Rede de Engenhos promove oficina de Educação Patrimonial em Garopaba

Representações de sete engenhos de farinha de Garopaba participaram da Oficina de Educação Patrimonial realizada pela Rede Catarinense de Engenhos de Farinha e Centro de Promoção da Agricultura de Grupo (Cepagro), no dia 25 de novembro no Engenho da Vó Cicina, na Lagoa da Encantada  A ação foi feita através do Projeto Ponto de Cultura 2.0: articulação em rede, com a facilitação da educadora Giselle Miotto e da Mestra em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade Manuela Braganholo. Ao longo de um dia de muita prosa e reflexões, as famílias presentes fizeram um levantamento dos bens culturais relacionados aos engenhos de farinha da região.

A oficina é continuação do mapeamento dos engenhos de farinha artesanais de Garopaba iniciado através do edital Elisabete Anderle, que buscou identificar e mobilizar os engenhos da região para compor a Rede Catarinense dos Engenhos de Farinha. Nessa primeira ação,realizada ao longo de três dias no início de novembro,houve a participação de três agentes locais: Luis Fernando, da comunidade do Macacu, Maria Cristina Gomes, estudante de educação patrimonial pelo IFSC e Claudete Medeiros, do coletivo Taiá Terra. Além de mapear 28 engenhos de farinha na cidade, foi possível conhecer  um pouco da realidade destes engenhos dentro do aspecto produtivo e de intenção de manutenção dos mesmos, seja desenvolvendo atividades vinculadas ao turismo ou mesmo como forma de preservação da cultura e subsistência.

Na dia 25, além de levantar os bens culturais, a comunidade também discutiu sobre as principais dificuldades que eles enfrentam para manter os engenhos de pé e funcionando. Na visão dos engenheirxs, o fator que mais compromete a manutenção desta cultura é o fato de não haver dentro do município aspectos legais que garantam a terra para o plantio, em relação ao Plano Diretor, onde as áreas rurais ficaram reduzidas comparada com a realidade, e até mesmo a questão de impostos. Como eles mesmo colocaram:  “Sem roça, não tem mandioca, sem mandioca, não tem farinha”.

Segundo José Antônio Furtado, o Zezinho, que trabalha no engenho construído por seu pai há 69 anos e faz parte do Conselho de Agricultura do município, “Hoje é tudo lote, não tem mais terra”. A resistência que ele e os outros engenheirxs da região fazem é principalmente contra a especulação imobiliária e a mega-projetos que preveem a expropriação de terra dos agricultores e causam grandes impactos socioambientais para o território.

Luís Fernando conta que os agricultores não têm sido informados adequadamente de onde eles podem ou não plantar. Disse ainda que a fiscalização no município é inadequada e que há um tratamento diferente para aqueles com poder aquisitivo maior. Manoel João Pereira, pescador e lavrador do Capão, se pergunta o porquê de não poder plantar sua roça, enquanto aqueles que têm interesse em construir, conseguem a liberação para “vir com uma máquina e arrancar tudo”. Ele mantém o engenho do pai funcionando desde a década de 1970.

O que move a resistência destes engenhos é principalmente a manutenção da tradição e da sua cultura. Dona Santina, que é forneira, coisa rara para uma mulher no mundo dos engenhos, ama ficar no engenho, tratar o gado e manter a cultura herdada da família: “se me diz pra fazer outra coisa eu não quero”. Além da preservação da cultura, a manutenção dos engenhos pode vir a se tornar um atrativo turístico para a região. Mariana, neta da Vó Cicina, fez um curso de guia de turismo e não quer perder as raízes. Ela teve o privilégio de receber turistas no engenho da família, com direito a café colonial, e vê grande potencial na valorização do turismo de base comunitária.

Estas atividades envolvendo a comunidade local fortalecem a Rede Catarinense dos Engenhos de Farinha, para que seja possível levar estas questões ao poder público local. Elas também vêm somar à campanha #EngenhoéPatrimonio, que busca mobilizar a sociedade civil e iniciativas do terceiro setor para propor o registro dos engenhos de farinha artesanais do litoral catarinense como patrimônio cultural imaterial reconhecido pelo IPHAN.

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