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Alimentos orgânicos: mais saúde e segurança para quem cultiva e para quem come

Seja pela apresentação de dados estatísticos, estudos acadêmicos ou pelas histórias de agricultoras e agricultores, essa foi a tônica da Semana Nacional do Alimento Orgânico em Florianópolis, celebrada no final de maio e início de junho. No Seminário de Alimentos Orgânicos realizado pela Cidasc em parceria com o Cepagro na FIESC no dia 1º de junho e na Feira Orgânica CCA do dia 2, o público pode conhecer melhor sobre a produção, certificação e comercialização de alimentos orgânicos. Além de mais reconhecimento pelo trabalho dos e das que produzem alimentos bons e limpos, outra demanda ganhou força nessa Semana: maior participação dos consumidores e consumidoras nos processos de certificação e comercialização de orgânicos. Como disse o agricultor Anderson Romão, do Núcleo Litoral Catarinense da Rede Ecovida: “A parte mais difícil a gente faz, que é acordar cedo e plantar. Para o negócio virar mesmo, tem que partir do consumidor”.

Texto e foto: Carú Dionísio

“Me sinto confortável em dizer para os consumidores que podem consumir orgânico em Santa Catarina, porque é de qualidade”. A fala do engenheiro agrônomo Matheus Mazon Fraga, da CIDASC, veio após ele apresentar os resultados do Programa de Monitoramento da Produção Orgânica Vegetal durante o Seminário de Alimentos Orgânicos que aconteceu no dia 1º de junho. Implementado pela CIDASC com apoio do Banco Mundial, o Programa fez a coleta e análise de 1840 amostras de 13 cultivos orgânicos entre 2012 e 2016. Dessas, apenas 6% apresentaram inconformidades, como resíduos de agrotóxicos. “E, nesses casos, os órgãos públicos estão tomando as providências”, assegurou o agrônomo.

Enquanto a coleta e análise de resultados cabe à CIDASC, a averiguação das inconformidades está a cargo do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA). Segundo o engenheiro agrônomo Francisco Powell Van de Casteele, do MAPA, a maioria das ocorrências de resíduos de agrotóxicos em alimentos orgânicos é devido à proximidade entre propriedades agroecológicas e convencionais, com barreiras insuficientes: “Parece um contrassenso, mas é o produtor orgânico que tem que proteger sua produção de um vizinho que às vezes não segue boas práticas no uso de agrotóxicos”, afirmou. Nos casos em que se verifica negligência ou má fé por parte do agricultor supostamente orgânico, é feito um auto de infração, que pode gerar multas. “Depois de várias autuações, encaminhamos para o Ministério Público”, completou.

Se pela segurança a população pode confiar nos alimentos orgânicos, seu valor de mercado ainda restringe seu consumo. Entretanto, os benefícios ambientais da agricultura orgânica não têm preço, de acordo com Francisco Powell: “Falam que o orgânico é caro. Mas se pensarmos na água potável que deixa de ser contaminada e na contribuição da agricultura orgânica para sua preservação, perceberemos os benefícios dessa atividade no fornecimento de água de qualidade para toda população”, avaliou.

A relação entre o consumo de alimentos orgânicos e os benefícios ambientais e para a saúde da agricultura ecológica foi corroborada durante o Seminário pela nutricionista Elaine de Azevedo, professora da Universidade Federal do Espírito Santo: “Comprando da agricultura familiar e dos povos e comunidades tradicionais, continuaremos donos de nossos recursos ambientais”, afirmou. Convidando o público a refletir sobre o alto consumo de carnes – já que a pecuária é uma das atividades com mais impactos socioambientais da atualidade -, a professora ressaltou na sua fala como a alimentação também é política. Quando podemos escolher o que comemos, optamos também por determinado modelo produtivo e social. “Para a alimentação ser política, é preciso pensar em quem trabalha no campo”, disse. Além de mais seguro para trabalhadores e trabalhadoras rurais, pois não envolve o manejo de agrotóxicos, os alimentos orgânicos também têm melhor valor nutricional em relação aos chamados convencionais, de acordo com vários estudos apresentados pela professora no Seminário. Elaine encerrou sua fala com a leitura do potente “Manifesto da Comida de Verdade”.

