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Cepagro e Fundesyram realizam formação online sobre compostagem para organizações latino americanas

Brasil, El Salvador, Colômbia, Bolívia, Equador, Nicarágua e Estados Unidos. Representantes de organizações desses sete países estiveram reunidas no webinar “Compostagem, semente para o desenvolvimento da Agroecologia Familiar”, realizado pelo Cepagro e Fundesyram (El Salvador) com o apoio da Fundação Inter Americana (IAF) através do projeto Saberes na Prática em Rede.

O webinar teve como objetivo compartilhar com outras pessoas e organizações os fundamentos teóricos e práticos para a compostagem em escala familiar, prática que contribui para uma maior autonomia nutricional e resiliência em momentos de crise, como esta apresentada pela pandemia da Covid-19. O evento online foi realizado no dia 11 de junho e contou com a participação de pelo menos 70 pessoas, boa parte delas vinculadas a organizações donatárias da IAF. O webinar também foi uma forma de readaptar o já tradicional Curso de Gestão Comunitária dos Resíduos Orgânicos e Agricultura Urbana do Cepagro, realizado anualmente há quatro anos mas que teve sua 5ª edição suspensa por conta da pandemia.

Foi na última edição deste curso, realizada em 2019, que Cepagro e Fundesyram estabeleceram parceria no tema da compostagem, com a vinda de dois técnicos da organização salvadorenha a Florianópolis. Além de conhecer diferentes experiências de Agroecologia de Santa Catarina, os técnicos Juan Antônio Ruiz e Jose Jesus Cordova Miranda participaram do Curso de Compostagem e levaram o Método UFSC de compostagem para seu país. Em um ano, fizeram experimentos com compostagem adaptando o Método UFSC para o contexto de El Salvador e lá socializaram a metodologia da gestão comunitária dos resíduos orgânicos junto à pelo menos 8 grupos de agricultores/as e instituições, como a Universidade de El Salvador, levando a metodologia a cerca de 15 municípios.

Durante o webinar (assista na íntegra), os técnicos Júlio Maestri, do Cepagro e Jose Jesus Cordova Miranda, da Fundesyram explicaram os fundamentos teóricos da compostagem, contanto um pouco sobre sua história e desenvolvimento. Na sequência, demonstraram na prática o passo a passo da montagem e manejo de dois modelos de composteira: a leira estática para ambientes externos e a composteira de balde, para a compostagem em ambientes internos. 

Júlio e Jose também demonstraram as possibilidades e benefícios de se fazer a compostagem em escala familiar e comunitária. Um dos benefícios é ser uma alternativa ecológica ao descarte de resíduos orgânicos, que representa altos custos tanto aos cofres públicos quanto para o meio ambiente. Segundo dados do relatório do Ministério do Meio Ambiente e Recursos Naturais de El Salvador para o ano de 2018*, apresentado por Jose Jesus, diariamente são geradas cerca de 3.500 toneladas de resíduos, sendo que aproximadamente 65% desse montante é orgânico. O valor gasto mensalmente para descartar de forma convencional essa porção orgânica é em média de $58.600 dólares.

Além de desviar a maior parte dos resíduos dos aterros, a segregação e tratamento dos orgânicos diretamente na fonte através da compostagem pode gerar maior autonomia na produção de alimentos orgânicos para subsistência. Além disso, como comenta Jose Jesus, “através da compostagem, não gera-se apenas adubo, mas também renda com a venda do composto, tanto sólido como líquido. Além de gerar também maior consciência nas famílias e uma contribuição real ao meio ambiente”. Por isso a percepção da compostagem como a semente para a Agroecologia.

“A compostagem proporciona uma mudança de visão que temos sobre os resíduos orgânicos”, afirma o Engenheiro Agrônomo Júlio Maestri. E não apenas: “quando trabalhamos com compostagem, acabamos integrando os saberes. Através da compostagem podemos reivindicar direitos, melhorar a saúde de uma comunidade, aprimorar práticas de hortas, de plantas medicinais e articular todos os setores de uma cidade”, complementa.

Para María Teresa Fernández Ampié, presidenta da Coordinadora de Mujeres Rurales da Nicarágua, a compostagem pode ser uma prática para fortalecer a Soberania Alimentar das comunidades em que atuam. María Teresa e sua companheira de organização Lisseth de los Angeles Escalante participaram do webinar com o objetivo de agregar valor nas práticas que têm realizado no tema da compostagem. A Coordinadora de Mujeres Rurales é uma organização não governamental formada por mulheres rurais nicaraguenses que atua pela defesa dos direitos das mulheres, tendo como enfoque o acesso à terra.

A organização localiza-se fundamentalmente no corredor seco da Nicarágua, na região de Chinandega e desde 2011 tem assumido a Agroecologia como posição política. Buscando melhorar a fertilidade do solo e ficar livres dos insumos agroquímicos, as agricultoras ligadas à organização geram adubos orgânicos a partir dos insumos que possuem em suas parcelas agrícolas e dos resíduos que saem de suas casas, bem como utilizando os microrganismos de montanha encontrados em algumas localidades.

Além de ampliar e compartilhar conhecimentos no tema, María e Lisseth participaram do webinar a fim de conhecer experiências e organizações de outros países, “porque quanto mais nos conhecemos e conhecemos o que outras pessoas e organizações estão fazendo, posicionamos a Agroecologia como uma posição política que se contrapõe a esse modelo capitalista e depredador que mata a vida. E porque estamos convencidas de que a Agroecologia é mudança de imaginário, é ter consciência política e ver a vida de uma perspectiva mais ampla”.

E de fato o webinar colocou organizações e pessoas em contato. A partir de então foi formado um grupo de pessoas interessadas no tema e há duas semana um novo momento de encontro foi realizado. Esta segunda “tertúlia” (espécie de reunião de amigos para troca de ideias) – como foi apelidada – buscou ir um pouco mais a fundo no tema, respondendo dúvidas mais específicas e compartilhando os avanços da compostagem nos territórios. Neste encontro estiveram presentes dois jovens agricultores da Asociación de Productores Orgánicos de La Sierra Cauca (Asprosi) da Colômbia, Elizabeth Garzon Piamba e José Luis Cruz.

