Oficina em Major Gercino aborda manejo e preservação de solos

Realizado na última quarta-feira, 17 de setembro, o mini-curso reuniu diversos agricultores que integram o projeto de Fomento à Assistência Técnica e Extensão Rural para Fumicultores visando à Transição Agroecológica que o Cepagro está implementando na região através do Fundo para Reconstituição de Bens Lesados do Ministério Público de Santa Catarina. A capacitação foi ministrada pelo engenheiro agrônomo Guilherme Gomes na propriedade da família Stolarczk, na comunidade do Pinheiral. “Hoje em dia, a matéria orgânica dos solos está bastante diminuída, devido aos cultivos convencionais, que adubam o solo para apenas uma safra”, explicou Guilherme. “Já a agricultura orgânica pensa na fertilidade do solo para várias culturas, para o futuro”, completou.

A oficina é mais uma ação do Cepagro no âmbito da Diversificação Produtiva em Áreas Cultivadas com Tabaco.

A oficina é mais uma ação do Cepagro no âmbito da Diversificação Produtiva em Áreas Cultivadas com Tabaco.

Foi com este mote da preservação dos solos a longo prazo que Guilherme iniciou o curso, relatando a própria experiência de recuperação de uma área no Ratones, iniciada em 1996. No terreno recém-adquirido pela família, o agrônomo encontrou uma terra argilosa, com pouca matéria orgânica e muita acidez, resultado de 200 anos de uso agrícola intensivo. Através de técnicas como cobertura verde e uso de adubação natural (composto orgânico com esterco e cama de aviário), ele conseguiu não só aumentar a fertilidade do solo, mas também a vida útil dos canteiros. Se no início do processo de recuperação era necessário adubá-los a cada 3 meses, após 5 anos este período aumentou para 13 meses.

O engenheiro agrônomo Guliherme Gomes mostra as técnicas de recuperação de solos que usou em sua propriedade.

O engenheiro agrônomo Guliherme Gomes mostra as técnicas de recuperação de solos que usou em sua propriedade.

Uma experiência parecida foi vivenciada pelo agricultor Oséias Staroski, da comunidade do Rio das Flores, em Major Gercino. “O terreno era bruto, que nem estrada. A terra já não tinha mais minhoca, de tanto veneno que tinham sido passado antes. Por quase dez anos eu tive que cuidar, plantava o milho e deixava ali. A cada ano foi melhorando”, contou. O agricultor também ficou interessado pela compostagem de esterco que viu ali e disse que pretende adotar a técnica em sua propriedade. “Como a gente quer entrar no orgânico, estou vendo como é que faz esse preparado”, disse.

Guilherme também esclareceu os participantes sobre o uso do calcário para correção dos solos, que em quantidades excessivas contribui para a diminuição da matéria orgânica e dos macro-organismos da terra, favorecendo a proliferação de fungos e nematóides nocivos. Além disso, foi apresentado um vídeo de 1991 sobre a experiência de uma horta municipal no Espírito Santo que já naquela época utilizava técnicas de manejo agroecológicas, como o “plantar no meio do mato”: ao invés de remover completamente a cobertura vegetal da terra antes de plantar, é estimulada a sua manutenção. Assim, diminui-se o risco de erosa e de pragas atacando as hortaliças, pois existem outras plantas disponíveis para os insetos comerem.

Este ponto chamou bastante a atenção do jovem agricultor Dione Eger, da localidade do Campinho, em Major Gercino. “Estou com 26 anos, neste tempo sempre aprendi que a terra tem que estar limpa para plantar, nunca pode ter outra planta competindo. E hoje, que não é a primeira oficina de manejo de solo ou de orgânicos que eu participo, eu vi novamente que o solo precisa estar protegido, que a planta que vai ser colhida não pode estar sozinha,”, disse. Já para Juvenício Motta, do Rio das Flores, a convivência entre plantas nativas ou ervas daninhas e as culturas era novidade: “Ao longo do tempo a gente foi aprendendo a deixar o milho depois do fumo pra manter a terra coberta. Isso eu já conhecia. Mas nunca tinha visto a verdura plantada daquele jeito no meio do brejo”, contou.