Mas como aumentar o acesso a esses alimentos bons, limpos e justos, num cenário em que grandes conglomerados empresariais dominam o mercado mundial de alimentos? Para o professor Oscar José Rover, coordenador do Laboratório de Comercialização da Agricultura Familiar da UFSC, a chave é aproximar produtores e consumidores, investindo em feiras, circuitos curtos de comercialização e células de consumidores, muitas vezes organizados pela internet. Novamente, o papel do consumidor e da consumidora é enfatizado, como disse o agricultor agroecológico Anderson Romão.

Anderson fez sua apresentação junto com outros 5 agricultores e agricultoras do Núcleo Litoral Catarinense da Rede Ecovida de Agroecologia, que fecharam a programação do Seminário de Alimentos Orgânicos. Além de explicar o funcionamento da Rede, a agricultora Claudete Ponath (Piçarras) apresentou um panorama de abrangência do Núcleo Litoral Catarinense, que envolve 130 famílias de agricultores de 28 municípios, de Garopaba até Joinville. Nas suas falas, o grupo reforçou que a Rede vai bem além da certificação, como disse a agricultora Sônia Jendiroba, do grupo Ilha Meiembipe (Florianópolis): “Quando entrei pra Rede eu queria muito mais do que plantar sem veneno. Queria fazer parte da agroecologia, estar mais próximo dos consumidores e com outros agricultores”.

Para Sônia, ser visitada pelas pessoas que comem os alimentos que ela cultiva só traz mais credibilidade para seu trabalho, além de fortalecer seu compromisso com a Rede: “Esse olhar nos dá credibilidade e também responsabilidade de produzir e vender, saber que não vamos falhar na frente, senão toda a Rede vai pagar o pato. Temos esse compromisso social de que o que produzimos é saúde”, concluiu.

Já Pedro Eger, do grupo Harmonia da Terra, de Rancho Queimado, enfatizou o intercâmbio de informações entre agricultores e agricultoras como uma das principais motivações para estar na Rede: “Além da diminuição do custo, nós migramos da certificação por auditoria para a participativa pela oportunidade de trocar experiências com outros agricultores”, disse.

A Semana do Alimento Orgânico terminou com uma edição festiva da Feira Orgânica CCA. Veja como foi na fotorreportagem de Joelson Cardoso para o Cotidiano UFSC e também na reportagem de Marcelo Luiz Zapelini para o Desacato.info.

Confira também a matéria de Fernando Lisbôa para o telejornal UFSC Cidade.

Veja mais fotos do Seminário na galeria abaixo:

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Feira Orgânica CCA: três anos aproximando o campo da cidade

fotos: Carlos Pontalti

Para comemorar seu terceiro aniversário e celebrar a Semana do Alimento Orgânico, a Feira Orgânica CCA teve uma edição especial na última sexta-feira, 2 de junho. Café agroecológico, oficinas, sorteio de cesta de alimentos orgânicos e uma animada apresentação musical movimentaram o Centro de Ciências Agrárias. A articulação com outros grupos de agroecologia da Rede Ecovida enriqueceu a oferta de alimentos: além do Grupo Flor do Fruto, de Biguaçu, vieram agricultoras e agricultores de Garopaba, Angelina, Piçarras e Florianópolis.

O grupo comunitário da Revolução dos Baldinhos também marcou presença.

A parceria com Laboratórios da Universidade também coloriu a Feira. Vieram representantes do Assentamento Comuna Amarildo, convidados pelo Laboratório de Educação no Campo e Estudos da Reforma Agrária (LECERA).

O grupo Horta Orgânica CCA, coordenado pelo professor  Antonio Augusto, realizou um belo manejo da agrofloresta em frente ao Cepagro, transformando-a numa horta mandala, com a colaboração do pessoal da Horta Comunitária do PACUCA.

