De salmão a cuscus paulista temperados com rap, Disco Xepa esbanjou bons pratos e muita solidariedade

texto e fotos: Fernando Angeoletto

É preciso ressignificar a Xepa. Tirar dela qualquer conotação ruim. A Xepa só é xepa porque ignoramos seu valor, pois é sempre mais fácil mandar o que sobra pra longe, pra virar problema em lixão.

cartaz-disco-xepa-baldinhos_webEngana-se quem imagina que, ao levantar alimentos descartados pelo mercado às alturas de um verdadeiro banquete, os ativistas que realizam a Disco Xepa estejam “apenas” enchendo barrigas. Entre cores e cheiros e sabores de uma mesa posta por dezenas de mãos solidárias, multiplica-se o recado de que desperdiçar comida é dar as costas para a fome, jogar a água (escassa) pelo ralo, aumentar a demanda por energia com colossais projetos que cada vez mais dizimam povos e florestas . Ou alguém ainda dúvida que é a alimentação uma das mais impactantes atividades humanas, num mundo onde a população se multiplica exponencialmente e cada vez mais se agrupa em cidades, cimentando o solo que é base da vida?

A Disco Xepa é o nome abrasileirado da “Schnippel Disco”, ou Disco Sopa, concebida na Alemanha. Em diversas partes do mundo, o evento é organizado pela Rede Jovem Slow Food, trazendo o gás e a força da moçada em situar o alimento em sua amplitude de significados, do mais prosaico agricultor orgânico ao mais complexo fluxo da matéria entre o campo e a mesa, gerando perdas e problemas. No ano passado, a ideia aportou no Brasil, e em 2014 mais de 20 Discos Xepas foram realizadas em território nacional.

Philipe, o "Tocha"
Philipe, o “Tocha”

Aqui, a Disco Xepa Revolução dos Baldinhos teve o apoio institucional do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (CONSEA/SC), questionando o mito propagado pela indústria de agroquímicos de que “é preciso produzir mais”, já que, segundo a própria FAO, 30% de todo alimento produzido no planeta é desperdiçado.

Dentre tantas cabeças e mãos jovens empenhadas em preparar, a partir de sobras, o banquete contabilizado para 1.000 pessoas, destaca-se o Tocha. Philipe Belletini é o nome deste jovem gastrônomo, cuja perfil profissional tem vínculo estreito com a agricultura familiar que é uma de suas raízes.  Foi ele o principal articulador de toda a logística, das matérias-primas à organização do voluntariado, responsável pelo sucesso do evento.

DSC_1966Entram aí muito empenho e amor, e também humildade, que o rapaz tem de sobra. Humildade que é em essência o húmus – eis aí outro elemento abundante nesta Disco Xepa, realizada em plena Comunidade Chico Mendes, que tem provado ao mundo o valor de transformar “lixo” no mais rico composto orgânico. Dentre as oficinas que aconteceram no evento – de temperos à base de ervas, produção de sabão com óleo usado e clube de trocas – a de Agricultura Urbana compartilhou o know how da Revolução dos Baldinhos com os convidados.

DSC_2073As matérias-primas do banquete, preparado por mais de 15 voluntários (chefs, nutricionistas, estudantes e membros da própria comunidade), foram viabilizadas pela parceria com o Instituto Nutrir, que funciona na Ceasa da Grande Florianópolis redesenhando o caminho das sobras, ao direcioná-las a organizações filantrópicas e famílias carentes. Para preparar o menu, os chefs tiveram também carcaças de salmão, resultado da “febre” dos restaurantes de sushi que só usam os filés, além de cabeças de outros peixes e camarões, doados por peixarias e restaurantes. Quem articulou a Xepa marinha foi a chef Bel Hagemann, proprietária do Boteco Zé Mané, que segue à risca o conceito Slow Food em seu restaurante – boa parte do cardápio é estrelada por ingredientes tradicionais do território, como o berbigão, o pinhão, a farinha polvilhada e o butiá.

DSC_2115O resultado, do almoço ao café da tarde, foi: xuxu com caldo de camarão, “mocozadinho” de purê de batata com cobertura de salmão desfiado, cuscus paulista, tortas de legumes, purê da terra (com vários tipos de batatas), purê de abóbora, diversos tipos de salada, sucos verde, de goiaba e de mamão e geleia de maçã. A hora da bóia iniciou-se com a montagem de uma enorme mesa em plena rua, que com a surpresa de uma pancada de chuva em poucos minutos foi trasladada para dentro do galpão, sem no entanto abaixar a moral de anfitriões e visitantes.

Komay MC
Komay MC

Durante as oficinas, enormes “pula-pula” infláveis e mesas de jogos fizeram a festa da criançada. Os brinquedos foram oferecidos pela Ação Comunitária do SESC/SC. Já o ambiente “Disco” desta Xepa esteve na responsa do Komay MC, autor do famoso Rap dos Baldinhos, em que a temática ambiental eternizou-se na música de rua de Floripa.  Além de lançar seu recente Cd “Me chamam de Boss”, Komay trouxe vários manos pro palco. Prova de que aqui não só a Xepa, mas também a cultura, são bens compartilhados.

Veja também: Disco Xepa na RIC/Record

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