Cultura, arte, diversidade e ancestralidade enraízam o XI Congresso Brasileiro de Agroecologia

Intelectuais indígenas e lideranças quilombolas dividindo conferências com professores doutores, cordéis e repentes no lugar de currículos lattes, “tapiris de saberes” em vez de “seminários temáticos”. O tempero da arte e da cultura nordestinas deixaram o XI Congresso Brasileiro de Agroecologia muito mais do que popular, como era a expectativa: ficou arretado. Qualquer que seja o regionalismo usado, quem circulou pelo campus da Universidade Federal do Sergipe entre os dias 4 e 7 de novembro podia perceber que este CBA estava diferenciado em relação aos anteriores: mais aberto, mais diverso, mais popular, mais protagonizado por quem cultiva a Agroecologia diariamente. 

Com o lema Ecologia de Saberes: Ciência, Cultura e Arte na Democratização de Sistemas Agroalimentares, o Congresso deste ano rompeu com práticas costumeiras de eventos acadêmicos. Ao propor a horizontalidade de saberes como tônica das atividades – em que títulos universitários não contam ou valem mais do que a vivência como agricultor/a, parteira ou liderança de comunidade tradicional –  o CBA trouxe para a prática a construção do conhecimento na Agroecologia baseado justamente na ecologia, em que todos os elementos de um ecossistema são importantes. “O tema parte da compreensão de que a Agroecologia se constrói a partir da interação virtuosa entre prática, ciência e política”, informa a Comissão Organizadora, composta pela Associação Brasileira de Agroecologia e a Rede Sergipana de Agroecologia (RESEA), a ideia era torná-lo

Mais de 3 mil pessoas participaram do XI CBA, que teve a apresentação de cerca de 1.900 trabalhos. A flexibilidade para o formato das apresentações – que poderiam ser em vídeo, com relatos orais, fotos ou pôsteres – contribuiu para a diversidade dos/as participantes. Os antigos “seminários temáticos” foram transformados em Tapiris de Saberes, espaços de diálogo entre trabalhos acadêmicos, técnicos e populares, divididos em 16 eixos temáticos. 

Sustentando esta teia de saberes está a Pedagogia Griô, metodologia sistematizada pela educadora Lilian Pacheco e pelo griô Márcio Caires, que pauta que a construção do conhecimento passa pelo acúmulo da cultura de tradição oral, integrando linguagens diversas (artística, corporal, afetiva, científica, tecnológica) e empoderando diversos lugares de fala. Segundo Lilian Pacheco, griô é toda/o cidadã/o que se reconheça e seja reconhecido por sua própria comunidade território como herdeira/o dos saberes e fazeres da tradição oral local. Os Tapiris de Saberes eram o coração e as pontas da teia de conhecimentos do CBA, cujos fios abraçavam também ambientes organizativos-identitários, como plenárias e assembleias; ambientes de interação agroecológica, como tendas de grupos de trabalho e núcleos de estudos em agroecologia, instalações artísticas, rodas de conversa, conferências e oficinas; além dos ambientes permanentes, como a Ciranda Infantil, o Terreiro de Inovações Camponesas, a Feira de Saberes e Sabores, o Espaço de Cuidados Dona Chica e a Cozinha da Tradições. Animando e polinizando os intercâmbios da teia, estava a equipe das fiandeiras: artistas e comunicadores/as populares que faziam o registro e divulgação das atividades durante o Congresso. 

Outro esforço perceptível, degustável e palatável da Comissão Organizadora foi de fornecer a alimentação quase 100% agroecológica e local aos/às participantes. Dos 81 itens usados na alimentação, entre verduras, legumes, carnes, queijos, ovos e grãos, 73 vieram de 40 famílias sergipanas. Outros alimentos foram conseguidos junto às famílias do Movimento de Pequenos Agricultores da Bahia; só o sal e o azeite foram comprados em mercados convencionais, totalizando 9,3 toneladas de comida preparada ao longo de 4 dias de Congresso.   

