Curso de Gestão Comunitária de Resíduos Orgânicos reafirma: não há compostagem sem colaboração

Realizado de 27 a 30 de agosto, o IV Curso de Gestão Comunitária de Resíduos Orgânicos e Agricultura Urbana reuniu mais de 40 pessoas, entre lideranças comunitárias, gestores públicos, estudantes, empreendedores e educadores vindos de diversas cidades de Santa Catarina e de outras regiões, além de representações de El Salvador e Uruguai. Promovido pelo Cepagro, o Curso contou com patrocínio da Fundação Inter-Americana (IAF) e da Engie, além do apoio da Comcap, do Centro de Ciências Agrárias da UFSC e do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA).

De forma lúdica, didática e bastante participativa, o grupo pôde aprender sobre o método UFSC de compostagem na teoria e na prática, conhecer as estratégias de gestão comunitária dos resíduos orgânicos, visitar experiências locais de compostagem comunitária e empreendedora e ainda discutir sobre a compostagem a nível municipal durante o seminário Desafios e Oportunidades para a Compostagem em Florianópolis, evento que foi aberto ao público.

Empatia, respeito e vontade de aprender foram algumas das expectativas trazidas pelos/as participantes na dinâmica de abertura do Curso, na manhã da terça-feira. A tarde, o professor do Departamento de Engenharia Rural da Universidade Federal de Santa Catarina, Rick Miller, referência no Método UFSC de compostagem, assumiu o microfone e tirou as dúvidas do público. Ele mostrou como a gestão descentralizada dos resíduos orgânicos é uma solução eficiente e econômica. Segundo dados apresentados pelo professor, Florianópolis gasta hoje cerca de R$150,00 para transportar uma tonelada de resíduos sólidos até o aterro sanitário, sendo a média mensal de 17,5 mil toneladas. Os dados oficiais do município apontam que 30% desse montante é resíduo orgânico.

Em 2019, o Curso de Gestão Comunitária de Resíduos Orgânicos trouxe uma novidade: a facilitação gráfica, com a bióloga-artista Raíssa Theberge.

Sendo assim, as bombonas utilizadas para coletar e transportar os restos de alimentos até um pátio descentralizado, modelo utilizado na gestão comunitária, são uma “inovação tecnológica”, disse Rick. Além de ter um custo muito menor, a compostagem ainda gera um produto final capaz de gerar renda. Rick trouxe ainda informações mais técnicas sobre a compostagem e sobre o funcionamento da leira que para ele é como um “bicho ofegante” que come, respira, sua e faz xixi.

Em seguida, a turma foi para o pátio do Jardim Botânico construir coletivamente uma leira de chão com as orientações do agrônomo do Cepagro Júlio Maestri. Os/as participantes também aprenderam a montar o sistema fechado de compostagem em caixa d’água, dessa vez orientados por Jessé Rodrigues Fermino e Valéria Maria da Silva, de Sorocaba e Camila Batista, de Taubaté. Os três são beneficiários do Minha Casa, Minha Vida e no ano passado receberam a reaplicação da Tecnologia Social em Gestão Comunitária de Resíduos Orgânicos e Agricultura Urbana pelo Cepagro e Revolução dos Baldinhos através de projeto da Fundação Banco do Brasil.

Jessé é síndico do Condomínio Buriti, um dos 160 do Conjunto Habitacional Carandá. Hoje seu condomínio é o único com gestão comunitária dos resíduos orgânicos e o maior desafios é a conscientização, conta Jessé: “O nosso grande desafio hoje é a educação, educar o povo ali dentro a separar o reciclável, o lixo daquilo que é aproveitado”. Mas aos poucos os moradores vão aderindo ao projeto: “O nosso objetivo é chegar em todos os condomínio do Carandá. Bater de porta em porta, levar as pessoas para conhecer a nossa compostagem, levar o nosso produto pra eles e falar: ó isso aqui saiu do seu alimento, que ia poluir no aterro e agora não vai mais”, explica Jessé.

Em Taubaté, no residencial Sérgio Lucchiari, os moradores optaram por receber a gestão dos resíduos como tecnologia social, porque a situação do lixo no local estava precária, como conta Camila. Hoje oito famílias levam seus baldinhos para compostar e em troca recebem composto e biofertilizante, o restante Camila comercializa. “Estamos procurando outras soluções para os resíduos para chegar ao lixo zero”, conta ela, que é mãe de 6 filhos e leva a garotada para compostar também. “Até as crianças dos vizinhos acabam indo lá e ajudam na composteira. Isso é bom porque já faz a parte da educação também”.

