enfatiza que, muito além de emitir certificados de orgânico, a  Rede Ecovida existe porque há confiança, participação, transparência e organização de base entre famílias. Esses e outros princípios foram retomados e renovados durante o 13º Encontro do Núcleo Litoral Catarinense da Rede Ecovida de Agroecologia, realizado em Porto Belo no último final de semana, dias 24 e 25 de agosto de 2019. Mais de 130 pessoas participaram do Encontro, trocando conhecimentos, sementes e muita disposição para seguir trabalhando por uma agricultura limpa e amiga da Natureza.

A conversa sobre os princípios da Rede emerge num contexto em que, a partir do Fórum Brasileiro de Sistemas Participativos de Garantia, torna-se necessário incluir equidade de gênero e geração entre os princípios dos SPGs no país. “Isso significa que precisamos falar sobre Gênero e Geração no nosso Núcleo. Por termos uma coordenação com bastante mulheres ao longo de vários anos, pode parecer que não é preciso falar sobre isso. Mas não é verdade”, avalia Claudete, escolhida também como nova coordenadora do Núcleo, entrando no lugar da agricultora Tânea Mara Follmann, de Águas Mornas.

Troca de conhecimentos nas palestras e oficinas do Encontro
Além de momentos de celebração, os Encontros de Núcleo são espaços de troca e construção de conhecimentos.

A primeira palestra do Encontro foi no sábado 24, com o coordenador da Casa da Semente de Mandirituba (PR), Hans Rinklin. Após abordar o contexto de erosão genética em que vivemos atualmente, perdendo cerca de 10 variedades de sementes TODOS OS DIAS, além do controles de 66% da produção mundial de sementes por apenas 3 multinacionais, Hans apresentou o trabalho da Casa de Sementes e dos grupos de guardiões como uma alternativa para conservar a biodiversidade. “Sem semente, não há possibilidade de vida humana”, disse.

A Casa de Sementes existe desde 2011, articulando grupos de agricultores/as dispostos/as a conservar e multiplicar variedades de sementes crioulas e nativas. Mais do que um banco de armazenamento, a Casa promove também atividades de capacitação e acompanhamento de análises de sementes. Através de uma parceria com a Rede Sementes da Agroecologia, apoia a construção das Festas das Sementes no Paraná, além de realizar incidência política. Fechando a conversa, Hans afirmou: “A conservação das sementes e da agrobiodiversidade não é tarefa só dos/as agricultores/as. É de toda a sociedade, do campo e da cidade”.

Na sequência, os grupos do Núcleo Litoral fizeram sua apresentação.

Tecnologias sustentáveis de produção de hortaliças foi o tema da palestra do agrônomo Euclides Schallenberger, da Epagri de Itajaí.  Ao longo de uma hora com muitas informações, Schallenberger falou sobre propiciar boas condições ambientais para as plantas crescerem saudáveis, além de técnicas de manejo integrado, controle biológico e controle químico para doenças e “pragas” nos cultivos. “Não basta só não usar veneno. Para ter sucesso no cultivo orgânico, é preciso manter a planta em condições ótimas, criando também condições ruins para insetos e bactérias”, disse o agrônomo. Ao final de sua apresentação, Schallenberger falou sobre a nova proposta do ICMS Verde, prorrogada para entrar em vigor só no final de dezembro deste ano e que taxará com ICMS de 17% os agrotóxicos mais perigosos, reduzindo esta alíquota até 0%, no caso de produtos biológicos, permitidos na produção orgânica. “Isso mantém nosso custo de produção baixo, se comparado com o convencional”, disse.

As oficinas, no domingo de manhã, trataram de temas como: preparados biodinâmicos, adubos verdes, plantas alimentícias não convencionais (PANCs), comercialização e organização de consumidores/as e planejamento de produção e gênero.

Pra quem precisava relaxar e se cuidar um pouco, a Oficina Cuidar de Si foi o espaço certo para isso.

 

Trocas e intercâmbios durante o Encontro

Ao longo de todo o evento, a Feira de Saberes e Sabores era o espaço de trocas e conversas em meio à produção agroecológica do Núcleo Litoral Catarinense.