O professor Ilyas Siddique colaborou na troca e distribuição de sementes, enquanto Rick Miller fez uma oficina de despolpa de jerivá.

Saiba mais sobre a Feira Orgânica CCA nas reportagens do portal Desacato e do Cotidiano UFSC.

Confira também o ensaio fotográfico do estudante Carlos Pontalti.

Oficina de Plantas Medicinais do Projeto Saber na Prática reúne comunidade na Horta Comunitária do Pacuca

 

“Que planta é essa?”.  Com algum ramo recém-colhido na mão, o ambientalista, colecionador e cultivador de plantas medicinais Alésio dos Passos Santos repete inúmeras vezes a mesma pergunta. Moringa, jambu, mil-ramas, guaçatonga, picão-preto, ora-pro-nobis, feijão-guandu, urtiga, fafia… Entre 40 e 50 espécies vegetais foram apresentadas por ele durante a oficina de Plantas Medicinais do Projeto Saber na Prática que ele facilitou no dia 20 de maio na Horta Comunitária do Pacuca, no bairro Campeche, sul da Ilha de Santa Catarina. A atividade reuniu moradores e moradoras da comunidade, além de profissionais da saúde e interessadxs em geral. O ciclo de oficinas Saber na Prática é viabilizado através do Programa de Apoio a Projetos da Associação Comercial e Industrial de Florianópolis.

“Cada planta é um laboratório de princípios ativos”, afirma Alésio ao início de sua fala. Muito mais do que apontar quais sintomas ou doenças podem ser aliviados por tal planta, ele conta histórias sobre seus nomes e usos tradicionais. “A intenção é trabalhar com a educação para o uso correto da planta”. Com a diminuição das áreas de restinga em função da urbanização e da especulação imobiliária e a desvalorização dos saberes tradicionais de curandeiros e benzedeiras pela nossa chamada “cultura moderna”, a riqueza terapêutica da biodiversidade vegetal também vai sendo esquecida. “Benzedeira tem que ter no Posto de Saúde, para trabalhar o corpo e a alma”, avalia Alésio, que também defende que práticas terapêuticas integrativas – como massagem, óleos essenciais e cromoterapia – no sistema de saúde público.

A médica Aline de Oliveira Laurindo, participante da oficina, concorda que os profissionais da saúde precisam de mais (in)formação em plantas medicinais. Como não teve essa disciplina na faculdade, busca cursos e oficinas como essa. “Todo mundo usa as plantas, mas elas podem ter efeito colateral. Então vim aqui não só pra saber o que indicar, mas também as contra-indicações”, afirma Aline. “As plantas podem ser mais acessíveis para os pacientes, além de ser uma forma de fortalecer a cultura e o conhecimento das comunidades”, completa.

Ataíde Silva, presidente da Associação de Moradores do Campeche, também esteve na atividade e gostou muito. “O Alésio sempre relaciona o conhecimento técnico e prático com muita descontração, e ainda usando plantas do nosso ambiente”, disse.

Para saber mais sobre Plantas Medicinais, visite a página da Farmácia da Natureza, projeto coordenado por Alésio. Outra iniciativa fundada por ele é a Quinta das Plantas, que realiza encontros semanais sobre plantas medicinais na Associação dos Funcionários Fiscais de Santa Catarina, no bairro Canasvieiras.

Veja abaixo mais fotos da Oficina de Plantas Medicinais. Para saber sobre as próximas atividades, escreva para sabernapratica.cepagro@gmail.com.

