Cepagro e Fundesyram realizam formação online sobre compostagem para organizações latino americanas

Brasil, El Salvador, Colômbia, Bolívia, Equador, Nicarágua e Estados Unidos. Representantes de organizações desses sete países estiveram reunidas no webinar “Compostagem, semente para o desenvolvimento da Agroecologia Familiar”, realizado pelo Cepagro e Fundesyram (El Salvador) com o apoio da Fundação Inter Americana (IAF) através do projeto Saberes na Prática em Rede.

O webinar teve como objetivo compartilhar com outras pessoas e organizações os fundamentos teóricos e práticos para a compostagem em escala familiar, prática que contribui para uma maior autonomia nutricional e resiliência em momentos de crise, como esta apresentada pela pandemia da Covid-19. O evento online foi realizado no dia 11 de junho e contou com a participação de pelo menos 70 pessoas, boa parte delas vinculadas a organizações donatárias da IAF. O webinar também foi uma forma de readaptar o já tradicional Curso de Gestão Comunitária dos Resíduos Orgânicos e Agricultura Urbana do Cepagro, realizado anualmente há quatro anos mas que teve sua 5ª edição suspensa por conta da pandemia.

Foi na última edição deste curso, realizada em 2019, que Cepagro e Fundesyram estabeleceram parceria no tema da compostagem, com a vinda de dois técnicos da organização salvadorenha a Florianópolis. Além de conhecer diferentes experiências de Agroecologia de Santa Catarina, os técnicos Juan Antônio Ruiz e Jose Jesus Cordova Miranda participaram do Curso de Compostagem e levaram o Método UFSC de compostagem para seu país. Em um ano, fizeram experimentos com compostagem adaptando o Método UFSC para o contexto de El Salvador e lá socializaram a metodologia da gestão comunitária dos resíduos orgânicos junto à pelo menos 8 grupos de agricultores/as e instituições, como a Universidade de El Salvador, levando a metodologia a cerca de 15 municípios.

Durante o webinar (assista na íntegra), os técnicos Júlio Maestri, do Cepagro e Jose Jesus Cordova Miranda, da Fundesyram explicaram os fundamentos teóricos da compostagem, contanto um pouco sobre sua história e desenvolvimento. Na sequência, demonstraram na prática o passo a passo da montagem e manejo de dois modelos de composteira: a leira estática para ambientes externos e a composteira de balde, para a compostagem em ambientes internos. 

Júlio e Jose também demonstraram as possibilidades e benefícios de se fazer a compostagem em escala familiar e comunitária. Um dos benefícios é ser uma alternativa ecológica ao descarte de resíduos orgânicos, que representa altos custos tanto aos cofres públicos quanto para o meio ambiente. Segundo dados do relatório do Ministério do Meio Ambiente e Recursos Naturais de El Salvador para o ano de 2018*, apresentado por Jose Jesus, diariamente são geradas cerca de 3.500 toneladas de resíduos, sendo que aproximadamente 65% desse montante é orgânico. O valor gasto mensalmente para descartar de forma convencional essa porção orgânica é em média de $58.600 dólares.

Além de desviar a maior parte dos resíduos dos aterros, a segregação e tratamento dos orgânicos diretamente na fonte através da compostagem pode gerar maior autonomia na produção de alimentos orgânicos para subsistência. Além disso, como comenta Jose Jesus, “através da compostagem, não gera-se apenas adubo, mas também renda com a venda do composto, tanto sólido como líquido. Além de gerar também maior consciência nas famílias e uma contribuição real ao meio ambiente”. Por isso a percepção da compostagem como a semente para a Agroecologia.

“A compostagem proporciona uma mudança de visão que temos sobre os resíduos orgânicos”, afirma o Engenheiro Agrônomo Júlio Maestri. E não apenas: “quando trabalhamos com compostagem, acabamos integrando os saberes. Através da compostagem podemos reivindicar direitos, melhorar a saúde de uma comunidade, aprimorar práticas de hortas, de plantas medicinais e articular todos os setores de uma cidade”, complementa.