Assim como em anos anteriores, em 2019 o Encontro do Núcleo teve participações externas. Uma delas é dos companheiros da organização Fundesyram, de El Salvador, José Jesús Cordoba e Juan Antônio Ruiz, que vieram a Santa Catarina participar de diversas atividades conjuntas com o Cepagro. Além de trazer um pouco da experiência em Agroecologia do seu país natal, eles compartilharam também sementes, afinal “nosotros los agricultores agroecológicos somos todos hermanos”, disse José Jesus. A Fundesyram é parceira do Cepagro no projeto apoiado pela IAF.

Também participaram neste Encontro a turma da Rede Plantar para a Vida, de Sergipe, que está sendo assessorada por membros do Núcleo Litoral para compor seu SPG. O agricultor e estudante de Agronomia Elvis Valentim Lisboa era um dos membros da comitiva e conta que se sentiu em casa durante o Encontro. “Vimos que temos muita coisa parecida com os/as agricultores/as daqui”, disse. Elvis relata que a Rede surge a partir de uma articulação entre grupos de agricultores que fazem feira na região do município de Lagartos: “como grupo, temos mais impacto na comunidade”, afirma. Durante o Encontro, algo que o marcou bastante foi a diversidade: de pessoas, de interesses, de cultivos e de culturas. Leva para Sergipe os aprendizados que teve durante a oficina de Planejamento de Produção, com a equipe do LACAF.

A técnica do Sebrae Luciana Oliveira Gonçalves acompanha a Rede sergipana e conta que por lá os/as agricultores/as seguem os mesmos princípios da Ecovida. Desde 2017 a rede adotou o SPG e em dois anos Luciana já percebeu “a transformação social que causa na vida das pessoas e a melhora da autoestima. Com o processo participativo eles passaram a se relacionar de outra maneira, mais coletiva, fazem mutirões, se ajudam”. 

E é claro que nos encontros do Núcleo não pode faltar um banquete agroecológico. Em meio à diversidade de alimentos preparados pelo Grupo de Agroecologia Costa Esmeralda, que recebeu o evento, apenas três itens não eram agroecológicos.

Plenária do Encontro aborda princípios da Rede Ecovida
A demanda pela inclusão da equidade de gênero e geração estimulou a discussão sobre os princípios gerais da Rede Ecovida durante o Encontro do Núcleo. Representantes de vários grupos falaram sobre cada um dos 9 princípios da Rede: descentralização, confiança, processo pedagógico, formações de redes, participação, olhar externo, organização de base, transparência e adequação à unidade familiar. Atualmente, as questões de gênero e geração foram incluídas somente no Manual de Procedimentos da Rede, num capítulo que trata sobre violações de direitos humanos. Estas infrações podem implicar a perda do certificado e exclusão da Rede – ou seja, diz respeito principalmente à certificação, mas, como disse Claudete: o que move a Rede são seus princípios, eles são a alma da Rede. Neste sentido, continua a demanda por mais discussão dentro desta temática para que seja abarcada também como princípio agroecológico praticado na Rede.

Também foi apresentada a nova equipe de coordenação, com Claudete Ponath na coordenação e Ernande Stolarczk, de Major Gercino, como vice. E o próximo Encontro de Núcleo já tem local: Garopaba.

Porto Belo recebe Encontro da Rede Ecovida de Agroecologia

O Encontro do Núcleo Litoral Catarinense da Rede Ecovida acontece anualmente, reunindo famílias agricultoras que se dedicam à produção sustentável de alimentos orgânicos
Cerca de 150 pessoas, a maioria agricultores e agricultoras orgânicos de Santa Catarina, são esperadas neste final de semana no 13º ENCONTRO DO NÚCLEO LITORAL CATARINENSE DA REDE ECOVIDA DE AGROECOLOGIA, que acontece no Salão da Igreja Nossa Senhora Aparecida, comunidade Sertão de Santa Luzia, em Porto Belo. Na programação, haverá palestras, oficinas e a tradicional Feira de Saberes, Sabores e Sementes, representando a riqueza da agricultura agroecológica de Santa Catarina. O evento, organizado pelo Grupo de Agroecologia Costa Esmeraldas (GACE), começa no sábado, 24 de agosto, às 15h e termina no domingo, 25 de agosto, às 16h. No domingo a programação será aberta ao público.
A mesa de abertura do Encontro, no sábado às 18h, será sobre TECNOLOGIAS EM PRODUÇÃO SUSTENTÁVEL DE HORTALIÇAS, com a participação do agrônomo Euclides Schallenberger, da EPAGRI. No domingo o destaque é para as oficinas, abordando temas como: planejamento de produção, organização de grupos de consumidores e adubos. Durante todo o evento acontece a FEIRA DE SABERES SABORES, com alimentos e artesanato da agricultura familiar agroecológica catarinense. Um delicioso café e almoço agroecológicos serão servidos, a R$ 25 por pessoa. A organização pede confirmação da presença pelo telefone (47) 99720-6930.
O último encontro foi em Biguaçu