Na quarta-feira, os participantes deram um rolê pela Comunidade Chico Mendes, onde a tecnologia social da gestão comunitária dos resíduos nasceu a partir da experiência da Revolução dos Baldinhos. Cíntia Aldaci da Cruz e Karolina Karla, lideranças da comunidade. contaram a história do projeto, que iniciou por conta de um problema sanitário que gerou um surto de leptospirose e hoje conta com a uma cozinha comunitária onde acontecem capacitações, cine debates e outros eventos. “Muitos que fizeram o curso anos atrás saíram das estatísticas de violência”, contou Cíntia e ressaltou que para a compostagem comunitária acontecer, “a articulação é uma arma poderosa”.

A Revolução serviu de referência para muita gente, entre elas Samuel Barros, que veio do Rio de Janeiro representando o Centro de Integração na Serra da Misericórdia (CEM), organização da qual é vice-coordenador e que trabalha o tema da agricultura urbana e Agroecologia com jovens moradores da Penha, na Zona Norte do Rio. Sobre a visita, Samuel conta: “Fiquei muito animado porque era algo que queria fazer na favela e eu fiquei muito feliz de ver com meus olhos… deu esperança. Uma dúvida que a gente tinha era como chegar nas pessoas e aqui vimos acontecendo”.

Samuel veio junto com Lucas Fernando dos Santos, também do Rio de Janeiro e que atua em outra organização da Serra da Misericórdia, a Verdejar Socioambiental. Por lá, eles se inspiraram na Revolução para tentar diminuir a incidência do lixo “porque o saneamento básico e a coleta de resíduos é um problema no Rio de Janeiro”, disse Lucas. A Verdejar realiza trabalhos envolvendo a juventude através da comunicação com a intenção de mostrar que tem agricultura acontecendo na cidade. “Tem muito potencial nos jovens, mas a cidade não vê. É a mesma coisa com o lixo”, conta Lucas.

Da Comunidade Chico Mendes, os participantes seguiram para o sul da Ilha de Santa Catarina, para conhecer o empreendimento social Destino Certo para Resíduos Orgânicos e a Horta Comunitária do PACUCA. Num terreno com cerca de 1.000 m² numa das esquinas mais movimentadas do bairro – Avenida Campeche com a Rua Pau de Canela -, Eduardo Elias, idealizador da Destino Certo, mantém um pátio de compostagem e uma pequena agrofloresta. “Que leira linda!”, foram os primeiros comentários do grupo ao entrar no espaço.

A Destino Certo funciona assim: Eduardo faz a coleta semanal do resíduo orgânico de restaurantes, lojas de produtos naturais, escolas e condomínios do bairro, em dias alternados, trazendo entre 2 e 2,5 toneladas de restos de comida para compostar no pátio. O composto produzido vai para a horta anexa ao pátio, onde ele produz verduras e legumes orgânicos, que voltam para os restaurantes. Eduardo também comercializa o composto. Ele cobra R$ 0,30 por quilo de resíduo coletado e compostado e vende o composto a R$ 1 (bruto) ou R$ 2 (peneirado). “Com o serviço de coleta e compostagem, eu arrecado cerca de R$ 4.500. Mas esse valor só cobre os custos de aluguel, combustível e mão de obra. O lucro do empreendimento vem mesmo da venda do composto e de verduras, que nem é tão alto assim. Mas isso é mais do que um simples negócio: é uma iniciativa para diminuir nosso impacto ambiental e criar consciência ecológica”, explica Eduardo, que calcula que em três anos de atuação empresarial já reciclou mais de 300 toneladas de resíduo orgânico. “Isso sem contar o volume de palhada e serragem”, completa. “Esse empreendimento se baseia na consciência de que resto de comida não é lixo, mas um recurso”, avalia Eduardo.

A vivência de Eduardo com compostagem em maior escala começou na Horta Comunitária e Pedagógica do PACUCA, próxima parada das visitas do grupo na quarta-feira. Instalada em 2015 com muita luta e resistência da comunidade do Campeche em uma área altamente visada pela especulação imobiliária, a Horta do PACUCA recebe e composta os resíduos orgânicos de cerca de 200 famílias do bairro, compostando em torno de 100 toneladas de resíduos ao ano, calcula o coordenador da Horta, Ataíde Silva. “Aqui somos uma equipe de 30 voluntários e uns 5 loucos”, aponta Ataíde. Junto com Ubiratan Matos (Bira), eles falaram sobre o histórico da Horta e seus projetos futuros.

“A Horta surge da luta por mais áreas verdes e de lazer em Floripa, agregando também a finalidade da produção de alimentos”, disse Ataíde. A produção de verduras e legumes do PACUCA é distribuída para escolas e asilos da comunidade, além de bairros periférios da Grande Florianópolis, como Brejaru, Monte Cristo e a Ocupação Marielle Franco. Para os próximos anos, Ataíde e Bira contam que pretendem instalar estruturas para geração de energia e captação de água da chuva.

