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V Encontro Municipal de Agricultura Urbana debate: que projeto de cidade queremos?

As leis e programas existentes para a Agricultura Urbana no município estão sendo suficientes? Queremos uma Agricultura Urbana burocrática onde os informais não entram? Que projeto de cidade queremos? 

Esses foram alguns questionamentos feitos durante o V Encontro Municipal de Agricultura Urbana, realizado de 6 a 8 de novembro no Campus Trindade da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). O encontro foi organizado pela Rede Semear Floripa e teve como tema desta edição “a agricultura como modo de vida”.

E foi sobre este tema a primeira roda de conversa do encontro. A historiadora e pesquisadora da Agricultura Urbana, Giovana Callado foi uma das debatedoras convidadas. Ela chamou a atenção para a extinção das zonas rurais no plano diretor de Florianópolis, reflexo do projeto de urbanização que está em curso no município. Ao longo da conversa, o acesso à terra foi colocado como uma questão central para fortalecer a agricultura urbana e a produção de alimentos.

Os assentados da Reforma agrária, Fábio Ferraz e Bárbara Ventura, do Assentamento Comuna Amarildo, também reforçaram a importância da distribuição de terra. Fábio falou da necessidade de cobrar o mapeamento exato das áreas ociosas do município porque “a reforma agrária passa pela reforma urbana”, disse. Mas somente o acesso a terra não é suficiente, é preciso haver assistência técnica para agricultores/as familiares, que no caso da Comuna Amarildo veio por parte de ONGs, como o Cepagro e de universidades, não através do poder público, lembrou Bárbara.

Outra questão levantada em torno da AU foi a necessidade de fomentar os circuitos curtos de comercialização. A agricultora e membra da Federação dos Trabalhadores na Agricultura Familiar, Rita de Cássia Maraschin da Silva lembrou do caos gerado pela greve dos caminhoneiros. O episódio mostrou como ficamos vulneráveis quando dependemos de atravessadores. A produção de alimento local e a comercialização direta em feiras são um contrapontos a esse modelo. Rita comentou ainda que a feira da qual participa quinzenalmente em Ponta das Canas tem sido um espaço cultural de encontro e discussão política. Tanto Rita quanto Fábio Ferraz afirmaram a necessidade de incentivar não apenas a agricultura familiar e urbana, mas a Agroecologia, que é o movimento que tem feito um enfrentamento maior contra o agronegócio.

Na tarde do dia 6 de novembro, a tenda do V EMAU reuniu diferentes crenças e saberes durante a roda de conversa sobre Saberes Populares. A benzedeira da Barra da Lagoa, Sueli Adriano dos Santos, a umbandista Janaína Carla Correia e o professor indígena da Aldeia M’Biguaçu, Daniel Kuaray compartilharam com o público os seus saberes no uso das ervas medicinais.

Daniel falou sobre como as ervas usadas nos ritos e presentes na cultura alimentar dos Guarani Mbya estão relacionadas com a noção de território tradicional. Ele compara o canteiro de ervas com uma farmácia natural, assim como Sueli da Barra e Janaína, que além de mãe de santo é benzedeira.

O segundo dia de encontro continuou afirmando a existência da agricultura rural e urbana em Floripa com a presença dos e das agricultoras do Grupo Ilha Meiembipe da Rede Ecovida de Agroecologia, que trouxeram uma diversidade de produtos orgânicos produzidos na ilha. E quem passou pelo V EMAU na quinta-feira também pôde receber os cuidados terapêuticos com acupuntura e as benzeduras da Enivalda de Deus Paslandi, conhecida como Dona Baiana, na Tenda de Práticas Integrativas

Murilo Leandro Marcos, que é médico do SUS e atende na Lagoa da Conceição, conta que a Agroecologia e as Práticas Integrativas têm relação pois ambas estão na contracorrente dentro de suas áreas de atuação. “As duas vêem a saúde e o cuidado com a vida de uma forma integral”, complementa. Para Murilo, a Agroecologia e as Práticas Integrativas são formas ancestrais de relação que se integram com as novas tecnologias.

O médico lembrou que essas práticas foram incluídas no SUS a partir de 2006 com a aprovação da Política Nacional de Práticas Integrativas. A política foi ampliada nos anos de 2013 e 2017 e hoje engloba práticas como a homeopatia, ayurveda, massoterapia e práticas chinesas como a acupuntura. No município de Florianópolis nós tivemos alguns avanços no tema, aponta Murilo, mas as práticas integrativas, apesar de terem validação científica, ainda são marginalizadas: “A gestão municipal precisa investir em contratação de profissionais nessas áreas e em formação continuada aos profissionais que já atendem pelo SUS”. 

