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Cepagro fortalece práticas agroecológicas em aldeias Guarani do Litoral Catarinense

O mês de fevereiro marca o fim do Ara Pyau, período do ano que representa tempo novo na cosmovisão Guarani. Iniciado em setembro, junto com a primavera, o Ara Pyau orienta todo o calendário agrícola Guarani, do preparo do solo à colheita, em especial das variedades de milho que além de alimento, são também um bem sagrado imprescindível nas cerimônias de batismo Guarani, realizadas justamente neste período.

Estes são alguns dos conhecimentos que a equipe Cepagro pôde adquirir ao longo do último ano, a partir da relação de confiança que se estabeleceu com as aldeias Yguá Porã, Yynn Moroti Wherá e Tekoa Vy’a, localizadas na Grande Florianópolis. Através dos projetos “Terra, Comunicação e Artesanato sustentáveis: iniciativas para o fortalecimento das Tekoa Guarani”, apoiado pelo Instituto das Irmãs da Santa Cruz eCulturas de cobertura da próxima geração, com o apoio da Conservation Food & Health Foundation, foi possível fortalecer a produção de alimentos nas três aldeias e assim promover a soberania e segurança alimentar e nutricional e a diversificação alimentar das famílias Guarani, especialmente afetadas pela pandemia.

Desde março, foram entregues sementes de pelo menos 10 variedades de hortaliças, ramas de mandioca provenientes de agricultores da Rede Ecovida de Agroecologia e mudas de espécies tradicionais, como o sagrado pety, fumo tradicional Guarani. As equipes dos projetos também participaram de mutirões, distribuiu sementes de adubos verdes e deu orientações sobre a utilização desta técnica agroecológica para o preparo e conservação do solo, buscando assim reduzir a necessidade de fertilizantes químicos (principalmente da uréia).

Para Adailton Karay Moreira, professor de cultura na escola indígena da aldeia Yynn Moroti Wherá, em Biguaçú, os aprendizados sobre como melhorar a saúde do solo através da adubação verde foram importantes pois vão ser repassados na prática para seus alunos e alunas, já que a roça da comunidade também é um espaço pedagógico. Ali as crianças aprendem a preparar a terra, conhecem as sementes e qual o mês certo para o plantio de cada uma delas. Dessa forma Adailton ensina também sobre a importância de cultivar as sementes tradicionais.

“Para mim é bem importante ter algumas plantações de alimentos tradicionais, porque é bem mais saudável estar colhendo e comendo daquilo que plantou na própria terra. Se tu for pensar, todos os alimentos que vêm do supermercado que vêm em lata ou em conserva não é muito bom consumir direto, porque isso pode fazer mal ao longo do tempo. Por isso, para mim é importante estar cultivando alimentos”.

Na aldeia Tekoa Vy’a, em Major Gercino, a oficina de adubação verde envolveu a criançada e foi organizada em parceria com as lideranças e professores da Nhemboeá Vy’a (escola da comunidade). Junto com esta atividade, realizada no último dia 25 de fevereiro, a equipe do Cepagro também auxiliou na preparação das áreas que logo receberão as sementes de hortaliças, do avaxi ete’i (milho Guarani) e ainda o milho crioulo comum. Estes plantios devem acontecer antes da chegada do Ara Yma, período que vai de março a setembro e, ao contrário do Ara Pyau, corresponde ao tempo velho, período de recolhimento.

Segundo Letícia Filipini, engenheira agrônoma e técnica do Cepagro no projeto Culturas de cobertura da próxima geração, “os adubos verdes de inverno são uma ótima estratégia para as aldeias já que nesse período [do Ara Yma] não se cultiva outras culturas”. Novas atividades estão previstas para acontecer nas três aldeias parceiras ao longo dos próximos meses, “com Adubação verde vamos iniciar um processo de restauração do solo, aumentando a fertilidade e consequentemente garantindo uma melhor produção dos cultivos que destinam para a alimentação da comunidade”, aponta Letícia.

