Seminário em Santa Rosa de Lima aborda desafios e demandas da Agroecologia

VIII Seminário Estadual de Agroecologia em Santa Rosa de Lima

Santa Rosa de Lima, município com 2 mil habitantes nas Encostas da Serra Catarinense, sediou o VIII Seminário Estadual de Agroecologia nos dias 26 e 27 de outubro. Conhecida pelo agroturismo – foi ali que começou o projeto Acolhida na Colônia -, a cidade, que  também tem o título de Capital Catarinense da Agroecologia Agroecologia, recebeu cerca de mil pessoas para o Seminário. O evento foi promovido pela Prefeitura de Santa Rosa de Lima, Associação dos Agricultores Agroecológicos (Agreco/CooperAgreco), Sindicato dos Trabalhadores da Agricultura Familiar (Sintraf), Associação de Agroturismo Acolhida na Colônia, Cooperativa de Crédito Cresol, Centro de Formação em Agroecologia (Cefae), além dos movimentos sociais como o Movimento dos Sem Terra – MST, e teve apoio do gabinete do Deputado Estadual Padre Pedro. O objetivo do evento foi debater os temas ligados à produção sustentável de alimentos. O Cepagro participou do evento facilitando uma oficina sobre Agricultura Urbana e Compostagem.

Oficinas

As oficinas aconteceram no segundo dia do evento, com temáticas como Educação do campo, Meliponicultura e Sementes Crioulas. O Cepagro ofereceu a oficina de Agricultura Urbana, facilitada pelo engenheiro agrônomo Júlio Maestri, da equipe técnica da organização. Na atividade estavam presentes  estudantes, agrônomos, aposentados e representantes do Poder Público.

Turma da oficina de Agricultura Urbana no VIII Seminário Estadual de Agroecologia

A abertura da oficina foi uma dinâmica em que os presentes ficavam frente à frente.  “Na nossa educação o professor é colocado de forma superior ao aluno, mas quando a olhamos no mesmo plano (nos olhos), nos reconhecemos como seres humanos, e conseguimos enxergar que somos iguais. Quero mostrar que hoje estou como facilitador da oficina, mas tem várias pessoas aqui que também têm muito a contribuir”, disse Júlio Maestri, mostrando como os conhecimentos da cultura popular também são válidos e que a oficina é uma troca de experiências entre o facilitador e os presentes, mais do que uma transmissão de informações.

Evaldo Espezim Secretário Municipal de Desenvolvimento Sustentável, Agrícola e da Pesca de Imbituba – SC.

Muitas dúvidas foram levantadas, entre elas a do Secretário Municipal de Desenvolvimento Sustentável, Agrícola e da Pesca de Imbituba (SC), Evaldo Espezimsobre a possibilidade de fazer compostagem com as vísceras de peixe. “Os pescadores em Imbituba descartam 30 toneladas de vísceras de peixe ao mês. Eles vendem a uma fábrica de ração em Laguna, e isso pesa no bolso deles, que arcam com transporte dos resíduos, e nem todos conseguem ir até o local de venda. A lei exige transporte específico para esse material. Por isso me interessei em conhecer a compostagem, e saber da viabilidade dela para transformar as vísceras de peixe em composto. Estamos pensando em implementar na cidade e tentar garantir um projeto contínuo, e que seja algo permanente”, disse Evaldo Espezim.

Lidiane Camargo

Além do Secretário de Imbituba, estava presente Lidiane Camargo, extensionista da Epagri em Criciúma.  “Agricultura urbana é algo novo para gente, por isso me inscrevi na oficina, para saber mais sobre gestão de resíduos urbanos”, disse a agrônoma.

Os desafios da Agroecologia na pauta do evento

Professor Ernesto Mendez – Universidade Vermont (EUA)

No primeiro dia do Seminário, durante a palestra “Os desafios da Agroecologia”, o professor Costarriquenho Ernesto Mendez (foto), pesquisador da Universidade de Vermont (EUA), faz três perguntas ao público: “Quem aqui pesquisa e estuda a Agroecologia? Levante a mão, por favor.” Ele mesmo levanta sua mão esquerda, e a direita segura o microfone. “Agora quem aqui é agricultor?”, e a cena se repete, desta vez com grande parte do público com as mãos levantadas. “Uma última pergunta, quem aqui pratica à agroecologia como movimento social?” Ele novamente levanta a mão esquerda, mas apenas um terço dos presentes se manifestam. Diante dessa resposta, ele afirma: “é necessário que todos nós participemos de forma integral do movimento, plantando, reivindicando, pesquisando e protestando”. De acordo com Mendez, o movimento agroecológico, além dos problemas de investimentos e reconhecimento dos órgãos que atuam na esfera da produção de alimentos, perde ainda mais força quando os seus principais agentes, os produtores e consumidores, não estão inseridos de forma ativa nos princípios da agroecologia e relaxam na militância. “É necessário um trabalho participativo de todos para uma transformação social, é isso que a agroecologia precisa agora”, disse Ernesto.