Além da parte teórica, os participantes da oficina foram a campo para conhecer mais sobre a adubação verde, técnica utilizada pela família Stolarzck nos parreirais e roças da propriedade. Os anfitriões fizeram uma demonstração do uso do rolo faca, ferramenta que "deita" a cobertura vegetal do solo, mantendo-o protegido.

Além da parte teórica, os participantes da oficina foram a campo para conhecer mais sobre a adubação verde, técnica utilizada pela família Stolarzck nos parreirais e roças da propriedade. Os anfitriões fizeram uma demonstração do uso do rolo faca, ferramenta que “deita” a cobertura vegetal do solo, mantendo-o protegido sem o uso de herbicidas.

Os agricultores também conheceram um pouco sobre as técnicas de compostagem de esterco e cama de aviário que a família usa na propriedade.

Promover a troca de experiências e saberes entre agricultores é um dos princípios-chave das dinâmicas de grupo da Rede Ecovida, constituindo parte da metodologia de trabalho deste projeto também. Na foto, os agricultores conhecem um pouco das técnicas de compostagem de esterco e cama de aviário que a família Stolarczk usa na propriedade.

Cepagro contribui no debate para reunião internacional sobre controle do tabaco

Durante o Seminário Aberto da Comissão Interministerial para Implementação da Convenção-Quadro  para Controle do Tabaco, realizado na última terça (16 de setembro) na sede da Organização Panamericana de Saúde, o coordenador-geral do Cepagro Charles Lamb apresentou o posicionamento da organização sobre diversos artigos do tratado, contribuindo na discussão preparatória para a COP-6 – reunião dos países signatários da CQCT, que acontecerá em Moscou no próximo mês. Debater a participação do Brasil no encontro internacional foi o objetivo do Seminário, que reuniu representantes da indústria fumageira e entidades do setor, organizações da sociedade civil ligadas à saúde e à agricultura familiar, além de parlamentares e membros de ministérios e instâncias governamentais.

Foto: Alexandre Milagres

Foto: Alexandre Milagres

 O aporte do Cepagro foi relativo principalmente aos artigos 5.3 (proteção das políticas de saúde pública frente aos interesses da indústria do tabaco), 17 (alternativas econômicas para os trabalhadores que dependem da indústria tabagista) e 18 (proteção ao meio ambiente). Quanto ao primeiro item, foi levantado um alerta sobre a necessidade de restringir contratos públicos envolvendo fomento não reembolsáveis a indústria e seus parceiros institucionais e também o financiamento público de pesquisas acadêmicas voltadas para a indústria tabaco.

Sobre os artigos 17 e 18, reforçou-se a demanda pelo fortalecimento de incentivos à diversificação produtiva e à produção de alimentos livres de agrotóxicos e transgênicos, valorizando hábitos culturais regionais, a agrobiodiversidade e a troca de saberes entre os agricultores e técnicos envolvidos. Também foi solicitada a inclusão da temática junto a Agenda de Desenvolvimento Pós – 2015 da ONU. Além disso, sugeriu-se a instalação de um Grupo de Trabalho Intercontinental Permanente junto à CQCT, integrando organismos governamentais e não governamentais de diversos continentes implementadores de alternativas ao tabaco junto às famílias produtoras, incluindo o meio acadêmico e setores da saúde.

Tais proposições entram em consonância com o posicionamento da Rede Temática de Diversificação em Áreas Cultivadas com Tabaco, que durante o evento divulgou um documento alertando para o desligamento de milhares de famílias de agricultores do sistema integrado de produção de tabaco. Baseada em dados da própria Associação dos Fumicultores do Brasil (Afubra), a Rede aponta que 28 mil famílias abandonaram a produção, provavelmente engrossando as estatísticas de êxodo rural. Ademais, afirma que “os dados demostram mais de 59 mil hectares de área agricultável, deixando de produzir alimentos. Se baixou o número de famílias, não baixou a produtividade, será que a indústria precisa de mais famílias?”.

