Encontro #EngenhoéPatrimônio reúne famílias engenheiras de cinco municípios catarinenses

Famílias engenheiras de farinha de Florianópolis, Garopaba, Imbituba, Angelina e Bombinhas estiveram reunidas na capital catarinense, nos dias 14 e 15 de abril, para o Encontro #EngenhoéPatrimônio. O evento selou um processo de dois anos do qual várias famílias engenheiras participaram junto à Rede Catarinense de Engenhos de Farinha e que prevê registrar os Engenhos de Farinha como Patrimônio Cultural.

Através do Projeto Pondo de Cultura 2.0: articulação em rede, apoiado pela Secretaria de Estado de Turismo, Esporte e Cultura (SOL), foram realizadas oficinas de Educação Patrimonial facilitadas pela educadora Giselle Miotto e pela Mestra em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade Manuela Braganholo. Como fruto das oficinas, foi elaborado o Inventário Participativo dos Engenhos de Farinha do Litoral Catarinense, que apresenta os bens culturais relacionados aos engenhos e a identificação das comunidades com eles. Além disso, a Rede também contou com apoio do edital Elisabete Anderle de Estímulo à Cultura para promover atividades que geraram o livro Comida de Engenho e do Mapa Cultural dos Engenhos de Farinha de SC, lançados durante o Encontro.

O evento iniciou no domingo, no caloroso Engenho do Beto Andrade, em Santo Antônio de Lisboa. Em meio a forno, prensa, cocho e tipitis, as famílias se aconchegaram para assistir ao documentário #EngenhoéPatrimônio, produzido pelo Cepagro a partir de depoimentos coletados durante as oficinas de Educação Patrimonial. A tarde seguiu animada pelo giro do boi e cheiro da farinha torrando no forno.

José Roberto de Andrade, o Beto, herdou a tradição farinheira dos bisavós e pretende repassar esses saberes para as próximas gerações. “Não podemos deixar essa cultura morrer. Um lugar sem tradição é um lugar morto e nós não queremos que esse lugar nosso seja morto, têm muitas histórias bonitas para contar”, diz Beto. No fim do dia, com o forno ainda quente após a torra da farinha, foi a hora de fazer beiju. 

A programação de segunda-feira foi aberta ao público e começou com uma roda de conversa sobre o Patrimônio Cultural dos Engenhos, no Hotel SESC Cacupé. Participaram as famílias e equipe da Rede, além do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), na presença da educadora Carla Cruz, e da professora Caroline Celle Waltrick, da E.E.B Maria Rita Flor, de Bombinhas. Estiveram presentes também representantes da Epagri, SESC, Núcleo de Estudos Açorianos, da Fundação Catarinense de Cultura, da Fundação Municipal de Cultura Franklin Cascaes e da Fundação Municipal de Cultura de Bombinhas .

Carla Cruz iniciou sua fala frisando a importância da participação social e demonstrou como as oficinas e encontros realizados pela Rede/Cepagro possibilitaram o fortalecimento de laços entre as famílias e admiradores da cultura do engenho. Ela acredita que esses laços fortalecidos são mais eficazes na hora de pressionar o poder público. Cultura é identificação, segundo Carla, e patrimônio é vida: “O que o estado chama de patrimônio, nós chamamos de vida. Iniciativas como essa são como água e terra fértil que vão germinando novas sementes”.

A também educadora Caroline Waltrick, professora da Escola de Educação Básica Maria Rita Flor, de Bombinhas, provou que as sementes da cultura do engenho já germinaram. Ela esteve presente na primeira oficina de Educação Patrimonial da Rede em Bombinhas e trabalhou o tema com seus alunos. A partir de visitas aos engenhos e conversas com mestres e mestras, os (as) estudantes contribuíram com o levantamento de bens culturais para o inventário. Carol contou que os jovens se empolgaram com a atividade e se envolveram a ponto de aprender a fazer receitas como o beiju. Alguns deles estiveram presentes no Encontro e demonstraram total apoio a preservação dessa cultura, ressaltando sua importância inclusiva para quem não é catarinense.

O debate enriqueceu com as contribuições do público, como a sugestão da guia de turismo Claudete Medeiros, de se trabalhar o turismo de base comunitária com os engenhos, como uma alternativa econômica para as comunidades. Marlene Borges, da Associação Comunitária Rural de Imbituba, também se pronunciou ao lembrar que a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) apontou que a mandioca é um alimento com “grande potencial” e pode se transformar no principal cultivo do século 21 se for realizado um modelo de produção sustentável.

Depois da roda de conversa, o vereador Marcos José de Abreu, o Marquito (PSOL) fez uma fala sobre a questão territorial em Florianópolis. Marquito disse que segundo o censo agropecuário do IBGE de 2017, existem em Florianópolis 212 estabelecimentos rurais. Apesar disso, apenas duas regiões da ilha são consideradas áreas rurais. A cobrança de impostos sobre áreas rurais e urbanas é diferente e seu mandato está elaborando um decreto que regulamenta o pedido de isenção de impostos para áreas que na prática são rurais. 

Nas oficinas da Rede já havia sido identificado que um dos fatores que comprometem a manutenção da cultura farinheira é o fato de não haver aspectos legais que garantam a terra para o plantio, de acordo com o Plano Diretor de alguns municípios, como é o caso de Florianópolis e Garopaba. Sem terra não tem roça, sem roça não tem mandioca e sem mandioca não tem farinha.

Ao final da tarde, a turma seguiu para o Engenho do SESC Cacupé para o lançamento do livro Comida de Engenho que traz receitas tradicionais de engenhos de farinha, além de histórias das famílias que abriram suas casas e compartilharam seus saberes durante as Oficinas Gastronômicas.  O livro pode ser adquirido mediante contribuição espontânea entrando em contato pelo e-mail comunicacao@cepagro.org.br. O dinheiro vai para o caixa da Rede Catarinense de Engenhos de Farinha.

O encontro ainda terminou com um delicioso café regado a beiju, bijajica e bolo de mandioca, feito pelo cozinheiro Fabiano Gregório, do Movimento Slow Food.

 

 

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