Para María Teresa Fernández Ampié, presidenta da Coordinadora de Mujeres Rurales da Nicarágua, a compostagem pode ser uma prática para fortalecer a Soberania Alimentar das comunidades em que atuam. María Teresa e sua companheira de organização Lisseth de los Angeles Escalante participaram do webinar com o objetivo de agregar valor nas práticas que têm realizado no tema da compostagem. A Coordinadora de Mujeres Rurales é uma organização não governamental formada por mulheres rurais nicaraguenses que atua pela defesa dos direitos das mulheres, tendo como enfoque o acesso à terra.

A organização localiza-se fundamentalmente no corredor seco da Nicarágua, na região de Chinandega e desde 2011 tem assumido a Agroecologia como posição política. Buscando melhorar a fertilidade do solo e ficar livres dos insumos agroquímicos, as agricultoras ligadas à organização geram adubos orgânicos a partir dos insumos que possuem em suas parcelas agrícolas e dos resíduos que saem de suas casas, bem como utilizando os microrganismos de montanha encontrados em algumas localidades.

Além de ampliar e compartilhar conhecimentos no tema, María e Lisseth participaram do webinar a fim de conhecer experiências e organizações de outros países, “porque quanto mais nos conhecemos e conhecemos o que outras pessoas e organizações estão fazendo, posicionamos a Agroecologia como uma posição política que se contrapõe a esse modelo capitalista e depredador que mata a vida. E porque estamos convencidas de que a Agroecologia é mudança de imaginário, é ter consciência política e ver a vida de uma perspectiva mais ampla”.

E de fato o webinar colocou organizações e pessoas em contato. A partir de então foi formado um grupo de pessoas interessadas no tema e há duas semana um novo momento de encontro foi realizado. Esta segunda “tertúlia” (espécie de reunião de amigos para troca de ideias) – como foi apelidada – buscou ir um pouco mais a fundo no tema, respondendo dúvidas mais específicas e compartilhando os avanços da compostagem nos territórios. Neste encontro estiveram presentes dois jovens agricultores da Asociación de Productores Orgánicos de La Sierra Cauca (Asprosi) da Colômbia, Elizabeth Garzon Piamba e José Luis Cruz.

Elizabeth Garzón nos contou que no ano passado um grupo de agricultores/as de sua comunidade, localizada no departamento de Cauca, iniciou um projeto piloto de compostagem a fim de gerar matéria prima para recuperação do solo, agricultura orgânica e desviar os resíduos orgânicos que atualmente são levados ao aterro sanitário do município vizinho. 

Ela conta que o grupo tem aprendido muito na prática e que o webinar “ajudou a visualizar como ir melhorando o controle da umidade já que aqui no exercício que estivemos fazendo, tivemos um problema quando o composto entrou na fase de maturação, com o aparecimento de moscas”. Elizabeth também enxerga a importância de estar em rede: “Na prática estamos aprendendo e conhecer vocês reforça a vontade de seguir avançando em nossos processos, pois já não somos mais sete, somos muitos que queremos contribuir com a transformação dos territórios e estamos trabalhando da mesma forma e com a mesma energia”.

Para seguir construindo e promovendo esse tipo de relação, o Cepagro em parceria com a Fundação Inter Americana seguirá promovendo webinares sobre diferentes temas que permeiam o movimento agroecológico. Na próxima sexta-feira, 31 de julho, a conversa será sobre o tema da comercialização de alimentos agroecológicos a nível de América Latina. Estarão presentes no webinar as representantes do Centro de Tecnologias Alternativas Populares (CETAP) do Rio Grande do Sul, Cíntia Gris,  da Cooperativa Paraguay Orgánico, Daniela Solís e Rosa Murillo, do Movimiento de Economia Social y Solidária do Equador (meSSe).

O webinar “Comercialização de alimentos agroecológicos: construindo caminhos” será realizado às 15h do Brasil. A transmissão ao vivo será feita através do link: www.facebook.com/events/1171621813216315.

*Dados do Ministério do Meio Ambiente de El Salvador

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