Projeto de adubação verde une pesquisa acadêmica e extensão rural

A última segunda-feira, 25 de novembro, foi dia de colher pepinos e ervilhas no município de Santa Rosa de Lima. Não para consumo nem comercialização, mas para pesquisa. É o projeto Culturas de cobertura da próxima geração: impulsionando a inovação no manejo do solo com a certificação participativa, que une pesquisa e extensão rural visando ampliar a adubação verde entre as famílias agricultoras do Núcleo Litoral Catarinense da Rede Ecovida.

O projeto é uma parceria do Cepagro com a doutoranda Anne Elise Stratton, da Universidade de Michigan (EUA) e tem o apoio da The Conservation, Food & Health Foundation. Ele ainda está na fase inicial, de pesquisa, que se dá de forma participativa junto a 14 famílias agricultoras em seis municípios catarinenses. Além dos agricultores agroecológicos, também participam famílias fumicultoras que buscam alternativas ao cultivo do tabaco.

Depois da fase de pesquisa, que já é uma forma de capacitar os(as) agricultores(as) para esse tipo de manejo, o projeto seguirá trabalhando com as famílias interessadas em cultivar espécies de adubos verdes para a criação de bancos de sementes, uma demanda que tem sido colocada pelos(as) agricultores(as) do Núcleo Litoral, segundo Charles Lamb, Coordenador de Desenvolvimento Rural do Cepagro. A ideia é que esses(as) agricultores(as) sejam fontes de conhecimento sobre o tema e não somente de sementes.

Leda Maria Assing é uma das agricultoras agroecológicas envolvidas na pesquisa. Ela compõe o Grupo Germin’Ação e cultiva diversos alimentos orgânicos que abastecem a sua pousada Doce Encanto, além de produzir melado e outros derivados da cana. Para ela o cultivo de sementes de adubação verde seria ótimo, principalmente para poder trocar com outros(as) agricultores(as) da Rede. Atualmente, boa parte deles usa cama de aviário como fertilizante para o solo, que é uma alternativa ecológica aos insumos químicos. No entanto, essa ferramenta pode significar um custo de produção mais elevado, além de não oferecer tanta garantia quanto à sua procedência.

Anne Elise explica que a adubação verde se torna uma ferramenta complementar à Agroecologia. Ela tem um custo de implantação menor, fornece cobertura e mais matéria orgânica para o solo, além de aumentar a futura produção de alimentos. Anne Elise explica ainda que um dos principais nutrientes que garantem o crescimento e desenvolvimento das plantas é o nitrogênio. Na natureza, ele é devolvido ao solo normalmente com a decomposição das plantas, enquanto na agricultura é retirado com a colheita dos alimentos, onde se encontra a maior concentração de nutrientes. Por isso deve ser reposto de alguma forma, mantendo o solo fértil. 

Assim, a adubação verde se torna uma alternativa também para os agricultores convencionais. Anne Elise comenta que além de contaminarem o solo e a água, os insumos químicos geram uma dependência com as empresas que os produzem. A inclusão das culturas de adubos verdes como a mucuna, ervilhaca, aveia e girassol entre os agricultores é também uma forma de promover a autossuficiência dessas famílias.

Outra agricultora que está participando da pesquisa é Rosângela Bonetti Vanderlinde, também do Grupo Germin’Ação. Quando ela e o companheiro Sebastião adquiriram o terreno onde hoje tocam a Pousada Encanto Verde, o solo estava completamente degradado. Os antigos proprietários produziam tabaco e a partir de 2005 Rosangela e Sebastião foram recuperando a fertilidade através da adubação verde e de cultivos agroecológicos. Sebastião conta que desde então, anualmente o professor da Universidade Federal de Santa Catarina, Jucinei Comin leva os estudantes para conhecer a sua propriedade e a cada visita diz encontrar o solo mais fértil.

Rosângela confirma a importância da adubação verde e também da pesquisa acadêmica: “Para nós é maravilhoso porque a gente sempre aprende muita coisa. Já fazia adubação verde há muito tempo, mas com a pesquisa a gente vê o resultado científico comprovado ali mesmo no teu terreno”. A agricultora conta que alguns grupo que visitam a propriedade perguntam o porquê de ceder o terreno para pesquisa sem ganhar nada em troca, ao que Rosângela responde: “a troca não é monetária, mas é o conhecimento científico que a gente adquire”. 

E a ideia do projeto não é apenas incluir a cultura dos adubos verdes entre os agricultores, mas institucionalizar essas culturas de cobertura nos planos de manejo da Rede Ecovida. Anne Elise conta que nos Estados Unidos a certificação participativa não é uma prática permitida e que sua escolha por realizar a pesquisa com agricultores da Rede se deu, entre outros motivos, porque “a Rede Ecovida é muito inspiradora, é uma referência. Não existem muitas redes de agroecologia como essa”. A agricultora Leonilda Boeing Baumann, mais conhecida como Dida, concorda com Anne Elise e diz: “gosto de estar na Rede Ecovida porque não é só a certificação, a gente aprende muito”.

A pesquisa já vem sendo realizada desde 2018 e até 2020 demonstrará se a diversificação de cultivos e a adubação verde têm mesmo o potencial de reduzir custos e aumentar a produtividade, contribuindo para a autossuficiência das famílias agricultoras. Até lá, seguimos juntos apoiando o Núcleo Litoral Catarinense e incentivando a transição agroecológica através de pesquisas e práticas que estejam em sintonia com a realidade dos agricultores(as) da região.

Mulheres e Juventudes protagonizam o XI Encontro Ampliado da Rede Ecovida de Agroecologia

Com o tema “Gênero, Geração e Conhecimento”, o XI Encontro Ampliado da Rede Ecovida de Agroecologia, realizado em Anchieta (SC) entre os dias 15 e 17 de novembro, foi marcado pelo protagonismo das mulheres e das juventudes da Agroecologia. 

Texto: Carú Dionísio e Clara Comandolli 
Fotos: Clara Comandolli

Quando o lema “Sem Feminismo, não há Agroecologia” apareceu pela primeira vez num Encontro Ampliado da Rede Ecovida, em 2017, o clima foi de algum estranhamento e surpresa. Mas, dito já nos finalmentes da Plenária Final do X EARE, com o burburinho da Feira de Saberes e Sabores ao fundo, passou discretamente. Dois anos depois, no embalo da grande participação feminina em ações de massa nas ruas do Brasil e da discussão de gênero ganhando corpo desde a Articulação Nacional de Agroecologia aos grupos da Rede Ecovida, o lema veio para a Plenária de Abertura do Encontro, convocado não por algumas, mas por muitas companheiras.  