Na quinta-feira ainda foi realizada uma oficina de bambu na Sala Verde da UFSC. A atividade apresentou os inúmeros usos que essa planta pode ter, desde uso na construção civil e de móveis, na produção de materiais como fraldas e tecidos, até no uso do broto de bambu na alimentação.

E para finalizar o Encontro, a roda de conversa do último dia teve como tema Políticas Públicas e Agricultura Urbana. Participaram do debate organizações, agricultores/as, consumidores/as, pesquisadores/as e gestores/as públicos/as. Parte da conversa girou em torno do Programa Municipal de Agricultura Urbana (PMAU), aprovado em 2017. O PMAU foi construído coletivamente com a sociedade civil através da Rede Semear e do mandato do Vereador Marcos José de Abreu, conhecido como Marquito (PSOL).

O PMAU trouxe não apenas avanços, mas também novas demandas para o fortalecimento da agricultura urbana no município. A burocratização do programa foi uma das questões apontadas durante o debate. O Parque Cultural do Campeche (PACUCA), por

exemplo, que tem um trabalho reconhecido pela horta e gestão comunitária dos resíduos orgânicos no bairro, atualmente não conta com apoio institucionalizado, como lembrou Eduardo Rocha, diretor presidente do Cepagro. Essa burocratização tem invisibilizado algumas iniciativas que já acontecem no município.

Iniciativas estas que inclusive revertem em economia para o município. É o caso das compostagens comunitárias realizadas no Pacuca, Quintais do Córrego e em outros espaços que desviam toneladas do volume de resíduos que iria para o aterro sanitário. Além do fornecimento de insumos para a prática da compostagem, outra exigência colocada durante o EMAU foi o pagamento por serviço ambiental e de saneamento prestado por essas comunidades.

O Vereador Marquito também apresentou algumas demandas, como a aprovação de um plano de Estado e não apenas de governo ou de mandatos, para assim garantir a permanência de ações em AU. Um plano que garanta verba e um planejamento de ações com metas, apontou Silvane Dalpiaz do Carmo, Chefe do Departamento de Educação Ambiental da Floram. 

A realização do Censo Municipal das Agriculturas produtoras de alimentos orgânicos e agroecológicos da cidade também foi colocada como uma urgência pelo coletivo. Daiane Mastedine, representante da Comcap no PMAU disse que um mapeamento das iniciativas de AU em Florianópolis já começou a ser feito pela prefeitura.

Por fim, outro tema debatido ao longo da manhã de sexta-feira foi o acesso aos espaços ociosos do município. Eduardo Rocha, que também é membro do Conselho Municipal de Segurança Alimentar e Nutricional, comentou que “a agricultura urbana é produção e comercialização, mas também é ocupação do espaço” e defendeu a função social da terra. Para isso se faz necessário fazer um enfrentamento à especulação imobiliária dentro da ilha, complementou Silvane Dalpiaz do Carmo, da Floram.

As demandas apresentadas pela sociedade civil organizada ao longo dos três dias de Encontro foram incluídas na Carta Política do V EMAU. Além das já mencionadas, também foram colocadas como exigências a regulamentação da Política Municipal de Agroecologia e Produção Orgânica por meio de uma Conferência Local, a realização de formações livres e populares com incentivos provindos do orçamento público para a criação de espaços coletivos de hortas urbanas e feiras, a inclusão da produção urbana de alimentos orgânicos no plano diretor da cidade de Florianópolis, entre outras.

Eduardo Rocha, que participou da organização do evento comemorou a diversidade de participação no V EMAU. “Essa metodologia da roda de conversa, de ter sido em um espaço aberto, na rua foi muito acertada”, comenta. Nas discussões estiveram presentes agricultores/as, organizações ligadas a saúde mental, coletivos livres de compostagem, representantes de hortas comunitárias, do MST, da Reforma Urbana, consumidores/as, pesquisadores/as, além de representantes do poder público.

Ter optado por fazer o evento em na Universidade Federal também foi algo simbólico para Eduardo, por estar sofrendo grandes ataques ao longo do ano com contingenciamento e reestruturação. Especialmente a UFSC, “tão importante para o tema da agricultura urbana ao longo da última década em Florianópolis. Isso traz um simbolismo muito bacana”.