Celebrando a presença de representantes de camponesas e camponeses, agricultoras e agricultoras, indígenas, quilombolas e a diversidade de povos e comunidades tradicionais do Brasil no CBA, a mesa de abertura do evento ressaltou o protagonismo desses sujeitos sociais nos territórios físicos e simbólicos de construção da agroecologia. Música, teatro, falas institucionais, abraços e trocas convocaram a missão política, afetiva, científica e espiritual de fiar e tecer a Agroecologia, reconhecendo a importância dos povos do campo, das florestas e das águas e da população LGBTQI+. Alexandre Pires, da Articulação do Semiárido Brasileiro (ASA), ressaltou o caráter “insurgente” que o movimento agroecológico deve assumir: “Insurgência contra o autoritarismo, as injustiças e violências contra as pessoas e a natureza”, afirmou.

Plenárias identitárias e organizativas: a voz e vez dos movimentos sociais, comunidades tradicionais, juventudes e LGBTQI+

Reconhecer a diversidade de quem constrói a Agroecologia passa pelo escutar e ecoar suas vozes. Assim, o CBA alinhou-se ao Encontro Nacional de Agroecologia, valorizando em sua programação a Plenária das Mulheres e das Juventudes, já ocorridas em outras edições, e trazendo neste ano da dos movimentos sociais e conferências LGBTQI+. Os povos e comunidades tradicionais, como os/as indígenas, quilombolas, pescadores/as, ribeirinhos/as e marisqueiros/as também marcaram presença, trazendo suas demandas, denúncias e anúncios.

Na Plenária dos Movimentos Sociais, realizada no dia 5, movimentos sociais do campo, da cidade e das águas pautaram seu “outro modo de viver, enraizado na rebeldia da ancestralidade”. A análise de conjuntura ficou a cargo de três companheiras: Dalva da Graça, da Frente Brasil Popular; Josi Costa, do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) e Mazé Morais, da Secretaria de Mulheres da CONTAG e Marcha das Margaridas. Compreender a essência da conjuntura atual e provocar os/as presentes a repensar e redefinir suas estratégias de mobilização e formação de base foram alguns dos pontos discutidos durante a atividade, que encheu e coloriu a Tenda Cacumbi com as bandeiras dos movimentos e com a arte e cultura do grupo teatral Raízes Nordestinas, que fez a mística de abertura.

Na quarta, dia 6, os movimentos realizaram um ato público “Em defesa da Agroecologia e do povo brasileiro”, levando a luta agroecológica para as ruas. Os/as militantes denunciavam o aumento no índice de liberação de agrotóxicos neste ano, assim como a tragédia crime do petróleo na costa do Nordeste e a negligência governamental frente a isso, além da retirada de direitos, como a  Reforma da Previdência. Defenderam o projeto popular camponês com soberania alimentar, terra, água e agroecologia, pois “quem alimenta o país, merece respeito”, bradavam. A marcha saiu da Praça General Valadão, no Centro de Aracaju, e seguiu até a frente da Superintendência do Ministério da Agricultura. Após os discursos de representantes do Movimento de Mulheres Camponesas, Movimento de Pequenos Agricultores (MPA) e Movimento Camponês Popular, o ato terminou com uma intervenção artística que “derramou petróleo” na fachada do prédio.

Nesta edição 2019, pela primeira vez o CBA teve atividades com pautas da população LGBTQI+. “Se a Agroecologia se propõe como projeto holístico, precisa ser sem opressões”. A provocação de Adriano Matos, do Coletivo LGBT do Movimento Sem Terra, veio durante a Roda de Diálogo “Onde estão as pessoas LGBT da Agroecologia?”, permeada de relatos de medos, silenciamentos e superações diversas vividos por pessoas LGBTQI+ ao longo de suas vidas. Partilhas de resistência por seus modos de ser e amar entremearam-se às fortes performances artísticas de Maurício Leonard e Mateus Cerqueira. Camila Penna trouxe dados sobre a população LGBTQI+ e xs conferencistas – Gabriela Souza, Gabriel Ornelas, Linda Brasil e Adriano Matos – mesclaram seus relatos de vida as suas bandeiras e conquistas de luta.

A tragédia crime do petróleo nas praias nordestinas e o XI CBA

A denúncia do maior desastre ambiental da história brasileira esteve presente em outros espaços do CBA. Houve rodas de conversa específicas sobre a tragédia crime, assim como lideranças comunitárias e de movimentos verbalizaram o drama das famílias que vivem das águas em suas falas durante conferências e também durante o fechamento do Congresso, com a leitura da carta dos Movimentos de Pescadores e Pescadoras Artesanais do Sergipe e da Bahia. A carta responsabilizou a indústria petrolífera pelo desastre, assim como criticou a falta de um plano de contingência e de assistência às famílias afetadas por parte do governo. 