Além do protagonismo das mulheres, outra marca do XI EARE foi o destaque na participação das juventudes. A mesa de abertura foi toda feminina, com mulheres jovens e mais experientes ocupando os espaços principais de fala. 

Sem feminismo, não há Agroecologia

Uma das convidadas para este momento foi Miriam Nobre, da organização feminista Sempre Viva (SP) e integrante da da Marcha Mundial das Mulheres e do GT de Mulheres da Articulação Nacional de Agroecologia (ANA). Miriam trouxe um histórico da discussão de gênero no movimento agroecológico a partir dos Encontros Nacionais de Agroecologia (ENA). Lembrou que o lema “Sem feminismo, não há Agroecologia” veio à tona pela primeira vez no terceiro encontro, em 2014, trazendo avanços para o debate. No encontro seguinte, as mulheres negras e indígenas chamaram a atenção também para as suas lutas porque “a experiência das mulheres não é uma só. Há diversidade e desigualdades entre nós”, comentou Miriam. 

No IV ENA as mulheres afirmaram estar “em fúria feminista”, por conta do contexto das eleições de 2018 e foram protagonistas do movimento #EleNão, como lembrou Miriam, por temer o aprofundamento das políticas neoliberais. Miriam aponta que “o neoliberalismo transfere toda a insegurança e vulnerabilidade da vida para nós, trabalhadores e trabalhadoras, principalmente para as mulheres”. Um exemplo são os cortes feitos no Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), medida que pesa mais sobre as mulheres, historicamente responsáveis pelos cuidados com a alimentação familiar.

Miriam falou também sobre o sexismo institucional existente e que desconsidera a mulher como agricultora quando o marido não é. O sítio leva o nome do marido, mas quem acorda primeiro e vai dormir depois em muitos casos são as mulheres, que acumulam ao trabalho na agricultura os afazeres domésticos, desconsiderados como trabalho.

Foi pensando nesta realidade que o GT de Mulheres da ANA, em parceria com o Centro de Tecnologias Alternativas da Zona da Mata de Minas Gerais (CTA-ZM), elaborou a Caderneta Agroecológica, usada pelas mulheres para registrar a produção de seus quintais e hortas, anotando o que é para autoconsumo, o que é vendido, trocado, doado ou ganhado. A ideia da caderneta é dar visibilidade ao trabalho das mulheres do campo, mostrando como as “miudezas” de seus quintais produtivos têm grande impacto positivo na renda familiar, contribuindo para a valorização da participação feminina na economia  e para o enfrentamento da divisão sexual do trabalho. “A gente quer, junto com os companheiros, organizar a economia não baseada no lucro, mas colocando a vida no centro. E colocar a vida no centro é outra forma de dizer: ‘sem feminismo, não há Agroecologia’”, disse.

Companheiros conferem os recados das mulheres da Rede, estampados em bandeiras produzidas nos Núcleos.

Por fim, Miriam lembrou que o machismo afeta também a vida dos homens. Ela os convidou a expressarem seus sentimentos e a somarem no combate à violência contra as mulheres, não apenas nos casos de violência física quando ela já aconteceu. “Nós, homens e mulheres, queremos ser tão diversos quanto a natureza é”, disse e completou dizendo que nossa luta é pela liberação de territórios: do machismo, dos transgênicos e dos agrotóxicos.

Juventudes: “não queremos só a sucessão. Queremos construir a nossa Agroecologia”

As juventudes também estiveram presentes na Plenária de abertura, chamando a atenção para os conflitos intergeracionais existentes na agricultura familiar. A jovem agricultora de Pelotas (RS), Luana Kerstner Schiavon, falou sobre a importância do diálogo e da escuta entre jovens e pais trabalhadores rurais. “Na agricultura familiar todos trabalham, porque ninguém faz sozinho”, comentou Luana, mas mesmo assim é muito comum os/as jovens agricultores/as, em especial as mulheres, serem desconsideradas como corresponsáveis pela produção.

A juventude é um tempo de muitos questionamentos e incertezas, lembrou Luana, e por esse motivo a educação do campo é extremamente importante no reconhecimento do “quem sou eu”. Acesso à educação, liberdade para escolher e a confiança dos pais foram algumas das demandas colocadas pela juventude agroecológica, que quer sucessão familiar e não apenas a herança da propriedade.

Luana compõe a coordenação geral da Rede Ecovida e disse ainda que os/as jovens precisam ocupar os espaços de deliberação e decisão política. Fala reforçada por Cristina Sturmer dos Santos, da Cooperativa de Produção Agropecuária Vitória (COPAVI), gerida por assentados da Reforma Agrária  no município de Paranacity (PR). Por lá, toda a gestão é feita por mulheres e jovens, que representam a maioria dos/as cooperados/as. Ainda assim, Cris  afirma: “Falar de gênero, geração e feminismo nunca é uma coisa pacífica. É cheia de conflitos e contradições”.

Outras demandas da juventude foram colocadas no seminário Juventudes Agroecológicas: rebeldia com causa, realizado na manhã do sábado, 16 de novembro. Ao longo da conversa, a principal queixa da juventude agroecológica foi a desconfiança e o não reconhecimento dos mais velhos. A grande maioria disse que uma das razões para o abandono do jovem do campo é a falta de consideração com as ideias e opiniões deles/as, seja na gestão da propriedade familiar ou na sua participação política dentro dos grupos e núcleos da Rede Ecovida.

Bruna Richter Eichler, agricultora de Venâncio Aires (RS), disse que se não fosse os jovens levando a Agroecologia para a propriedade, algumas famílias até hoje não teriam saído da agricultura convencional. É essa situação que a estudante e agricultora Gabriela Mariga enfrenta hoje. Ela estudou em colégio agrícola no município de Paulo Bento (RS) e conta que os professores “só ensinavam a plantar milho e soja”, principais culturas da região. 

Apesar de nunca ter ouvido falar sobre as práticas agroecológicas em sala de aula, Gabriela encontrou na biblioteca da escola um livro de Ana Primavesi, uma das precursoras da Agroecologia. A partir daí se encantou pelo movimento e passou a se aprofundar no tema. Hoje ela estuda Gestão Ambiental da Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (UERGS). 

“Quando eu falava em Agroecologia os professores me chamavam de louca e as pessoas perguntavam por que eu queria voltar para o passado”, coisa que ouve também dentro de casa, comenta Gabriela. Na propriedade dos pais o cultivo é convencional, então  ela recorreu ao CETAP, organização que apoia a Agroecologia no Rio Grande do Sul, para poder participar do XI EARE. No Encontro se sentiu em casa: “aqui tu é aceita. Lá eles acham que não se produz sem veneno”, disse.