A Rede também alerta para o endividamento dos produtores de tabaco, fator inerente ao sistema integrado de produção de tabaco devido à depreciação dos produtos comumente praticada pelas fumageiras. A compra da produção está assegurada em contrato entre agricultor e indústria, o que confere uma suposta “segurança” ao produtor. O preço de venda, contudo, não é preestabelecido, seguindo uma lista de categorias de classificação que nenhuma outra cultura vegetal possui. São frequentes os relatos de agricultores que têm sua produção sub-classificada e mal conseguem pagar o financiamento de insumos e estrutura junto às fumageiras ou entram na próxima safra já endividadas. “Com isso, a inovação em outras atividades fica prejudicada e a indústria transfere este endividamento para o setor público”, explica o documento da Rede, trazendo como exemplo as estufas de secagem de grãos hoje financiadas pelo PRONAF mas que são também usadas na cura do fumo.

Livro e audiovisual “Engenhos da Cultura” estão disponíveis online

Organizada pela historiadora Gabriella Pieroni e produzida pela equipe do PdC Engenhos de Farinha/Cepagro, a coleção Engenhos da Cultura: Teias Agroecológicas traça um registro histórico das ações do projeto através de seus protagonistas – agricultores, ativistas, educadores e chefs de cozinha -, metodologias de trabalho e incidência política. O e-book pode ser acessado através do link http://issuu.com/sandraalves91/docs/livro_engenho_da_cultura_vf. Já o vídeo documentário pode ser visto em http://vimeo.com/104524213.

O livro também pode ser solicitado gratuitamente em sua versão impressa, na sede do Cepagro.

A coleção foi lançada em Julho de 2014 no CIC - Centro Integrado de Cultura, em Florianóplis. O evento, realizado pela Rede Cultura Viva SC e Rede Catarina Slow Food, contou com a presença das comunidades urbanas e rurais envolvidas na produção. A iniciativa fez parte de uma campanha levantada pelo Convívio Engenhos de Farinha/Slow Food e viabilizada pelo Cepagro que propõe o registro do modo de fazer a farinha polvilhada  de Santa Catarina como Patrimônio Cultural Imaterial Estadual.

A coleção foi lançada em Julho de 2014 no CIC – Centro Integrado de Cultura, em Florianóplis. O evento, realizado pela Rede Cultura Viva SC e Rede Catarina Slow Food, contou com a presença das comunidades urbanas e rurais envolvidas na produção. A iniciativa fez parte de uma campanha levantada pelo Convívio Engenhos de Farinha/Slow Food e viabilizada pelo Cepagro que propõe o registro do modo de fazer a farinha polvilhada de Santa Catarina como Patrimônio Cultural Imaterial Estadual.

No interior e em Brasília, fortalecimento da rede de controle do tabagismo e diversificação produtiva

Enquanto o corpo de extensionistas rurais do Cepagro segue na mobilização de famílias de agricultores que desejam parar de plantar fumo no Alto Vale do Rio Tijucas, interior de Santa Catarina, membros da equipe técnica da organização participaram do VII Seminário Alianças Estratégicas para o Controle do Tabagismo, realizado em Brasília de 1 a 3 de setembro. Promovido pela Aliança de Controle do Tabagismo + Saúde (ACTBr+), o evento reuniu ativistas e profissionais da área da saúde, direito, agricultura e comunicação, atuantes em instituições e órgãos públicos e também no terceiro setor. Além de expandir a discussão sobre diversos temas relacionados à produção, propaganda e consumo de tabaco, o seminário também teve o objetivo de “fortalecer ações de advocacy para contribuir na construção de políticas públicas, que é o que faz a diferença”, de acordo com Paula Johns, diretora-executiva da ACTBr+.

texto e fotos – Ana Carolina Dionísio

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A diversidade de atores e discussões que integraram o Seminário é ilustrativa da complexidade da questão do tabagismo, que “envolve muito mais do que o próprio fumante”, como afirmou Mônica Andreis, vice-diretora da ACTBr.