O Núcleo Litoral Catarinense da Rede Ecovida reúne cerca de 150 famílias de agricultores e agricultoras de 30 municípios catarinenses. Os Encontros  de Núcleo são realizados anualmente. Já a Rede Ecovida está presente nos três estados do Sul brasileiro, reunindo mais de 4 mil famílias de agricultores e agricultoras agroecológicos.

Cepagro apoia a Tributação Verde

NOTA PÚBLICA

 CEPAGRO APÓIA A TRIBUTAÇÃO VERDE

O Cepagro vem a público manifestar seu apoio à Tributação Verde, que retira benefícios fiscais para agrotóxicos em Santa Catarina. Até agosto deste ano, tais produtos eram isentos de ICMS. Enquanto isso, a sociedade e os cofres públicos arcam com os custos para o tratamento de doenças relacionadas ao uso abusivo de agrotóxicos. Além disso, os impactos ao meio ambiente – como a contaminação da água – dificilmente são monetarizados. A proposta da Tributação Verde é que o ICMS passe a ser cobrado para agrotóxicos, assim como para qualquer outro produto. Ao contrário do que anunciam setores do agronegócio, isso não significa aumento de 30% do preço dos alimentos para a população, mas que a indústria dos agrotóxicos pagará impostos como qualquer outra.

O Brasil consome 20% dos agrotóxicos comercializados mundialmente, sendo que três culturas respondem por 72% desse montante: soja, milho e cana* – produtos voltados em grande parte para exportação ou para produção de carnes (que também serão exportadas), não para alimentar a população brasileira. Entre 2007 e 2014, o Brasil registrou uma média de 25 mil intoxicações por agrotóxicos ao ano – quase 3 casos por hora. Entretanto, considerando que para cada caso registrado outros 50 não são notificados – de acordo com a Organização Mundial de Saúde – esse índice pode chegar a 1.250.000 intoxicações. Destes, cerca de 20% envolvem crianças e adolescentes até 19 anos**.

Em Santa Catarina, Considerando a proporção populacional, temos um dos maiores índices de intoxicação por agrotóxicos no Brasil. O estado também desponta em casos de tentativas de suicídio com essas substâncias***. Um levantamento do Ministério Público de Santa Catarina mostra que em 22 cidades catarinenses a água está contaminada com pelo menos 7 princípios ativos – todos proibidos na União Europeia****.

Os impactos dos agrotóxicos na saúde já estão largamente documentados: do câncer ao autismo, de más formações de fetos a abortos tardios, são inegáveis os riscos a que estamos expostos pelo uso abusivo destas substâncias no nosso país e no nosso estado. Nossos alimentos, nossa água, nossos solos e até o leite materno***** em muitas regiões do país estão contaminados com princípios ativos de agrotóxicos.

Assim, entendemos que a Tributação Verde para agrotóxicos é uma forma de compensar estes impactos na saúde e no meio ambiente dos e das catarinenses. A arrecadação desse imposto poderia, por exemplo, ser investida em ações para diminuição do uso de agrotóxicos e incentivo à agricultura ecológica. Não é justo que uma indústria que causa tantos impactos à saúde e ao meio ambiente tenha benefícios fiscais, enquanto a agricultura limpa, orgânica e agroecológica tenha tão poucos incentivos.