Elizabeth Garzón nos contou que no ano passado um grupo de agricultores/as de sua comunidade, localizada no departamento de Cauca, iniciou um projeto piloto de compostagem a fim de gerar matéria prima para recuperação do solo, agricultura orgânica e desviar os resíduos orgânicos que atualmente são levados ao aterro sanitário do município vizinho. 

Ela conta que o grupo tem aprendido muito na prática e que o webinar “ajudou a visualizar como ir melhorando o controle da umidade já que aqui no exercício que estivemos fazendo, tivemos um problema quando o composto entrou na fase de maturação, com o aparecimento de moscas”. Elizabeth também enxerga a importância de estar em rede: “Na prática estamos aprendendo e conhecer vocês reforça a vontade de seguir avançando em nossos processos, pois já não somos mais sete, somos muitos que queremos contribuir com a transformação dos territórios e estamos trabalhando da mesma forma e com a mesma energia”.

Para seguir construindo e promovendo esse tipo de relação, o Cepagro em parceria com a Fundação Inter Americana seguirá promovendo webinares sobre diferentes temas que permeiam o movimento agroecológico. Na próxima sexta-feira, 31 de julho, a conversa será sobre o tema da comercialização de alimentos agroecológicos a nível de América Latina. Estarão presentes no webinar as representantes do Centro de Tecnologias Alternativas Populares (CETAP) do Rio Grande do Sul, Cíntia Gris,  da Cooperativa Paraguay Orgánico, Daniela Solís e Rosa Murillo, do Movimiento de Economia Social y Solidária do Equador (meSSe).

O webinar “Comercialização de alimentos agroecológicos: construindo caminhos” será realizado às 15h do Brasil. A transmissão ao vivo será feita através do link: www.facebook.com/events/1171621813216315.

*Dados do Ministério do Meio Ambiente de El Salvador

Mais de R$ 73 mil arrecadados para reconstrução de casas atingidas pelo ciclone na aldeia Tekoá Vy’a

O ciclone bomba que passou por Santa Catarina há duas semanas, danificou e destruiu milhares de casas, deixando muitas famílias desabrigadas em meio às baixas temperaturas do inverno catarinense. Entre as comunidades atingidas encontra-se a Aldeia Guarani Tekoá Vy’a, localizada em Major Gercino. Visando recuperar os estragos feitos na comunidade, o Cepagro aprovou uma proposta no valor de R$ 60 mil junto ao Instituto Comunitário da Grande Florianópolis, o ICOM.

O recurso vem da Linha de Apoio Emergencial voltada para a reconstrução de residências atingidas pelo ciclone que compõe o Fundo de Impacto para Justiça Social do ICOM. Esse fundo é formado por doações de pessoas físicas e de organizações e conta com recursos mobilizados junto ao Fundo CasaCom esse valor serão reconstruídas pelo menos 5 casas para as famílias Guarani Mbya. Parte do recurso será utilizado para o pagamento de construtores da própria comunidade, até mesmo para evitar o risco de contaminação por Covid-19. 

O Cepagro mantém contato direto com as lideranças da Tekoá Vy’a (Aldeia Feliz), principalmente por conta do projeto Terra, Comunicação e Artesanato sustentáveis: iniciativas para o fortalecimento das Tekoá Guarani, apoiado pelo Instituto das Irmãs da Santa Cruz. Assim que ficamos sabendo dos estragos feitos na comunidade, informados pela liderança Cecilia Piraí,  também lançamos uma campanha de arrecadação. Em uma semana a contribuição de pelo menos 117 pessoas somou um total de R$ 13.890,21. Também foram arrecadadas máscaras, colchões e fogões.

Também solidarizados, o Centro de Estudos Budistas e Bodisatva (CEBB) e Instituto Caminho do Meio realizaram uma campanha para a arrecadação de roupas, colchões, cobertores e outros itens perdidos ou danificados com a passagem do ciclone, o que resultou em mais uma parceria em prol da Comunidade Guarani da Aldeia Tekoá Vy’a. Muito importante também foi a parceria com o Polo Regional da Secretaria Especial de Saúde Indígena (SESAI) que garantiu a segurança sanitária na entrega dessas doações, já que a preocupação em evitar a contaminação pelo novo coronavírus esteve presente durante todo o processo.

Além disso, esta ação emergencial envolveu outros parceiros como a FUNAI, a Defesa Civil, o Conselho Estadual dos Povos Indígenas (CEpin), a Ação Social Arquidiocesana (ASA) e a Cáritas. Nós agradecemos pela confiança e solidariedade de quem contribuiu ou ajudou na divulgação da campanha. A comunidade Guarani está muito unida e reconhecendo as forças e ajudas dos juruás (dos brancos/não indígenas). “Eu fico muito feliz. Feliz pelo meu tio [Cacique Artur] e pelas crianças. Me sinto feliz de conseguir nem que seja um pedacinho”, diz Cecilia Piraí, que contatou o Cepagro e nos informou sobre a situação e necessidades da comunidade.

Fórum Catarinense de Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional e Consea/SC lançam manifesto pelo Direito Humano à Alimentação Adequada

A pandemia, além de escancarar as desigualdades sociais existentes na sociedade brasileira e provocar o aumento da fome e do desemprego, evidenciou a importância do papel do Estado na vida das pessoas. É dele a inalienável e intransferível obrigação de promover e garantir o bem estar da população, promover a justiça social e zelar pelos princípios constitucionais para todas e todos. Se o Estado não cumpre este papel, ele deixa de ser o espaço das oportunidades e da justiça, para se tornar mais uma estrutura opressora, alienante e violenta.

Foi com essa compreensão que um conjunto de entidades e movimentos sociais que compõem o Fórum Catarinense de Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (FCSSAN) e o Conselho Estadual de Segurança Alimentar e Nutricional (CONSEA/SC) lançaram o Manifesto pelo Direito Humano à Alimentação Adequada. Nele estão reunidas reivindicações que vêm sendo colocada por diversos setores sociais desde o início da quarentena.