Considerada a uma epidemia global pela Organização Mundial de Saúde (OMS), a dependência do tabaco diferencia-se de outras doenças por não ser causada e alastrada por um vírus ou bactéria, mas pela indústria fumageira e suas estratégias de mercado: da integração de produtores ao aliciamento de novos consumidores, várias são as táticas empregadas para manter um vício que mata anualmente 6 milhões de pessoas no mundo. Algumas destas temáticas, que relacionam saúde, propaganda, política, economia e agricultura, foram abordadas durante o Seminário.

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Os desafios para combater a dependência do tabaco extrapolam o âmbito da saúde e passam também pela regulamentação da propaganda e pela política fiscal e de preços para os cigarros, conforme expôs Paula Johns, diretora-executiva da ACTBr+.

O caráter transnacional da dependência do tabaco e a necessidade de ações intersetoriais para o seu controle foram trabalhados pela Dra. Tânia Cavalcante, secretária-executiva da Comissão Interministerial para Implementação da Convenção Quadro para Controle do Tabaco (Conicq). Ela demonstrou como o aumento do IPI sobre os cigarros foi acompanhado por uma diminuição da taxa de prevalência de fumantes na população brasileira, atualmente em 11%, uma das menores no mundo. A efetividade do aumento de preços no controle do tabagismo também foi mostrada por Paula Johns, da ACTBr+.

Estas medidas, juntamente com a promoção de ambientes livres de fumo, a fiscalização nos pontos de venda e consumo e a conscientização sobre os malefícios para a saúde do fumante contribuíram para o balanço positivo dos cinco anos de lei anti-fumo em São Paulo, apresentado por Maria Cristina Megid, do Centro de Vigilância Sanitária paulista. “Hoje, o grande fiscal é a população”, afirmou Maria Cristina, ressaltando a eficiência dos canais abertos de denúncia. Ela também trouxe dados de uma pesquisa do Ibope sobre a aprovação da lei anti-fumo entre os fumantes paulistas: 71% deles sentem-se beneficiados com a legislação.

Neste cenário, contudo, a indústria encontra maneiras de contornar estes e outros mecanismos de controle. O advento dos cigarros eletrônicos – dispositivos que funcionam com nicotina líquida, “queimada” através de uma resistência elétrica – faz parte destas estratégias. Mesmo sendo proibido pela Anvisa no Brasil, o produto já é vendido pela internet. Socialmente mais aceito do que o cigarro convencional, por não gerar tanta fumaça e cheiro, ainda é visto por muitos consumidores como “mais saudável”. “Mas o cigarro eletrônico também possui acetaldeído, que é uma substância cancerígena”, alertou a Dra. Stella Martins, do Instituto do Coração do Hospital das Clínicas da USP.

O acetaldeído atua como um potencializador da nicotina no corpo e é resultante da queima de açúcares adicionados ao tabaco. O uso de aditivos químicos no cigarro – tanto açúcares quanto agentes de sabor como cravo e chocolate – já havia sido proibido pela Resolução RDC 14/2012 da Anvisa, com base no argumento de que tornam os cigarros mais viciantes para os que já fumam e mais atraentes para novos consumidores. A Resolução, contudo, está suspensa por liminar emitida em setembro de 2013. Buscando reverter esta situação e reafirmar o caráter autônomo da Anvisa, os participantes do Seminário foram ao Congresso Nacional na tarde do segundo dia para realizar uma ação de advocacy junto aos parlamentares, convidando-os para uma reunião aberta com os deputados Darcísio Perondi (PMDB-RS) e César Colnago (PSDB-ES), da Comissão de Seguridade Social e Família, realizada naquela mesma tarde.