Ao final do seminário foi encaminhada a criação de um GT da Juventude da Rede Ecovida, que colocou como uma de suas prioridades a inclusão da participação de 30% de jovens nas coordenações da Rede. Além disso, foi mencionada a importância do incentivo à cultura e lazer e à comunicação pela valorização da Agroecologia, acesso à educação, formação em marketing e empreendedorismo. Na ocasião também foi criado um GT de Arte e Cultura, com o intuito de pensar e promover místicas, músicas e momentos culturais para os eventos da Rede e assim contribuir com as reflexões da Agroecologia. “A mística e a cultural são tão importantes quanto os momentos de debates”, disse Bruna Richter Eichler, que abrilhantou musicalmente o encontro com sua banda. 

Seminários e oficinas discutem questões técnicas e políticas da Agroecologia

Na manhã do sábado, 16, também foi realizado o seminário Momento político atual e a agroecologia: quais são nossos caminhos?  Mais do que pensar questões e conflitos partidários, o Seminário foi dedicado a resgatar um pouco da caminhada da Rede Ecovida e de outras redes de Agroecologia do Brasil em suas construções por outro modelo de agricultura e de relação com território, além da participação de políticas públicas neste desenvolvimento.

A professora Cláudia Schmitt, da UFRJ e da Associação Brasileira de Agroecologia, trouxe dados sistematizados pelas redes que participaram do projeto ECOFORTE (apoiado pela Petrobrás) entre 2015 e 2016, mostrando que a maioria delas acessaram programas como o PNAE, PAA e até o Bolsa Família. A conjuntura atual, entretanto, é de desmonte dessas políticas, avaliou Cláudia, com acordo dos/as participantes: “nesse processo, primeiro retiram-se recursos, desestruturam-se as instituições e os espaços de participação social”, disse.  O ruir das políticas públicas afeta também as ações coletivas nos territórios, o que, por sua vez, tem impacto nos agroecossistemas.

“Mesmo assim, as redes não param”, disse Claudia. Neste sentido, Alvir Longhi, da organização CETAP (RS), convidou os/as participantes a pensarem temas aglutinadores – além do SPG – que poderiam constituir a estratégia política da Rede Ecovida para os próximos anos. O trabalho em torno da sociobiodiversidade e novas dinâmicas de comercialização, abarcando também a economia solidária, foram alguns dos temas levantados. Marilu Menezes, da Fundação Luterana de Diaconia (FLD), afirmou que “a Rede precisa assumir como eixo estratégico a superação de toda forma de violência de gênero, raça, etnia e orientação sexual”. 

Loyvana Perucchi, do Núcleo Serramar da Rede, lembrou da importância de termos formações políticas no âmbito dos núcleos e grupos. O vereador Marquito, de Florianópolis, trouxe a estratégia da construção de projetos de lei estaduais e municipais para avançar localmente na Agroecologia ainda que o cenário em nível federal esteja desfavorável. Também foi afirmada a importância de fortalecer a comunicação popular nas organizações da Rede, já que a disputa também é narrativa.

A programação também contou com os seminário sobre Produção local e ecológica de sementes e mudas, Sistemas agroflorestais e agrobiodiversidade e Produção animal: leite, aves de corte e ovos.

Durante a tarde os mais de 700 participantes do encontro, entre agricultores/as, consumidores/as e profissionais e organizações de apoio à Rede Ecovida se dividiram entre as 29 oficinas realizadas. Entre elas, a oficina sobre consumo consciente, facilitada pelo grupo de consumidores formados pelo Cepagro, em conjunto com o CETAP, Vianei e ASPTA, com apoio da Misereor.

O GT Gênero promoveu a oficina Mate e Debate sobre Gênero, reunindo mulheres dos três estados da Rede. Além de relatos de diversos tipos de violências que ainda acontecem em espaços públicos e privados da Rede, as mulheres colocaram também a importância de continuar os ciclos de encontros locais e regionais entre elas, como o I Encontro de Mulheres da Rede Ecovida de Agroecologia, realizado em Erechim em setembro. 

Nos intervalos, a tradicional Feira de Saberes e Sabores trazia toda a riqueza da produção da agricultura familiar agroecológica do sul do Brasil.

Plenária final traz encaminhamentos para a Rede e mostra força da união feminina

O XI EARE encerrou com a Plenária Final na manhã de domingo. Como de costume, neste momento a Rede deu as boas vindas aos novos Núcleos, que haviam sido anunciados no EARE de 2017: Núcleo Vale do Itapocu (SC), Núcleo Sudeste Gaúcho (RS), Núcleo Centro-Sul (PR) e Guarumbé (PR).

 Ivo Macagnan, do CAPA Saltinho e da coordenação da Rede, apresentou alguns  anúncios: hoje a Rede Ecovida conta com 3.400 famílias certificadas, o que representa quase 20%  dos certificados de produção orgânica no Brasil. Outro motivo de comemoração foi a dos avanços do sistema informatizado para a certificação participativa e do equilíbrio das contas da Rede.
Foi apresentada também a nova coordenação da Rede Ecovida.

Do seminário Sistemas agroflorestais e agrobiodiversidade, foi afirmada a necessidade de  fomentar a utilização de PANCS; de as ações de ATER retornarem para os agricultores familiares, que são os verdadeiros observadores e experimentadores; de avançar na certificação agroflorestal. “A Agroecologia é a agricultura do futuro, precisamos lutar para fortalecê-la”, disse Israel Lourenço, integrante do MST e relator.

Sobre Produção local e ecológica de sementes e mudas, os/as relatores/as afirmaram que a Rede Ecovida está preparada e tem capacidade para ter autonomia desses insumos em suas produções. “Precisamos olhar para as experiências que já existem e companheiros/as que já produzem mudas e sementes, fazer parcerias e visitas às instituições que trabalham o tema, formações para a circulação de conhecimento, não ver a semente de uma forma romantizada mas estratégica, fortalecer e honrar nossas sementes crioulas”, disseram. 

Na temática de Produção Animal, afirmou-se a necessidade de ampliar a produção animal na Rede Ecovida para além de bovinos e aves, fortalecer as agroindústrias de tratamento de leite, avançar na agroindustrialização coletiva, fortalecer a homeopatia no tratamento de doenças animais. Além disso, propôs-se que derivados de leite agroecológico sejam ofertados na alimentação escolar, assim como a sugestão de a Rede Ecovida editar um compêndio de receitas ecológicas para tratamento de animais.