“Horta Agroecológica” foi o tema da Oficina Saber na Prática na Tapera

A participação das crianças marcou com energia a oficina de Hortas na Tapera, no Sul da Ilha

O ciclo de oficinas Saber na Prática chegou ao Sul da Ilha neste ano com o tema “Hortas Agroecológicas”. O curso foi realizado no Conselho Regional de Assistência Social – CRAS da Tapera no dia 6 de maio.  Estiveram presentes cerca de 35 pessoas, que observaram atentamente as instruções dos engenheirxs agrônomxs Karina Smania de Lorenzi e Ícaro Pereira, da equipe técnica do Cepagro.

texto e foto – Nando Lisbôa

Na oficina foram trabalhados diversos aspectos da montagem de um canteiro agroecológico: como colocar a terra, que tipo de húmus deve ser usado e outras orientações técnica.  A Associação Comercial e Industrial de Florianópolis (ACIF) auxilia a iniciativa do Cepagro  através do Programa de Apoio a Projetos.

Os agronomxs recebem atenção e curiosidade pelo tema da oficina: Hortas Agroecológicas

“Mas se plantar uma moeda de um real aí,  vai nascer árvore de dinheiro?”. A pergunta foi respondida com risadas de toda a plateia. “Vai sim!”, disse Nina, 12 anos, que veio acompanhada do avô e do irmão. Foi nessa clima descontraído e amigável, com a participação de homens e mulheres, jovens e adultos da comunidade local, que aconteceu a oficina. As crianças deram um toque a mais no clima alto astral.

A oficina foi iniciada com apresentação dxs participantxs uns aos outros, e logo todos estavam integrados trocando ideias, conhecimentos  e informações sobre experiências anteriores à oficina.   Após as apresentações, Karina e Ícaro explicaram o passo a passo:

1 – Montagem dos canteiros: os canteiros mandalas são preparados com muita palha. “Pode deixar 20cm  de palha” diz Karina ajeitando junto com os alunos o mato seco espalhado. “Se à gente colocar muito pouco , em 15 dias esse canteiro vai ficar baixinho demais, tem que colocar bastante palha pra ele se sustentar no solo” explica Ícaro.

2 – Preparação com composto: “Agora já temos o canteiro, agora a gente vai preparar os berços que são as covinhas para as mudas de planta” explicam os palestrantxs. Nessa etapa, são abertos buracos na palha, que não podem ser muito rasos nem estreitos, para ficarem cheios de nutrientes. “A  planta vai se alimentar dos nutrientes, por isso tem que ter bastante adubo, isso explica buracos grandes para caber bastante”, esclarece Ícaro.

O canteiro com buracos largos preenchidos com o adubo,  para o crescimento das mudas.

3 – O tipo de composto: o composto utilizado na oficina é resultante da decomposição de resíduos orgânicos, folhas e palha. Mas, “se pode usar esterco de curral, galinha e até de cavalo”, diz Ícaro. Ao mencionar “esterco de cavalo”, logo surge a dúvida:

Mas esterco de cavalo não é muito ácido?

Desde que seja bem curtido não tem problema. Dá para usar também, responde Ícaro. 

 4 – O plantio: as mudas são transplantadas para o canteiro. “Nunca plante com saquinho, senão ela fica pequenininha e não vai crescer”, ressaltam os facilitadores. Esse foi o momento em que mais se trocou informações, os conhecimentos dos agronomxs e todo domínio de tecnologia que possuem foram repassados aos participantes. Mas também houve o caminho inverso, quando o conhecimento popular veio à tona, ensinando técnicas e práticas intuitivas sob domínio dos nativos da ilha.

5 – Regue a vida: o quinto passo é simples, colocar água!

6- Calçamento: Coloque se possível tijolos em volta, isso ajuda a sustentar os canteiros.

Colocar tijolos em volta ajuda a firmar os canteiros

“Os canteiros também podem ser usados como ornamentais”, disse Ícaro Pereira, que se referia ao uso dos canteiros na jardinagem, com espécies ornamentais, como flores. Se olhar a galeria abaixo não há como negar que fica lindo!

Acompanhe o blog e a fanpage do Cepagro para saber mais sobre as próximas oficinas e atividades. Para mais informações sobre o projeto, escreva para sabernapratica.cepagro@gmail.com.