O manifesto é também uma carta denúncia sobre a falta de diálogo do governo estadual com a sociedade civil através dos conselhos, como o Consea/SC e o Conselho Estadual de Alimentação Escolar (CEAE/SC). Por fim, o manifesto é uma reflexão sobre qual é o papel do Estado e sobre o modelo de país e sociedade que se deseja para o Brasil. 

Pessoas e organizações são convidadas a assinar o manifesto e dessa forma cobrar do governo estadual o cumprimento de suas obrigações pela garantia do direito mais básico e fundamental, o Direito Humano à Alimentação Adequada e da Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional.

Leia o manifesto na íntegra: https://cutt.ly/byVDkIe

E assine acessando o link: https://cutt.ly/AyBxGOU

Carta do Núcleo Santa Catarina da Aliança pela Alimentação Adequada e Saudável

Aos Gestores e Autoridades dos Poderes Públicos Federal, Estadual e Municipais do Estado de Santa Catarina 

A Aliança Pela Alimentação Adequada e Saudável foi criada em 2016 e reúne organizações da sociedade civil de interesse público, profissionais, associações e movimentos sociais, atuantes em todo o país. Tem o objetivo de desenvolver e fortalecer ações coletivas que contribuam com a realização do Direito Humano à Alimentação Adequada (DHAA) por meio do avanço em políticas públicas para a garantia da Soberania e Segurança Alimentar Nutricional (SSAN) no Brasil. 

A Aliança tem um núcleo local em Santa Catarina que busca ampliar e fortalecer as ações de promoção da saúde no Estado.

Diante da pandemia global provocada pelo novo coronavírus, que chega ao país num contexto de extrema fragilidade das políticas sociais, o Núcleo SC vem por meio deste pleitear para que os direitos à saúde e à alimentação da população brasileira sejam respeitados, protegidos e garantidos. 

Considerando: 

A alimentação como um direito social, estabelecido no art. 6º da Constituição Federal Brasileira , após a Emenda Constitucional nº 64, de 4 de fevereiro de 2010, devendo o poder público adotar as políticas e ações que se façam necessárias para promover e garantir a segurança alimentar e nutricional da população, conforme disposto na Lei nº 11.346, de 15 de setembro de 2006, que cria o Sistema Nacional de Segurança Alimentar – SISAN; 

A declaração da Organização Mundial da Saúde – OMS de emergência em saúde pública , em decorrência da infecção humana pelo novo coronavírus – Covid-19, e a Portaria nº 356, de 11 de março de 2020 do Ministério da Saúde que dispõe medidas de isolamento social e quarentena; 

A publicação do Decreto Legislativo nº 6, de 20 de março de 2020, que reconhece o estado de calamidade pública e da emergência de saúde pública de importância internacional decorrente do novo coronavírus – Covid-19 ; 

O Decreto nº 525 , de 23 de março de 2020, do Estado de Santa Catarina , que dispõe sobre novas medidas para enfrentamento da emergência de saúde pública de importância internacional decorrente do coronavírus e estabelece isolamento social, período de quarentena e outras providências; 

A Medida Provisória nº 957 de 24 de abril de 2020, que abre crédito extraordinário, em favor do Ministério da Cidadania, no valor de R$ 500.000.000,00 (quinhentos milhões de reais), para atender ao Programa Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional através do Programa de Aquisição de Alimentos; 

A publicação da Lei nº 13.987, de 7 de abril de 2020, que altera a Lei nº 11.947, de 16 de junho de 2009, para autorizar, em caráter excepcional, durante o período de suspensão das aulas em razão de situação de emergência ou calamidade pública, a distribuição de gêneros alimentícios adquiridos com recursos do Programa Nacional de Alimentação Escolar – PNAE aos pais ou responsáveis dos estudantes das escolas públicas de educação básica; e a sua Resolução n० 02, de 09 de abril de 2020; 

A Resolução nº 10/2020/SAR/CEDERURAL, que dispõe sobre a descentralização de recursos do Fundo Estadual Desenvolvimento Rural de Santa Catarina para celebração de convênios com os municípios para a aquisição de produtos da agricultura familiar, por meio do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), na modalidade Compra Institucional, com a finalidade de destinação às famílias em situação de insegurança alimentar e nutricional no contexto do estado de calamidade pública declarado pelo Decreto nº 562, de 17 de abril de 2020 (Combate à COVID-19). 

Exigimos a garantia desses direitos, por isso propomos: 

1) Apoio e fortalecimento às feiras e a todos os mercados caracterizados como “circuitos curtos de comercialização” e da “economia solidária” 

As feiras são instrumentos essenciais para a garantia ao DHAA. Portanto, apoiar a comercialização de produtos da agricultura familiar e de base agroecológica é uma importante estratégia emergencial, garantindo a oferta de alimentos frescos e saudáveis para população e ainda garantindo a renda para famílias agricultoras. 

Já os circuitos curtos de comercialização, por meio dos quais os alimentos vão diretamente do produtor ao consumidor, oportunizam preços mais justos para o produtor e favorecem o acesso das famílias mais vulneráveis a alimentos saudáveis, especialmente em periferias e favelas. 

Ainda, as iniciativas de economia solidária (cooperativas, associações, grupos de trocas) propõem um modo de produção alternativo que garante a distribuição de renda entre seus envolvidos, contribuindo para diminuição das desigualdades sociais. A exemplos são as cooperativas, associações e grupos de trocas. 

Requeremos, dessa forma, que os gestores nas esferas federal, estadual e municipal garantam o funcionamento e mantenham o apoio a estas iniciativas, bem como incentivem sua ampliação, de forma a garantir o acesso a alimentos saudáveis para o conjunto da população do Estado. 

2) Apoio e fortalecimento aos Restaurantes Populares e Cozinhas Comunitárias Os Restaurantes Populares são equipamentos públicos de SSAN e têm o objetivo de ofertar refeições saudáveis e a preços acessíveis. 

Desse modo, podem auxiliar a reduzir o número de pessoas que tiveram sua situação de insegurança alimentar agravada pela pandemia. 