Fechando a Plenária, as mulheres ocuparam novamente o palco para trazer encaminhamentos trabalhados pelo GT Gênero ao longo do ano, que envolvem a inclusão do tópico sobre violência de gênero e outras violações de direitos humanos como passível de perda de certificado no Manual de Procedimentos da Rede. Além disso, as mulheres anunciaram o requisito de todo Comitê de Ética de Núcleo, uma das instâncias da certificação participativa, ter uma mulher em sua composição. E chamaram a atenção para a importância das mulheres das famílias participarem nas visitas e reuniões da Rede. A intervenção foi fechada novamente com o lema Sem Feminismo, Não há Agroecologia, com o repasse da bandeira do movimento das mulheres, construída coletiva e localmente nos núcleos, para as companheiras que receberão o próximo Encontro Ampliado. O XII EARE será em Pinhão, no Paraná, com acolhimento do recém-formado Núcleo Centro Sul.

A alimentação é um ponto importante dos Encontros Ampliados da Rede Ecovida. Nesta edição, a preparação das refeições foi feita por seis chefes do Movimento Slow Food, em conjunto com quatro restaurantes locais. Foram servidos cerca de 1500 pratos por dia, feitos com alimentos agroecológicos dos agricultores e agricultoras da Rede, com um menu especialmente pensado para os/as vegetarianos/as.

Os chefes se dividiram entre os restaurantes seguindo um rodízio e  o ecochef do Convivium Slow Food Mata Atlântica, Fabiano Gregório, conta que todos os restaurantes queriam receber o menu vegetariano em algum momento, principalmente para aprender coisas novas: “Foi uma interação bem bacana, teve bastante troca de experiências e foi muito engrandecedor”, conta.

No domingo, os chefes do Slow se reuniram no Salão Paroquial para o almoço coletivo de despedida do XI EARE, uma forma de aproveitar os alimentos preparados sem gerar desperdício. Além de ser um momento de confraternização e celebração de mais um encontro realizado que deixou um gostinho de quero mais.

V Encontro Municipal de Agricultura Urbana debate: que projeto de cidade queremos?

As leis e programas existentes para a Agricultura Urbana no município estão sendo suficientes? Queremos uma Agricultura Urbana burocrática onde os informais não entram? Que projeto de cidade queremos? 

Esses foram alguns questionamentos feitos durante o V Encontro Municipal de Agricultura Urbana, realizado de 6 a 8 de novembro no Campus Trindade da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). O encontro foi organizado pela Rede Semear Floripa e teve como tema desta edição “a agricultura como modo de vida”.

E foi sobre este tema a primeira roda de conversa do encontro. A historiadora e pesquisadora da Agricultura Urbana, Giovana Callado foi uma das debatedoras convidadas. Ela chamou a atenção para a extinção das zonas rurais no plano diretor de Florianópolis, reflexo do projeto de urbanização que está em curso no município. Ao longo da conversa, o acesso à terra foi colocado como uma questão central para fortalecer a agricultura urbana e a produção de alimentos.

Os assentados da Reforma agrária, Fábio Ferraz e Bárbara Ventura, do Assentamento Comuna Amarildo, também reforçaram a importância da distribuição de terra. Fábio falou da necessidade de cobrar o mapeamento exato das áreas ociosas do município porque “a reforma agrária passa pela reforma urbana”, disse. Mas somente o acesso a terra não é suficiente, é preciso haver assistência técnica para agricultores/as familiares, que no caso da Comuna Amarildo veio por parte de ONGs, como o Cepagro e de universidades, não através do poder público, lembrou Bárbara.

Outra questão levantada em torno da AU foi a necessidade de fomentar os circuitos curtos de comercialização. A agricultora e membra da Federação dos Trabalhadores na Agricultura Familiar, Rita de Cássia Maraschin da Silva lembrou do caos gerado pela greve dos caminhoneiros. O episódio mostrou como ficamos vulneráveis quando dependemos de atravessadores. A produção de alimento local e a comercialização direta em feiras são um contrapontos a esse modelo. Rita comentou ainda que a feira da qual participa quinzenalmente em Ponta das Canas tem sido um espaço cultural de encontro e discussão política. Tanto Rita quanto Fábio Ferraz afirmaram a necessidade de incentivar não apenas a agricultura familiar e urbana, mas a Agroecologia, que é o movimento que tem feito um enfrentamento maior contra o agronegócio.

Na tarde do dia 6 de novembro, a tenda do V EMAU reuniu diferentes crenças e saberes durante a roda de conversa sobre Saberes Populares. A benzedeira da Barra da Lagoa, Sueli Adriano dos Santos, a umbandista Janaína Carla Correia e o professor indígena da Aldeia M’Biguaçu, Daniel Kuaray compartilharam com o público os seus saberes no uso das ervas medicinais.

Daniel falou sobre como as ervas usadas nos ritos e presentes na cultura alimentar dos Guarani Mbya estão relacionadas com a noção de território tradicional. Ele compara o canteiro de ervas com uma farmácia natural, assim como Sueli da Barra e Janaína, que além de mãe de santo é benzedeira.

O segundo dia de encontro continuou afirmando a existência da agricultura rural e urbana em Floripa com a presença dos e das agricultoras do Grupo Ilha Meiembipe da Rede Ecovida de Agroecologia, que trouxeram uma diversidade de produtos orgânicos produzidos na ilha. E quem passou pelo V EMAU na quinta-feira também pôde receber os cuidados terapêuticos com acupuntura e as benzeduras da Enivalda de Deus Paslandi, conhecida como Dona Baiana, na Tenda de Práticas Integrativas

Murilo Leandro Marcos, que é médico do SUS e atende na Lagoa da Conceição, conta que a Agroecologia e as Práticas Integrativas têm relação pois ambas estão na contracorrente dentro de suas áreas de atuação. “As duas vêem a saúde e o cuidado com a vida de uma forma integral”, complementa. Para Murilo, a Agroecologia e as Práticas Integrativas são formas ancestrais de relação que se integram com as novas tecnologias.

O médico lembrou que essas práticas foram incluídas no SUS a partir de 2006 com a aprovação da Política Nacional de Práticas Integrativas. A política foi ampliada nos anos de 2013 e 2017 e hoje engloba práticas como a homeopatia, ayurveda, massoterapia e práticas chinesas como a acupuntura. No município de Florianópolis nós tivemos alguns avanços no tema, aponta Murilo, mas as práticas integrativas, apesar de terem validação científica, ainda são marginalizadas: “A gestão municipal precisa investir em contratação de profissionais nessas áreas e em formação continuada aos profissionais que já atendem pelo SUS”. 

Na quinta-feira ainda foi realizada uma oficina de bambu na Sala Verde da UFSC. A atividade apresentou os inúmeros usos que essa planta pode ter, desde uso na construção civil e de móveis, na produção de materiais como fraldas e tecidos, até no uso do broto de bambu na alimentação.