Junto com a adição de sabores aos cigarros, outro fator que contribui fortemente para o aliciamento de novos consumidores é, obviamente, a propaganda. Apesar das crescentes restrições à publicidade tabagista, as campanhas continuam sendo veiculadas e cada vez mais voltadas para jovens e adolescentes. Um exemplo é a campanha TALVEZ MARLBORO, proibida pelo Procon em agosto deste ano por estimular o fumo na juventude ao associar o tabagismo a um estilo de vida independente e de liberdade. A Philip Morris, fabricante dos cigarros, foi multada em R$ 1,1 milhão. A medida foi resultado de uma representação feita pelo Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar), utilizando um relatório da ACTBr+ que traz uma minuciosa análise de discurso e semiótica da campanha. Além do estudo, a ACTBr+ também produziu uma contra-campanha sobre os riscos do hábito de fumar.

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Se no âmbito do consumo do tabaco os debates são amplos, na parte da produção o quadro não é menos complexo, especialmente considerando que o Brasil é o segundo maior produtor mundial e líder em exportações de fumo. Tal liderança é possível graças ao trabalho de mais de 160 mil famílias de agricultores que cultivam tabaco no país, sendo que mais de 90% delas estão na Região Sul. Num cenário de diminuição do consumo nacional e de crescimento de estoque internacionais, a promoção de alternativas econômicas para estes e outros trabalhadores da indústria tabagista constitui uma medida necessária tanto a curto quanto a longo prazo, integrando também a CQCT, no artigo 17. Este e outros temas, como as estratégias político-institucionais da indústria para defender seus interesses na produção, a situação desfavorecida dos agricultores na relação com as fumageiras e as iniciativas em diversificação produtiva do Ministério de Desenvolvimento Agrário e de ONGs nos três estados do Sul foram discutidos no painel A produção de tabaco no Brasil e a interferência da indústria, composto pelo coordenador-geral do Cepagro Charles Lamb, Amadeu Bonato (Deser-PR), Rita Surita (Capa-RS) e Christianne Belinzoni, do MDA.

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Amadeu Bonato: “Apesar de a relação dos agricultores com a indústria ser uma relação contratual, de compra e venda, supostamente de igualdade entre duas pessoas que assinam um contrato, na verdade é uma relação de força de um lado e fragilidade do outro. Esta fragilidade é propiciada exatamente pela integração, em que quem determina como tudo deve ser feito é a indústria. O agricultor é um mero instrumento na produção. É um punhado de empresas controlando mais de 160 mil famílias”.

O controle da cadeia produtiva pela indústria – que implica inclusive na manipulação dos preços do tabaco em folha – reforça a desigualdade da relação desta com os agricultores, de acordo com Amadeu Bonato. “A indústria vai para São Lourenço do Sul quando quer, e sai quando quer. Ela tem esta mobilidade nos territórios e nos países. Não é à toa que o Zimbabwe vem se destacando como produtor de fumo nos últimos anos, ou que esteja acontecendo um deslocamento da produção do fumo tipo Burley para o Malawi. A mesma Souza Cruz daqui está como British American Tobacco lá, a Philip Morris daqui é Philip Morris lá”, afirmou o representante do Deser, organização que está executando no Paraná a chamada de Assistência Técnica e Extensão Rural do Programa Nacional de Diversificação em Áreas Cultivadas com Tabaco. A fragilidade dos agricultores também é devida, segundo Bonato, ao declínio na produção de tabaco, tendência que poderá acentuar-se nos próximos anos. “Nos últimos 6 ou 7 anos a produção caiu em torno de 20 mil toneladas. Num total de quase 800 mil, parece pouco. Mas, do ponto de vista dos agricultores, são cerca de 5 mil produtores a menos”, completou. Neste sentido, ele afirmou a necessidade de pensar estratégias de diversificação produtiva também a curto prazo, voltada para os produtores que já estão sendo “cortados” da cadeia produtiva.

No contexto destas iniciativas, o coordenador do Cepagro Charles Lamb falou do Convênio do Cepagro com o Ministério Público de Santa Catarina para promover assistência técnica para fumicultores do Alto Vale do Rio Tijucas, que envolve não só aspectos da produção, como a promoção de práticas de manejo agroecológicas, mas também a inserção em canais de comercialização, como as compras públicas, as cooperativas locais e o Box 721 de Orgânicos da Ceasa/SC. Além disso, é feito também um trabalho de “questionamento da cadeia produtiva do tabaco e estímulo à organização e ao associativismo, buscando criar uma identidade comum entre os agricultores”, disse. Este contraponto passa também pela explicitação das conivências entre a indústria e as estruturas públicas, inclusive empresas de ATER.

