Direito à cidade e políticas públicas são debatidos no IV Encontro Municipal de Agricultura Urbana de Florianópolis

“Um sonho que se sonha junto, como agricultor urbano, não é apenas um sonho, é realidade”.

A frase dita por Neldo Wazlawick, agricultor urbano da Rede Semear Floripa, durante a mesa de abertura do IV Encontro Municipal de Agricultura Urbana de Florianópolis, deu o tom do evento que teve como tema o Direito à Cidade. Nos dias 23 e 24 de novembro, sociedade civil, coletivos de Agricultura Urbana, estudiosos do assunto e representantes do poder público estiveram reunidos para discutir a Agricultura Urbana em Florianópolis.

Políticas públicas, territorialidade e valorização das diversidades foram algumas das questões levantadas durante  o IV EMAU, promovido pela Rede Semear Floripa de Agricultura Urbana com apoio do Cepagro, Prefeitura Municipal de Florianópolis, UFSC, FLORAM, Laboratório de Educação no Campo e Reforma Agrária (LECERA), Fundação Franklin Cascaes e COMCAP. A programação contou com seminários, oficinas e mesas de discussão que se dividiram entre o Jardim Botânico, a Epagri e o Centro de Ciências Agrárias da UFSC.

Na mesa de abertura, ao lado de Neldo, estiveram presentes representantes do Centro de Ciências Agrárias, Floram, COMCAP, Epagri, Prefeitura, Ministério da Agricultura e Poder Legislativo, na figura do vereador Marquito (PSOL), que definiu os espaços de articulação como a Rede Semear e o EMAU como sonhos que se concretizam. Eduardo Rocha, diretor-presidente do Cepagro, lembrou que a Agricultura Urbana é intersetorial e que trabalhar direito à cidade é trabalhar outros direitos, como segurança pública e alimentar.

A primeira atividade foi a mesa Perspectivas e desafios da Agricultura Urbana e Políticas Públicas, composta por Celso Sanches, professor da UNIRIO, Renata Rodrigues, do LECERA, Juliana Luiz, do Coletivo Nacional de AU e Margareth McQuade, consumidora e agricultora urbana. Juliana Luiz abriu a discussão falando sobre a cidade como um bem comum, um espaço que deve ser concebido não com função imobiliária, mas social: “Não queremos o direito à propriedade, queremos direito ao uso”, disse. Juliana lembrou que pensar a cidade e seus espaços é também defender um projeto de mundo.

Renata Rodrigues, do LECERA, trouxe para a discussão as palavras de ordem do MST: “ocupar, resistir e produzir”. Disse que a Agricultura Urbana é antissistêmica e que defendê-la significa disputar a cidade e lutar por direitos, “Ser da AU é ser ativista, enfrentar as grandes empresas que dizem que o correto é comer comida do mercado, é uma disputa com o agronegócio que está no nosso prato”. Renata resgatou ainda a história rural de Florianópolis e lembrou que o desenho das servidões do Campeche, por exemplo, é dessa maneira porque ali era um espaço de produção de alimentos.

Celso Sanches, em sua fala, nos levou de Floripa até a favela da Maré, no Rio de Janeiro, para contar a história da Vanessa, uma mulher, estudante e negra que cultiva e distribui mudas para a comunidade. Vanessa faz Agricultura Urbana no contexto da intervenção militar do Rio, e com ela Celso chamou a atenção para o embranquecimento e a invisibilidade dos sujeitos que fazem AU acontecer, algo a ser evitado.  Também reforçou o respeito que devemos ter com as ancestralidades e conhecimentos tradicionais que há muito tempo já fazem Agroecologia. Para ele, pensar AU é pensar em formas de resistência e re-existência, “fazer Agricultura Urbana é assumir um lado não neutro da história, é assumir partido” disse Celso.

A programação do evento seguiu na tarde de sexta-feira com seminários e atividades culturais e retornou no sábado de manhã com 13 oficinas gratuitas. No Cepagro, as agrônomas Karina Smania de Lorenzi e Aline de Assis facilitaram uma oficina sobre Hortas Pedagógicas.

O encerramento do evento foi uma mesa redonda sobre Políticas Públicas de Agricultura Urbana em Florianópolis. O vereador Marcos José de Abreu, Marquito, e o direto de Pesca, Maricultura e Agricultura de Florianópolis, Fábio Faria Brognoli foram convidados para apresentar a Política Municipal de Agroecologia e Produção Orgânica de Florianópolis (PL 10.392/2018) e o Programa Municipal de Agricultura Urbana (Decreto 17.688/2017) e promover o debate.

Fábio abriu o bate-papo apresentando o PMAU e contando um pouco sobre como o decreto foi construído pela Rede Semear. Ele frisou a importância da participação da comunidade na promoção da agricultura na cidade e disse que o poder público tem um papel muito importante na garantia de estrutura e apoio, mas que quem de fato faz a AU acontecer são as pessoas. Em seguida, Marquito explicou como funciona a Política Municipal de Agroecologia e Produção Orgânica de Florianópolis, projeto de lei construído por seu mandato em conjunto com sociedade civil. Ele apresentou a lei como uma conquista coletiva e que garante uma política concreta que deve permanecer independente da gestão. “Nós temos que pensar também a longo prazo”, disse o vereador e revelou que um dos desafios para a Agricultura Urbana hoje é colocar as políticas públicas acima das questões político partidárias.

Francisca Daussy, coordenadora de promoção da saúde da Secretaria de Saúde, participou na organização do evento e esteve presente no debate. Para ela, a Agricultura Urbana é um “campo de maravilhas” na área da saúde, apesar de ser ainda pouco explorada no Brasil. Francisca disse que a saúde ainda é muito prescritiva e que muitos problemas vêm da questão alimentar, e a Agricultura Urbana dialoga com tudo isso: “Eu vejo que é um espaço muito livre, as pessoas se sentem livres para contribuir com as discussões e é isso que a gente quer”. E a questão do fortalecimento político também é importante. Segundo a coordenadora, “esse fortalecimento na Câmara, na parte legislativa e na própria estrutura da Prefeitura é muito importante. E tudo isso são frutos desses encontros”.

Além de promover muitas discussões ricas e trocas de conhecimento, o IV Encontro Municipal de Agricultura Urbana encerrou com a formulação da II Carta de Agricultura Urbana de Florianópolis, que em breve será divulgada ao público.

Fotos: Evan Bowness

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s