 

 

REDE SEMEAR PROMOVE V ENCONTRO MUNICIPAL DE AGRICULTURA URBANA

A Rede Semear Floripa de Agricultura Urbana convida a todos e todas a participarem do V Encontro Municipal de Agricultura Urbana de Florianópolis (EMAU). O encontro será realizado entre os dias 6 e 8 de novembro, na Tenda em frente ao Centro de Eventos da Universidade Federal de Santa Catarina, no campus Trindade. Na programação estão previstas rodas de conversa, oficinas, feira agroecológica e uma mesa de troca de sementes, todos espaços livres e abertos ao público.

O evento inicia às 8h30 de quarta-feira com uma roda de conversa sobre o tema “agricultura como modo de vida”. Os convidados confirmados para esse momento são Giovana Callado, Historiadora e pesquisadora da Agricultura Urbana e representantes do Sítio Florbela, Assentamento Comuna Amarildo de Souza, Quintais do Córrego, Chácara Clara Noite de Sol,  Coletivo Muvuca Agroflorestal, Espaço Pergalê, Instituto Çarakura e Instituto Compassos.

Também serão realizadas duas oficinas: sobre Saberes Populares (6/11) e sobre Construção com Bambus (7/11), esta última na Sala Verde da UFSC. Durante a quinta-feira, estarão presentes na tenda o Laboratório de Comercialização da Agricultura Familiar (LACAF) e o Laboratório de Irrigação, Drenagem e Agricultura Urbana da UFSC.  Haverá ainda um espaço de troca de sementes, feira agroecológica e de práticas integrativas, a qual todos e todas são convidados a conhecer.

O V EMAU tem como objetivo trazer a discussão da Agricultura Urbana para junto da população, a partir das práticas que já vêm sendo realizadas e das novas possibilidades e desafios da agricultura urbana para o próximo ano, no município de Florianópolis. Desde o último EMAU, realizado no mesmo período do ano passado, tivemos avanços para a Agricultura Urbana na capital catarinense, entre eles a aprovação da Lei da Compostagem e da Lei Floripa Zona Livre de Agrotóxicos, ambas propostas pelo Vereador Marcos José de Abreu, o Marquito (PSOL).

Marquito será um dos debatedores na roda de conversa sobre “Políticas públicas e agricultura urbana”, que ocorrerá na sexta-feira, dia 8, das 10h30 às 12h30. Ao lado dele estarão Jair Aguilar Quaresma, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Eduardo Rocha, diretor presidente do Cepagro, representando a Rede Municipal de Compostagem e Agricultura Urbana, além de representações do Parque Cultural do Campeche (PACUCA), do Grupo Ilha Meiembipe da Rede Ecovida e do Programa Municipal de Agricultura Urbana (PMAU). Ao longo do V encontro municipal de AU, será construída coletivamente a Carta Política do V EMAU.

Também fica o convite para que o público participe dos espaços de diálogo do Encontro Latino Americano de Agricultura Urbana e Periurbana (ELAUP), que estará acontecendo em paralelo, também na UFSC. A programação do ELAUP está disponível em labrural.ufsc.br.

PROGRAMAÇÃO COMPLETA

Dia 6/11 (quarta-feira)

8h30 às 11h – Roda de Conversa: Agricultura como modo de vida

14h às 17h – Oficina Saberes Populares                  

Dia 7/11 (quinta-feira)

9h às 17h – Tenda das Práticas Integrativas

                          Feira Agroecológica

                          Mesa de troca de sementes

                          Participação do LACAF/UFSC e  LABIRRD/UFSC          

14h – Oficina de bambus na Sala Verde da UFSC

Dia 8/11 (sexta-feira)

10h30 às 12h30 – Roda de Conversa: Políticas Públicas e Agricultura Urbana

                                   Construção da Carta Política do V EMAU

14h às 17h – Participação nos espaços de diálogo do ELAUP

 

Do doméstico ao empresarial e municipal: Seminário em Florianópolis discute oportunidades para Compostagem

O Seminário Desafios e Oportunidades para a Compostagem em Florianópolis é parte da programação do 4º Curso de Gestão Comunitária de Resíduos Orgânicos e Agricultura Urbana realizado pelo Cepagro ao longo desta semana. 

Florianópolis é referência nacional quando se fala em compostagem, uma técnica eficiente e de baixo custo para reciclar resíduos orgânicos, como cascas de alimentos e sobras de comida. Do projeto Revolução dos Baldinhos à primeira Lei de Compostagem do Brasil, sancionada em abril deste ano, a capital catarinense tem experiências em diversos contextos: doméstico, escolar, empresarial e institucional. Algumas delas serão apresentadas e discutidas no Seminário Desafios e Oportunidades para a Compostagem em Florianópolis, que acontece nesta 5ª feira, 29 de agosto, às 14h, no Jardim Botânico de Florianópolis.