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A apropriação do discurso da diversificação pela indústria fumageira foi levantada pelo coordenador do Cepagro Charles Lamb. Enquanto as entidades do setor afirmam que já estimulam esta prática há mais de 30 anos, a proposta é, na verdade, uma rotação de culturas para aproveitar a adubação residual do fumo, que continua sendo o principal cultivo.

Além dos ônus econômicos, a fumicultura também apresenta-se como uma atividade desgastante para a saúde do agricultor. Mesmo com as inovações técnicas que diminuiram o uso de agrotóxicos na produção, a colheita ainda demonstra-se intoxicante para diversas famílias, que sofrem com a Doença da Folha Verde do Tabaco, mais conhecida como “porre do fumo”. Causada pela absorção cutânea da nicotina, a doença manifesta-se principalmente com vômitos, náuseas, insônia, irritação e dores de cabeça. “Estes sintomas assemelham-se aos de outras doenças, o que dificulta o seu diagnóstico”, disse Silvana Turci, do Centro de Estudos sobre Tabaco e Saúde da Fundação Oswaldo Cruz. Após um estudo com fumicultoras do interior do Paraná, a Fundação recomendou a criação de um protocolo de atenção para atendimento médico dos trabalhadores afetados pela doença, para que ela não seja confundida com a intoxicação por agrotóxicos. “Estes agricultores têm um diferencial na sua atividade, que é a coleta do fumo, que causa sintomas conhecidos a curto prazo, mas a longo prazo pouco se sabe sobre os efeitos desta intoxicação”, acrescentou. Durante a pesquisa com as agricultoras, também ficou clara o desejo delas de diversificar cultivos e diminuir sua dependência da fumicultura e, consequentemente, da incidência da doença da folha verde do tabaco nas suas famílias.

Participando de ações de advocacy junto ao Governo Federal, epresentantes do Cepagro, do Centro de Apoio ao Pequeno Agricultor (Pelotas), do Deser (Curitiba), da Cooesperança (Santa Maria) e da Aliança de Controle do Tabagismo expuseram os diversos ônus sócio-ambientais e econômicos da produção de fumo no Brasil e as iniciativas em diversificação produtiva para contorná-los.

Participando de ações de advocacy junto ao Governo Federal, os coordenadores do Cepagro, do Centro de Apoio ao Pequeno Agricultor (Capa-RS), do Deser (Paraná), da Cooesperança (Santa Maria-RS) e da Aliança de Controle do Tabagismo participaram de reuniões com o Secretário-Geral das Relações Exteriores Eduardo dos Santos (foto), com o Chefe de Assessoria Internacional da Presidência da República Fabrício Araújo Prado e com o Coordenador Geral de Ações Internacionais de Combate à Fome do Ministério das Relações Exteriores Milton Rondó. Faltando um mês para a Conferência das Partes da Convenção-Quadro para Controle do Tabaco (COP-6), a equipe reforçou a importância da atuação destas instâncias governamentais na implementação dos artigos 17 e 18 do tratado.

Cepagro e parceiros levam a pauta da diversificação ao Ministério das Relações Exteriores

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Durante reunião com o Secretário-Geral das Relações Exteriores Eduardo dos Santos, representantes do Cepagro, do Centro de Apoio ao Pequeno Agricultor (Pelotas), do Deser (Curitiba), da Cooesperança (Santa Maria) e da Aliança de Controle do Tabagismo expuseram os diversos ônus sócio-ambientais e econômicos da produção de fumo no Brasil e as iniciativas em diversificação produtiva para contorná-los. A audiência aconteceu durante o VII Seminário Alianças Estratégicas para o Controle do Tabagismo, realizado em Brasília entre os dias 1 e 3 de setembro.