O Seminário Catarinense de Agroecologia é um marco, pois ao atingir sua maioridade – 18 anos desde o primeiro evento, em 1999, em Rio do Sul – foi publicado o Manifesto Agroecológico de Santa Rosa de Lima, que afirma: “em tempos de crise humanitária”, repudia os cortes em políticas públicas para o campo instaurada pelo atual governo e a criminalização dos movimentos sociais. Era a esses posicionamentos firmes, ativos e coletivos que o professor Ernesto se referia. Talvez, a elaboração do Manifesto foi o maior acerto da organização, que realizou um evento impecável quanto à logística

Contrapontos

Todas as palestras do evento foram proferidas por homens. Onde estavam as mulheres? Segundo o documento do Manifesto, As belezas naturais das Encostas da Serra Geral têm oportunizado a vivência familiar, garantindo a permanência de jovens e a autonomia de mulheres, pela geração de trabalho e renda com a atividade do agroturismo”. Se o ponto de partida é realmente a valorização da autonomia das mulheres, por que então não ouvi-las, e oportunizar que contem suas experiências na agroecologia?

Outro ponto que contrapõe ao Manifesto que afirma “Requeremos a criação imediata de bancos de sementes crioulas, destinados à Agroecologia, visando à preservação do patrimônio genético; e a promoção de feiras e de sistemas de trocas de sementes crioulas”. Entretanto, foi  pouca ou quase nenhuma participação na feira de sementes por parte dos agricultores. Onde estavam os guardiões e as Guardiãs das sementes? Perto da feira havia apenas um senhor alto e olhos puxados, e seu filho, expondo sua criação de abelhas sem ferrão e nativas do continente americano.

O caso do apicultor e a falta de assistência e financiamento

Guido Defrein, apicultor em Santa Rosa de Lima

 O apicultor Guido Defrein apresentou durante o Seminário algumas das 26 espécies de abelhas nativas sem ferrão, que ele cria na sua propriedade ali em Santa Rosa de Lima. Guido tem uma estrutura interessante voltada à produção e venda de enxames, mas sua produção não é orgânica. Para que isso fosse possível, suas abelhas teriam que alimentar-se com néctar natural, não poderiam ser tratadas com açúcar, como ele faz. Mesmo  sem a possibilidade de ter a certificação orgânica de sua produção, Guido Defrein gostaria de alimentar suas abelhinhas com açúcar orgânico. “O açúcar comum tem muita soda e cal” diz o apicultor, que não consegue fontes de financiamento comprar açúcar orgânico, mais caro e mais difícil de encontrar no mercado.

A dificuldade desse senhor ultrapassa o financiamento, fica nítido quando olha para a nossa câmera e vem lágrimas aos olhos:
–       O senhor se emociona quando fala das abelhas, por quê? Tem muito amor nelas, né?”, pergunto a Guido, no fundo intrigado com as lágrimas.
–       “Claro né moço minha vida toda trabalho com isso”, responde o apicultor.
–       “É que meu pai perdeu cerca de 15.000 abelhas porque foi enganado por um camarada que vendeu açúcar envenenado pra ele” disse Hyuri Defrein, filho do apicultor.

O apicultor gostaria de tratar as abelhas da forma mais saudável possível, com certeza pelo amor que tem pelos insetos e pela dedicação naquilo que faz. Demandas como a de Guido estão expressas no Manifesto Agroecológico de Santa Rosa de Lima: “Cobramos investimentos nas redes de economia solidária que incluem o apoio técnico ao processo de produção e comercialização, criando a cultura da solidariedade”. As discussões do evento, o Manifesto e o depoimento do apicultor  refletem os desafios enfrentados por quem quer trabalhar e viver  Agroecologia, principalmente em termos de assistência técnica, financiamento e a comercialização dos produtos dos agricultores familiares de base agroecológica.

 

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