Requisitamos que o Governo Estadual e os Governos Municipais busquem colaboração com cozinhas industriais do “Sistema S” e de restaurantes privados, tanto na doação de alimentos para compor as cestas básicas quanto para o preparo das refeições a serem entregues nos equipamentos públicos. E que também contribuam, através de doação de recursos e alimentos, com as Cozinhas Comunitárias em atividade nas comunidades periféricas, bem como aquelas geridas pela sociedade civil organizada. 

3) A realização de compras institucionais da agricultura familiar 

As compras institucionais, públicas e privadas, constituem-se em importante instrumento para o estímulo à promoção de sistemas agroalimentares sustentáveis, seja por meios dos programas governamentais ou da obrigatoriedade das compras via empresas que prestam serviços terceirizados. 

O Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), criado pelo art. 19 da Lei nº 10.696, de 02 de julho de 2003, possui duas finalidades básicas: promover o acesso à alimentação e incentivar a agricultura familiar. 

Dessa forma, os Governos Federal, Estadual e Municipal devem manter o recebimento e distribuição de alimentos pelos Bancos de Alimentos, priorizando as organizações de assistência social que atendem os grupos de risco e as de longa permanência. Os bancos de alimentos podem ainda exercer o papel de apoiar as diferentes redes locais de solidariedade, pois possuem estrutura e experiência para conectar doadores e instituições. 

O PAA também pode abastecer outros Equipamentos Públicos de SSAN, como os Restaurantes Populares e Cozinhas Comunitárias para os municípios que não possuem Bancos de Alimentos públicos ou privados. Cabe destacar, que a modalidade do PAA ‘Compra com Doação Simultânea’ permite o acesso das populações vulneráveis por meio da rede socioassistencial dos municípios. 

É necessário e urgente que o Governo considere a proposta do Conselho Estadual de Segurança Alimentar e Nutricional de Santa Catarina para execução PAA na modalidade Compra com Doação Simultânea (Ofício CONSEA/SDS nº 27/2020 de 12 de maio de 2020). 

4) A continuidade do Programa Nacional de Alimentação Escolar, utilizando o recurso na compra de 100% de gêneros alimentícios da agricultura familiar 

O Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) atende mais de 1,3 milhões de estudantes em todo o Estado e a merenda escolar é sabidamente a única refeição do dia para muitos deles. A continuidade de fornecimento de gêneros alimentícios para as famílias desses estudantes é mais uma contribuição para promover a SSAN dessa população, em especial estudantes das escolas indígenas e quilombolas. 

De acordo com a Lei nº 11.947, de 16 de junho de 2009, 30% do valor repassado pelo PNAE deve ser investido na compra direta de produtos da agricultura familiar, medida que estimula o desenvolvimento econômico e sustentável das comunidades. Esse percentual mínimo deve ser garantido. 

Nesse momento de crise gerada pela pandemia, é dever do governo de Santa Catarina e dos gestores municipais buscar que 100% do recurso proveniente do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação seja destinado à compra de gêneros alimentícios da agricultura familiar e que, segundo o manual de orientações do FNDE para execução do PNAE durante a pandemia , além de promover acesso a alimentos saudáveis para a população escolar e seus familiares, contribui para o escoamento da produção das famílias agricultoras gerando emprego e renda para milhares de famílias no meio rural. 

5) Garantia de políticas de emergência para a agricultura familiar e pescadore(a)s artesanais 

A agricultura familiar e a pesca artesanal são fundamentais para a garantia do abastecimento de alimentos de qualidade para a população do Estado de Santa Catarina. E para além da geração de renda, sua produção serve também para o autoconsumo dos produtores. 

Os gestores da esfera federal, estadual e municipal devem executar as políticas de assistência e abastecimento para os agricultores e pescadores. Essa medida busca garantir a SSAN de toda população que depende desta atividade econômica para garantir sua subsistência ao mesmo tempo que possibilita a chegada de alimentos saudáveis para o restante da população. 

6) Diálogo com Conselhos Fóruns e Organizações da Sociedade Civil 

Historicamente, os fóruns, redes, articulações, movimentos e organizações da sociedade civil brasileira têm atuado na defesa do DHAA e da SSAN. 

Por isso, é fundamental o diálogo do poder público com os conselhos de participação social, especialmente os Conselhos de Segurança Alimentar e Nutricional (CONSEA), Conselhos de Assistência Social (CNAS, CEAS E CMAS), Conselhos de Saúde (CNS e CES) e Conselhos de Alimentação Escolar (CAE), para que ações de mitigação das consequências da pandemia possam ser efetivamente implementadas. 

7) Medidas de proteção sanitária e social para os trabalhadores do sistema alimentar 

Os poderes executivos, legislativo e judiciário, em suas três esferas, também devem assegurar a proteção sanitária e social de todos os trabalhadores em todas as atividades do sistema alimentar de quem dependemos para assegurar o abastecimento de alimentos. Devem exigir que empregadores na agricultura, indústria e comércio adotem medidas concretas nessa direção, no sentido de orientar trabalhadores formais e informais sobre procedimentos requeridos, fornecendo material de higiene e guiando sobre o uso correto de equipamentos de proteção. O poder público também deve garantir um processo de trabalho digno em todo o sistema de produção alimentícia que não coloque em risco a saúde dos trabalhadores e trabalhadoras do setor. 

Núcleo Santa Catarina da Aliança pela Alimentação Adequada e Saudável 

Florianópolis, 25 de maio de 2020

Leia a Carta de Posicionamento Núcleo Santa Catarina da Aliança pela Alimentação Adequada e Saudável.

Cepagro presente na Semana Nacional de Ciência e Tecnologia

Com o tema “Bioeconomia: riqueza e biodiversidade para o desenvolvimento sustentável”, a 16ª Semana Nacional de Ciência e Tecnologia, que foi de 21 a 27 de outubro, resultou em eventos de divulgação científica em todo o país. Na grande Florianópolis, o evento aconteceu entre sexta-feira e sábado e reuniu ciência e cultura no Jardim Botânico de São José (SC). O Cepagro esteve presente falando sobre compostagem e alimentos processados ao lado dos laboratórios de pesquisa da UFSC, Udesc, Univali e IFSC.