Uma das experiências apresentadas no Seminário é a do Núcleo de Educação Infantil da Armação, onde o Cepagro assessorou a implantação de uma composteira e uma horta. Os resíduos da preparação das refeições são transformados em adubo, que vai para a horta, de onde saem temperos e verduras para a alimentação das crianças, fechando um ciclo virtuoso do alimento. A mesma lógica, só que em escala maior, marca a iniciativa empresarial Destino Certo, que também estará presente no Seminário. A Destino Certo recolhe e faz a compostagem dos resíduos orgânicos de restaurantes do Campeche. Com o adubo resultante do processo, são cultivadas verduras orgânicas que retornam para os restaurantes.

Também participarão do Seminário moradoras e moradores de empreendimentos do programa Minha Casa, Minha Vida de Foz do Iguaçu (PR), Sorocaba (SP) e Taubaté (SP), onde o Cepagro fez a implantação de pátios de compostagem para atender às famílias dos residenciais. Essas atividades foram realizadas junto com a Revolução dos Baldinhos, com apoio da Fundação Banco do Brasil.

E, para falar sobre a inédita Lei da Compostagem, estará o vereador Marcos José de Abreu, o Marquito (PSOL), autor da proposta da Lei. Ele vai mediar a discussão sobre as possibilidades e desafios para expandir a reciclagem de resíduos orgânicos em Florianópolis que a nova legislação representa. De acordo com o Ministério do Meio Ambiente, os resíduos orgânicos representam metade dos resíduos sólidos urbanos gerados no Brasil e, segundo dados da Comcap/Prefeitura Municipal, Florianópolis gera uma média de 17,5 mil toneladas de resíduos sólidos por mês. Esse montante é enviado para o aterro sanitário em Biguaçu pelo valor aproximado de R$ 150,00 a tonelada, ou seja, mais de R$ 2 milhões por mês. Em Florianópolis, além de reduzir o impacto ambiental, o tratamento de todo o resíduo orgânico representaria uma economia de aproximadamente R$ 1 milhão de reais por mês.

Dia de sensibilização ambiental e Agroecologia no canteiro de obras do Floripa Airport

Na última sexta-feira, 26 de julho, o Cepagro esteve na obra do Floripa Airport, no bairro Tapera, sensibilizando trabalhadores e trabalhadoras para a compostagem e produção de alimentos em pequenos espaços. A convite da Racional Engenharia, Erika Sagae e Aline Assis, da equipe de Agricultura Urbana do Cepagro, e o coordenador de Desenvolvimento Rural, Charles Lamb, também realizaram uma oficina de produção de mudas.

No stand montado próximo aos refeitórios, onde almoçam diariamente mais de 700 funcionários, homens e mulheres das cinco regiões do país paravam para saber o que estava acontecendo. Era um tal de: “tem muda de coentro?”, “isso na minha terra é hortelã!”, “pra gente era malva”, “o açaí do Pará com 2 anos já está dando!”.

Além de conhecer diferentes formas de cultivo e aprender sobre o método UFSC de compostagem, os funcionários puderam saber sobre o destino do composto que é gerado ali mesmo, a partir do resíduo orgânico dos refeitórios. Em junho de 2018, durante a Semana do Meio Ambiente, a engenheira ambiental Luiza Marques procurou o Cepagro para dar destino ao composto gerado na obra. Desde então, a maior parte do composto do aeroporto foi doada ao Cepagro e contribuiu na implantação da horta comunitária do Posto de Saúde do Ribeirão da Ilha,  e em atividades realizadas na Escola Januária, no Campeche, e na Escola Tercílio Bastos, em Major Gercino.  Além disso, o composto também enriqueceu o cultivo das comunidades guaranis de Major Gercino, Aldeia Tekoá V’yá, e de Biguaçu, Aldeia Ygua Porã.

Na mesma ocasião, em 2018, o Cepagro facilitou a implantação de uma horta no canteiro de obras, para onde parte do composto também passou a ser destinado. O construtor civil John Nilson Alves Nepomuceno, do Pará, conta que usufrui da horta levando chás e temperos para casa. “É interessante porque a empresa tem uma preocupação com o meio ambiente, não descarta em qualquer lugar como se fosse qualquer resíduo. Eles separam os materiais reciclados, a serragem da madeira usam na compostagem. Se toda a empresa tivesse isso seria bom”, conta Nilson.