E para finalizar o Encontro, a roda de conversa do último dia teve como tema Políticas Públicas e Agricultura Urbana. Participaram do debate organizações, agricultores/as, consumidores/as, pesquisadores/as e gestores/as públicos/as. Parte da conversa girou em torno do Programa Municipal de Agricultura Urbana (PMAU), aprovado em 2017. O PMAU foi construído coletivamente com a sociedade civil através da Rede Semear e do mandato do Vereador Marcos José de Abreu, conhecido como Marquito (PSOL).

O PMAU trouxe não apenas avanços, mas também novas demandas para o fortalecimento da agricultura urbana no município. A burocratização do programa foi uma das questões apontadas durante o debate. O Parque Cultural do Campeche (PACUCA), por

exemplo, que tem um trabalho reconhecido pela horta e gestão comunitária dos resíduos orgânicos no bairro, atualmente não conta com apoio institucionalizado, como lembrou Eduardo Rocha, diretor presidente do Cepagro. Essa burocratização tem invisibilizado algumas iniciativas que já acontecem no município.

Iniciativas estas que inclusive revertem em economia para o município. É o caso das compostagens comunitárias realizadas no Pacuca, Quintais do Córrego e em outros espaços que desviam toneladas do volume de resíduos que iria para o aterro sanitário. Além do fornecimento de insumos para a prática da compostagem, outra exigência colocada durante o EMAU foi o pagamento por serviço ambiental e de saneamento prestado por essas comunidades.

O Vereador Marquito também apresentou algumas demandas, como a aprovação de um plano de Estado e não apenas de governo ou de mandatos, para assim garantir a permanência de ações em AU. Um plano que garanta verba e um planejamento de ações com metas, apontou Silvane Dalpiaz do Carmo, Chefe do Departamento de Educação Ambiental da Floram. 

A realização do Censo Municipal das Agriculturas produtoras de alimentos orgânicos e agroecológicos da cidade também foi colocada como uma urgência pelo coletivo. Daiane Mastedine, representante da Comcap no PMAU disse que um mapeamento das iniciativas de AU em Florianópolis já começou a ser feito pela prefeitura.

Por fim, outro tema debatido ao longo da manhã de sexta-feira foi o acesso aos espaços ociosos do município. Eduardo Rocha, que também é membro do Conselho Municipal de Segurança Alimentar e Nutricional, comentou que “a agricultura urbana é produção e comercialização, mas também é ocupação do espaço” e defendeu a função social da terra. Para isso se faz necessário fazer um enfrentamento à especulação imobiliária dentro da ilha, complementou Silvane Dalpiaz do Carmo, da Floram.

As demandas apresentadas pela sociedade civil organizada ao longo dos três dias de Encontro foram incluídas na Carta Política do V EMAU. Além das já mencionadas, também foram colocadas como exigências a regulamentação da Política Municipal de Agroecologia e Produção Orgânica por meio de uma Conferência Local, a realização de formações livres e populares com incentivos provindos do orçamento público para a criação de espaços coletivos de hortas urbanas e feiras, a inclusão da produção urbana de alimentos orgânicos no plano diretor da cidade de Florianópolis, entre outras.

Eduardo Rocha, que participou da organização do evento comemorou a diversidade de participação no V EMAU. “Essa metodologia da roda de conversa, de ter sido em um espaço aberto, na rua foi muito acertada”, comenta. Nas discussões estiveram presentes agricultores/as, organizações ligadas a saúde mental, coletivos livres de compostagem, representantes de hortas comunitárias, do MST, da Reforma Urbana, consumidores/as, pesquisadores/as, além de representantes do poder público.

Ter optado por fazer o evento em na Universidade Federal também foi algo simbólico para Eduardo, por estar sofrendo grandes ataques ao longo do ano com contingenciamento e reestruturação. Especialmente a UFSC, “tão importante para o tema da agricultura urbana ao longo da última década em Florianópolis. Isso traz um simbolismo muito bacana”.

 

 

Cepagro leva metodologia de Hortas Escolares para estudantes e educadores no bairro Armação

O último sábado, 9 de novembro, foi dia de compartilhar um pouco da experiência com as hortas escolares. O Cepagro, em parceria com o curso de Educação do Campo da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), realizou uma formação sobre Hortas Educativas e Agroecológicas na escola Dilma Lúcia dos Santos, no bairro Armação. O curso contou com a presença de professores e professoras da escola e da Educação do Campo, além de estudantes e educadores interessados no tema.

Ao longo do dia, a agrônoma Karina Smania de Lorenzi apresentou a metodologia desenvolvida pelo Cepagro para trabalhar a horta pedagógica, aliando esse espaço com os conteúdos do currículo escolar. O curso foi divido em dois momentos e iniciou com uma explicação mais teórica no período da manhã. Karina trouxe o conceito de Agroecologia e do que é uma horta agroecológica. Falou também sobre os três eixos da horta escolar: gestão de resíduos e compostagem, horta educativa e agroecológica e segurança alimentar e nutricional.

Na horta escolar, que constitui um laboratório vivo para os/as alunos/as, os três eixos são abordados ao longo de todo o ano letivo, aliando sempre o calendário agrícola com o escolar. Karina falou ainda sobre como trabalhar a interdisciplinaridade com as hortas escolares, como envolver cada disciplina e quais as atividades possíveis de serem feitas pelos/as próprios professores/as.

O período da tarde foi voltado para as atividades práticas. Juntos, educadores/as e estudantes aprenderam a construir uma composteira didática em garrafas, ótima para a apresentar a gestão de resíduos orgânicos para as crianças. Como o dia foi de chuva, a turma aprendeu a construir uma horta agroecológica em caixas de feira. Também aprenderam a fazer produção de cogumelos shimeji, uma atividade possível de fazer em sala de aula e assim trabalhar a alimentação saudável.

Karina conta que através das atividades realizadas, os participantes puderam refletir as inúmeras possibilidades de integrar diferentes conteúdos e tornar um projeto de hortas escolares interdisciplinar. “Os participantes estavam muito integrados e foi um rico momento de compartilhar conhecimentos e refletir como a Agroecologia pode se inserir e transformar a escola e a comunidade escolar”, conta a agrônoma.

Para Fernanda Katharine de Souza Lins Borba, professora de ciências da Escola Dilma Lúcia dos Santos, o curso “foi uma grande oportunidade de reciclar conhecimentos e aprender novas técnicas agroecológicas que podem ser utilizadas no processo de ensino-aprendizagem”.