O evento iniciou na sexta-feira com uma roda de conversa sobre a bioeconomia no modo de vida Guarani com o professor indígena da Aldeia M’Biguaçu, Daniel Kuaray. Daniel falou sobre como a comunidade Guarani Mbya costuma receber escolas e grupos que querem conhecer a aldeia, o que é visto pela comunidade como uma “estratégia de luta de não se isolar”. Falou também sobre as roças e variedades de alimentos tradicionais cultivados na terra indígena de Biguaçu, como a mandioca, o amendoim e o milho, ou avatí na língua guarani.

Daniel também é estudante do curso de Licenciatura Intercultural Indígena do Sul da Mata Atlântica, na UFSC, e apontou a importância de aliar os conhecimentos científicos da Universidade com os saberes tradicionais dos povos indígenas e assim “fazer ciência com um olhar indígena”. Como professor de escola indígena, ele vê os benefícios de ter como referência trabalhos universitários e científico produzidos por indígenas, os quais ele apresenta aos alunos.

Além de rodas de conversa, os/as estudantes presentes no evento puderam participar ainda de oficinas, apresentações culturais e circular pelas exposições científicas presentes. Em São José, a organização do evento foi feita pela professora do Departamento de Ecologia e Zoologia da UFSC, Bárbara Segal e pela Bióloga e artista Muryel de Carvalho Gonçalves. Elas são membros da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC-SC) e contaram com o apoio do Jardim Botânico Municipal de São José e das instituições de ensino participantes.

Bárbara Segal conta que a divulgação científica se torna ainda mais importante neste momento atual de descrença na ciência e desvalorização do meio ambiente em prol dos commodities. Para Bárbara, a Semana Nacional de Ciência e Tecnologia na Grande Florianópolis teve como objetivo chamar a atenção para a importância da preservação do meio ambiente. Ela defende um olhar sobre os benefícios que a natureza pode proporcionar em qualidade de vida, e não no uso dos recursos naturais somente para fins monetários e imediatistas. 

A fim de contribuir no debate promovido pelo evento, as engenheiras agrônomas do Cepagro, Karina Smania e Gisa Garcia estiveram presentes falando principalmente sobre os alimentos processados e ultra processados.  E já que a Semana objetiva a divulgação científica, elas levaram o Guia Alimentar para a População Brasileira, “que teve sua construção baseada em pesquisas que relacionam o consumo desses alimentos à doenças crônicas não transmissíveis”, segundo Gisa Garcia. O Guia recomenda o consumo de alimentos in natura e minimamente processados, trazendo o conceito de “Comida de Verdade”. “O Cepagro também trouxe uma reflexão sobre o que tem por trás de cada escolha alimentar que fazemos, e porque parte da população não pode fazer sua escolha alimentar”, complementa Gisa.

Além do conteúdo científico, a organização local do evento optou por incluir na programação momentos culturais e artísticos como a oficina de cerâmica facilitada por Carmem Melo. Na sexta-feira ainda teve uma conversa sobre gênero promovida pelo Núcleo de Identidades de Gênero e Subjetividades (NIGS) da UFSC. O intuito foi trazer para o espaço a discussão sobre a violência de gênero, pois ela está presente em todos os espaços, como aponta Assis Menin, doutorando em Ciências Humanas e membro do NIGS. Ele chamou a atenção para o combate dessas violências sejam elas físicas ou simbólicas e lembrou que a educação de gênero nas escolas é importante nesse combate, já que 70% dos abusos sexuais contra crianças acontecem dentro de casa.

Segundo o Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, a Semana totalizou mais de 8 mil atividades realizadas em mais de 300 cidades pelo país.

Eleita a nova Comissão Executiva do Conselho Municipal de Segurança Alimentar e Nutricional

Na última terça-feira, 11 de junho, durante plenária do Conselho Municipal de Segurança Alimentar e Nutricional Sustentável de Florianópolis (COMSEAS), conselheiras/os governamentais e da sociedade civil elegeram a Comissão Executiva para o biênio 2019-2021. A presidência ficou com a nutricionista Débora Bottega, representante da Associação dos Diabéticos da Grande Florianópolis. Simone Froza, da Secretaria Municipal de Assistência Social, ficou na Secretaria Geral e Lidiamara Dornelles, representante do Conselho Regional de Nutricionistas da Décima Região como 1ª Secretária. O cargo de 2ª secretária será definido na próxima plenária.

A nova mesa diretiva formada integralmente por mulheres terá grandes desafios para os próximos 2 anos, especialmente na promoção do acesso ao alimento saudável para as populações em Insegurança Alimentar Severa, garantindo o Direito Humano à Alimentação Adequada.

As reuniões do COMSEAS acontecerão nas segundas 3ª feiras de cada mês. “Todas e todos estão convidadas/os a participar como observadores deste importante espaço de participação e controle social da Política Municipal de Segurança Alimentar e Nutricional”, afirma Eduardo Daniel da Rocha, ex-presidente do COMSEAS.

Composição das representações do COMSEAS 2019-2021

  • 1º Organizações Governamentais:

I – Secretaria Municipal de Assistência Social: a) Simone Frozza, b) Alvira Bossy;

II – Secretaria Municipal da Educação: a) Raquel Erdmann, b) Cleusa Regina Silvano;

III – Secretaria Municipal da Saúde: a) Tatiane Meirelles de Deus, b) Luiza Moritz Age;  

  • 2 º Organizações Não Governamentais:

I Associação de Diabéticos da Grande Florianópolis (ADIFLOR);

II – Associação Dos Remanescentes do Quilombo Vidal Martins;

III – Centro de Estudos e Promoção da Agricultura de Grupo;

IV – Serviço Social do Comércio;

V – Associação Catarinense de Nutrição;

VI – Conselho Regional de Nutricionistas da Décima Região;

VII – Grupo Ilha Meimbipe de Agroecologia;

VIII – Sociedade Espírita de Recuperação, Trabalho e Educação – SERTE, a) Ianes Cunha Nether dos Santos, b) Maria Sonia de Pelegrin Warken.