 

O Floripa Airport tem um plano básico ambiental, que vem sendo gerido pela Racional Engenharia. Segundo o técnico ambiental da empresa, Humberto Camargo Filho, a compostagem é uma das formas de gestão dos resíduos e por mês são compostados cerca de 250 kg. O responsável pela função é Romenald Albert, que aprendeu a compostar no Haiti, seu país natal. É ele também que cuida da horta diariamente.

À tarde, parte da equipe do administrativo, cozinheiras e funcionários do canteiro de obras participaram da oficina de produção de mudas. A agrônoma Aline Assis deu dicas sobre o cultivo de hortaliças em pequenos espaços e os participantes puderam levar para casa as mudas produzidas. Entre eles estava a sergipana Vanusia Jesus Santos, que ficou impressionada com o manjericão roxo e fez questão de levar uma muda para mostrar aos familiares.

Charles Lamb conta que a atividade “oportunizou uma grande troca de experiências e demonstrou o potencial que esse tipo de iniciativa pode ter em um espaço inóspito como um canteiro de obras”. Disse ainda que o Cepagro continuará apoiando a iniciativa com mais atividades até o término da obra, prevista para outubro.

Rede de Compostagem encerra ciclo de formações e fortalece práticas pedagógicas em agricultura urbana

“A educação não transforma o mundo. Educação muda as pessoas. As pessoas transformam o mundo”. A frase de Paulo Freire resume bem o que foi a Formação Livre de Compostagem e Agricultura Urbana para Educadores/as, realizada no último final de semana, 13 e 14 de julho, na comunidade Chico Mendes. A atividade aconteceu na sede da Revolução dos Baldinhos e foi facilitada pelo trio de educadores populares Júlio Maestri, do Cepagro, Karolina Karla, da Comunidade Chico Mendes e Cíntia da Cruz, da Revolução dos Baldinhos.

A atividade foi mais uma ação da Rede Municipal de Gestão Comunitária dos Resíduos e Agricultura Urbana de Florianópolis e encerrou um ciclo de seis formações que tiveram a gerência do Instituto Çarakura em parceria com a Revolução dos Baldinhos e mandato agroecológico do vereador Marcos José de Abreu (Marquito). O objetivo dessa última formação foi gerar forças coletivas para práticas pedagógicas envolvendo compostagem e agricultura urbana. Além de educadores/as, também participaram lideranças comunitárias, estudantes e agricultores/as urbanos/as. 

O primeiro dia de atividades começou com uma apresentação da Revolução dos Baldinhos e em seguida o grupo pôde conhecer o pátio de compostagem da comunidade, que recebe em média 8 toneladas de resíduos por mês. Ali, Karol e Cíntia mostraram a estrutura e a manutenção das leiras. “O problema é tão sério e a receita é tão simples”, resume Cíntia. A agente comunitária falou sobre como a gestão dos resíduos pode ser usada para falar sobre outros temas, como as políticas públicas que nem sempre chegam em determinadas comunidades.

Em seguida, os participantes retornaram para a sede da Revolução, onde Júlio Maestri falou sobre a metodologia do Cepagro no trabalho com hortas pedagógicas, que alia o calendário agrícola com o calendário escolar abordando três temas centrais: compostagem, horta agroecológica e alimentação saudável. A metodologia do Cepagro vem sendo desenvolvida há quase 10 anos. Entre 2010 e 2013, com o Programa Educando com a Horta Escolar e a Gastronomia, o Cepagro chegou a trabalhar em 83 escola da rede municipal de Florianópolis. 

Foto: Maiara Bersch / Instituto Çarakura

Além de apresentar as diversas possibilidades e metodologias unindo a horta e a compostagem no ambiente escolar, Júlio trouxe também um panorama do lixo em Florianópolis. Segundo dados da Comcap/Prefeitura Municipal, Florianópolis gera uma média de 17,5 mil toneladas de resíduos por mês.  Transportar esse montante até o aterro em Biguaçu custa cerca de R$ 150 reais por tonelada, ou seja, mais de R$ 2 milhões por mês. O Ministério do Meio Ambiente afirma que os resíduos orgânicos representam metade dos resíduos sólidos urbanos gerados no Brasil. Portanto, se todo o resíduo orgânico da capital catarinense fosse tratado localmente, a economia seria próxima a R$ 1 milhão por mês.

