Projeto de adubação verde une pesquisa acadêmica e extensão rural

A última segunda-feira, 25 de novembro, foi dia de colher pepinos e ervilhas no município de Santa Rosa de Lima. Não para consumo nem comercialização, mas para pesquisa. É o projeto Culturas de cobertura da próxima geração: impulsionando a inovação no manejo do solo com a certificação participativa, que une pesquisa e extensão rural visando ampliar a adubação verde entre as famílias agricultoras do Núcleo Litoral Catarinense da Rede Ecovida.

O projeto é uma parceria do Cepagro com a doutoranda Anne Elise Stratton, da Universidade de Michigan (EUA) e tem o apoio da The Conservation, Food & Health Foundation. Ele ainda está na fase inicial, de pesquisa, que se dá de forma participativa junto a 14 famílias agricultoras em seis municípios catarinenses. Além dos agricultores agroecológicos, também participam famílias fumicultoras que buscam alternativas ao cultivo do tabaco.

Depois da fase de pesquisa, que já é uma forma de capacitar os(as) agricultores(as) para esse tipo de manejo, o projeto seguirá trabalhando com as famílias interessadas em cultivar espécies de adubos verdes para a criação de bancos de sementes, uma demanda que tem sido colocada pelos(as) agricultores(as) do Núcleo Litoral, segundo Charles Lamb, Coordenador de Desenvolvimento Rural do Cepagro. A ideia é que esses(as) agricultores(as) sejam fontes de conhecimento sobre o tema e não somente de sementes.

Leda Maria Assing é uma das agricultoras agroecológicas envolvidas na pesquisa. Ela compõe o Grupo Germin’Ação e cultiva diversos alimentos orgânicos que abastecem a sua pousada Doce Encanto, além de produzir melado e outros derivados da cana. Para ela o cultivo de sementes de adubação verde seria ótimo, principalmente para poder trocar com outros(as) agricultores(as) da Rede. Atualmente, boa parte deles usa cama de aviário como fertilizante para o solo, que é uma alternativa ecológica aos insumos químicos. No entanto, essa ferramenta pode significar um custo de produção mais elevado, além de não oferecer tanta garantia quanto à sua procedência.

Anne Elise explica que a adubação verde se torna uma ferramenta complementar à Agroecologia. Ela tem um custo de implantação menor, fornece cobertura e mais matéria orgânica para o solo, além de aumentar a futura produção de alimentos. Anne Elise explica ainda que um dos principais nutrientes que garantem o crescimento e desenvolvimento das plantas é o nitrogênio. Na natureza, ele é devolvido ao solo normalmente com a decomposição das plantas, enquanto na agricultura é retirado com a colheita dos alimentos, onde se encontra a maior concentração de nutrientes. Por isso deve ser reposto de alguma forma, mantendo o solo fértil. 

Assim, a adubação verde se torna uma alternativa também para os agricultores convencionais. Anne Elise comenta que além de contaminarem o solo e a água, os insumos químicos geram uma dependência com as empresas que os produzem. A inclusão das culturas de adubos verdes como a mucuna, ervilhaca, aveia e girassol entre os agricultores é também uma forma de promover a autossuficiência dessas famílias.

Outra agricultora que está participando da pesquisa é Rosângela Bonetti Vanderlinde, também do Grupo Germin’Ação. Quando ela e o companheiro Sebastião adquiriram o terreno onde hoje tocam a Pousada Encanto Verde, o solo estava completamente degradado. Os antigos proprietários produziam tabaco e a partir de 2005 Rosangela e Sebastião foram recuperando a fertilidade através da adubação verde e de cultivos agroecológicos. Sebastião conta que desde então, anualmente o professor da Universidade Federal de Santa Catarina, Jucinei Comin leva os estudantes para conhecer a sua propriedade e a cada visita diz encontrar o solo mais fértil.

Rosângela confirma a importância da adubação verde e também da pesquisa acadêmica: “Para nós é maravilhoso porque a gente sempre aprende muita coisa. Já fazia adubação verde há muito tempo, mas com a pesquisa a gente vê o resultado científico comprovado ali mesmo no teu terreno”. A agricultora conta que alguns grupo que visitam a propriedade perguntam o porquê de ceder o terreno para pesquisa sem ganhar nada em troca, ao que Rosângela responde: “a troca não é monetária, mas é o conhecimento científico que a gente adquire”. 

E a ideia do projeto não é apenas incluir a cultura dos adubos verdes entre os agricultores, mas institucionalizar essas culturas de cobertura nos planos de manejo da Rede Ecovida. Anne Elise conta que nos Estados Unidos a certificação participativa não é uma prática permitida e que sua escolha por realizar a pesquisa com agricultores da Rede se deu, entre outros motivos, porque “a Rede Ecovida é muito inspiradora, é uma referência. Não existem muitas redes de agroecologia como essa”. A agricultora Leonilda Boeing Baumann, mais conhecida como Dida, concorda com Anne Elise e diz: “gosto de estar na Rede Ecovida porque não é só a certificação, a gente aprende muito”.

A pesquisa já vem sendo realizada desde 2018 e até 2020 demonstrará se a diversificação de cultivos e a adubação verde têm mesmo o potencial de reduzir custos e aumentar a produtividade, contribuindo para a autossuficiência das famílias agricultoras. Até lá, seguimos juntos apoiando o Núcleo Litoral Catarinense e incentivando a transição agroecológica através de pesquisas e práticas que estejam em sintonia com a realidade dos agricultores(as) da região.

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