A aldeia Tekoá Vy’a também foi parceira na Ação Solidária Covid-19, desenvolvida pelo Cepagro com o apoio da Fundação Interamericana (IAF). A ação busca promover segurança alimentar e nutricional e fortalecer a Agroecologia através da compra de alimentos agroecológicos e da agricultura familiar e entrega desses alimentos a 6 cozinhas comunitárias de Florianópolis. Através desta parceria, foi feito o planejamento de produção com o Cacique Artur Benites para a produção e comercialização de feijão preto e batata doce. Além da produção abastecer a própria comunidade diversificando a alimentação das famílias Guarani, uma quantia de aproximadamente 200kg de batata doce, 150kg de banana e 260 kg de feijão foram comercializados para a Ação, levando alimento e saúde a famílias em situação de vulnerabilidade social de Florianópolis.

Fortalecimento comunitário

Além das ações ligadas à agricultura, o projeto Terra, Comunicação e Artesanato também possibilitou atender outras demandas das comunidades Guarani, como o fortalecimento do artesanato, com a entrega de insumos como miçangas, teares, formões e argila e com apoio à comercialização. 

Através deste projeto, também foi realizada uma oficina de comunicação no formato de videoaulas preparadas pelo Coletivo Mídia Índia. A atividade aconteceu na aldeia Yynn Moroti Wherá em parceria com os professores Daniel Kuaray e Celita Antunes, que facilitaram a formação para os jovens da aldeia. O propósito da atividade foi levar um pouco do conhecimento do coletivo que é referência nacional no movimento indígena para que a rede de comunicadores indígenas se amplie e possa cada vez mais comunicar a diversidade e riqueza cultural dos povos originários do Brasil, assim como suas realidades e lutas por direitos.

Por fim, nos últimos meses, o coordenador do projeto, Charles Lamb (Bagé) também esteve ao lado das lideranças acompanhando de perto os trâmites e burocracias necessárias para a regularização da Associação da comunidade, passo imprescindível para garantir mais autonomia no acesso a recursos indenizatórios e editais voltados para povos indígenas.

“Em tempos pandêmicos vimos o quão importante é a interação social, seja ela presencial, ou da maneira possível remotamente por telefone, mensagens e vídeos. Assim como as ações diretas do projeto. O artesanato, principal atividade para geração de renda, permaneceu ativo com a ajuda de insumos e de comercialização. Promovemos a segurança alimentar através do fortalecimento das práticas tradicionais de agricultura, fornecendo insumos e estimulando o aumento da produção para comercialização do excedente. O fortalecimento social, através da associação, foi fundamental para a organização e acesso a editais e recursos para a viabilização de demandas estruturais e de saúde. Além disto, foi o tempo de estreitar relações e parcerias para auxiliar órgãos indigenistas nas demandas crescentes destas comunidades”, avalia Renata Lucas, da equipe técnica do projeto.

O desenvolvimento destas e outras atividades junto às aldeias Guarani foi possível graças ao apoio do Instituto das Irmãs da Santa Cruz (IISC), da Conservation, Food & Health Foundation, da Fundação Interamericana (IAF) e da parceria com a Secretaria Especial de Saúde Indígena (SESAI), Funai e outras organizações e coletivos que contribuíram em ações pontuais e emergenciais.

Cepagro realiza oficina para voluntários do Projeto Plantio Agroecológico Solidário

No último dia 12 de agosto, o Cepagro somou no ciclo de formações do Plantio Agroecológico Solidário com uma oficina sobre Adubação Verde ministrada pelas Engenheiras Agrônomas Letícia Dambroz Filipini e Renata Lucas, que compõem a equipe de desenvolvimento rural do Cepagro. Pelo menos 15 pessoas participaram da oficina virtual, que foi aberta ao público e direcionada principalmente para os/as voluntários/as do Plantio Agroecológico Solidário, projeto de extensão do Núcleo de Agroecologia da Fazenda Experimental da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), em parceria com a Câmara Municipal de Florianópolis, através do Mandato do vereador Marcos José de Abreu (Marquito).

