Comer é um ato político: Banquetaço serve 2 mil refeições gratuitas em defesa do CONSEA, em Florianópolis

“Mas é de graça mesmo?”, perguntavam as pessoas na fila que tomou conta do Largo da Catedral nesta quarta, 27 de fevereiro. Durante quase 3 horas, o Banquetaço serviu alimentos saudáveis e saborosos gratuitamente no Centro de Florianópolis, assim como em outras 40 cidades brasileiras. Na capital de SC, o Banquetaço ofereceu cerca de 2 mil refeições, numa ação em defesa do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional. “É uma forma de protesto contra a MP 870 que em alguns de seus incisos exclui o CONSEA de seu papel fundamental, que é propor políticas públicas para segurança alimentar e nutricional”, explica Rita de Cássia Maraschin da Silva, presidenta do CONSEA/SC, onde representa a Federação de Trabalhadores da Agricultura Familiar (FETRAF). “Estamos aqui para defender o direito do povo brasileiro de ter comida de verdade”, resume Maria de Lourdes Mina, representante do Movimento Negro Unificado no CONSEA/SC. Junto com o banquete, havia microfone aberto, rodas de conversa e distribuição de materiais promovendo o diálogo com a população e reforçando que comer é um ato político.

A comida de verdade servida no Banquetaço foi preparadas por mais de 80 voluntários/as em 4 cozinhas espalhadas pela cidade. Os alimentos foram arrecadados junto a cooperativas, grupos e associações da agricultura familiar e de povos e comunidades tradicionais, somando quase meia tonelada de comida. Também houve alimentos que seriam descartados por não adequar-se ao mercado e foram aproveitados. Na mesa colorida e cheirosa, foram servidas delícias como: focaccia de milho com banha, geleias e chutneys de frutas com flores  comestíveis; pães de queijo com cúrcuma e beterraba; pães integrais com plantas alimentícias não convencionais (PANCs); várias preparações com mandioca e batata doce; antepastos diversos; pestos; panquecas de banana com pimenta; bolinhos de feijão com couve; caponata de berinjela e snacks de abóbora com gengibre . Tudo servido em folhas de bananeira, reduzindo a geração de resíduos do banquete.

“Enquanto o alimento bom, limpo e justo não for pra todas e todos, estamos na batalha”, crava a gastróloga e ativista do Slow Food Brenda Salomé. Ela foi uma das 80 pessoas que doaram seu tempo e energia para alimentar o Banquetaço, trabalhando na Cozinha Mãe da Revolução dos Baldinhos, na Comunidade Chico Mendes. “Estar junto no Banquetaço foi incrível, sempre a gente aprende e

Brenda Salome na Cozinha Mae da Revolução dos Baldinhos

ganha muito mais. Foi um momento único, servindo 2 mil pessoas, e tudo fluindo. Não precisou distribuir senha, as pessoas chegavam e iam se servindo. Foi uma orquestra linda, muito bem desenhada, muita gente nem se conhecia e deu tudo certo”, avalia Brenda. Para ela, “o CONSEA é importantíssimo para garantia alimentar e controle que a sociedade civil tem sobre o destino da alimentação

E o que seria comida de verdade?

Para Maria de Lourdes Mina, “a comida de verdade é a tradicional, sem agrotóxico, que serve tanto de alimento pro corpo quanto para alma. É vida. E é contra a morte da população brasileira que estamos aqui. Tem população que não acessa comida sem agrotóxicos. É isso que estamos defendendo aqui”, afirma. De acordo com a ANVISA, um terço dos alimentos consumidos cotidianamente pelos brasileiros está seriamente contaminado pelos agrotóxicos.

Lurdinha chama a atenção para o aceleramento na liberação de agrotóxicos deste ano. De acordo com a Associação Brasileira de Agroecologia, desde o dia 1º de janeiro, já foram liberados 57 novos agrotóxicos no mercado brasileiro. Em termos de controle social dos agrotóxicos, o CONSEA é referência. Além de discutir temas como banimento e suspensão de subsídios fiscais, o CONSEA também contribuiu na criação de políticas e alternativas ao seu uso, com a instituição de mecanismos de produção de alimentos agroecológicos que dialoguem com o segmento da agricultura familiar e camponesa.

Elizete Eliara Antunes, cacica guarani da Terra Indígena Morro dos Cavalos, concorda com Lurdinha ao comentar o que é comida de verdade: “é a comida sem agrotóxicos, produzida pelas nossas mãos, sem veneno”. Ela ressalta a importância do CONSEA na defesa de uma alimentação saudável, principalmente para a juventude. “Nossa preocupação é que nossos filhos e netos vão começar a nascer com prazo de validade, assim como os alimentos”, afirma. Lembra também da relevância do Conselho para “dar mais valor aos pequenos agricultores que sobrevivem da produção de alimentos”.

Para o agricultor Dilnei da Rosa, da ProduCooper, de Jaguaruna (SC),  que doou queijos, salames, pães, geleias e bolos para o Banquetaço, comida de verdade é “aquilo que a gente consegue produzir. É claro que a gente não produz tudo que consome, mas na nossa região, boa parte do que é consumido nossos agricultores conseguem produzir”. Ele ressalta a importância do CONSEA pela manutenção de políticas públicas como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), importantes canais de comercialização para as famílias agricultoras. “Nós defendemos a luta do CONSEA porque somos classe que depende disso. A nossa cooperativa tem 80 agricultores associados e entrega alimentos nas escolas de vários municípios”, conta.

As compras institucionais são importantes também para Povos e Comunidades Tradicionais. “É através do CONSEA que a gente participa da alimentação escolar, do PNAE e do PAA”, conta Mercedes Machado, representante da Comunidade Quilombola Morro do Fortunato no CONSEA/SC. A mulheres da comunidade, localizada em Garopaba, produzem doces e biscoitos que entregam na alimentação escolar. Além disso, o quilombo tem uma horta orgânica que garante a segurança alimentar da comunidade. “Ter sua plantação em casa, ir lá e pegar sua comida no quintal para comer todos os dias, isso pra mim é comida de verdade”, conta Mercedes.

Além de canais de comercialização para agricultores/as e comunidades tradicionais, programas como o PAA e o PNAE também colaboraram para que o Brasil saísse em 2014 do Mapa da Fome. Enquanto em 2001 nosso país contava com 36 milhões de pessoas passando fome (quase 1/5 da população à época), em 2014 essa proporção caiu para menos de 5% da população brasileira (ou 10 milhões de pessoas), de acordo com o “Relatório de Insegurança Alimentar no Mundo” da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FA0). A professora Neila Maria Viçosa Machado, da Teias Articuladoras pelo Fortalecimento da SAN, assessora do CONSEA/SC e membro do FBSSAN, afirma que “o CONSEA é defensor da política de Segurança Alimentar e Nutricional no Brasil. Hoje já temos dados que estamos voltando ao mapa mundial da fome e com um número grande de pessoas. Com a extinção do CONSEA, onde ficam as políticas públicas para combater isso? Sem o CONSEA, qualquer barbaridade pode acontecer”.

*com fotos de Evan Bowness, Bruna Fagundes Mertins, Ed Andrade, Brenda Chaves e Luciane May

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