 

“Plantas Medicinais” são o próximo tema das Oficinas Saber na Prática

Com suporte do Programa de Apoio a Projetos da Associação Comercial e Industrial de Florianópolis (ACIF), o ciclo de Oficinas Saber na Prática continua suas atividades no próximo sábado, 20 de maio, com o tema “Plantas Medicinais”. Com facilitação do Mestre Alésio dos Passos Santos, a oficina acontece na Horta Comunitária do Pacuca, no Campeche, a partir das 9h da manhã. As inscrições são gratuitas e feitas somente pelo email sabernapratica.cepagro@gmail.com.

Articulação estadual fortalece Agricultura Urbana e organiza-se para evento nacional

Recentemente, a encíclica Laudato Sí, “sobre o cuidado com a casa comum“, foi apresentada pelo Papa Francisco e recebida com grande entusiasmo por diversos atores dos movimentos sócio-ambientais de todo o  mundo, sendo considerada de grande peso nos bastidores das discussões geopolíticas em nível global.

Ao longo dos seus 243 tópicos, o documento aponta para uma urgência no reordenamento das relações de consumo e de uso da terra, fazendo críticas contundentes à  expropriação da natureza e apontando caminhos de resistência a partir do empoderamento comunitário nas ações de salvaguarda ambiental.

Durante o Encontro Estadual de Agricultura Urbana, realizado em Florianópolis, o documento foi citado por Murilo Silva, chefe de gabinete do deputado Padre Pedro Baldisserra, que o relacionou ao trabalho de alas progressistas da Igreja que historicamente desempenharam grande importância no movimento agroecológico brasileiro.

Murilo apresentou ao público do Encontro uma das conquistas decorrentes desta luta, estendendo a compreensão da agroecologia para toda população e não somente restrita às fronteiras rurais. Trata-se do Projeto de Lei (PL) 0472/2011, que versa sobre a política de apoio  à Agricultura Urbana, e que deve ser levado ao parlamento catarinense, segundo Silva, ainda neste ano. Buscando envolver as Secretarias Estaduais de Agricultura e de Desenvolvimento Social no engajamento de projetos e recursos públicos para o segmento, o Projeto enumera objetivos como combate à fome pela produção local de alimentos, incentivo ao associativismo e à venda direta, entre outros. Após a explanação de Murilo foram discutidas, entre as diferentes representações de experiências ali presentes, tanto o projeto de Lei Estadual (Padre Pedro / PT), como o projeto de Lei Nacional de Agricultura Urbana (Padre João / PT de MG).

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O PL 0472/2011 reflete os anseios da articulação estadual em torno da Agricultura Urbana, envolvendo agrônomos, nutricionistas, gestores, secretarias e pesquisadores. “Desde 2012, estamos numa caminhada de seminários e encontros, como este de agora, que sempre orientaram para a construção de políticas públicas”, recorda o agrônomo Marcos José de Abreu, coordenador urbano do Cepagro e presidente do CONSEA/SC.

O Encontro Estadual de Agricultura Urbana apresentou também aos presentes a proposta de uma cartografia social, buscando identificar iniciativas nos territórios visando fugir enfrentar a invisibilidade e discutir a função política da defesa de um modelo alternativo de cidade. Como exemplo, citou-se que apenas no bairro Rio vermelho, em Florianópolis, apresenta cerca de 20 iniciativas que vão da gestão comunitária de resíduos orgânicos à práticas de cultivos alimentares em quintais.

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Em seu momento de práticas, o Encontro disponibilizou 4 oficinas para socialização de conhecimentos entre os presentes – compostagem, minhocários, biodiversidade e viveiragem. As atividades foram conduzidas por agrônomos e educadores que trabalham em projetos do Cepagro, como a Revolução dos Baldinhos e a co-gestão agroecológica do próprio Camping do Rio Vermelho, sede do evento. Como encaminhamento, foram eleitos 13 delegados que participarão do I Encontro Nacional de Agricultura Urbana, que acontece de 21 a 24/10/2015 no Rio de Janeiro e vislumbra a consolidação de uma ampla rede de fortalecimento do tema em todo o país.