A quem pertence bens comuns como mares, praias, mangues, dunas, lagoas? Quando estes ecossistemas são afetados ou restringidos em nome do desenvolvimento, como ficam as populações tradicionais que dependem do seu equilíbrio? Esses foram alguns dos questionamentos suscitados durante o CBA, em atividades como a Conferência “Políticas Públicas de Agroecologia para a preservação da biodiversidade e bens comuns das agricultoras, agricultores e povos e comunidades tradicionais”. Durante a atividade, a líder quilombola e pesqueira Luciana Silva, do Quilombo do Cumbe, no Ceará, trouxe para o público do XI CBA a forte conexão entre as comunidades tradicionais e seus territórios, que vão muito além da concepção urbana e burguesa de propriedade privada. “A gente não precisa só de casa, mas de nosso território, lagoas, mangues e dunas para sobreviver. A gente que está no território, tá defendendo não só nossa vida, mas de todo um povo”, disse. O petróleo está quase invadindo os mangues do Quilombo do Cumbé, ecossistema fundamntal para a sobrevivência de comunidades pesqueiras. “Nosso cheiro é o cheiro do mangue. Quando morre um mangue, nós morremos também”, dizia a carta dos movimentos pesqueiros. 

Não são poucas as lutas empreendidas por comunidades tradicionais como a de Luciana para manter seu modo de vida, profundamente conectado aos seus bens comuns. Desde a década de 70, o Quilombo do Cumbé vem resistindo frente a megaprojetos de “desenvolvimento”, assim como a expansão da criação extensiva de camarões (carcinicultura) e, mais recentemente, da energia eólica. “Dizem que a energia eólica é limpa. Mas como pode ser limpa se passa por cima de comunidades e de sua cultura? E nós, que somos afetados, nem sabemos pra onde essa energia vai?”, questionou Luciana. Além da raiz ancestral da comunidade, o que alimenta sua resistência é muita negociação e tentativas de construção de políticas públicas locais, ainda que “nosso governo local não reconhece nossa comunidade como comunidade quilombola pesqueira”, disse Luciana. 

Por uma ciência que dialogue com a cultura e com as lutas: a Carta Sergipana do CBA 

A atuação das fiandeiras na circulação entre as atividades colaborou para a construção do documento final do XI CBA, que afirma: “Ao nos posicionarmos em defesa de uma ciência crítica em diálogo com a cultura e a arte popular, afirmamos a necessidade de que as instituições científico-acadêmicas sejam orientadas pela justiça social, que reconheçam e valorizem as vozes e os saberes dos sujeitos historicamente subalternizados, abrindo horizontes para a criação de uma sociedade estruturada pela justiça cognitiva e epistêmica. Assim, reiteramos que a Agroecologia – como Ciência, Movimento e Prática -, reconhece e constrói saberes e conhecimentos, na luta por uma sociedade justa e igualitária e em diálogo com as práticas cotidianas dos povos do campo, das águas, das florestas e das cidades. Nessa perspectiva, se reafirma como uma das chaves interpretativas que nos desafia a um novo fazer acadêmico/científico.” Além das denúncias e anúncios ecoados durante o Congresso, a carta reafirmou a importância da defesa da Universidade Pública: “Defendemos a Universidade como território emancipatório para a construção da agroecologia pela via da Ecologia de Saberes, o que supõe o exercício de uma ciência cidadã, crítica, popular, inclusiva e livre. Essa é a universidade que acreditamos e defendemos. Não aos cortes para a Educação. Não ao Future-se!

No cortejo final do Congresso, após cantorias sagradas,  poesias, louvações, encantamentos, apresentações de vídeos, leitura de cartas políticas, reafirmação de pautas, as fiandeiras embalaram o público cantando “O CBA vai-se embora, vai deixar rastro na areia”. Rastro nos corações e mentes reafirmando a Agroecologia como Ciência, Movimento e Prática enraizada na horizontalidade de conhecimentos e saberes. 

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