Foto: Edaciano Leandro Losh

Por meio desse projeto de extensão, 180 voluntárias(os) têm realizado plantios agroecológicos na Fazenda Experimental da UFSC desde abril de 2020. Os alimentos produzidos são direcionados a campanhas solidárias e famílias em situação de vulnerabilidade social, estudantes e trabalhadores da Universidade. Também para pessoas em situação de rua na forma de marmitas. Até o momento foram distribuídos aproximadamente uma tonelada de alimentos.

Além dos mutirões de plantio e distribuição de alimentos, também estão sendo realizadas formações sobre temas ligados à Agroecologia. A oficina sobre adubação verde ministrada pelas agrônomas do Cepagro foi realizada através do Projeto Culturas de cobertura da próxima geração, que une pesquisa e extensão rural visando ampliar a adubação verde entre agricultores do Núcleo Litoral Catarinense da Rede Ecovida. O projeto tem o apoio da Conservation, Food & Health Foundation e é realizado em parceria com a doutoranda Anne Elise Stratton, da Universidade de Michigan (EUA) e com famílias agricultoras da Rede Ecovida.

Salete e Aloísio Stolarczk, agricultores de Major Gercino.

O período de pesquisa do projeto teve duração de dois anos e já encerrou. No momento o foco é a extensão rural e a relação com os agricultores e agricultoras, principalmente para fomentar o uso das espécies de adubação verde como práticas para melhoria da conservação do solo, considerando a realidade das famílias agricultoras. Com a pandemia, as visitas às propriedades tiveram que ser suspensas e a equipe do projeto tem mantido a comunicação com as famílias por meios virtuais. Além disso, estão sendo preparados materiais formativos sobre o tema da adubação verde e sementes crioulas, uma adaptação às oficinas presenciais inicialmente previstas.

Dessa forma, a oficina junto aos voluntários do Plantio Agroecológico Solidário fortalece a relação entre o campo e a universidade, a pesquisa e a extensão. Principalmente porque a relação entre o projeto do Cepagro/Universidade de Michigan e do Núcleo Agroecológico da Fazenda Experimental da UFSC não se encerra na oficina. Em breve, espécies de adubação verde serão incluídas no manejo das hortas e piquetes destinadas ao plantio solidário. Ao todo, quatro áreas receberão essas espécies, cada uma delas com 600 m², totalizando 2400m² de cultivo.

Foto: Edaciano Leandro Losh

A inclusão dessas espécies é positiva porque vai resultar em uma área didática para que os/as estudantes voluntários/as possam observar o comportamento das espécies de adubos verdes, especialmente em sistemas de hortas. E também porque vai trazer para o espaço produtivo todas as melhorias que a adubação verde proporciona: reciclagem de nutrientes, cobertura e proteção de solo, diminuição dos impactos causados pela chuva, fixação biológica de nitrogênio, diminuição de perdas de nutrientes, retenção de umidade, entre outros. Além de beneficiar o solo e os cultivos atuais e futuros, esse manejo servirá também de alimento para o ovinos do Núcleo Agroecológico.

Para Letícia Filipini, “ver que agora as ações do projeto podem novamente alcançar esse espaço que é a UFSC e permitir essa troca de informações com o local de estudo, ainda mais com essa missão de enfrentamento da pandemia produzindo alimentos agroecológicos saudáveis para a população, isso realmente preenche o nosso coração de orgulho e felicidade de poder ter esse tipo de troca. Especialmente por eu ter me formado dentro dessa universidade”.

O Plantio Agroecológico Solidário também conta com a parceria do Laboratório de Ecologia Aplicada (LEAp/UFSC), Marmitas Veganas, Campeche Solidário, Sociedade Internacional da Consciência de Krishna, Instituto Compassos, Horta Comunitária do Parque Cultural do Campeche (Pacuca), Covid-19 Floripa, Grupo Alimentação e Vida Alegre.