A metodologia das hortas escolares desenvolvida pelo Cepagro ao longo de mais de 10 anos de experiência com o tema foi reunida no Guia de Atividades: Educando com a Horta. O livro traz conteúdos e exemplos de atividades que podem ser feitas por educadores e assim trabalhar a educação ambiental e alimentar  nas escolas. Para que o Guia possa ser publicado nós lançamos uma campanha de financiamento coletivo disponível em benfeitoria.com/guiaeducandocomahorta.

A campanha vai até o dia 22 de novembro e está funcionando como uma pré-venda do livro. Acesse, veja as recompensas, faça a sua contribuição e ajude a levar as hortas pedagógicas para mais escolas do Brasil.

Cultura, arte, diversidade e ancestralidade enraízam o XI Congresso Brasileiro de Agroecologia

Intelectuais indígenas e lideranças quilombolas dividindo conferências com professores doutores, cordéis e repentes no lugar de currículos lattes, “tapiris de saberes” em vez de “seminários temáticos”. O tempero da arte e da cultura nordestinas deixaram o XI Congresso Brasileiro de Agroecologia muito mais do que popular, como era a expectativa: ficou arretado. Qualquer que seja o regionalismo usado, quem circulou pelo campus da Universidade Federal do Sergipe entre os dias 4 e 7 de novembro podia perceber que este CBA estava diferenciado em relação aos anteriores: mais aberto, mais diverso, mais popular, mais protagonizado por quem cultiva a Agroecologia diariamente. 

Com o lema Ecologia de Saberes: Ciência, Cultura e Arte na Democratização de Sistemas Agroalimentares, o Congresso deste ano rompeu com práticas costumeiras de eventos acadêmicos. Ao propor a horizontalidade de saberes como tônica das atividades – em que títulos universitários não contam ou valem mais do que a vivência como agricultor/a, parteira ou liderança de comunidade tradicional –  o CBA trouxe para a prática a construção do conhecimento na Agroecologia baseado justamente na ecologia, em que todos os elementos de um ecossistema são importantes. “O tema parte da compreensão de que a Agroecologia se constrói a partir da interação virtuosa entre prática, ciência e política”, informa a Comissão Organizadora, composta pela Associação Brasileira de Agroecologia e a Rede Sergipana de Agroecologia (RESEA), a ideia era torná-lo

Mais de 3 mil pessoas participaram do XI CBA, que teve a apresentação de cerca de 1.900 trabalhos. A flexibilidade para o formato das apresentações – que poderiam ser em vídeo, com relatos orais, fotos ou pôsteres – contribuiu para a diversidade dos/as participantes. Os antigos “seminários temáticos” foram transformados em Tapiris de Saberes, espaços de diálogo entre trabalhos acadêmicos, técnicos e populares, divididos em 16 eixos temáticos. 

Sustentando esta teia de saberes está a Pedagogia Griô, metodologia sistematizada pela educadora Lilian Pacheco e pelo griô Márcio Caires, que pauta que a construção do conhecimento passa pelo acúmulo da cultura de tradição oral, integrando linguagens diversas (artística, corporal, afetiva, científica, tecnológica) e empoderando diversos lugares de fala. Segundo Lilian Pacheco, griô é toda/o cidadã/o que se reconheça e seja reconhecido por sua própria comunidade território como herdeira/o dos saberes e fazeres da tradição oral local. Os Tapiris de Saberes eram o coração e as pontas da teia de conhecimentos do CBA, cujos fios abraçavam também ambientes organizativos-identitários, como plenárias e assembleias; ambientes de interação agroecológica, como tendas de grupos de trabalho e núcleos de estudos em agroecologia, instalações artísticas, rodas de conversa, conferências e oficinas; além dos ambientes permanentes, como a Ciranda Infantil, o Terreiro de Inovações Camponesas, a Feira de Saberes e Sabores, o Espaço de Cuidados Dona Chica e a Cozinha da Tradições. Animando e polinizando os intercâmbios da teia, estava a equipe das fiandeiras: artistas e comunicadores/as populares que faziam o registro e divulgação das atividades durante o Congresso. 

Outro esforço perceptível, degustável e palatável da Comissão Organizadora foi de fornecer a alimentação quase 100% agroecológica e local aos/às participantes. Dos 81 itens usados na alimentação, entre verduras, legumes, carnes, queijos, ovos e grãos, 73 vieram de 40 famílias sergipanas. Outros alimentos foram conseguidos junto às famílias do Movimento de Pequenos Agricultores da Bahia; só o sal e o azeite foram comprados em mercados convencionais, totalizando 9,3 toneladas de comida preparada ao longo de 4 dias de Congresso.   

Celebrando a presença de representantes de camponesas e camponeses, agricultoras e agricultoras, indígenas, quilombolas e a diversidade de povos e comunidades tradicionais do Brasil no CBA, a mesa de abertura do evento ressaltou o protagonismo desses sujeitos sociais nos territórios físicos e simbólicos de construção da agroecologia. Música, teatro, falas institucionais, abraços e trocas convocaram a missão política, afetiva, científica e espiritual de fiar e tecer a Agroecologia, reconhecendo a importância dos povos do campo, das florestas e das águas e da população LGBTQI+. Alexandre Pires, da Articulação do Semiárido Brasileiro (ASA), ressaltou o caráter “insurgente” que o movimento agroecológico deve assumir: “Insurgência contra o autoritarismo, as injustiças e violências contra as pessoas e a natureza”, afirmou.

Plenárias identitárias e organizativas: a voz e vez dos movimentos sociais, comunidades tradicionais, juventudes e LGBTQI+

Reconhecer a diversidade de quem constrói a Agroecologia passa pelo escutar e ecoar suas vozes. Assim, o CBA alinhou-se ao Encontro Nacional de Agroecologia, valorizando em sua programação a Plenária das Mulheres e das Juventudes, já ocorridas em outras edições, e trazendo neste ano da dos movimentos sociais e conferências LGBTQI+. Os povos e comunidades tradicionais, como os/as indígenas, quilombolas, pescadores/as, ribeirinhos/as e marisqueiros/as também marcaram presença, trazendo suas demandas, denúncias e anúncios.

Na Plenária dos Movimentos Sociais, realizada no dia 5, movimentos sociais do campo, da cidade e das águas pautaram seu “outro modo de viver, enraizado na rebeldia da ancestralidade”. A análise de conjuntura ficou a cargo de três companheiras: Dalva da Graça, da Frente Brasil Popular; Josi Costa, do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) e Mazé Morais, da Secretaria de Mulheres da CONTAG e Marcha das Margaridas. Compreender a essência da conjuntura atual e provocar os/as presentes a repensar e redefinir suas estratégias de mobilização e formação de base foram alguns dos pontos discutidos durante a atividade, que encheu e coloriu a Tenda Cacumbi com as bandeiras dos movimentos e com a arte e cultura do grupo teatral Raízes Nordestinas, que fez a mística de abertura.

