Encontro em El Salvador fortalece articulação latino-americana pela Agroecologia

Representantes de organizações do Paraguai, Equador, México, Honduras, Canadá, Brasil e instituições locais estiveram reunidos em Santa Tecla, El Salvador, para o VII Encuentro Nacional de Saberes y Experiencias en Agricultura Organica y Agroecologia. Organizado pela  Fundación para el Desarrollo Socioeconómico y Restauración Ambiental (Fundesyram), o evento aconteceu nos dias 15 e 16 de janeiro e colocou em debate as experiências em Agroecologia que vêm sendo desenvolvidas na América do Norte, Central e do Sul. Além de participar do encontro, a delegação internacional também visitou experiências locais.

O evento reuniu cerca de 180 pessoas e foi ponto de encontro para técnicos/as, acadêmicos/as e agricultores/as. A Vice-Presidenta do Cepagro, Erika Sagae e a técnica de campo, Isadora Escosteguy estiveram presentes nas mesas de debate e conferências e puderam compartilhar com o público um pouco da experiência brasileira no tema da Agroecologia.

Na América Latina, o Brasil segue sendo referência no que diz respeito à organização dos agricultores agroecológicos, com a experiência de mais de 20 anos da Rede Ecovida.  Erika Sagae apresentou as dinâmicas de funcionamento da Rede, que atualmente conta com 3.400 famílias certificadas, quase 20%  dos certificados de produção orgânica no Brasil. Mesmo assim, ainda é preciso avançar muito: somente em Santa Catarina existem 45.150 famílias dentro de sistemas como o da produção de tabaco, altamente dependente de agrotóxicos, dado que mostra a importância da Rede. “Há muito trabalho para se fazer e a união das pessoas fortalece a luta”, comentou Erika durante o debate sobre Redes e Movimentos Agroecológicos de El Salvador, México e Brasil

O México também conta com uma Rede de Agroecologia, criada recentemente, durante um encontro nacional de Agroecologia e Sistemas Participativos de Garantia (SPGs) organizado pelo Centro Campesino de Desarollo Sustentable e Rede Tijtoca Nemiliztli, em dezembro de 2018. Victor Hugo Morales, do Centro Campesino, explicou que a criação da rede tinha como objetivo dar visibilidade ao Movimento Agroecológico e ter o reconhecimento do governo. Atualmente, a Rede vem dando um aporte na comercialização e está iniciando a certificação participativa no país.

Já a Rede de Agroecologia de El Salvador (RAES) começou a se organizar em 2017, com o apoio da Fundesyram. Seu representante, Gerardo Hernández, conta que o objetivo é ter um diagnóstico da produção Agroecológica do país e convencer mais pessoas de que a Agroecologia é possível. Além da RAES, El Salvador também conta com o Movimento de Agricultura Orgânica (MAOES), formado por 23 organizações, entre produtores/as e instituições de apoio. O coordenador, Miguel Ramírez, frisou a importância da formação política, que é um dos principais eixos de atuação da MAOES, “para que os agricultores tenham consciência que a agricultura orgânica não é apenas uma série de técnicas de agricultura, mas um movimento de transformação e para que a agricultura orgânica se livre das amarras da agricultura convencional”, disse Miguel.

A participação das organizações latino americanas no Encontro salvadorenho se deu graças ao projeto Saberes na Prática em Rede, apoiado pela Fundação Inter-Americana (IAF).  Desde 2016, o projeto já proporcionou diversos encontros e trocas de experiências e para Erika Sagae, coordenadora do projeto, esse intercâmbio entre as organizações é de grande importância: “Fomentou a formação de redes de Agroecologia em outros países como o México, Paraguai e El Salvador, que depois culminaram em processos de Sistemas Participativos de Garantia (SPG). Mas mais do que isso, fortaleceu o movimento nesses países e fortalece essa nossa rede construída a partir do projeto”, disse.

O potencial dos intercâmbios foi confirmado pelo técnico da Fundesyram, José Jesús Córdova. Entre agosto e setembro de 2019, ele e o companheiro de trabalho, Juan Ruiz, estiveram em Florianópolis e participaram do Curso de Gestão Comunitária dos Resíduos Orgânicos realizado pelo Cepagro. Ao voltar à El Salvador, José realizou 5 capacitações para a gestão dos resíduos orgânicos através do Método UFSC de compostagem, compartilhando os aprendizados com pelo menos 400 pessoas. 