A tarde, o vereador Marcos José de Abreu (Marquito) fez uma fala sobre a Rede Municipal de Gestão Comunitária dos Resíduos e Agricultura Urbana de Florianópolis, que nasceu de forma coletiva a partir de uma indicação do seu mandato para Edital de Subvenção Social da Prefeitura de Florianópolis. Sob a gerência do Instituto Çarakura, em parceria com a Revolução dos Baldinhos, as formações livres da Rede contemplaram lideranças comunitárias das comunidades do Morro do Mocotó, Morro do Quilombo, Morro da Mariquinha e Morro da Queimada, além de uma formação na Moradia Estudantil da UFSC. 

“A gente avalia a atuação da Rede como super positiva”, disse Marquito e lembrou que no conjunto de ações da Rede foi aprovada a Lei da Compostagem em Florianópolis, que dispõe sobre a obrigatoriedade da reciclagem de resíduos sólidos orgânicos no município. O primeiro dia de formação terminou com o percurso sensorial, uma atividade do Slow Food Mata Atlântica que estimula a despadronização do paladar. Através dos sentidos, os participantes puderam conhecer diferentes sabores e texturas de uma diversidade imensa de alimentos.

Foto: Maiara Bersch / Instituto Çarakura

No domingo, a formação começou com uma atividade em teia, que teve como finalidade mostrar o poder de interdisciplinaridade da horta pedagógica. Com essa dinâmica, Júlio Maestri demonstrou como a horta é um espaço de convergência  de saberes. Ele defende que a educação escolar deve se aproximar mais da realidade das comunidades e conta que no caso da Revolução a escola teve um papel fundamental na sensibilização das famílias.

Foto: Maiara Bersch / Instituto Çarakura

Em seguida, o coletivo seguiu para a Escola América Dutra Machado onde foi realizada uma prática de plantio em canteiro elevado com técnicas compartilhadas pelos próprios participantes, como a adubação verde e a relação entre espécies. Durante a tarde, a agente comunitária Karol deu uma oficina de mini composteira. 

Por fim, a formação terminou com um momento de planejamento comunitário. Como o público não era somente de professores/as, os participantes se dividiram em grupos e coletivamente decidiram fazer um plano de educação ambiental para uma escola e para três comunidades de Florianópolis. Aurora Liuzzi, do Instituto Çarakura, conta que as formações sempre têm esse momento de planejamento, onde os participantes pensam a técnica de compostagem pode ser integrada da melhor forma no cotidiano daquela realidade.

As formações que vêm sendo realizadas pela Rede desde janeiro resultaram na implantação da gestão comunitária dos resíduos em três lugares: na Moradia Estudantil, no Morro do Quilombo e no Morro do Mocotó, cada uma com um método diferente. 

“No Mocotó a gente viu a galera se colocando mesmo pra mudar sua realidade diante da necessidade”, contou Cíntia. Lá, a identificação com o projeto foi grande e a formação envolveu 80 pessoas. Além de uma horta na creche, a atividade resultou na implantação de duas leiras de compostagem que vêm recebendo os resíduos orgânicos da creche da comunidade. Paulo Rogério Gomes Antunes, morador do Mocotó, conta que a gestão comunitária de resíduos serve para “mudar a realidade e reeducar as crianças da comunidade. Tirar essa imagem do crime e da rua que a comunidade tem”.

Mas apesar da vontade dos moradores, algumas questões dificultam o processo. Segundo Cíntia, a dificuldade maior hoje é a falta de apoio, principalmente com material estruturante, como a poda e serragem, porque nem sempre o poder público dá o apoio necessário.

E o projeto das Formações Livres tem o intuito de englobar essas questões também, conta Aurora Liuzzi: “tem a parte técnica da compostagem que dá um destino para o resíduo orgânico. Mas tem o porta a porta nas famílias e toda essa sensibilização também que dá resultados que saem só do ambiental e entram no âmbito social. Que é você chegar numa família para falar do resíduo e se deparar com uma situação social ali acontecendo e ter que dar conta disso também, se colocar à disposição”. 

Karol e Cíntia viveram isso ao longo dos 10 anos de Revolução dos Baldinhos, fazendo mobilização e sensibilização diariamente na comunidade Chico Mendes. “A gente acredita que outro ser pode transformar a realidade dele assim como a gente está transformando a nossa. A gente vai se comunicando e trazendo essa interação comunitária, trazendo essa certeza de que o poder está na mão do povo e somos dignos de transformar cada um a sua realidade”, disse Cinta da Cruz. 