E lembramos que, se existe um setor que necessita de incentivos e isenções fiscais, é o da produção orgânica, para que os agricultores e as agricultoras que cultivam alimentos limpos e preservam o meio ambiente possam reduzir custos e, assim, ampliar o acesso da população a alimentos de qualidade e sem venenos.

* Dados do atlas “Geografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil”, da prof. Dra. Larissa Mies Bombardi (USP)

** Dados do atlas “Geografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil”, da prof. Dra. Larissa Mies Bombardi (USP)

*** Dados do atlas “Geografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil”, da prof. Dra. Larissa Mies Bombardi (USP)
**** Dados analisados pela prof. Dra. Sônia Hess (UFSC).

***** Dados levantados pelo prof. Wanderlei Antônio Pignati (UFMT) em Lucas do Rio Verde (MT).

Dia de sensibilização ambiental e Agroecologia no canteiro de obras do Floripa Airport

Na última sexta-feira, 26 de julho, o Cepagro esteve na obra do Floripa Airport, no bairro Tapera, sensibilizando trabalhadores e trabalhadoras para a compostagem e produção de alimentos em pequenos espaços. A convite da Racional Engenharia, Erika Sagae e Aline Assis, da equipe de Agricultura Urbana do Cepagro, e o coordenador de Desenvolvimento Rural, Charles Lamb, também realizaram uma oficina de produção de mudas.

No stand montado próximo aos refeitórios, onde almoçam diariamente mais de 700 funcionários, homens e mulheres das cinco regiões do país paravam para saber o que estava acontecendo. Era um tal de: “tem muda de coentro?”, “isso na minha terra é hortelã!”, “pra gente era malva”, “o açaí do Pará com 2 anos já está dando!”.

Além de conhecer diferentes formas de cultivo e aprender sobre o método UFSC de compostagem, os funcionários puderam saber sobre o destino do composto que é gerado ali mesmo, a partir do resíduo orgânico dos refeitórios. Em junho de 2018, durante a Semana do Meio Ambiente, a engenheira ambiental Luiza Marques procurou o Cepagro para dar destino ao composto gerado na obra. Desde então, a maior parte do composto do aeroporto foi doada ao Cepagro e contribuiu na implantação da horta comunitária do Posto de Saúde do Ribeirão da Ilha,  e em atividades realizadas na Escola Januária, no Campeche, e na Escola Tercílio Bastos, em Major Gercino.  Além disso, o composto também enriqueceu o cultivo das comunidades guaranis de Major Gercino, Aldeia Tekoá V’yá, e de Biguaçu, Aldeia Ygua Porã.

Na mesma ocasião, em 2018, o Cepagro facilitou a implantação de uma horta no canteiro de obras, para onde parte do composto também passou a ser destinado. O construtor civil John Nilson Alves Nepomuceno, do Pará, conta que usufrui da horta levando chás e temperos para casa. “É interessante porque a empresa tem uma preocupação com o meio ambiente, não descarta em qualquer lugar como se fosse qualquer resíduo. Eles separam os materiais reciclados, a serragem da madeira usam na compostagem. Se toda a empresa tivesse isso seria bom”, conta Nilson.

 

O Floripa Airport tem um plano básico ambiental, que vem sendo gerido pela Racional Engenharia. Segundo o técnico ambiental da empresa, Humberto Camargo Filho, a compostagem é uma das formas de gestão dos resíduos e por mês são compostados cerca de 250 kg. O responsável pela função é Romenald Albert, que aprendeu a compostar no Haiti, seu país natal. É ele também que cuida da horta diariamente.

À tarde, parte da equipe do administrativo, cozinheiras e funcionários do canteiro de obras participaram da oficina de produção de mudas. A agrônoma Aline Assis deu dicas sobre o cultivo de hortaliças em pequenos espaços e os participantes puderam levar para casa as mudas produzidas. Entre eles estava a sergipana Vanusia Jesus Santos, que ficou impressionada com o manjericão roxo e fez questão de levar uma muda para mostrar aos familiares.

Charles Lamb conta que a atividade “oportunizou uma grande troca de experiências e demonstrou o potencial que esse tipo de iniciativa pode ter em um espaço inóspito como um canteiro de obras”. Disse ainda que o Cepagro continuará apoiando a iniciativa com mais atividades até o término da obra, prevista para outubro.