Conferência constrói propostas para Segurança Alimentar e Nutricional em Florianópolis

por Fernando Angeoletto / Cepagro (texto e fotos)

A centralidade do alimento nas discussões globais é um dos reflexos para as projeções que apontam, para 2050,  o nascimento do décimo bilionésimo habitante do Planeta Terra. Diante dos desafios de garantir o direito universal ao alimento a este expressivo contingente, ofertando-lhes comida de verdade e cumprindo as agendas de minimizar os impactos ao ambiente, diversos debates e iniciativas são realizados em escala mundial – da ecogastronomia ao ressurgimento de mercados locais, passando pelo enfrentamento aos alimentos transgênicos e a formulação de políticas públicas, ainda que tímidas, para a ampliação das práticas agroecológicas em territórios de agricultura familiar.
Embora com atraso, já que somos a única capital brasileira ainda não aderida ao SISAN, na última semana Florianópolis realizou um importante passo como articuladora local desta política pública, construída há mais de uma década, que insere a temática da Segurança Alimentar e Nutricional (SAN) em um processo intersetorial e dialogado com a sociedade civil. Através da III Conferência Municipal, o município utilizou o recém-criado COMSEAS (Conselho Municipal de Segurança Alimentar e Nutricional Sustentável) para realizar um diálogo ampliado  e a construção de propostas, alinhadas em 3 eixos temáticos, que serão encaminhados ao Executivo local.

O recém-criado COMSEAS empenhou-se na organização da Conferência
O recém-criado COMSEAS empenhou-se na organização da Conferência

Como palestrante convidado a discutir o tema central da Conferência – “Comida de Verdade no Campo e na Cidade, por Direitos e Soberania Alimentar” – o Mestre em Agroecossistemas e presidente do CONSEA/SC Marcos José de Abreu esclarece que a conceituação de SAN, e seu conseqüente entendimento sobre segurança, deve estar menos relacionado a aspectos sanitaristas e mais preocupado com a garantia ao Direito Humano à Alimentação Adequada (DHAA). “Nesta vida pós-moderna, onde a demanda por equipamentos como restaurantes e lanchonetes para se alimentar torna-se um a necessidade crescente, muitas vezes o simples fatos de ter alimentos frescos e poder cozinhar em casa já configura esta ‘Comida de Verdade’”, ilustra.

O presidente do CONSEA/SC defende que o conceito de segurança deve estar atrelado ao DHAA
O presidente do CONSEA/SC defende que o conceito de segurança deve estar atrelado ao DHAA

Em que pese ainda o aspecto da segurança do alimento, Marcos enfatiza que o verdadeiro vilão é o agrotóxico, e que poderíamos ter uma lei para banir seu uso em todo o município. Considera ainda fundamental a discussão de SAN na perspectiva de um território bem peculiar, dadas as dimensões e restrições de circulação da parte insular, onde concentra-se mais de 90% do município de Florianópolis. “A gestão de resíduos orgânicos faz parte deste olhar intersetorial. Não podemos seguir jogando fertilidade no lixo, para depois mandar tudo a um aterro com alto custo econômico e ambiental”, defende ele, relacionando a prática da compostagem ao potencial para amplificar a agricultura urbana e o acesso a alimentos frescos. Espelhando-se em exemplos locais de reconhecida eficiência, como a Revolução dos Baldinhos, este discurso já transcende o que seria um horizonte longínquo e incorporou-se ao propósito de gestores locais, conforme defendeu recentemente o presidente da COMCAP, Marius Bagnatti, em ampla reportagem sobre o tema publicada no Jornal Notícias do Dia.

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A Comida de Verdade servida no evento, composta por matérias primas locais e agroecológicas, fluiu com o toque do chef Fabiano Gregório e ativistas locais do movimento Slow Food

Ao concluir suas rodadas de discussões e formulação de propostas, que serão disponibilizadas em breve, a III Conferência Municipal homologou também as candidaturas de delegados à V Conferência Estadual de SAN, que acontecerá em agosto.