Na quarta, dia 6, os movimentos realizaram um ato público “Em defesa da Agroecologia e do povo brasileiro”, levando a luta agroecológica para as ruas. Os/as militantes denunciavam o aumento no índice de liberação de agrotóxicos neste ano, assim como a tragédia crime do petróleo na costa do Nordeste e a negligência governamental frente a isso, além da retirada de direitos, como a  Reforma da Previdência. Defenderam o projeto popular camponês com soberania alimentar, terra, água e agroecologia, pois “quem alimenta o país, merece respeito”, bradavam. A marcha saiu da Praça General Valadão, no Centro de Aracaju, e seguiu até a frente da Superintendência do Ministério da Agricultura. Após os discursos de representantes do Movimento de Mulheres Camponesas, Movimento de Pequenos Agricultores (MPA) e Movimento Camponês Popular, o ato terminou com uma intervenção artística que “derramou petróleo” na fachada do prédio.

Nesta edição 2019, pela primeira vez o CBA teve atividades com pautas da população LGBTQI+. “Se a Agroecologia se propõe como projeto holístico, precisa ser sem opressões”. A provocação de Adriano Matos, do Coletivo LGBT do Movimento Sem Terra, veio durante a Roda de Diálogo “Onde estão as pessoas LGBT da Agroecologia?”, permeada de relatos de medos, silenciamentos e superações diversas vividos por pessoas LGBTQI+ ao longo de suas vidas. Partilhas de resistência por seus modos de ser e amar entremearam-se às fortes performances artísticas de Maurício Leonard e Mateus Cerqueira. Camila Penna trouxe dados sobre a população LGBTQI+ e xs conferencistas – Gabriela Souza, Gabriel Ornelas, Linda Brasil e Adriano Matos – mesclaram seus relatos de vida as suas bandeiras e conquistas de luta.

A tragédia crime do petróleo nas praias nordestinas e o XI CBA

A denúncia do maior desastre ambiental da história brasileira esteve presente em outros espaços do CBA. Houve rodas de conversa específicas sobre a tragédia crime, assim como lideranças comunitárias e de movimentos verbalizaram o drama das famílias que vivem das águas em suas falas durante conferências e também durante o fechamento do Congresso, com a leitura da carta dos Movimentos de Pescadores e Pescadoras Artesanais do Sergipe e da Bahia. A carta responsabilizou a indústria petrolífera pelo desastre, assim como criticou a falta de um plano de contingência e de assistência às famílias afetadas por parte do governo. 

A quem pertence bens comuns como mares, praias, mangues, dunas, lagoas? Quando estes ecossistemas são afetados ou restringidos em nome do desenvolvimento, como ficam as populações tradicionais que dependem do seu equilíbrio? Esses foram alguns dos questionamentos suscitados durante o CBA, em atividades como a Conferência “Políticas Públicas de Agroecologia para a preservação da biodiversidade e bens comuns das agricultoras, agricultores e povos e comunidades tradicionais”. Durante a atividade, a líder quilombola e pesqueira Luciana Silva, do Quilombo do Cumbe, no Ceará, trouxe para o público do XI CBA a forte conexão entre as comunidades tradicionais e seus territórios, que vão muito além da concepção urbana e burguesa de propriedade privada. “A gente não precisa só de casa, mas de nosso território, lagoas, mangues e dunas para sobreviver. A gente que está no território, tá defendendo não só nossa vida, mas de todo um povo”, disse. O petróleo está quase invadindo os mangues do Quilombo do Cumbé, ecossistema fundamntal para a sobrevivência de comunidades pesqueiras. “Nosso cheiro é o cheiro do mangue. Quando morre um mangue, nós morremos também”, dizia a carta dos movimentos pesqueiros. 

Não são poucas as lutas empreendidas por comunidades tradicionais como a de Luciana para manter seu modo de vida, profundamente conectado aos seus bens comuns. Desde a década de 70, o Quilombo do Cumbé vem resistindo frente a megaprojetos de “desenvolvimento”, assim como a expansão da criação extensiva de camarões (carcinicultura) e, mais recentemente, da energia eólica. “Dizem que a energia eólica é limpa. Mas como pode ser limpa se passa por cima de comunidades e de sua cultura? E nós, que somos afetados, nem sabemos pra onde essa energia vai?”, questionou Luciana. Além da raiz ancestral da comunidade, o que alimenta sua resistência é muita negociação e tentativas de construção de políticas públicas locais, ainda que “nosso governo local não reconhece nossa comunidade como comunidade quilombola pesqueira”, disse Luciana. 

Por uma ciência que dialogue com a cultura e com as lutas: a Carta Sergipana do CBA 

A atuação das fiandeiras na circulação entre as atividades colaborou para a construção do documento final do XI CBA, que afirma: “Ao nos posicionarmos em defesa de uma ciência crítica em diálogo com a cultura e a arte popular, afirmamos a necessidade de que as instituições científico-acadêmicas sejam orientadas pela justiça social, que reconheçam e valorizem as vozes e os saberes dos sujeitos historicamente subalternizados, abrindo horizontes para a criação de uma sociedade estruturada pela justiça cognitiva e epistêmica. Assim, reiteramos que a Agroecologia – como Ciência, Movimento e Prática -, reconhece e constrói saberes e conhecimentos, na luta por uma sociedade justa e igualitária e em diálogo com as práticas cotidianas dos povos do campo, das águas, das florestas e das cidades. Nessa perspectiva, se reafirma como uma das chaves interpretativas que nos desafia a um novo fazer acadêmico/científico.” Além das denúncias e anúncios ecoados durante o Congresso, a carta reafirmou a importância da defesa da Universidade Pública: “Defendemos a Universidade como território emancipatório para a construção da agroecologia pela via da Ecologia de Saberes, o que supõe o exercício de uma ciência cidadã, crítica, popular, inclusiva e livre. Essa é a universidade que acreditamos e defendemos. Não aos cortes para a Educação. Não ao Future-se!

No cortejo final do Congresso, após cantorias sagradas,  poesias, louvações, encantamentos, apresentações de vídeos, leitura de cartas políticas, reafirmação de pautas, as fiandeiras embalaram o público cantando “O CBA vai-se embora, vai deixar rastro na areia”. Rastro nos corações e mentes reafirmando a Agroecologia como Ciência, Movimento e Prática enraizada na horizontalidade de conhecimentos e saberes. 