E a turma também colocou as mãos na terra, plantando árvores frutíferas e nativas no terreno. “Isso sim é participação da sociedade civil. Quem sabe daqui a alguns anos vocês poderão desfrutar da sombra das árvores que vocês plantaram”, disse Bira.

No dia 29, a programação começou com uma conversa sobre a agricultura urbana pelo mundo, com Joaquim Moura, que também é do Rio e trabalha com agricultura urbana há mais de 40 anos. Além de seu trabalho como tradutor da revista de Agricultura Urbana (Urban Agriculture Magazine), Joaquim atua com educação e compostagem em escolas na região de Visconde de Mauá, localizada na Serra da Mantiqueira, onde vive desde 2001. Joaquim ressaltou a importância de trazer a educação para suas atividades com a juventude.

Ainda durante a manhã, os participantes se dividiram em grupos para elaborar planos de gestão comunitária de resíduos orgânicos a partir de diferentes contextos. O primeiro grupo discutiu a compostagem a nível municipal tendo como exemplo a capital catarinense. Foram levantadas as dificuldades e potencialidades para uma possível gestão municipal de todo o resíduo orgânico do município.

Dois outros grupos realizaram o planejamento da gestão comunitária nas comunidades da Vargem Grande, no norte da ilha e na Frei Damião, em Palhoça. Ao longo do exercício, muitas cabeças pensando juntas contribuíram para que os projetos dessas comunidades ganhassem força. As representantes das comunidades, Sandra e Mônica, puderam mapear parceiros, bolar estratégias de mobilização e perceberam que a gestão comunitária dos resíduos não se faz sozinha, é preciso colaboração.

Um quarto grupo, formado pelos beneficiários do Minha Casa, Minha Vida discutiu os desafios para onde a gestão comunitária já acontece. Uma das dificuldades nesses espaços ainda é a viabilidade financeira  e o pagamento dos moradores que se envolvem com o trabalho da compostagem, além de envolver mais famílias no processo. 

Na tarde da quinta-feira, o Jardim Botânico foi aberto ao público externo para o seminário Desafios e oportunidades  da Compostagem em Florianópolis. No evento foram apresentadas experiências com a gestão de resíduos no âmbito comunitário, doméstico, empreendedor e municipal. 

No nível doméstico, médico do SUS Renato Figueiredo – que sugeriu a compostagem como solução para o problema dos ratos na Comunidade Chico Mendes dando origem à Revolução dos Baldinhos – explicou como é feita a compostagem com minhocário, deu dicas e tirou dúvidas do público presente. Ele falou sobre o Programa Minhoca na Cabeça, desenvolvido pela Prefeitura de Florianópolis e que distribuiu quase 300 minhocários para a população, desviando desde 2017 quase 10 toneladas de resíduos orgânicos dos aterros sanitários.

Eduardo, do Destino Certo, falou um pouco sobre a sua experiência empreendedora com a compostagem. Hoje, ele recolhe o resíduo de 200 famílias e afirma: “o foco principal é a consciência ecológica. Mostrar para as pessoas que o resto de alimento não é lixo”, por esse motivo a parte pedagógica é importante, a informação tem que chegar até as pessoas.

Com Florianópolis ganhando projeção nacional ao aprovar a primeira Lei de Compostagem no país, o Vereador Marcos José de Abreu (Marquito), do PSOL, concorda ao dizer que a lei é um processo de construção pedagógica. Ele é autor da Lei Municipal 10.501, a chamada “Lei da Compostagem”, que prevê a obrigatoriedade gradativa da gestão dos resíduos orgânicos no município de Florianópolis com a meta de atingir 100% da gestão até 2030. Marquito colocou como uma das metas ao longo dessa caminhada a garantia de remuneração para aqueles/as que realizam serviços ambientais como a compostagem, já que estão desviando um volume importante dos aterros sanitários, gerando economia para os cofres públicos.

Um dos desafios para implementar a Lei é medir o custo que esse serviço tem, pois não é simples calcular aspectos como a redução do impacto ambiental que a gestão descentralizada promove. Além disso, é preciso construir mecanismos para mediar a relação entre estado e as iniciativas comunitárias que realizam a compostagem, tudo isso num contexto de intenso conflito de interesses, já que o transporte e aterramento de resíduos figura entre as três principais contas do município. “Hoje Florianópolis gasta cerca de R$ 37 milhões para transportar e aterrar resíduos orgânicos, que poderiam ser compostados localmente. Com esse dinheiro daria pra construir 12 postos de saúde, por exemplo”, aponta Marquito.

O curso encerrou na sexta-feira, 30, com a apresentação dos planos de gestão discutido nos grupos. Ainda rolou um momento cultural com música, poesia e muitos abraços no Sarau Composto por Nós.

 

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