Uma das capacitações foi para os/as estudantes de Ciências Agronômicas da Universidade de El Salvador, o que deu origem à Brigada Ambiental de Ciencias Agronómicas (BACA). Em março, o grupo irá colher a primeira remessa de composto e analisar os resultados a fim de adaptar o método para a realidade do país. E a troca de saberes veio em boa hora, já que em dezembro do ano passado El Salvador aprovou a Lei Nacional para Gestão de Resíduos e Fomento à Reciclagem. 

A certificação participativa nas Américas

E o potencial do intercâmbio de saberes foi confirmado também durante a discussão sobre Sistemas Participativos de Garantia de Norte, Centro y Sur América, onde debateram representantes do Paraguai, México, Brasil e El Salvador.

Em El Salvador, a certificação participativa iniciou como uma experiência piloto depois que os técnicos da Fundesyram conheceram os sistemas do Brasil e Paraguai. José Jesus contou que, com o aumento da demanda por orgânicos, aumenta também o questionamento sobre a procedência dos alimentos e que o SPG representa “um respaldo para o produtor e uma garantia para o consumidor”.

Na Bahia, a demanda por produtos agroecológicos também cresce a cada dia, bem como o número de agricultores em busca da transição agroecológica. No estado nordestino, a certificação participativa é realizada pela Rede Povos da Mata, que hoje conta com 450 famílias certificadas e outras 300 em fase de transição, como explicou o presidente da Rede, Tiago Tombini. Diferente de outros países, o SPG brasileiro certifica unidades produtivos, e não produtos, comentou Tiago. Ele acredita que a sustentabilidade do sistema participativo está na responsabilidade compartilhada e no controle social.

Já no Paraguai, a certificação participativa é realizada pela Asociación de Produtores Orgánicos do Paraguay (APRO) em parceria com o Ministério da Agricultura local. Seu representante, Genaro Ferreira, contou que, além da certificação, a associação promove a comercialização. Com 20 anos de história, atualmente a APRO comercializa para mais de 5 mil consumidores, muitos deles acometidos por doenças como o câncer. Os jovens são outro público consumidor em ascensão, segundo Genaro.

E como a Agroecologia não é só certificação, as temáticas de gênero e geração também foram debatidas no encontro durante a mesa Mulheres e Juventudes na promoção da Agroecologia. Flor Quintanilla é coordenadora das ações em Gênero da Fundesyram e contou que autoestima e empoderamento feminino foram temas trabalhados pela organização no último ano. Um trabalho positivo que refletiu no aumento da participação feminina no Encontro e nos espaços de debate. Flor lembrou que sem Feminismo, não há Agroecologia: “De nada adianta eu cultivar agroecológicos na minha fazenda se na minha casa eu violento a minha companheira. Tem que mudar o modo de ver”, disse. 

Mudar o modo de ver e agir não apenas com as mulheres mas também com a figura feminina da terra, ou da Pachamama, como apontou Rosa Murillo. Rosa representa o MESSE, Movimiento de Economía Social y Solidaria do Equador, organização de maioria feminina e que traz em sua atuação a cosmovisão andina, do respeito à terra e à todos os elementos da natureza.  Rosa também pontuou que o consumo consciente e a economia solidária são formas de incentivar, não apenas as mulheres, mas a Agroecologia: “nosso valor está em nos articularmos, nos fortalecermos. Por que comprar de fora se a minha companheira produz o que eu preciso”, questionou.

Agroecologia também é consumo responsável

E para que haja cada vez mais consumidores conscientes, é preciso sensibilizar. É sob essa perspectiva que estão organizadas as Células de Consumidores Responsáveis do Laboratório de Comercialização da Agricultura Familiar (LACAF/UFSC), em Florianópolis. A pesquisadora e mestre em Agroecossistemas, Isadora Leite Escosteguy compartilhou a experiência de comercialização direta das Células durante a conferência sobre a Organização de Consumidores no Brasil.

As células consistem na formação de grupos de agricultores e consumidores, onde a entrega dos alimentos orgânicos é feita semanalmente em pontos de coleta comuns a uma mesma célula. A comunicação direta entre as duas pontas da cadeia produtiva é importante, mas segundo Isadora, o que provoca uma identificação maior com a iniciativa é quando os consumidores vão conhecer as fazendas onde são cultivados os alimentos que elas compram. Responsabilidade compartilhada e autogestão dos consumidores são premissas para quem quer iniciar uma célula de consumo, aconselhou Isadora.