Cepagro inicia projeto para a implantação da adubação verde junto a Famílias Agricultoras da Rede Ecovida

Nova parceria institucional junto ao Cepagro começa a oportunizar a implantação e ampliação de cultivos de adubos verdes no Núcleo Litoral Catarinense da Rede Ecovida de Agroecologia. Trata-se da The Conservation, Food & Health Foundation, que através de seu Conselho de Curadores selecionou 15 propostas entre mais de 300 apresentadas dos quatro distintos continentes onde as iniciativas são apoiadas.

A proposta do Cepagro em conjunto com a doutoranda Anne Elise Stratton, da Universidade de Michigan (EUA) é voltada para os cultivos de adubação verde, que têm como objetivo fornecer cobertura e nutrientes para o solo e assim reduzir custos e aumentar a produtividade das famílias agricultoras. A proposta teve sua relevância considerada por trazer a perspectiva do trabalho direto com famílias agricultoras dos municípios de Angelina, Leoberto Leal, Major Gercino, Nova Trento e Santa Rosa de Lima. O projeto também inclui famílias fumicultoras que buscam alternativas ao cultivo do tabaco.

Ao estar sendo fundamentado por pesquisa de doutorado diretamente aplicada a campo, o projeto une extensão rural e pesquisa acadêmica em sintonia com a realidade das famílias agricultoras. Na prática, a adubação verde tem mostrado como manejos adequados resultam em economia, boa saúde para quem trabalha e consome alimentos destas terras e principalmente geram autonomia perante as grandes corporações fabricantes de agroquímicos, além de fortalecer os grupos de base.

O coordenador de desenvolvimento rural do Cepagro, Charles Lamb, conta que esta demanda de trabalho vem sendo identificada já de alguns anos. Por isso, “está tendo uma ótima adesão das famílias participantes, principalmente por trazer inovação no acesso a este tipo de cultura agrícola ainda pouco disseminada na região. Tanto pela falta de sementes, como por carência de orientação e capacitação, ‘insumos’ que se tornam determinantes para o estabelecimento desta importante prática conservacionista de solos e mananciais”.

Ainda como objetivos previstos no projeto, destacam-se: A capacitação de um grupo principal de 15 a 20 famílias agricultoras no uso de cobertura vegetal por meio de pesquisa participativa em andamento, o desenvolvimento dessas unidades como “centros de recursos” para culturas de cobertura, com parcelas de demonstração e compartilhamento de sementes e equipamentos, a institucionalização das culturas de cobertura nos planos de manejo da rede de certificação participativa e a realização de saídas de campo nas áreas demonstrativas. 

A The Conservation, Food & Health Foundation, conforme seu site “procura proteger os recursos naturais, melhorar a produção de alimentos e promover a saúde pública na Ásia, África, América Latina e Oriente Médio”. E assim seguimos, promovendo e agradecendo as boas parcerias e conquistas nesses tempos difíceis de negação dos impactos gerados por uma agricultura poluidora e dependente de agroquímicos. No Cepagro, acreditamos que sustentabilidade não é só renda, é água limpa, é solo sadio, é pessoas com saúde espalhando sementes e felicidades.

Florianópolis recebe Tenda da Rotulagem na última semana de consulta pública da Anvisa

Ação que será realizada em 9 capitais nesta segunda-feira ajuda a população a entender problemas da rotulagem de alimentos e mostra como consumidores podem contribuir

Nesta segunda-feira, 4 de novembro, o Cepagro junto do Núcleo de Pesquisa de Nutrição em Produção de Refeições (NUPPRE), em parceria com o Instituto de Defesa do Consumidor (Idec) e outras organizações que compõem o Núcleo da Aliança pela Alimentação Adequada e Saudável em Santa Catarina realizam, em Florianópolis, a Tenda da Rotulagem. A ação que tem como objetivo discutir os problemas da rotulagem de alimentos no Brasil e apresentar a proposta de uma nova rotulagem para a melhoria das embalagens. O evento ocorre no Floripa Fort Atacadista, na Rod. José Carlos Daux, em Santo Antônio de Lisboa, das 10h às 16h.

Na atividade, os participantes serão apresentados à proposta de rotulagem nutricional desenvolvida pelo Idec em parceria com designers da informação da Universidade Federal do Paraná (UFPR). A ação ocorre em outras 8 capitais e chama atenção para a semana de encerramento da consulta pública sobre rotulagem nutricional de alimentos no País, aberta pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) no final de setembro e que recebe contribuições até 7 de novembro.

A proposta da Tenda da Rotulagem é interagir com a população e mostrar como contribuir para que as embalagens de bebidas e alimentos ultraprocessados (como biscoitos, cereais matinais e refrigerantes) tenham uma rotulagem adequada com sinais de advertência para identificar nutrientes críticos em excesso, como açúcar, sódio e gorduras.

Além disso, os organizadores mostram como diversos produtos ultraprocessados não só escondem informações importantes do consumidor, como apresentam alegações supostamente saudáveis como “rico em fibras”, “integral”, “rico em cálcio”, “rico em vitaminas”, apesar de conterem excesso de sal, açúcar e gorduras e outros nutrientes acima dos níveis recomendados pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

O número de pessoas obesas no Brasil cresceu 65,8% nos últimos 13 anos. Uma a cada três crianças está acima do peso e segundo estimativas do Ministério da Saúde, até 2025, a população infantil com obesidade chegará a 11,5 milhões. Com o objetivo de atuar na prevenção dessa e de outras doenças crônicas como a diabetes e alguns tipos de câncer, o Idec tem liderado a discussão para a inclusão de alertas na parte frontal dos produtos alimentícios ultraprocessados.

O Cepagro apoia o modelo de alertas frontais porque, segundo Gisa Garcia, Engenheira Agrônoma do Cepagro, “a proposta da nova rotulagem vem para informar de forma clara e objetiva se aquele alimento embalado tem excesso de açúcar, sódio ou gorduras saturadas. Pesquisas mostram que a maioria dos consumidores não leem lista de ingredientes nas embalagens, e quando leem não compreendem pois estão escritas de forma técnica. Os alertas então facilitarão a compreensão do consumidor sobre o que está comendo, sendo uma informação que pode fazê-lo escolher opções mais saudáveis”.

Além de Florianópolis, a ação ocorre nesta segunda-feira também em Belém, Brasília, Campo Grande, Maceió, Porto Alegre, Rio de Janeiro, Recife e São Paulo. Saiba mais sobre proposta de rotulagem e como participar da consulta publica em: https://idec.org.br/embalagem-ideal/o-que-voce-pode-fazer

SERVIÇO:

Tenda da Rotulagem em Florianópolis

Endereço: Floripa Fort Atacadista, na Rod. José Carlos Daux, 9580 – Santo Antônio de Lisboa.

Data: 04/11/2019 – segunda-feira

Horário: 10h às 16h