Encontro #EngenhoéPatrimônio reúne famílias engenheiras de cinco municípios catarinenses

Famílias engenheiras de farinha de Florianópolis, Garopaba, Imbituba, Angelina e Bombinhas estiveram reunidas na capital catarinense, nos dias 14 e 15 de abril, para o Encontro #EngenhoéPatrimônio. O evento selou um processo de dois anos do qual várias famílias engenheiras participaram junto à Rede Catarinense de Engenhos de Farinha e que prevê registrar os Engenhos de Farinha como Patrimônio Cultural.

Através do Projeto Pondo de Cultura 2.0: articulação em rede, apoiado pela Secretaria de Estado de Turismo, Esporte e Cultura (SOL), foram realizadas oficinas de Educação Patrimonial facilitadas pela educadora Giselle Miotto e pela Mestra em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade Manuela Braganholo. Como fruto das oficinas, foi elaborado o Inventário Participativo dos Engenhos de Farinha do Litoral Catarinense, que apresenta os bens culturais relacionados aos engenhos e a identificação das comunidades com eles. Além disso, a Rede também contou com apoio do edital Elisabete Anderle de Estímulo à Cultura para promover atividades que geraram o livro Comida de Engenho e do Mapa Cultural dos Engenhos de Farinha de SC, lançados durante o Encontro.

O evento iniciou no domingo, no caloroso Engenho do Beto Andrade, em Santo Antônio de Lisboa. Em meio a forno, prensa, cocho e tipitis, as famílias se aconchegaram para assistir ao documentário #EngenhoéPatrimônio, produzido pelo Cepagro a partir de depoimentos coletados durante as oficinas de Educação Patrimonial. A tarde seguiu animada pelo giro do boi e cheiro da farinha torrando no forno.

José Roberto de Andrade, o Beto, herdou a tradição farinheira dos bisavós e pretende repassar esses saberes para as próximas gerações. “Não podemos deixar essa cultura morrer. Um lugar sem tradição é um lugar morto e nós não queremos que esse lugar nosso seja morto, têm muitas histórias bonitas para contar”, diz Beto. No fim do dia, com o forno ainda quente após a torra da farinha, foi a hora de fazer beiju. 

A programação de segunda-feira foi aberta ao público e começou com uma roda de conversa sobre o Patrimônio Cultural dos Engenhos, no Hotel SESC Cacupé. Participaram as famílias e equipe da Rede, além do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), na presença da educadora Carla Cruz, e da professora Caroline Celle Waltrick, da E.E.B Maria Rita Flor, de Bombinhas. Estiveram presentes também representantes da Epagri, SESC, Núcleo de Estudos Açorianos, da Fundação Catarinense de Cultura, da Fundação Municipal de Cultura Franklin Cascaes e da Fundação Municipal de Cultura de Bombinhas .

Carla Cruz iniciou sua fala frisando a importância da participação social e demonstrou como as oficinas e encontros realizados pela Rede/Cepagro possibilitaram o fortalecimento de laços entre as famílias e admiradores da cultura do engenho. Ela acredita que esses laços fortalecidos são mais eficazes na hora de pressionar o poder público. Cultura é identificação, segundo Carla, e patrimônio é vida: “O que o estado chama de patrimônio, nós chamamos de vida. Iniciativas como essa são como água e terra fértil que vão germinando novas sementes”.

A também educadora Caroline Waltrick, professora da Escola de Educação Básica Maria Rita Flor, de Bombinhas, provou que as sementes da cultura do engenho já germinaram. Ela esteve presente na primeira oficina de Educação Patrimonial da Rede em Bombinhas e trabalhou o tema com seus alunos. A partir de visitas aos engenhos e conversas com mestres e mestras, os (as) estudantes contribuíram com o levantamento de bens culturais para o inventário. Carol contou que os jovens se empolgaram com a atividade e se envolveram a ponto de aprender a fazer receitas como o beiju. Alguns deles estiveram presentes no Encontro e demonstraram total apoio a preservação dessa cultura, ressaltando sua importância inclusiva para quem não é catarinense.

O debate enriqueceu com as contribuições do público, como a sugestão da guia de turismo Claudete Medeiros, de se trabalhar o turismo de base comunitária com os engenhos, como uma alternativa econômica para as comunidades. Marlene Borges, da Associação Comunitária Rural de Imbituba, também se pronunciou ao lembrar que a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) apontou que a mandioca é um alimento com “grande potencial” e pode se transformar no principal cultivo do século 21 se for realizado um modelo de produção sustentável.

Depois da roda de conversa, o vereador Marcos José de Abreu, o Marquito (PSOL) fez uma fala sobre a questão territorial em Florianópolis. Marquito disse que segundo o censo agropecuário do IBGE de 2017, existem em Florianópolis 212 estabelecimentos rurais. Apesar disso, apenas duas regiões da ilha são consideradas áreas rurais. A cobrança de impostos sobre áreas rurais e urbanas é diferente e seu mandato está elaborando um decreto que regulamenta o pedido de isenção de impostos para áreas que na prática são rurais. 

Nas oficinas da Rede já havia sido identificado que um dos fatores que comprometem a manutenção da cultura farinheira é o fato de não haver aspectos legais que garantam a terra para o plantio, de acordo com o Plano Diretor de alguns municípios, como é o caso de Florianópolis e Garopaba. Sem terra não tem roça, sem roça não tem mandioca e sem mandioca não tem farinha.

Ao final da tarde, a turma seguiu para o Engenho do SESC Cacupé para o lançamento do livro Comida de Engenho que traz receitas tradicionais de engenhos de farinha, além de histórias das famílias que abriram suas casas e compartilharam seus saberes durante as Oficinas Gastronômicas.  O livro pode ser adquirido mediante contribuição espontânea entrando em contato pelo e-mail comunicacao@cepagro.org.br. O dinheiro vai para o caixa da Rede Catarinense de Engenhos de Farinha.