Ecotecnologias, nutrição, educação, gastronomia ancestral e manejo de sementes foram outros temas abordados ao longo do evento. Além disso, os participantes também fizeram uma tour pelo Centro Divina Providência, onde o evento foi realizado. O Convento, localizado no município de Santa Tecla, região metropolitana da capital San Salvador, funciona também como um laboratório de experimentação para a Fundesyram. São canteiros de hortaliças, criação de galinhas e coelhos, viveiro de sementes, cultivo e processamento de café, além da gestão dos resíduos orgânicos e produção de composto. Tudo agroecológico. 

No manejo desses espaços, a equipe orientada pelo técnico da Fundesyram, Israel Morales,  testa e desenvolve técnicas que depois são compartilhadas com os/as agricultores/as em forma de extensão rural para a transição agroecológica. Um desses agricultores capacitados pela organização foi Daniel Pacheco Murcia, do município de Nueva Concepción. Daniel compõe a Asociación de Regantes de Atiocoyo Norte (ARAN), que conta com cerca de 200 agricultores associados no departamento de Chalatenango. Na ARAN cultivam principalmente arroz e goiaba, mas a maioria ainda de forma convencional.

Daniel compara a atual situação à uma bomba relógio: “O governo já não tem a oportunidade de manter tanta gente doente por problemas de agroquímicos. As crianças já nascem doentes, nossos agricultores morrendo de câncer, insuficiência renal em quase todos”, lamentou. Daniel cultiva arroz e goiaba orgânica e sua intenção é ir aos poucos mostrando aos companheiros de associação que vale a pena mudar. “Eu sinto alegria ao saber que posso mudar e que posso ajudar a outros que ainda não estão convencidos de que isso é um problema”, disse.

Além dos cultivos, ele também produz tilápia com uma técnica que substitui os antibióticos por probióticos, que são os microorganismos de montanha. A aplicação desses microorganismos nos tanques de tilápia auxiliam na purificação da água, reduzindo a necessidade de trocá-la com tanta frequência.

Os mesmos microorganismos pudemos encontrar nos canteiros de Medardo Francia Zelada, outro agricultor capacitado pela Fundesyram. Eles são um sinal de que o solo está fértil e livre de agroquímicos. Na propriedade de Medardo, em Cantón Taltapaneca, no município de Apaneca, os agrotóxicos não entram mais há cerca de 15 anos, quando ele recebeu uma capacitação da Fundesyram.

Até então não sabia produzir hortaliças, apenas cultivar e processar café, principal cultivo da região. Com o tempo foi agregando mais e mais diversidade aos seus canteiros e hoje, ao dar uma volta por sua propriedade, é possível encontrar alface, tomate, pimentão, rabanete, repolho, milho, além de frutas e alguns animais. Medardo se sente feliz em poder produzir um alimento saudável, e conta que a transição para a agroecologia lhe deu muita importância “porque esse tipo de agricultura nos ajuda a conservar os recursos como terra, água, ar, que são a base fundamental para a conservação da vida”.

Infelizmente, assim como no Brasil, em El Salvador a agricultura convencional recebe mais incentivo do governo do que a produção Agroecológica, o que impõe barreiras ao seu avanço. Por isso, tanto Medardo quanto Daniel compartilham da ideia de que é preciso investir em formação, não apenas para produtores, mas para consumidores também.

Roberto Rodríguez, diretor da Fundesyram tem a mesma visão e conta que a origem dos Encontros Nacionais de Agroecologia de El Salvador surgiram justamente com o objetivo de serem espaços de formação e aprendizagem. “Se alguém está sozinho em sua propriedade, acredita que os seus problemas são os mais grandes do mundo. Mas quando nos encontramos e vemos que muitas vezes temos os mesmos problemas ou vemos que alguém já os está superando, aí seguimos adiante”, disse Roberto.

E foi esse também o objetivo da equipe do Cepagro com a viagem à El Salvador. Levar um pouco dos avanças que estamos tendo por aqui, e conhecer as experiências bem sucedidas de El Salvador. O trabalho em rede fortalece e assim seguimos, apoiando uns aos outros para uma América Latina cada dia mais agroecológica.

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