Oficina com hortas no CRAS Capoeiras é apresentada como experiência exitosa em Seminário sobre Assistência Social

Criatividade, envolvimento, solidariedade e construção. Essas foram as palavras escolhidas pela psicóloga Gabriela C. Klauck, para descrever o trabalho com hortas agroecológicas realizado no Centro de Referência em Assistência Social (CRAS) Capoeiras em parceria com o Cepagro. Gabriela é de Caxambu do Sul e conheceu a experiência do CRAS durante o X Seminário Estadual de Gestores e Trabalhadores da Assistência Social, promovido pela Federação Catarinense de Municípios (FECAM).

Durante o evento, que aconteceu entre 29 e 31 de maio, foram apresentadas algumas experiências exitosas nos Sistemas Únicos de Assistência Social (SUAS) dos municípios catarinenses. As psicólogas do CRAS, Alvira Bossy e Liliana Budag Becker e a agrônoma do Cepagro, Karina Smania de Lorenzi, participaram e compartilharam com assistentes sociais, psicólogas/os e gestoras/es públicas/os, os frutos colhidos com as oficinas agroecológicas realizadas através do projeto Misereor em Rede.

O projeto iniciou com duas oficinas de horta facilitadas pelos Agrônomos do Cepagro Ícaro Pereira e Karina, e envolveu desde crianças até idosos. As psicólogas do centro viram na prática agroecológica uma forma de melhorar o vínculo com os usuários do CRAS, abraçaram a ideia e seguiram fazendo atividades envolvendo plantas, o cuidado com a terra e com as pessoas.

Uma dessas atividades foi a oficina de memórias através das plantas, voltada para a terceira idade. Os idosos foram convidados a levar uma planta que despertasse neles alguma memória e, junto com as assistentes, construíram vasos com material reciclável. Alvira Bossy conta que aquele momento lúdico de convívio com os usuários não tinha como objetivo somente a confecção do vaso, mas sim ser “um momento para refletir, compartilhar e construir memórias juntos”.

O cuidado e o fortalecimento de vínculos são princípios do trabalho com assistência social e Lilian Budag Becker acredita que “quando se quer fortalecer vínculos, a gente precisa entender de que maneira se dá esse vínculo. E usar a Agroecologia é tudo, porque você pode usar o teu ambiente, o teu quintal, as ruas, as praças, os espaços que você tem”.

A Agroecologia não é apenas um modelo de fazer agricultura, complementou Karina durante a apresentação, “ela pode ser aplicada também no nosso modo de vida”. Na diversidade de um canteiro agroecológico, uma planta com a raiz mais longa descompacta o solo, outra com aroma forte repele insetos, enquanto as flores chamativas atraem os polinizadores. “Então essa relação de colaboração entre as plantas, a gente consegue observar na relação humana também”, acrescentou.

Entre relatos, palestras e oficina, o seminário tinha como objetivo “propiciar a troca de experiências na execução e qualificação teórica das políticas de Assistência Social”, afirma Janice Merigo, assistente social da Fecam. Para ela, o relato sobre o CRAS Capoeiras acrescentou no debate porque mostrou como “as oficinas fortalecem a participação do usuário no serviço de assistência social”.

Gabriela Klauck foi uma das profissionais que se sentiu inspirada pela iniciativa: “Quando eu vi elas eu achei fantástico, porque eu me vi enquanto psicóloga trabalhando com a arte, com a criatividade das pessoas, fazendo elas se movimentarem. Envolve solidariedade e cooperativismo, isso é construção, isso é transformação social”. Apesar da vontade de inovar no seu local de atuação, Gabriela contou que por conta do engessamento da política de assistência social, nem sempre é fácil propor ideias novas nos centros de assistência.

No caso do CRAS Capoeiras, como lembra Alvira, boa parte dos materiais utilizados para as oficinas foram materiais que tinha ali mesmo, no ambiente do CRAS, “mas não é por isso que não se precisa investir. Tem que incluir na Assistência Social mais recurso”.

Durante os relatos das experiências, mais de uma vez falou-se na necessidade de pensar fora da caixa. Alvira concorda: “A gente, como profissional, tem que se desconstruir, precisamos sair das caixas. Vamos parar de falar da psicologia só com psicólogos, de assistência social só com assistente sociais”. Sem desconsiderar as territorialidades e realidades locais, a experiência no CRAS Capoeiras mostrou que a Agroecologia tem potencial quando o assunto é Proteção Social Básica, Assistência Social  e seus princípios: cuidado e fortalecimento de vínculos.