O encontro ainda terminou com um delicioso café regado a beiju, bijajica e bolo de mandioca, feito pelo cozinheiro Fabiano Gregório, do Movimento Slow Food.

 

 

Horta Pedagógica da Escola Januária Teixeira da Rocha dá os primeiros passos

Ontem, 5 de fevereiro, a Escola de Educação Básica Januária Teixeira da Rocha, no Campeche, iniciou as atividades práticas para a implantação de uma Horta Pedagógica assessorada pelo Cepagro. A ação é uma parceria entre a escola e a Associação de Moradores do Campeche (Amocam) e está inserida na meta de oficinas do Cepagro para a Educação Alimentar e Nutricional através do projeto Misereor em Rede. O objetivo é trabalhar com crianças do primeiro ao quinto ano três eixos centrais: Compostagem, Horta Pedagógica e Educação Alimentar e Nutricional, ao longo de todo o ano letivo.

A ideia surgiu depois que o diretor da escola, Abrão Iuskow, procurou a Amocam a fim de redesenhar uma pequena composteira utilizada pelo colégio. O presidente da associação de moradores, Alencar Deck Vigano, procurou o Cepagro e em dezembro uma primeira reunião foi realizada para ver o que era possível fazer. Ao fim do encontro, o que era pra ser apenas a manutenção de uma composteira acabou se transformando em um projeto de implantação de Horta Pedagógica com direito a 4 visitas técnicas de formação para professores, alunos e familiares.

Nesta terça-feira, a Engenheira Agrônoma Karina Smania de Lorenzi, da equipe do Cepagro, realizou a primeira formação com as professoras e funcionárias da unidade. Ela falou sobre Agroecologia e a importância da destinação correta dos resíduos, além de mostrar maneiras de inserir a composteira e a horta na educação fundamental. 

Karina esteve desenvolvendo uma Horta Pedagógica no Núcleo de Educação Infantil da Armação em 2018, com crianças de 5 e 6 anos. Lá o trabalho é mais lúdico, envolve música, contação de histórias e personagens. Ela conta que no ensino fundamental é possível se aprofundar mais, “fazer algumas experiências mais técnicas, dá pra aliar as disciplinas com os conhecimentos da horta e fazer as práticas das disciplinas das professoras na horta pedagógica”. 

Hoje a escola já tem uma horta, mas ela não tem sido incluída no conteúdo programático das turmas. O diretor Abrão conta que “é altamente indicado que se faça isso em uma escola, principalmente em uma escola como a nossa, do primeiro ao quinto ano. É melhor do que a creche, porque a creche é mais pelo deslumbramento. Aqui não, aqui é a assimilação para a vida delas. Desses cinco anos que as crianças passam na escola, algumas coisas vão ficar para o resto da vida. … E esses projetos é que ficam”, disse o diretor.

As atividades na horta serão realizadas em etapas bimestrais, respeitando assim o tempo da natureza. O primeiro bimestre será focado na sensibilização, gestão dos resíduos sólidos e compostagem. Em seguida o enfoque será nos canteiros, sementeiras e no plantio. Depois que a horta estiver dando frutos começa o trabalho sobre alimentação saudável e gastronomia, para então falar sobre adubação verde, plantas de cobertura e fazer a  avaliação final.

A professora Maria Inês Evaristo ficou muito feliz com a novidade: “A ideia está casando bem com o que a gente já estava pretendendo fazer. Aliás, a gente já tinha começado mas no ano passado a ideia estava meio adormecida. Quando a Karina apareceu no final do ano, avivou tudo e hoje a gente pode ver quantas ideias boas existem”.

A professora Ellen Regina Batista também está bastante motivada e quer contribuir com a horta: “cada passo desse projeto vai ser um momento de aprendizado, de descoberta, de curiosidade. E tanto as crianças quanto nós vamos estar aprendendo e aprofundando nossos conhecimentos”, disse.

E não foram somente as professoras que ficaram contentes com a parceria. Rozinéia do Carmo, que é funcionária da escola e mãe de alunas, disse que é ótimo saber que as filhas vão ter esse espaço dentro da escola: “As minhas filhas comem de tudo, elas vão amar. E eu acho que melhora até na alimentação das crianças, porque tem muita criança que não come porque não conhece”. Rozinéia está certa, temas como segurança alimentar e nutricional, alimentação saudável e desperdício de alimentos serão alguns dos assuntos trabalhados. A educação pode ser transformadora e uma Horta Pedagógica dentro da escola traz muitos benefícios para pais, alunos e professores.

Juventude de Bombinhas homenageia a cultura dos engenhos de farinha

Elba Nair da Santa Cruz e Antônio Jacob Cruz cresceram em engenhos de farinha em Bombinhas. Com a chegada do turismo de massa à cidade, dedicaram-se a outras atividades: um pouco de pesca, um pouco de aluguel para temporada. Mas não esqueceram da produção artesanal de farinha: em 2005, compraram de novo um engenho, do sogro de sua filha. “Ele sabia que eu iria manter o engenho”, conta, orgulhosa, Elba Nair da Santa Cruz. Ainda hoje, ela e o marido produzem cerca de 250kg de farinha por ano. “Não é pra ter lucro, é pra nós mesmo. Pra dar pra algum vizinho”, diz Elba.

No último dia 5 de dezembro, mestres e mestras dos engenhos como Elba e Antônio foram homenageados/as por estudantes da Escola de Educação Básica Maria Rita Flor, que fecharam o ano letivo apresentando os trabalhos resultantes de sua imersão na cultura dos engenhos. A pesquisa junto aos engenhos de farinha do município foi motivada por uma oficina de educação patrimonial que o Cepagro facilitou ali em agosto deste ano e coordenada pelas professoras Caroline Celle Waltrick (Artes), Josiane Mendes Bezerra (Turismo) e Maria José (História). Quatro turmas do 2º ano do Ensino Médio participaram da pesquisa, que passou por 4 engenhos da região, gerando músicas, pinturas e 2 mini-documentários. “Toda a ideia e organização da homenagem foi dos/as jovens”, conta a professora Carolina Waltrick.