Faltando um mês para Conferência das Partes da Convenção-Quadro para o Controle do Tabaco (COP-6), que ocorrerá em Moscou, a equipe reforçou a importância da atuação do Ministério das Relações Exteriores na implementação dos artigos 17 e 18 do tratado, que dizem respeito às alternativas econômicas para os trabalhadores que dependem da indústria do fumo e às questões ambientais.

Com uma produção de mais de 700 mil toneladas de tabaco ao ano, o Brasil é o segundo maior produtor mundial de fumo e líder em exportações. Entretanto, num contexto de recrudescimento de políticas antitabagistas e de excesso de estoques nacionais e internacionais, a tendência da produção é cair, segundo Amadeu Bonato, do Deser. Neste cenário, “o Brasil é referência em diversificação produtiva para outros países”, afirmou o coordenador-geral do Cepagro, Charles Lamb, após apresentar para o Embaixador um rápido panorama da fumicultura em Santa Catarina e a atuação da entidade na assessoria a agricultores que querem deixar a atividade. Experiências paralelas no Paraná e no Rio Grande do Sul foram apresentadas por Bonato e por Rita Surita, do CAPA, e Begair Flores, da Cooesperança. Silvana Turci, do Centro de Estudos sobre Tabaco e Saúde da Fundação Oswaldo Cruz, esclareceu o Embaixador sobre a doença da folha verde do tabaco, enquanto Paula Johns, diretora-executiva da ACTBr, entregou um documento com o posicionamento da organização para a COP-6. Eduardo dos Santos agradeceu as informações dadas pela equipe, reforçando o compromisso do Ministério com a implementação da Convenção-Quadro.

“Globo Rural” com enfoque agroecológico

No programa do último domingo, 3 de agosto, o engenheiro agrônomo Marcos José de Abreu foi entrevistado sobre hortas em quintais. Na sua explanação, o coordenador do eixo urbano do Cepagro focou em práticas agroecológicas para o cultivo de hortaliças e legumes em casa, ressaltando, por exemplo, as relações entre as plantas, mais do que a competição.

Clique na figura abaixo para ver a íntegra da entrevista:

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Cepagro articula agricultores que desejam diversificar cultivos

Membros de dez famílias fumicultoras estiveram reunidos com a equipe técnica do Cepagro na última 5ª feira na comunidade de Barra Negra (Major Gercino) para a apresentação do projeto de Fomento à Assistência Técnica e Extensão Rural para Fumicultores visando à Transição Agroecológica que a organização vai implementar nos próximos dois anos em 100 propriedades do Alto Vale do Rio Tijucas. Durante o encontro, os fumicultores puderam conhecer também as frentes de atuação da entidade, as dinâmicas de grupo da Rede Ecovida de Agroecologia e os possíveis canais de comercialização para a produção de alimentos orgânicos. As ações do projeto serão viabilizadas através de recursos do Fundo para Reconstituição de Bens Lesados do Ministério Público de Santa Catarina. 

por Ana Carolina Dionísio

O coordenador do Cepagro Charles Lamb apresentou o histórico e os eixos de atuação da entidade nos âmbitos rural e urbano

O coordenador do Cepagro Charles Lamb apresentou o histórico e os eixos de atuação da entidade nos âmbitos rural e urbano, além dos diferentes canais de comercialização de alimentos agroecológicos

As estufas de secar fumo já fazem parte da paisagem da zona rural de municípios como Nova Trento, Major Gercino e Leoberto Leal, no Alto Vale do Rio Tijucas, há algumas décadas. Chegada ao redor dos anos 1960, a fumicultura é a atividade principal de centenas de famílias na região e de outras 47 mil em Santa Catarina. Este número, contudo, vem caindo nos últimos anos. Seja pela baixa rentabilidade ou por problemas de saúde decorrentes do uso de agrotóxicos, do contato com as folhas verdes do tabaco ou do excesso de esforço físico, cada vez mais agricultores têm optado por diversificar seus cultivos e gradualmente diminuir sua dependência em relação à fumicultura. É para assessorar estas famílias na transição para o cultivo de alimentos utilizando o manejo agroecológico que o Cepagro vem desenvolvendo desde 2006 ações no âmbito da Diversificação Produtiva em Áreas Cultivadas com Tabaco, sendo que a mais atual é o projeto de Fomento à Assistência Técnica e Extensão Rural para Fumicultores visando à Transição Agroecológica, com recursos do Fundo para Reconstituição de Bens Lesados do Ministério Público de Santa Catarina.

Um dos fumicultores que esteve na reunião da última 5ª é Leonísio José da Silva, de Major Gercino. “Se eu tivesse uma outra opção que me desse o mesmo rendimento, eu já teria largado o fumo”, disse o agricultor, que planta em média 42 mil pés de fumo e faz parte da 2ª geração da família na atividade: “Eu nasci debaixo de um pé de fumo. Trabalho desde os 9 anos na lavoura”, contou. A principal motivação de Leonísio para mudar é o intenso esforço físico demandado pela fumicultura. Mas, assim como outros agricultores presentes, ele demonstrava receio quanto à comercialização dos produtos. Isso porque a garantia de compra de produção, assegurada no contrato que os fumicultores assinam com as corporações do tabaco, é um dos principais fatores que os mantêm na atividade. “O fumo estando bom ou ruim a firma compra”, ressaltou a agricultora Jakeline Diel, também de Major Gercino.

A bióloga Marina Pinto traçou um panorama das cooperativas e organizações locais que podem ser acessadas pelos agricultores

A bióloga Marina Pinto traçou um panorama das cooperativas e organizações locais que podem ser acessadas pelos agricultores

Sabendo deste aspecto, os técnicos do Cepagro mostraram, além do histórico e eixos de trabalho da organização e da Rede Ecovida de Agroecologia, alguns dos canais de comercialização em que atua, como o Box 721 da Ceasa e o Circuito de Comercilização da Rede Ecovida. A bióloga Marina Pinto complementou o quadro falando sobre cooperativas locais que também poderiam ser acessadas pelos agricultores. “O projeto é importante também para entrar em contato com organizações que auxiliam a viabilizar alternativas”, avaliou a técnica. A articulação em rede e a promoção de intercâmbios e trocas de experiências promovidas pelas dinâmicas dos grupos de agroecologia representam, aliás, um contraponto à individualização que o trabalho dentro do sistema integrado de produção da fumicultura acarreta ao longo dos anos.

Outra forte demanda identificada no encontro é por insumos biológicos para a substituição de agrotóxicos. Neste sentido, três das cinco metas do projeto, explicadas pela agrônoma Gisa Garcia, são voltadas à formação técnica para o manejo agroecológico: realização de cursos e oficinas sobre conceitos teóricos e práticas agroecológicas; viagens de intercâmbio para trocas de saberes e a produção de materiais informativos para os agricultores. Também estão previstos seminários temáticos para mobilização de famílias, assim como o estabelecimento do plano de manejo para transição agroecológica das propriedades. Dentro deste último objetivo, já estão marcadas visitas para fazer o diagnóstico e iniciar o preenchimento do plano de manejo de cinco propriedades na localidade de Diamante, em Major Gercino.

Ex-fumicultores também participaram da reunião, como Ernande Stolarczk, que participa do Grupo Associada da Rede Ecovida de Agroecologia (Nova Trento) e Geovane Cognacco, que estimulou o pai a trocar o cultivo de quase 200 mil pés de fumo pela produção de alimentos em Leoberto Leal e hoje planta uva orgânica. Seu pai, Gilmar Cognacco, realiza semanalmente uma feira agroecológica em Brusque, além de fornecer produtos para o Box 721 da Ceasa. A presença de ambos foi importante para reforçar a viabilidade das alternativas à cultura do tabaco, além de aportar conhecimentos sobre o manejo agroecológico das propriedades. Como afirmou o coordenador do Cepagro, Charles Lamb: “Não tem mais mistério sobre a agroecologia. Mas não é uma solução milagrosa, que acontece de uma hora pra outra”, ressaltando que o processo de transição sempre é gradual, podendo levar de três a cinco anos.