Rede Semear inicia o ano conhecendo experiência do SESC Cacupé em Agricultura Urbana

Representantes de associações de bairro, coletivos de agricultura urbana, de organizações não governamentais, do poder público municipal, estadual e federal, além de acadêmicos e curiosos por conhecer a Rede estiveram presentes na primeira reunião da Rede Semear Floripa de Agricultura Urbana em 2019. O encontro aconteceu no Hotel SESC Cacupé, na tarde da última quarta-feira, 10 de abril, e discutiu principalmente as perspectivas para a atuação da Rede em 2019.

O encontro iniciou com uma apresentação da experiência em Agricultura Urbana realizada pelo SESC Cacupé, que conta com um pátio de compostagem, uma horta e um viveiro. Ali os resíduos orgânicos gerados no restaurante são transformados em adubo para a horta, que possui fim didático. No espaço, está sendo desenvolvido ainda experimentos com aquecimento de água a partir energia gerada nas leiras de compostagem, além de trabalho com agrofloresta e abelhas nativas.

Depois da ambientação, o grupo seguiu para o Engenho de Farinha do SESC, onde a enfermeira da Vigilância em Saúde da Secretaria Municipal de Saúde e gestora do Programa Municipal de Agricultura Urbana Francisca Daussy e a Vice-Presidenta do Cepagro Erika Sagae fizeram uma apresentação da Rede Semear para aqueles que estavam na reunião pela primeira vez. Francisca lembrou que desde o início, a Rede tem como foco articular os diversos setores que debatem agricultura urbana para que juntos pautem políticas públicas no tema.

A Rede Semear é aberta e permite a participação de pessoas e instituições. Ela é composta por diferentes setores da prefeitura municipal, desde a saúde até a educação e assistência social. Na reunião desta terça-feira, estiveram presentes representantes do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Secretaria de Saúde, Fundação Municipal do Meio Ambiente (Floram), Laboratório de Educação do Campo e Estudos da Reforma Agrária (LECERA), Epagri, Sloow Food, Quinta das Plantas, Departamento de Alimentação Escolar da Prefeitura Municipal de Florianópolis, SESC, Conselho Comunitário da Costa de Dentro, Pousada Rosemary Dream e gabinete do Vereador Marquito.

Além de conversar sobre as perspectivas para 2019, a Rede também fez um balanço do IV Encontro Municipal de Agricultura Urbana de Florianópolis, que aconteceu em novembro do ano passado. Mais uma vez o encontro se mostrou um espaço de discussão muito positivo para a AU na capital e para o fortalecimento da Rede Semear e resultou na construção coletiva da Carta Política do IV Encontro, que ainda será divulgada ao público.

Falou-se sobre os avanços da Rede no último ano, como a criação do Programa Municipal de Agricultura Urbana (Decreto 17.688/2017) e a aprovação da Política Municipal de Agroecologia e Produção Orgânica de Florianópolis (PL 10.392/2018), projeto de lei elaborado junto ao mandato do vereador Marcos José de Abreu, o Marquito. Outras conquistas são a presença de hortas em 35 centros de saúde e o aumento do número de hortas comunitárias pelos bairros de Florianópolis.

Essas hortas que vão surgindo demandam estrutura e assistência do poder público e é nesse sentido que caminham os desafios da Rede Semear para a Agricultura Urbana. Eugênio Luiz Gonçalves, membro do Conselho Comunitário da Costa de Dentro e do Conselho de Saneamento Básico, esteve presente na reunião. Ele falou de algumas dificuldades enfrentadas pela Horta Comunitária do bairro e sobre a necessidade de apoio institucional na distribuição dos alimentos colhidos para entidades carentes, apoio na realização de uma feira local e formação para os agricultores urbanos, ações que fortaleceriam o trabalho local.

As ferramentas existem e as ações em Agricultura Urbana estão acontecendo, mas a falta de recurso dificulta o trabalho. Para planejar as ações práticas para o ano de 2019, a Rede Semear voltará a se reunir no final de abril.  Antes de encerrar a reunião, Erika Sagae lembrou do IV Encontro Latinoamericano de Agricultura Urbana e Periurbana – ELAUP, que acontecerá em Florianópolis entre os dias 6 e 8 de novembro. 

O Encontro é um espaço acadêmico para professores, pesquisadores e gestores públicos e de projetos na América Latina e no Caribe apresentarem suas pesquisas, as experiências em andamento e discutirem os aportes teóricos e metodológicos provenientes das ciências sociais, econômicas e ambientais. A participação dos agricultores urbanos neste encontro é muito importante, por isso haverá isenção de taxa de inscrição para estes.

A tarde terminou com um café e troca de mudas e sementes.