“Falar de engenho é falar da identidade de Bombinhas. E dela não podemos desistir”, afirma a estudante Ariel da Silva Serra Gonçalves de 17 anos. “Foi plantado pra nós que o engenho, a roça de mandioca, a horta eram feios. Mas mudamos isso. Não podemos deixar morrer essa cultura nem ter vergonha dela”, confirma a professora Maria José. Para Josiane Bezerra, professora do curso técnico em Hospedagem, a valorização e promoção da identidade cultural do município amplia as possibilidades de atividades turísticas ali. “Muitas cidades que têm o eixo turístico de sol e praia esquecem que a identidade cultural também atrai visitantes. Se o destino tem identidade cultural, pode trazer gente tanto no inverno quanto no verão”, afirma.

O trabalho dos/as estudantes da Maria Rita Flor vai compor o inventário cultural dos engenhos de farinha que a Rede Catarinense de Engenhos está mobilizando. Além da bela pesquisa de campo, a iniciativa é valiosa por mostrar o envolvimento da juventude na temática.

 

Encontro do Núcleo Litoral Catarinense celebra a Agroecologia com participações latino-americanas

“Porque a gente precisa festejar, celebrar, se ver, ser visto. Precisa recarregar as baterias pelo menos uma vez por ano”. Perguntada sobre o que faz valer a pena construir o Encontro do Núcleo Litoral anualmente, a agricultora Tânea Mara Follmann, de Águas Mornas, ressalta o diferencial festivo e de trocas do evento: “Quando você estiver na sua propriedade e der um desânimo, você vai lembrar da turma no Encontro e vai achar força e alegria pra continuar. O encontro é isso: trocas, vivências e compartilhar de força pra gente seguir em Rede. É o retrato da Rede Ecovida”. Como parte da coordenação do Núcleo Litoral Catarinense, Tânea participa de pelo menos 20 reuniões da Rede por ano. Junto com as visitas de verificação e o manejo de toda a documentação das 73 famílias e mais 10 agroindústrias certificadas no Núcleo, não são poucos os compromissos relacionados ao Sistema Participativo de Garantia que ela assume. O Encontro do Núcleo Litoral é um respiro festivo em meio a tantas agendas de trabalho.

Realizado nos dias 22 e 23 de setembro na Comunidade Fazenda de Dentro, em Biguaçu, o Encontro deste ano foi encabeçado pelo Grupo Flor do Fruto, que reúne agricultores/as deste município e também de Santo Amaro da Imperatriz. “Fiquei com medo quando era dar o pontapé inicial e dizer que a gente faria. Mas, depois a gente vê como é gratificante, pois é uma troca de conhecimento empírico. Ver as pessoas interagindo, com tanta alegria, é muito gratificante”, conta o agricultor Pedro Luis Nau, do Grupo Flor do Fruto. Cerca de 130 pessoas participaram do Encontro neste ano, que teve convidados/as muito especiais: além do grupo de consumidores/as do projeto Misereor em Rede, vieram também representantes de 17 organizações brasileiras e latino-americanas que participavam da Vivência em SPG promovida pelo Cepagro naqueles dias. A diferença de idioma não foi um problema, frente à receptividade e acolhimento da turma do Núcleo.

Dois participantes da Vivência integraram a mesa de abertura do Encontro, junto com a agricultora Catarina Gelsleuchter, de Angelina: Romeu Leite, do Fórum Brasileiro de SPGs e Rosa Murillo Naranjo, do Movimento de Economia Social e Solidária do Equador (MESSE).Catarina Gelsleuchter: “No Sistema Participativo a gente se enxerga”, afirma a agricultora, ressaltando o caráter de envolvimento humano do SPGRomeu Leite, do Fórum Brasileiro de SPG: “O que o governo não entendeu é que a certificação participativa é mais do que só certificação. É gente visitando gente, o mais experiente acolhendo o menos experiente. O processo que a gente chama de SPG é muito mais rico do que o certificado”.

Rosa Murillo Naranjo, do MESSE (Equador), falou sobre o hiato entre a legislação de certificação de orgânicos e as práticas dos grupos de agroecologia no seu país. Também abordou a luta e as atividades de incidência política do MESSE pela conservação de sementes crioulas e contra os transgênicos.

O Encontro começou, entretanto, com a apresentação dos grupos da Rede.

Após uma animada noite cultural no sábado, durante o domingo foram realizadas as oficinas.

Boas Práticas de Pós-Colheita, com a agricultora Rosa Silva Tomás, de Paulo Lopes

 

 

 

 

 

Criação de galinhas soltas, com Romeu Leite

Plantas Medicinais, com Lourdes Lopes Souza
Jardim das brincadeiras, com Henrique Martini Romano

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Minhocários, com Igor

Através de um grande esforço logístico do Grupo anfitrião e da generosidade dos/as agricultores/as do Núcleo, grande parte da alimentação oferecida no Encontro foi agroecológica.

A tradicional Feira de Saberes e Sabores ganhou novos aromas e sabores, com a participação da Alternativa a Pequena Agricultura do Tocantins (APA-TO) e da Associação Outro Olhar, de Guarapuava (PR), que integravam a Vivência em SPG. João Palmeira, da APA-TO, trouxe o COCO BABAÇU e seus subprodutos, gerando interesse e curiosidade em muita gente. Enquanto Sandra Konig, da Outro Olhar, apresentou óleos essenciais produzidos em aldeias guarani do Paraná.

No encerramento do Encontro, Tânea trouxe alguns encaminhamentos para o Núcleo. Em novembro haverá uma visita ao Centro de Referência em Agroecologia do Paraná, com 2 representantes de cada grupo. Além disso, haverá capacitações sobre preenchimento da documentação até final de outubro. E, o mais esperado: a escolha do próximo grupo que receberá o Encontro do ano que vem. Com bastante espontaneidade, o Grupo de Agroecologia Costa Esmeralda (GACE), que reúne famílias de Porto Belo, Itapema e Tijucas, se dispôs a receber o Encontro do Núcleo 2019. Já estamos a espera!

Veja abaixo mais algumas fotos do Encontro: